sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025


PROJETO ORIGINAL DO LIVRO EM 2.000


TESE DE MESTRADO EM COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA EM 2002




Recebendo o parecer  final de três doutores da USP e Unicamp após a apresentação da tese de mestrado, em 2002, na Universidade Paulista-Campus Luiz Goes: Yolanda Lullier (USP), Ana Maria Balogh (Orientadora) e Adilson Ruiz (UNICAMP). Foto Ivan Almeida.





A primeira versão impressa, publicada em 2007 pela Editora Corifeu, foi feita em regime de demanda, na época uma  alternativa nascente e que estava se popularizando. A editora era de propriedade do escritor Albert Paul Dahoui, autor da série A Saga dos Capelinos. A escolha dessa editora foi motivada pelas sucessivas rejeições das editoras mais conhecidas, que não aceitavam alguns conteúdos considerados polêmicos pelo movimento espírita. O autor recebeu diversas proposta de publicação, todas impondo a retirada de temas e biografias consideradas por elas como não espíritas. A edição da Corifeu ajudou a popularizar o livro quebrando essa barreira ideológica e mercadológica das editoras que não queriam perder a reputação da identidade espírita. Com a morte de Dahui, o livro ficou órfão por algum tempo e só aparecia à venda em alguns sebos que arremataram os estoques da editora que desapareceu juntamente com o seu criador.  

O livro voltou então a ser disponibilizado em blog até ser descoberto pela Editora do Conhecimento. Essa editora passou a publicar também outras obras do autor, incluindo uma coleção do Evangelho Segundo o Espiritismo formatado para leitura diária. O livro já está na segunda edição. 


Capa da segunda edição impressa pela Editora do Conhecimento


NOVA HISTÓRIA DO ESPIRITISMO

DOS PRECURSORES DE KARDEC A CHICO XAVIER

DALMO DUQUE - Mestre em Comunicação e Cultura Midiática, Bacharel e Licenciado em História. Pedagogo.

EDIÇÃO ATUALIZADA: 2025


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 

O que deve ser a História do Espiritismo (Allan Kardec). 

Construindo uma História Espírita 


PRIMEIRA PARTE -CRONOLOGIA E CONTEXTOS – 1733 a 1869 

Livro I – O ENCONTRO DOS MUNDOS 

A Tradição e o Dogma - O Tráfico e a Traição - O Investigador - Mesas que giram e falam - As Inteligências do Além - O Medo da Morte. – A Iniciação e o Erro - Cinco Encontros “casuais”- Zéphyr e a Evocação de Sócrates- Contra o Totalitarismo- Apóstolos da Idéia - A Fúria do Clero - O Auto-de-fé de Barcelona - A Maçonaria - O Socialismo - As pedras vão falar - Mudanças à Vista - O perigo da clericalização - Evangélicos e Protestantes.

Livro II – UM SÉCULO PERIGOSO

A Cidade-Luz - Uma Época de Desencanto - Deus e o Super-Homem - O Declínio da Igreja - O Espiritismo banido da História.

Livro III - A RAZÃO E A BÍBLIA

A Palavra de Deus - O Terceiro Testamento - Os vivos e os mortos - O Espírito Verdade - A Identidade do Espírito - Espiritismo e Esoterismo - O Pentateuco Kardequiano - A Base Doutrinária: O Livro dos Espíritos - A Prova Científica: O Livro dos Médiuns – A Moral: O Evangelho segundo o Espiritismo - A Justiça Divina: O Céu e o Inferno - As Origens e o Destino: A Gênese.


SEGUNDA PARTE - CRONOLOGIA E CONTEXTOS -1870 a 2002

Livro IV – O MOVIMENTO ESPÍRITA  

Os Seis Períodos do Espiritismo - A “Revue Spirite” - A Sociedade Espírita de Paris- Quem eram os Espíritas – Estatística do Espiritismo - Da França ao Brasil - A Falange de Benoît-Jules Mure - João do Rio e a Federação - Semelhanças e Diferenças - Kardec “Espírito” se comunica - Os Puros e os Impuros - O problema do Sectarismo - Quem somos? Para onde vamos?


Livro V - OS APÓSTOLOS DO CRUZEIRO

 O Apóstolo de Sacramento - O Bandeirante do Espiritismo - O Médico dos Pobres - O Guia Ismael e a Trindade “Deus, Cristo e Caridade” – A Utopia do Esperanto. F.V. Lorenz e Getúlio Vargas. Anália Emília Franco. Carmine Mirabelli.


Livro VI – A ERA CHICO XAVIER 

Yvone do Amaral Pereira. Nos tempos do Comandante – Uma escola revolucinária – Existe uma pedagogia espírita? – Escola para Médiuns e Passes-Padrão - O Ideal de Fraternidade - Da FEESP à Aliança – A buca da Unificação e o Pacto Áureo– Herculano Pires e as Controvérsias Doutrinárias- Ramatis - Roustaing - Pietro Ubaldi – Canuto Abreu - O Apóstolo de Uberaba –Waldo Vieira e Divaldo Pereira Franco- O Espiritismo na TV e no Cinema- Wanda, Ivani e Vanucci- Um depoimento importante- Chico e Kardec.


Livro VII – O FUTURO DO ESPIRITISMO : DISSERTAÇÕES

O Meio e a Mensagem - O Triunfo de Tomé - A Fé Raciocinada - A Busca da Verdade – O Reconstrutor da Fé - Imagens e Palavras - Católicos, Protestantes e Espíritas - O Espiritismo e os cultos afro-indígenas.  Conceitos e Preconceitos. O Espiritismo e a Nova Humanidade – A Educação Social Espírita – Espiritismo e a Pós-Modernidade.  Em busca de Kardec Educador. A Dúvida Persiste.  As Escolas de Vingança e de Perdão. A Cultura Espírita. Incoerências do Movimento. A Degeneração do Espiritismo. Consolador em todos os aspectos. Atualizar ou atualizar-se? Quem se importa com o Espiritismo. 


RIVAIL E AMÉLIE: OS FUNDADORES DO ESPIRITISMO


O Prof. Rival e Amèlie Boudet  em retratos fotográficos entre 1857 e 1869 


O casal teve uma participação conjunta em todas as fases da construção Doutrina Espírita: as primeiras reuniões, a coleta e seleção de material  mediúnico cedido pelos artistas e intelectuais de Paris, a preparação editorial dos primeiros livros e da Revista Espírita, a fundação da Sociedade Parisense de Estudos Espíritas e os relatos das Viagens Espíritas. 

Após o desencarne de Rival, Amélie deu continuidade ao trabalho deles, incluindo o enfrentamento público ao inimigos e detratores da doutrina. Tomou  corajosamente à frente os depoimentos no famoso Processos dos Espíritas, defendendo os acusados e o trabalho realizado em conjunto com o seu companheiro e seus colaboradores.  

Filha única de Julien-Louis Boudet e  Julie-Louise Seigneat de Lacombe, Amélie Boudet era conhecida na intimidade familiar pelo diminutivo Gaby. 

O biógrafo  Henri Sausse relata que Amélie foi educadora com graduação de excelência, formada na Primeira Escola Normal Leiga, de orientação pestalozziana. Essa escola estava localizada no Boulevard Saint-Germain, em Paris, cidade onde viveu toda a sua vida. 

Foi poetisa e artista plástica, com domínio das técnicas tradicionais tendo sido também professora de Letras e Belas Artes. 

Como escritora, publicou: "Contos Primaveris" (1825), "Noções de Desenho" (1826) e "O Essencial em Belas Artes" (1828). 

Casou-se com em 9 de fevereiro de 1832 com o também educador  Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, que ficaria conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec. Rivail, nascido em Lyon, fez seus primeiros estudos na Suíça, na famosa escola de Jean Henri Pestalozzi, na qual tornou-se substituto do seus mestre. Em Paris, Rival dedicava a fazer projetos educacionais. Daí a sua afinidade com a professora Amélie Boudet, sua futura esposa. Foi Amélie, portanto, colaboradora permanentemente com os estudos e publicações do marido, tornando-se grande incentivadora do trabalho de Codificação e difusão do Espiritismo. 


Publicação de um projeto educacional de Rivail, de 1828, pela editora Dentu.


Com o falecimento de seu esposo, em 1869,  Amélie assumiu a liderança do movimento espírita , que naquele contexto já  era conhecido em quase  todos os continentes. 

Faleceu  em Paris em 21 de janeiro de 1883 e foi sepultada ao lado de seu esposo. Os despojos de Kadec (Rivail) haviam sido sepultados primeiramente no cemitério de Monte-Martre e depois transferidos para o Père-Lachaise.  O túmulo deles, edificado em típico formato arquitetônico druída, é um dos mais visitados dessa famosa necrópole.

Túmulo druída de Amélie-Gabrielle Boudet e Allan Kardec no Cimetière du Père Lachaise. A inscrição  "Naitre, mourir, renaitre encore et progresser sans cesse, telle est la loi"  pode ser traduzida como: "Nascer, morrer, então renascer e progredir sem cessar, tal é a lei".


UMA CARTA DE RIVAIL PARA AMÉLIE


Lyon, 20 de setembro de 1861.


Minha querida Amélie:

Escrevo-lhe de novo sob a impressão da emoção da jornada de ontem; são esses eventos que deixam marcas inesquecíveis na vida. Como lhe dizia, era o dia do banquete: havia mais de 160 pessoas, das quais muitas vieram me cumprimentar e abraçar; outras conseguiram falar comigo, e creio que estavam tão felizes como se houvessem falado com um rei; um pouco mais e teria alguém que tivesse ousado beijar a barra do meu casaco, tão grande era o seu entusiasmo.

Ponho-me a pensar se os discursos foram expressivos. O meu produziu uma sensação profunda, assim como o de Erasto, que todos aplaudiram e apreciaram com justiça!

(Fui forçado a interromper a minha carta e somente pude retomá-la hoje, sábado.)

Voltando ao banquete, era algo admirável e, ao mesmo tempo, comovedor: o delegado de Polícia, que ali fora convidado, chorou de emoção e apertou minhas mãos com efusão. Após os meus discursos, falei abundantemente durante quase três quartos de hora, sem preparativos, sem uma intenção premeditada e sem sentir-me – no mais mínimo – intimidado perante essa numerosa assembleia, formada também por uma assistência que veio especialmente de Mâcon e de outros lugares.

Ontem, sexta-feira, visitei Grupos em diferentes pontos da cidade, distantes uns dos outros em mais de uma légua; lá aconteceu a mesma acolhida, o mesmo entusiasmo. Falei desde as 10 e meia da manhã até as 9 horas da noite, excetuando a interrupção dos trajetos; voltei extenuado.

Esta manhã fui tomar um banho, o que me fez muito bem. Esta noite vou a outra reunião, porém, mais aristocrática, onde ainda terei muitas coisas a dizer.

Já não são mais por centenas que se contam os espíritas em Lyon, senão por milhares. Em toda parte há médiuns, e entre os que tenho visto existem muito bons. Em um dos Grupos encontrei um guarda municipal que é muito bom médium e muito bom espírita. Depois tinha um ferreiro, de grande constituição física, igualmente muito bom médium: homem sério, inteligente e que, entre os seus, inspira a numerosos adeptos; ele é o chefe de um Grupo em Vaise, e como eu não pude ir lá, ele veio cá – com vários confrades seus – a uma das reuniões na cidade. Em resumo, encontro aqui um progresso que estava longe de esperar e, o que há de particular, é que por todas partes se dedicam ao Espiritismo do ponto de vista sério. Todas as vezes que abordei o tema das experiências físicas, notei que isto interessava pouco; mas todos prestavam atenção quando eram tratadas as consequências morais e filosóficas. Minha viagem terá indiscutivelmente uma imensa repercussão e fará um grande bem, inclusive perante as autoridades. Só o partido negro pode estar horrivelmente contrariado!

Estive ocupado de tal modo que não tive tempo para visitar os meus conhecidos. Tinha a intenção de partir amanhã, domingo, mas como desejo ver ao Sr. e à Sra. Rigolet, irei à sua casa de campo, o que transfere minha partida para a segunda-feira. Chegarei a Paris na terça-feira ao meio-dia.

Teu muito amado,

HLDR.


O QUE DEVE SER A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO


“A propósito dessa história, sobre a qual dissemos algumas palavras, várias pessoas nos perguntaram o que compreenderia ela e, a propósito, nos enviaram diversos relatos de manifestações. Aos que pensaram assim trazer uma pedra ao edifício, agradecemos a intenção, mas diremos que se trata de algo mais sério que um catálogo de fenômenos espíritas, encontradiço em muitas obras.

Tendo que se destacar o Espiritismo nos fastos da humanidade, será interessante para as gerações futuras saber porque meios ter-se-á ele se estabelecido. Será, pois, a história das peripécias que tiverem assinalado os seus primeiros passos; das lutas que tiver enfrentado; dos entraves que lhe terão oposto; de sua marcha progressiva no mundo inteiro. O verdadeiro mérito é modesto e não busca fazer-se valer. É preciso que a humanidade conheça os nomes dos primeiros pioneiros da obra, daqueles cuja abnegação e devotamento merecerão ser inscritos em seus anais; das cidades que marcharam na vanguarda; dos que sofreram pela causa, a fim de que os abençoem; e dos que fizeram sofrer, a fim de que orem, para que sejam perdoados; numa palavra, de seus amigos dedicados e de seus inimigos confessos ou ocultos. É preciso que a intriga e a ambição não usurpem o lugar que lhes pertence, nem um reconhecimento e uma honra que lhes não são devidos. Se há Judas, devem ser desmascarados. Uma parte que não será menos importante é a das revelações que, seguidamente, anunciaram todas as fases dessa nova era e os acontecimentos de toda a ordem, que as acompanharam.

Aos que achassem a tarefa presunçosa, diremos que não temos outro mérito senão o de possuir, por nossa posição excepcional, documentos que não pertencem a ninguém e que estão ao abrigo de quaisquer eventualidades; que, incontestavelmente, estando o Espiritismo sendo chamado a desempenhar um grande papel na História, importa que seu papel não seja desnaturado, e opor uma história autêntica às histórias apócrifas que o interesse pessoal poderia fabricar.

Quando aparecerá ela? Não será tão cedo e talvez não em nossa encarnação, pois não se destina a satisfazer a curiosidade do momento. Se dela falamos por antecipação, é para que ninguém se equivoque quanto ao seu objetivo e seja anotada a nossa intenção. Aliás, o Espiritismo está em começo e muitas outras coisas terão passado até lá. Então, é preciso esperar que cada um tenha tomado o seu lugar, certo ou errado.”

Allan Kardec - Revista Espírita – ANO V, outubro de 1862



CONSTRUINDO UMA HISTÓRIA ESPÍRITA


Escrever uma história do Espiritismo implica remover alguns obstáculos que estão além da capacidade de síntese e conhecimento dos principais fatos da memória do movimento espírita.

Quando Allan Kardec publicou o texto “O que deve ser a história do Espiritismo”, ele nem imaginava que, ao invés de contribuir para o estabelecimento de diretrizes historiográficas, o seu inesquecível artigo da Revista Espírita causaria no futuro, entre os intelectuais espíritas, um enorme receio quanto à responsabilidade de assumir essa tarefa. Desencarnado, continuou tendo a mesma opinião acerca desses critérios, segundo indica o conteúdo da mensagem mediúnica inserida em Obras Póstumas por P.G. Leymarie, como complemento do texto “Os desertores”.

Por que tanto receio? É simples: a historiografia é essencialmente ideológica e isso faz com que todos os trabalhos sejam suspeitos quanto à imagem tradicional e idealizada de neutralidade científica que deveria ter o historiador. E aqueles que se dispõem a produzir tal conhecimento acabam tornando-se referências e paradigmas, sejam como modelos ou como alvos de críticas, ainda que de natureza filosófica.

Conan Doyle, por exemplo, procurou ser imparcial e concentrou-se no aspecto fenomenal, a fase primitiva do movimento, colocando Kardec e a filosofia espírita num segundo plano. Não cometeu nenhum erro, mas simplesmente seguiu uma tendência de sua época, bastante atingida pelo ceticismo e pelo etnocentrismo cultural europeu e britânico. Seu grande mérito foi o pioneirismo e até hoje, após 80 anos, sua obra continua sendo uma grande referência, como foi anotado por seu tradutor brasileiro, Júlio Abreu filho: “Pode-se dizer que é a única História do Espiritismo surgida até agora. Fora dela o que apareceu até aqui não passa de estudo limitado no tempo e no espaço e que, de formal alguma pode emparelhar-se com o presente volume, onde, além da história descritiva, se encontra, realmente, muito da filosofia da história do Espiritismo”.

Canuto Abreu produziu textos interessantíssimos sobre as raízes da doutrina e do Codificador e, a partir disso, gerou-se uma grande expectativa sobre suas descobertas documentais, realizadas antes da II Grande Guerra, na sua famosa visita a Maison des Spirites. Da propaganda da sua vasta pesquisa permaneceu no ar a curiosidade pelas revelações históricas e a promessa de uma síntese. Seu trabalho biográfico sobre Bezerra de Menezes tinha, na verdade, a clara intenção de contar a história do movimento espírita brasileiro, mas recebeu dele mesmo apenas o tímido status de “subsídios”.

J. Herculano Pires - outra grande esperança – vasculhou quase tudo a respeito da doutrina, a ponto de ser definido pelo Espírito Emmanuel como “o melhor metro que mediu Kardec”. Sua introdução histórica em “O Espírito e o Tempo” e “Curso Dinâmico de Espiritismo”, bem como outros inúmeros textos sobre o assunto, embora de grande valor referencial, permanecem soltos e dispersos, carentes de uma unidade. Ele tinha condições intelectuais de sobra para realizar essa empreitada, mas receava, possivelmente, por não se considerar um “especialista”, estar se precipitando no tempo e ser mal interpretado pelos próprios companheiros de ideal.

Também as inúmeras biografias e cronologias sobre os grandes vultos e acontecimentos espíritas, igualmente valiosas como fontes, não conseguiram preencher essa lacuna. São reportagens curiosas, ricas em fatos, porém, falta nelas a literatura do especialista, o texto do autêntico historiador, do “métier”, conhecedor do ambiente acadêmico e iniciado no espírito da “filosofia da história”. São essas marcas que geralmente encontramos nas grandes obras do gênero e nas múltiplas tendências da historiografia, porém ainda ausentes na produção espírita.

Allan Kardec, pela sua magnífica inteligência, ampla formação cultural e também pela sua experiência na manipulação seletiva de fontes, embora não freqüentando os bancos de um curso de História, possuía forte potencial para o ofício de historiador. Mas, no caso dele, era preciso realmente continuar sendo cauteloso, pois na sua época ainda circulava nos meios intelectuais a obra influente de Michelet e fazia grande sucesso o estilo demolidor de Ernest Renan e dos seus pares da Alta Crítica da Bíblia. Sem dúvida, o grande legado de Kardec permaneceu guardado nas páginas da sua “Revista Espírita”, principal fonte da memória dos primeiros períodos do Espiritismo.

Este tem sido o tratamento que vem sendo dado à história do Espiritismo: muitas promessas, algumas tentativas, incontáveis ensaios, o medo persistente de assumir essa grande responsabilidade de satisfazer as expectativas deixadas pelo Codificador e o olhar atento dos críticos e dos inimigos da Verdade.

Com certeza, não tratamos aqui de tudo o que representa o universo do Espiritismo e do seu movimento social, nem conseguimos responder plenamente todas as questões que o assunto levanta. Seguindo o exemplo dos nossos antecessores, fornecemos somente mais alguns “subsídios” para entendermos as origens e os rumos que o movimento espírita vem tomando.

Tanto o leitor espírita quanto o não iniciado vão perceber que muitas informações citadas são da esfera do conhecimento revelado, combinado com as chamadas informações científicas, que são de maior facilidade de comprovação material. Não temos essa pretensão científica, nem tal interesse, porque muito já foi escrito e comprovado nesse setor, restando apenas o problema ideológico da aceitação pessoal ou não dos fatos. A revelação é, portanto, não somente um problema de caráter lógico, de ciência, mas também de foro íntimo e psicológico. A pesquisa histórica é uma atividade essencialmente científica, mas a historiografia vai além dos instrumentos técnicos da coleta de informações e da organização de dados; ela é a síntese do conhecimento histórico e sua elaboração ocorre sob o efeito intelecto-emocional da expressão literária. A pesquisa é o meio e a historiografia é o fim; a pesquisa é a técnica e o método de acesso seguro, pelos documentos, aos portais da memória; a historiografia é a arte narrar essas revelações do tempo passado. Não foi por outro motivo que os gregos atribuíam aos historiadores a tarefa de imortalizar os fatos, os heróis e seus atos, sob a proteção e inspiração da titã Mnemósine e da sua filha Clio.

Outra característica que leitor vai perceber também é uma grande quantidade de citações (algumas muito extensas), em todos os capítulos. São documentos[1] que dão melhor autenticidade aos fatos narrados e facilitam a comparação das idéias. Mesmo assim, apresentamos um texto mais objetivo e didático; e nas entrelinhas, o enfoque idealizado da doutrina como marcas pessoais do autor. Como se sabe, não existe historiografia e historiadores totalmente imparciais e neutros, daí a ênfase em alguns assuntos e personagens que falam mais alto e esta forma de entender e praticar essas idéias.

Conhecemos as virtudes da obra, que são as virtudes dos fatos e dos personagens, porém desconhecemos muitos dos seus defeitos, que certamente são os nossos. Assim, as opiniões e críticas serão sempre contribuições enriquecedoras, mesmo porque este trabalho continuará sempre em processo de construção, como a própria história do Espiritismo.

Dalmo Duque dos Santos


[1] Este não é um trabalho historiográfico tradicional, de estilo positivista ou marxista, cuja rigidez narrativa quase sempre se atém nas fontes documentais ou na interpretação materialista e sócio-econômica dos fenômenos. Muitos dos documentos que utilizamos são na sua maioria de conhecimento revelado; mesmo assim, não perdem o seu valor, ainda que cultural e de mentalidades, para aqueles que não aceitam os princípios espíritas, sobretudo a sobrevivência e a comunicação da alma após a morte.


PARIS NO SÉCULO XIX



Charles Marville (francês, 1813-1879) 'Topo da rue Champlain, vista para a direita (vigésimo arrondissement)' 1877-1878


CRONOLOGIA E CONTEXTOS  1733 a 1869


1733 – Nasce na Áustria Franz Anton Mesmer, pioneiro das experiências de magnetismo.

1744 – Em Londres, o sueco Emmanuel Swedenborg tem suas primeiras visões do mundo espiritual, descritas em várias de suas obras.

1746 – Nasce na Suiça o educador Johann Heinrich Pestalozzi, mestre de Allan Kardec.

1761 – Em Dibbelsdorf, Alemanha, na casa do Sr. Kettelhut, surge as primeiras manifestações de Espíritos batedores.

1775 – Nasce na Alemanha Christian Friedrich Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia.

1788 – Numa reunião de aristocratas em Paris o médium Jacques Cazotte realiza suas fatídicas premonições sobre os destinos dos convidados nas tragédias da Revolução Francesa.

1792 – Em pleno período do Terror, Jacques Cazotte é executado na guilhotina.

1795 – O Conde Alessandro Cagliostro, médium clarividente, torna-se a última vítima de pena de morte pela Inquisição, depois de uma longa agitada trajetória na Corte de Luís XVI. Nasce, em 23 de novembro, Amélie Gabrielle Boudet, a futura esposa e colaboradora de Allan Kardec.

1802 – Nasce na França o romancista Victor Hugo.

1804 – Nasce no dia 3 de outubro, na cidade de Lyon, Hippolyte Léon Denizard Rivail. No registro de nascimento consta a data do calendário criado pela Revolução Francesa: 12 do “vindemiário” do ano XIII. No mesmo ano, Napoleão Bonaparte é sagrado imperador pelo papa Pio VII.

1805 – Napoleão decreta o Bloqueio Continental. Chateaubriand publica Atala e René, dando sequência aos temas do cristianismo católico: Atala (1801) e O Gênio do Cristianismo (1802). É criado em Yverdon, na Suíça, o instituto educacional de Johann Heinrich Pestalozzi (1746- 1729).

1806 – Hegel publica Fenomenologia do Espírito. 

1808 – O filósofo Johann Gottlieb Fichte declara em um de seus discursos: “Do Instituto de Pestalozzi espero a  salvação da Alemanha”. Obedecendo às pressões inglesas e aos efeitos da expansão napoleônica, a família real portuguesa desembarca no Brasil. D. João VI decreta a abertura dos portos às nações amigas. Era o início do longo processo de Independência do Brasil.

1809 – Lamarck elabora a primeira teoria sobre a evolução das espécies. Chateaubriand publica Os Mártires. Nasce em Lyon Benoît-Jules Mure.

1810 – Nasce em Varsóvia o compositor Frédéric Chopin. É criada a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

1814 – Aos dez anos de idade, Rivail é transferido para Suíça, em Yverdon, para completar seus estudos no famoso Instituto de Johann Heinrich Pestalozzi . Derrotado um ano antes em Leipzig, Napoleão abdica e é exilado na Ilha de Elba.

1815 – O Congresso de Viena reorganiza o mapa político da Europa e cria uma nova Ordem Mundial. Rivail é admitido como aluno no Instituto Pestalozzi.

1818 – Rivail diploma-se com notável formação intelectual, incluindo o domínio de vários idiomas.

1819 – Rivail atua como professor assistente em Yverdon. Nasce José Maria Fernandez Colavida, futuro tradutor das obras de Kardec na Espanha.

1820 – Rivail interessa-se pelas pesquisas de Mesmer sobre magnetismo animal. 

1821 – D. João VI retorna para Portugal e jura uma Constituição Liberal.

1822 – Joseph Nicéphore inventa a fotografia. Nasce na França o químico e microbiologista Louis Pasteur. D. Pedro I declara a Independência do Brasil e torna-se imperador.

1823 – Já vivendo em Paris, aos 18 anos, Rivail publica seu primeiro trabalho pedagógico: Curso Prático e Teórico de Aritmética. D.Pedro I inicia seus conflitos com a elite brasileira através da “Noite da Agonia”.

1824 – D. Pedro I outorga a primeira e mais duradoura Constituição Brasileira, cujas marcas são o Poder Moderador e o Padroado sobre a Igreja Católica.

1825 – Nasce, no Rio de Janeiro, D. Pedro II. Rivail funda em Paris a sua “École de Premier Degré”. Nasce na Bahia Luiz Olímpio Telles de Menezes.

1826 – Em Prevost, Alemanha, a médium Sra. Hauffe começa a ser estudada pelo Dr. Kerner. Nasce em Blooming Grove, EUA, o médium Andrew Jackson Davis e na França o editor Pierre Gaëtan Leymarie.

1827 – Desencarna o compositor alemão Ludwig Van Beethoven, o mais influente do século.

1828 – Rivail apresenta o “Plano de Aperfeiçoamento de Instrução Pública”.

1830 – Carlos X decreta as ordenações de julho e uma revolução liberal provoca a morte de duas mil pessoas em Paris. Carlos X abdica e Luís Felipe sobe ao trono da França. Stendhal escreve O Vermelho e o Negro. Nasce nos EUA a poetisa Emily Dickinson. Comte inicia a publicação do Curso de Filosofia Positiva.

1831 – Rivail publica Gramática Francesa Clássica e também é premiado pela Academia Real d’Arras. D. Pedro I abdica do trono do Brasil e retorna para Portugal. Tem início o conturbado Período Regencial. Nasce no Brasil, em Riacho do Sangue, Ceará, Adolfo Bezerra de Menezes. Na Escócia o pastor Edward Irving registra em sua igreja um surto mediúnico onde os adeptos falam diversas línguas, semelhante ao episódio do Pentecostes.

1832 – Rivail casa-se com Amélie Gabrielle Boudet. Nasce na Inglaterra o físico-químico William Crookes. O papa Gregório XVI publica a encíclica Mirari vos, contra o Liberalismo. Benoît Mure interessa-se pela homeopatia ao ler L´Organon.

1833 – Nasce na Inglaterra o médium Daniel Douglas Home.

1834 – Nasce em Sergipe o médium e escritor espírita Francisco Leite Bittencourt Sampaio. 

1835 – Nasce, em Verona, na Itália, o médico e antropologista César Lombroso. Nasce na Espanha Amália Domingo Y Soler. Na Província do Pará estoura a Cabanagem. Na Bahia eclode a Sabinada e Rio Grande do Sul a rebelião separatista dos Farrapos. Rivail fecha seu estabelecimento de ensino e passa a trabalhar como contador e tradutor. Nasce Frederico Augusto da Silva, fundador da Federação Espírita do Rio Grande do Sul.

1837 – Na Califórnia, EUA, um grupo da seita shakers é abordado por Espíritos indígenas “peles-vermelhas”, que se manifestariam durante sete anos pela mediunidade dos adeptos. Tem início a Era Vitoriana, período que marcará o apogeu do Império Britânico. Nessa época se destacam as descobertas de Michael Faraday sobre eletricidade e eletromagnetismo. Charles Dickens publica Oliver Twist. Nasce na Bahia o pioneiro espírita Júlio César Leal.

1838 – Explode no Maranhão a rebelião da Balaiada, com ampla participação das camadas populares. 

1839 – Nasce em Águas Santas, Portugal, Antônio Gonçalves da Silva (Batuíra). Nasce nos EUA o médium Erastus Davenport. Nasce na Inglaterra o pastor protestante e pesquisador espírita Stainton Moses. Mure, Jahr e Croserio fundam o Instituto Homeopático da França.

1840 – Benoît Mure inicia no Brasil a propaganda da Homeopatia com o slogan “Deus, Cristo e Caridade”. D. Pedro II é sagrado e coroado imperador do Brasil. Na França a sonâmbula Adèle Maginot, sob a orientação de Affonse Cahagnet, obtém diversas comunicações com Espíritos.

1841 – Benoît Mure converte para a homeopatia o médico José de Gama e Castro. Tem início os preparativos da colonização do Falanstério do Saí. 

1842 – Nasce na França o astrônomo Camille Flammarion, “o poeta dos céus”. Nasce nos EUA o médium Henry Davenport.

1843 – Nasce na Inglaterra o pesquisador Frederic William Myers. Desencarna em Paris Samuel Hanhnemann.

1844 – Andrew Jacson Davis relata suas primeiras experiências mediúnicas e prenuncia os fenômenos de Hydesville. Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá) publica Pensamentos e Reflexões, obra brasileira precursora da filosofia espírita. Samuel Finley Breese Morse instala o primeiro telégrafo elétrico nos EUA. Nasce o pesquisador espiritualista britânico Sir Willian Barret. Benoît Mure funda a Escola Homeopática do Rio de Janeiro.

1845 – O “Bill Aberdeen” inglês passa a reprimir o tráfico internacional de escravos. No distrito de Mata de São João foram registradas oficialmente as primeiras manifestações espíritas no Brasil. O cirurgião Vicente João Martins realiza em si próprio experiências de envenenamento e cura pela homeopatia.

1846 – Rivail publica o Manual dos Exames para Obtenção dos Diplomas de Capacidades. Nasce em Lorenz o escritor Léon Denis. Dostoievski estréia na literatura com o romance Pobres diabos.

1847 – É instituído o sistema parlamentarista no Brasil. Nos EUA Andrew Jackson Davis recebe em transe “The Principles of Nature, her Divine Revelation”, predizendo o nascimento do Espiritismo.

1848 – Rivail publica o Catecismo Gramatical da Língua Francesa. São registrados em Hydesville, nos EUA, os primeiros fenômenos espíritas na residência de uma família metodista, os Fox. É também o ano da revolução: Karl Marx e Friedrich Engels publicam o “Manifesto Comunista”. Luís Felipe abdica e a França forma a Segunda República. Benoît Mure deixa o Brasil para difundir a homeopatia na África.

1849 – Rivail torna-se professor no Liceu Polimático, lecionando nas cadeiras de Fisiologia, Astronomia, Química e Física. Publica Ditados Normais dos Exames na Municipalidade e na Sorbonne e Ditados Especiais sobre as Dificuldades Ortográficas. Fizeau descobre a velocidade da luz. Em Rochester, EUA, as irmãs Kate e Margareth Fox realizam no “Corinthian Hall” as primeiras demonstrações públicas dos fenômenos espíritas. Benoît Mure publica Patogenesia Brasileira e Doutrina da Escola Homeopática do Rio de Janeiro.

1850 - Manifesta-se nos EUA o médium Daniel Dunglas Home, causando grande impacto social. A lei Eusébio de Queirós proíbe o tráfico de escravos para o Brasil. Nasce em Paris Charles Richet. Chateaubriand publica Memórias de Além-Túmulo. Nasce o pioneiro espírita Aristides de Souza Spínola.

1851 – Napoleão III torna-se imperador da França. Nos EUA, o juiz materialista John Worth Edmonds admite publicamente a sua convicção sobre os fenômenos espíritas. Nasce na Inglaterra o pesquisador espiritualista Sir Oliver Lodge. Benoît Mure planeja uma nova colônia socialista no Sudão.

1852 – É publicado nos EUA o primeiro jornal espiritualista do mundo: o “Spiritual Telegraph”. Comte publica o Catecismo Positivista. Na Alemanha um Espírito-batedor manifesta-se na casa do alfaiate Peter Sanger, em Berzabarn.

1853 – Os fenômenos das mesas-girantes tornam-se coqueluche em Paris. Giuseppe Verdi lança a ópera “La Traviatta”. No Ceará o Barão de Vasconcellos realiza em sua casa experiências psíquicas com as mesas. No Rio de Janeiro e em Salvador fundam-se os primeiros grupos de estudos de fenômenos “espíritas”, com a participação, na Corte, do Marquês de Olinda e do Visconde de Uberaba. Os bispos de Orleãs e Viviers anunciam a inclusão das obras espíritas no Index católico. Nasce no Rio de Janeiro Francisco de Menezes Dias da Cruz, médico e futuro presidente da FEB. Nasce o pioneiro e militante da FEB, Pedro Richard.

1854 – Rivail encontra-se com o Sr. Fortier, que lhe fala da “dança das mesas-inteligentes”. O Rio de Janeiro recebe a iluminação a gás. Nos EUA organiza-se uma sociedade para a difusão dos fenômenos espíritas, lideradas pelo juiz Edmonds e pelo governador Tallmadge, de Wisconsin. É fundado em Nova York o jornal “The Christian Spiritualist”. 

1855 – Rivail participa, na residência da Sra. Plainemaison, das primeiras experiências com as “mesas-girantes”. Recebe de um grupo de pesquisadores 50 cadernos, contendo registros de comunicações mediúnicas. No mesmo ano entra em contato com seu Espírito protetor que lhe revela uma existência em comum entre os druidas gauleses com o nome de Allan Kardec. O químico Robert Hare publica nos EUA Experimental Investigation of the Spirit Manfestation.

1856 – Na residência do Sr. Baudin entra em contato com o Espírito de Verdade, que lhe adverte sobre um erro nos seus escritos. Na residência do Sr. Roustan, através da médium Mlle. Japhet recebeu pela primeira vez a revelação de sua missão. O Santo Ofício condena a prática das mesas girantes. Nasce, em Rezende, Rio de Janeiro, Anália Emília Franco. Nasce na Áustria Sigmund Freud. Nasce Gabriel Delanne, militante espírita desde a infância.

1857 – É publicada, no dia 18 de abril, a primeira edição de O Livro dos Espíritos. Auguste Comte desencarna em Paris. Nasce Joaquim Antonio de São Tiago, pioneiro espírita em Santa Catarina. Rudolf Virchow publica na Alemanha Patologia Celular. Louis Pasteur publica em Paris Mémoire sur la fermentation applèe lactique. A França e a Inglaterra invadem a China, na corrida neocolonialista. Gustave Flaubert publica Madame Bovary, sendo processado por ofensa à moral pública e religiosa. 

1858 – Início da publicação da “Revista Espírita”. É fundada, no dia 1º de abril, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em Ouro Preto é publicado o jornal “A Caridade”. Benoît Mure desencarna no Cairo.

1859 – Kardec inicia as suas primeiras viagens de propaganda em Sens, Mácon, Lyon e Saint-Etienne. Nasce na Inglaterra o escritor e historiador Arthur Conan Doyle. Charles Darwin publica a sua teoria da Seleção Natural das Espécies. Nasce em Paris o filósofo Henri Bergson.

1860 – Surge no Brasil a primeira publicação espírita impressa no Brasil: “Lês temps sont arrivés” patrocinadas pelo professor Cassimir Lieutaud. 

1861 – É publicado O Livro dos Médiuns. Na Espanha acontece a execução do Auto-de Fé de Barcelona, com a queima de um lote de várias obras espíritas encomendadas por Maurice Lachâtre.

1862 – Em sete semanas de viagens, Kardec percorre dezenas de lugares e discursa em 50 reuniões, em 20 cidades. Victor Hugo publica Os Miseráveis. Spencer publica sua teoria evolucionista. Nasce em Portugal o ativista e médium curador Inácio Bittencourt.

1863 – Ernest Renan publica A Vida de Jesus. Andrew Jackson Davis funda em Nova York o “Liceu Espiritualista”, baseado num modelo de escola visto no Plano Espiritual. Surge o primeiro núcleo precursor das futuras mocidades espíritas. O presidente Lincoln realiza sessões espíritas na Casa Branca.

1864 – É publicado O Evangelho segundo o Espiritismo. O papa Pio IX publica a Encíclica Quanta Cura, acompanhada da Syllabus, contra os 80 erros modernos. Os livros da Codificação são incluídos na lista proibitória da Sagrada Congregação do Index. Tolstoi publica Guerra e Paz.

1865 – Publicação de O Céu e o Inferno. Mendel lança sua teoria sobre a hereditariedade. O Dr. Luís Olímpio Telles de Menezes publica, no “Diário da Bahia”, réplica de um artigo desfavorável ao Espiritismo transcrito por aquele jornal da “Gazzette Médicale”. Nasce em Mato Grosso o marechal pacifista Cândido Mariano Rondon. Maurice Lachâtre lança Novo Dicionário Universal com a análise de mais de 400 mil obras, contendo também todos os termos do vocabulário espírita, redigidos por Allan Kardec. Em 17 de setembro, na Bahia, é dada oficialmente nos moldes kardecistas a primeira comunicação Espírita no Brasil, no Grupo Familiar do Espiritismo. Desencarna o editor e livreiro Pierre-Paul Didier.

1866 – Fatigado e já enfermo Kardec é aconselhado pelos Espíritos a se poupar.

1867 – Kardec organiza coletas a favor dos desempregados e vítimas de catástrofes ou convulsões sociais. Marx lança o primeiro volume de O Capital. Bezerra de Menezes torna-se deputado na Assembléia Geral do Império.

1868 – É publicada A Gênese. Kardec escreve seu “Testamento Filosófico”. Nasce no Rio de Janeiro Cairbar de Souza Schutel.

1869 – Allan Kardec desencarna, em 31 de março, aos 65 anos, vítima da ruptura natural de um aneurisma. Pio IX convoca o Concílio Vaticano II e promulga o dogma da infalibilidade papal e da Igreja. Nasce na Índia o Mahatma Gandhi. É publicado na Bahia o primeiro periódico espírita brasileiro: “Eco de Além-Túmulo”.


Livro I - O ENCONTRO DE MUNDOS

“O caráter essencial de qualquer revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo, é fazer conhecido um fato; se é falso, não é mais um fato e, por conseqüência, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos deixa de o ser; se é atribuída a Deus, Deus não podendo mentir nem enganar-se, ela não pode emanar dele; deve ser considerada como um produto da concepção humana” 

– Allan Kardec – A Gênese.


Em 1938 o jovem norte-americano Orson Welles, de apenas 23 anos, provocou pânico em milhares de ouvintes de um programa de rádio em Nova York ao anunciar a invasão da Terra por seres de outros planetas. A simulação foi tão realista e de tamanha repercussão que o governo dos EUA teve que rever sua política de divulgação de informações para o público. O autor da proeza, um talentoso diretor que se tornaria uma lenda do Cinema em Hollywood, tinha usado uma estratégia criativa para chamar a atenção da opinião pública, usando a probabilidade do planeta vir a ser invadido por seres extraterrestres. Se houve pânico é porque a idéia de uma invasão interplanetária não seria tão absurda, embora já fosse largamente explorada pela ficção científica. Mas a ficção científica nem sempre foi sinônimo de absurdo. Quem leu Júlio Verne, e todas as gerações de escritores que o sucederam, sabe que a maioria das suas criações “imaginárias” acabou se tornando realidade.

A estratégia de Welles realmente foi muito criativa, funcionou como fenômeno de audiência e opinião, mas não foi tão inédita como geralmente é divulgada atualmente. Noventa anos antes, em 1848, a população do pequeno povoado de Desvele, próximo a Rochester, no Estado de Nova York, não entrou em pânico, mas teve uma reação de espanto incomum por causa da invasão de seres de outros mundos. A notícia logo se espalhou por toda a região tomando conta do país e do resto do planeta. Mais tarde percebeu-se que era também uma estratégia de comunicação para chamar a atenção da Sociedade. Aquela ampla região já era conhecida como o Distrito Inflamado (Burned-over District), pela efervescência de surtos de religiosidade e ardor social, com o aparecimento de seitas, movimentos radicais e eventos sobrenaturais. Diferente dos seres anunciados por Welles, os do povoado de Hydesville não eram fictícios; não tinham aparência esdrúxula como as que o escritor H. G. Wells havia descrito na sua ficção “A Guerra dos Mundos”, da qual Orson Welles havia extraído o conteúdo assustador do seu programa radiofônico. Os seres, como os de Hydesville, eram ainda mais assustadores do que os que foram anunciados no rádio, sobretudo porque eram invisíveis aos olhos comuns; manifestavam-se através de pancadas nas paredes e se comunicavam através de toques rudimentares, raps, mais tarde transformados em linguagem alfabética. O fenômeno de comunicação de Orson Welles durou poucos minutos e suas conseqüências de longo prazo seriam apenas de valor estético para os aficionados em técnicas de comunicação. Já o fenômeno de Hydesville duraria semanas sucessivas e dali se espalharia, em sincronia, para outros continentes, gerando efeitos que foram muito mais além das questões técnicas e estéticas.

Os seres de Hydesville eram Espíritos, seres inteligentes que estavam invadindo a terra com a clara intenção de causar espanto e curiosidade. A estratégia deles era mexer com a imaginação popular, causar um choque no senso comum das pessoas e sacudir toda a estrutura de conhecimentos teológicos e científicos dominantes no mundo contemporâneo. Para tanto, apelaram para o impacto dos fenômenos paranormais. Novidade? Não! Isso já havia acontecido no passado em outros eventos históricos de grande repercussão como este. Em 1744, o sueco Emmanuel Swedenborg fez, em Londres, alguns relatos muitos claros sobre suas experiências como mundo invisível:


“Uma noite o mundo dos Espíritos, céu e inferno, se abriu para mim, e nele encontrei várias pessoas conhecidas, em diferentes condições. Desde então o Senhor abria diariamente os olhos do meu espírito para que eu visse, em perfeito estado de vigília, o que se passava no outro mundo, e pudesse conversar, em plena consciência, com os anjos e os espíritos.”


Na Alemanha, em 1829, o famoso humanista Dr. Justinos Kerner já havia tornado pública suas experiências psíquicas com a célebre vidente de Prevorst, a Sra. Frederico Hauffe. Em 1831, na Escócia, o pastor Edward Irving registrou em sua igreja um fenômeno semelhante ao episódio bíblico do Pentecostes, no qual os adeptos falavam simultaneamente idiomas desconhecidos entre eles. Também na Alemanha, em 1840, o médium Gotlieben-Dittus chamou a atenção da imprensa para os curiosos fenômenos físicos que produzia. No Brasil os médicos homeopatas Benoît-Mure, francês, e João Vicente Martins, português, praticavam a cura com todas as características do mediunismo. Na própria França, onde tais eventos tomariam rumos filosóficos manifestaram-se na categoria de importantes precursores os sensitivos Cagliostro e Jacques Cazzote, no final do século XVIII, Charles-Louis, médium clarividente (1839-1840), Adèle Maginot, notável sonâmbula orientada por Alfonse Cahagnet, em 1847. Na Califórnia, em 1837, um grupo de protestantes ingleses ali estabelecido, a Sociedade Unida dos Crentes no Segundo Advento do Cristo, apelidado de “shakers” (os que se agitavam numa dança coletiva), passou a ser abordado por Espíritos de índios pele-vermelha, que se manifestavam através dos próprios colonos e eram por estes “evangelizados”, num processo de intercâmbio e doutrinação que futuramente se tornaria muito comum nos centros espíritas. Esses fenômenos foram relatados em detalhes por Sir Arthur Conan Doyle[1], que os chamou apropriadamente de “invasão organizada”. Após sete anos consecutivos de intercâmbios, os Espíritos peles-vermelhas disseram que iriam se retirar, mas que voltariam numa invasão maior, em todo o mundo. Quatro anos depois, a principal testemunha desses acontecimentos, o pastor shaker Elder Evans, soube dos fenômenos de Hydesville e para lá se dirigiu com a intenção confirmar em público a veracidade do que estava acontecendo. Doyle lembra também que outro fato curioso estabeleceu a ligação entre esses fenômenos: Andrew Jackson Davis, um conhecido médium norte-americano, em seis de março de 1844, foi desdobrado do corpo físico e levado às montanhas de Catskill, a quarenta milhas de distância de sua casa, e ali se encontrou com os Espíritos do médico grego Galeno e de Emmanuel Swedenborg. Quatro anos mais tarde escreveria uma nota profética no seu diário, em 31 de março de 1848, a mesma data dos eventos na residência da família Fox:


“Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz suave e forte dizer: ‘Irmão, um bom trabalho foi começado. Olha, surgiu uma demonstração viva!’ - fiquei pensando o que queria dizer essa mensagem”.


Comparando esses acontecimentos com alguns relatos do Velho e do Novo Testamento, o filósofo J. Herculano Pires[2] observa que esses eventos precursores possuíam uma curiosa unidade histórica e tiveram a mesma conotação dos episódios proféticos relatados na Bíblia. Nesse novo contexto Swedenborg e Irving fizeram o papel dos profetas; os Espíritos peles-vermelhas, entre os shakers, e o Senhor Perneta, de Hydesville, foram os preparadores do terreno, e que Andrew Jackson Davis representou o próprio João Batista, ao anunciarem a revelação da promessa de Jesus e da qual o próprio Espírito Verdade seria o principal portador. O encontro espiritual de Davis com Galeno e Swedenborg seria uma nova versão alegórica do episódio mediúnico e simbólico ocorrido no Monte Tabor, no qual Jesus, o Messias, aparece ao lado do profeta Elias e de Moisés. Mas existiu uma diferença essencial entre os precursores e os reveladores: entre João Batista (Elias reencarnado) e Jesus (O Messias), o próprio João reconheceu que não era digno nem de amarrar as suas sandálias. Portanto, reconhecia a superioridade e a autoridade de Jesus no tocante à revelação que iria ser feita. Entre os dois ficou marcante uma diferença de postura e conduta: um era radical e provocador, tanto que causou e se envolveu num incidente no qual resgatou uma dívida cármica; o outro era humilde, pacífico e totalmente desprovido de preconceitos; seria incapaz de acusar Herodes e sua companheira de adultério, assim como João talvez fosse incapaz de aceitar a condição de Maria Madalena. Assim, Swedenborg, Davis e outros, embora precursores de idéias importantes, não tiveram uma conduta científica capaz de neutralizar qualquer suspeita de interferência pessoal nesse processo histórico, como faria Allan Kardec, recusando-se a ser visto como autor, profeta, chefe, enfim, qualquer postura que revelasse personalismo na sua missão. Kardec apresentou-se e manteve-se o tempo todo como um simples investigador. Essa conduta seria de grande importância para garantir a universalidade dos ensinamentos dos Espíritos, pois o próprio líder deles também preferiu o anonimato para realçar a importância das idéias e identificou-se como “A Verdade”.

Herculano Pires[3] faz uma outra curiosa analogia entre o advento do Espiritismo e as revelações anteriores para explicar o jogo dialético na luta mortal entre o velho e o novo. Diz ele que a matança lendária de crianças, ordenada por Herodes, simboliza a tentativa dialética de eliminar o Cristianismo ainda na sua infância, impedindo sua disseminação social. Fato semelhante aconteceu com o Espiritismo, cujo massacre decretado pelo clero e pelos corifeus das academias científicas, atingiu a fragilidade mediúnica das irmãs Fox. As médiuns Caroline e Julie Baudin só não foram massacradas porque Kardec as protegeu com o anonimato, até que as obras fundamentais da Codificação tivessem vindo seguramente a público.

O ponto de partida dos Espíritos foi abalar a tranqüilidade de uma pequena família de religiosos metodistas em Hydesville e disso extrair um modelo psico-social de influência mais abrangente. O raciocínio deles era simples e também já havia sido aplicado em outros tempos, em eventos históricos do mesmo porte: os acontecimentos anteriores dariam aos novos fatos um clima assustador e impactante, mas não um aspecto irracional e aterrorizador; um pequeno núcleo familiar, que é a representação reduzida do macrocosmo da família humana universal, serve como espelho daquilo que deve ser imitado pelo exemplo. O resultado seria infalível. A partir daquela inesquecível noite de 31 de março de 1848, os pacatos Fox não seriam mais os mesmos. Suas tranqüilas noites de sono seriam perturbadas insistentemente por inteligências invisíveis, que pretendiam esclarecer alguma coisa que permanecia há anos sem explicação.

Algum tempo depois a cidade de Paris, na França, o então centro cultural do mundo, passaria por uma nova febre de costumes passageiros: as pessoas se reuniriam com muita euforia para se comunicar com Espíritos através de pequenas mesas que levitavam, giravam e batiam no chão, sem a interferência direta dos participantes das curiosas reuniões. Todas as leis da física e da lógica natural estavam sendo aparentemente contrariadas.

Como em Hydesville, os seres de outro mundo que invadiram Paris e centenas de cidades do mundo também queriam chamar a atenção para diversos assuntos pendentes há séculos, no campo do conhecimento filosófico e religioso. Cidadãos sérios da sociedade parisiense, que acabaram sendo atraídos sem maiores preocupações do que apenas observar aquelas brincadeiras inofensivas, aos poucos perceberam que elas eram na verdade um meio para se atingir fins totalmente diferentes daqueles que a maioria dos brincalhões imaginavam ter.

Assim como a família Fox perdeu para sempre sua tranqüilidade, passando a ver o mundo de uma forma bem diferente das demais famílias norte-americanas, a opinião pública também não seria mais a mesma após as constatações de que um grupo de pesquisadores faria sobre o significado de todos aqueles acontecimentos. As repercussões entre as pessoas foram extremamente diversificadas, de acordo com a capacidade de percepção e reação psicológica dos espectadores.

As conseqüências do contato com esses fenômenos é que transformariam as reações lógicas em reações psicológicas dos mais variados tipos e gostos. Enquanto uns se chocavam outros apenas ficam intrigados; enquanto uns se entregavam às novas experiências outros fugiam apavorados com aquilo que não podiam conceber como fato consumado e racional. Outros tantos perceberam o que estava por trás de tudo aquilo e trataram logo de se organizarem para cuidar dos interesses que seriam inevitavelmente ameaçados. Outros ainda, com a mesma percepção, porém com intenções mais honestas, trataram de rever alguns conceitos pessoais para melhorar sua capacidade de entendimento e compreensão sobre tudo o que estava acontecendo. Surgiram também aqueles que, vendo a possibilidade de exploração de interesses menos dignos, transformariam os fenômenos em espetáculo de lucro fácil e sempre superficial. Parece que já ouvimos também essa história, em algum lugar, sobre abusos de dons naturais com a intenção de ludibriar os incautos de boa fé.

Como ficou bem claro, público e notório, essa invasão de inteligências extraterrestres não era produto do acaso, nem da imaginação de ficcionistas. Havia algo de novo no ar. Não estava começando uma nova guerra, mas um verdadeiro encontro de mundos.


A TRADIÇÃO E O DOGMA

Os teólogos cristãos da Europa Ocidental, sobretudo os católicos, estão atualmente muito preocupados com o futuro da Religião. A imprensa do Ocidente noticia que, neste início do século XXI, as catedrais européias estão cada vez mais vazias de fiéis e cheias de turistas interessados em arte sacra e arquitetura gótica. As estatísticas são assustadoras nos países onde o Catolicismo e o Protestantismo fizeram história nos últimos dois mil anos.

Mas a preocupação desses especialistas nas relações Homem-Divindade, em suas diversas concepções teóricas e ritualísticas, não é bem com a religião em si, como prática puramente antropológica, e sim com a instituição religiosa na sua dimensão política e social. As pessoas estão realmente abandonando os cultos formais das igrejas, mas não estão deixando de lado a religiosidade, nem se tornando ateus. A religiosidade judaico-cristã na Europa continua estável desde o fim da 2ª Guerra Mundial, embora cada vez menos significativa do que nos séculos anteriores: apenas a metade da população acredita em Deus. Talvez no passado as pessoas fossem mais materialistas do que são hoje; só que esse fato antigamente era mascarado pela presença institucional da religião nos Estados autoritários. Hoje, um número cada vez menor de pessoas é pressionado no sentido de assumirem publicamente uma opção religiosa. Geralmente isso ainda acontece em pequenas comunidades, onde ainda existe o controle e a possibilidade de sanções morais e represálias sociais; ou então em países de religiões fundamentalistas e radicais, onde não há um reconhecimento formal da privacidade. Na Europa a maioria não freqüenta cultos religiosos, todavia ainda mantém estreitos laços filosóficos com o Cristianismo, principalmente através das manifestações culturais artísticas. Grande parte da população de ateus também se dedica a pratica de valores humanistas, como a solidariedade e a caridade, típicos da ética cristã. Disso se conclui que o problema não é essencialmente religioso, mas institucional. O tempo ensinou que a vivência individual pode existir separada das instituições. Tudo indica que o sentido original da palavra Igreja – espiritual e interiorizado – empregado pelos cristãos primitivos está sendo resgatado na sua forma mais simples, desprovido de rituais e cerimônias, mas puramente de confraternização. Os sociólogos tentam dar explicações racionais sobre o problema, alegando vários motivos como a estabilidade financeira e a educação racionalista da cultura científica industrial.

O que realmente pesa nessa análise é o desinteresse pela formalidade dos rituais sacerdotais e dogmas teológicos. Esta não é também uma descoberta tão atual quanto se pensa. A História não se repete como pensam os que desconhecem suas tramas estruturais. É que os problemas que não são solucionados costumam voltar exibindo as mesmas características do passado. Em meados do século XIX a Europa estava passando por uma situação muito semelhante no campo das ideologias. Instalou-se um verdadeiro duelo de morte entre o Materialismo e o Espiritualismo. Os materialistas levavam uma grande vantagem, pois tinham como suporte o então poderoso braço da ciência positiva e evolucionista, e os espiritualistas só contavam com os dogmas das Igrejas ou então com obscuras e confusas teorias esotéricas.

Mesmo depois de ter publicado um conjunto de cinco obras que pretendiam esclarecer em detalhes os equívocos dessa discussão extremista, e ainda muito atraído por esse debate, Allan Kardec propõe um desafio a todas às mentes que se consumiam nesse dilema. Percebendo que as todas as polêmicas estavam concentradas fundamentalmente no problema da vida futura ou na sobrevivência da alma após a morte, o já conhecido filósofo francês resolveu colocar todas elas numa só tese de comparação. Era a teoria das “Cinco Alternativas da Humanidade” [4], resumidas nas doutrinas mais influentes naquele contexto: o Materialismo, o Panteísmo, o Deísmo, o Dogmatismo e finalmente o Espiritismo. Para cada uma delas Kardec deu uma sintética definição causal e, em seguida, as suas conseqüências. No Materialismo detectou os efeitos sociais desastrosos da sua propagação, como a degeneração moral, a decadência das artes, das ciências, enfim, da civilização e sua destruição, resultante da predominância da lei do mais forte. Observando a influência materialista nas artes e sua incapacidade de vislumbrar o transcendente, Kardec comenta: “Quando nada se vê atrás nem adiante e nem acima, em que pensar senão naquilo que nos rodeia?” Faz ainda uma curiosa observação sobre um traço comum do materialista: “O que admira encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna é o seu espírito de intolerância sem limites, eles que constantemente reivindicam o direito de liberdade de consciência!”.

Sobre o Panteísmo, o Codificador do Espiritismo simplesmente não compreende como alguém pode atingir o conhecimento e a perfeição para depois perder todos os seus esforços, juntamente com o desaparecimento da sua individualidade.

Para definir o Deísmo, Kardec distingue dois tipos de crentes: os “independentes”, que orgulhosamente vêem Deus como uma entidade fria e não admitem sua interferência no destino individual dos seres; e os “providenciais”, que admitem um Deus constantemente ligado à Criação, interferindo e regulando a evolução; cultuam a adoração interior através da prece, porém não aceitam o culto dogmático e exterior.

Mas é para o Dogmatismo que Kardec elabora a lista mais complexa de conseqüências. A idéia rígida e maniqueísta de pecados e virtudes, de céu e inferno, anjos e demônios, de salvação e condenação predestinadas, é reflexo do sistema de privilégios sociais dos Estados absolutistas, nos quais se apoiaram historicamente as religiões dogmáticas. Elas reproduziram nas suas teologias aquilo que se concebeu nas contradições daqueles grupos socialmente desequilibrados e injustos. Para Kardec elas deixam, portanto, sem solução problemas muitos incômodos na mente do homem racional moderno:


“1º - De onde vem as disposições inatas, intelectuais e morais, que fazem os homens nascerem bons ou maus, inteligentes e idiotas”?

2º - Qual o segredo do destino das crianças que morrem em tenra idade? Por que alcançam a bem-aventurança sem o trabalho ao qual os outros estão sujeitos por longos anos? Por que são recompensadas sem ter podido fazer o bem, ou são privadas de uma felicidade completa, se não fizeram o mal?

3º - Qual o destino dos loucos e dos idiotas que não têm consciência de seus atos?

4º - Nas desgraças e doenças de nascença, onde está justiça, se não são conseqüências de nenhum ato da vida presente?

5º - Qual o destino dos selvagens e de todos os que morrem obrigatoriamente no estado de inferioridade moral em que os colocou a Natureza, se não vão ter oportunidade de progredir ulteriormente?

6º - Por que criou Deus alguns mais bem dotados que outros?

7º - Por que chamou Ele a si, prematuramente, criaturas que teriam podido aperfeiçoar-se, se tivessem vivido por mais tempo, já que, depois da morte, não poderão mais progredir?

8º - Por que Deus criou anjos que conseguiram o estado de perfeição sem o menor trabalho, ao passo que outras criaturas são submetidas às mais duras provas, nas quais têm muito mais probabilidades de sucumbir que de sair vitoriosa? “etc. etc.”


Com essas perguntas desafiadoras, Allan Kardec estava demolindo ou reconstruindo a fé e a religiosidade?

Demolidor é aquele que destrói sem piedade, sem a possibilidade de reação. Mesmo em se tratando de religião, a idéia de um “demolidor” não era estranha, pois os textos bíblicos são repletos de exemplos simbólicos de lutas violentas no terreno ideológico: Sansão e Dalila, Daniel e os leões, Davi e Golias, Jesus e os vendedores do templo.

Enfim, Allan Kardec surgiu como um desses personagens históricos antigos, mas carregando armas e bagagens modernas na sua luta ideológica. Os dogmas são os inimigos gigantes, porém vulneráveis em alguns pontos e aparentemente inatingíveis. Eles são os Golias, os Satãs, os leões, enfim, os interesses comerciais e políticos disfarçados nas tradições e rituais de comportamento; apresentam-se como forças insuperáveis e aterradoras, porém estruturadas sobre “pés de barro”. Ao contrário do que normalmente pensamos, eles não estão somente relacionados à religião, mas também à estrutura acadêmico-científica, que é também essencialmente sacerdotal, eclesiástica e institucional; sustentam de um lado o domínio místico-religioso do clero e, do outro lado, o domínio gerado pelo aparato científico-materialista, ambos respeitados, ou temidos, pela sociedade.

Quando os Espíritos recomendam que os espíritas difundam o novo dogma da reencarnação logo percebemos que existem duas formas de dogmas: a de origem grega, filosófica e racional, que significa “opinião”, e aquela que foi sendo incorporada à religião, e que tomou um sentido ideológico e doutrinário, geralmente na interpretação dos textos sagrados. O dogma religioso é de crença, fechado, restrito e fundamentado em revelação religiosa inquestionável; o dogma filosófico e de razão é produto de uma estruturação racional dinâmica em que há possibilidade de questionamento, sendo submetido constantemente à análise do raciocínio. O nascimento de Jesus de uma virgem é um dogma de fé e não pode ser submetido aos questionamentos científicos da Biologia, pois isso significaria um dano irreversível para a sua essência; já a reencarnação é um dogma filosófico e pode ser questionado sem prejuízo da sua essência racional; a oposição entre a Biologia e o milagre representa um choque de ideias incompatíveis; a oposição entre os dogmas da “ressurreição” e “reencarnação” não são totalmente incompatíveis, sendo apenas uma questão de ponto de vista ou também de linguagem[5]. Ao demolir dogmas, Allan Kardec o faria no seu sentido religioso, propondo dogmas filosóficos, deixando de lado as crenças, que são vulneráveis, para reconstruir a fé, sustentada agora em princípios racionais e positivos.

Nos primeiros anos do século XX, o escritor francês Léon Denis[6], o mais destacado discípulo de Allan Kardec, já comentava em uma de suas obras que a crise das religiões “não era ordem estética, mas de ordem lógica”. Segundo ele, a estética religiosa fez maravilhas no Espírito humano com suas obras-primas em todos os domínios da arte sacra, mas tornaram-se prisioneiras dos dogmas, estando fadadas a copiarem-se a si mesmas ou desaparecerem. E concluía assim o seu raciocínio:


“Esta imobilidade, esta inflexibilidade dos dogmas priva a Religião, que a si mesma impõe, de todos os benefícios do movimento social e da evolução do pensamento. Considerando-se como a única crença boa e verdadeira, chega ao ponto de proscrever tudo o que está fora dela e empareda-se assim numa tumba para dentro da qual quisera arrastar consigo a vida intelectual e o gênio das raças humanas”.


Essa visão não tinha nem um pouco de antecipação profética do que está acontecendo hoje neste início do século XXI, mas uma realidade que vinha se concretizando desde o século XVIII, quando os filósofos iluministas declararam guerra ao clero e à religião absolutista. Na metade do século seguinte, novos demolidores entraram em cena para arrasar, não somente a religião dogmática, mas também a fé. Eram os novos seguidores de Voltaire, cheios de ódio e desejo de vingança contra todas as perseguições que haviam sofrido durante os séculos de desmandos clericais.

As reflexões de Léon Denis tinham suas raízes numa outra perspectiva religiosa, bem diferente do materialismo destruidor e da teologia dogmática, predominantes naquela época. Denis era um seguidor convicto do seu mestre, que se chamava na verdade Hippolyte Léon Denizard Rivail. Como ele mesmo escreveu, trazia gravado no próprio nome a identidade do seu mestre, mais do que isso, uma soma de conhecimentos codificados em um novo Pentateuco e que iriam colocar em equilíbrio essas duas posturas extremistas da fé e da racionalidade. Num dos trechos mais curiosos da sua obra ele evoca o Espírito de Rivail e clama pelo estabelecimento de uma nova forma de se lidar com o transcendental e de relacionar-se com os mistérios da Divindade:


“Não mais Dogmas! Não mais mistérios! Abramos o entendimento a todos os sopros do espírito, bebamos em todas as fontes do passado e do presente. Digamos que em todas as doutrinas há parcelas de verdade; nenhuma, porém, a encerra completamente, porque a verdade, em sua plenitude, é mais vasta do que o Espírito humano”.


O TRÁFICO E A TRAIÇÃO


A comunicação com Deus e com as chamadas forças sobrenaturais sempre foi uma das necessidades mais espontâneas da vida mental humana. Esse sentimento de vazio existencial tem sido a marca principal do esforço que fazemos para nos relacionarmos com o Criador. Do mais selvagem até o mais sofisticado dos seres humanos, todos nós possuímos um traço comum: trazemos no psiquismo aquilo que a simbologia espiritual denominou de “pecado original” ou “complexo de Adão”. Expulsos do Paraíso da inocência, da simplicidade e da ignorância, e condenados a viver longe do ambiente divino pelo “suor do próprio rosto” (leia-se livre-arbítrio), buscamos preencher esse lapso de distância espiritual e ansiedade para compreender a Criação e suas leis, praticando uma lista interminável de cultos que acreditamos nos reaproximar da fonte na qual fomos gerados. Nas concepções espiritualistas contemporâneas, como, por exemplo, a ubaldista e a armondiana, tudo isso seria uma marca divina original, talvez deixada em nós como herança de uma descida vibratória espiritual, do plano da Criação para o plano da Manifestação, no momento em que fomos lançados para evoluir no plano da matéria. Desde as mais primitivas experiências de religiosidade totêmicas até os cultos filosóficos mais sofisticados, essa é uma necessidade incontida de falar com Deus e com os deuses, de saber quem somos, de onde viemos e principalmente para onde vamos.

Em resumo, isso tem sido aquilo que as sociedades humanas vêm chamando de “religião” e “religiosidade”, um conjunto de atitudes voltadas para a solução de problemas relacionados ao ser e ao destino, transformados em práticas ritualísticas, cultos e fórmulas. Nelas tentamos compreender e aceitar os paradoxos que envolvem a vida e a morte, estabelecendo um emaranhado de conjecturas quase sempre eclipsadas pelas superstições, crendices e adoção de hábitos e práticas exteriores. Sempre tivemos medo de buscar respostas em nosso mundo interior, porque, diferente do mundo dos sentidos físicos, o universo íntimo é ameaçador e tremendamente enigmático. Quanto maior o medo que sentimos de caminhar nesse terreno delicado, que para nós ainda é a escuridão psicológica e subjetiva do mundo espiritual, maior é o apego aos fenômenos exteriores e palpáveis da claridade artificial, lógica e objetiva do mundo material.

Dessa relação terra-a-terra que procuramos estabelecer com o Criador surgiu também o costume de associar Deus com a nossa imagem e semelhança exterior e a religião com as relações ritualísticas de poder entre os humanos e os sobre-humanos. Era o reflexo de uma época em que o caos social reinava sobre o planeta e o surgimento da ordem pela força e pela violência do Estado teve uma conotação ideológica fortemente religiosa e dogmática. Tudo o que não poderia ser explicado racionalmente, tudo que representava contradição e dúvida, foi sendo automaticamente transportado para o terreno da crença formalizada, enfim, do dogma.

Foi assim que a interpretação da realidade tornou-se religiosa e dogmática; foi assim que surgiu no mundo uma poderosa camada social que soube combinar duas coisas muito influentes na vida humana: religião e política. Essa camada social é o clero, um grupo de especialistas na interpretação do mundo e dos seus fenômenos, antes que a Ciência desse a sua opinião sobre as causas e os efeitos que regem a Natureza. Como Deus foi naturalmente identificado como Causa Primeira de todas as coisas, o clero logo se apressou em interpretá-lo segundo seus interesses de grupo, que eram também os interesses do Estado. Nascia o monopólio da interpretação da realidade, das verdades espirituais e da comunicação com Deus.

Se Deus também se mostrou naturalmente misterioso, enigmático aos nossos sentidos e limites de inteligência, o clero também se apressou em dar explicações baseadas em teses muito tendenciosas sobre o caráter da Divindade e da relação que os homens deveriam ter com ela. Isso era a garantia da perpetuação dos poderes clerical e político. Foi assim que aconteceu no Egito, na Mesopotâmia, na Índia, na Grécia, na China, na Palestina e também em Roma. Nascia, assim, a “tradição”, conceito que trouxe atrelado consigo duas expressões da mesma raiz: tráfico e traição. É o costume de cultivar a religião sob o jugo do medo e da força; é o império dos dogmas. Mistérios, enigmas, símbolos e rituais serão seus principais instrumentos ideológicos; eles exploram profundamente a incerteza, a imaginação e, ao mesmo tempo, reforçam os laços de autoridade vertical entre os sacerdotes e o povo.

Nada pode ser interpretado fora das convenções estabelecidas pelos dogmas; somente os especialistas sacerdotais são capazes de solucionar tais problemas, porque somente eles têm autoridade, somente eles podem praticar os sacramentos, somente eles são infalíveis e detentores das fórmulas e técnicas ritualísticas; eles compreendem os mistérios, decifram enigmas, interpretam os símbolos, transformando-os em coisas compreensíveis ao senso comum. Tudo o que estiver fora desse contexto é “heresia”, é crime religioso e também crime político contra a ordem social e o Estado Teocrático. Heresia, segundo os gregos, é tudo aquilo que está relacionado à autonomia pessoal, de pensamento, sentimento, de expressão e de ação.

Esse foi o aparato sacralizado e totalitário que as instituições religiosas construíram em torno da religião e da religiosidade, e que no Ocidente se manifestou, por força do Império Romano, através da Igreja Católica. Foram séculos de poder e de abusos que transformaram a fé numa palavra gasta e a religião em alvo de descrédito. Mesmo quando se tratava de homens que atuavam no próprio meio católico, caso dessem rumos diferentes aos propósitos institucionais da Igreja, eram severamente punidos com a morte, incluindo alguns papas. A lista é enorme e muitos deles, não bastando a humilhação da morte, tiveram sua memória usurpada para realimentar a indústria lucrativa da canonização. A Igreja primeiro matava o corpo físico, para depois ressuscitar o mesmo cadáver que lhe fora hostil, na forma de mito santificado, num perverso processo de inversão de valores religiosos. Foi assim que surgiu a herege e depois Santa Joana d’Árc, Teresa d’Ávila, Francisco de Assis e tantos outros personagens que se rebelaram contra a Igreja e depois foram transformados, como punição útil, em produtos do sinistro marketing da fé dogmática.

Essa foi a tradição estabelecida em toda a Europa, com o apoio maciço dos Estados absolutistas, o qual vem perdurando desde a Idade Média às custas da ignorância, do medo e também da incredulidade que, contraditoriamente, convivem na sociedade contemporânea, em pleno século XXI. Seria possível mudar esse cenário de escravidão mental e de exploração da boa-fé humana e enfrentar um poder estabelecido sob a ameaça, a coação, a mentira e a traição? Como reagir a tudo isso sem deixar para trás marcas que poderiam ser perversamente aproveitadas pela própria instituição contestada? Como demolir esse velho edifício de falsas tradições, cuja imagem de solidez e confiança sempre esteve comprometida em suas estruturas de simples aparências?


O INVESTIGADOR

A missão de Allan Kardec foi, essencialmente, um trabalho de comunicação, no aspecto técnico-científico, e muito acentuadamente no aspecto ideológico. Nos seus escritos encontramos sempre a preocupação com o formato da informação a ser transmitida, com a linguagem, com a mídia a ser utilizada, com o público-alvo, bem como as repercussões e retorno dessas informações, das quais se autodenominava, não um autor, mas um portador e membro de uma equipe.

No aspecto técnico percebe-se, claramente, não só sua habilidade de comunicador, herdada da Pedagogia, mostrando sempre um impecável ordenamento na organização e distribuição didática dos temas, mas também a sagacidade de um investigador a desvendar os paradigmas de uma nova Ciência, cuja base filosófica, de conseqüências morais, deve ser informada de maneira adequada para a cética Sociedade do seu tempo e do futuro. Aqui aparece o aspecto ideológico.

Ao tomar contato com os fenômenos espíritas, o Professor Rivail logo percebeu suas várias nuances e os múltiplos rumos que esses acontecimentos poderiam tomar. Enquanto a maioria das pessoas reparava apenas no aspecto supérfluo dos fenômenos “sobrenaturais” que se manifestavam, Rivail tratou de olhar essas manifestações primeiramente sob o prisma da curiosidade científica, pois era esta não só a sua formação intelectual, mas também um importante traço do seu caráter: “Só acreditarei vendo e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar e nervos para sentir...”

Poderíamos afirmar que Rivail já revelava em si algo do Apóstolo Tomé, que tinha desconfiança, porém, sem preconceito. Como simples fenômenos, estes acontecimentos poderiam cair na rotina das diversões circenses e da magia vulgar; e isso certamente aconteceria, sobretudo pela ingenuidade, pela ignorância e principalmente pela carência moral da maioria dos médiuns e do público espectador. Até hoje o médium ainda é visto como o veículo de contato fácil com o “sobrenatural”, e essa relação de poder e misticismo raramente não se direciona para um meio de vida lucrativo, que passa a comprometer a espontaneidade e a qualidade das suas habilidades. Nesse ponto, o professor Rivail teve que tomar cuidados extremos, pois a credibilidade das suas pesquisas e das suas teses dependia, em grande parte, dos médiuns e das suas faculdades; seu objeto de estudo era o Espírito e o mundo espiritual, e a mediunidade o seu método e sua principal ferramenta de pesquisa. Qualquer mistificação ou incoerência de informações comprometeria todo o trabalho de verificação e comprovação científicas dos fenômenos.

Outro aspecto logo identificado por Rivail nesses fatos foi o filosófico. Ali estava algo que desafiava o materialismo e a crise existencial que assaltavam a sociedade européia da Era Industrial. Enquanto uma multidão se entregava ao extremo da descrença e do desencanto, no outro extremo um grupo significativo se perdia nos laços confusos do esoterismo vulgar ou no fanatismo religioso, o mesmo que decretaria o dogma da infalibilidade papal.

O hábito natural e filosófico de fazer perguntas do tipo “quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?” conduz para o materialismo ou para o deísmo; a indiferença seria uma indecisão. Se inteligências se manifestam e se identificam como seres humanos que já viveram na Terra e revelam a existência de planos de vida que ampliam e superam a visão mitológica das religiões tradicionais, isto terá como conseqüência uma mudança de comportamento, seja para a negação, seja para a indiferença, seja para a crença. Isso preocupou de tal forma o nosso professor que ele não queria que essa nova Ciência fosse encarada como mais um rótulo religioso, julgada pelo preconceito religioso ou ainda pelo preconceito contra os religiosos.

Mas, à medida que as manifestações foram acontecendo e os contatos se aprofundando, através de múltiplas formas de questionamentos, percebe-se que os Espíritos também querem falar filosoficamente de Religião, querem romper preconceitos e reafirmar conceitos perdidos na Antiguidade oriental e clássica. Os Espíritos não estão interessados apenas em brincar de levantar mesas e dar pancadas nas paredes, para assustar os humanos supersticiosos; querem não só falar de fenômenos, mas também chamar a atenção para outros aspectos da vida e se reportarem a assuntos que consideram essenciais para tocar na ferida da crise existencial pela qual passa o Homem. Para tanto, vão estabelecer e transmitir simultaneamente a combinação integrada de importantes conceitos doutrinários, que serão a espinha dorsal da revelação Espírita: a Existência do Espírito, a Sobrevivência da Alma após a morte do corpo físico, a Pluralidade das Existências ou Reencarnação, a Diversidade de Mundos, a Comunicação pela Mediunidade entre Espíritos encarnados e desencarnados e entre Mundos, a Lei de Causa e Efeito e a Evolução Progressiva dos Seres e das Formas. Esses conhecimentos formam uma síntese das principais informações espirituais reveladas no conjunto de todos os milênios da experiência humana, em vários momentos e diferentes contextos históricos, agora reunidos numa ordenação filosófica e científica. O alvo dessa mensagem é o Homem Contemporâneo, pós-moderno, cético e altamente influenciado pelo materialismo. Mas também é direcionada a uma parte da Humanidade ainda sensível aos valores transcendentais. Era necessário, então, organizar todas as informações possíveis para propor uma tese atraente e intrigante; problematizar todos os dados em forma de antíteses atrevidas e desafiadoras e depois elaborar conclusões lógicas sobre as mesmas. A idéia era chegar a uma síntese segura e irrecusável, que poderia ser traduzida com o seguinte raciocínio do Codificador: “Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.”

As proposições doutrinárias dos Espíritos Superiores vão funcionar não só como um desafio ao ceticismo do mundo científico convencional, mas também como um novo alicerce na reconstrução da religiosidade, fortemente abalada pelos ataques do materialismo e pela fraqueza das tradições dogmáticas. Esta era uma revelação mais simplificada e objetiva do que as anteriores, do ponto de vista intelectual, porém igualmente complexa no aspecto moral. Seu caráter científico deveria garantir que ela não seria confundida como uma nova religião institucionalizada, já que este era um assunto muito desgastado e sem crédito no século XIX.

Em comunicação direta a Rivail[7], no dia 12 de junho de 1856, os Espíritos falam abertamente de suas intenções e da responsabilidade daquele que foi escolhido por eles para agir como instrumento intelectual encarnado. Ele não aceita, ainda, essa tarefa como característica de uma missão pessoal e questiona o Espírito Verdade se, realmente, é disso que se trata. A mensagem foi comentada em uma nota somente dez anos e meio depois de recebida, em 1867, e nela o Codificador constata todas as previsões feitas pelo Espírito comunicante.

Pergunta – “Bom Espírito, eu desejaria saber o que pensais da missão que me foi designada por alguns Espíritos”. Peço-vos que me digais se foi uma prova para o meu amor-próprio. Tenho, sem dúvida, como sabeis, o maior desejo de contribuir para a propagação da Verdade, mas, do papel de simples obreiro para o de missionário-chefe, a distância é grande. E não posso ver como justificar, para mim, um favor dessa espécie, preterindo tantos outros que possuem talento e qualidades que não possuo.

Resposta – Confirmo o que te foi dito, mas aconselho-te a maior discrição, se queres ser bem-sucedido. Saberás, mais tarde, coisas que te explicarão o que hoje te surpreendem. Não te esqueças de que tanto poderás ter sucesso, como fracassar. Neste último caso, outro te substituiria, porque os desígnios de Deus não podem depender da cabeça de um Homem. Por isso, nunca fales de tua missão, seria um meio de fazê-la malograr. Ela não pode ser justificada, senão depois de a obra concluída, e tu ainda nada fizeste. Se conseguires realizá-la, os homens, cedo ou tarde, saberão reconhecê-lo, porque é pelos frutos que se conhece a qualidade da árvore.

P - Certamente não tenho a menor vontade de tirar partido de uma missão, na qual mal posso acreditar. Se estou destinado a servir de instrumento para os desígnios da Providência, que ela de mim disponha. Neste caso, reclamo vossa assistência e a dos Bons Espíritos, para que me auxiliem e me sustentem em minha tarefa.

R - Nossa assistência não te será negada, mas será inútil se, de tua parte, não fizeres o que for necessário. Tens teu livre-arbítrio. Cabe a ti usá-lo como entenderes. Homem algum é fatalmente constrangido a fazer alguma coisa.

P - Quais as causas que poderiam fazer-me malograr? Será a insuficiência de minha capacidade?

R – Não, mas a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. A tua é rude, previno-te, pois terás que revirar e transformar o mundo inteiro. Não penses que te bastará publicar um livro, dois livros, dez livros e ficar tranquilamente em tua casa. Não! Terás que arriscar tua pessoa. Suscitarás ódios terríveis. Inimigos encarniçados conjurarão tua perda. Serás alvo da malevolência, da calúnia, da traição, mesmo da parte daqueles que te parecerem os mais dedicados. Tuas melhores instruções serão desprezadas e deturpadas. Mais de uma vez serás vencido pela fadiga. Em suma, terás que sustentar uma luta quase constante como sacrifício de teu repouso, de tua tranqüilidade, de tua saúde e mesmo de tua vida, porque sem isso viverias mais tempo. Pois bem! Vários já recuaram, quando em meio de um caminho florido encontraram sob seus pés somente espinhos, pedras pontiagudas e serpentes. Para missões dessas, não basta a inteligência. É preciso, primeiramente, para agradar a Deus, haver humildade, modéstia e desprendimento, porque Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens é preciso coragem, perseverança e uma firmeza inabalável. É preciso, também, prudência e tato para saber levar as coisas com propósito, sem comprometer-lhes o sucesso com medidas ou palavras intempestivas. É preciso, enfim, dedicação, abnegação e estar pronto para todos os sacrifícios.

Vês que tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.”


MESAS QUE GIRAM E FALAM

Inicialmente, o Professor Rivail não tinha consciência plena e objetiva do conjunto daquilo que pesquisava e das informações que chegavam às suas mãos. Somente algum tempo depois é que foi percebendo com mais clareza a abrangência do conteúdo e a intenção das mensagens transmitidas pelos Espíritos. Essa nova Ciência não foi produto da curiosidade e imaginação humanas, mas de uma revelação aparentemente sobrenatural, cuja finalidade era despertar a atenção da Sociedade para os conteúdos que iriam ser transmitidos. Toda revelação tem sempre significado informativo, precisando ser levada a efeito como fenômeno de comunicação. Mas o significado tradicional de revelação, sobretudo a de natureza religiosa, é exatamente a sua oposição àquela que se chega pela razão. Aqui vamos encontrar um paradoxo: essa revelação não vai opor-se à razão, ao contrário, vai utilizar-se das suas ferramentas de questionamento e investigação para expor suas teses.

Independente da opinião sobre a veracidade ou não desses fenômenos, da crença ou descrença em torno deles, dos conceitos ou preconceitos, do interesse ou indiferença, ou ainda das conseqüências que surgiram em sua função, é fato que eles existiram, no mínimo como estratégia de comunicação. Essa revelação teve início com os fenômenos de Hydesville[8], nos EUA, na madrugada de 31 de março para o 1º de abril de 1848, quando se manifestou e se comprovou, publicamente, a possibilidade da intervenção de uma força inteligente, invisível, imaterial e “impalpável”, sobre a matéria e a vida social. Como vimos, os fenômenos repercutiram na sociedade norte-americana e propagaram-se, mais tarde, pelo mundo, “orquestradamente”, ou seja, dirigido pelas mesmas forças inteligentes, através das famosas brincadeiras das “mesas-girantes” e outros fenômenos também atraentes.

Algum tempo depois, estabelecidos os impactos desejados – social, psicológico e existencial –, as forças inteligentes e invisíveis tratariam de dar explicações mais detalhadas sobre os acontecimentos. Essas explicações não seriam de natureza superficial, pois naquele momento, a partir de coisas fúteis, seriam levantadas uma infinidade dúvidas sob os mais variados e aprofundados aspectos e implicações da vida humana. Portanto, seria necessário colocar em prática o estudo científico de uma técnica de comunicação até então obscura e tida como superstição: a mediunidade. Note-se, novamente, que o termo é puramente comunicacional: médium[9] é o “meio”, o intermediário entre dois planos de vida: o mundo material e o mundo espiritual.

A mediunidade é um fenômeno tão antigo quanto a Humanidade e sua manifestação, bem como o seu papel nos grupos sociais é fartamente conhecido e descrito pelos estudos de sociologia e antropologia. Das sociedades mais primitivas até as mais sofisticadas, como a greco-romana, o médium ou “oráculo” era o veículo das revelações de caráter sobrenatural ou de temas culturais ligados aos tempos ancestrais ou ao tempo futuro. Essas forças invisíveis eram portadoras de mensagens, cuja finalidade era sempre romper conceitos superados e comportamentos socialmente arraigados, que causavam prejuízos éticos a essas sociedades. Na cultura judaico-cristã, a que mais diretamente influenciou o modo de vida ocidental, o médium vai ser identificado nas figuras dos profetas e santos, de cujas bocas saíam sempre verdades comprometedoras, que não podiam ou não deviam ser ditas por pessoas comuns. Nas comunidades cristãs primitivas profetizar, ou comunicar idéias dos Espíritos (que nas traduções suspeitas consta Espírito Santo) era uma prática comum entre os membros mais sensíveis e dedicados, sobretudo as mulheres e suas filhas. Antes, essas coisas aconteciam sem unidade histórica, dispersas e sem uma repetição fenomênica que pudesse ser observada e estudada racionalmente. Agora era diferente: tudo acontecia num local determinado e num determinado contexto. Era preciso mostrar os fatos espíritas e a mediunidade como fenômenos de regularidade, leis e metodologia próprias.

Em Hydesville a comunicação na casa da família Fox ocorria através de pancadas que significavam simplesmente “sim” ou “não”. Segundo Doyle, um vizinho dos Fox chamado Duesler foi o responsável pela ponta-pé inicial da intercomunicação e dessa forma foi obtido nome do Espírito Charles B. Rosma. Quatro meses após os primeiros contatos, o quaker Isaac Post assumiu a direção dos trabalhos, coordenando as mensagens e aperfeiçoando o método. A partir de 1850, em diversos lugares do mundo, os próprios Espíritos passaram a sugerir a busca de métodos mais aperfeiçoados como a mesa que trabalhava em movimento circular, por força magnética dos participantes ao seu redor. Recitava-se o alfabeto e, toda vez que aparecesse a letra da palavra em formação, ouvia-se uma pancada com um dos pés da mesa. Depois dessa fase apareceu a mesa da Sra. Girardin, em cujo tampo estavam gravadas as letras do alfabeto selecionadas por um ponteiro metálico.

Numa terceira fase, em 1853, um Espírito sugeriu o uso de uma cesta de vime, contendo um lápis fixado que deveria escrever sobre um papel colocado embaixo da cesta e sob a ação “suave” da mão de um dos participantes. Herculano Pires[10] entendeu de forma brilhante e inspirada essa sugestão do Espírito, como um gesto profundamente simbólico, semelhante às duas grandes revelações espirituais que aconteceram anteriormente: o salvamento de Moisés numa cestinha à deriva nas águas do rio Nilo e o nascimento de Jesus sob o amparo da palha na manjedoura:


“O vime e a palha são produtos da terra, mas a cesta e a manjedoura são manufaturas. A natureza leve desses produtos vegetais dá-lhes a aparência de uma emanação: a vida que rompe a densidade material do solo, buscando a fluidez atmosférica. O trabalho de modelagem do homem é um socorro do espírito a essa matéria em ascensão. A cesta ou manjedoura, concluídas, consubstanciam o impulso de transcendência da vida e a resposta da consciência humana a esse impulso. Estamos diante de um fetiche, de uma obra de magia, de um artefato em que se misturam as forças da terra e os poderes da mente. A impregnação espiritual da matéria pelo espírito, através do trabalho, resultando na síntese dialética do instrumento, permite a integração deste num plano superior da vida, que é o plano social. O Messias, que revela novas dimensões do processo vital, pode então apoiar-se nesse instrumento dúctil e vibrátil, para ofertar aos homens a messe de uma nova revelação. A cesta escrevente é a mais aprimorada forma desse símbolo de transcendência. Quando as meninas Baudin punham as mãos angélicas nas suas bordas – mãos de criança, impregnadas mediunicamente pelo magnetismo espiritual – a cesta escrevente ascendia ao plano da inteligência, inserindo-se na fronteira do visível com o invisível. Então, rompia-se docemente a grande barreira, para que a mensagem do Espírito fluísse sobre a Matéria, e as inteligências libertas pudessem confabular com as inteligências escravizadas no cérebro humano. Foi esse o mistério que o Prof. Rivail soube ver, com intuição plena de suas conseqüências, ao interpelar os Espíritos nas sessões da casa do Sr. Baudin, e mais tarde na casa do Sr. Roustan, com a médium Srta. Japhet.”


Já na quarta fase assistimos ao surgimento da psicografia[11], quando apareceram as pranchetas com um apoio, diminuindo o atrito sobre as mesas. Atualmente, essas técnicas tendem, cada vez mais, serem superadas pela intuição mediúnica, na qual os Espíritos simplesmente emitem pensamentos que são captados e “filtrados” pelo médium. É apenas um fenômeno antigo que tende a se ampliar juntamente com o desenvolvimento intelectual da Humanidade. Dele temos provas em inúmeros exemplos nas escrituras religiosas, em casos de solução de problemas particulares e, muito comum, nos escritores ou artistas que servem de instrumentos na comunicação de idéias ou sentimentos de alguns Espíritos. Um relato publicado na Revista Espírita[12], em outubro de 1865, é um exemplo claro de como a mediunidade passou a fazer parte do cotidiano das pessoas.


“O Sr. Delanne, que muitos dos nossos leitores já conhecem, tem um filho de oito anos. Esse menino, que a cada instante ouve falar do Espiritismo em sua família, e que muitas vezes assiste às reuniões dirigidas por seu pai e sua mãe, assim cedo se viu iniciado à doutrina e surpreende pela justeza com que raciocina os seus princípios. Isso nada tem de surpreendente, pois é apenas o eco das idéias com que foi embalado. Mas não é o objetivo deste artigo: é apenas a entrada na matéria do fato que vamos relatar e que tem cabida nas circunstâncias atuais.

As reuniões do Sr. Delanne são graves, sérias e conduzidas com uma ordem perfeita, como devem ser todas aquelas nas quais se quer colher frutos.

(...) O filho do Sr. Delanne muitas vezes se associava a essas manifestações e, influenciado pelo bom exemplo, as considera como coisa séria.

Um dia ele se achava em casa de uma pessoa de seu conhecimento e brincava no pátio da casa com sua priminha, de cinco anos, dois meninos, um de sete, outro de quatro anos. A senhora que morava no rés-do-chão os convidou a entrar em sua casa e lhes deu bombons. As crianças, como se pode imaginar, não se fizeram rogadas.

A senhora perguntou ao filho do Sr. Delanne: Como te chamas, meu filho?

R. – Eu me chamo Gabriel, senhora.

P. – Que faz teu pai?

R. – Senhora, meu pai é Espírita.

P. – Não conheço esta profissão.

R. – Mas, senhora, não é uma profissão; meu pai não é pago para isto; ele o faz com desinteresse e para fazer o bem aos homens.

P. – Meu rapazinho, não sei o que queres dizer.

R. – Como! Jamais ouvistes falar das mesas girantes?

P. – Então, meu amigo, bem gostaria que teu pai estivesse aqui para as fazer girar.

R. – É inútil, senhora, eu tenho, eu mesmo o poder de as fazer girar.

P. – Então queres experimentar e me fazer ver como se procede?

R. – De boa vontade, senhora.


Dito isto ele senta ao pé da mesinha da sala e faz sentar-se os seus três camaradinhas; e eis os quatro gravemente pondo as mãos em cima. Gabriel fez uma evocação, em tom muito sério e com recolhimento. Apenas terminou, para grande estupefação da senhora e das crianças a mesa ergueu-se e bateu com força.

- Perguntais, senhora, quem vem responder pela mesa.

A vizinha interroga e a mesa soletra as palavras: teu pai. A senhora empalidece de emoção. E continua: Então, meu pai, podes dizer se devo mandar a carta que acabo de escrever? - A mesa responde: Sim, sem dúvida. – Para me provar que és tu, meu bom pai, que estás aí, podias dizer há quantos anos estás morto? – Logo a mesa bate oito pancadas bem acentuadas. Era justo o número de anos. – Podias dizer teu nome e o da cidade onde morreste? – A mesa soletra os dois nomes.

As lágrimas jorraram dos olhos daquela senhora, que não pôde mais continuar, aterrada por esta revelação e dominada pela emoção.

Seguramente este fato desafia toda suspeita de preparação do instrumento, de idéia preconcebida e de charlatanismo. Também não se pode pôr os dois nomes soletrados à conta do acaso. Duvidamos muito que essa senhora tivesse recebido uma tal impressão numa das sessões dos Srs. Davemport, ou qualquer outra do mesmo gênero. Aliás, não é a primeira vez que a mediunidade se revela em crianças, na intimidade das famílias. Não é a realização daquela palavra profética: Vossos filhos e filhas profetizarão (Atos dos Apóstolos, II – 17)”.


AS INTELIGÊNCIAS DO ALÉM


As forças invisíveis que serão objeto de estudo de Allan Kardec são os “Espíritos[13]”, seres que sempre se comunicaram com os homens pela mediunidade, através dos médiuns e outros “meios” naturais. São individualidades inteligentes, que já passaram pelas experiências individual e social humanas, diferenciadas segundo o seu grau de evolução intelectual e moral. Querem mostrar que não estão “mortos” e romper conceitos e comportamentos; o materialismo toma força diante das concepções ingênuas e defasadas da religião tradicional e precisa ser contido através de fenômenos que desafiem a Ciência e o seu aparato cético, superficialmente racional.

O contexto assim o exige e, para isso, essas forças invisíveis preparam todo um esquema, para que as informações sejam reveladas sem que os tradicionais mecanismos possam deixar dúvidas ou decepções. Tudo deve ser às claras, sem expedientes ocultos. É necessário encontrar alguém que seja um bom instrumento para o controle dos medianeiros; esse alguém é Allan Kardec, e sua escolha não foi ao acaso; é uma pessoa com o devido preparo intelectual e moral para selecionar e filtrar os conteúdos comunicacionais, aproveitando a essência e desprezando os ruídos causados por interferências não confiáveis ou por defeitos puramente técnicos dos médiuns. O conjunto desses defeitos denomina-se “animismo” ou sobreposição de pensamentos e tendências inconscientes do próprio médium sobre a mensagem. A tarefa de Kardec é transformar todo esse volume de informações consideradas “sobrenaturais”, cheias de ruídos, em informações naturais, límpidas, explicadas sob a luz da Ciência da época.

Ninguém poderia negar uma experiência científica, cuja investigação baseia-se na relação de Causa e Efeito, a não ser por interesses estritamente pessoais ou ideológicos. Seu trabalho tríplice - de investigação, sistematização e informação -, era ainda distinguir o fenômeno espírita essencial das mesas-girantes em si, que não tinham significado senão especulativo e superficial, próprio dos meios e técnicas de comunicação mediúnica sem bases científicas, dos conteúdos que ali estavam sendo veiculados. Os meios não deveriam ser confundidos com os fins. Fenômeno semelhante observamos ainda hoje, por exemplo, com a informática e suas manifestações tecnológicas; causa grande impacto e entusiasmo especulativo no aspecto exterior dos seus veículos, mas o que realmente tem importância são as implicações sociais dos seus usos e conteúdos.

Para cada problema surgido com a manifestação dos fenômenos, Allan Kardec daria um tratamento específico, observando e codificando suas leis, enfim, suas características constantes e variáveis. A todo esse conteúdo denomina-se “Espiritismo”, “Doutrina Espírita” ou ainda “Codificação Espírita”, organizado e publicado em cinco livros fundamentais e em obras complementares e interpretativas das primeiras.

Esses fenômenos não ficariam esquecidos na memória e no tempo do século XIX, penetrando também nas primeiras e tumultuadas décadas do século XX e ainda acontecem, abertamente, neste que agora se inicia. Como bem observou o Dr. Ian Stevenson[14], Chefe do Departamento de Estudos da Personalidade da Faculdade de Medicina da Universidade de Virgínia, ao falarmos em aparições, logo pensamos logo numa outra Era, como se isso fosse proibido nos tempos atuais. Para Stevenson, a descrença e a modernidade tecnológica contribuem para que as pessoas tenham receio de falar de suas experiências com os chamados fenômenos paranormais, como também inibem a manifestação dos “fantasmas”. Mesmo com o avanço dos meios de comunicação e da redução da incidência de mortes repentinas, fatores que, segundo ele, estimulavam bastante esses fenômenos no passado, eles continuam a desafiar as leis da física e as convenções científicas contemporâneas. Aquilo que William Crookes fazia com o Espírito de Katie King, e vice-versa, pois o Espírito materializado deu provas irrecusáveis de ação sobre a matéria, continua sendo possível na Era Digital. As atuais experiências de transcomunicação, nas quais são gravadas vozes de Espíritos, são apenas reflexos tecnológicos de antigas convicções dos pesquisadores daquele tempo. O inventor Thomas Edson, por exemplo, pretendia, em sua época, construir um aparelho para se comunicar com os Espíritos. Como se sabe, Edson e seu amigo Henry Ford, eram pessoas muito práticas, que levavam a sério assuntos como esse e também a reencarnação.


As provas contendo gravações de imagens de Espíritos em filmes e fotografias tornaram-se tão banais que, atualmente, caem, rapidamente, no esquecimento da opinião pública. A profecia do artista plástico Andy Warhol, nos anos 1970, de que, no futuro, todo mundo seria famoso por apenas quinze minutos, também valeria para os Espíritos. Por isso, na sociedade de massas, os fenômenos espíritas também se tornaram descartáveis. Para os Espíritas de hoje, cuja maturidade em relação aos fenômenos já superou o problema da dúvida e da boa vontade em ver o que é visível e evidente, a questão não fica, apenas, na veracidade ou não dos fenômenos. Não basta acreditar ou desacreditar; o importante é avaliar as implicações lógicas e psicológicas do assunto. Neste aspecto, Allan Kardec[15] já se havia adiantado, quando explana sobre o conceito de “maturidade do senso moral”, afirmando que identificava dois tipos de Espíritas: os imperfeitos, “os que se apegam mais aos fenômenos do que à moral, que lhes parece banal e monótona... Não rompem, facilmente, com seus gostos, nem com seus hábitos, não compreendem coisa alguma melhor daquilo que têm; a crença nos Espíritos é para eles um simples fato, mas não modifica senão um pouco, ou nada, as suas tendências instintivas; numa palavra, não vêem senão um raio de luz, insuficiente para conduzi-los e lhes dar uma aspiração poderosa, capaz de vencer os seus pendores.” E os verdadeiros e sinceros: “... que estão num grau superior de adiantamento moral (...) numa palavra, eles são tocados no coração; também é inabalável a sua fé.”

A sobrevivência da alma, a reencarnação e o perispírito não eram assuntos totalmente desconhecidos da Humanidade, mas sempre estiveram restritos a alguns poucos círculos esotéricos; só foram tratados de maneira mais aberta e objetiva com a revelação Espírita. O mesmo já não podemos dizer sobre a Diversidade de Mundos e a existência neles de vida inteligente, pois este ainda era considerado um tabu, assunto extremamente fechado, mantido no severo regime dos segredos iniciáticos. Mas agora que a Astronomia alcançara uma significativa soma de conhecimentos já não se justificava tal restrição. Aliás, seria uma conclusão natural de quem percebesse as diversas nuances da vida no Universo visível aos olhos físicos e a dos Espíritos: se haviam classes de seres inteligentes, haveria logicamente, também, uma classificação de ambientes e mundos compatíveis com suas inteligências. O deslocamento progressivo das diversas categorias de Espíritos para as respectivas categorias de mundos só poderia ser realizada pela possibilidade das múltiplas existências corporais. Nesse natural intercâmbio de diferentes mundos e seres seria também lógico que houvesse a comunicação natural entre eles. E também ficaria claro que nessa relação está presente uma profunda ligação entre todos esses pontos através da Lei de Causa e Efeito ou Ação e Reação.

Sem olhar tudo isso como um conjunto integrado é praticamente impossível compreender o Espiritismo e esses segredos da natureza do Universo. Quem não enxerga essa mecânica existencial não enxerga a lógica espírita universal e, obviamente, não estabelece a relação das partes com o todo. Ao entendermos um fenômeno, logo compreendemos e acreditamos na sua real possibilidade; do contrário dogmatizamos e, conseqüentemente, negamos. Foi isso que aconteceu com a fé e seus ardorosos conflitos contra a razão nos últimos séculos, cujos resultados extremos todos conhecem: de um lado o fanatismo religioso e do outro o materialismo.


O MEDO DA MORTE

Mas entre esses dois extremos havia um traço comum que serviria de equilíbrio e ao mesmo tempo uma brecha para que os Espíritos ultrapassassem a barreira da mentalidade ocidental, dividida entre e negação e a superstição. Era um traço antropológico ainda muito presente na mentalidade humana: o pavor da morte.

Na sociedade pós-moderna, assim como a política e a comunicação, a morte tornou-se um espetáculo de massas e banalizou-se, como os acontecimentos corriqueiros do cotidiano, onde tudo se tornou veloz e efêmero. O horror das guerras tecnológicas e a violência dos centros urbanos exigiram que a mente humana desse um tratamento psicológico mais suportável ao fato que põe fim à existência e aos laços sociais dos indivíduos. Para diminuir os efeitos quantitativos da morte massificada criou-se uma nova estética do ato de morrer. Quando o cinema e a televisão exibem imagens de tragédias pessoais ou coletivas, estas já não possuem o mesmo impacto que tinham no passado. Durante muitos séculos achávamos que morrer era perigoso. Hoje achamos que perigoso é viver. Essa inversão de valores sobre a morte teve início no século XIX, quando começaram a mudar as nossas atitudes e o nosso imaginário a respeito do assunto. Tudo mudaria de forma radical, exceto o medo. Na medida que a tecnologia diminui o encanto e elimina o caráter mágico que a sociedade atribui à morte, aumenta o medo sobre a mesma e criam-se novas formas de relacionamento com esse fenômeno.

Na verdade, a Humanidade nunca aceitou a idéia da morte como algo natural. A degeneração biológica nunca foi compatível com o desaparecimento da consciência. As sociedades sempre tentaram conviver com essa realidade através de representações, como reflexo do imaginário cultural. Em cada época tivemos um tipo de relação com ela sem que isso, no entanto, significasse uma aceitação racional. Sempre criamos disfarces para mascarar nossas fugas perante ela. Na Antiguidade a domesticamos, tornando-a mais próxima dos hábitos familiares; depois, na Idade Média, criamos teologicamente a imagem do macabro e do sobrenatural; no mundo burguês e individualista moderno a erotizamos, associando-a proibitivamente à sexualidade; mais tarde, já nos séculos XIX e XX, ela não consegue mais ser disfarçada e retorna ao seu estado primitivo e brutal, tornando-se uma força selvagem, incompreensível. Diversos estudos[16] provam que nessa época os testamentos revelam uma preocupação muito comum entre as pessoas: o medo de terem uma morte aparente e de serem enterradas vivas. Em “O Funeral de Chopin”, [17]a biógrafa Benita Eisler revela – através de cartas de família - que o famoso compositor polonês radicado em Paris, semelhante ao pai, tinha verdadeiro horror de ser enterrado vivo. No seu testamento, encarregou o médico particular de garantir uma detalhada autópsia. Preocupação desnecessária, já que o corpo de Chopin foi embalsamado, exposto ao público durante várias semanas e somente enterrado um mês após seu óbito. Essa fobia ainda persiste no mundo atual com a questão da eutanásia, em choque com o direito da escolha do momento e do tipo de morte que se quer ter. Isso prova que progredimos muito pouco nesse terreno existencial. Naquela época os funerais tornaram-se espetáculos urbanos muito populares e vitrines do modo de vida aristocrático-burguês. A volta dos restos mortais de Napoleão Bonaparte para a França e o funeral de Victor Hugo foram insuperáveis como eventos sociais envolvendo as multidões.

Como foi dito, o Espiritismo vai ser uma alternativa entre os extremos do materialismo e da superstição. Ele não vai solucionar o problema do medo, mas vai estabelecer uma nova maneira de encarar o fenômeno sem a máscara das aparências. A morte biológica vai ser interpretada como um fenômeno natural para o qual ainda não temos capacidade de aceitação, exatamente porque não aprendemos a separá-la do seu aspecto psicológico, que é o redimensionamento da consciência. Mesmo que a ciência reconheça a mente e a sobrevivência da individualidade consciente, após a morte do corpo, o medo e a dor moral ainda persistirão. Afinal, trata-se de uma incerteza e do desconhecido. A transição entre a vida e a morte será ainda por muito tempo uma incógnita. Mesmo com algumas explicações racionais, ainda permanecemos bem distantes da consciência plena e tranqüila que caracterizam as almas mais experientes. Elas afirmam que, ao dormirmos, todas as noites treinamos para a morte. Ao morrermos, no fim de uma existência carnal, treinamos, em vidas sucessivas, para a eternidade. O caso clássico citado por Allan Kardec em O Céu e o Inferno e comentado pelo Espírito Erasto, confirma a fobia da morte aparente no século XIX e o significado mais amplo desse fenômeno aparentemente sobrenatural:


“O Sr. Antonio B..., escritor de muito merecimento, estimado por seus conterrâneos, que exercera vários cargos públicos com distinção e integridade, na Lombardia, pelo ano de 1850, depois de um ataque de apoplexia ficou num estado de morte aparente. Concorreu mais ainda para o engano o fato de aparecerem em seu corpo sinais de decomposição. Quinze dias depois do enterro, uma circunstância fortuita determinou que a família pedisse a exumação do corpo. Tratava-se de um medalhão, esquecido por descuido dentro do caixão. O espanto dos assistentes foi grande quando, ao ser aberto este, viram que o corpo mudara de posição, tinha-se virado e – coisa horrível – uma das mãos havia sido comida em parte pelo defunto. Ficou então manifesto que o infeliz Antonio B. tinha sido enterrado vivo. Deveria ter morrido nas angústias do desespero e da fome.

Tendo sido evocado na Sociedade de Paris, em agosto de 1861, o Sr. Antonio B..., a pedido de parentes, deu as seguintes explicações:


Evocação

– Que quereis de mim?

- Um dos vossos parentes nos pediu que vos evocássemos. Fazemos isto com prazer, e ficaríamos muito satisfeitos se vos dignásseis responder-nos.

R. – Sim, quero responder.

- Lembrai-vos das circunstâncias da vossa morte?

R. – Ah! Certamente! Lembro-me bem. Por que reviver a lembrança dessa punição?

- É exato que fostes enterrado vivo por descuido?

R. – Creio que sim, pois a morte aparente tinha todas as características de uma morte real. Eu estava exangue. Não se deve culpar ninguém por um ato previsto antes de eu nascer.

- Se estas perguntas vão ser penosas para vós, quereis que paremos por aqui?

R. – Não. Podeis continuar.

- Gostaríamos que vos sentísseis feliz, pois deixastes a reputação de homem honrado.

R. – Agradeço-vos. Sei que orareis por mim. Vou procurar responder, mas, se fracassar, um de vossos guias suprirá a falha.

- Podeis descrever as sensações que tivestes naquele terrível momento?

- Dissestes: ‘cruel punição’ de uma feroz existência’. Mas a vossa reputação, até hoje impoluta, não fazia suspeitar nada disso. Podeis explicar-nos o que houve?

R. – O que é uma existência diante da eternidade? Certamente tratei de proceder bem em minha última encarnação, mas aquele fim já fora aceito por mim, antes de nascer. Ah! Porque me perguntar sobre esse passado doloroso, que só eu conhecia, assim como Espíritos, enviados do Todo-Poderoso? Sabei então – já que devo contar-vos – que numa existência anterior eu emparedara viva uma mulher – a minha – numa sepultura. A pena de talião tinha de ser-me aplicada. Olho por olho, dente por dente.

- Agradecemos por terdes concordado em responder a nossas perguntas e pedimos a Deus que vos perdoe o passado em atenção ao mérito de vossa última existência.

- R. – Voltarei mais tarde. Aliás, o Espírito de Erasto vai completar o que contei.

‘O que tendes a extrair desta lição é que todas as existências estão relacionadas entre si, nenhuma é independente da outra. As preocupações, as dificuldades, assim como as grandes dores que afetam as criaturas humanas são sempre conseqüências de uma vida anterior, culposa ou mal empregada. Entretanto, devo dizer-vos, os desenlaces como o do Sr. Antonio B. são raros, e, se este homem cuja última existência não teve o de que merecer censura, morreu daquela maneira, foi porque ele próprio solicitara semelhante morte, a fim de abreviar o seu período de erraticidade e atingir mais rápido as esferas superiores. Efetivamente, após uma fase de perturbação e sofrimento moral para a expiação ainda de seu crime tremendo, este lhe será perdoado e ele poderá elevar-se a um mundo melhor, onde se encontrará com a sua vítima, que o aguarda e que já o perdoou há muito tempo. Tratai, pois de tirar proveito deste exemplo cruel, para suportar com paciência, caros espíritas, os sofrimentos físicos, os sofrimentos morais e todas as pequenas misérias da vida’ - ERASTO


A INICIAÇÃO E O ERRO

“O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: os das manifestações, o dos princípios de filosofia e moral que delas decorrem, e o da aplicação desses princípios. Daí as três classes, ou antes, os três graus dos seus adeptos: 1º) os que crêem nas manifestações e se limitam a constatá-las: para eles, é uma Ciência de experimentação; 2º) os que compreendem as suas conseqüências morais; 3º) os que praticam ou se esforçam por praticar essa Moral.” – O Livro dos Espíritos – Conclusão, VII.


Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, é pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, educador francês, nascido em 1804, na cidade de Lyon, uma antiga colônia romana fundada em 43 a.C., anteriormente denominada Lugdunum. O penúltimo dos seus quatros nomes – Denizard[18]- refere-se a “Denis-Ard”, que identifica pela tradição mística uma entidade espiritual protetora da nação francesa, cujo nome veio sendo corrompido pelo uso popular: Dionysius-Dionys-Denis; e Ard, que é uma derivação latina de “Ardenae” e depois “ard-nae”, que significa floresta ou radicalmente “mata-grande”. Nas Ardenas estão localizados os bosques onde os druidas praticavam o culto dos carvalhos sagrados. Com o advento do Cristianismo na Gália, três santidades do catolicismo, cultuadas durante a Alta Idade Média, herdaram essa simbologia onomástica: Denis, Rústico e Eleutério.

O nascimento de Rivail na França, especificamente em Lyon, não foi produto do acaso, como não seria casual mais nada na vida da Humanidade após a publicação das obras de Allan Kardec. A história da sociedade francesa foi sendo forjada com o desenvolvimento do espírito místico gaulês e libertário dos celtas e a construção do chamado “coração da latinidade” se confunde com o a propagação da Cristianismo nessa vasta região da Europa Ocidental. Durante séculos estabeleceu-se ali uma forte tradição de independência e contestações às forças políticas opressoras. Foi ali também que desabrochou a mais forte tradição espiritualista da Europa[19]:


“Acreditavam os gauleses em numerosos deuses, hoje muitos mortos para se incomodarem com o anonimato. A crença em uma agradável vida além-túmulo era tão forte que a isso atribuiu César muito da bravura gaulesa. Valério Máximo conta que faziam empréstimos uns aos outros para liquidação no céu; e Possidônio diz ter visto gauleses lançarem na pira crematória cartas destinadas aos amigos do além e que o ‘cremando’ entregaria.

(...) A maior das províncias gaulesas era a Gália Lugdunense, de Lugdunum (Lyon), a capital; esta cidade, que ficava na confluência do Ródano com o Saône e no cruzamento da grande estrada real construída por Agripa, tornou-se o centro de uma rica região e a capital de toda a Gália. O ferro, o vidro, e as indústrias cerâmicas ajudavam a manter uma população de 200.000 almas, no século I da nossa Era. Ao norte ficava Cabillonum (Chalon-sur-Saône), Caesarodunum (Tours), Augustodunum (Autun), Cenabum (Orléans) e Lutetia (Páris). ‘Passei o inverno em nossa amada Lutetia’, escreve o Imperador Juliano, ‘que é como os gauleses chamam a cidadezinha dos parisis, uma ilha no rio... Bons vinhos se fazem por lá’. ”


Certa ocasião Allan Kardec se mostrou bastante surpreso com a popularidade e aceitação do Espiritismo na sua cidade natal. Ali se encontrava, segundo ele, “os verdadeiros Espíritas, ou melhor, os Espíritas cristãos”, os que “enfim, não se contentam em admirar a moral: praticam-na e aceitam todas as suas conseqüências”[20]. Nada impressionados com o fato, os Espíritos lhe disseram: “Porque admirar-te? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva. Ela fornecerá os apóstolos do Espiritismo. Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração”.

Realmente Lyon possui nessa longa trajetória histórica uma grande parte da tradição libertária francesa: foi palco de uma das mais importantes heresias medievais e berço de inúmeras personalidades que honraram, muitas vezes com a própria vida, os valores autênticos do Cristianismo. A antiga vila latina foi o cenário de alguns dos mais terríveis martírios de cristãos primitivos. O bispo Potino, de 90 anos, e o menino Pôntico, de apenas, 15 anos foram torturados até a morte por ordem do imperador Marco Aurélio e foi também para punir os seus seguidores que aconteceu no ano 177 a célebre “Augustália”, festa que reuniu todos os delegados romanos da Gália, na qual, como sinistra atração, foi interrogado um grupo de prisioneiros que deveriam negar a fé cristã ou morrer sob tortura na presença dos ilustres convidados. Desses, apenas 48 mantiveram a convicção e foram mortos com apavorantes requintes de crueldade: Átalo foi posto numa cadeira de ferro incandescente para ser assado vagarosamente. A jovem escrava Blandine foi torturada durante todo o dia e depois colocada dentro de um saco para ser estraçalhada na arena por um touro. Em 178, o sucessor de Potino, o erudito bispo Irineu também foi martirizado.

Acontecimentos como este deram ao Cristianismo da Gália e posteriormente ao clero a fama de ser o menos imoral, o mais educado e competente entre ações missionárias católicas. Foi ali que surgiram os primeiros hospitais, os Hôtel-Dieu, para acolher órfãos, viúvas, pobres e escravos. Um clérigo de Lyon, o arcebispo Agobardo (779-840), tornou-se um modelo de fé e coerência e um grande inimigo da superstição: “condenava o julgamento pelo duelo ou ordálio, a adoração de imagens, a explicação mágica das tempestades e os sofismas empregados na perseguição de feitiçaria; era a cabeça mais esclarecida do seu tempo”[21]. Foi também neste mesmo ambiente histórico que, em 1170, vivera o líder de um grupo de hereges e dissidentes do catolicismo medieval, reforçando a imagem da cidade como símbolo secular de contestação e desafio aos ditames do poder religioso dominante. Sobre ele e o seu grupo, que eram precursores do lema “Fora da caridade não há salvação”, o Espírito Emmanuel[22] escreveu o seguinte, referindo-se aos raros casos de piedade cristã na sociedade civil daqueles tempos obscuros:


“Neste caso está Pedro Valdo (Pierre de Vaux), que, embora fosse um homem de negócios, em Lyon, desligou-se de todos os laços que o prendiam às riquezas humanas, despojando-se de todos os bens em favor dos pobres e necessitados, comovido com a leitura da exemplificação de Jesus no seu Evangelho de amor e redenção. Esse homem extraordinário, a quem fora cometida a missão de instrumento da vontade do Senhor, mandou traduzir os livros sagrados para leitura pública e, junto de outros companheiros que passaram à História com o nome de valdenses, iniciou amplo movimento de pregações evangélicas, à maneira dos tempos apostólicos. Os pobres de Lyon foram excomungados, primeiramente pelo arcebispo da cidade e mais tarde, em 1185, pelo pontífice do Vaticano. A Igreja não poderia tolerar outra Doutrina que não a sua, feita de orgulho e mal disfarçada ambição. Qualquer lembrança verdadeira e sincera, de seu Divino Fundador, era tomada como heresia abominável e suscetível das mais severas punições. A verdade, porém, é que, se os valdenses foram caluniados pelas forças católicas, suas pregações e seus apelos nunca mais desapareceram do mundo, desde o século XI, porque, com vários nomes, as suas organizações subsistiram na Europa até à Reforma, não obstante os guantes de ferro da Inquisição.”


Mas a França do início do século XIX estava sob a tutela política de Napoleão e este, em pleno conluio com a Igreja, restaurou-lhe amplo poder de ação e domínio no conhecido período revolucionário da reação burguesa. Segundo Canuto Abreu[23], o clero apropriou-se plenamente das instituições educacionais da França, não deixando alternativa para as famílias de espírito libertário senão a busca de ensino e boa educação protestante no país vizinho. Filho de uma tradicional família de magistrados e educadores, Hippolyte Rivail realizou os primeiros estudos na cidade natal e, mais tarde, ingressou no Instituto de Yverdon, na Suíça, sob a direção de J.H. Pestalozzi. O famoso Instituto, estruturado nas idéias do seu famoso diretor, teve influência marcante na formação intelectual e moral do jovem estudante. Trabalho, solidariedade e tolerância não eram somente conceitos filosóficos de uso intelectual, mas princípios da prática educativa cotidiana. Yverdon possuía um ambiente multicultural e lingüístico, pois recebia alunos de vários países da Europa. Rivail desenvolveu ali ainda mais sua habilidade para aprender outros idiomas, fator de grande enriquecimento da sua erudição e visão universalista que lhe seria muito útil na difusão do Espiritismo em outras culturas. Escrevia e falava corretamente o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e holandês. Essa vocação para lidar com a diversidade cultural, numa época de nacionalismos radicais e exclusivistas, seria exercida com brilhantismo na Revista Espírita, atividade tão empolgante que os Espíritos lhe alertaram sobre os graves riscos para a sua saúde física. Alguns anos depois de ter deixado Yverdon, fundou em Paris uma escola que aplicava o método de seu mestre. O Instituto Técnico, localizado na rua Sèvres, 35, teve curta duração, pois o seu sócio – um tio por parte de mãe – era jogador compulsivo, comprometeu o seu capital em Spa e Aix-la-Chapelle. Posteriormente Rivail passaria por outro revés financeiro, quando investiu o capital restante da escola nas mãos de um amigo comerciante, que o deixou completamente falido. A partir desses fatos, com ampla formação intelectual, muda totalmente sua rotina de vida, passando a dedicar-se a prestação de serviços pedagógicos e de contabilidade. Em 1824, publica “Curso Prático de Aritmética” e, em 1831, o memorial “Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época?”, obra que lhe valeu o prêmio da Academia Real D’Arras.

Mas a transferência do menino Rivail para Yverdon não foi um simples capricho de uma família burguesa e sim uma necessidade ideológica. O pai de Rivail era maçom e a França estava agora sob o regime da intolerância da Concordata entre Bonaparte e Pio VII. Após a revolução o clero se reerguera com todo o fanatismo e sede de vingança contra o liberalismo. Todo o sistema educacional caíra nas mãos dos jesuítas. O ensino foi totalmente modificado, banindo-se do currículo disciplinas essenciais para a boa formação humanista como o grego, história, ciências morais e políticas. A própria Escola Politécnica teve suas atividades encerradas. A solução era buscar uma ilha de liberdade, que estava ali bem próxima da França alpina, a Suíça. Nessa terra de refugiados e de livre pensadores Rivail concluiu sua formação em 1818, acumulando uma ampla formação cultural e intelectual. O contexto histórico das primeiras décadas do século XIX se encarregaria de dar um acabamento a essa formação. Voltaire ainda reinava nas mentes rebeldes, mas o método comteano falava mais alto nos espíritos mais moderados. Rivail manteve não somente a boa formação moral de Yverdon, mas também, ao que tudo indica, as mais antigas raízes da infância e da família cristã lyonesa. Sua interpretação do trecho do Evangelho de João, no qual identifica no Espiritismo o Consolador e o Espírito Verdade, certamente não foi produto das idéias de Rousseau ou de Pestalozzi, nem da sua formação científica positiva. Tal interpretação ainda causa estranheza em muitos espíritas avessos à religiosidade e ao misticismo, mas ainda está lá, histórica e surpreendentemente intacta.

A antiga tradição cristã lyonesa, além do caráter herético, cujos conflitos com o clero secular foram se aprofundando no decorrer dos séculos, por isso mesmo adquiriu, como sistema defensivo, o perfil esotérico, destinado não às massas, mas para uma elite que não aceitava as limitações políticas do clero romano à livre interpretação das idéias do Cristo. Aliás, essa sempre foi a função histórica do esoterismo ao criar seus círculos protetores através da restrição de acesso e de técnicas educativas de transmissão de conhecimentos: metáforas, parábolas, símbolos e enigmas. Dentre essas técnicas, fartamente utilizadas pela andragogia iniciática, lembramos a do mistério ou sagrado (do grego mysté e do latim sacrum), restrito aos iniciados, ou seja, pessoas especialmente preparadas para ter acesso às informações especiais, revelações de forte repercussão mental e espiritual, ainda distante da compreensão de espíritos imaturos e ingênuos. Ao contrário da informação exteriorizada e concreta, o mistério é mistério somente para aqueles que não foram iniciados. São pérolas abstratas que não podem ser jogadas aos porcos, ainda em contato com a impureza da lama, escravos da postura horizontal e mentalmente ainda sujeitos ao imperativo do instinto e da lei de gravidade. O conhecimento da reencarnação, por exemplo, fora os círculos esotéricos era divulgada como crença e dogma, na linguagem do mistério da ressurreição ou do mito da metempsicose. Uma parte significativa do clero lyonês, herdeiro da remota tradição celta, era provável e culturalmente iniciado, ou seja, conhecia aspectos até então ocultos, místicos e sagrados das verdades espirituais, naquela época em posse do cristianismo católico. O grau de pureza ou maturidade dos iniciados não era medido somente pelo entendimento intelectual, muito menos pelo julgamento comportamental, mas pela capacidade de compreensão, ou seja, de flexionar emocionalmente tal conhecimento no terreno prático e vivencial. O processo educativo iniciático não ocorre necessariamente por força do ambiente externo dos núcleos e templos e das técnicas educativas: ocorre certamente no ambiente interno, independente dos meios empregados. É um processo muito semelhante à alfabetização das crianças: existem meios facilitadores comuns a todas elas, porém o despertar é uma experiência individual. Vivência é exatamente isso, o domínio racional das emoções pelo controle dos sentimentos, a clássica diferença entre o instinto (Ego) e personalidade (Eu) que se depura e define nas sucessivas existências carnais. Na evolução anímica, segundo as antigas tradições orientais, também ocorre a mesma seqüência trifásica da transformação mental: dormimos no vegetal, sonhamos no animal e acordamos no animal. No plano hominal tal seqüência iniciática se processa em graus de maturação da consciência ou auto-percepção: no primeiro grau de uma escala auto-educativa , porém transpessoal e interativa, está o profano (a lama), o aprendiz ainda impuro que não saber viver entre os impuros sem se sujar; no segundo grau está o semi-iniciado (a água), o servidor que só se mantém puro longe ou isolado dos impuros; e no terceiro grau está o pleni-iniciado (a luz), o discípulo, o servo de alta fidelidade, que não precisa abandonar o mundo, pelo contrário, ilumina o mundo vivendo puro entre os impuros. Quando Alan Kardec se referiu aos espíritas lyoneses como espíritas cristãos, religiosos, estava se referindo aos iniciados. Na conclusão de O Livro dos Espíritos esse conceito é fato explícito. Tal iniciação não se ocorre pelas aparências cerimoniais ritualísticas exteriores, superficiais, mas pela maturação consciencial, adquirida nas provas morais da família e da sociedade. O próprio Kardec na sua trajetória de quase duas décadas de estudos e vivências doutrinárias alcançou, juntamente com muitos companheiros da Sociedade Espírita de Paris, essa condição espiritual, muito além da experiência intelecto-filosófica. Tal experiência de maturação , independente da escola educativa ou da personalidade do educando, se realiza também em três fases: a Adoração, a curiosidade, a impressionabilidade e a introspecção, que é a fase de descoberta científica e deslumbramento filosófico; o Serviço, a exteriorização pela caridade, que é o impulso compensatório de salvação, de preencher o vazio deixado pela descoberta e admissão das imperfeições; e o Sofrimento, o testemunho, que é o efeito do impacto causado pelas transformações morais nos semelhantes e no ambiente, resultando em reações violentas contra a exemplificação do educando. Como todo educador que primeiro se auto-educou antes de educar os outros, Allan Kardec passou por essas três fases e não ficou impune, aos olhos humanos, do seu atrevimento espiritual: foi sendo severamente punido pelos que iam sendo atingidos pelas suas transgressões aos interesses materiais: os cientistas e os filósofos, com a sua auto-suficiência intelectual; o clero, com a sua arrogância dogmática; e finalmente os próprios espíritas, companheiros de ideal, com a sua vaidade e prepotência de novos donos da verdade. Todos agrediam e ainda agridem Kardec e todos os que se iniciam verdadeiramente no Espiritismo na medida que suas descobertas exemplificações vivenciais repercutem como chicotadas no orgulho e na vaidade dos expectadores. É a conhecida revolta dos aprendizes contra os mestres, experiência também conhecida com amargor pelos pais na educação dos filhos.

Este tem sido o sentido religioso, místico e educativo do Espiritismo. Um Espiritismo de profundidade filosófica (o Ser e não o mundo como objeto) , de significados e significações espirituais clarificadoras ( a mística interior de adoração natural), cada vez mais distante do obscurantismo dogmático dos ritos e cerimônias exteriores e também da frieza cerebral do ceticismo positivo. Este é o Espiritismo iniciático, o que mais se aproxima da mensagem do Cristo e que gera nas pessoas, encarnadas ou desencarnadas, o interesse pela transformação moral. Esta não acontece somente porque tomamos ciência dos Espíritos e da sobrevivência após a morte. O mesmo acontece com as pessoas desencarnadas que são afetadas pelo Espiritismo. Elas não mudam porque ficam sabendo que desencanaram e que existem seres inteligentes vivendo e aprendendo na carne. Essa mudança de rota geralmente acontece pelo estímulo das provas e conflitos existenciais, lá e cá. Quando acontece aqui, sentimos primeiro a necessidade de fuga, de mudar de ambiente, vontade de morrer. Quando acontece lá, sentimos a vontade de viver, de recuperar o tempo perdido, daí a necessidade de reencarnar. Essa é a iniciação que todos temos fazer e que têm os seus altos e baixos, equívocos, decepções e que, com o passar do tempo, atinge o fim destinado, que é a compreensão gradual e evolutiva da Verdade.


CINCO ENCONTROS CASUAIS


No dia 6 de fevereiro de 1832 casou-se com Amélie-Gabrille de Lacombe Boudet, uma artista e educadora, proveniente de duas tradicionais famílias católicas e burguesas parisienses. A cerimônia conjugal foi realizada na “Eglise Paroissales”, de Saint Roch, localizada entre as ruas Saint Honoré e a avenida da Ópera. Essa Igreja ficava nas imediações da rua de Saint Anne e foi praticamente destruída pelos bombardeios da guerra franco prussiana de 1870. Amélie era poetisa, pintora, professora de letras e belas-artes. Trabalhou com Rivail, ministrando cursos livres até a idade de sessenta anos. Era nove anos mais velha do que Rivail e, após o desencarne do marido, continuaria trabalhando pela difusão da doutrina. Já bastante idosa, chegou a sofrer humilhações em interrogatórios tendenciosos de um chefe de polícia, no célebre caso Leymarie, de divulgação de fotografias falsas sobre manifestações Espíritas. O caso foi amplamente explorado numa campanha de difamação do Espiritismo desencadeada em toda a França.

Apesar da vida modesta e das dificuldades financeiras, Rivail ministrava em sua casa aulas gratuitas de química, física, anatomia, astronomia, e outras matérias, nas quais testava métodos mnemônicos de facilitação da aprendizagem. Dedicou-se aos trabalhos pedagógicos até 1848, quando passou a interessar-se pelos problemas sociais e pela realização de obras filantrópicas. Era um reflexo da educação pestalozziana. Nessa época Rivail já era uma personalidade conhecida em Paris e a imprensa já o denominava “Homem Universal”. Falando anos mais tarde do homem que já era reconhecido como a principal personalidade do movimento espírita, Miss Anne Blackwell, tradutora das obras de Kardec na Inglaterra, citada por Conan Doyle, o descreveu dessa forma:


“Pessoalmente Allan Kardec era de estatura média. Compleição forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos pardos, claros, mais se assemelhando a um alemão do que a um francês. Enérgico e perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza, incrédulo por natureza e por educação, pensado seguro e lógico, e eminentemente prático no pensamento e na ação. Era igualmente emancipado do misticismo e do entusiasmo... Grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse uma certa calma dignidade, resultante da seriedade e da segurança mental, que eram traços distintos do seu caráter. Nem provocava nem evitava a discussão, mas nunca fazia voluntariamente observações sobre o assunto a que havia devotado toda sua vida; recebia com afabilidade os inúmeros visitantes de toda parte do mundo que vinham conversar com ele a respeito dos pontos de vista nos quais o reconheciam um expoente, respondendo a perguntas e objeções, explanando as dificuldades, e dando informações a todos os investigadores sérios, com o quais falava com liberdade e animação, de rosto ocasionalmente iluminado por um sorriso genial e agradável, conquanto tal fosse a sua habitual seriedade e conduta que nunca lhe ouvia uma gargalhada (...)”


Seu interesse pelo Espiritismo nasceu a partir de alguns estudos sobre magnetismo animal[24] ou “mesmerismo”. Franz Anton Mesmer, famoso médico austríaco, que havia chegado a Paris no final do século XVIII ainda causava sensação ao demonstrar a existência de um fluido que exerce sobre os corpos humanos o mesmo efeito de um ímã, e que poderia ser utilizado como energia regenerativa. Também, nessa época, as primeiras experiências com a hipnose causam certo entusiasmo nos pensadores interessados nos mistérios do cérebro humano. Sobre a sua ligação com as práticas deixadas por Mesmer, os contatos com novos experimentadores como Barão Du Potet, Allan Kardec escreveria mais tarde na Revista Espírita[25]:


“O Magnetismo preparou o caminho do Espiritismo, e os rápidos progressos dessa última doutrina são incontestavelmente devidos à vulgarização das idéias sobre a primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e o êxtase às manifestações espíritas, há apenas um passo; sua conexão é tal que é, por assim dizer, impossível falar de um sem falar do outro.”


Mas foram cinco encontros aparentemente casuais, desencadeados praticamente em série e concatenados por envolvimentos irreversíveis, que mudariam os rumos de sua existência. Rivail tinha como paradigma a estrutura da ciência positiva e materialista, mas isso não representou um obstáculo para que adotasse novos instrumentos que facilitassem uma mudança de orientação. Ele percebeu essa mudança de modelos convencionais de pesquisa e permitiu que uma nova realidade científica se abrisse no seu percurso científico. Thomas S. Kuhn[26], um dos mais conceituados historiadores da Ciência, afirma que o verdadeiro motor das grandes revoluções é a mudança de paradigmas dos próprios cientistas envolvidos nas pesquisas. Diz ele que, nesses períodos de transformações, os cientistas precisam se reeducar para absorver melhor as próprias mudanças que estão se processando ao seu redor e também na sua maneira de ver o mundo: “O que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que a sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver”. Foi exatamente isso que aconteceu com Rivail.

Em 1854 ele se encontra com o Sr. Fortier, um antigo caixeiro viajante, agora dedicado à profissão licenciada de magnetizador. Numa conversa informal, o amigo lhe expõe a ligação entre o magnetismo e as novas experiências com mesas-girantes. O professor, ainda desconfiado, observa que realmente o fato era extraordinário, porém lembrou seu interlocutor que “O fluido magnético, que é uma espécie de eletricidade, pode muito bem atuar sobre os corpos inertes e fazê-los mover-se”. Como se rememorasse uma experiência muito remota, Rivail questiona: “Então meu caro, o caso complica-se. Um fato de tal ordem a gente precisa, como São Tomé, ver para crer. Mas pode-se, à priori, afirmar ser absurdidade. Para a mesa tornar-se uma sonâmbula artificial precisa ter cérebro para pensar, nervos para sentir, músculo para bater, inteligência para falar.” Sem perder o entusiasmo, Fortier lembrou que os jornais noticiavam os fatos e que sua veracidade tinha testemunhas. Num misto de ceticismo e curiosidade Rivail responde que os jornais andavam cheios de milagres, contos de fada, casas mal-assombradas, enfim, histórias para adormecer crianças.

No ano seguinte encontra-se com um velho amigo, o Sr. Carlotti, proprietário de um restaurante no Boulevard des Italians, que lhe fala sobre os famosos fenômenos das mesas-girantes, acrescentando que nelas intervinham “almas de defunto”. Ele e o Sr. Roustan freqüentavam, desde 1850, a “Escola de Magnetizadores Espiritualistas” de Alphonse Cahagnet, um seguidor de Swedenborg. Embora ainda muito influenciado pelos dogmas católicos, não aceitando, por exemplo, a idéia da reencarnação, Cahagnet foi o pioneiro na introdução da evocação dos mortos nas sessões magnéticas. “O fato é bem mais extraordinário”, reagiria com interesse Rivail ao relato de Carlotti. Não somente fazem girar a mesa, quando a magnetizam, mas fazem-na falar. Interrogam-na e ela responde.” Dessa vez a reação de Rivail foi diferente: “Isto já é uma outra questão!” Apesar da empolgação do amigo, que conhecia há um quarto de século, Rivail deu-lhe um voto de confiança:


“O Sr. Carlotti era corso, de natureza ardente e enérgica. Eu sempre havia apreciado nele as qualidades que distinguem uma grande e bela alma, mas desconfiava da sua exaltação. Foi o primeiro a falar-me da intervenção dos Espíritos e contou-me tantas coisas surpreendentes que, em vez de me convencer, aumentou as minhas dúvidas. “Um dia será um dos nossos”, disse-me. Ao que respondi: “Não digo que não. Veremos mais tarde.”


Tempos depois os amigos combinam então uma visita à casa da Sra. Roger, uma sonâmbula[27] que receberia ajuda do amigo magnetizador. Lá, quatro meses depois, Rivail tem um encontro e recebe um novo convite. Era do Sr. Pâtier, um funcionário público de idade avançada, conhecido pelo seu caráter frio e uma vasta cultura; e também da Sra. Plainemaison, que lhe falam dos fenômenos de uma forma diferente, com um tom de entusiasmo por uma grande novidade. Ainda na casa de Madame Roger presencia pela primeira vez, surpreso, a evocação de um Espírito afeto do Sr. Patiêr. Rivail faz, então, a ligação entre as mesas girantes e as almas de defunto, processo que chamou de rápido progresso do Naturalismo para o Animismo até chegar ao Espiritismo. Rivail comparece à casa da Sra. Plainemaison para ver, de perto, os tais fenômenos. No texto “Minha Iniciação no Espiritismo”[28] ele registra suas indagações sobre esses acontecimentos:


“Encontrava-me, portanto, no ciclo de um fato ignoto, contrário, aparentemente, às leis da Natureza, que minha opinião não aceitava. Não tinha visto nem observado nada; experiências procedidas em presença de pessoas honradas e dignas de fé firmavam-me na possibilidade de efeito meramente material; porém a idéia de uma mesa-falante não cabia em meu cérebro”.

Tudo isso era, porém, a chave de um velho e angustiante enigma que Rivail tentava, em vão, decifrar na Filosofia e na Religião: o problema da Imortalidade. Como filósofo, o Professor queria atingir a serenidade de Sócrates e como cientista precisava equacionar a dúvida do Apostolo Tomé. Sobre sua visita à residência da Sra. Plainemaison, na mesma obra, fez o seguinte relato:


“Foi aí, também, pela primeira vez, que pude testemunhar o fenômeno das mesas-girantes, que pulavam e corriam, e isso em tais condições que não era possível nenhuma dúvida. Assisti, aí, também, a alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia, contando-se com o auxílio de uma cesta. Minhas idéias longe estavam de terem sofrido modificações, mas no que sucedia devia haver uma causa. Percebi, debaixo dessas aparentes futilidades e a espécie de brincadeira que se fazia com esses fenômenos, algo sério e como que a revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi investigar mais a fundo.”


Após as primeiras investigações, já sensibilizado pelos fenômenos, o Professor Rivail escreveria, também na mesma obra, agora já assinando Allan Kardec:


“Das primeiras conclusões de minhas observações foi constatar que os Espíritos, sendo apenas as almas dos homens, não possuíam, nem a soberana sabedoria, nem a soberana Ciência; seu saber era adstrito ao grau de sua evolução; que a opinião que emitissem tinha apenas o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade, desde início reconhecida, evitou-me o grave obstáculo de acreditar na sua infalibilidade e defendeu-me de formular teorias antecipadas, baseadas na opinião de um só ou de alguns. Somente o fato da comunicação com os Espíritos, fosse o que fosse que dissessem, provava existir um mundo invisível no ambiente; constituía já um ponto capital, um vasto campo aberto às nossas explorações, a chave de uma grande quantidade de fenômenos desconhecidos. O outro ponto, não menos importante, era entrar no conhecimento deste mundo com seus costumes, se nos podemos exprimir assim. Logo observei que cada Espírito, em virtude de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, esclarecia-me uma fase desse mundo, da mesma maneira como se pode conhecer a situação de um País, interrogando os habitantes em todas as suas classes e condições, cada um deles podendo nos fazer conhecido algum aspecto e nenhum conseguindo, por si só, ensinar-nos tudo. Àquele que observa, cumpre delinear o conjunto auxiliado por documentos recolhidos de diversos lados, colecionados, coordenados e posto entre si em confronto. Agi, portanto, em relação aos Espíritos como o teria feito com os homens: para mim, foram, desde o menor até o mais elevado, meios de obter informes e reveladores predestinados.”


ZÉPHYR E A EVOCAÇÃO DE SÓCRATES


A respeito do famoso pseudônimo que marcaria a nova carreira do Professor Rivail, o biógrafo Henri Sausse[29], baseado também em relatos das Obras Póstumas, diz que em uma de suas incontáveis noites de trabalho, através de um médium, recebeu de seu Espírito protetor a comunicação, em caráter muito pessoal, de tê-lo conhecido em uma existência anterior, em meio aos druidas que povoavam as florestas da Gália, onde usava o nome de Allan Kardec. Por sugestão desse Espírito, o Codificador passou, então, a assinar as obras espíritas com esse pseudônimo, para evitar confusão com a sua carreira de pedagogo.


A partir desses acontecimentos, começa a tomar forma a obra literária que viria abalar os alicerces das religiões dogmáticas e também abrir uma nova perspectiva para a fé no mundo Ocidental, colocando o materialismo em xeque.

O quarto encontro “casual” de Rivail foi na própria casa da Sra. Plainemaison, onde conheceu a família Baudin. Todos eram médiuns: o casal Émile-Charles e Clémantine, e as duas filhas adolescentes, Caroline e Julie. O Sr. Baudin convida Rivail para freqüentar as reuniões que promovia em sua casa, onde também predominavam os assuntos frívolos. O Espírito que lá se comunicava se identificava como Zéphyr. Tinha bom caráter, mas Rivail logo desconfia de seus limites intelectuais, bem como sua personalidade bem humorada, espirituosa e muitas vezes mordaz. Essa opinião mudaria mais tarde, quando compreendeu o papel histórico que Zéphyr representava naquele contexto. No seu entender tudo que ali se comentava era superficial e sem qualquer objetivo mais sério. Canuto Abreu[30] relata que numa das visitas de Rivail e sua esposa Amélie, Zéphyr o saudou com uma brincadeira, como fazia com todos os convidados, dando-lhe um apelido: “Salve, caro Pontífice!” Rivail entendeu que a intenção do Espírito era apenas provocar descontração no ambiente e respondeu no mesmo tom: “Minha bênção apostólica, prezado filho.” Mais tarde ficou esclarecido que Zéphyr estava enviando-lhe um sinal oculto, mostrando que Rivail tinha sido numa existência passada um chefe druida, uma espécie de pontífice gaulês no tempo de Júlio César. As meninas-médiuns Caroline e Julie Baudin também haviam vivido nas Gálias, atuando na religião druida. Segundo Edgard Armond[31], pela tradição esotérica, o druidismo é herdeiro do culto primitivo ao Sol, dos povos da Atlântida. O termo “druida” no idioma dos celtas significa “De Deus” e também “ruído que fala”, a “roc” da mesa falante, intérprete de Deus, médium. Caroline foi a principal responsável pela recepção das respostas de O Livro dos Espíritos. Também a jovem médium Ermance Dufaux, que trabalhou na segunda edição da obra havia recebido uma informação semelhante dos Espíritos de Joana D’Arc e de São Luis sobre sua existência nas Gálias: “Muitos antigos gauleses estão, no Espaço e na Terra, promovendo a reforma religiosa da França”. Ernance havia sido apresentada a Rivail por Madame de Plainemaison no dia do lançamento da primeira edição. Era médium historiadora, autora da autobiografia de São Luís. Esse elevado Espírito tinha afinidade familiar com os Dufaux desde os tempos em que vivera na Terra como rei da França, que o considerava seu Anjo da Guarda. Já o livro de Ernance, lançado em 1854, foi proibido pelo serviço de censura de Napoleão III, por julgá-lo muito análogo aos atos políticos do imperador e ofensivo à Santa Igreja. Outras obras da médium, como “A Vida de Joana D’Arc por ela mesma” também foram perseguidas, estando esta última na famosa lista de livros queimados no Auto-de-fé de Barcelona.

Porém, a presença de Rivail nessas primeiras sessões espíritas daria um outro rumo aos trabalhos. A futilidade das reuniões e a superficialidade dos assuntos e das idéias de alguns Espíritos foram sendo gradualmente substituídas por questões mais aprofundadas, previamente preparadas pelo professor. Numa das reuniões Rivail quis saber se era possível evocar o Espírito de Sócrates. Zéphyr respondeu que sim, já que os próprios pensamentos de Rivail, em sessões anteriores, haviam atraído o antigo filósofo para as reuniões. Naquele mesmo instante uma mensagem escrita por Sócrates veio em tom de advertência: “A verdadeira filosofia dos Espíritos adiantados só poderá ser revelada ao que for digno de receber A Verdade. Fica Zéphyr incumbido de dizer-me oportunamente qual dentre vocês é o mais apto.”

Percebeu-se, então, que ao mudar o tom das conversas e o sentido dos questionamentos, mudou-se o clima das reuniões e também a identidade dos Espíritos que se comunicavam. Algumas pessoas também passaram a entender a gravidade dos novos temas propostos e logo aderiram aos questionamentos filosóficos de Rivail. Outras, preocupadas com assuntos fúteis, logo se afastaram.

Tempos depois Rivail pergunta a Zéphyr se era digno da inspiração de Sócrates. O Espírito respondeu que só dependia dele. Rivail perguntou o que deveria ser feito para tanto. A resposta do Espírito foi direta: “O Bem e dispor-se a suportar, corajosamente, qualquer provação para defender a Verdade, ainda que precise beber cicuta”. Começava a ficar claro então que o Espiritismo tinha suas raízes mais remotas na filosofia grega, mais perfeita e especificamente nos ensinamentos de Sócrates e que foram difundidos, em parte, por Platão e Aristóteles. Sabe-se que esses dois famosos discípulos valorizaram muito mais os aspectos racional e político do mestre do que propriamente as suas convicções sobre a imortalidade e o sentido evolutivo da vida. Mesmo assim, “era uma delícia ver o mestre esvaziando dogmas e perfurando presunções com a afiada ponta de suas perguntas.”[32] Os textos clássicos que chegaram até nós provavelmente também sofreram alterações para adaptá-los aos pontos de vista dos pensadores dogmáticos de Roma e da Idade Média. Mas uma leitura diferenciada desses ensinamentos, sob a influência de uma nova realidade espiritual, mostra que Sócrates foi o mais autêntico precursor do Cristianismo e do Espiritismo, não somente na sua forma de pensar, mas principalmente na sua vivência e total confiança na “outra vida”. Quando Rivail solicita um contato mediúnico com o Espírito de Sócrates, não estava evocando apenas um mito da filosofia, mas a real possibilidade de dialogar abertamente com a própria Verdade. Rivail, com certeza, lembrava-se das últimas palavras que Sócrates trocou com o carcereiro Críton, pois nelas estavam registradas para sempre o segredo da sua serenidade diante da morte. Sim, o Espiritismo, quinhentos anos antes de Jesus, já estava sendo difundido pelos conceitos e exemplos luminosos de Sócrates. Mais tarde Rival colocaria esses ensinamentos na abertura de o Evangelho segundo o Espiritismo, mostrando que este era, na linha do tempo, a expressão futura dos sacrifícios que Sócrates e Jesus realizaram no passado. “Gnothi seauton” (“Conhece-te a ti mesmo”) não era apenas uma lenda filosófica; para buscar e defender a Verdade era preciso, antes de tudo, buscar a si mesmo, examinando-se, compreendendo-se, passo a passo. Essa virtude socrática seria também registrada, em caráter muito particular, pelo Espírito de Santo Agostinho, na questão 919 de O Livro dos Espíritos.

Levado pela mão do Sr. Leclerc, o “Brasileiro”, em 1856 o Professor Rivail fecha o círculo das suas novas experiências iniciáticas com um quinto encontro, quando passa a freqüentar, também, as reuniões organizadas pelo Sr. Roustan, conhecido magnetizador, e pelo Sr. Japhet, um viúvo, juntamente com sua filha Ruth Celine, médium sonâmbula. A mocinha Ruth Celine Japhet atuaria mais tarde como médium nos cansativos serviços de revisão de O Livro dos Espíritos. Recebera a revelação de que provinha de um grupo de Espíritos que pertenciam a tribos semitas, com encarnações no Egito, na Palestina, Síria, entre os mouros em Portugal e agora na França, mantendo sua ascendência oriental.

Nas reuniões com a família Baudin, Rivail já havia reunido um farto material com perguntas e respostas feitas aos Espíritos para investigação de uso pessoal. Mas nas últimas visitas tivera a idéia de transformar essas informações em um livro didático, com instruções para iniciantes no assunto. O material precisava de uma revisão e Rivail queria fazê-la com os próprios Espíritos. Estes recomendaram então que esse trabalho fosse feito em caráter particular, com mais discrição e intimidade, com o auxílio de Ruth Celine. O trabalho foi sendo feito mas nem Rivail e nem os Espíritos estavam satisfeitos com os resultados. Na verdade ele ainda estava desconfiado, pois os assuntos não estavam bem definidos e devidamente ordenados; além disso, uma única fonte mediúnica não era confiável. Rivail havia selecionado algumas questões que considerava as mais “espinhosas” e somente deu-se por satisfeito quando as submeteu a novas verificações, com a ajuda de mais de dez médiuns missionários. Muitos deles, gaulêses e druidas reencarnados, residiram como colonos no Brasil, em Santa Catarina, onde já praticavam o mediunismo doméstico. Entre eles estavam os intuitivos Japhet e Roustan; a senhora Canu, sonâmbula inconsciente e o próprio senhor Canu, médium de incorporação; a psicógrafa senhora Leclerc; a senhora Clement, médium psicógrafa e de incorporação; Madame Plainemaison, médium auditiva e de inspiração; a senhora Roger, clarividente e finalmente a jovem Aline Carlotti, médium psicografa e de incorporação. A conclusão dessa empreitada coincidiu com o casamento das meninas Baudin, que depois disso, se afastaram completamente dessas atividades. Os Baudin tinham planos para voltar para a Ilha da Reunião, uma longínqua possessão francesa na costa oriental da África, próxima a Madagascar, no Oceano Índico. Ali pretendiam explorar uma antiga propriedade rural da família. Caroline e Julie, agora casadas respectivamente com um oficial do Exército e um médico, também residiriam na fazenda. Herculano Pires[33] observa que esse fato marcou o encerramento da grande missão mediúnica das meninas Baudin que, semelhante às de Ruth Celine Japhet e Ernance Dufaux, foi marcada pelo anonimato e por um exaustivo trabalho de manter o diálogo entre Kardec os Espíritos Superiores. Estava ficando pronto o primeiro formato de O Livro dos Espíritos. Em 11 de setembro de 1856 o professor recebeu um recado rápido daqueles que ele considerava os verdadeiros autores do novo livro:


“Compreendeste bem a finalidade de teu trabalho. O plano foi bem concebido, estamos contentes contigo. Continua, mas principalmente, quando a obra estiver terminada, lembra-te de que te recomendamos imprimi-la e propagá-la: é de utilidade geral. Estamos satisfeitos e jamais te deixaremos. Crê em Deus e prossiga. – Muitos Espíritos”


O professor Rivail inicia, então, a sua nova carreira literária, publicando em 18 de abril 1857 a primeira edição de O Livro dos Espíritos, uma clara e intencional alusão histórica ao milenar O Livro dos Mortos dos egípcios. O título original, de acordo com Canuto Abreu[34], era para ter sido Religião dos Espíritos. Porém, a censura seria inevitável, visto que a Igreja se sentiria ofendida com uma nova concorrência. O novo nome teria sentido duplo: era de autoria dos Espíritos e também tratava dos Espíritos. Conhecimentos que tinham sido guardados em segredo durante dezenas de séculos, agora viriam à luz sem mistérios ou expedientes ocultos. O livro dos antigos egípcios tinha como título verdadeiro algo que poderia ser traduzido como “Fórmula para voltar à Luz”. No livro de Allan Kardec não encontramos fórmulas nem símbolos, mas dados objetivos e distantes do obscurantismo ensinado às antigas massas camponesas do Nilo. O livro egípcio, realmente, já tratava da matriz espiritual do corpo humano, que chamavam de “Kha”, mas não tinha a descrição franca e detalhada das funções do perispírito[35], revelado abertamente em O Livro dos Espíritos. Esses detalhes, como o título e o formato, eram muito importantes para a comercialização do livro. O editor tinha muito cuidado, não só com a censura, mas também com a imagem do produto. O modismo das mesas-girantes e da literatura espiritualista vulgar poderia atrapalhar as vendas. Edoard-Henri Justin Dentu, da histórica “Livraria Dentu”, recusou editar O Livro dos Espíritos porque, ao contrário de sua mãe, não soube distingui-lo inicialmente dos muitos que já estavam encalhados na sua loja. A viúva Mélanie Dentu, todavia, já tinha se comprometido com o professor Rivail, antes de consultar Edoard, em editar o livro. Mélanie já conhecia o aspecto consolador e otimista da nova obra, pois ela mesma se sentia transformada por aqueles conhecimentos. A viuvez e o ateísmo do filho, agora renovado, eram motivos de grande angústia para a prática, porém sensível empresária. Em conversa com o jornalista G. Du Chalard, do “Courrier de Paris”, no dia em que chegou o primeiro lote do livro, Edoard Dentu explicava-lhe que a obra recém chegada era realmente diferente das demais. Contou-lhe que quase havia perdido a oportunidade para outro editor se sua mãe não o forçasse a ler com mais cuidado o seu conteúdo. Depois de uma longa troca de impressões sobre os fenômenos e suas repercussões, Du Chalard recebeu um exemplar de cortesia e perguntou se poderia desancar o autor, caso a obra não lhe agradasse. O editor respondeu que isso seria, com certeza, a melhor propaganda para esvaziar as estantes. Na verdade Du Chalard não tinha dúvidas sobre os fenômenos. Quando criança viu a aparição de um Espírito cujo corpo ainda estava sendo velado próximo à sua casa. Não era fantasia nem produto do medo de criança: foi uma experiência muito real, tanto que o “morto” lhe sorria com muita naturalidade. No dia 11 de junho de 1857 ele escreveu no “Courrier de Paris”:


“O Livro dos Espíritos do Sr. Allan Kardec é página nova do próprio grande livro do infinito e, estamos persuadidos, uma marca será posta nesta página. Seria lamentável que pudessem pensar que aqui estamos a fazer reclame bibliográfico; se tal se pudesse admitir, preferiríamos quebrar a pena. Não conhecemos o autor mas proclamamos, bom som, que gostaríamos de o conhecer. Quem escreveu aquela introdução que abre O Livro dos Espíritos deve ter a alma aberta a todos os sentimentos nobres.”


Realmente, sentimentos nobres despertam boas ideias. Rivail também era médium intuitivo. Sua disposição e aptidão emocional, que hoje já é considerada um tipo de inteligência, o predispunha a receber farta inspiração mediúnica. O Espírito Zéphyr esclareceu que o Professor Rivail recebia a ideia emitida pelos Espíritos, como um raio de luz na consciência e, depois de digeri-la e filtrá-la pela razão, a comunicava como um pensamento pessoal, ao seu estilo. Essa mediunidade era, na verdade a mais natural e a que iria marcar a inteligência humana após a superação do Homem Positivo do século XIX pelo Homem Psicológico do Terceiro Milênio. Rivail já era um protótipo dessa transição.

A organização da primeira edição de O Livro dos Espíritos foi feita com todos os cuidados técnicos de impressão, encadernação, bem como sua distribuição. Ela continha 501 questões impressas em duas colunas, uma com as perguntas e a outra com as respostas dos Espíritos. A segunda edição seria publicada em 1860 pelo editor Le Doyen e o livreiro Pierre-Paul Didier. Este último tornou-se membro fundador da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas atuando ali como médium até o seu desencarne em 1865. Sobre a primeira edição, havia ocorrido um fato muito curioso, que veio reforçar a insatisfação dos Espíritos e a convicção pessoal de Kardec a respeito de tudo o que estava acontecendo tão rapidamente em sua vida. O alerta sobre um erro conceitual grave se tornaria marca inesquecível nas regras de publicação de obras espíritas, ou seja, a necessidade de manter o tratamento rigoroso na identificação da origem e interpretação das informações dadas pelos Espíritos, e também o sinal da grande responsabilidade da sua tarefa.


“Em 25 de março de 1856, Allan Kardec estava em seu gabinete de trabalho, prestes a compulsar as comunicações e organizar O Livro dos Espíritos, quando escutou repetidas pancadas no tabique; investigou, sem encontrar, a causa disso, e voltou a entregar-se à obra. Sua mulher, tendo entrado por volta das dez horas, escutou os mesmo ruídos; procuraram, mas inutilmente, o lugar de onde provinham. Residiam, então, na rua dos Mártires, 8, segundo andar, ao fundo. No dia imediato, sendo dia de sessões em casa do Sr. Baudin, escreve Allan Kardec, narrei o acontecido e pedi explicação dele.

P. – Ouvistes o fato que acabo de contar; podereis explicar-me a razão dessas pancadas que se fizeram ouvir tão insistentemente?

R.- Era o teu Espírito familiar.

P. – Com que finalidade vinha bater assim?

R. – Desejava pôr-se em comunicação contigo.

P. – Podereis dizer-me o que desejava ele?

R. – Podes dirigir a ele mesmo a pergunta, porque está presente.

P. – Meu Espírito familiar, quem quer que sejais, agradeço-vos por virdes visitar-me. Quereis ter a bondade de esclarecer-me quem sois?

R.- Meu nome para ti é A Verdade, e todos os meses, por um quarto de hora, aqui estarei, ao teu dispor.

P.- Ontem, quando batestes, no momento em que eu trabalhava, tínheis algo de particular a dizer-me?

R.- O que pretendia dizer-te, relacionava-se com o trabalho que realizavas; o que estavas escrevendo me desagradava e eu desejava que parasses.


Nota. – O que eu escrevia era, exatamente, referente aos estudos que fazia a respeito dos Espíritos e suas manifestações.


P – A vossa desaprovação dizia respeito ao capítulo que eu escrevia, ou ao conjunto do trabalho?

R- Ao capítulo de ontem; faço-te o juiz dele. Relê esse capítulo esta noite; descobrirás os erros nele e os corrigirás.

P – Mesmo eu não estava muito contente com esse capítulo e hoje o refiz. Está melhor?

R – Está, porém não muito bom. Lê da terceira à trigésima linha e encontrarás um grave erro.

P- Rasguei aquele que ontem fizera.

R – Não importa. Essa destruição não impede a subsistência do erro. Relê e verás.

P- A alcunha de Verdade que adotais é uma alusão à verdade que eu busco?

R- Quiçá, ou, pelo menos, é um guia que te auxiliará e protegerá.

P – É-me permitido evocar-vos em minha casa?

R- Sim, para que eu possa assistir-te pelo pensamento; porém, no tocante a respostas escritas em tua casa, não será tão breve que as conseguirás.

P- Podereis vir mais assiduamente do que todos os meses?

R- Sim, porém, não prometo senão uma vez por mês, até nova ordem.

P- Animastes algum personagem conhecido na Terra?

R – Disse-te que era para ti a Verdade, e isso requer discrição da tua parte; não saberás além disso”.


De regresso à sua casa, Allan Kardec deu-se pressa em reler o que escrevera e verificou, assim, o grave erro que cometera. A distância de um mês marcada para cada comunicação do Espírito de Verdade, poucas vezes foi mantida. Ele se manifestou com freqüência a Allan Kardec, não em sua casa, porém, onde por espaço de um ano não pôde receber comunicação alguma, por nenhuma espécie de médium e, sempre que esperava conseguir algum resultado, era detido por uma causa qualquer e inesperada, que se opunha a isso.”

A tradição lendária – utilizando a expressão de Canuto Abreu para conceituar esses registros da tradição oral a respeito dos trabalhos da Codificação – conta que Rivail, antes de dirigir-se à Livraria Dentu, havia lido em casa uma sugestiva nota de jornal falando da presença da famosa George Sand (Aurore Dupin) em Paris. “La Sand”, com o era conhecida a grande escritora feminista, viera especialmente de Nohant , em longa excursão feita de carruagem, para assistir a peça “Demi Monde”, da qual faria sua prestigiada crítica teatral. Rivail e Sand eram velhos conhecidos, desde os tempos de estudos de magnetismo e das primeiras reuniões de mesas-girantes, bem como de animadas conversas sobre as novidades do espiritualismo. Foi então que ocorreu ao professor que a amiga poderia tomar conhecimento da síntese das suas últimas pesquisas. Sobre esses acontecimentos, hoje de valor inestimável para a memória do Espiritismo, há uma curiosa revelação feita pelo médium Francisco Cândido Xavier, transmitida em conversa informal e assim anotada por Suely Caldas Schubert[36]:


“(...) E assim foi que, andando pelas ruas de Paris, com o primeiro exemplar do livro nas mãos, e por isso, pleno de alegria, o professor avistou a carruagem de Sand, reconhecendo-a em seu interior. Imediatamente acenou e, cumprimentando-a, disse:

- Madame Sand, venho oferecer-lhe o primeiro livro da Doutrina dos Espíritos! Ao que ela retrucou:

- Ah, professor Denizard, - ela assim o chamava – eu sei que o senhor está fazendo experiências verdadeiras. Eu mesmo sou delas testemunha , porque desde quando muito jovem, abservava alguém , um vulto, a me acompanhar o tempo todo, a me espreitar! De pequena, lutei muito para que os demais compreendessem o que se passava comigo, mas em vão!... Bem, não nos importemos com as incompreensões e sigamos avante!... O senhor está de parabéns, professor!


O professor Rivail agradeceu-lhe a acolhida fraterna, dizendo-lhe que estimaria muitíssimo ver sua apreciação da obra. “La bonne dame de Nohan” respondeu-lhe afável:


- Professor Denizard, guarde para si este exemplar, do qual não sou digna. Alegrar-me-ei bastante em opinar sobre ele mais tarde, quando o tempo me permitir. Atualmente, tenho a vida atribulada de compromissos. Prometa enviar-me outro volume posteriormente.


A 20 de maio do mesmo ano, Allan Kardec endereçava-lhe expressiva carta, com um exemplar de “ O Livro dos Espíritos”, em anexo. Madame Sand leu a obra com atenção e, três meses depois, procurando o amigo falou-lhe:


- Professor Denizard, gostaria muito de acompanhá-lo em suas demandas por estas idéias renovadoras de nosso mundo, mas sinto que somente iria atrapalhar seu livre desenvolvimento. Minha condição de mulher, com conceitos e comportamentos revolucionários, não ajudaria em nada a verdade que esta filosofia representa. Recuso-me, pois, a escrever qualquer artigo sobre este livro de luz. Eu, certamente, apenas contribuiria para nobel. Conto com a sua compreensão e prometo, outrossim, colaborar com o senhor no que estiver ao meu alcance.

Dez anos mais tarde, na edição de janeiro de 1867 da Revista Espírita, sob o título “Os Romances Espíritas”, Allan Kardec comentaria, da seguinte forma, algumas obras literárias de George Sand: “Em Consuelo e na Comfesse de Rudolf-State, da Srª George Sand, o princípio da reencarnação representa papel capital. O Drag, da mesma autora, é uma comédia representada, há alguns anos, no Vaudeville, cujo enredo é inteiramente espírita”. Kardec igualmente comentaria ser a obra Mademoiselle de La Quintine, de Sand, uma obra que encerrava pensamentos eminentemente espíritas.

Allan Kardec e George Sand novamente se encontraram, em 18 de abril de 1957, cem anos decorridos sobre aquele encontro nas ruas de Paris e, desta vez, despojados da veste corporal.

George Sand foi um dos espíritos de elite que compareceu à grande solenidade espiritual, em homenagem a Allan Kardec, levada a efeito na Vida Maior por ocasião do primeiro centenário do livro”.



CONTRA O TOTALITARISMO


Em 1858 Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e a Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, entidade e veículo, pelos quais estabeleceu importantes relações e um valioso sistema de comunicação com vários países. Através da Sociedade e da Revista fez inúmeros contatos e empreendeu diversas viagens de conferências, estimulando a criação de novos núcleos espíritas. Em 1861, dando seqüência a um plano, do qual inicialmente não tinha ainda noção completa de conjunto, publica O Livro dos Médiuns. Em 1864 nasce O Evangelho Segundo o Espiritismo; em 1865, O Céu e O Inferno; e em 1868, conclui o seu “Pentateuco” com A Gênese. Aqui se torna mais explícito ainda o aspecto ideológico da comunicação dos Espíritos. A intenção é claramente romper, juntamente com a tendência científica e artística de sua época, a estrutura ideológica totalitária do catolicismo - o principal obstáculo institucional e psicológico -, construído secular e lentamente junto aos Estados feudais e às monarquias absolutistas. Contestar o totalitarismo católico não era coincidência de uma simples incompatibilidade religiosa. Como observou Canuto Abreu[37], quando do advento do Spiritualism na América do Norte, a Igreja Católica já havia declarado Guerra Santa aos fenômenos e reagido com a mesma ferocidade com que foram tratadas as principais heresias históricas:


“Notando que os liberalistas, os abolicionistas, os socialistas e numerosas seitas protestantes ou livres (Unitarismo, Universalismo, Cambellismo, Adventismo, Hickitismo, Quakerismo, Shakerismos, Swedenborguismos) e vários ministro metodistas, batistas, presbiterianos e luteranos proclamavam pela imprensa, pelos livros, pelas conferências públicas que a Manifestação do Espíritos ‘era realidade absoluta’ e constituía ‘aviso divino de próxima revelação religiosa, com transformação social e política do Mundo’, a Igreja católica declarou-se em perigo”


Tratava-se de uma conseqüência natural das raízes filosóficas a que se liga o Espiritismo. O período histórico vivido por Allan Kardec era altamente favorável a uma contestação radical e contundente das tradições políticas e culturais. Tanto na Europa quanto na América, a idéia de liberdade de pensamento e expressão estava associada, primeiramente, à religião e ao culto. A Igreja Católica chegou a exercer uma espécie de Estado de mídia total, um canal de completo controle social e ideológico sobre as sociedades européia e colonial; a religião e o culto foram, durante séculos, sinônimos de monopólio e coação. A idéia do “crê ou morre”, amplamente praticada pela Inquisição, pelas guerras religiosas e pelas conquistas coloniais, deu ao culto religioso um estigma de inimigo da liberdade individual. Ela se posicionava como o canal único de comunicação religiosa, em todos os sentidos.

Lembremos o tipo de controle exercido pelo clero sobre a sociedade feudal[38] e que se propagou como modelo no mundo todo. Para exercer domínio efetivo, de forma total, na vida individual e coletiva das pessoas a Igreja atuava psicologicamente no controle e na manipulação do tempo. Para cada momento da vida humana criava-se uma situação ritual de estreito vínculo ideológico que aprisionava o indivíduo ao sistema vigente: para o nascimento havia o Batismo; para a infância a Crisma; para a adolescência a Consagração; para a vida adulta o Casamento e as Bodas; e, finalizando o tempo pessoal, com a morte, a Extrema-unção e as Missas de Finados. Na vida social e política o tempo era controlado pela identificação de cada dia do ano com os santos, com as cerimônias religiosas em todas as datas e eventos marcantes, incluindo os conflitos militares como as “ guerras santas” e as “tréguas de Deus”. Num plano psicológico e cultural mais abrangente ainda, a Igreja estabeleceu que o tempo histórico deveria ser compreendido entre três marcos sacralizados que coincidem com o ciclo biológico do corpo humano: nascimento com a Gênese do Mundo; desenvolvimento do corpo com o Natal e a Crucificação de Jesus; e finalmente a morte com o Apocalipse e o Juízo Final.

Não foi coincidência que a Igreja Católica, assim como foi dos regimes absolutistas, seria, posteriormente, também a maior fonte inspiradora dos Estados totalitários erigidos pelos regimes nazi-fascistas do século XX. A Gestapo e as tropas S.S. nazistas, cuja ferocidade e requintes de crueldade ajudaram a eliminar mais de seis milhões de judeus e outros tantos milhares de inimigos do regime, foram, claramente, inspiradas na organização estrutural e administrativa da Companhia de Jesus e da polícia ideológica da Santa Inquisição e do Tribunal do Santo Ofício. Nem é preciso lembrar as semelhanças dos métodos de acusação e interrogatório dos suspeitos de infidelidade ideológica. Outra semelhança entre o regime nazi-fascista e o mandato político da Igreja Católica é o simbolismo visual. O nazi-fascismo aprendeu com a Igreja Católica os segredos da comunicação de massa, transformando a política num espetáculo coletivo, dando sentido estético e ritual aos seus princípios ideológicos. Os gigantescos e impressionantes comícios, comandados por Hitler e Mussolini, nada mais eram do que grandes missas campais, onde tudo era calculado e previamente desenhado por arquitetos da comunicação visual engajados na propaganda totalitária. Quem assiste ao clássico da propaganda ideológica O Triunfo da Vontade, da cineasta alemã Lenni Riefesthal, logo percebe que Hitler deve tornar-se o novo objeto de desejo sacralizado das massas fanáticas. No filme, minutos antes de um colossal comício em Nuremberg, em 1933, um avião aparece em meio às nuvens, trazendo o ditador sob a envolvente trilha musical de “A Cavalgada das Valquírias”; o som agressivo da obra de Wagner lembrava o público que as amazonas da mitologia germânica insinuava que Hitler já tinha lugar reservado no paraíso (“Valhala”), pois era o messias da salvação nacional alemã. Ele desfila pelas ruas sob a ovação desvairada da multidão, hipnotizada pela estética sacro-militar do evento. Os cerimoniais políticos são, cuidadosamente, projetados pelo arquiteto Albert Speer, e a maioria deles acontecem à noite, sob a luz de tochas, bem ao estilo medieval, lembrando uma típica comunidade umbralina do Plano Espiritual Inferior, anti-crística, comprometida com o mal; a diferença é que estão todos vivendo no plano físico da carne, numa Europa com um futuro bem sinistro. Tudo indica que, neste novo cenário, essa multidão de desesperados reencontra um antigo e conhecido chefe supremo para uma nova jornada de ódio e vingança. Hinos altamente emotivos são executados como prenúncios da dor e da morte. Discursos são pronunciados como se os oradores estivessem sob controle mediúnico de forças espirituais satânicas; isso pode ser percebido nas expressões faciais e gestos de Hitler e de seus principais asseclas: Joseph Goebbels, Heinrich Himmler, Hermann Goring e Rudolf Hess. Todos eles demonstram excelentes dons de oratória na sedução das massas. No universo das cores predominam o preto e vermelho, símbolos da dualidade humana, tons sempre muito utilizados nos trajes sacerdotais católicos. Não era coincidência; era puramente intencional. A omissão da Igreja e do papa na questão do massacre aos judeus nos campos de concentração também não foi uma coincidência, mas claramente uma identificação e conivência ideológica com o nazismo[39]. Afinal, os judeus eram para os alemães de “raça pura” e para os católicos “donos absolutos da verdade”, o povo eleito e, portanto, concorrente na preferência de Deus e de Jesus. Wilhelm Reich[40] lembra que o misticismo funcionou como o principal pré-requisito para a absorção da ideologia fascista pelas massas e que esse contágio vai ser possível através de uma profunda associação dos elementos ideológicos do nacional-socialismo com a Igreja.


“O nacional-socialismo começou por rejeitar o Antigo Testamento, por ser “judeu” – assim fez, pelo menos na pessoa do seu conhecido representante Rosemberg, que pertencia à sua ala direita. Da mesma maneira, o internacionalismo da Igreja Católica Romana era considerado judeu”. A Igreja Internacional devia ser substituída pela “Igreja Nacional Alemã”. A pós a tomada do poder a Igreja foi, na realidade, colocada na linha. Isto reduziu o seu campo de atuação política mas, em contrapartida, alargou consideravelmente a sua influência ideológica. Era necessário evitar a todo custo uma identificação do Deus judeu com a Santíssima Trindade. O fato de Jesus Cristo ser judeu era um pouco melindroso. Mas Stapel encontrou rapidamente uma solução: como Jesus era filho de Deus, não podia ser considerado judeu. Os dogmas e as tradições judaicos deviam dar lugar à experiência da consciência individual; a remissão dos pecados ao conceito de honra pessoal”


Reich lembra ainda que, no dogma da Santíssima Trindade, os fascistas encontraram um suporte eficiente para desencadear um sistema de repressão e atrelamento das massas aos seus objetivos políticos. Ele explica, através da psicanálise, que a nossa idéia de Deus está associada dogmaticamente à idéia de pai e que a Mãe de Deus se identifica com a de mãe de cada um dos adeptos religiosos, sendo a Trindade um reflexo do triângulo familiar pai, mãe e filho. Isso significa que os conteúdos psíquicos da religião dogmática estão enraizados nas relações familiares desde a infância e que o desenvolvimento psicológico, sobretudo no aspecto sexual, ocorre sob um rígido controle e negação de necessidades naturais e instintivas que poderiam macular a crença e o dogma. Aqui podemos compreender porque as religiões dogmáticas sempre tiveram o sexo como centro principal da sua moralidade e da sua estrutura político-sacerdotal: o pecado original, a discriminação da mulher, a culpa e a punição pela satisfação dos desejos, a confissão, o celibato clerical, enfim tudo que negasse a natureza e espontaneidade e, ao mesmo tempo facilitasse a repressão e o controle social dessas tendências humanas. Essa foi a causa do interesse do nazi-fascismo pela Igreja e pela sua experiência política.


“A idéia básica de todas as religiões patriarcais é a negação da necessidade sexual. Não há exceções, se não levarmos em conta as religiões primitivas que aceitavam a sexualidade, nas quais a experiência religiosa e a experiência sexual constituíam ainda uma unidade. Na transição da uma sociedade de uma organização matriarcal, baseada na lei natural para uma organização patriarcal baseada na divisão de classes, perdeu-se essa unidade entre o culto religioso e o culto sexual; o culto religioso transformou-se na antítese do culto sexual. Assim, deixa de existir o culto sexual, para dar lugar à subcultura dos bordéis, da pornografia e da sexualidade clandestina. Não é necessário apresentar mais provas para o fato de que, no momento em que a experiência sexual deixa de constituir uma unidade com o culto religioso, transformando-se no seu oposto, excitação religiosa passa a ser forçosamente um substituto para a sensualidade perdida anteriormente aceito pela sociedade. Só esta contradição inerente à excitação religiosa, que é simultaneamente anti-sexual e um substituto da sexualidade, é capaz de explicar a força e a persistência das religiões”.


Apesar do enfoque psicanalítico pouco ortodoxo e sexualista que Reich dá à sua visão de mundo, esse autor revela uma faceta importante da nossa formação cultural e psicológica. É claro que não podemos colocar a saúde sexual, de acordo com a sua ênfase teórica, como a solução de todos os problemas humanos, já que, na perspectiva espírita e espiritualista, o sexo é apenas um meio e não fim. Reich também confunde misticismo com dogma, que são coisas afins, porém distintas. Ao negar os dogmas, o Espiritismo devolveu à religião e ao misticismo o seu aspecto natural, puro e espontâneo. O sexo também passa a ser visto com naturalidade, totalmente desvinculado do culto exterior, da culpa, das superstições e da associação equivocada com o deísmo da trindade familiar ou qualquer outra expressão dogmática. Trata-se de um instrumento de evolução anímica, que dá impulso ao Espírito através da combinação de várias leis da Natureza ou divinas como a lei do gênero, a lei da polaridade, da relatividade, do ritmo, da ordem e equilíbrio, das múltiplas existências, etc. Para o Espiritismo, na sua essência e no plano da Criação, a individualidade do Espírito não tem sexo como expressão de gênero; o sexo só existe no plano da manifestação, no aspecto físico e mental, enquanto condição evolutiva. Nesse plano da manifestação biológica, em múltiplas reencarnações, somos todos bissexuais: ora podemos nos manifestar pelo gênero masculino, ora pelo gênero feminino, de acordo com as necessidades de reprodução e realização de experiências (provas e expiações). A antiga e aparentemente inútil discussão em torno do “sexo dos anjos” da teologia medieval, é um exemplo de como a religião e o sexo estavam sempre no centro das preocupações do homem.


Diz Reich, novamente:

“O prazer sexual foi, originalmente, como é natural, algo bom, belo e agradável, em suma, aquilo que unia os homens à natureza de modo geral. Com a separação entre o sentimento religioso e o sentimento sexual, este teve de transformar-se em algo mau, infernal e diabólico.

(...) Em nenhuma classe social florescem as histerias e a perversões, tanto como acontece nos círculos ascéticos da Igreja. Mas isto não nos deve levar à conclusão errada de que esses ascetas devem ser tratados como criminosos perversos. Conversas com pessoas religiosas revelam que estas compreendem muito bem a sua própria condição. Tal como em todos os seres humanos, a sua personalidade está dividida em duas partes: a oficial e a privada. Oficialmente, consideram a sexualidade como um pecado: mas, pessoalmente, sabem que não podem existir sem satisfações substitutas.”


Pode-se concluir, a partir disso, que o exercício do totalitarismo da Igreja Católica sempre esteve associado aos princípios dogmáticos:


“A Igreja, travando sempre que pode o combate contra a sexualidade, e chegando a colocá-la no centro dos seus dogmas e no primeiro plano dos seus processos de atuação sobre as massas, apenas vem reforçar a veracidade desse ponto de vista.”


O Espírito Miramez relata, ainda, que a estranha cidade sempre foi governada pela coalizão de quatro forças políticas tenebrosas que já se manifestaram em nosso planeta, por força e necessidade da Lei de causa e efeito, em personalidades como, Gengis Khan, Adolf Hitler e outros campeões da crueldade e desequilíbrio coletivo. Também o Espírito de André Luiz, cujo estilo de revelação sempre foi mais moderado e mais aceito pela ortodoxia Espírita, na obra Libertação[41], mostra todas as evidências de que o personagem “Gregório”, o príncipe de uma dessas comunidades do mundo espiritual inferior e agente de confiança dos Espíritos “dragões” (os mais antigos líderes dessas comunidades), foi ninguém menos do que um conhecido sacerdote medieval da mais alta hierarquia com o mesmo nome. Em outro livro, publicado no final do século XIX e denominado “Perdôo-te” (“Memórias de um Espírito”)[42], ditado pelo médium falante Eudaldo Pagés e codificado pela escritora espanhola Amália Domingo Y Soler, a personagem principal, que tudo indica ter sido Maria de Magdala e posteriormente Santa Teresa d’Ávila, mostra, sem rodeios, que os mesmos sacerdotes que condenaram Jesus à pena de morte, milênios antes, já haviam condenado o missionário atlante Antúlio de Maha-Ethel, portador das mesmas idéias cristãs. Esses mesmos pervertidos sacerdotes reencarnaram nas lides mais influentes do clero judaico e mais tarde da Igreja, para comandar a deturpação do Evangelho na antiga Casa do Caminho, de Pedro, agora transformada no palácio de poder e luxúria.

Revelações à parte, verídicas ou não, como vimos, Allan Kardec estava destinado a empreender uma grande batalha, não só contra os vícios da religião terrena, mas também neutralizar as poderosas influências negativas que partem do mundo espiritual. Essa tarefa não foi para ele nenhum sacrifício excepcional, pois, como Espírito maduro e experiente, conhecia bem de perto as tramas e artimanhas das conspirações dos seus inimigos. Há informações[43], também mediúnicas, de que Allan Kardec já havia militado no seio da Igreja Católica, animando a personalidade de Jan Huss, o sacerdote precursor da Reforma na Boêmia, que morreu queimado numa fogueira, após uma traição e julgamento por um tribunal do Santo Ofício.

Mas a vida dá inúmeras voltas...


APÓSTOLOS DA IDEIA

Voltemos a Lyon. Em 19 de setembro de 1861, a comunidade espírita da cidade natal do Codificador lhe oferece um banquete, bem à moda da época, no qual se combinava o bom gosto da gastronomia, a fraternidade e a cultura. Durante o evento Allan Kardec agradece a recepção calorosa das 160 pessoas presentes, a maioria deles operários. Nos discursos de boas vindas falaram o Sr. Dijoud, chefe de oficina, o Professor Bouillant e Allan Kardec. Na mesma ocasião foi lida a “Epístola de Erasto aos Espíritas Lyoneses”.[44] O documento é revelador e mostra como os Espíritos estão atentos a tudo o que acontece no Movimento. Para enfrentar a tradição vigente mostram a história e as verdadeiras raízes da cristandade; para questionar o imediatismo materialista falam sobre a relatividade do tempo e a relação de causa e efeito entre o passado, o presente e o futuro; alertam que a divisão e a fraqueza do movimento estão no caráter humano e não na Doutrina em si; alertam para o critério racional na relação com os Espíritos e finalmente chamam a atenção de que o que está acontecendo é uma luta aberta contra inimigos visíveis e invisíveis cujo resultado só depende do principal fator que move a sociedade humana: o livre-arbítrio. O Espírito Erasto[45], autor da carta, foi um antigo discípulo de São Paulo, residente em Corinto. É citado nas epístolas aos Romanos (16:23) como “ecônomo” ou tesoureiro da cidade, a Timóteo (4:20) e nos Atos (19:22). Bem ao estilo do seu Mestre, o Espírito que ali compareceu a convite de João e Irineu, os guias espirituais daquele grupo, sabia que o momento era histórico e que uma preciosa fonte documental estava sendo criada para uso das gerações espíritas futuras.


“(...) Ah! Esses ágapes despertam em meu coração a lembrança daqueles tempos em que nos reuníamos, há mil e oitocentos anos, quando combatíamos contra os costumes dissolutos do paganismo, e quando já comentávamos os ensinos e as parábolas do Filho do Homem, morto, para a propagação da idéia santa, sobre a árvore da infâmia. Meu amigos, se o Altíssimo, por efeito de sua infinita misericórdia, permitisse que a lembrança do passado pudesse brilhar um instante em vossa memória entorpecida, recordar-vos-íeis dessa época, ilustrada pelos santos mártires da plêiade lyonesa: Sanctus, Alexandre, Attale, Episode, a doce e corajosa Blandine, Irineu, o bispo audaz, dos quais muitos de entre vós então formáveis cortejo, aplaudindo seu heroísmo e cantando louvores ao Senhor; também vos lembraríeis de que vários dos que me ouvem regaram com o seu sangue a terra lyonesa, esta terra fecunda que Eucher e Gregório de Tours chamaram ‘a pátria dos mártires’. Não os nomearei; mas podei considerar os que, em vossos grupos desempenham uma missão, um apostolado, como tendo sido mártires da propagação da idéia igualitária, ensinada do alto do Gólgota, pelo nosso Cristo bem-amado! Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos que a vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo, como a hera enlaça o carvalho; deveis, pois, espalhar entre os vossos irmão infelizes, escravos de suas paixões e das paixões alheias, a sã e consoladora doutrina que meus amigos e eu viemos vos revelar, por nossos médiuns de todos os países. Não obstante constatamos que os tempos progrediram; que os costumes já não são mais os mesmos e que a Humanidade cresceu; porque hoje, se fôsseis vítimas de perseguição, esta não emanaria mais de um poder tirânico e invejoso, como ao tempo da Igreja primitiva, mas de interesses coligados contra a idéia e contra vós, os apóstolos da idéia.

(...) Não podeis acreditar quanto é doce e agradável presidir ao vosso banquete, onde o rico e o artífice se acotovelam brindando à fraternidade; onde o judeu, o católico e o protestante podem sentar-se à mesma comunhão pascal. Não podeis crer quanto me sinto orgulhoso de vos distribuir, a todos e a cada um, os elogios e o encorajamento que o Espírito Verdade, nosso bem amado mestre, me ordenou conferir às vossas coortes.

(...) Lembrai-vos, meus amigos, que o Cristo escolheu seus apóstolos entre os últimos dos homens, e que estes, mais fortes que os Césares, conquistaram o mundo para a idéia cristã. A vós, pois, incumbe a obra santa de esclarecer vossos companheiros de fábrica, e de propagar nossa sublime doutrina, que faz os homens tão fortes na adversidade, para que o espírito do mal e da revolta não venha suscitar o ódio e a vingança no coração dos vossos irmão ainda não tocados pela graça espírita.


(...) Meus bons amigos, aqui me dirijo a todos os Espíritas, a todos os grupos, a fim de que nenhuma cisão, nenhuma dissidência, nenhum cisma surjam entre vós, mas, ao contrário, uma crença solidária vos anime e vos reúna a todos, pois isto é necessário ao desenvolvimento da nossa doutrina benfeitora. Sinto como que uma vontade que me força a vos pregar a concórdia e a união, pois nisto, como em tudo, a união faz a força e tendes necessidade de ser fortes e unidos, para fazer frente às tempestades que se aproximam. E não só tendes necessidade de união entre vós, mais ainda com os vossos irmãos de todas as regiões. Por isso vos exorto a seguirdes o exemplo que vos deram os Espíritas de Bordeaux, cujos grupos particulares formam, todos, os satélites de um grupo central, o qual solicitou entrar em comunicação com a Sociedade iniciadora de Paris, a primeira a receber os elementos de um corpo de doutrina e lançar as bases sérias para os estudos do Espiritismo, que todos nós, Espíritas, professamos no mundo inteiro. Sei que aquilo que vos digo não ficará perdido; aliás estou me referindo inteiramente aos conselhos que já recebestes, e ainda recebereis, dos vossos excelentes guias espirituais, que vos dirigirão nesta via salutar, pois é necessário que a luz vá do centro para a periferia e desta para o centro, a fim de que todos aproveitem e se beneficiem dos trabalhos de cada um. Aliás, é incontestável que, submetendo ao cadinho da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, fácil será repelir o absurdo e o erro (...) Esperamos muito da província lyonesa, e sabemos que não faltareis, nem uns nem outros, às vossas respectivas missões. Lembrai-vos de que o Cristianismo, trazido pelas legiões cesaristas lançou, há quase dois mil anos, as primeiras sementes da renovação cristã em Viena e Lyon, de onde se propagaram rapidamente à Gália do Norte. Hoje o progresso deve realizar-se numa radiação nova, isto é, do Norte ao Sul. À obra, pois, lyoneses, é preciso que a verdade triunfe, e não sem uma legítima impaciência que esperamos a hora em que soará a trombeta de prata, que nos anunciará o vosso primeiro combate e a vossa primeira vitória.”



A FÚRIA DO CLERO

“Ah! A Igreja Romana! A Igreja Romana! O Cristianismo nunca terá tido tão formidável inimigo! O materialismo nunca terá aliado tão prestimoso!” - Adolfo Bezerra de Menezes, - “Reformador”, 1892.


Na sua nova carreira de pesquisador, Allan Kardec granjeou muitas simpatias e amizades, mas também atraiu uma grande soma de inimizades e antipatias, sobretudo do clero católico, que se mostraria muito incomodado e agressivo com as repercussões filosófico-religiosas das obras Espíritas. Se os conceitos de Darwin, Spencer, Marx ou Nietzsche poderiam ser classificados como “hipóteses” ou, ainda que respeitáveis, meros pontos de vista, a obra de Kardec tinha algo mais que as outras não tinham: os fatos. E contra fatos, não há argumentos. Um dos pontos mais delicados desses conceitos factuais foi que, além dos dogmas, o Espiritismo questionou um dos pilares no qual a Igreja vinha se apoiando há séculos: cristianismo e Igreja são sinônimos de raízes históricas? A resposta é não! A Igreja e a estrutura sacerdotal romana e bizantina, sim, são sinônimos históricos, porque se apropriaram do cristianismo com finalidades políticas. Essas igrejas sempre divulgaram uma falsa informação histórica de que São Pedro foi o primeiro papa ou patriarca[46]. O Apóstolo Pedro foi um dos líderes de uma comunidade cristã primitiva que nada tem a ver com as igrejas romana ou a de Bizâncio. Jesus o investiu simbolicamente como “pedra fundamental” como um exemplo de potencialidade de liderança e transformação moral e não como um cargo. A palavra “igreja” significava “comunhão coletiva de sentimentos cristãos”. O papado foi um resgate e uma adaptação de uma antiga instituição religiosa romana, feita pelo imperador Focas, no ano 607, que já existia muito antes do Cristianismo. Os “pontífices” foram os primeiros empreendedores ou construtores de pontes, cuja ação técnica e política promovia a ligação entre os povos de Roma[47]. Tudo indica que o termo foi sendo adaptado para as práticas católicas, na medida que o império desaparecia, adquirindo inicialmente o significado de “uma ponte” para depois assumir o aspecto de “ponte única” entre a Terra e o Céu. Muito antes de Bonifácio receber o título de “Bispo Universal”, os políticos republicanos de Roma disputavam esse “status” de “Pontifex Máximus” e também “Rex Sacrorum” bem antes dos cristãos chegarem a Roma. Júlio César iniciou sua carreira política no Colégio de Sacerdotes e alcançou o cargo de Sumo Pontífice, o que equivale ao papa da Igreja. Júlio César foi papa. Pedro, o Apóstolo nunca foi papa. O próprio historiador católico Mário Curtis Giordani[48] lembra que Augusto só se sentiu dono de Roma quando conseguiu suceder a Lépido como “Pontifex Máximus”.

Outro equívoco é a idéia de que o Apóstolo Paulo foi o idealizador da Igreja. Que Igreja? A de Jesus ou a de Roma e Bizâncio? Paulo também via a igreja como um sentimento comum entre os cristãos e não a estrutura sacerdotal hierárquica. Suas epístolas, mesmo sendo adulteradas para beneficiar esses interesses institucionais, ainda preservam esse conceito de espírito comunitário, típico da histórica Casa do Caminho. Mesmo João Evangelista, no Apocalipse, fala das igrejas sempre com um significado simbólico, bem diferente daquele que os católicos e ortodoxos entendem e divulgam como verdades históricas. Nesse aspecto, os protestantes avançaram um pouco mais do que eles.

Essa visão da autenticidade mais remota da história cristã não é uma novidade do Espiritismo; os precursores da Reforma, Jonh Wycliffe e Jan Huss, e o próprio Matinho Lutero tinham essa convicção. Mas, com o passar do tempo, os protestantes foram perdendo essa referência, exatamente porque caíram nas mesmas tendências institucionais dos romanos. É muito interessante como a História pode servir de instrumento ideológico, porém como uma faca de dois gumes: pode falsificar a verdade, com o nome de “tradição”, mas também pode ferir aqueles que dela fizeram mau uso. Em todas as instituições, sobretudo as religiosas, a História tende a ser objeto de monopólio de algumas pessoas ou grupos interessados em manter o poder. Isso é histórico. No século XIX, ela também ganha o status de ciência positiva, fundamentada em documentos ou provas. Allan Kardec e os Espíritos estavam em sintonia com essas novas tendências da historiografia e dela fizeram uso amplo, para desmascarar ou restabelecer importantes conceitos sobre as verdadeiras raízes do Cristianismo. Os próprios Espíritos alertaram que essa postura causaria, e ainda vem causando, danos irreversíveis ao catolicismo.

Para solucionar tal problema, a Igreja acionou um velho recurso católico, sempre utilizado, quando todos os outros recursos, incluindo o mito de Satanás[49], se esgotavam: a ameaça de Excomunhão e a violência da Santa Inquisição. Tudo aquilo que a Igreja não considera “histórico” ou referente à sua “tradição” ela chama de “heresia”, que em grego significa “pensamento autônomo”. Essa foi uma das principais marcas da sua intolerância para com os não católicos; essa herança havia sido recebida do judaísmo ortodoxo, sobretudo dos fariseus, propagando-se cultural e psicologicamente nos séculos seguintes entre todos os grupos cristãos, inclusive alguns espíritas.

A perseguição clerical contra o Espiritismo foi iniciada na França e logo propagada por todos os lugares abrangidos pelos extensos tentáculos da Igreja, no Brasil, inclusive. Aqui, por sinal, o Espiritismo ganharia força de instituição federativa já em 1884, estimulado pelas perseguições, fato que, de certa forma, protegeu legalmente a difusão da Doutrina no País.


O AUTO-DE-FÉ DE BARCELONA


Mas o principal e mais histórico acontecimento que evidenciou essa agressividade do clero contra o Espiritismo foi o “Auto-de-fé de Barcelona”, ocorrido em 9 de outubro de 1861. A pedido de um livreiro estabelecido em Barcelona, Allan Kardec enviou para a Espanha um lote de diversas obras e brochuras espíritas, num total de 300 volumes. O livreiro era Maurice Lachâtre, um conhecido editor, perseguido na França por publicar obras que atentavam contra as tradições religiosas católicas que, estranhamente, buscara exílio na Península Ibérica. Se a França e Lyon entraram para a história como focos de contestação e resistência ao catolicismo, a Espanha era o próprio catolicismo forjado no Estado. Ali estava um dos mais rígidos pilares que transformaram o cristianismo num dogma fossilizado, mudo e fechado em si mesmo. Era necessário fazer algo que mudasse esse clima psicológico medieval, revirasse a terra para que uma nova semente pudesse brotar naquele solo endurecido com sangue e fanatismo. Os Espíritos estavam muito atentos para esse momento decisivo. A remessa de livros foi interceptada pelo Bispo local, que ordenou, que as obras fossem apreendidas e queimadas em praça pública por um carrasco. O extrato[50] da ata de execução traz os seguintes termos:


“Aos nove dias de outubro de 1861, às dez horas e meia da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no local em que se executam os condenados à pena máxima, por ordem do Bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:


A Revista Espírita, diretor Allan Kardec; A Revista Espiritualista, diretor Piérart; O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;

O Livro dos Médiuns, por Allan Kardec; O que é Espiritismo, por Allan Kardec;

Fragmento de Sonata, ditado pelo Espírito de Mozart; Carta de um Católico sobre Espiritismo, pelo Dr. Grand;

A História de Joana D’Arc, ditada por ela mesma a Mlle. Ernance Dufaux;

A Realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.


Assistiram ao Auto-de-fé:


Um padre, com seus hábitos sacerdotais, tendo, em uma das mãos, a cruz, e uma tocha na outra;

Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do Auto-de-fé;

O escrevente tabelião;

Um funcionário superior da administração das alfândegas;

Três moços (serventes) da alfândega, que tinham encargo de alimentar o fogo;

Um agente da alfândega, que representava o proprietário das obras condenadas pelo Bispo.


Incalculável multidão enchia os passeios e cobria a esplanada, onde ardia a fogueira; depois de o fogo consumir os trezentos volumes e brochuras espíritas, o sacerdote e seus auxiliares retiram-se cobertos pelas vaias e maldições dos inúmeros assistentes, que bradavam: Abaixo a Inquisição!

Depois, várias pessoas aproximaram-se da fogueira e apanharam cinzas”.


O fato foi publicado nos principais jornais da Espanha e da França, variando de notícias minuciosas, longos comentários, críticas e até anedotas sobre o ocorrido. Naquela ocasião, o principal Espírito mentor de Kardec, A Verdade, foi questionado sobre o assunto e deu a seguinte opinião[51]:


“Tens direito de reclamar aquelas obras e certamente conseguirás a restituição, se recorresses ao Ministério das Relações Exteriores da França. Porém, minha opinião é que esse auto-de-fé resultará em maior bem que da leitura de alguns livros. A perda material nada é comparada com a repercussão que tal fato terá em relação à Doutrina. Compreendes quanto uma perseguição tão ridícula e retrógrada poderá fazer progredir o Espiritismo na Espanha. As idéias se difundirão com muito mais ardor, quando forem queimadas. Tudo vai bem. (...) Aguarda o auto-de-fé.”


Note-se, novamente, que essa opinião revela uma significativa clareza quanto ao aspecto e intenção da estratégia comunicacional dos Espíritos em abalar os alicerces dogmáticos do catolicismo e as interpretações superficiais, tendenciosas e suspeitas do protestantismo com relação às Escrituras Sagradas. O auto-de-fé de Barcelona, mais um fato sabiamente explorado pelos Espíritos, revelava não apenas um simples gesto de prevenção do clero contra o Espiritismo, mas a identificação de uma nova teologia que poderia causar graves prejuízos aos dogmas e às estruturas político-administrativas da Igreja Católica. Essa nova teologia trazia como argumento de raiz alguns trechos do Novo Testamento no qual o Apóstolo João (Cap. 14, versículos 15, 16, 17, 25, 26) faz o seguinte relato:


“Se me amais, guardareis meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque ele permanecerá convosco e estará em vós. (...) Disse-vos estas coisas, enquanto estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o meu Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.”


No Dicionário Aurélio o termo Paráclito, do grego “parákletos” traz a seguinte definição: “1. Designativo aplicado a Cristo e especialmente ao Espírito Santo. 2. Defensor, protetor, mentor.”[52]. Na teologia ganhou significado de “Espírito Santo”, que em algumas traduções lê-se “Santo Espírito”. A expressão “Espírito Verdade” foi apontada por Allan Kardec e vem sendo interpretada e aceita pelos Espíritas como o líder e, ao mesmo tempo, o grupo de Espíritos que participaram da Codificação do Espiritismo e ditaram a Allan Kardec os princípios da Doutrina Espírita. Esse grupo, segundo Kardec, é o mesmo citado pelo apóstolo João quando diz: “que o mundo não pode perceber, porque não o vê, nem o conhece, mas vós o conhecereis”, referindo-se a informações que não poderiam ser reveladas naquela época, por questões históricas e limites de conhecimento, mas seriam reveladas numa época de entendimento mais facilitado.

Ora, independente de aceitar ou não tal interpretação, aqui já encontramos motivos suficientes para a intranqüilidade da Igreja Católica. A Codificação de Allan Kardec, à parte o preconceito e ignorância do mundo acadêmico, bem como uma fingida indiferença do mundo científico, apresenta-se como um verdadeiro aparato subversivo de ameaça ao universo milenar do dogmatismo católico e das posturas intolerantes e arraigadas à letra do protestantismo. Descendente direto do racionalismo cartesiano e do empirismo inglês, o Espiritismo também beberia, historicamente, nas fontes contestadoras da educação de vanguarda de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, de quem Kardec era o discípulo predileto. Só essa trajetória de influências serviria para compreender a contundência dos conceitos espíritas sobre as igrejas cristãs conservadoras, sobretudo àquelas mais ligadas aos interesses políticos de Estado.

Na edição de agosto 1862 a Revista Espírita publicou, na sessão de necrologia, a seguinte notícia sobre o Bispo Dom Antonio Pala Y Termes:

“Escrevem-nos de Espanha que o bispo de Barcelona, aquele mesmo que mandou queimar trezentos volumes espíritas pela mão do carrasco, a 9 de outubro de 1861, morreu a 9 deste mesmo mês e foi enterrado com a pompa costumeira para os chefes da Igreja. Apenas nove meses são decorridos, e já esse auto-de-fé produz os resultados pressentidos por todos, isto é, apressou a propagação do Espiritismo naquele país (...) Que poderiam, pois, conter tais livros que merecessem a solenidade da fogueira?”


No mesmo artigo Allan Kardec lembra que os correspondentes da Revista em Barcelona sugeriram a ele que fizesse uma invocação do Espírito do bispo. Kardec conta que estava mesmo disposto a fazer a invocação e até já havia preparado algumas perguntas, mas, para a sua surpresa, o Espírito se manifestou espontaneamente a um dos médiuns e respondeu por antecipação as questões que tinham sido elaboradas. O Espírito do bispo compareceu à reunião, muito bem acompanhado:


“(...) Auxiliado por vosso chefe espiritual pude ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: “Não repilais nenhuma das idéias anunciadas porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas idéias amontoadas gritarão como a voz do Anjo: Caim, que fizeste de teu irmão? Que fizeste de nosso poder, que devia consolar e elevar a humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como os outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível me disse: ‘Queimaste as idéias e as idéias te queimarão! (...)

Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em favor do perseguidor.

Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente.”


A MAÇONARIA E O SOCIALISMO


Outra ligação intrigante, filosófica e histórica, que também contribuiria muito para a animosidade dos católicos e protestantes, é aquela que suposta e intencionalmente, segundo os adversários, existe entre o Espiritismo e a Maçonaria. As lojas maçônicas foram no passado, em tempos obscuros da História Ocidental, pontos de luz e de resistência contra a opressão totalitária do Estado absolutista e do catolicismo medieval. Para se ter uma pálida idéia dessa misteriosa e atraente relação entre o ideal maçônico e o Cristianismo, de quem o Espiritismo é herdeiro histórico, lembremos da atuação da confraria essênia nos enigmáticos episódios da cultura cristã: a visita de magos (sábios ou iniciados) na manjedoura; a desconhecida adolescência de Jesus, período essencial e estratégico da educação humana e silenciada pelas evangelistas; a transmissão de investidura espiritual de João Batista para dar início a tarefa pública de Jesus; os cuidados dispensados por José de Arimatéa nos funerais de Jesus, e outros tantos pontos que ligam esses acontecimentos à tradição humanista da maçonaria no mundo pós-romano. Mas, como bem observou Ubiratan Paulo Machado[53], “A Identidade de alvo acabaria transformando-os em aliados. E da aliança nasceria a conversão de maçons ao Espiritismo e a filiação de espíritas à Maçonaria.” Há entre as duas doutrinas e movimentos, como poderia existir com tantas outras correntes filosóficas, muitas semelhanças e diversos pontos de identificação: o deísmo, o humanismo, o ideal de fraternidade e de benemerência, o racionalismo iluminista, etc. Ambas doutrinas são essencialmente espiritualistas e buscam o sentido universal da Verdade e a harmonia com as leis divinas. As diferenças também são visíveis quando, no círculo esotérico maçônico, os conhecimentos que são considerados de exclusivo segredo iniciático tornam-se, inevitavelmente, de acesso irrestrito aos adeptos espíritas. Nas lojas maçônicas encontramos adeptos de diversas correntes religiosas e filosóficas, como católicos, protestantes, umbandistas, budistas e até espíritas. Não se tem notícias – e isso seria filosoficamente incoerente - da presença de ateus ou materialistas em seus quadros, já que o culto ao Arquiteto do Universo, que é o conceito maçônico de Deus e da Criação, é público e explícito no seus templos e na sua literatura doutrinária.


Entidade filantrópica originária das corporações de ofício da Idade Média, especificamente a dos pedreiros e construtores (do francês “massons”), a Maçonaria, à parte o seu aspecto esotérico e secreto (o que aguça mais ainda a imaginação dos seus inimigos), sempre esteve associada às lutas políticas e libertárias contra os abusos de poder e de religião. O pai de Rivail era maçom, mas não há notícias concretas da participação do Codificador em lojas maçônicas; no entanto, sua fama de homem benemérito seria facilmente ligada à tradição de filantropia da franco-maçonaria. A única referência de Kardec aos maçons foi uma citação na Revista Espírita[54] da participação de “vários dignatários estranhos da Ordem Maçônica”, como convidados nas reuniões da Sociedade Espírita, “que deram lugar a esta pergunta: Que concurso pode o Espiritismo encontrar na Franco-Maçonaria?” Como resposta, surgiram várias comunicações dadas pelos Espíritos de Gutemberg, Jacques de Molé e Vaucanson, franco-maçons históricos. A linguagem utilizada pelos Espíritos está repleta de sinais ocultos da tradição maçônica, talvez pela necessidade de dar mais autenticidade às mensagens. Mas elas só realçam os pontos de identificação de crenças com os espíritas :


“Falastes da Franço-maçonaria e tendes razão de esperar nela encontrar bons elementos. Que é que se pede a todo maçom iniciado? Crer na imortalidade da alma, no Divino Arquiteto, ser benfeitor, devotado, sociável, digno e humilde. Ali se pratica a igualdade na mais larga escala. Há, pois, nessas sociedades uma afinidade com o Espiritismo de tal modo evidente que salta aos olhos.” – Gutemberg.


“Para cimentar essa instituição generosa, duas vezes derramarei o meu sangue; duas vezes as praças públicas desta cidade ficaram tintas de sangue do pobre Jacques Molé. Caros irmãos, seria preciso dá-lo um terceira vez? Direis, feliz: não. Quanto mais sangue, mais despotismo e mais carrascos! (...) No século XIX o Espiritismo vem com seu facho luminoso, dar a mão aos comendadores, aos rosa cruzes e com voz trovejante lhes diz: vamos, meus irmãos; eu sou verdadeiramente a voz que se faz ouvir no Oriente e à qual o Ocidente responde: Glória, honra, vitória aos filhos dos homens! Ainda alguns dias, e o Espiritismo terá transposto o muro que separa a maioria da parede do templo dos segredos; e, nesse dia, a sociedade verá florescer no seu seio a mais bela flor espírita que, deixando suas pétalas caírem, dará uma semente regeneradora da verdadeira liberdade”. Jacques de Molé.


“A franco-maçonaria, contra a qual tanto gritaram, contra a qual a Igreja romana não teve bastante anátemas, e que, nem por isto, deixou de sobreviver, a franco-maçonaria abriu de par a par as portas de seus templos ao culto emancipador da idéia. Em seu seio todas as questões mais sérias foram levantadas e antes que o Espiritismo tivesse aparecido, os veneráveis e os grão-mestres sabiam e professavam que a alma é imortal e que os mundos visível e invisível se intercomunicam. É aí, nos santuários onde os profanos não são admitidos, que os Swedenborg, os Pasqualis, os Saint-Martin obtiveram resultados fulminantes’. É aí, onde a grande Sofia, essa etérea inspiradora, veio ensinar aos primogênitos da humanidade, os dogmas emancipadores onde 89 bebeu seus princípios fecundos e generosos; é aí onde, antes dos vossos médiuns contemporâneos, precursores da vossa mediunidade, grandes desconhecidos, tinham evocado e feito aparecerem os sábios da antiguidade e dos primeiros séculos desta era; é aí... Mas eu me detenho. O quadro restrito de vossas sessões, o tempo que se escoa, não me permitem alongar-me, como desejava, sobre esse assunto tão interessante. A ele voltaremos mais tarde. Tudo o que direi é que o Espiritismo encontrará no seio das lojas maçônicas numerosa falange compacta de crentes, não crentes efêmeros, mas sérios, resolutos e inabaláveis em sua fé. Vaucasson.


Se fosse colocado, sem restrições, no plano político-ideológico, o Espiritismo estaria bem mais para a esquerda, pois tem fortes ligações com as forças contestadoras, típicas dos movimentos sociais populares. Tal ligação só não foi mais estendida ao socialismo devido, provavelmente, ao tradicional preconceito dos quadros marxistas e anarquistas com relação à religiosidade e porque, se aceito, ele desmontaria o ódio social que movia suas falanges mais radicais. Quando a Doutrina Espírita confirma que o “Reino de Deus não é deste mundo”, os socialistas também interpretam a idéia de Jesus ao pé da letra, entendendo que os Espíritas, por também não possuírem a “consciência de classe”, não se interessam por reformas ou revoluções políticas. Assim, neste aspecto, o Espiritismo se aproxima mais dos utopistas[55] clássicos, incluindo os hereges católicos, socialistas utópicos, e das propostas de harmonia entre capital e trabalho da encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII, denominada de “Socialismo Cristão”. Aliás, o conteúdo dessa encíclica apenas reproduz as idéias espíritas sobre as leis morais (de Justiça, de Sociedade e Igualdade) contidas em O Livro dos Espíritos. As revelações da existência de sociedades mais perfeitas, em outros mundos, sempre nos estimula a comparar tais informações com as teorias socialistas propostas para o nosso planeta. Descrições como a de Bernard Palissy[56] sobre Júpiter, publicada na Revista Espírita já despertavam grande interesse nesse sentido. Quando o Espírito André Luiz publicou Nosso Lar, em 1943, os espíritas mais conservadores entraram em pânico, pois ali estava uma típica sociedade comunista, idealizada no passado pelos teóricos mais brilhantes dessa doutrina. O mundo estava em plena guerra e dividido entre a democracia e o totalitarismo; o Brasil ainda estava sob a tutela autoritária do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas; Luis Carlos Prestes e os comunistas ligados à recém criada União Soviética conservam-se à espreita de uma oportunidade para implantar aqui um governo no estilo bolchevique ou então maoísta. Com o início da Guerra Fria, a polarização entre a Cortina de Ferro e a expansão capitalista, essa preocupação com os desvios doutrinários ocuparia grande espaço no Movimento Espírita. A organização hierárquica de Nosso Lar, o trabalho remunerado a bônus hora, o direito de posse e não de apropriação nas residências domiciliares, etc., indicavam o caminho da igualdade comunista. A diferença é que Nosso Lar não era na Terra, estando, portanto sujeita a outras leis desconhecidas em nosso plano. Mas, ainda assim, a mais famosa colônia espiritual, revelada pela mediunidade de Chico Xavier, foi produto do esforço de seres humanos, desencanados, em sintonia com planos mais evoluídos. A grande diferença entre o comunismo marxista e o comunismo de Nosso Lar foram os meios utilizados para atingir os fins desejados. O primeiro acreditava numa promessa imediatista e na revolução violenta como via única; o segundo acreditava na sintonia com as leis universais. Se na Terra encontramos a miséria em todos os sentidos, em Nosso Lar encontramos também o verso da medalha: o caos social, onde predomina a lei da força e da violência: o umbral. Mesmo sendo um mundo mental provisório do egoísmo e do ranger de dentes, o umbral é a anti-sociedade, a contramão das leis divinas.


Mas a atração da classe operária pelo Espiritismo no século XIX era um fato que muito incomodava a Igreja católica e também os quadros mais radicais dos trabalhadores, numa época em que a luta de classes era a palavra de ordem entre eles. Em todos os grupos espíritas eles eram a maioria e os Espíritos estavam sempre lembrando-lhes das armadilhas do falso conceito de igualdade proposto pelos marxistas. Na “Epístola aos Espíritas Lyoneses”, o Espírito de Erasto faz questão de chamar a atenção para esse assunto:


“Acabo de pronunciar a palavra igualitária. Julgo útil nela deter-me um pouco, porque não vimos pregar, em nosso meio, utopias impraticáveis, pois, ao contrário, repelimos energicamente tudo quanto pareça ligar-se às prescrições de um comunismo anti-social; antes de tudo, somos essencialmente propagandistas da liberdade individual, indispensável ao desenvolvimento dos encarnados; conseqüentemente, inimigos declarados de tudo quanto se aproxime dessas legislações conventuais, que aniquilam brutalmente os indivíduos. Embora me dirija a um auditório em parte composto de artífices e proletários, sei que suas consciências, esclarecidas pelas radiações da verdade espírita já repeliram todo o contato com as teorias anti-sociais dadas com apoio da palavra igualdade.”


Um outro documento ilustra muito bem a penetração do Espiritismo entre a classe operária naquela época, apesar da grande força do materialismo dialético entre os trabalhadores. Allan Kardec, numa visita ao grupo de Saint-Just, é saudado numa alocução feita por um simples, porém inspirado, membro da classe popular:


“Senhor Allan Kardec, discípulo de Jesus, intérprete do Espírito de Verdade, sois nosso irmão em Deus. Estamos reunidos todos com o mesmo coração, sob a proteção de São João Batista, protetor da Humanidade e precursor do grande mestre Jesus, nosso Salvador.

Nós vos rogamos, nosso caro mestre, que mergulheis vosso olhar no fundo dos nossos corações, a fim de que possais vos dar conta das simpatias que temos por vós. Somos pobres trabalhadores, sem artifícios; uma grossa cortina, desde a nossa infância, foi estendida sobre nós, para abafar a nossa inteligência; mas vós, caro mestre, pela vontade do Todo-Poderoso, rasgais a cortina. Essa cortina, que eles julgavam impenetrável, não pôde resistir à vossa digna coragem. Oh! Sim, nosso irmão, tomaste a pesada enxada para descobrir a semente do Espiritismo, que se tinha encerrado num terreno de granito; vós a semeais aos quatro cantos do globo, e até nos pobres quarteirões de ignorantes, que começam a saborear o pão da vida.


Todos o dizemos do fundo do coração; estamos animados do mesmo fogo e repetimos todos: Glória a Allan Kardec e aos bons Espíritos que o inspiraram! E vós, bons irmãos, Sr. e Sra. Djoud, os abençoados por Deus, Jesus e Maria, estais gravados em nossos corações, para jamais sair, porque por nós sacrificastes os vossos interesses e vossos prazeres materiais. Deus o sabe; nós lhe agradecemos também ao nosso protetor superior São João Batista.

Obrigado Sr. Allan Kardec; mil vezes obrigado, em nome do grupo de Saint-Just, por ter vindo entre nós, simples operários e ainda muito imperfeitos no Espiritismo; vossa presença nos causa grande alegria em meio de nossas tribulações, que são grandes neste momento de crise comercial; vós nos trazeis bálsamo benfazejo, que chamam esperança, que acalma os ódios, reacende no coração do homem o amor e a caridade. Nós nos aplicaremos, caro mestre, em seguir vossos bons conselhos e o dos Espíritos. Caro mestre, tende a certeza de que levais convosco a simpatia de nossos corações para a eternidade; nós o prometemos; somos e seremos sempre vossos adeptos sinceros e submissos. Permiti a mim e ao médium que vos demos o beijo de amor fraterno em nome de todos os irmãos e irmãs que aqui estão. Seriamos muito felizes também se quisésseis brindar conosco.”


AS PEDRAS VÃO FALAR

Ainda sobre o trecho do Evangelho de São João, que fala do Paráclito, podemos afirmar que ele não possui apenas dados proféticos, mas um conteúdo profundamente ameaçador ao poder do clero, bem como da autoridade espiritual do Papa e da Igreja. Nele, também, encontramos uma brecha para a reafirmação da idéia dos postulados do Espiritismo, principalmente da “reencarnação”, em oposição ao dogma da “ressurreição”. A idéia de reencarnação foi abolida na Igreja exatamente porque coloca no plano relativo das relações sociais, questiona o poder e estabelece o princípio essencial da igualdade dos seres. A contestação desse dogma, semelhante a contestação do dogma da “salvação” feita durante as reformas por Jan Huss, Martinho Lutero e João Calvino, no início dos tempos modernos, trariam consequências desastrosas para o domínio político-ideológico católico, bem como de todas as instituições, cujas estruturas de poder se apóiam em argumentos hierárquicos tradicionais. Em A Gênese[57], Kardec comenta o assunto e suas implicações:


“41. Quando Jesus disse a seus Apóstolos: ‘Um outro virá mais tarde, que vos ensinará aquilo que não vos posso dizer agora’, proclamava, por isso mesmo, a necessidade da reencarnação. Como poderiam estes homens aproveitar o ensinamento mais completo que deveria ser dado ulteriormente? Como seriam eles mais aptos a compreendê-lo, se não deviam reviver? Jesus teria dito uma inconseqüência, se os homens futuros devessem, segundo a doutrina vulgar, ser homens novos, almas saídas do nada no seu nascimento. Admita-se, ao contrário, que os Apóstolos e os homens de seu tempo tenham vivido depois; que eles revivem ainda hoje; então, a promessa de Jesus se encontra justificada; sua inteligência, que deve ter-se desenvolvido ao contato do progresso social, pode suportar agora aquilo que, então, não o poderia. Sem a reencarnação, a promessa de Jesus teria sido ilusória.


42. Se se dissesse que essa promessa foi realizada no dia de Pentecostes pela descida do Espírito Santo, a resposta seria que o Espírito inspirou os homens futuros, que ele pôde abrir a inteligência deles, desenvolver neles as aptidões mediúnicas que deviam facilitar suas missões, mas nada lhes ensinou além do que Jesus ensinara, pois nenhum traço se encontra de um ensinamento especial. O Espírito Santo, pois, não realizou o que Jesus anunciara, do Consolador: de outro modo, os Apóstolos teriam elucidado, enquanto viviam, tudo quanto permaneceu obscuro no Evangelho, até os nossos dias, e cuja interpretação contraditória deu lugar às inúmeras seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos.”


E prossegue como numa curiosa seqüência de comparações.

A ameaça sentida pelo clero não se restringe somente aos conceitos emitidos pelos Espíritos, mas também em relação à identidade desses autores. Nomes históricos que tradicionalmente fazem parte da teologia católica, agora se comunicam, sem nenhuma relação de compromisso com a Igreja, e suas idéias são publicadas nas cinco obras de Allan Kardec sem a censura da Inquisição. Eles dão interpretações pessoais e pouco ortodoxas das idéias e dos fenômenos que envolveram a missão de Jesus e comprometem muito os papéis social e sacerdotal do clero e da Igreja. A lista deles é enorme e suas idéias são altamente críticas e contundentes, em relação aos rumos que tomou o Cristianismo pelas mãos das Igrejas católicas e protestantes, bem como pela mentalidade intransigente dos seus líderes e adeptos mais fervorosos. Em O Livro dos Médiuns, em diversos trechos, o Espírito de São Luís, por exemplo, domina e explica com muita habilidade os fenômenos mediúnicos; em O Livro dos Espíritos o Espírito de Santo Agostinho fala de algo muito íntimo da sua experiência, ou seja, as técnicas da reforma moral; e aparece inúmeras vezes, inclusive para denunciar a violência dos duelos, costume retrógrado que embalava as personalidades mais orgulhosas e vingativas da época.


Em O Evangelho segundo o Espiritismo, obra em que mais aparecem nomes da tradição católica, encontramos São Paulo, na mesma condição de desencarnado, invertendo o dogma “Fora da Igreja não há salvação”, dizendo que a idéia correta é “Fora da caridade não há salvação”; o Cardeal Morlot explica porque realmente “A felicidade não é deste mundo”; Adolfo, Bispo de Argel, fala sobre “O orgulho e a humildade”; Vianney, o Cura D’Ars, explica porque os cegos são “Bem-aventurados”; João, Bispo de Bordeaux, e Dufêtre, Bispo de Nevers, juntamente com São Luís, ensinam a verdadeira “Indulgência”.

A lista de Espíritos, que fazem questão de revelar suas antigas identidades humanas, segue com os discursos impressionantes de São Vicente de Paulo, Cáritas, François-Nicolas-Madeleine, Constantine, Irmã Rosália, Henri Heine e V. Monod. Estes, no prefácio de O Livro dos Espíritos, são acompanhados por grandes filósofos do mundo clássico e outras personalidades do terreno moral e da virtude: Sócrates, Platão, Swedenborg, Benjamin Franklin, Fénelon, Lacordaire, Hahnemann, Pascal, Elisabeth de França, Jules Olivier, Lamennais e Emmanuel; este último é o mesmo Espírito que se identificaria no Brasil como mentor do médium Francisco Cândido Xavier. Emmanuel se revelaria mais tarde, também como um antigo senador romano, Públio Lêntulus, que conheceu pessoalmente Jesus, na Palestina, fato esse que foi confirmado através de uma carta que havia sido enviada ao Senado de Roma. O documento encontrado no início do século XX na casa de um nobre italiano e arrebatado num leilão por uma ordem católica foi intensamente divulgado pelo próprio Vaticano, sem que a Igreja percebesse que o seu valor histórico confirmaria as revelações feitas a Chico Xavier e publicadas na série de romances: Há Dois Mil Anos, 50 Anos Depois, Renúncia e Ave Cristo. Segundo Chico Xavier[58], o Espírito de Emmanuel, também numa de suas existências, teria animado a personalidade do padre jesuíta Manoel da Nóbrega, durante o Brasil colonial. Em suas obras[59], esse Espírito faz pesadas críticas ao clero romano e chega a identificar a instituição papal como a “besta apocalíptica”, profetizada por São João no Novo Testamento. É uma interpretação corajosa, vista com reservas por muitos espíritas ortodoxos, e provavelmente inspirada no simbolismo e nas técnicas numéricas da cabala judaica[60]:

“Reza o Apocalipse que a besta poderia dizer grandezas e blasfêmias por 42 meses, acrescentando que seu número era o 666 (Apoc. 13, 5 e 18). Examinando-se a importância dos símbolos naquela época e seguindo o rumo certo das interpretações, podemos tomar cada mês como de 30 anos, em vez de 30 dias, obtendo, desse modo, um período de 1260 anos comuns, justamente o período compreendido entre 610 e 1870, da nossa Era, quando o Papado se consolidava, após seu surgimento, com o imperador Focas, em 607, e o decreto da infalibilidade papal com Pio IX, em 1870, que assinalou a decadência e a ausência de autoridade do Vaticano, em face das evoluções científica, filosófica e religiosa da Humanidade.

Quanto ao número 666, sem nos referirmos às interpretações com os números gregos, em seus valores, devemos recorrer aos algarismo romanos, em sua significação, por serem mais divulgados e conhecidos, explicando que é o Sumo-Pontífice da Igreja Romana quem usa os títulos de “VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS”, “VICARIVS FILIS DEI” e “DVX CLERI” que significam “Vigário-Geral de Deus na Terra”, “Vigário do Filho de Deus” e “Príncipe do Clero”. Bastará ao estudioso um pequeno jogo de paciência, somando os algarismos romanos encontrados em cada título papal, a fim de encontrar a mesma equação de 666, em cada um deles.

Vê-se, pois, que o Apocalipse de João tem singular importância para os destinos da Humanidade terrestre.”


É mais uma evidência do aspecto totalitário, de representante absoluta e proprietária do mundo, defendido e praticado historicamente pela Igreja Católica, e fartamente demonstrado em vários períodos, como, por exemplo, na divisão audaciosa do mundo entre Portugal e Espanha, quando do Tratado de Tordesilhas. No texto mediúnico sobre a Igreja e a Besta Apocalíptica, o Espírito Emmanuel quis evidenciar que, por causa da sua arrogância, a Igreja tornou-se instrumento dócil nas mãos de forças políticas totalmente descomprometidas com as essências espirituais do Cristianismo. Quis mostrar, ainda, que a Sociedade, acuada pelos dogmas, pelo mito satânico, pela obrigatoriedade da confissão e dos inúmeros rituais, já foi liberta desses abusos do livre-arbítrio e nada deve à sua suposta autoridade ou aos seus conceitos e sua visão do mundo.

Mas, se os Espíritos fossem apenas uma questão de nomes ou identidade, tudo não passaria de uma bela ficção provocativa e mistificadora. Essa não é a questão essencial: acima da identidade desses Espíritos estão os conteúdos das comunicações mediúnicas, selecionadas, rigorosamente, para evitar fraudes; para tanto, nesse sentido, Allan Kardec utilizava o recurso de diversos médiuns e, como teste e precaução, repetia perguntas idênticas em locais diferentes, às quais os Espíritos, pacientemente, respondiam: “Já te dissemos que...” ou, então, “Isso já é do teu conhecimento...” Afinal, essa seria uma época em que a Verdade deveria ser restabelecida, não importando quais interesses estivessem em jogo; eram novos tempos proféticos: se os homens não falassem, as pedras deveriam falar...

Casos como este têm sido o motivo de uma grande animosidade de membros da Igreja Católica contra o Espiritismo, mas nem se compara com a ameaça que ainda causam naquela instituição os conteúdos doutrinários espíritas. Nesta mensagem de um Espírito anônimo, direcionada, pessoalmente, ao Codificador, em 30 de setembro de 1863 e denominada “A Igreja”[61], podemos avaliar que tipo de sentimentos movem os membros do clero, quando tomam consciência das implicações sociais da Doutrina Espírita. A mensagem é profética e expõe os rumos cada vez mais decadentes e reacionários do catolicismo, bem como o verdadeiro papel do Espiritismo frente às religiões tradicionais:


“Estás de volta, meu amigo, e não perdeste teu tempo. Trata de trabalhar, para que não se esfrie a bigorna. Forja armas de boa têmpera; repousa de teu trabalho com outros trabalhos mais árduos. Serão postos em tuas mãos todos os elementos, à medida que deles necessitares.

Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que conduziu os Espíritos. Chegou a hora de ela dar a César o que é de César e sentir a responsabilidade de todos os seus atos. Deus a julgou e reconheceu-a imprópria, de agora em diante, para a missão de Progresso que cabe a toda autoridade espiritual. Só com uma transformação total é que ela poderia sobreviver, mas resignar-se-ia a isso? Não, porque, então, deixaria de ser a Igreja. Para assimilar as verdades e as descobertas da Ciência seria preciso renunciar aos seus dogmas fundamentais. Para voltar à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho teria que renunciar ao poder, à dominação, trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e pelas humildades apostólicas. Há duas alternativas: ou se transforma, e suicida-se; ou fica estacionária e sucumbe esmagada pelo progresso.

Além disso, Roma já sofre essa angústia e sabe-se, por revelações irrefutáveis, que na Cidade Eterna a Doutrina Espírita está destinada a causar grande amargura ao papado, porque, fatalmente, se prepara o Cisma na Itália. Não é de admirar, então, o encarniçamento com que o clero combate o Espiritismo, pois é levado pelo instinto de conservação. O Clero, porém, já viu suas armas embotar-se contra esse poder nascente; seus argumentos não conseguiram vencer a lógica inflexível; só lhe resta a do demônio, recurso bem fraco para o século XIX.

Além do mais, é uma luta patente entre a Igreja e o Progresso, mais do que entre ela e o Espiritismo. É o Progresso geral das idéias que lhe abre brecha por todos os lados e a fará sucumbir, como acontecerá com tudo o que não se elevar ao seu nível. A marcha rápida dos acontecimentos deve fazer-vos pressentir que o desfecho não tardará muito. A própria Igreja parece impelida fatalmente a precipitá-lo.”

Espírito de E...


MUDANÇAS À VISTA

798 – O Espiritismo tornar-se-á uma crença popular ou ficará circunscrito a algumas pessoas?

– Certamente, ele se tornará uma crença popular, e marcará uma nova era na História da Humanidade, porque está na Natureza e é chegado o tempo em que deve tomar lugar entre os conhecimentos humanos. Entretanto, terá grandes lutas a sustentar, mais ainda contra o interesse que contra a convicção, porque não é preciso dissimular que há gente interessada em combatê-lo, uns por amor-próprio, outros por causas inteiramente materiais. Mas os contraditores, achando-se mais e mais isolados, serão forçados a pensar como todo o mundo, sob pena de se tornarem ridículos.

– O Livro dos Espíritos.


Nem todas as opiniões católicas a respeito do Espiritismo continuam tão radicais e “satanizadas” como as que acabamos de expor. Na Igreja Católica, desde o século XIX, existem grupos especializados que estudam sistematicamente a Doutrina Espírita, assim como também milhares de clérigos e adeptos que o fazem individualmente, porque identificaram e já reconhecem a autoridade da moral evangélica dos Espíritos Superiores. Hoje, já se admitem conceitos espíritas como sendo compatíveis com o Catolicismo. No Protestantismo já encontramos alguns focos de interesse mais aberto em relação aos conceitos Espíritas que, ao contrário do que se pensa e divulga, reforça o caráter sagrado e revelador da Bíblia. Quando Charles Darwin lançou sua teoria sobre as origens das espécies os Espíritas a encararam com a maior naturalidade e Allan Kardec, em A Gênese, diria que, apesar de ferir o nosso orgulho, seria inútil lutar contra o inexorável argumentos dos fatos. Com o passar do tempo a Igreja teve que se curvar diante desses mesmos fatos e o encarregado de preparar o espírito católico para digerir ideologicamente o evolucionismo foi o padre e paleontólogo francês Jean Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). Isso só foi acontecer na década de 1960, com a publicação de “O Fenômeno Humano”, depois da morte do padre. O argumento do respeitável jesuíta era simples: antes não havia nenhuma teoria que pudesse explicar o fenômeno humano; agora que existe uma, não é mais necessário apelar para os mitos de Adão e Eva. Mas e as outras tantas explicações? Essas poderiam esperar mais algumas décadas, afinal Darwin incomodava muito mais e algo tinha que ser feito. A maioria das igrejas protestantes ainda não arrumou um bom dourador da pílula como Chardin e ainda vociferam maldições contra os evolucionistas, achando realmente que todos nós descendemos diretamente dos macacos. Chardin, assim como seu colega brasileiro Huberto Rohden, tornou-se persona non grata entre o clero por causa das suas idéias sobre o Cristo Cósmico e a concepção psicológica e evolutiva do Reino de Deus (Ponto Ômega).

Se Allan Kardec tivesse sido um sacerdote católico o Espiritismo já teria sido amplamente adotado pela Igreja, é claro, de uma forma bem diferente do que conhecemos hoje. A cooptação sempre foi uma boa estratégia para esvaziar a ideologia dos grupos “hereges” dentro da Igreja. Mas isso só teria sido levado a afeito após o seu desencarne e depois de uma meticulosa análise e falsificação de todos os pontos que comprometessem a sua base institucional católica. Seria um Espiritismo bem aleijado, talvez sem a reencarnação, sem a comunicação direta com os Espíritos. O Espírito de Verdade talvez fosse apresentado como Espírito da Santa Igreja e O Livro dos Médiuns provavelmente circularia internamente com o nome de “O Livro dos Clérigos”, e assim por diante. Para nós, essa é uma idéia é um tanto chocante, mas foi exatamente isso que a Igreja fez e vem fazendo, há séculos, com todos os pensadores católicos que tentam desviá-la dos seus objetivos institucionais, tentando restaurar sua pureza primitiva. Caso o Espiritismo não fosse conveniente para os seus interesses, o Allan Kardec católico seria apagado dos registros históricos da Santa Sé e de todas as instituições que giram na órbita da sua influência. Até mesmo renomados historiadores, sob ameaça de ostracismo nos meios acadêmicos, seriam convidados a ignorá-lo completamente como agente histórico, tornando-o um personagem exótico e obscuro, cuja insignificância mereceria o total esquecimento, como os pobres de Lyon. Mas não foi exatamente isso que aconteceu? O nome e a obra de Allan Kardec só constam em algumas enciclopédias e dicionários porque algumas entidades espíritas brasileiras estão em permanente vigília contra a sua “excomunhão silenciosa” e porque os espíritas hoje são reconhecidos como um respeitável segmento de nível sócio-intelectual. Então, como um autor, uma doutrina ou ainda movimento social tão significativo, presente nos veículos de comunicação, sendo alvo de adesões ou críticas de grande repercussão num determinado contexto histórico pode ser tão ignorado, como se não tivesse existido? Com certeza não foi pelo pouco grau de importância, mas pelos efeitos morais que esses conhecimentos geram nas pessoas e na Sociedade. O Espiritismo tem uma qualidade pouco admirada para alguns setores que se consideram muito auto-suficientes e dogmáticos: levar as discussões até as últimas conseqüências, não deixando muitas alternativas para as argumentações mais insensatas. Quando isso acontece, como é o caso dos princípios de maior impacto como a reencarnação, a lei de ação e reação, a comunicabilidade entre seres e mundos, o mais prático é fingir a indiferença. Como a Religião é historicamente divorciada da Ciência em alguns campos, compreende-se tal comportamento, até por falta de conhecimento. Mas nas Ciências Sociais isso é puro preconceito, pura rejeição ideológica. Não é só Allan Kardec que é ignorado ou proibido nos meios acadêmicos, mas uma série de pensadores cujas idéias fogem completamente das tendências e interesses dos grupos de pensadores dominantes nesses núcleos. Em algumas universidades onde os marxistas dominam, os pensadores liberais são perseguidos silenciosamente em guerras ideológicas, e vice-versa. Mesmo no chamado setor científico o dogma existe, sendo também uma poderosa força inibidora para a aquisição de novos conhecimentos e a realização de novas experiências. Diversos pesquisadores têm dificuldades para estudar e desenvolver estudos sobre a reencarnação ou fenômenos Espíritas por causa do preconceito e dos riscos na carreira acadêmica.

Mas a reencarnação, bem como os fenômenos espíritas, não são exclusividade do Espiritismo nem uma questão ideológica, de crença ou de fé; é algo sujeito às leis da Natureza, que está fora do controle dos homens e das suas instituições; independente de aceitá-la ou não ela se manifesta por força da vontade Divina. E Allan Kardec não nasceu com vocação para ser católico e muitos que viriam e ainda virão após ele também não possuem a mínima afinidade com a Igreja. É dessa forma que as coisas mudam. As gerações não são renovadas pelas doutrinas terrenas, mas pelas tendências pré-reencarnatórias que trazem antes do berço.

Atualmente há por parte da Igreja Católica uma política de “dupla face” para garantir a perpetuação do poder clerical: uma corrente ataca abertamente o Espiritismo, para conter e satisfazer os adeptos mais conservadores; e uma outra estuda e adapta esses conhecimentos e se apropria deles, para precaver-se contra uma possível debandada de fiéis e a conseqüente redução do seu poder e dominação sociais. Como exemplos dessas adaptações e apropriações graduais, lembramos o uso do conceito de “reencarnação”, que nas Igrejas Católicas e protestantes é cultivado como “ressurreição”. A idéia de reencarnação (vidas sucessivas) era comum entre os cristãos primitivos, bem como a prática da comunicação (mediunidade) com os “mortos”. A substituição do termo “reencarnação” pelo termo “ressurreição” foi adotada no Concílio de Constantinopla, em 543, por força dos interesses políticos e clericais. A decisão de banir tais conceitos dos textos evangélicos não teve o sucesso esperado, pois vários trechos que insinuam a reencarnação foram mantidos, mesmo de forma velada, e passaram sem ser percebidos pelos revisores da época. Entre eles podemos citar: Isaías (29-19), Joab (14-10 a 14), Malaquias (4º-5 e 6), Lucas (1º-17), Mateus (17-10 a 13; e 11 –12 a 14) e o intrigante e revelador diálogo de Jesus com o sacerdote e membro do Sinédrio, Nicodemos (João, 3 - 1 a 21). O conceito de vidas sucessivas inspiraria no ser humano a idéia de liberdade individual e relatividade de hierarquia e posições sociais, causando o questionamento da autoridade eclesiástica, bem como da estrutura político-social nas Idades Média e Moderna, ou seja, as ordens “estamentais” do feudalismo e dos Estados monárquicos absolutistas, onde a Igreja tinha grande atuação. Essa conclusão também foi compartilhada pelo psiquiatra norte-americano Brian L. Weiss, autor de vários livros sobre reencarnação. O Dr. Weiss expõe o assunto sob o prisma científico das Terapias de Vidas Passadas –TVP, nas quais os pacientes rompem os limites do inconsciente, e vivem e descrevem mentalmente suas experiências em outras vidas. Tais pesquisas, hoje muito comuns entre psiquiatras, foram iniciadas na Europa pelo coronel francês Albert de Rochas (1837-1914), cujo trabalho contribuiu para divulgar a reencarnação como lei natural, desvinculada das crenças religiosas. Nas últimas décadas destacaram-se nesse setor os estudos do Dr. Ian Stevenson, Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, EUA. Stevenson estudou, ao longo de 22 anos, cerca de mil casos de reencarnação em diversos países. No Brasil, Hermínio C. Miranda e Hernani Guimarães Andrade são os nomes mais conhecidos na realização de estudos sobre esse assunto. Mas é o relato do Dr. Brian Weiss[62] que confirma essa lacuna histórica provocada pelos interesses clericais:


“Quando voltei a pesquisar a História da Cristandade, descobri que antigas referências à reencarnação no Novo Testamento foram apagadas no século IV pelo imperador Constantino, quando o cristianismo tornou-se religião oficial do Império Romano. Aparentemente, o imperador sentira que o conceito de reencarnação ameaçava a estabilidade do império. Cidadãos que acreditavam em outra chance de viver poderiam se tornar menos obedientes e submissos à lei do que os que acreditavam num único Juízo Final para todos.

No século VI, o Segundo Concílio de Constantinopla apoiou a lei de Constantino, ao fazer, oficialmente, da reencarnação uma heresia. Tal como Constantino, a Igreja temia que a idéia de vidas anteriores enfraquecesse e solapasse seu poder crescente por proporcionar a seus seguidores um tempo maior em busca da salvação. Concordavam que a chibata do Juízo Final era necessária para garantir atitudes e comportamentos adequados.

Durante a mesma era cristã primitiva que abria caminho para o Concílio de Constantinopla, outros padres da Igreja, como Orígenes, Clemente de Alexandria e São Jerônimo, aceitavam e acreditavam nela, bem como os gnósticos. Até o século XII, os cátaros cristãos da Itália e do sul da França eram severamente punidos por sua crença na reencarnação”.


O PERIGO DA CLERICALIZAÇÃO


Também a proibição da mediunidade não poderia ter sido adotada, se ela, de fato, não fosse possível, não só como prática e crença, mas uma realidade ameaçadora aos dogmas católicos. A congregação de cristãos nos tempos primitivos possuía uma soma de elementos de autonomia política e espiritual que certamente deveria ser banida para ceder espaço ao modelo feudo-clerical a ser estruturado na Idade Média. Conceitos de igualdade comunitária com as reuniões da eklesia e confraternização do ágape passaram ser vistos como uma ameaça a nova ordem que precisava ser estabelecida. Foi desse tipo de reação que provavelmente surgiram o papado, o monopólio masculino do clero e a formalização da missa dominical. No século II ainda era comum encontrar nos núcleos cristãos as manifestações primitivas de mediunismo, onde o intercâmbio mediúnico entre vivos e mortos era praticado com naturalidade, como parte essencial dos encontros[63]:


“Nesse dies Domini ou Dia do Senhor, os cristãos se congregavam para o rito semanal. Seus sacerdotes liam as Escrituras, guiavam-nos nas orações e pregavam sermões doutrinais, de exortação moral ou controvérsia sectária. No começo os membros da congregação, especialmente as mulheres, tinham licença para “profetizar”, isto é, “falar adiante” – quando em estado de transe ou êxtase, emitindo palavras suscetíveis de interpretação piedosa. Mas como esse “profetizamento” começasse a produzir o caos teológico, a Igreja o refreou e finalmente o suprimiu. O clero tinha de estar sempre impedindo o surto da superstição e a controlá-la.”


Esses intercâmbios mediúnicos, realizados quase sempre por meninas e mulheres, portadoras de faculdades intuitivas naturais, ou mesmo sendo médiuns de incorporação, representavam o risco de caos teológico, ou seja, a liberdade em todos os aspectos e a negação da supremacia masculina, muito útil para o novo sistema de dominação. Essas consultas aos “mortos” poderiam também revelar fatos que vinham sendo distorcidos ou “apagados” não só nos bastidores da política como também na trajetória histórica da Igreja Católica Romana.

Mas essa conduta vem sendo mudada pela Igreja face aos novos paradigmas sociais e científicos que já haviam sido fartamente previstos pelo Espiritismo. Em entrevista publicada no jornal “Osservatore Romano” [64] - espécie de Diário Oficial da Santa Sé - o padre Gino Concetti faz algumas afirmações sobre esses conceitos, já adaptados para o catecismo moderno da Igreja. São teorizações absurdas e até infantis, que navegam entre, não se sabe ao certo, a ingenuidade e a dissimulação, defendendo a idéia de que o Plano Divino Universal é uma espécie de empresa organizada nos moldes humanos, com chefe, gerentes, departamentos, regras, etc. Não dá para perceber se realmente trata-se de uma crença por parte de quem fala ou se é uma instrução codificada para convencer e manipular adeptos ainda inseguros sobre essas realidades:


“Pergunta: - O senhor pode nos explicar essa nova concepção teológica, como as comunicações com o Mais Além?

Resposta: Tudo parte da constatação que a Igreja é o único organismo do qual Jesus Cristo é o chefe. Esse organismo é composto dos vivos, quer dizer, tanto os fiéis sobre a Terra como os falecidos, que sejam beneficiados, e os santos que estão na paz do Espírito no Paraíso, como as almas que devem expiar seus pecados no Purgatório. Essas dimensões não somente estão unidas a Jesus, segundo o conceito da “Comunhão dos Santos”, mas estão reunidas juntas. O que significa que uma comunicação é possível.

Pergunta: - Segundo a Doutrina Católica, como se produzem os contatos?

Resposta: As palavras podem nos chegar não através das palavras e dos sons, quer dizer, como os meios normais dos seres humanos, mas através de sinais diversos: por exemplo, pelos sonhos que às vezes são premonitórios ou através de impulsões espirituais que penetram nosso Espírito – impulsões que podem transformar-se em visões e conceitos.

Pergunta: - Todas as pessoas podem ter essas percepções?

Resposta: Aquelas que captam mais freqüentemente esses fenômenos são mais sensitivas, isto é, pessoas que têm uma sensibilidade superior em relação a esses sinais ultraterrestres. Eu me refiro aos clarividentes e aos médiuns. Mas as pessoas normais podem ter algumas percepções extraordinárias, um sinal estranho, uma iluminação repentina. Ao contrário das pessoas sensitivas, podem, raramente, conseguir interpretar o que se passa com elas em seu foro interior.

Pergunta: - Para interpretar esses fenômenos, a Igreja lhes permite recorrerem aos chamados sensitivos e aos médiuns?

Resposta: - Sim, a Igreja permite recorrer as essas pessoas particulares, mas com uma grande prudência e sob certas condições. Os sensitivos aos quais podem pedir assistência devem ser pessoas que levem suas experiências, mesmo aquelas com técnicas modernas, inspirando-se na fé. Se essas últimas forem padres, será ainda melhor. A Igreja interdita todos os contatos dos fiéis com aqueles que se comunicam com o Mais Além, praticando a idolatria, a evocação dos mortos, a necromancia, a superstição e o esoterismo. Todas as práticas ocultas que incitem à negação de Deus e dos Sacramentos.

Pergunta: - Com que motivações um fiel pode encetar um diálogo com os falecidos?

Resposta: - É necessário não se aproximar muito do diálogo com eles, a não ser nas situações de grande necessidade. Alguém que perdeu, em circunstâncias trágicas, familiares e não se resigna com a idéia de seu desaparecimento. Ter um contato com a alma de tais entes queridos pode aliviar um Espírito perturbado por esse drama. Pode-se, igualmente, dirigir-se aos falecidos sem a necessidade de resolver um grave problema de vida. Nossos antepassados, em geral, nos ajudam e nunca nos enviarão mensagens contra nós mesmos ou contra Deus.

Pergunta: - Que atitudes convém evitar durante os contatos mediúnicos?

Resposta: - Não se pode brincar com as almas dos falecidos. Não se pode evocá-las por motivos fúteis para obter, por exemplo, um número de sorteio. Convém também ter grande discernimento a respeito dos sinais do Mais Além e não muito ‘enfatizá-los’. Arriscar-se-ía a cair na mais suspeita e excessiva credulidade. Antes de mais nada, não se pode abordar o fenômeno da mediunidade sem a força da fé. Arriscar-se-ia a perder o equilíbrio psíquico e mergulhar, inteiramente, na possessão demoníaca. Os padres exorcistas continuam a assinalar milhões de casos de pessoas dominadas pelo demônio por ocasião de sessões de Espiritismo.”


Aqui percebemos que a Igreja Católica já se apropria, explicitamente, de conceitos doutrinários espíritas que antes eram sistematicamente condenados e rejeitados. Tudo indica que ela tem planos de, futuramente, admitir o Espiritismo, porém com absoluto controle sobre os adeptos. Mesmo o argumento bíblico contido no Deuteronômio (18, 10), no qual Moisés proíbe essa prática, largamente utilizado nos catecismos, já está sendo colocado de lado para justificar essa histórica necessidade profissional e institucional de exercer e manter o monopólio clerical na comunicação com Deus e com os mortos. O aspecto inegavelmente liberal do Espiritismo, como prática privativa familiar ou socialmente pública, ainda é um estorvo para a Igreja. O único jeito de modificar tal situação seria então clericalizar esse processo livre de comunicação e expressão. Admitir o Espiritismo não significa adotá-lo como doutrina independente, mas aproveitar seus princípios que são convenientes, como foi feito com o Cristianismo e inúmeras práticas religiosas da Antiguidade. A intenção é sempre manter o Espiritismo como doutrina inimiga, herética e perigosa, porém explorando sua riqueza de idéias através dos tradicionais elementos manipuladores. Em trechos bíblicos, algumas traduções tendenciosas, como a do Centro Bíblico Católico[65] ou esta da Sociedade Torre de Vigília[66], das “Testemunha de Jeová”, o Espiritismo é mostrado como elemento histórico com outras intenções:


“9. Quando tiveres entrado na terra do Senhor, teu Deus, não te porás a imitar as práticas abomináveis da gente daquela terra. 10. Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, 11. à magia, ao Espiritismo, à adivinhação ou à invocação dos mortos (...) ”


No entanto o termo “Espiritismo” é um neologismo criado por Allan Kardec no século XIX, para ser diferenciado do termo “Espiritualismo”, e não uma expressão dos textos bíblicos originais. Não poderia constar nunca numa tradução bíblica.

Na Introdução de O Livro dos Espíritos[67] Kardec explica assim a origem do termo por ele criado:


“Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma significação bem definida; dar-lhes outra, para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já tão numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite haver em si mesmo alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.

Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo empregaremos para designar essa crença as palavras Espírita e Espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para o espiritualismo a sua significação própria. Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem, por princípio, as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os Espíritas, ou, se o quiserem, os Espiritistas.

Como especialidade, O Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual apresenta uma das fases. Essa a razão por que traz sobre o título as palavras Filosofia Espiritualista.”

Mas essa visão preconceituosa do Espiritismo pelos membros do clero católico e de outros segmentos cristãos já conta com exceções que vão marcando uma mudança gradual e conceitual sobre o assunto. No caso das Igrejas Cristãs há que considerar a ameaça doutrinária que o Movimento Espírita representa, sobretudo no aspecto institucional, no qual se apóiam financeira e profissionalmente milhares de pessoas, em vários setores ligados direta e indiretamente a elas. Não se trata apenas de uma mudança de conceitos intelectuais, mas de atitudes que foram sendo gravadas no inconsciente, no imaginário, nas relações sociais, políticas, enfim, em quase todos os aspectos da vida cultural durante séculos, que nos últimos 200 anos começam a ser contestados de maneira racional, bem ao estilo iluminista da liberdade de pensamento e expressão. O Vaticano não admite publicamente, essa nossa opinião, a importância histórica do Espiritismo, como também não reconhece o quanto foi impactante na vida católica o aparecimento do protestantismo no século XVI. A vida contemporânea da Igreja Católica pode ser dividida em duas fases bem distintas: antes e depois das obras de Allan Kardec, tais quais as 95 teses de Martinho Lutero e a livre-interpretação da Bíblia feita por Jan Huss, Jean Calvino e John Knox. Já no final da década de 1950 a imprensa brasileira[68] divulgava essa preocupação da Igreja com relação à expansão do Espiritismo no Brasil:

“Na assembléia de prelados e reitores católicos, a qual se realizou em Roma, o secretário do Conselho Episcopal Latino-Americano afirmou ser o Brasil ‘O país mais espírita do mundo’”. (Do jornal O Globo, de 27 de setembro de 1958).


Tais informações não são meras análises comparativas, mas dados de profundos estudos estatísticos e culturais daquela Entidade-Estado sobre os riscos que a Doutrina Espírita poderia representar para o futuro do catolicismo no mundo inteiro. Opiniões mais recentes como a do Bispo espanhol Enrique Maria Dubuc, publicada em novembro de 1996, em Barcelona[69], já enxergam aquilo que era previsto por Kardec: o Espiritismo vai sendo incorporado, gradualmente, nos conceitos religiosos tradicionais, e estes vão desaparecendo juntamente com as gerações conservadoras que serão substituídas pelas mais abertas e avançadas. São opiniões mais claras do que a do padre Gino Concetti e, pelo menos aparentemente, sem restrições aos efeitos sociais que Espiritismo causará na Sociedade e na organização clerical.


“O Espiritismo não é uma superstição, nem uma bruxaria, nem, muito menos, um pacto diabólico, já que o tal diabo não existe como entende a massa católica. O Espiritismo genuíno é uma ciência, uma doutrina, uma filosofia, o qual ensina, fundamentalmente, a existência de um Deus infinitamente bom, a imortalidade da alma ou do Espírito, o amor ao próximo como irmão, a necessidade de santidade na vida, com ausência absoluta do egoísmo, do ódio, da inveja, da calúnia e maledicência, da desconfiança em Deus e de toda má vontade contra o próximo. O Espiritismo não consiste, unicamente, na comunicação com os mortos de além-túmulo. A comunicação com estes mortos, que estão mais vivos do que nós, os terrestres, é a ínfima expressão do verdadeiro Espiritismo. O erro dos espiritistas modernos consiste em reduzir o Espiritismo a estas manifestações além-túmulo e descuidar da Doutrina Espírita que é essencialmente cristã e filosófica. Daí as superstições e o natural desdém da gente séria.

Mas quando todos hajam penetrado no fundo do Espiritismo, quando se convençam, com o estudo sério e profundo, de que se trata de uma ciência muito espiritual, que não é uma religião nem uma seita, senão uma doutrina elevadíssima, que roça com todos os discípulos do espírito; que ensina ao homem a ser autenticamente bom, porque não sabe enganar, nem desejar o mal aos demais, nem mentir, nem invejar, nem maldizer, nem ser egoísta ou injusto, avaro e inconformado com sua sorte; senão que ensina a todos a amar sinceramente a seus e confiar n’Ele; a amar Deus, amar ao próximo como irmão (porque todos somos filhos de um mesmo Pai; a sermos humildes e mansos de coração como ensinou Jesus; a aceitar resignadamente a inevitável dor humana e explicá-la de modo racional; a corresponder o Mal com a abundância do Bem; enfim, a cumprir fielmente o Decálogo e atualizar os sublimes ensinamentos do Grande Mestre Jesus. Quando as pessoas de critério se convencerem dessas realidades espirituais, todos se voltarão para o Espiritismo como uma Doutrina plena de Verdade e Amor, infinitamente consoladora e de grande segurança e esperança para toda a Humanidade,”


“EVANGÉLICOS” E PROTESTANTES


No movimento protestante, no Brasil vulgarmente chamado “evangélico” (Como se o Evangelho fosse uma exclusividade dessas igrejas), a reação contra o Espiritismo tem praticamente os mesmos motivos e características. Os ataques são praticados com mais ênfase pelas igrejas com pouca tradição histórica, ou seja, aquelas que surgiram mais distanciadas das vertentes luteranas. Mas o fundamentalismo e a intolerância sempre rondaram as mentes protestantes, desde os exemplos deploráveis de Jean Calvino, como, por exemplo, na perseguição e o assassinato do cientista Miguel de Servet. O culto à letra, criticado sabiamente pelo Apóstolo Paulo, cada vez mais, ganha força entre as novas comunidades, cujos intérpretes tentam desesperadamente esconder seus limites pessoais através de ginásticas intelectuais e justificar o abismo entre sua suposta fé e a razão. Hoje há teólogos protestantes que desenvolvem habilmente novas e estranhas concepções de imortalidade, bem diferente da que foi testemunhada por Jesus, seus discípulos e muitos mártires; tudo com a intenção perversa de reforçar e insistir no dogma da ressurreição material, cuja idéia pobre de espiritualidade não consegue superar os limites da carne. Essa prisão à matéria, ao sangue e aos sentidos tem sido responsável pelo desvio das mais sagradas tradições do cristianismo primitivo, bem como o retardamento espiritual de milhões de seres que teimam em não assumir as responsabilidades individuais da salvação, transferindo-a para as mãos de terceiros ou de processos mágicos fartamente cultuados nessas igrejas. Os protestantes sempre acusaram o Espiritismo de bruxaria, bem como as religiões afro-indígenas, mas os seus cultos estão repletos de rituais mágicos de fascinação e manipulação emocional, falsamente atribuídos ao “Espírito Santo”. Por serem igrejas sem tradição cultural e doutrinária, que refletem uma certa tendência à reprodução de opiniões pessoais de alguns líderes mais inflamados, geralmente, as mesmas geram informações que mais se aproximam dos preconceitos do que propriamente das críticas conceituais. Outro fator agravante é que elas, em sua grande maioria, são freqüentadas por adeptos oriundos de classes sociais de reduzido poder aquisitivo e baixo nível de escolaridade, o que dificulta o acesso à formação científica e o desenvolvimento de um senso crítico mais racionalizado ou intelectualizado. Ali, o conhecimento teológico e o domínio dos textos bíblicos ainda são privilégios de poucos, mais interessados na carreira de pastores profissionais, prevalecendo, portanto, mais os interesses materiais e as opiniões emocionais do que as racionalizadas. A palavra “prosperidade” entre muitos protestantes ainda está bem longe do seu significado espiritual e evangélico de riqueza interior; significa, quase sempre, salvação pelos lucros e posse de bens materiais. O cronista João do Rio[70] (Paulo Barreto), ao realizar suas incursões em todos templos cariocas (presbiterianos, metodistas, batistas, adventistas e outros), no início do século XX, já observava bem essas tendências para o conflito entre o espírito e a matéria que tanto atormenta esses segmentos religiosos. Para ele, duas coisas marcavam os membros dessas comunidades: a gentileza e a dificuldade de separar o que é de Deus e o que é de Mamon. Ao visitar os presbiterianos, há mais de cem anos, constatou:


“O pastor não estava, mas isso não impedia que um homem de Deus entrasse a refrescar-se das agruras do sol. O Dr. Álvaro Reis é paulista: na sua residência encontrei alguns amigos seus, paulistas, que me receberam entre as cortinas e os tapetes, com um franqueza encantadora. Quando me sentei na doce paz de uma poltrona, como um velho camarada irmão em Cristo, estava convencido de que ia beber café e conversar largamente. Não há como os evangelistas, e os evangelistas brasileiros, para gentilezas. À bondade ordenada pela escritura reúnem essa especial e íntima carícia do brasileiro, que, quando quer ser bom, é sempre mais que bom.”


Ao estudar a Igreja Fluminense, instalada no Brasil em 1855, trazida pelo médico escocês Robert Reid Kalley, o cronista entrevistou o Reverendo Antonio Marques e o Pastor Manoel Gonçalves dos Santos, que lhe diziam: muitas das igrejas evangélicas brasileiras saíram dessa matriz fluminense. Depois de contar toda a trajetória de sacrifícios dos pioneiros e os bons frutos colhidos entre o rebanho, este último concluiu:


“A única religião compatível com a nossa república é exatamente o evangelismo cristão. Submete-se às leis, prega o casamento civil, obedece ao código e é, pela sua pureza, um esteio moral. A propaganda torna cada vez mais clara essas idéias, no espírito público aos poucos se cristaliza a nítida compreensão do dever religioso. Os evangelistas serão muito brevemente uma força nacional, com chefes intelectuais, dispondo de grande massa. Havemos de ter muito em breve na representação nacional um deputado evangelista.”


João do Rio estava perplexo e ficaria mais chocado ainda se estivesse observando hoje quanto os evangelistas progrediram nesse setor:

“Apertei a mão do mais antigo ministro evangélico do Brasil. Diante dos esforços que me contara Antônio Marques, a minha alma extasiara; durante a comunhão, vendo o grave grupo beber o sangue de Jesus, eu sentira o bálsamo do sonho. Mas enquanto meus olhos olhavam com inveja o outro lado da vida, a margem diamantina da Crença, o pastor sonhava com o domínio temporal e a Câmara dos Deputados...

Eterna contradição humana, que não se explicará nunca, nem mesmo com o auxílio daquele que no Apocalipse sonda o coração e os rins e anda entre sete candeeiros de ouro!

Eterna contradição, que cativa a alma de uns e faz as religiões triunfarem através dos séculos!”

Os motivos das críticas protestantes contra o Espiritismo são idênticos aos encontrados no movimento católico: as implicações institucionais e hierárquicas causadas pela interpretação Espírita de conceitos do Velho e do Novo Testamento. Para o pastor e teólogo protestante Nehemias Marien[71], da Igreja Presbiteriana de Copacabana, no Rio de Janeiro, dois fatores agravam esse preconceito: o interesse profissional que entra em jogo e a ignorância literária e despreparo de cultura bíblica da maioria desses líderes. Nehemias vem se tornando conhecido por defender publicamente a tese da ligação histórica entre a Reforma Protestante e o Espiritismo, a primeira como um fator precursor do Paracleto e o segundo como a sua confirmação. Confirma a presença da psicografia e dos fenômenos mediúnicos relatados da Bíblia, apoiando abertamente as teorias de Allan Kardec. Falando sobre reencarnação e Espiritismo, o pastor usa a história e a filosofia para justificar sua rara coerência protestante:


“Até o ano de 546, no Concílio de Calcedônia, o “Espiritismo” fazia parte dos cânones da Igreja. Depois, por discussões mais administrativas e menos teológicas, foi banido do cânone oficial e hoje é a doutrina espírita que tudo explica. Não é aceita pela maioria dos pressupostos evangélicos, porque é uma confusão chamar “evangélicos” só os crentes entre aspas, não é? Evangélico é quem anuncia a Boa Nova. Então, eu sou professor de teologia Bíblica e de Ciências Bíblicas. É meu livro de cabeceira. No estudo da Bíblia, as evidências da reencarnação são clamorosas e eu acho que o Espiritismo é a mais caudalosa vertente do Cristianismo, pelas suas idéias. Você encontra, tanto no Antigo como no Novo Testamento, evidências claras da reencarnação, isto é, do prosseguir da vida. Tanto Pedro, o pressuposto grande apóstolo Pedro, fala na sua segunda encíclica, no final da Bíblia, sobre a existência do Espírito após a morte e nesta evolução do ser humano. E também São Judas, o apóstolo do Cristo, na sua epístola final, também fala sobre o mesmo tema. Então, eu sou uma pessoa estudiosa, aberta. Eu não tenho muros de espécie alguma. Eu tenho uma visão holística e aprendo muito com meus amados irmãos espíritas. Eu tenho um livro, “Transcendência e Espiritualidade”, onde abordo mais diretamente o assunto. Estou crescendo assim, nesta área e num certo diálogo. Tem algumas coisas que eu não entendo, pelos meus limites bíblicos e culturais, como também não entendo o próprio Cristo. Como vou compreender plenamente Kardec?”


Sobre as repercussões das suas idéias na sua comunidade religiosa, onde divide o trabalho com mais cinco pastores, Marien conta apenas com a tolerância e o amor dos seus companheiros, que lhe seguem pela confiança no seu trabalho sincero de pastor:


“Bem, a Igreja me aceita plenamente, mas eu tenho a impressão que não só sobre o meu aspecto filosófico, teológico, doutrinário sobre o Espiritismo, mas em outros também. Porque eu, pessoalmente, Nehemias Marien, sou uma espécie de peixe de espinho na garganta de minha própria igreja, mas aceitam e vão atrás. Como disse o mestre: “O pastor vai à frente do rebanho e o rebanho segue, porque conhece a voz do seu pastor”. Não segue em frente, mas segue a mim, mesmo que me engulam, vamos dizer assim, goela abaixo, por não entenderem bem minhas nuanças teológicas e espirituais, eles me aceitam. A gente vive num amor perfeito. Lá na minha igreja já pregou Libório Siqueira, que é desembargador e grande espírita, e o Gerson Azevedo, ex-presidente da Federação Espírita do Rio de Janeiro. Vários espíritas pregando na igreja. Não vão lá visitar, não. É subindo ao púlpito. É um púlpito bonito, mais alto. Usam até toga e se não quiser usar fardamento, ficam como estão, elegantemente vestidos e pregam lá. Então é uma igreja aberta.”


Ao aceitar Kardec e as idéias espíritas, o pastor presbiteriano esclarece que não pretende transformar sua igreja num centro espírita, pois são entidades que representam ainda as diferenças profundas de compreensão, mas também a riqueza da pluralidade de concepções. O equilíbrio virá com o tempo. Mas admite que colocou sua cabeça a prêmio. Considera Allan Kardec um pensador acima dessas diferenças e, por isso não poderia negá-lo em seus conceitos apenas por ser rotulado de “Espírita”.

Da mesma forma que Nehemias, há centenas de pastores e padres que cultivam o desejo de desafiar, aos poucos, essa resistência ao resgate do verdadeiro espírito cristão iniciado por Kardec, mas que ainda não se sentem totalmente seguros para virar a mesa. Deveriam mirar-se no exemplo de Saulo de Tarso e perguntarem ao Espírito de Verdade: “Que queres que eu faça?”

Como a ameaça sentida pelos protestantes, quanto ao crescimento do número de adeptos, está mais nas religiões afro-ameríndias (umbanda e candomblé), é hábito dentro dessas igrejas a propagação da idéia de generalização conceitual entre o Espiritismo e esses cultos. Atualmente, algumas seitas protestantes, percebendo a grande força da cultura mediúnica e da tradição afro-ameríndia no povo, estão adotando expressões e vestimentas da umbanda e do candomblé nas suas cerimônias, visando atrair adeptos para seus cultos. Nas emissoras de rádio e televisão elas convidam a população para eventos públicos estranhamente denominados “sessões de descarrego”, onde os pastores se vestem de branco e praticam toda a diversidade de “magias” verbais contra as influências espirituais que perturbam os freqüentadores. É, com certeza, uma estratégia de marketing de guerra religiosa, motivada não só pelo interesse político e financeiro, mas também pelo fanatismo, fruto dos equívocos interpretativos da Bíblia e da mentalidade estreita que campeia nesses núcleos. Quando se sentem ameaçados em seus interesses partem para a agressão e divulgação de todo o tipo de deturpações e calúnias contra aqueles que se consideram seus inimigos. São desses grupos protestantes sem tradição histórica e dirigidos por líderes incultos que brotam as mais recentes calúnias contra o Espiritismo. A mais divulgada delas é a informação maliciosa de que Allan Kardec, antes de desencarnar teria ficado louco e cometido o suicídio. Seguindo a lógica de Goëbels, o mestre da calúnia na propaganda nazista, esses pregadores adotam o conceito de que uma mentira repetida vinte vezes torna-se uma verdade. Naturalmente ignoram a lei de ação e reação, que na mesma Bíblia que usam para caluniar consta como “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Nunca a população protestante demonstrou tanto interesse e curiosidade pelo Espiritismo quanto nesses tempos em que a Doutrina é constantemente bombardeada por críticas infundadas nos seus veículos de comunicação


[1] História do Espiritismo. Ed. Pensamento.

[2] O Espírito e o Tempo. Editora Pensamento.

[3] O Grande Desconhecido – Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo XX. Editora J. Herculano Pires. Juiz de Fora, 1995.

[4] Obras Póstumas, Primeira Parte. Lake Editora.

[5] Ver o item Imagens e Palavras.

[6] O problema do Ser, do Destino e da Dor. FEB Editora.

[7] Obras Póstumas. Minha Iniciação no Espiritismo: Minha Missão.

[8]. História do Espiritismo, Arthur Conan Doyle.

[9] Médium (do latim medium, meio, termediário): pessoas acessíveis à influência de Espíritos e mais ou menos dotadas da faculdade de receber e transmitir comunicações. Para os Espíritos o médium é um intermediário; é um agente ou instrumento mais ou menos cômodo, conforme a natureza ou o grau da faculdade mediatriz. Essa faculdade é devida a uma disposição orgânica especial, susceptível de desenvolvimento. Conhece-se diversas variedades de médiuns de acordo com a aptidão particular de cada um ou por aquele gênero de comunicação. Allan kardec, Vocabulário Espírita. A definição é ilustrada com 17 tipos de médiuns.

[10] O Espírito e o Tempo, capítulo V, páginas 130 a 134. Editora Pensamento.

[11] (do grego psyké, borboleta, alma e graphô, escrevo): transmissão do pensamento dos Espíritos por meio da escrita pela mão do médium. No médium escrevente a mão é o instrumento, porém sua alma ou Espírito nele encarnado é o intermediário ou intérprete do Espírito que se comunica; na pneumatografia é o próprio Espírito estranho que escreve sem intermediário. Allan Kardec, Vocabulário Espírita.

[12] Volume 10, página 312. Edicel.

[13] (do latim spiritus, de spirare, soprar). No sentido restrito da doutrina espírita, os Espíritos são seres inteligentes da criação, os quais, fora do mundo corpóreo, povoam o universo. É-nos desconhecida a natureza íntima dos Espíritos; não a podem eles próprios definir, já por ignorância, já por deficiência da nossa linguagem. A respeito do assunto estamos como os cegos de nascença com relação à luz. Conforme com quanto nos dizem, o Espírito nada tem, no sentido vulgar do termo material; nada tem também de imaterial, no sentido absoluto, uma vez que é alguma coisa e a imaterialidade absoluta seria o nada. O Espírito é portanto formado de uma substância de que não nos pode dar uma idéia a matéria grosseira que afeta os nossos sentidos. Podemos compará-lo a uma chama ou centelha, cujo brilho varia de acordo com o seu grau de depuração. Pode por meio do perispírito que o envolve, tomar todas as formas. Na escala espírita existem três ordens de Espíritos, subdivididos em classes ou características: os Puros (1ª classe), os Bons Espíritos (2ª, 3ª, 4ª e 5ª classes) e os Espíritos Imperfeitos (6ª, 7ª, 8ª e 9ª classes). Allan Kardec. Vocabulário Espírita e Quadro Sinótico da Nomenclatura Espírita Especial.

[14] Mistérios do Desconhecido, Time-Life-Abril Livros.

[15] O Evangelho segundo O Espiritismo, cap. XVI, item 4.

[16] Philippe Ariès, Sobre a História da Morte no Ocidente desde a Idade Média. Teorema.

[17] Editora Planeta do Brasil. Tradução de Anna Olga de Barros Barreto.

[18] Em A Missão de Allan Kardec, Carlos Imbassahy cita esta livre interpretação feita por Canuto Abreu em artigo de 1956, publicado na revista Santa Aliança: “Segundo creio, o nome Denizard deriva da velha expressão latina Dionysos Ardenae, designativa de Deus Dyonísio, da Floresta de Ardenas. Dentro dessa imensa mata gaulesa que Júlio César calculava em mais de 500 milhas, os Druidas celebravam as evocações festivas do Deus Nacional da Gália, denominado Te-Te-Te, Altíssimo, representado por um carvalho secular. À sombra do carvalho divino os legionários romanos, após a derrota de Vercingetorix, ergueram a estátua do Deus Dyonisius, também conhecido pelo nome de Bachus, deus das selvas, das Campinas, das uvas, dos trigais, amante da rusticidade e da liberdade. E, de conformidade com o costume dos conquistadores, inscreveram uma legenda latina ao pé do monumento. Supõe-se que rezava assim: Dionysio Rústico Eleuthero, com a significação de Dionysio campestre em liberdade.”

[19] Will Durant, César e Cristo, Capítulo XXII. Record.

[20] Revista Espírita. Outubro de 1860.

[21] História da Civilização - A Idade da Fé, Will Durant. Record

[22] À Caminho da Luz, P. 158. 21ª ed. FEB. R.J.

[23] Citado por Carlos Imbassahy, A Missão de Allan Kardec. Federação Espírita do Paraná. Curitiba, 1988.

[24] (do grego e do latim magnes, imã) assim chamado por analogia com o magnetismo mineral. Demonstrou a experiência que essa analogia não existe ou que é apenas aparente, não sendo pois exata a denominação. Uma vez, porém, que foi consagrada pelo uso universal e, por outro lado, que o epíteto que lhe acrescentam não permite equívocos, haveria mais inconveniência do que conveniência na substituição da expressão. Algumas pessoas a substituem por mesmerismo, emprego esse porém que, até o momento, não prevaleceu. Allan Kardec. Vocabulário Espírita.

[25] P. 95, vol. 1, Edicel, São Paulo, s/d.

[26] A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva. São Paulo,1978.

[27] (do latim somnus, o sono e ambulare, caminhar, passear) é o estado de emancipação da alma mais completo que no sonho. O sonho é um sonambulismo imperfeito. No sonambulismo a lucidez da alma, isto é, sua faculdade de ver, que é um dos atributos da sua natureza, é mais desenvolvida; ela vê as coisas com mais precisão e clareza; o corpo pode agir debaixo do impulso da vontade da alma. O esquecimento absoluto no momento de despertar é um dos sinais característicos do verdadeiro sonambulismo, porque a independência da alma e do corpo é mais completa do que no sonho. Sonambulismo magnético ou artificial é aquele que é provocado pela ação que uma pessoa exerce em outra por meio do fluido magnético que derrama nesta. Allan Kardec. Vocabulário Espírita.

[28] Obras Póstumas, citado por Henri Sausse na Biografia de Allan Kardec in Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, Lake, São Paulo, s/d.

[29] Ibid.

[30] O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária. Edições LFU. São Paulo. 1996

[31] Os Exilados da Capela, Cap. XVI, A Quinta Raça. Editora Aliança.

[32] A preparação de Platão - Will Durant, História de Filosofia. Nova Cultural.1996.

[33] Nota de revisão da edição publicada pela Lake.

[34] “O Livro do Espíritos e sua tradição histórica e lendária”. Edições LFU, 1996.

[35] (de peri, em redor e spiritus, espírito). Envoltório semi-material do Espírito, depois da sua separação do corpo. O Espírito o adquire no mundo em que se acha e muda-o ao passar para um outro mundo. ‘E mais ou menos sutil ou grosseiro, conforme a natureza de cada globo. O perispírito pode tomar todas as formas, à vontade do Espírito; de ordinário afeta a imagem que tinha sua última existência corporal (...) Teria assim o Espírito duplo envoltório; a morte apenas o despojaria do mais grosseiro; o segundo, que constitui o perispírito conservaria a marca e a forma do primeiro, do qual é uma espécie de sombra; mas a sua natureza essencialmente vaporosa permitiria que o Espírito lhe modificasse a forma à vontade e a tornasse visível ou invisível, palpável ou impalpável (...) Allan Kardec. Vocabulário Espírita.

[36] “Chico Xavier – Mandato de Amor – União Espírita Mineira, 1997.

[37] “ O Evangelho por fora”, capítulo XII - Fase pré-espírita. Edições LFU.

[38] O Feudalismo. Hilário Franco Jr. Coleção Tudo é História. Editora Brasiliense. São Paulo, 1983.

[39] Segundo John Cornwell em seu livro O Papa de Hitler (Editora Imago), Pio XII (1939-1958) não só se omitiu sobre os crimes do nazi-fascismo mas teria contribuído ativamente para que esses regimes chegassem ao poder na Itália e na Alemanha. Por suas revelações, o livro causou alterações no processo de beatificação desse papa, empreendida pelo Vaticano.

[40] Psicologia de Massas do Fascismo. Livraria Martins Fontes Editora. São Paulo, 1972

[41] FEB Editora.

[42] Gráfica Editora Laemert. Rio de janeiro, 1968.

[43] Essa revelação foi dada em mensagem mediúnica de Ernance Dufaux. Citação de Carlos Imbassay in “A Missão de Allan Kardec”.

[44] Revista Espírita, Ano IV, outubro de 1861, nº 10. - Edicel

[45] Não confundir com “Erasto”, pseudônimo do médico, filósofo alemão Thomaz Liber (1524-1583). Teólogo atuante na Suíça, Liber era um inimigo do poder secular da Igreja e na medicina combatia as idéias do célebre Paracelso.

[46] Ver o famoso discurso do Bispo Strossmayer, no Concílio Católico de 1870, no qual renegou a idéia da monarquia papal e da sua infalibilidade. Citado integralmente por D. José Amigó Y Pellícer em Roma e o Evangelho. FEB Editora.

[47] E.R. Chamberlin. Papas Perversos. Líber. Lisboa, 1976.

[48] História de Roma. 7º ed. Editora Vozes. Petrópolis, 1983.

[49] “(...) Com relação a Satanás, é evidente a personificação do mal sob uma forma alegórica, pois não se poderia admitir um ser mal a lutar, de potência a potência, com a Divindade e cuja única preocupação seria a de contrariar os seus desígnios. Precisando o homem de figuras e de imagens para impressionar a sua imaginação, ele pintou os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos lembrando as suas qualidades ou os seus defeitos. É assim que os antigos, querendo personificar o tempo, pintaram-no com a figura de ancião portando uma foice e uma ampulheta; a figura de um homem jovem seria um contra-senso. A mesma coisa se verifica com as alegorias da fortuna, da verdade, etc.” O Livro dos Espíritos, Livro Segundo, Capítulo Primeiro, item 131.

[50] Sausse, Henri, Biografia de Allan kardec in Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, Lake, São Paulo, s/d.

[51] Obras Póstumas, p.251, Lake, São Paulo, s/d.

[52] Nova Fronteira/Folha de São Paulo, São Paulo, 1994.

[53] Os Intelectuais e o Espiritismo, capítulo VI. Edições Antares /Pró-Memória, 1983

[54] Abril de 1864.

[55] Para Karl Mannhein (Ideologia e Utopia, 1920), “ Utopias são idéias inspiradoras das classes em rebelião e em ascensão, em oposição às ideologias que racionalizam e estratificam o pensamento das classes dominantes”. Enciclopédia Britânica, verbete “Utopia”.

[56] Capítulo 4, item “Diversidade de Mundos”.

[57] P. 333, 19 ed, Lake, São Paulo, 1999.

[58] Entendendo o Espiritismo, autores diversos, Editora Aliança.

[59] Xavier, Francisco Cândido, A Caminho da Luz, p. 128, 21ed, FEB Editora, Rio de Janeiro, s/d. Veja também da mesma editora o livro “Emmanuel”.

[60] Lorenz, F. V. Cabala – A tradição Esotérica do Ocidente, Pensamento, São Paulo, s/d.

[61] Obras Póstumas, p. 258, Lake, São Paulo, s/d.

[62] A Cura através das Terapias de Vidas Passadas, Sextante, Rio de Janeiro, sd.

[63] Will Durant – César e Cristo. Ed. Record.

[64] Publicado inicialmente no “Osservatore Romano”, no jornal suiço “Ansa”, em novembro de 1996; traduzido do italiano para o francês por Pierre R. Théry, e para o português por Terezinha Rey, publicado no jornal “A Flama Espírita”, São Paulo, junho de 1997.

[65] Editora Ave Maria, 120 ª ed, São Paulo, s/d

[66] Índice remissivo, p. 1441, verbete “Espiritismo”

[67] Item I, Lake, São Paulo, 1994.

[68] Citado por Hercílio Maes in Elucidações do Além, pelo Espírito Ramatis, p. 7, Freitas Bastos, São Paulo/ Rio de janeiro, 1975.

[69] Revista “Espiritismo - Ciência, Filosofia, Moral”, novembro de 1986, Barcelona, Espanha; transcrito na Revista Internacional de Espiritismo, Matão, São Paulo, junho de 1999.

[70] As Religiões no Rio, O Movimento Evangélico, página 80 a 85. Biblioteca Manancial. Editora Nova Aguilar.

[71] Revista Internacional de Espiritismo. Matão, agosto de 2000. Na sua conferência no Encontro Espírita de 2001, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, assistimos o pastor Marien relatar, em detalhes, seus estudos espíritas e demonstrar, ao vivo, sua sensibilidade mediúnica durante o evento. Nota do autor.



Livro II – UM SÉCULO PERIGOSO


“Sei que muitos dizem que o presente é positivo e o futuro é incerto. Ora, aí está, precisamente, o pensamento que fomos encarregados de destruir em vossas mentes, pois desejamos fazer-vos compreender esse futuro de maneira a que nenhuma dúvida possa restar em vossa alma. Foi por isso que chamamos primeiro a vossa atenção para os fenômenos da Natureza que vos tocam os sentidos e depois demos instruções que cada um de nós tem o dever de difundir. Foi com esse propósito que ditamos O Livro dos Espíritos”. – Santo Agostinho, questão 919. 


Rivail nasceu no século XIX, mas foi um ser moral e intelectual do Iluminismo, do século anterior. Como a maioria dos intelectuais da sua época, embora discreto e modesto, cresceu socialmente dividido entre o espírito combativo de Voltaire e o conservadorismo retrógrado de Auguste Comte. Porém, seu ideal de vida era Sócrates, o maior de todos filósofos, e o Cristianismo herético a sua marca ideológica. Ao se referir à Igreja, nunca disse “Escrasez L’infame” (Esmagai a infame), nem maldisse a Bíblia, desprezando-a com o preconceito religioso que marcou os pensadores do seu tempo. Muito pelo contrário, via a Bíblia como verdade relativa e conhecimento histórico limitado, porém deu a ela uma nova interpretação, à luz da Razão e da Ciência Positiva em voga. É claro que, depois das suas obras, o clero e a Igreja nunca mais seriam os mesmos. Voltaire talvez tenha sido insensato e descortês na sua campanha contra Roma (motivos nunca lhe faltaram), mas Allan Kardec e o mundo devem a ele a ousadia política e a disposição pública de desafiar o totalitarismo católico. Mas, por outro lado, podemos medir ainda hoje os efeitos devastadores das suas palavras e atitudes. Em O Gênio do Cristianismo[1], obra de 1802 na qual tenta desesperadamente diminuir o impacto do racionalismo sobre religião, o romântico Chateaubriand nos dá uma idéia de como era influente a pena do filósofo francês: 

“A Igreja ainda triunfava e já Voltaire fazia renascer a perseguição de Juliano. Teve ele a arte funesta, de entre o povo caprichoso e amável, pôr em voga a incredulidade. Reuniu todos os amores próprios nessa liga insensata; a religião foi atacada com todas as armas, desde o panfleto até o in-fólio, desde o epigrama até o sofisma. Um livro religioso aparecia, e logo seu autor era ridicularizado, enquanto se eleva às nuvens, obras, de que Voltaire era o primeiro a zombar com seus amigos; ele era tão superior aos seus discípulos, que não podia deixar de rir às vezes, de seu entusiasmo irreligioso. No entanto, o sistema destruidor estendia-se pela França. Estabelecia-se naquelas academias da Província, que outros tantos focos do mau gosto e de partidos. Mulheres da sociedade, graves filósofos, tinham suas cátedras de incredulidade. Enfim, reconheceu-se que o cristianismo era apenas um sistema bárbaro, cuja queda devia se dar muito em breve, para a liberdade dos homens, o progresso das luzes, as doçuras da vida e a elegância das artes. Sem falar do abismo a que esses princípios nos atiraram, as conseqüências imediatas desse ódio contra o Evangelho, fora uma volta mais fingida que sincera, aos deuses de Roma e da Grécia, aos quais se atribuem os milagres da antiguidade”. 


A França é historicamente cultuada como símbolo da Liberdade, no entanto sempre foi marcada pela presença de um Estado autoritário e violento. Esse traço conflitante e milenar da cultura francesa, eternamente oscilante entre a rigidez latina dos romanos e o ideal libertário dos celtas, tornou-se marca inconfundível dos grandes eventos que se realizaram naquele país. Mesmo na época Contemporânea, em 1968, quando os estudantes de Paris se revoltaram contra os abusos do Capitalismo e a ameaça da Guerra Fria, o Estado francês esteve de prontidão, com mãos fortes, para reprimir, prender e torturar, como vinha fazendo em suas colônias na África e no Sudeste asiático. Os jovens parisienses criaram então o provocativo slogan “É proibido proibir” e tinham como fonte de inspiração o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre. O aparelho de Estado quis agir rápido e com violência na repressão, pois, na sua perspectiva, as coisas estavam tomando rumos incontroláveis. De repente, funcionaram a memória histórica e o bom senso do legendário presidente Charles De Gaulle: “Não podemos prender Voltaire!”, disse ele, se referindo ao papel que Sartre desempenhava naquele momento na França e no mundo. Charles De Gaulle pode até ter sido intuído, inconscientemente, a perceber que Sartre e Voltaire eram o mesmo Espírito em épocas diferentes. Não estamos afirmando que esta associação feita por De Gaulle seja um caso de reencarnação, o que não seria totalmente impossível. Mas o que nos chama a atenção é a semelhança de estilo entre os dois pensadores, principalmente na apologia desastrosa do materialismo entre os mais jovens. Sartre pode ter sido apenas um simples efeito de influência filosófica de Voltaire, mas também poderia ter sido uma experiência contemporânea do Espírito do velho filósofo iluminista. 

Voltaire desencarnou em 1778, vinte e seis anos antes de Allan Kardec encarnar em Lyon. Não lhe foi permitido um enterro digno, em “campo-santo”, de propriedade da Igreja. Os amigos tiveram que transportá-lo para fora de Paris, como se seu corpo ainda estivesse vivo, até encontrar um local adequado para o seu “descanso eterno”. Pouco antes da morte, aos 83 anos, Voltaire quis retornar a Paris, a cidade que lhe parecia “elétrica”, da qual estivera exilado por muitos anos. Na casa de um amigo de juventude foi visitado por centenas de admiradores. Mesmo doente, foi levado à Academia Francesa de Letras e, no caminho, as multidões quase impediam que sua carruagem fizesse o trajeto. Conta-se que Luiz XVI não se conteve de ciúmes. Entre os ilustres visitantes que foram vê-lo em casa estava Benjamin Franklin e o neto, em quem Voltaire colocou a mão na cabeça, pedindo que dedicasse sua vida a Deus... e à Liberdade... Um padre tinha ido tentar uma última confissão e Voltaire perguntou quem o mandara. O padre disse-lhe que fora Deus. Voltaire, então, lhe perguntou: - Onde estão suas credenciais? Mais tarde, um outro padre foi chamado (o abade Gautier) e este se recusou a ouvir sua confissão se o doente não assinasse uma declaração de “plena fé na doutrina católica”. Voltaire fez a declaração, mas a seu modo: “Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”. 

Por acaso, esse não era o mesmo espírito de combate pela Verdade que animou e impulsionou Allan Kardec e seus seguidores? Muitos Espíritas não trazem no sangue ideológico herético um pouco da alma universalista e demolidora de Voltaire, no que diz respeito às religiões tradicionais e aos nossos costumes? 

Quem pode responder essas perguntas com mais precisão é o próprio Voltaire. Desencarnado, o Espírito do filósofo já não é o mesmo, atrevido e irreverente, quando usava a pena como uma marreta sobre a tradição teológica. A comunicação mediúnica foi dada em 8 de abril de 1859 e publicada na Revista Espírita[2], ainda dirigida por Allan Kardec. Numa reunião anterior da Sociedade Espírita, Voltaire havia prometido fazer uma dissertação sobre o Cristo. Minutos antes travara um diálogo com o Espírito de um monarca chamado “Frederico” (provavelmente Frederico II, da Prússia, que acolhera Voltaire em sua corte). Questionado por Kardec sobre sua nova experiência como Espírito, falou constrangido: 


“- Aqui estou. 

- Teríeis a bondade de nos fazer hoje a dissertação que prometestes? 

- Posso fazer o que prometi, apenas serei breve. Meus caros amigos, quando eu estava entre vossos pais, tinha opiniões; e para as sustentar e às vezes fazer prevalecer entre os contemporâneos, muitas vezes simulei uma convicção que realmente não possuía. Foi assim que, querendo atacar os defeitos e os vícios em que caía a religião, sustentei uma tese que hoje estou condenado a refutar. Ataquei muitas coisas puras e santas, que a minha mão profana deveria ter respeitado. Assim, ataquei o próprio Cristo, esse modelo de virtudes sobre-humanas; sim, pobres homens, nós nos igualaremos talvez um pouco com o nosso modelo, mas nunca teremos a dedicação e a santidade que Ele demonstrou; Ele sempre estará acima de nós, porque Ele foi melhor antes de nós. Ainda estávamos mergulhados no vício da corrupção, e Ele já estava sentado à direita de Deus. Aqui perante vós eu me retrato de tudo o quanto minha pena traçou contra o Cristo, porque o amo, sim, eu o amo. Sentia não ter podido fazê-lo ainda.” 


Na mesma Sociedade Espírita de Paris, através do médium Sr. E. Vézzy, Voltaire retornou para explicar o porquê da sua radical transformação. Outro importante filósofo o acompanha. É Santo Agostinho, que fez, depois das palavras de Voltaire, esta pequena observação: 


“Filhos, deixei que em meu lugar falasse um dos vossos grandes filósofos, principal chefe do erro. Quis que ele viesse dizer-vos onde está a luz. Que vos parece? Todos virão repetir-vos: Não há sabedoria sem amor nem caridade. E, dizei-me, que doutrina será mais suave para ensinar o Espiritismo? Nunca eu vos repetiria demasiado: o amor e a caridade são as duas virtudes supremas, que unem, como diz Voltaire, a criatura e o criador. Ah! Que mistério e que laço sublime! Ínfimo verme de terra, que pode tornar-se tão poderoso que a sua glória atinge o trono do Eterno!...” 

“Sou eu mesmo, mas não aquele Espírito trocista e cáustico de outrora; o reizinho do século XVIII, que dominava pelo pensamento e pelo gênio a tantos soberanos, hoje não está mais nos lábios aquele sorriso mordaz que fazia tremer os inimigos e os próprios amigos! Meu cinismo desapareceu diante da revelação das grandes coisas que eu queria tocar e que só as conheci no além-túmulo! 

Pobres cérebros demasiado estreitos para conterem tantas maravilhas! Humanos, calai-vos, humilhai-vos ante o poder supremo; admirai e contemplai – é o que podeis fazer. Como quereis aprofundar Deus e o seu grande trabalho? Apesar de todos os seus recursos, a vossa razão não se quebra diante do átomo e do grão de areia, que não pode definir? 

Eu empreguei a minha vida a procurar conhecer a Deus e seu princípio; minha razão se enfraqueceu e eu cheguei não a negar Deus, mas a sua glória, o seu poder e a sua grandeza. Eu o explicava desenvolvendo-se no tempo. Uma intuição celeste me dizia que rejeitasse tal erro, mas eu não escutava e me fiz apóstolo de uma doutrina mentirosa... Sabeis por quê? Porque, no tumulto e na confusão de meus pensamentos, num entrechoque incessante, eu só via uma coisa: o meu nome gravado no frontão de um templo de memória das nações! Só via a glória que me prometia essa juventude universal que me cercava e parecia saborear com suave delícia o suco da doutrina que eu lhe ensinava. Entretanto, empurrado não sei por que remorso de minha consciência quis parar, mas era tarde. Como toda utopia, todo sistema que abraçamos nos arrasta; a princípio segue a torrente, depois os arrasta e nos quebra, tão rápida e violenta é por vezes sua queda. 

Crede-me, vós que estais aqui à procura da verdade, encontrá-las-eis quando tiverdes destacado de vosso coração o amor às lantejoulas, que um tolo amor-próprio e um falso orgulho fazem brilhar aos vossos olhos. Na nova via por onde marchais, não temais combater o erro e o desafiar, quando se erguer à vossa frente. Não é uma monstruosidade preconizarmos uma mentira, contra a qual ninguém ousa defender-se, pelo fato de saber-se que fizemos discípulos que ultrapassaram a nossas crenças? 

Vede, meus amigos. O Voltaire de hoje não é mais aquele do século XVIII. Eu sou mais cristão, porque aqui venho fazer-vos esquecer a minha glória e vos lembrar o que fui na juventude e o que amava na minha infância. Oh! Como eu gostava de me perder no mundo dos pensamentos! Minha imaginação ardente e viva percorria os vales da Ásia à busca daquele que chamais Redentor... Eu gostava de percorrer os caminhos que ele tinha percorrido. E como me parecia grande e sublime esse Cristo em meio à multidão! Julgava ouvir a sua voz poderosa, instruindo os povos da Galiléia, das bordas do Tiberíades e da Judéia!... Mais tarde, nas minhas noites de insônia, quantas vezes me ergui para abrir uma velha Bíblia e reler suas páginas santas! Então minha fronte se inclinava diante da cruz, esse sinal eterno da redenção, que une a terra ao céu, a criatura ao Criador!... Quantas vezes admirei esse poder de Deus, por assim dizer se subdividindo, e cuja centelha se encarna para fazer-se tão pequena, vindo render a alma no Calvário em expiação!... Vítima augusta cuja divindade eu negava, e que, entretanto, me fez dizer: - Teu Deus que tu traíste, teu Deus que tu blasfemas, Para ti, para o universo, morreu nestes lugares! 

Sofro, mas expio a resistência que opus a Deus. Tinha a missão de instruir e esclarecer. A princípio o fiz, mas o meu facho se extinguiu em minhas mãos na hora marcada para a luz!... Felizes filhos do século XIX e do século XX, a vós é que é dado o facho da verdade, fazei que vossos olhos vejam bem a sua luz, porque para vós ela terá radiações celestes e sua claridade será divina!” 


Num contexto propício às rupturas mais radicais, Allan Kardec tinha todas as condições para optar pelo caminho das contestações que varreram o seu tempo rumo ao materialismo. Mas resistiu, moralmente, como uma rocha, cuja função era reconstruir tudo o que estava sendo rapidamente devastado pelos demolidores insensatos. Kardec também seria um demolidor de velharias inúteis da tradição, um varredor dos escombros do passado obscuro, mas não seria irresponsável, nem permaneceria apático e impotente como a maioria dos que também fizeram o mesmo papel. A demolição era para ele o início de um trabalho de reconstrução e não da destruição pela destruição. 

O mundo que estava sendo destruído precisava conhecer um outro mundo, o das causas e não dos efeitos, da energia, do pensamento, da vontade, das coisas interiores, enfim, o mundo-matriz das coisas que se refletem obscuras e distorcidas no universo material e exterior. Esta era uma missão extremamente delicada e ingrata, num momento em que a História já está obnubilada pelo ceticismo científico, pela magia do capitalismo industrial e pelas facetas da sociedade de consumo. 

Nasceu Rivail sob o signo político e social da Revolução Francesa, em sua fase mais conservadora e da consolidação burguesa; viveu no agitado século das ideologias, numa França ainda traumatizada pelo terror jacobino, reacionária e comandada sob os projetos expansionistas de Napoleão Bonaparte. Alguns anos depois o estrategista corso deixaria, também, marcas traumáticas na sociedade francesa. 

Quando Rivail, em 1831, estava iniciando sua carreira de educador em Paris, a França e o mundo sofriam também as influências do grande Concerto Europeu do Congresso de Viena. O Liberalismo era uma incerteza e o Conservadorismo da Santa Aliança estava a ameaçar todas as liberdades e seus limites, que haviam sido notavelmente registrados por Napoleão, no seu célebre Código Civil. Stendhal, em O Vermelho e o Negro, nos oferece um retrato fiel da mentalidade e do clima da sociedade dessa época: 

“– Ah! Roma, Roma!… – exclamou o dono da casa. 

- Sim, cavalheiro, Roma! – tornou o cardeal, com orgulho, - Quaisquer que tenham sido os gracejos mais ou menos engenhosos que estiveram em moda, quando os senhores eram jovens, eu direi alto e bom som, em 1830, que somente o clero, guiado por Roma, é que fala ao povo humilde. Cinqüenta mil padres repetem as mesmas palavras no dia indicado pelos chefes, e o povo, que, afinal, é quem fornece os soldados, será com mais facilidade convencido pela voz dos padres do que por todos os versinhos do mundo... 


Essa alusão provocou murmúrios. 

- O clero tem uma inteligência superior as dos senhores – tornou o cardeal, erguendo a voz; - Todos os passos que os senhores deram em direção a esse ponto capital, ter na França um partido armado, foram dados por nós. Aqui aparecem os fatos... Quem empregou 80 mil fuzis na Vendéia?...etc., etc.” 

Do outro lado do Canal da Mancha, a Rainha Vitória empresta seu nome a uma Era que será dominada pelo mais extenso e influente dos impérios contemporâneos. Estimulada pela expansão do seu capital, a Inglaterra assume a liderança industrial do mundo e, por recomendação dos seus mais sábios economistas-filósofos, passa a combater a mão-de-obra compulsória e o tráfico de escravos numa vasta região do planeta. Buscava novamente o império o aumento de lucros, mas também aliava a essa ambição uma dívida coletiva que assumira em tempos remotos. Não foi obra do caso que os ingleses transformaram sua civilização na mais culta e pragmática do seu tempo e não foi à toa que Willian Shakespeare, o símbolo máximo dessa cultura, soube interpretar tão bem as raízes e razões do seu povo com as suas analogias teatrais entre os governantes de Roma e os monarcas anglo-saxões. Também não era coincidência o misto de admiração e desconfiança que os ingleses nutriam por Napoleão Bonaparte, já que muitos viam nele o renascimento daquela mesma personalidade de César, nome que se tornaria sinônimo de poder em todos os tempos. Recordando as curiosas revelações de Emmanuel[3] sobre as origens da família indo-européia, se na coletividade cultural britânica encontramos todos os traços psicológicos da imponente civilização romana, na Península Ibérica o espírito aventureiro dos fenícios, assim como na Prússia germânica encontramos a disciplina espartana, na França também vamos identificar o espírito livre de Atenas, uma das mais brilhantes civilizações da antiguidade clássica. 



A CAPITAL DE SÉCULO XIX 

“PARIS – Alegre e linda Paris – rica em tesouros arquitetônicos, repleta de associações históricas do mais profundo interesse – favorecida por seu clima excelente – cheia de infindáveis novidades – morada e ditadora da moda européia – dotada de tudo com quanto à arte e a ciência podem contribuir para agradar os sentidos – um povo famoso por sua inteligência e ousadia – de fato, em suma, O PARAÍSO DOS TURISTAS!” “Como conhecer Paris por cinco guinéus” – guia para viajantes ingleses e norte-americanos, editado em 1869. 


O cenário que Allan Kardec vai brilhar para o mundo da espiritualidade, a antiga Lutécia, agora se chama Paris, nome que lembra um fato muito mais remoto do que os antigos habitantes, os “parísios”. Na mitologia grega[4], Páris, o filho de Hécuba e de Príamo, o mais poderoso dos reis de Tróia, se envolve numa complicada trama de vaidades na qual a deusa Afrodite o leva para Esparta, a fim de fazê-lo cortejar Helena, a mais bela mulher do mundo e esposa do rei Menelau. Helena e Páris fogem e desencadeiam a mais famosa das guerras humanas, cujos relatos lendários escondem antigas e novas relações entre esses dois povos. Hécuba sonhara que, ao invés de um belo menino, saíra das entranhas uma tocha com imensas labaredas ardentes. A tocha tomava vida e se alastrava com suas terríveis flamas por todos os domínios reais, transformando tudo em ruínas e desolação. Ao ouvir o relato angustiante da esposa, Príamo resolve sacrificar o rebento, que era realmente forte e saudável. Por ordem do rei o menino deveria ter sido assassinado pelo pastor Agelau, mas o destino não permitiu a realização do infanticídio. Abandonada a própria sorte, a criança foi encontrada no dia seguinte pelo próprio Agelau que, consumido pelo remorso, surpreendeu-se ao vê-la sendo amamentada por uma enorme ursa marrom. Agelau entendeu o aviso dos deuses e resolveu batizar o menino com o nome que na língua dos antigos gregos significava “cesto”, pois o bebe o tempo todo vinha sendo realmente levado num “paris” ou cesto de vime. Pela determinação da Lei de ação e reação, bem como pelos laços de afinidade que atraíam esses dois povos desde os remotos conflitos pré-históricos entre os nórdicos e os mediterrâneos, a mitológica Guerra de Tróia voltaria ao seio de Europa como uma força devastadora que seria iniciada em 1870, logo após o desencarne de Allan Kardec. Paris, como a mitológica Tróia, seria novamente o centro das hostilidades sangrentas entre a França e a Prússia, sucedendo-se uma onda de vingança e massacres na Primeira Guerra Mundial, no episódio da humilhação germânica pelo Tratado de Versalhes. Em 1940, vinte e dois anos depois, ao ocupar a Cidade-Luz, Hitler exigiu que a França assinasse sua rendição na floresta de Compiène, o mesmo local onde a Alemanha havia se rendido em 1918. Também a guerra fratricida do Peloponeso estava de volta. Em 1915, na Batalha de Verdun, a maior da história mundial, a França e a Alemanha destruíram mais de um milhão de vidas. “A Humanidade é louca! Que massacre! Que cenas de horror e carnificina!”, exclamava um jovem soldado francês pouco antes de morrer numa trincheira[5]. A ligação cármica entre essas duas coletividades se manifestava num estranho jogo de repulsa e admiração. Antes e depois da Guerra Franco-Prussiana, franceses e alemães viviam se imiscuindo na vida cultural e política uns dos outros, como faziam Atenas e Esparta. As opiniões eram carregadas de provocações e receituários de soluções para corrigir problemas inexplicáveis. A Prússia se via como vigilante superior do atrevimento dos parisienses e os franceses repudiavam sua insensibilidade. Muitos franceses, quando criticavam os defeitos da sua pátria, lembravam as virtudes dos prussianos, com a intenção de agredir seus dirigentes. O mesmo acontecia na Alemanha. Ernest Renan sugeriu certa vez que a França corria o risco de se transformar numa América de segunda classe, caso não pusesse limites no liberalismo democrático. Segundo ele a França tinha que aprender a conduzir o Estado com a “realpolitik” dos vizinhos prussianos. A declaração foi feita em 1871, no auge dos conflitos. Já os franceses carregavam um complexo de inferioridade racial, fortemente alimentado por teóricos racistas dos dois lados. O conde Gabineau atribuía a derrota da França a diluição do sangue francês nas relações coloniais com os negros e amarelos. Um certo Dr. Karl Starck, alemão, publicava ensaios sobre a degeneração psíquica da nação francesa, que tinha como causa o materialismo do II Império, a queda do índice de natalidade, a prostituição e propagação de doenças venéreas, ao consumo do absinto, a extrema liberalidade das relações sexuais ilícitas, e, finalmente, a vida confortável e regada de prazeres da Paris moderna. Ora, esse discurso era o mesmo dos rígidos Espartanos com relação ao modo de vida de Atenas. O espírito de Licurgo estava vivo na Prússia enquanto o de Péricles vibrava na França. A guerra havia se tornado um culto de celebração das multidões e uma fuga da rotina e das decepções da vida cotidiana. Se Esparta havia derramado seu espírito disciplinado e belicista na coletividade alemã, a França, especificamente Paris, sofreu forte influência cármica de Atenas. Ali, nos séculos XVII, XVIII e XIX, reencarnaram e atuaram, praticamente, a maioria dos artistas, filósofos, dramaturgos, cientistas, políticos, célebres oradores, militares, juristas, enfim, o imenso patrimônio cultural humano que havia vivido em Atenas, sobretudo no inesquecível século V. A febre artística e filosófica do Neoclassicismo não foi uma mera coincidência. Era, com certeza, a volta de muitos Espíritos que traziam em suas almas as mais profundas influências daqueles tempos memoráveis da civilização do Egeu. 

Não podemos esquecer, também, que os parisienses se reuniram, pela primeira vez, nessa nova jornada existencial, para lutar pela sua coletividade, quando Júlio César expandia seus domínios nessa região. Relatando a investida do general romano para deter o avanço dos helvécios e garantir a conquista da Gália, Teodore Mommsen[6], em sua clássica “História Romana” parece conhecer esses segredos de história espiritual: 


“Das nascentes do Reno ao Atlântico as tribos germânicas estavam em movimento, toda a linha do Reno se via ameaçada; era um impulso como o dos germânicos e francos quando se lançaram sobre o vacilante Império dos césares... 500 anos mais tarde”. 


O grande historiador e filólogo alemão, Prêmio Nobel em 1902, explica, talvez por intuição, as causas dessa sua associação entre o passado e o presente: 

“O fato de haver uma ponte ligando a passada glória da Grécia e de Roma às mais orgulhosas nações modernas, e de ser a Europa Ocidental românica, e a Europa Germânica ser clássica... tudo isto é o trabalho de César; e enquanto a criação de seu grande predecessor no Oriente foi quase totalmente reduzida a ruínas pelas tempestades medievais, a estrutura de César subsistiu através desses milhares de anos, modificadores de tantas religiões e Estados.” 


Depois de conquistá-la com seu estilo autoritário e paternal, o grande general romano deixaria na Gália profundos compromissos espirituais, retornando mais tarde para saldá-los na figura marcante de Bonaparte, o “Peti Caporè”. O Espírito Ramatis afirma em suas polêmicas comunicações que Napoleão e Júlio César eram o mesmo Espírito de Alexandre Magno, o feroz e culto guerreiro da Macedônia. Este último aprendera a amar a cultura helênica através do seu preceptor Aristóteles. Verdade ou não, essa informação nos recorda uma observação do historiador romano Suetônio[7] (75-160 a.C.) ao relatar que, certa vez, em Gadez, na Espanha, entediado com suas funções burocráticas, Júlio César viu uma estátua de Alexandre, e suspirou profundamente... Estava desapontado porque, numa idade em que Alexandre já havia conquistado o mundo, ainda não fizera nada de importante. Esse suspiro era uma vaga lembrança de sua existência anterior. Quando entrava em contato com alguma imagem ou informação histórica sobre Júlio César, também o jovem Napoleão Bonaparte tinha a mesma sensação, precisava fazer alguma coisa importante... 

A Paris de Allan Kardec foi a Atenas do mundo industrial moderno nascente; não só no estilo de vida, mas principalmente nas características particulares dos seus habitantes, sempre inclinados para o comportamento eclético. Mesmo no mundo atual da globalização, Paris não perdeu as características do espírito universalista ateniense. Isso pode ser comprovado na leitura que Walter Benjamin fez da cidade que denominou a “Capital do século XIX”. A Figura inesquecível do flâneur, que percorre as ruas de Paris em busca do passado e do futuro, à procura de si mesmo, é a síntese daquilo que a mais importante cidade francesa significava para o mundo vitoriano. Sérgio Paulo Rouanet[8] lembra que a expressão Cidade-Luz não tinha apenas uma dimensão simbólica, mas também uma claridade física impulsionada pela tecnologia de milhares de revérberos, bicos de gás e os perigosos archotes dos revolucionários. A flanerie histórica do personagem de Benjamin não esquece o lado aparentemente oculto e misterioso da cidade, e que seria desvendado pelo filho de Lyon: 


“Atravessando a Ponte Saint-Louis, ele entra na Cité. Ela é dominada pela silhueta noturna de Notre Dame. Ele tem medo, porque vista assim, nessa hora, a catedral se parece com um bosque gigantesco, coisa assustadora para um citadino. ‘Grandes bosques, vós me assustais como se fôsseis catedrais!”. Ele pensa em Victor Hugo, não tanto no Hugo que revelou aos parisienses a grandeza desse monumento gótico, como aquele que via na fachada da catedral o seu próprio nome, um grande H de pedra. Estranho como esse espírito via prenúncios e correspondências mágicas em toda a parte. Em suas sessões de espiritismo, em Guernesey, até alegorias se materializavam: idéias abstratas como a Beleza e a Humanidade atendiam ao apelo de sua table tournante, como se fossem almas. Foi Hugo que escreveu: ‘ O escritor-espectro vê idéias-fantasmas. Cuidado, tu que vives, ó homem do século, proscrito de uma idéia terrestre; porque isto é loucura, isto é sepulcro, isto é infinito, isto é uma idéia-fantasma’. Por que esse século tão racionalista foi o século do espiritismo? Balzac era leitor de Swedenborg e se interessava pelas ciências ocultas. ‘Tantos fatos verificados, autênticos, saíram das ciências ocultas que um dia elas seriam ensinadas como se ensina a química e a astronomia. É mesmo singular que no momento em que se criam em Paris cátedras de eslavo, de manchu, de literaturas tão pouco ensináveis como as literaturas do Norte não se tenha restaurado, sob o nome de antropologia, o ensino da filosofia oculta, uma das glórias da antiga Universidade”. 


Mas é possível que tenha sido exatamente o racionalismo espírita, com sua inevitável desmistificação do oculto e do mistério, que tenha provocado a sua rejeição pelo clero acadêmico, ainda muito ligado ao mito da mentalidade medieval. Citando ainda Hugo, Rouanet insiste intrigado: “Por que esse utopista da ciência e do progresso foi também um profeta do mito, um adepto do espiritismo?” 

Mas Hugo não via o Espiritismo como um mito, apesar de expressá-lo numa linguagem poética e mágica. Para ele, como foi para George Sand e Victorien Sardou, o Espiritismo superou o enigma primitivo oracular da table routante e avançou pelas veredas da filosofia e da ciência metódica daquele tempo. Só restava o problema moral e os limites da individualidade na aceitação ou rejeição dos seus princípios. 

Que outra cidade do mundo poderia ser o centro de discussões tão profundas e enigmáticas? Paris era realmente a capital do mundo e do século. Para ali sempre se dirigiu a maioria dos gênios criativos e inquietos de inúmeras pátrias, ávidos de reconhecimento, de liberdade de pensamento, expressão e de ação. A cidade vai sofrer entre 1853 e 1870 um intenso processo de reformas que vai transformá-la no mais admirado ícone urbano do mundo moderno. Rupert Christiansen[9], em recente estudo sobre a vida social em Paris, numa linguagem irônica, típica dos ingleses (sem nenhuma preocupação com as referências politicamente incorretas) mostra que, em 1848, a capital francesa ainda trazia no seu traçado o perfil da anarquia, típico das “cidades-vírus”, onde predomina o imprevisível e o descontrole sobre os seus movimentos de expansão. Mas logo entra em cena a genialidade de Georges Haussmann, eleito governador do departamento do Sena, cargo que nos próximos 17 anos seria, na prática, o prefeito de Paris. Ele empreendeu um arrojado projeto de reurbanização e arquitetura, cujas linhas principais são mantidas até hoje e que influenciaram reformas semelhantes nas principais cidades do mundo. 


“(...) Atualmente, o visitante que chega a Paris encontra de 1,5 a 2 milhões de habitantes. Em 1860, os muros fortificados se tornaram limite da municipalidade – são mais de 35 quilômetros de circunferência, com 66 entradas ou portões. 

A cidade é dividida em vinte arrondissements, ou circunscrições administrativas, governadas pelo prefeito do Sena, o barão Georges Haussmann, e seu conselho municipal. O moderno e elegante quarteirão compreende a alegre e magnífica rue de Rivoli, a Place Vendôme, o Boulevard des Italiens e Champs Elysées. O palácio das Tulheries é a residência do imperador e da imperatriz, em Paris; na Île de la Cité estão os tribunais, a chefatura central de polícia e o grande hospital; não há nada de semelhante à “City” londrina – a Bolsa de Valores perto do quarteirão da moda. No Faubourg Saint-Germain, situado na margem esquerda do Sena, localizam-se as grandes e belas mansões da nobreza, em algumas das quais se mantêm as tradições da velha sociedade francesa; no vizinho Quartier Latin, milhares de estudantes levam uma vida de rebeldia e desregramento moral que o estrangeiro mal consegue entender. A leste, Faubourg S. Antoine, outrora estufa de terror e insurreição, há numerosas manufaturas e moradias operárias. Nas cercanias, como no Faubourg S. Vitor, Mouffetard, Belleville, etc., vivem os segmentos mais pobres da população. Paris, entretanto, pode se orgulhar de ter menos antros de miséria, devassidão e vício do que as vizinhanças de Tottenhan Court Road ou Drury Lane exibem. 

Há cerca de 4 mil hotéis e hospedarias, carregando em seus nomes sinais da entente cordiale – daí, Chathan, Bristol, Windsor, Manchester, Brighton, Liverpool, Westminster, Dover, Bedford, Canterbury, Richmond, Lancaster, Clarendon, Nelson, Byron, Walter Scotch, Prince Regent, e vários Albions, Londres, Victorias, Îles Britanniques e Angleterres. 

(...) Paris exibe com orgulho pelo menos 20 mil cafés. Os mais higiênicos apresentam ao visitante um cenário animado, decorado com sofás luxuosos, espelhos, enfeites e adornos dourados de bom gosto; todos os artifícios capazes de atrair e reter o visitante estão expostos – jornais diários, tabuleiros de damas e xadrez, dominós, baralhos e bilhares. Servem-se café, chocolate e excelentes licores a preços razoáveis. Os salões podem ser freqüentados livremente por senhoras. Prevalecendo o máximo decoro, as conversações transcorrem em voz baixa, o que constitui uma atração a mais nesses lugares populares de diversão. Em geral, só se permite fumar à noite. 

Tortoni, no Boulevard des Italiens, é famoso por seus sorvetes cremosos e de frutas. O Café du Helder é conhecido por seu absinthe, um licor alcoólico que, tomado em qualquer quantidade, pode ser danoso ao bem-estar físico e moral; abre depois do teatro e a comida é caríssima (meio frango, quatro francos!) O Café Leblond Favre, na Passage de l’Opéra, é onde os corretores de ações da Bolsa tomam seu desjejum; refrigerantes à base de vinho de xerez, limão, açúcar, xarope de menta, grogue norte-americano e outras bebidas ianques à disposição. O Café de Suède fica no Boulervard Montmartre; em cubículos fechados, depois do teatro, servem-se sopas de ganso aux marrons, chucrute e salada de batatas a uma clientela literária e jornalística, de tendências políticas radicais. Le Guillois, excêntrico editor do jornal Le Hanneton, costuma ser visto por lá, sempre fingindo ler um exemplar e resmungando alto, ridiculamente: “Este jornal é extraordinário! Críticas excelentes, paginação inteligente! É tão barato! Realmente, esse Le Guillois é um homem incrível, merece fazer sucesso!” 

(...) Quando a noite chega, Paris, a Cidade-Luz, converte-se num verdadeiro charivari de prazeres, cabendo ao visitante apenas uma certa cautela, para não lamentar, mais tarde, ter cedido com presteza ávida demais aos apelos da sereia – tentações e bebedeiras – cujos efeitos podem ser catastróficos. 

Grand Opéra, na rue Lepelletier, é a Ópera francesa, construído às pressas, em 1821, em substituição ao prédio da rue Richilieu, na porta da qual o duque de Berri foi apunhalado, e que por isso foi abaixo. Em 1858, defronte ao seu pórtico, três italianos tentaram assassinar o imperador e a imperatriz, de sorte que essa edificação também está sendo substituída por uma esplêndida construção projetada por Monseur Garnier, e deve ser inaugurada em 1871 (...) As reservas para todas as apresentações teatrais parisienses podem ser feitas num escritório central, situado no Boulevard des Italiens; evite os cambistas, que vagueiam do lado de fora dos teatros mais populares – suas ofertas são excessivamente caras e quase sempre inteiramente falsificadas! 

(...) Além da profusão de igrejas, monumentos, galerias e vistas que todo turista conhece bem, chamaríamos a atenção dos visitantes para a MARCHA DO PROGRESSO evidenciada por essa grande cidade. Cada quarteirão de Paris parece admiravelmente renovado. O antiquário sentimental pode chorar a perda da velha Paris e seu passado romântico, assim como o moralista empedernido há de deplorar a glória atribuída à riqueza; mas com toda a justiça outros devem rejubilar-se pelo triunfo da ciência e da higiene modernas. 

(...) São 35 linhas de ônibus que cobrem os principais pontos da cidade, das 8:00 à meia noite. Damas não podem viajar no andar superior: são freqüentes as quedas fatais de gente que escorrega na hora de descer os estribos... Pequenos botes a vapor cruzam o Sena: são conhecidos como muches – moscas, ou andorinhas. 

Cuidado! Recomenda-se a maior precaução com as floristas, nos bals publics, cafés chantants e à saída dos teatros, e com os manhosos avanços de mulheres bem-vestidas e falantes... Nos mercados, barganhar é regra... Não há vendedores ambulantes de peixe em Paris. Todo o pescado é vendido no mercado. 

Atenção com os judeus vendedores de binóculos para teatro, jóias folheadas, etc., que podem oferecer ao visitante literatura e ilustrações licenciosas: tais artigos são proibidos. Cautela com os zeladores ou encarregados de prédios de apartamentos. Caso se sintam ofendidos, eles poderão causar terríveis aborrecimentos, extraviando cartas, dando informações erradas às visitas e espalhando maledicências nas redondezas. 

Deve-se evitar discussões políticas. A vigilância policial é ubíqua, e seus agentes detêm amplos poderes para fazer detenções e prisões. Sábio será quem se expressar com grande comedimento ao falar do imperador e do governo da França, eximindo-se de fazer ou comentar qualquer coisa que possa acarretar diminuição da entente cordiale que existe entre nossas nações.” 


UMA ÉPOCA DE DESENCANTO 


Como na antiga Atenas, Paris sempre recebeu os gênios forasteiros das artes, da filosofia e das ciências de braços abertos, porque eles sempre foram, também, o alimento precioso da sua identidade inconfundível: a Luz. Rivail é um deles e sua carreira de pedagogo na Capital do Mundo coincide com a eclosão dos movimentos políticos de 1830 e 1848, fortemente alimentados por idéias que causariam impacto na Europa e no mundo sob a sua influência cultural. Evocando as mais antigas tradições do racionalismo prático das tribos arianas, encontramos ali as raízes do materialismo científico europeu do século XIX. 

Nessa época, o Liberalismo adota os princípios científicos da genética evolucionista de Herbert Spencer, e a desigualdade social passa a ser justificada pelo conceito de “seleção natural das espécies”, de Charles Darwin. O autor desse polêmico tratado publicou sua obra dois anos depois que Allan Kardec havia lançado O Livro dos Espíritos. Darwin e Spencer passam, então, mesmo sem ter sido esta as suas intenções, a serem vistos como inimigos do criacionismo bíblico e vão ocupar lugar de destaque entre os pensadores que desafiam o aparato religioso vigente. Realmente, Darwin[10], ao contrário de Allan Kardec, tinha pavor das conseqüências do que escreveu, tanto que seu trabalho ficou guardado por muitos anos sob o pretexto de timidez e receio de que fosse rejeitado pela comunidade científica. Darwin não havia concluído seus estudos superiores e se dizia envergonhado de publicar suas pesquisas. Quem teve a idéia da publicação foi seu cunhado, curioso com a idéia de que a Humanidade evoluiu a partir de uma forma primata. Não era bem essa a verdade: no fim da vida o cientista inglês carregava um sentimento de culpa e remorso por ter levado tanta gente à descrença. E pensar que Darwin tinha bem perto de si um livro que fora publicado dois anos antes do seu, e que unia os elos perdidos entre a Religião e Ciência, entre o Homem e o Animal. Sobre as teses evolucionistas Allan Kardec escreveria anos tarde, em A Gênese: “ Embora isto fira o seu orgulho, o homem deve resignar-se a ver em seu corpo material o último elo da animalidade sobre a terra. O inexorável argumento dos fatos aí está, e será em vão levantar protestos contra tal situação”. 

Spencer foi mais coerente com o seu materialismo e persistiu na sua demolição arrasadora. John Kenneth Galbraith[11] nos conta que os escritos de Spencer tiveram muita influência na Europa, mas, nos Estados Unidos, foram recebidos como uma “revelação divina”, pois seu “evangelho” ajustava-se às necessidades e anseios do capitalismo americano. Estima-se que a venda das obras de Spencer tenha atingido na década de 1860 a soma de 370 mil exemplares, quantia espantosa numa época em que os ricos “ainda não eram tão dados à leitura como hoje”. A sua expressão clássica “sobrevivência do mais forte” era uma resposta do modo de vida “natural” das “castas capitalistas”, para mostrar que a caridade era prejudicial aos pobres, pois incentivava a preguiça e inibia a evolução da raça. Sobre a visita de Spencer aos EUA, em 1882, aos 62 anos, Galbraith escreve: “Assim como Jesus finalmente veio a Jerusalém, Herbert Spencer finalmente veio à América”. Isso explica, em parte, porque o Espiritismo nos Estados Unidos, a não ser no aspecto superficial dos fenômenos, não teria o mesmo efeito que teve nos lugares onde a pobreza e a miséria deixavam marcas mais doloridas, inclusive na consciência dos mais abastados. Sobre a Escola Espírita Americana, Allan Kardec escreveu na Revista Espírita, em maio de 1864: 

“O que particularmente distingue a escola espírita dita americana da escola européia é a predominância, na primeira, da parte fenomênica, a qual se ligam mais especialmente e, na segunda, a parte filosófica. A filosofia espírita da Europa espalhou-se prontamente, porque ofereceu, desde o começo, um conjunto completo, mostrou o objetivo e alargou o horizonte das idéias. Incontestavelmente ela hoje prevalece no mundo inteiro (...) 


De todos os princípios da doutrina o que encontrou mais oposição na América e por América devemos entender apenas os Estados Unidos, é o da reencarnação. Pode mesmo dizer-se que é a única divergência capital, pois as outras dizem mais com a forma do que com o fundo e isto porque os Espíritos ainda não a ensinaram. Explicamos as razões disto. Os Espíritos procedem em toda parte com sabedoria e prudência; para se fazerem aceitar, evitam chocar muito bruscamente as idéias recebidas. Não irão dizer inconsideradamente a um muçulmano que Maomé era um impostor. Nos Estados Unidos o dogma da reencarnação teria vindo chocar-se contra os preconceitos de cor, tão profundamente arraigados no país. O essencial era fazer aceitar o princípio fundamental da comunicação do mundo visível com o invisível; as questões de detalhe viriam a seu tempo. Ora, não duvidoso que esse obstáculo acabe por desaparecer e que um dos resultados da guerra civil atual seja o gradativo enfraquecimento de preconceitos que são uma anomalia numa sociedade tão liberal? 

Se a idéia da reencarnação ainda não é aceita nos Estados Unidos de maneira mais geral, ela o é individualmente por alguns se não como princípio absoluto, ao menos com certas restrições, o que já é alguma coisa. Quanto aos Espíritos, sem dúvida julgando que o momento é propício, começam a ensinar com prudência em certos lugares e abertamente em outros. Uma vez levantada, a questão seguirá o seu caminho. Aliás, temos sob nossas vistas comunicações já antigas, recebidas naquele país e nas quais devo exprimir formalmente, a pluralidade das existências é a conseqüência forçada dos princípios emitidos. Aí se vê lançada a idéia. Então não e duvidoso que em pouco tempo o que hoje ainda se chama escola americana fundir-se-á na grande unidade que se estabelece em toda parte.” 

Mas não era só a ideologia do dinheiro e da ambição que afastava as pessoas mais “esclarecidas” da Doutrina Espírita. O preconceito, com uma certa dose de orgulho e incredulidade, afastava dela muitos intelectuais. Era o século do nascimento da Ciência Positiva, que será polarizada como nunca com a Religião. Os pensadores, seduzidos pela própria História que renegavam, não conseguiam distinguir o Cristianismo do Catolicismo. Para Schopenhauer[12], o pai dos pessimistas, o Cristianismo era a própria teologia católica, atolada nas contradições, na afirmação e na negação da vontade humana, do jogo maniqueísta dos pecados e virtudes; um freio social útil aos sistemas políticos opressores. Era também o século das contestações deterministas: Karl Marx publica “A Miséria da Filosofia” (1847) e, com Engels, o “Manifesto Comunista” (1848); nasce uma nova interpretação da realidade histórica: o materialismo dialético e o determinismo econômico. Desde Aristóteles, do ponto de vista do intelecto, não aparecera ninguém com teoria tão genial e explosiva sobre as relações de conhecimento, poder e trabalho entre os homens. Marx e seus seguidores fariam o caminho contrário do Espiritismo no campo das transformações sociais. Marx queria mudar o mundo pela luta de classes; Kardec e os Espíritos apostaram na mudança do Homem pela luta contra seus defeitos morais. Jacob Moleschott, Emilie Littré e Rudolf Virchow negam veemente o livre-arbítrio sustentando com o determinismo fisiológico a supremacia do cérebro, dos nervos, dos músculos, da nutrição e da hereditariedade sobre o destino. Estava desabando entre as elites o universo fatalista teológico e cujas repercussões sociais seriam inevitáveis. Mas não era somente a tradição dogmática religiosa que estava em risco, mas também a fé e a esperança. A idéia do Reino de Deus estava em jogo, tanto na expressão simples daqueles que acreditavam numa Jerusalém terrestre ou simbolicamente celeste, como na perspectiva mais sofisticada do mundo interior da consciência. A mente, a imortalidade e o transcendente estavam sendo submetidos a uma prova de vida e morte. 

Em 1830 Auguste Comte tinha iniciado a publicação do seu “Curso de Filosofia Positiva”. Embora negassem a realidade do mundo espiritual, essas idéias seriam muito importantes na estruturação do pensamento e do método científico da época, incluindo os de Rivail. O criador do Positivismo e ex-aluno da Escola Politécnica de Paris reconhecia que a Revolução Francesa tinha sido importante para destruir o aparato teológico que dominava o mundo, porém, ao demolir as instituições políticas absolutistas, semeara o caos e deixara um vazio social que precisava ser reordenado. Como um reflexo do espírito da Reação vigente, Comte ansiava por uma nova ordem mundial. Tanto o Socialismo utópico do seu mestre Saint-Simon como o Socialismo materialista de Karl Marx seriam insuficientes para construir esse mundo novo. Aprendera com Saint-Simon que era preciso entregar as rédeas da Sociedade para uma elite científico-industrial. Comte via o problema do mundo pela ótica moral; o Homem precisava ser reformado “intelectualmente” e isso resultaria na transformação da sua estrutura moral. Mas essa seria uma tarefa essencialmente “técnica”, na qual o ser humano deveria reaprender a pensar. Somente adquirindo novos hábitos na maneira de “pensar” é que seria possível iniciar a reforma das instituições. É claro que Comte desconhecia os mecanismos da mente humana, tal qual demonstrariam, mais tarde, Henri Bérgson e Sigmund Freud. Achava simples a idéia de fazer alguém mudar a maneira de pensar. Confundia pensamento com raciocínio e este com as atitudes, reflexo da moral. Sua noção de Cristianismo era a da Igreja e a mudança de atitude era associada aos raros casos de santificação e sacralização. Acreditava profundamente nessa hipótese da mudança de pensamento e só encontrou um método capaz de concretizá-la: a religião dogmática e tradicional. Depois de produzir, durante anos, todo um discurso Científico e Positivo, herdado da mais pura linhagem filosófica racional, de Bacon, Galileu e Descartes, Auguste Comte parece ter perdido o juízo e propõe, em pleno século XIX, uma nova religião. Era o Catecismo Positivista ou Exposição Sumária da Religião Universal, na qual resgata a ordem da Sociedade feudo-clerical da Idade Média. O pensador que iniciara sua carreira brilhante finalmente estava vencido pelo desencanto, causado pelo materialismo e pelo niilismo reinantes. Ainda na juventude Comte tivera que interromper as aulas de um curso de filosofia positiva que ministrava em sua própria residência. O motivo era o mesmo que o perseguiria por toda a sua vida: uma profunda depressão e melancolia. Talvez tenha sido essa a causa da reviravolta no seu pensamento; esses males provenientes de cavernas frias e escuras da mente eram armas poderosas com as quais nenhum intelecto não podia lutar. Essa angústia, que viria ser muito comum no século XX, mexeu com seus antigos valores religiosos e, na busca de referências mais claras e racionais, nada encontrou senão o conservadorismo e o dogma como refúgios para sua confusão e seu ceticismo. Um pensador do século XIX jamais poderia olhar para dentro de si mesmo, pois sofria desse mal de fim século, que é a negação do Eu e de tudo que o rodeia. Esse era um esforço muito além da capacidade intelectual. Somente Sócrates havia conseguido tal proeza. Era uma questão de orgulho e estima. 

Mas Allan Kardec estava vacinado contra esse defeito moral. Seu gênio racional ariano não era proveniente daqueles grupos de coração mais enrijecido pela mágoa e revolta contra os Céus, traço típico dos Espíritos exilados compulsoriamente da Capela; a genialidade de Kardec vinha do ramo dos celtas que, ainda segundo Emmanuel, depois de alguns séculos de dores e solidão, “retornaram ao culto divino, venerando as forças da Natureza, junto aos carvalhos sagrados”. Além disso, Sócrates e Jesus vibravam de uma maneira diferente em seu espírito inquieto e insatisfeito com os modelos intelectuais do seu tempo. Ele não se conformava com o que haviam feito com seus dois ícones existenciais: os sacerdotes tinham transformado Jesus num mito dogmático e os filósofos fizeram o mesmo com Sócrates, transformando-o numa distante lenda grega. Para ele, Sócrates e Jesus não eram mitologia; foram serem humanos de comportamento incomum, mas também eram seres históricos, reais, bem acessíveis aos seres humanos comuns. Não foi à toa que esses dois tornaram-se as duas personalidades mais influentes da Humanidade. Tudo neles era compatível, como se tivessem combinado, previamente, como agir na descoberta do mundo íntimo (Aretê, a Virtude; e Malkuth, o Reino); sofreram as mesmas hostilidades do poder religioso e político estabelecido porque ironizavam os frágeis dogmas que os sustentavam; nada escreveram, pois tinham certeza de que seriam deturpados pelos seus intérpretes, daí a preocupação com a vivência e os exemplos; ambos estavam imbuídos de uma missão, motivada por uma força ao mesmo tempo interior e superior a eles (o deus do oráculo e o Pai que está no Céu); e finalmente levaram às últimas conseqüências às suas convicções: Sócrates exigiu que a lei ateniense fosse cumprida e recusou qualquer artifício para salvá-lo da pena de morte. Da mesma forma, Jesus não deixou outra alternativa para Pilatos e os juízes do Sinédrio. Suas condenações eram necessárias, sem admitir acordos ou concessões, pois o que estava em jogo não era apenas suas existências passageiras, mas a Verdade. Allan Kardec trazia na mente essas duas experiências históricas e sabia que a sua missão era sintetizá-las numa só obra. 

Essa situação constrangedora de engessar, pelos dogmas, a figura de Jesus e fazer de Sócrates um ateu, precisava ser revertida com ferramentas simples, que mostrassem que eles viveram bem perto de nós e que nunca tiveram a pretensão de se tornarem mitos inacessíveis. Suas mortes nunca deveriam ter se tornado objeto de culto, pois essa foi a causa do distanciamento. Sócrates e Jesus deveriam continuar acessíveis a todos, sem obstáculos e intermediários. Ora, o velho filósofo grego falava com os Espíritos; Jesus também falava com eles; a pitonisa do Oráculo de Delfos veiculou mensagens mediúnicas que levariam Sócrates a mudar radicalmente sua trajetória de vida; falar com sua voz interior, o seu deus, era também uma forma de ouvir a voz inspirada dos Espíritos (pneuma). Assim como Jesus faria mais tarde, Sócrates, após ser investido pelo seu guia espiritual (daimon ou demônio) passou a agir exclusivamente em função da vida missionária: 

“Não tenho outra ocupação senão vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada.” 


Como Jesus, o velho Sócrates queria golpear a morte e a melhor forma de fazer isso era morrer, sem pânico ou angústia: 

“Ou aquele que morre é reduzido ao nada e não tem mais qualquer consciência, ou então, conforme o que se diz, a morte é uma mudança, uma transmigração da alma do lugar onde nos encontramos para outro lugar. Se a morte é a extinção de todo o sentimento e assemelha-se a um desses sonos nos quais nada se vê, mesmo em sonho, então morrer é um ganho maravilhoso (...) Por outro lado, se a morte é como uma passagem daqui para outro lugar, e se é verdade, como se diz, que todos os mortos aí se reúnem, pode-se, senhores juízes, imaginar bem maior?” 


Apesar dessas frases estarem um pouco “platonizadas” pelo ceticismo de seus intérpretes, Sócrates não deixa dúvida sobre sua convicção e confiança no Além: “Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto o deus”. 

Enquanto os pensadores materialistas cultivam o Sócrates descrito com despeito por Aristófanes (As Nuvens), Kardec via-o como um admirador de Anaxágoras de Clazômena, que ensinava que tudo no universo era movido pela ação criadora da Inteligência ou do Espírito (Nous). Mas o Sócrates que mais atraía o Professor Rivail (e futuro Allan Kardec) era aquele que tinha recebido uma revelação do oráculo de Delfos, através da pitonisa e do amigo Querofonte: “Você é o mais sábio dos homens!” E Sócrates, sabendo que nada sabia, logo entendeu o recado do Espírito: tinha a missão de dizer a todos que era preciso primeiro admitir a própria ignorância para depois receber a Verdade: “Desde então, e de acordo com a vontade do deus, não deixei de examinar os meus concidadãos e os estrangeiros que considero sábios e, se me parecerem que não o são, vou em auxílio do deus revelando-lhes sua ignorância.” 

Ora, isso não é poesia nem fantasia da cabeça de um sábio como Sócrates; isso é a filosofia do Espiritismo; isso é essência do Evangelho de Jesus. “Eureka!”, teria dito o professor Rivail, com um forte sotaque gaulês, ao descobrir essas evidências tão empolgantes. 

Com certeza, Kardec lera as obras de Comte e de suas aulas teóricas tirara grande proveito metodológico; é só compararmos a estrutura didática do diálogo da mulher com o sacerdote no Catecismo Positivista com a estrutura literária de O que é o Espiritismo, no qual Kardec dialoga com o Crítico, com o Cético e com o Sacerdote. Era uma clara estratégia de comunicação para mostrar o Espiritismo como uma Ciência Positiva e afastar o julgamento precipitado e preconceituoso contra o tipo de religião predominante. Era uma Ciência, sim, mas de profundas conseqüências morais. Mas como tinha mais amor à Verdade do que a si mesmo, Kardec soube lidar com as angústias e depressões[13] que, provavelmente, também lhe assaltaram a alma no decorrer da sua intensa experiência intelectual. Podemos ir mais longe: talvez provando pessoalmente as dúvidas do mais cético dos apóstolos de Jesus, Allan Kardec era tentado a ver o mundo moderno numa perspectiva semelhante a do jovem Comte: a solução para aquela situação de decadência era, realmente, de natureza moral. E o Homem deveria mudar, de forma radical, o seu jeito de pensar, não pela sua reestruturação intelectual, mas pela renovação das suas atitudes. Mudar a forma de ver e pensar o mundo e as coisas que nele existem não é tão difícil quanto mudar a opinião sobre como se deve agir em relação a elas e sobre si mesmo. Ao chegar no mesmo ponto em que Comte havia chegado, o ponto crítico, onde normalmente não se encontra mais saída para as dúvidas, Rivail também buscou suas antigas referências de cosmovisão, mas rompeu o limite onde Comte havia estacionado: encontrou-se com as verdadeiras tradições religiosas; era um novo reencontro com a fé. Também deve ter tido uma decepção profunda a ponto de ter se questionado se valeria a pena ter acreditado e vivido até ali segundo esses valores da religião exterior. Essa pergunta era feita todos os dias por milhões de pessoas descrentes no mundo inteiro e a maioria delas chegava a conclusão, como Nietzsche, de que o mundo havia acabado e que o Homem insistia teimosamente em sobreviver. Também deve ter sido nesse momento crucial de sua vida que Rivail teve o seu famoso encontro com o seu Querofonte, o velho amigo Carlotti, que lhe falou sobre as mesas-girantes e a comunicação com as almas de defuntos. Deve ter sido nesse instante que a mente de Rivail, rompeu, por alguns segundos, a memória objetiva para vasculhar no seu inconsciente algumas lembranças de um passado muito anterior aos limites intra-uterinos e buscar nas misteriosas florestas da Gália as suas mais profundas raízes de espiritualidade. 

Auguste Comte desencarnou cinco meses após a publicação de O Livro dos Espíritos. Antes disso deve ter achado “esquisita” e “patética” a idéia de um Mundo Espírita, animado pela inteligência de “defuntos”, como a maioria dos orgulhosos pensadores da época. Seu encontro com o Espiritismo se daria de uma forma bem diferente do que poderíamos imaginar. Sabe-se que, no Brasil, o Positivismo teria, tal qual o Espiritismo, uma repercussão muito interessante. O professor e filósofo José Arthur Giannotti, de quem bebemos alguns dados sobre Comte, afirma que o Positivismo e a Religião Positivista só encontraram “... solo mais fértil... em países de menor tradição cultural e carentes de ideologia para seus anseios de desenvolvimento.” Segundo Giannotti[14], “Esse fenômeno ocorreu na América do Sul, sobretudo no Brasil.” É muito curioso lembrar que esse “solo mais fértil” foi exatamente o Rio de Janeiro, a partir de 1850, através da publicação de teses de doutorado de membros da Escola Militar. Dos três fundadores, em 1872, da primeira sociedade positivista do Brasil – Teixeira Mendes, Benjamin Constant e Miguel Lemos – este último foi o idealizador da “Igreja Positivista” do Rio de Janeiro, cuja missão apostólica era “formar crentes e modificar a opinião por meio de intervenções oportunas nos negócios públicos”. Nesta citação de Comte feita pelo professor Giannotti, já percebemos a tendência de corporação totalitária da Igreja Positivista, mais tarde ressuscitada pelos integralistas, inspirados no nazi-fascismo europeu. Outra influência significativa do Positivismo e da sua “Igreja” no Brasil, além da famosa inscrição “Ordem e Progresso” em nossa bandeira, foi o manancial “científico-intelectual”, tão extremamente rígido quanto estreito, que brotou com mais ênfase entre alguns dos membros espiritualistas do Grupo Confúcius. Foi de dissidências desse grupo que se originaram, anos depois, as primeiras entidades Espíritas no Brasil, incluindo a Federação Espírita Brasileira. Fundado em 1873, o Confúcius seria, mais tarde, dividido, ideologicamente, em sua ligação doutrinária com Allan Kardec, influenciados pela estrutura de pensamento “científico-religioso” de Auguste Comte e também pelas idéias de outros alguns escritores franceses que também deixaram grande penetração no primitivo Movimento Espírita Brasileiro. Para o Espírito Emmanuel, esses escritores dedicaram-se ansiosamente a interpretar os “segredos iniciáticos” do povo hebreu sem, no entanto, lograr êxito, pois, “aproximando-se da realidade com referência às interpretações, não lhes foi possível solucionar os vastos problemas que as suas expressões oferecem”. Entre eles lembramos de Ernest Renan e Jean-Baptiste Roustaing. 


DEUS E O SUPER HOMEM 

No mesmo ano em que Allan Kardec lançava A Gênese, Friedrich Nietzsche tornava-se professor de Filosofia Clássica na Universidade de Basiléia. O autor de “Assim Falou Zaratustra” - provavelmente o livro mais lido daquele século - também ocuparia lugar de destaque na galeria dos demolidores de dogmas bíblicos. Para ele Deus estava morto e o Cristianismo era a consagração do fracasso humano; o irracionalismo de Nietzsche pregava a idéia de que somente a guerra e a destruição poderiam higienizar o mundo decadente que apodrecia naquele momento. O homem que passou a vida brincando com a razão e com o sentido das coisas terminou seus dias em completa loucura, escrevendo cartas estranhas, as quais assinava “Dionisio” ou “O Crucificado”. Era o século do absinto e do culto à morte pelo duelo e pelas aventuras poéticas auto-destruidoras, uma herança negativa de Voltaire e seus discípulos científicos. O índice de suicídios no século XIX foi tão alto que despertaria mais tarde a curiosidade de pioneiros da Sociologia como Émile Durkheim. Numa edição de maio de 1862 o “Siècle” de Paris[15] publicou uma nota comentando o livro de B. Gastineau, pela Casa Dentu, cujo assunto central era uma curiosa estatística de suicídios: 

“Calculou-se que desde o começo do século o número de suicídios na França não se eleva a menos de 300.000; e tal estimativa talvez esteja aquém da verdade, pois a estatística não fornece resultados completos senão a partir de 1836. Desde 1836 a 1852, isto é, num período de dezessete anos, houve 52.126 suicídios, ou seja, a média de 3.066 por ano. Em 1858 contaram-se 3.903 suicídios, dos quais 853 mulheres e 3.050 homens; enfim, segundo a última estatística que vimos no correr de 1859, 3.899 pessoas se mataram, a saber 3.057 homens e 842 mulheres.” 


A morbidez exercia tanto fascínio no público leitor que no famoso guia “Como Conhecer Paris por cinco guinéus” também constava como um dos programas preferidos dos turistas a visita a La Morgue, um famoso necrotério da Cidade-Luz. As informações davam uma idéia da grande crise existencial que assolava o mundo ocidental: 

“Em 1866, a Morgue recebeu um número recorde de defuntos: 733 – sendo 486 homens, 86 mulheres e 161 crianças. Dos 445 identificados, 285 tinham se suicidado atirando-se ao Sena e 36 enforcaram-se, seis tinham se matado com armas de fogo, seis tinham ateado fogo às vestes e outros tantos ingerido veneno, propositalmente ou não, 19 foram vítimas de homicídios e três tinham sido esfaqueados, três morreram de inanição e 82 de morte súbita, em plena rua. Grande parte do suicídios teve como causa o fracasso de especulações na Bolsa de Valores.” 


MADAME BOVARY SOMOS NÓS 


Madame Bovary foi talvez o maior sucesso literário popular do século XIX. Foi lançado no mesmo ano em que foi publicada a primeira edição de O Livro dos Espíritos, em 1857. Retratou o mundo burguês da Europa romântica, mas fez de forma tão desconcertante que os críticos até hoje não conseguem classificá-lo nas suas confusas tabelas de estilos. Fomos buscar numa antiga tradução publicada pela Editora Abril os trechos mais curiosos, incluindo os discursos cínicos e anticlericais do farmacêutico Homais. 

Mas foi assistindo a versão de Claude Chabrol para o cinema que pudemos sentir de forma mais intensa as fantasias, constrangimentos e as angústias que depois finalmente levaram Emma ao seu desespero. O pequeno romance, que mais parece um conto, também, como muitos outros, ensinou francês e hábitos europeus para sucessivas gerações de leitores no mundo inteiro. 

A história de uma senhora provinciana que comete suicídio após uma intensa trajetória de aventura sentimentais rendeu ao autor Gustave Flaubert um curioso processo judicial, sob a acusação de ofender a família, a religião e os valores morais vigentes. O escândalo literário foi certamente inspirado numa história real, mas que revelava nas entrelinhas os inúmeros casos verídicos que jamais seriam revelados ao público. A famosa resposta de Flaubert ao juiz que lhe perguntou “Quem era Madame Bovary” não poderia ter sido mais irônica e genial, mostrando que a fragilidade humana era uma prova indiscutível da falácia dos privilégios e preconceitos de classe: "Emma Bovary c'est moi". Ao ouví-la nesses anos todos ficamos nos perguntando por que Allan Kardec também não foi levado aos tribunais, já que sua obra continha muito mais “ofensas” aos valores sociais da época. Sua amizade informal com o Imperador Napoleão III não alterou esse perigo e Kardec também nunca abusou dessa prerrogativa, muito menos deu motivos para escândalos, preferindo uma abordagem mais reflexiva, sem os riscos passionais da expressão artística. Anos mais tarde Pierre-Gaetan Laymarie não teria a mesma sorte. Nem a sensatez de Amélie Boudet ao depor a seu favor no tribunal livrou-o da ferocidade dos acusadores. A sentença dele (do Espiritismo) já havia sido dada antes do julgamento. Mas se algum juiz perguntasse a Kardec “Quem eram os Espíritos”, a resposta provavelmente seria a mesma dada por Flaubert, talvez mais impessoal, e por isso mesmo não tão chocante e irônica: “ Os Espíritos somos nós”. 

Nas artes, o romantismo promove a busca ao passado medieval e a sua versão política, o Nacionalismo, torna-se o principal combustível das revoltas que resultariam nas dezenas de guerras regionais e mais tarde mundiais. A guerra entre a Física e a Psicologia estava apenas começando, e os materialistas estavam em grande vantagem, pois, apenas no final do século é que iriam surgir dois nomes que, mesmo sem ter essa intenção, confirmariam as premissas do Espiritismo: Henri Bérgson, que desafiou os materialistas com a reafirmação do conceito de “mente” e “consciência”, diferenciado-as, conceitualmente, do aspecto biológico do cérebro; e Sigmund Freud e sua “psicanálise”, cujos conceitos iriam dissecar a mente humana, separando-a, definitivamente, dos limites orgânicos. Esse abismo existencial entre a Física e a Metafísica, entre o cérebro e a mente, entre a Psiquiatria e a Psicologia, já havia sido discutido e explicado, mesmo com limites, por Allan Kardec, que mostrou, em quase todas as suas obras, a diferença entre corpo e espírito, energia e matéria e a plenitude da consciência. Com a filosofia dos Espíritos Kardec resgatava a concepção de alma desencadeada por Sócrates, mostrando que a “psiquê” era a melhor definição da individualidade imortal. Nesse terreno os gregos souberam selecionar e apreender o que havia de melhor e mais preciso. É o que conclui José Américo Motta Pessanha[16] na sua explanação sobre a obra de Sócrates: 


“Na verdade, Sócrates criou uma nova concepção de alma (psiquê), que passou a dominar a tradição ocidental. Antes, como em Homero, a psiquê era o “duplo” que podia se desprender provisoriamente durante o sono ou definitivamente, com a morte, mas que nada tinha a ver com a vida mental ou as ‘faculdades’ da pessoa. Nos órficos, era o princípio superior, que se reencarnava sucessivamente, atravessando o processo purificador que a reconduziria às estrelas e a reintegraria na harmonia universal; mas, enquanto ligada ao corpo, só se manifestava em situações excepcionais – sonhos, visões e transes. Nos pensadores jônicos do século VI a.C., a psiquê era apenas uma parte do todo: porção do pneuma (ar) infinito que habitava o corpo, vivificando-o provisoriamente até escapar, como último alento, na hora da morte – como em Anaxímanes de Mileto; ou porção de fogo a aquecer e animar o corpo até que afinal retornasse à Unidade do Fogo-Razão, o Logos universal ‘eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida’ – como em Heráclito de Éfeso. É a partir de Sócrates – ou pelo menos é na literatura referente a ele e que se seguiu à sua morte – que surge a concepção de alma como sede da consciência normal e do caráter, a alma que no cotidiano de cada um é aquela realidade interior que se manifesta mediante palavras e ações, podendo ter conhecimento ou ignorância, bondade ou maldade. E que, por isso, deveria ser o objeto principal da preocupação e dos cuidados do homem.” 


Os Espíritos sempre tiveram o cuidado de distinguir com clareza a finalidade missionária de Kardec das atividades políticas dos homens de sua época que, naturalmente, iriam se destacar no terreno das realizações materiais. Era necessário não confundir os objetivos de longo prazo, porém duradouros, com aqueles imediatistas e passageiros. Sobre isso, o Codificador recebeu uma advertência, quando ainda não estava totalmente envolvido com seu futuro trabalho de codificador. Foi no dia 30 de abril de 1856[17]: 

“Quando soar a hora te deixarei. Somente aliviarei o teu semelhante; individualmente o magnetizarei, a fim de curá-lo. Depois, cada um no posto que lhe foi preparado; todos serão necessários, porque tudo será destruído, embora por um instante. Não haverá mais religião, mas uma será necessária, porém verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Os primeiros fundamentos já foram lançados. Rivail, é esta a tua missão. (A cesta, livre, virou-se vivamente para o meu lado, como uma pessoa que me apontasse com o dedo.) A ti M..., a espada que não fere, mas mata; contra tudo o que é, és tu que virás primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar; é o obreiro que constrói o que foi demolido[18].” 

“Nota: - Foi esta a primeira revelação positiva de minha missão, e confesso que, quando vi a cesta dirigir-se, bruscamente, para o meu lado e designar-me pelo nome, não pude deixar de sentir uma certa emoção. O Sr. M[19]..., que assistia a esta reunião, era um rapaz de idéias radicais, comprometido em assuntos políticos e obrigado a não se pôr muito em evidência. Acreditando numa reviravolta próxima, preparava-se para tomar parte e combinava seus planos de reforma. Era, no mais, um homem afável e inofensivo.” 


Confirmando que o século XIX forneceria o combustível ideológico de todos os conflitos destruidores do futuro e também a proposta de renovação moral do Planeta, os Espíritos revelam com antecedência, em 7 de maio de 1856, todos esses acontecimentos importantes e negativos que ocorreriam no mundo contemporâneo, desde as guerras de independência e de unificação nacionalista, passando pelos conflitos coloniais, as guerras mundiais e seus efeitos, até os dias finais do século XX e início do XXI: 


Pergunta - A comunicação feita outro dia faz presumir acontecimentos muito graves. Poderíeis dar-nos algumas explicações a respeito? 

Resposta - Não podemos precisar os fatos. O que nos é dado dizer é que haverá muita ruína e desolação, porque são chegados os tempos preditos de uma renovação da Humanidade. 

P - O que causará essas ruínas? – Algum cataclismo? 

R - Não haverá cataclismo material, como estás entendendo, mas flagelos de toda espécie devastarão as nações. A guerra dizimará os povos. As instituições decrépitas desaparecerão num mar de sangue. É preciso que o velho mundo desmorone, para abrir o progresso a uma nova Era. 

P - Então a guerra não será circunscrita a uma região? 

R - Não, abarcará a Terra. 

P - No entanto, neste momento nada parece pressagiar uma tempestade próxima? 

R - As coisas estão pendendo de um fio de teia de aranha, já meio rompido. 

P - Pode-se, sem indiscrição, saber de onde partirá a primeira centelha? 

R - Da Itália. 


O DECLÍNIO DA IGREJA 


Os papas que viveram no século XIX, por influência dos acontecimentos, foram também, provavelmente, os que mais se ocuparam em editar encíclicas, como reflexo das rápidas transformações que ocorreram nesse período, nos vários campos do conhecimento bem como das suas conseqüências sociais. A encíclica[20] é o documento de comunicação mais importante da Igreja Católica; seu texto oficial é publicado em latim, nos “Atos da Sé Apostólica”, e reproduzido no diário “Osservatore Romano”. Entre as que mais se destacaram no século XIX podemos apontar a Mirari vos (1832), de Gregório XVI, contra o liberalismo; “Quanta Cura” (1864), de Pio IX, acompanhada da “Syllabu”s, contra os erros modernos; “Immortale Dei” (1885), “Rerum Novarum” (1891) e “Providentissimus Deus” (1893) de Leão XIII, respectivamente sobre a Sociedade civil, a questão social e os estudos bíblicos. Eram respostas carregadas do formalismo canônico e, como sempre, impregnadas de dogmas, tentando situar e reafirmar a Igreja ante os novos tempos e os novos conhecimentos, principalmente o Espiritismo. 

No século seguinte, as encíclicas não cessariam em sua rápida velocidade editorial para tentar acompanhar o ritmo das mudanças da Sociedade Contemporânea. Todas elas têm em comum a preocupação com o comportamento individual dos católicos frente aos novos paradigmas sociais: o modernismo em seus múltiplos aspectos, a renovação teológica e litúrgica da Igreja, os valores morais como a castidade, a educação da juventude, o casamento; o surgimento dos regimes totalitários, o controle da natalidade, o contraste entre o progresso e as condições sociais e, finalmente, a última editada pelo papa João Paulo II, que reconhece, um século e meio depois de Allan Kardec, a existência do demônio e do inferno apenas como mitos simbólicos da consciência humana. Aqui surge uma outra dúvida: por que a Igreja não se incomodou tanto com o Positivismo quanto se incomodaria com o Espiritismo? Afinal, Comte chegou a propor uma nova estrutura de elite clerical. Porque será que as idéias de Kardec, que são sistematicamente ignoradas pelos historiadores e pelos estudiosos da Filosofia, foram atacadas abertamente pelo clero, bem menos que as de Comte? Como disse um Espírito a Kardec, “Não é de admirar, então, o encarniçamento com que o clero combate o Espiritismo, pois é levado pelo instinto de conservação.” 

O Espiritismo e o seu discreto missionário de Lyon sempre foram propositalmente ofuscados, não pela História, mas pelos historiadores, principalmente de seu País natal, confirmando a máxima de que “ninguém é profeta em sua própria terra”. Essa injustiça, típica daqueles que sempre colocam seus interesses pessoais acima da Verdade, nunca incomodou senão os mais entusiasmados seguidores do mestre lyonês. O que aconteceu com Allan Kardec também aconteceu, por exemplo, com Alberto Santos Dumont, que, segundo a jornalista inglesa Nancy Winters[21], foi durante muito tempo o “Rei de Paris”. Como Kardec na história da filosofia, Dumont também permanece ignorado pela história da aviação nos EUA e na França. Sua biógrafa britânica conta que o discreto aviador brasileiro, que era o grande herói da Belle Èpoque, doava seus ricos prêmios de campeonatos de vôo para os trabalhadores de Paris, para que recuperassem suas ferramentas nas casas de penhora. Alberto Santos Dumont foi um brasileiro humilde e genial que foi brilhar na França e deu ao mundo possibilidade tecnológica de voar pelo céu visível. Allan Kardec foi um francês que veio brilhar no Brasil, dando ao mundo a possibilidade de alçar vôos ilimitados pelo Céu invisível. Pena que o brasileiro voador não tenha conhecido a fundo as obras do seu colega francês; se isso tivesse acontecido, talvez, Dumont não teria se rendido à depressão e à melancolia, para se precipitar nas trevas do suicídio. 


O ESPIRITISMO BANIDO DA HISTÓRIA

Se dependesse do corajoso editor e escritor Maurice Lachâtre (1814-1900) jamais o Espiritismo e seu Codificador passariam despercebidos pela comunidade intelectual, científica e religiosa de sua época, como querem a maioria dos historiadores. Lachâtre era um iluminista vagando em pleno século XIX, enfrentando as mesmas atribulações dos Enciclopedistas com a censura na época do Antigo Regime. Anticlerical e rebelde, iniciou sua carreira em 1842 publicando a História dos Papas, extensa obra em dez volumes que o transformou em persona non grata para a Igreja. Muito afinizado com as questões políticas e um incorrigível libertário, Lachâtre também bateu de frente com a fase ditatorial do regime de Napoleão III. Publicou em 1857, sem a autorização do governo, o livro “Os Mistérios do Povo”, um romance de Eugéne Sue, cujo enredo principal era o socialismo, assunto muito ameaçador para um governo excessivamente autocrata. Por esse crime foi condenado à pena de um ano de prisão, acrescida de uma multa de seis mil francos. No ano seguinte Maurice publica o “Dicionário Universal Ilustrado” e recebe uma condenação mais pesada, de seis anos, quando foge para a Espanha, onde se estabeleceu como livreiro. Mais tarde, numa nova edição de 1865, com a análise de mais de 400 mil obras literárias, o Dicionário já trazia todos os termos do vocabulário espírita, especialmente redigidos por Allan Kardec. Na opinião dos críticos da época esta era a maior enciclopédia humanista já editada. Mas publicando as idéias de Kardec, ele agia como se não tivesse nada a perder. No entanto, sua atitude desprendida acabaria no inesquecível exílio na Espanha, onde entraria definitivamente para a História da Doutrina Espírita. Onde havia fumaça, havia fogo e Lachâtre era sempre a fumaça. Foi ele que desencadeou o famoso episódio do Auto-de-fé de Barcelona. Quando estourou a Comuna de Paris lá estava ele presenciando tudo, ao vivo e a cores. Depois teve que voltar às pressas para a Espanha, pois, após a derrota para a Prússia, o regime retrocedeu nas liberdades políticas. Na Espanha, inspirado nos acontecimentos de Barcelona, publica finalmente, em 1880, a “História da Inquisição”. 

Mas não foi somente Lachâtre que arriscou seu prestígio ao se envolver com o Espiritismo. Nomes importantes do mundo científico e de destaque no mundo acadêmico também se interessaram pelos mesmos fenômenos que haviam atraído Allan Kardec. Partindo de idêntico comportamento cético e de muita cautela nas observações, esses homens da Ciência Positiva elaboraram, mais tarde, conclusões irrepreensíveis sobre o assunto. Camille Flamarion, por exemplo, chamado por Michelet de “poeta dos céus”, dirigia o Observatório Astronômico de Jouvisy e na Sociedade Espírita de Paris atuava como médium psicógrafo, recebendo instruções reveladoras do Espírito Galileu. William Crookes, que era membro da Sociedade Real de Londres, chegou a apresentar seus trabalhos no Congresso da Associação Britânica, em 1898, onde há registro do seu discurso no qual afirma sem nenhum constrangimento[22]: 

“Trinta anos se passaram, desde que publiquei as atas das experiências tendentes a mostrar que, fora dos nossos conhecimentos científicos, existe uma força posta em atividade, por uma inteligência comum a todos os mortais. Nada tenho que retratar dessas experiências e mantenho as minhas verificações já publicadas, podendo mesmo a elas acrescentar muita coisa.” 

O cientista inglês se referia às suas históricas experiências de materialização do Espírito de Katie King[23], através da médium Florence Cook, relatadas no livro “Fatos Espíritas”. Sobre essas célebres experiências, Gabriel Delanne observou: 


“Os fenômenos de materialização constituem as mais altas e irrefragáveis demonstrações da imortalidade. Surgir um ser defunto diante dos espectadores com uma forma corpórea, conversar, caminhar, escrever e desaparecer, quer instantaneamente, quer gradativamente, sob as vistas dos observadores, é decerto o mais empolgante e o mais singular dos espetáculos. Isso, para um incrédulo, ultrapassa os limites da verossimilhança e provas físicas irrefutáveis se fazem necessárias, para que o fenômeno não seja lançado à conta de alucinação”. 

“Às 7 horas e 23 minutos da noite, o Sr. Crookes conduziu a Srta. Cook para o gabinete escuro, onde ela se deitou no chão, com a cabeça sobre um travesseiro. Às 7 horas e 28 minutos, Katie falou pela primeira vez e às 7 horas e 30 minutos mostrou-se fora da cortina e em toda a sua estatura. Estava vestida de branco de mangas curtas e o pescoço nu. Trazia soltos os seus longos cabelos castanho-claros, de tom dourado, a lhe caírem em cachos dos dois lados da cabeça e pelas costas até à cintura. Também trazia um longo véu branco que apenas uma ou duas vezes abaixou sobre o rosto, durante a sessão. 

O médium trajava um vestido de merinó azul-claro. Durante quase toda a sessão, Katie se conservou em pé diante dos assistentes. Corrida que fora a cortina do gabinete, todos viam distintamente o médium adormecido, com o rosto coberto por um xale vermelho, para preservá-lo da luz. Não deixara a posição que havia tomado desde o começo da sessão, que transcorreu a uma luz que espalhava viva claridade. Katie falou da sua próxima partida e aceitou um ramo de flores que o Sr. Tapp lhe trouxera, assim como um apanhado de lírios que o Sr. Crookes lhe ofereceu. Pediu ao Sr. Tapp que desmanchasse o ramo e colocasse diante dela as flores, no chão. Sentou-se, então, à moda turca e pediu que todos fizessem o mesmo, ao seu derredor. Distribuiu as flores, fazendo com algumas um raminho, que atou com uma fita azul. 

Escreveu cartas de adeuses a alguns de seus amigos, pondo-lhes assinatura: Annie Owen Morgan, dizendo que fora este o seu verdadeiro nome na vida terrena. Escreveu também uma carta ao seu médium e escolheu um botão de rosa para lhe ser entregue como presente de despedida. Pegou de uma tesoura, cortou uma mecha de seus cabelos e ofereceu certa porção destes a cada um. Enfiou depois o braço no do Sr. Crookes e deu volta à sala apertando a mão de todos, um por um. Sentou-se de novo, cortou vários pedaços do seu vestido e do seu véu, presenteando com eles os assistentes. Como fossem visíveis os grandes buracos que lhe ficaram nas vestes e estando ela sentada entre o Sr. Crookes e o Sr. Tapp, alguém lhe perguntou se poderia reparar aqueles estragos, como já o fizera em outras ocasiões. Ela então expôs à luz a parte cortada, bateu em cima com uma das mãos e imediatamente aquela parte do vestido se tornou tão perfeita como era antes. Os que lhe estavam próximos examinaram e tocaram, com sua permissão, a fazenda e afirmam que não mais havia nem buraco, nem costura, nem a aposição de qualquer remendo onde um momento antes tinham visto rasgões do diâmetro de muitas polegadas. 

Transmitiu a seguir suas últimas instruções ao Sr. Crookes e aos outros amigos sobre como deviam proceder com relação às manifestações ulteriores, que prometera, como o auxílio do seu médium. Essas instruções foram cuidadosamente anotadas e entregues ao Sr. Crookes. Parecendo então fatigada, Katie dizia com tristeza que precisava ir-se embora, que a sua força decaía. Reiterou muito afetuosamente seus adeuses a todos e todos lhe agradeceram as maravilhosas manifestações que lhes havia proporcionado. 

Dirigindo a seus amigos um último olhar, grave e pensativo, desceu a cortina e tornou-se invisível. Ouviram-na despertar o médium, que lhe pediu, banhada em lágrimas, que se demorasse mais um pouco. Katie, porém, lhe respondeu: “Minha querida, não posso. Está cumprida a minha missão. Deus te abençoe!” E todos ouviram o som do seu beijo de despedida no médium. Logo depois, a Srta. Cook vinha ter com os presentes, inteiramente esgotada e profundamente consternada. 

Vê-se assim quanto a moça, rebelde a princípio, se afeiçoara à sua amiga invisível. Katie dizia que dali em diante não mais poderia falar nem mostrar-se; que, realizando, por três anos, aquelas manifestações físicas, passara vida bem penosa, para expiar suas faltas; que decidira elevar-se a um grau mais alto da vida espiritual; que só a longos intervalos poderia corresponder-se por escrito como seu médium, mas que este poderia vê-la sempre, por meio da lucidez magnética.” 


Victorien Sardou, personalidade conhecida do teatro francês, demonstrou grande habilidade mediúnica na ilustração plástica de informações dos Espíritos sobre diversos aspectos do Universo. Antes de freqüentar a Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, Sardou nunca manifestara vocação para o desenho. César Lombroso, o renomado criminalista italiano, que a princípio foi um severo crítico dos fenômenos espíritas (“Studi sull’ipnotismo”), mudou totalmente de opinião quando assistiu, através da médium Eusápia Palladino, a materialização do Espírito de sua mãe. Sua obra “Hipnotismo e Mediunidade” é um grande legado científico, produto de um rigoroso método experimental. 

Outro nome que se interessou pelo assunto, sensibilizado por uma perda familiar, foi o médico e escritor britânico Arthur Conan Doyle, que, mais tarde, publicaria a obra História do Espiritualismo[24]. Tornou-se clássico os seus relatos sobre a revolução espiritual de 1848, em Hydesville, envolvendo os Fox, uma típica família metodista norte-americana. Com a ajuda de entrevistas, documentos e publicações da época, o criador do famoso detetive Sherlock Holmes descreve a manifestação de uma força inteligente que passou a se comunicar com a menina Kate Fox, através de batidas na parede da casa. Apelidada pela menina de “Sr. Perneta”, a força revelou-se como o Espírito de alguém que fora ali assassinado (o vendedor ambulante Charles B. Rosna) e emparedado pelos seus assassinos (o casal Bell) na casa onde agora residia a família Fox. O fato que explodiu a partir de um folhetim publicado pelo repórter E.E. Lewis em abril de 1848 foi comprovado, anos mais tarde, após a exumação e identificação dos restos mortais da vítima. Esses fenômenos foram submetidos a análise científica de uma comissão presidida pelo Dr. John Worth Edmonds, membro do Congresso dos EUA, presidente do Senado e Juiz do Supremo Tribunal de Apelação. O caso virou uma febre na Sociedade norte-americana e o País inteiro foi tomado pela curiosidade, bastante estimulada tanto pela imprensa séria como pela sensacionalista. No seu livro, Doyle relata as experiências precursoras de Emmanuel Swedenborg, na Inglaterra, e do médium Andrew Jackson Davis, nos Estados Unidos e inúmeros outros casos da revolução deflagrada em 1848. 

Apesar de ser uma cultura que aparentemente dá grande força ao materialismo, os norte-americanos sempre foram atraídos pelos fenômenos espíritas, lá denominados neo-espiritualismo. Dois anos antes dos fenômenos de Hydesville os jovens irmãos Ira Erastus e Willian Henry Davenport, notáveis médiuns de efeitos físicos, despertaram a atenção da comunidade científica para os seus feitos. Clémens relata no seu “De L´Intervention de Invisibles dans l´Histoire Moderne” que Abrahan Lincoln tomou uma das mais importantes decisões de sua vida política por influência de uma sessão espírita realizada na Casa Branca, através da médium Nettie Colburn. Na mesma reunião, uma amiga de Nettie, a senhora Milles, médium de efeitos físicos, enquanto aguardavam a presença do presidente, segundos antes da entrada do mesmo, sentou-se ao piano para executar uma marcha triunfal, como se fosse um sinal mandado pelos Espíritos na preparação do ambiente. Lincoln dirigiu-lhes algumas perguntas e Nettie respondeu, como de hábito, “sim” ou “não”, mas logos pôs-se a falar de maneira enérgica e forte. O assunto era urgentíssimo: o problema da Proclamação da Emancipação, sobre o qual o Espírito insistia que o presidente não desse ouvidos aos indecisos. “A Proclamação não deve passar desse ano”! (1862), alertava a entidade. “Cumpre não dar ouvidos àqueles que aconselham o adiamento; cumpre permanecer firme em suas convicções, executar a tarefa, realizar, enfim, a missão que a Providência lhe há confiado”. Testemunhas afirmaram que Lincoln ouviu tudo em absoluto silêncio e profunda admiração. No final fechou os olhos, como se entrasse num rápido sono, e depois acordando, como se tivesse passado uma longa experiência, apontou um retrato que pendia na parede. Era a imagem do eloqüente senador Daniel Webster, um dos mais combativos apologistas da emancipação dos escravos. Lincoln entendeu o recado. 

A escritora Harriet Beecher Stowe era espiritualista e nuca negou a influência mediúnica de Espíritos abolicionistas na produção de “A Cabana do Pai Thomas”. Muitos outros médiuns teriam influência em acontecimentos históricos dos Estados Unidos. Mather Shipton impressionou seus conterrâneos com profecias sobre o papel decisivo da nação norte-americana nos conflitos mundiais; o vidente Edgard Cayce revelou, através de suas faculdades mediúnicas, cenas impressionantes dos cataclismos que destruíram a civilização da Atlântida, bem como os trágicos acontecimentos que assaltariam a vida social americana, a crise de 1929, inclusive. O país sempre foi um celeiro de médiuns e fenômenos “paranormais”, cujos fatos sempre foram cuidadosamente registrados pelos órgãos públicos de segurança. Foi dos EUA, no final dos anos 1960, em meio ao tumultuado período da Guerra Fria e da revolução cultural hippie, que brotou uma nova modalidade de Espiritualismo – A Nova Era – e um novo surto mediúnico, agora rotulado de “canalização”. Também a indústria e a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood têm sido também um grande alvo dos Espíritos no sentido de chamar à atenção para a realidade do mundo espiritual: produtores, atores, roteiristas e diretores estão sendo cada vez mais “atraídos” pelas temáticas espíritas. Transformando o sobrenatural em casos rotineiros da vida cotidiana, os de filmes são exemplos de que a arte imita a realidade com impecáveis detalhes que só a sétima arte consegue transmitir ao público. É uma prova de que o Espiritismo é tão natural que nem sempre é preciso conhecer a Doutrina para falar dos conteúdos ali sistematizados. 

Também os ingleses nunca colocaram de lado a possibilidade de conviver com esses “mistérios”. Herdeiros cármicos da “praxis”, da objetividade, e também do ceticismo de Roma, os britânicos preferiram encarar os fenômenos espíritas mais pela ótica cientifica do que pela filosófica. Nas classes aristocráticas houve uma melhor receptividade talvez porque não eram afetadas pelos movimentos religiosos puritanos. Mesmo assim encontramos na história inglesa relatos empolgantes sobre fenômenos espíritas e do estreito relacionamento de médiuns com órgãos judiciários ingleses na solução de crimes e acontecimentos enigmáticos que a Ciência jamais conseguiu desvendar. 

Não podemos esquecer também que o maior dos médiuns, dentre os precursores da revolução espiritual, nasceu na Escócia e iniciou sua famosa carreira nos Estados Unidos, logo após os episódios de Hydesville. Era o jovem Daniel Dunglas Home (1833-1886), que reunia uma rara diversidade de talentos psíquicos e cuja trajetória nas altas rodas provocou verdadeiro furor na sociedade Européia do seu tempo. Numa época em que os médiuns não possuíam suporte moral e doutrinário para enfrentar a si mesmos e os seus detratores, D.D. Home é considerado um verdadeiro herói por ter suportado provas nas quais a maioria dos medianeiros de sua categoria fracassou. Por suas características pessoais refinadas gozava livre trânsito nos meios aristocráticos, sendo recebido como hóspede e convidado distinto nos ambientes considerados mais sofisticados da época. Isso foi muito importante no preparo da opinião pública conservadora, para receber as revelações futuras, mas também era um terreno perigosos, cheio de armadilhas dos inimigos da Nova Ordem Espiritual. 

Home foi recebido em Paris pelo Imperador Napoleão III (Luiz Napoleão) e sua esposa Eugênia que, depois de obterem provas do contato mediúnico com o velho Napoleão Bonaparte, tio de Luiz, ofereceram a ele proteção pessoal e educação para sua irmã. O papa Pio IX o recebeu em audiência pessoal e, com todo cuidado, quis saber das suas intenções e o verdadeiro significado religioso dos seus talentos. Aliás, Home teve no seu rastro, durante muito tempo, a presença do padre jesuíta Xavier de Ravgnan, pregador da capela das Tulherias e confessor particular do papa, provando que a Igreja, semelhante à corte de Herodes, sempre esteve atenta ao nascimento do Espiritismo e pronta para golpeá-lo mortalmente durante a infância. Em 1864, ao ser denunciado à polícia pelo clero durante sua curta estadia em Roma, Home compareceu perante as autoridades acompanhado pelo amigo Gauthier, cônsul da Grécia, onde registrou-se pelo próprio Home o seguinte interrogatório, feito pelo delegado Pasqualoni[25]: 


“Janeiro 2, recebida carta solicitando minha presença na Polícia, no dia 3, entre as 10 e uma hora. Em 3 de Janeiro fui e me levaram à sala do advogado Pasqualoni. Eu estava acompanhado do meu amigo Senhor Gauthier, cônsul da Grécia em Roma. As perguntas foram as seguintes: Nome do meu pai e de minha mãe? Publicou algum livro? Sim. Sua profissão? Estudante de arte. Sua residência? Via dei Tritoni, 65. Quando você chegou? Há seis semanas. Quantas vezes você esteve em Roma? Duas. Quanto tempo ficou de cada vez? Dois meses da primeira e três meses da última vez. Quanto tempo pretende ficar desta vez? Até abril. Você tem residência permanente na França? Não. Quantos livros escreveu? Um. Quantos exemplares vendeu? Como não sou o próprio editor, seria impossível dizê-lo. Depois que você se tornou católico exerceu seus poderes mediúnicos? Nem antes, nem depois eu exerci meus poderes mediúnicos, de vez que não é poder que dependa da minha vontade. Não poderia usá-lo. Como é que você faz Isso? Acho que a resposta que acabo de dar é suficiente para esclarecer. Você considera seu poder um dom da natureza? Não; considero um dom de Deus! Que é um transe? Um estudo de fisiologia explicaria melhor do que eu. Você vê os Espíritos quando dormindo ou acordado? De ambas as maneiras. Por que os Espíritos procuram você? Para me consolarem e para convencer aqueles que não acreditam na sobrevivência da alma! Que religião eles pregam? Isso depende. Que é que você faz para eles se manifestarem? Eu estava para responder que eu nada fazia quando na mesa em que ele escrevia soaram batidas claras e distintas. Ele então disse: Mas a mesa não se mexe. Exata mente enquanto ele dizia isso, a mesa moveu-se. Qual é a Idade do seu filho? Quatro anos e meio. Onde está ele? Em Maivern. Com quem? Dr. Gully. Dr. Gully é católico? Não. Quando você viu seu filho pela última vez? Em abril. Então, ele disse, sem nenhuma justificativa, que eu deveria deixar Roma dentro de três dias. Está de acordo? Não, decididamente não, ainda mais porque nada fiz para infringir as leis deste ou de qualquer outro país. Falarei com o cônsul inglês e seguirei seu conselho.” 


Numa de suas crises psíquicas, típicas daqueles que atuam entre os dois planos, o médium chegou a ser crismado e quase internou-se num convento. Mas, para surpresa dos seus sedutores clericais, os Espíritos se afastaram dele durante um ano e, na data marcada para do reaparecimento deles, o médium reafirmou sua missão de instrumento passivo dos interesses do mundo espiritual. Por influência da família de sua esposa russa converteu-se formalmente para a Igreja Ortodoxa, mas nunca abandou suas convicções sobre a revolução na qual trabalhou como ferramenta preparadora. Meses antes do lançamento de O Livro dos Espíritos, em 1857, o Clube União, em Paris, lhe ofereceu duas mil libras para realizar uma única sessão como espetáculo, a qual recusou alegando que foi mandado em missão: “ Essa missão é demonstrar a imortalidade. Nunca recebi dinheiro por isso e jamais o receberei”, declarou. Em 1866, sobre a doutrina da qual não tinha ainda senão algumas noções sobre a regeneração humano declarou em tom profético[26]: 


“Sinceramente penso que essa força aumentará cada vez mais para nos aproximar de Deus. Perguntareis se ela nos torna mais puros. Minha única resposta é que somos mortais apenas e, como tal, sujeitos ao erro. Mas ela ensina que aqueles de coração puro verão a Deus. Ela nos ensina que Deus é amor e que não há morte. Aos velhos ela vem como uma consolação, quando se aproximam as tempestades da vida e quando vem o descanso. Aos moços ela fala do dever que temos uns para com os outros e diz que colheremos o que houvermos semeado. A todos ensina a resignação. Vem desfazer as nuvens do erro e trazer a manhã radiosa de um dia interminável.” 


Em sua defesa, diante do bombardeio de críticas negativas publicadas na imprensa francesa Allan kardec o defendeu dessa forma na Revue Spirite[27]: 


“O Sr.Home não é rico e não teme dizer que procurava no trabalho suplementar os recursos para enfrentar os encargos que deve cumprir. Pensou em o encontrar no talento natural para a escultura e foi para se aperfeiçoar nesta arte que foi a Roma. Com a notável faculdade mediúnica que possui, poderia ser rico, mesmo muito rico, se tivesse querido explorá-la. A mediocridade de sua posição é a melhor resposta ao espírito de hábil charlatão, que lhe lançaram ao rosto.Mas ele sabe que essa faculdade lhe foi dada com um fim providencial,para que os interesses de uma causa santa, e julgaria cometer um sacrilégio se a convertesse em profissão. Ele tem o alto sentimento dos deveres que ela lhe impõe para compreender que os Espíritos se manifestam pela vontade de Deus para reconduzir os homens à fé na vida futura e não para exibir num espetáculo de curiosidades, em concorrência com o escamoteadores, nem para servir à cupidez dos que pretendessem explorá-la. Aliás, ele também sabe que os Espíritos não estão às ordens nem aos caprichos de ninguém e, menos ainda, de quem quer que quisesse exibir seus atos e gestos a tanto por sessão. Não há um só médium que possa garantir a produção de um fenômeno espírita num dado momento; de onde ter que concluir-se que a pretensão contrária é prova de absoluta ignorância dos mais elementares princípios da ciência; e, então, toda suposição é permitida, porque se os Espíritos não responderem ao chamado ou não fizerem coisas muito admiráveis para satisfazer os curiosos e sustentar a reputação do médium, é mesmo necessário achar um meio de as dar aos espectadores em troca de seu dinheiro se se não quiser devolvê-lo 


Nunca seria demais repeti-lo, a melhor garantia de sinceridade é o desinteresse absoluto. Um médium é sempre forte quando pode responder aos que suspeitassem de sua boa-fé: “Quanto haveis pago para vir aqui ?” 


E, a despeito do fato da mentalidade anglo-saxônica ainda não aceitar a lei da reencarnação, incluindo o próprio D.D. Home e a maioria dos espiritualistas com quem se relacionava, o Codificador havia opinado sobre o progresso do Espiritismo nos EUA, publicando na Revue Spirite de junho de 1860 uma esclarecedora análise das causas e conseqüências da repercussão da Doutrina na Inglaterra: 


“Desde o princípio encontrou o Espiritismo, na Inglaterra, uma oposição de que, com razão, nos admiramos. Não que não tenha encontrado partidários isolados, como em toda parte, mas ali os seus progressos foram infinitamente menos rápidos do que na França. Será que, como pretendem alguns, mais frios e positivos, menos entusiastas que nós, os ingleses se deixem arrastar menos pela imaginação? Que sejam menos atraídos pelo maravilhoso? Se assim fosse, seria de admirar, que com mais forte razão, tenha ele seu principal foco nos Estados Unidos, onde o positivismo dos interesses materiais reina soberano absoluto. Não teria sido mais racional que houvesse surgido na Alemanha, mas ao mesmo tempo, não parece que a Rússia toma a dianteira, como a terra clássica das lendas? A oposição que o Espiritismo tem na Inglaterra nada tem a ver com o caráter nacional, mas deve-se à influência das idéias religiosas de certas seitas preponderantes, rigorosamente aferradas mais à letra que ao espírito de seus dogmas. Eles se abalaram com uma doutrina que, à primeira vista lhes pareceu contrária às suas crenças. Mas assim não poderia ser por muito tempo, num povo reflexivo, esclarecido, no qual o livre exame não sofre qualquer entrave, onde o direito de reunião para discutir é absoluto. Ante a evidência dos fatos, tinham que se render. Ora, foi precisamente porque os ingleses os julgaram friamente e sem entusiasmo que os apreciaram e compreenderam todo o seu alcance. Quando, a seguir de uma observação séria surgiu, para eles, esta verdade capital, de que as idéias espíritas têm sua fonte nas idéias cristãs, que longe de se contradizerem, se corroboram, se confirmam se explicam umas pelas outras, toda satisfação foi dada ao escrúpulo religioso. Assegurada a consciência, nada mais se opôs ao progresso das idéias novas, que se propagam naquele país com rapidez admirável. Ora, lá como alhures, ainda é na parte esclarecida da população que se encontram os mais zelosos e os mais numerosos partidários. É um argumento peremptório, ao qual nada se tem oposto. Os médiuns se multiplicam; abrem-se numerosos centros, aos quais se associam membros do alto clero, cujas convicções proclamam abertamente. Dirão os adversários que a febre do maravilhoso triunfou sobre a fleugma inglesa? Seja como for, um fato é notório: as suas fileiras se esclarecem diariamente, a despeito de seus sarcasmos”. 


Uma das características do intenso Período de Lutas previsto por Kardec com relação ao futuro do Espiritismo foi a insistência dos adversários da Doutrina em destruir provas materiais da sua memória social e estabelecer uma confusão na unidade das informações sobre a veracidade histórica e científica dos fenômenos. A própria historiografia inglesa tratou a obra de Kardec e os acontecimentos da França com certo descaso cultural. Até mesmo Conan Doyle em seu clássico livro de 1926 não demonstra um interesse ou domínio do aspecto filosófico do Espiritismo, desconhecendo provavelmente a história do movimento espírita registrada na Revue Spirite. Doyle deu a esses fatos uma interpretação superficial, talvez não querendo deixar transparecer suas crenças nitidamente espíritas e comprometer sua posição “neutra” perante a comunidade científica britânica. Sem dúvida, esse comportamento racionalista, frio e insular dos britânicos teria alguma utilidade nos eventos históricos do Espiritismo. Aquilo que Doyle definiu como “temperamento místico das raças latinas” ou “mentalidade continental”, no dizer de Anne Blackwell, teria que ser equilibrado pelo espírito reservado anglo-saxão. Essas expressões foram utilizadas para explicar as diferenças culturais entre latinos e anglo-saxões na aceitação da reencarnação. 

O impacto do conhecimento revelado sempre teve conseqüências curiosas e até mesmo imprevisíveis no comportamento humano. Nas mentalidades rústicas geralmente ele desperta uma agressividade histérica e defensiva. Nas mentes um pouco mais inteligentes encontramos uma reação de ceticismo e deboche, não menos defensivo. Outra característica também muito comum na propagação de informações reveladas é um interessante mecanismo maniqueísta de associação e comparação de valores antagônicos, herdados das religiões dogmáticas da cultura católica medieval. Essa comparação simplista é feita entre o mundo sobrenatural – visto duplamente como coisa demoníaca ou então angelical. – com a realidade humana e imperfeita do mundo material. Assim, a mediunidade ou é vista como uma coisa santa ou como coisa do demônio. Se for do demônio, ela logo se denuncia na forma de rituais satânicos e primitivos de feitiçaria. Se for coisa santificada, é uma inspiração divina, um milagre, sendo associada ao comportamento reto e perfeito. Quase sempre esse é o critério utilizado no julgamento ou avaliação crítica dos médiuns e da mediunidade, tanto pelas pessoas simples quanto por aquelas que já possuem um intelecto mais sofisticado e que se posicionam como críticos científicos do assunto. 

Essas têm sido as causas mais comuns da intolerância dos críticos, rústicos ou intelectualizados, porém não esclarecidos, com relação ao estado de imperfeição moral dos médiuns. Sempre que a intenção desses críticos é denegrir a pesquisa e o conhecimento sobre os fenômenos psíquicos apela-se para o questionamento da moral do médium, já que este é visto como a fonte primária mais aparente dos fenômenos. Acreditam eles que, atacando essa fonte tão vulnerável, mata-se o mal pela raiz. Dessa forma, mesmo com a constatação dos aspectos positivos e filosóficos humanistas da mediunidade, esses críticos sempre buscam seus aspectos contraditórios, que geralmente estão mais visíveis na pessoa do médium. São utilizados nessa observação crítica e contundente paradigmas rígidos, pré-concebidos. Um fator agravante nessa questão é o problema do registro testemunhal das pesquisas e a manipulação tendenciosa de informações. Grande parte da memória da pesquisa científica dos fenômenos psíquicos teria sido perdida se não fosse pela reação, ao nosso ver providencial e missionária de estudiosos que viveram na passagem do século XIX para o século XX, incluindo alguns colaboradores diretos de Allan Kardec. Dentre esses estudiosos destacou-se na Europa o chamado Grupo de Cambridge. A idéia de formar esse grupo partiu do físico Sir William Barret, cuja intenção inicial era reunir uma elite acadêmica para moralizar a pesquisa psíquica, na época muito atingida pela atuação de aventureiros. A intenção de Barret era criar um suporte intelectual de alto nível científico para combater os ataques dos céticos e golpes baixos do clero e dos mágicos. O grupo seria composto por membros da aristocracia, com grande credibilidade nas universidades de igual tradição. A reunião realmente aconteceu na noite de 6 de janeiro de 1882 e dela surgiu a mais prestigiada entidade para tratar de assuntos psíquicos. Estava nascendo a SPR – Society for Psychical Reserch. Foram eleitos como membros diretores Henry Sidwick (presidente), o Reverendo Stainton Moses (vice-presidente) e como Conselheiros Edmund Dawson Rogers, Hensleigh Wedgewood, George Wild, Alexander Calder e Morell Theobald. Entre os que participaram daquele primeiro e memorável encontro estavam Frederic H. W. Myers, Henry Sidwick e sua esposa Leonor Sidwick e Edmund Gourney. Estes últimos tinham plena convicção de que o convite que haviam recebido de Sir William Barret não fora baseado apenas no perfil social e acadêmico que possuíam. Carregavam consigo a certeza de que estavam participando de um evento histórico para o qual já vinham se preparando há muito tempo. Parecia ser este o ponto central do significado de suas atuais existências e que não conseguiam antes compreender. Devido a este eixo existencial, guardavam dentro de si uma espécie de compromisso consciencial da realização de algo diferente e incomum. Cada um deles deveria passar por uma prova que selaria esse compromisso, ou seja, a união de suas personalidades destacadas com os eventos que deveriam testemunhar. 

Edmund Gourney, descrito pelos amigos como um jovem brilhante e espirituoso, tinha tendências depressivas, fator que se agravou com um terrível acontecimento: em 1875 ele perdeu três adoradas irmãs num naufrágio no rio Nilo. Mais tarde produziria um dos mais volumosos estudos sobre aparições de Espíritos, denominado “Fantasmas Vivos”. Desencarnou em 1889 com apenas 43 anos. 

Henry Sidwick, filho de um ministro da Igreja Anglicana em constante crise religiosa, tornou-se cético depois de estudar teologia, história e filosofia. Os efeitos das teorias de Darwin e Spencer foram devastadores na sua trajetória estudantil. A dúvida o perseguiu a vida toda. Sua esposa Leonor, militante feminista histórica, possuía vocação para as ciências matemáticas e mais tarde tornou-se diretora do Newham College, a primeira escola feminina de ensino superior da Inglaterra. No mesmo ano da fundação da SPR, Leonor perdeu um irmão de 31 anos num acidente de alpinismo nas montanhas da França. 

E finalmente Frederic Mayers, também filho de ministro anglicano, sempre dividido entre a inclinação mística e o ceticismo acadêmico. Sua prova foi a morte do primo e o suicídio da esposa deste, por quem Mayers demonstrava uma profunda afetividade. 

Outros membros da aristocracia e notáveis cientistas também passariam pela SPR, deixando preciosos testemunhos sobre a imortalidade: Sir Oliver Lodge, físico de reconhecida competência e membro da Academia Real; o psicólogo norte-americano William James; o cético advogado australiano Richard Hodgson – adversário científico de Eusápia Paladino e o escritor Sir Arthur Conan Doyle. Falando dos percalços e dos rumos que a SPR foi tomando na passagem do século XIX para os primeiros anos do século XX, Doyle resumiu assim sua importância histórica: 


“A despeito de tudo o que foi dito e feito, o mundo tem favorecido a existência da SPR. Ela tem sido uma espécie de banco de redesconto para as idéias sobre psiquismo e um pouso para os que foram atraídos para o assunto embora ainda temessem um contato mais íntimo com uma filosofia tão radical quanto a Filosofia Espírita. Houve um constante movimento entre os membros da direita no sentido da negação e da esquerda no sentido da aceitação. O simples fato da substituição de presidentes por espíritas profundos é um sinal de que o elemento anti-espiritual não era muito intolerante ou intolerável. De um modo geral, o”. como toda instituição humana, ela está aberta para o elogio e para a censura. Se teve suas passagens sombrias, também foi ocasionalmente iluminada por períodos brilhantes. Constantemente tem lutado contra a acusação de ser uma mera sociedade espírita, o que a privaria da posição de judiciosa imparcialidade, que pretende ter, mas que nem sempre exercitou. Sua situação por vezes foi difícil e o simples fato de que a sociedade tem se mantido por tantos anos é uma prova de que tem havido alguma sabedoria em sua atitude; e de que podemos esperar que o período de esterilidade e de mirrada crítica negativa esteja marchando para o seu termo”.  


No mundo continental europeu as pesquisas psíquicas tiveram como destaque o barão alemão Albert von Schrenck-Notzing, o prêmio Nobel de medicina Charles Richet e Gustave Geley. No Instituto Geral Psicológico, em Paris, foram testemunhas das sessões realizadas com Eusápia Paladino o casal Pierre e Marie Curie, Henri Bérgson, Perrin, o Professor d´Arsonval, o conde de Gramond, o Professor Charpentier e o Reitor Debierne, da Universidade de Sorbone, bem como o próprio Richet. Na Dinamarca destacou-se o Professor Zöllner, da Universidade de Leipzig, autor de “Física Transcendental”, atuando com o médium Heny Slad. Nessas históricas experiências Zöllner teve como testemunhas, segundo o registro de Doyle, pesquisadores que ele definiu como “perfeitamente convencidos da realidade dos fatos, inclusive de que não havia impostura ou prestidigitação.” Eram eles: William Edward Weber, físico; o Professor Scheiber, célebre matemático; e o físico e naturalista Gustave Theodore Fechner. Em cidades de intensa vida cultural como Nápoles, Milão, Roma, Varsóvia, Bordéus, Montfort, Choisy Yvrac, participaram de experiências várias personalidades aqui já citadas e outras como Cesare Lombroso, Alexander Aksakov, Charles du Prel, o Dr. Ochorowicz, o Coronel de Rochas, Camille Flamarion, Victorien Sardou, Jules Cleretie, Adolphe Bisson, Gabriel Dellanne, G. de Fontenay. Na Suíça, nas sessões realizadas no Clube Minerva, de Genebra, deram seus testemunhos Ernesto Bozzano e os professores Porro, Venzano, Vassalo, bem como Lombrozo e Morselli. 

Mas se o século XIX havia representado “o começo do fim”, o apogeu da crise de valores da civilização ocidental, ele também foi o século da reação. Após as tempestades sociais, as forças conservadoras mais experientes sempre se aproveitam da calmaria para perpetuarem suas crenças e seus interesses. Citando um exemplo recente, com o fim dos regimes socialistas e da União Soviética, as primeiras coisas que voltaram a se manifestar na Rússia foram a Igreja Ortodoxa – herança do Império Bizantino - e o crime organizado, herdado dos abusos de poder da elite militar dos cossacos. Historiadores e militantes marxistas ficaram em palpos de aranha porque não conseguiam explicar como a revolução socialista e o regime soviético não conseguiram eliminar esses hábitos durante os setenta anos de domínio dos bolcheviques. Já os historiadores críticos ao marxismo deram outra explicação: os regimes socialistas haviam criado um tecido social artificial, fortemente estatal e de negação dogmática da tradição histórica. Combateram o dogma com o dogma. Assim que o Estado Socialista faliu o tecido se desfez e a sociedade ficou perdida, sem rumo no tempo e no espaço, passando a procurar referências num passado mais próximo e acessível. Em alguns lugares essa busca se transformou em nacionalismo e nos conflitos étnicos. Mas em todos os lugares, sem exceção, a tradição religiosa e as relações subterrâneas do Estado paralelo (máfias) se manifestaram com muito mais força. Só que a estrutura secular e internacional das Igrejas sempre deu a elas a vantagem de se reorganizarem com mais rapidez e eficiência. Foi assim na queda de Roma, nas Reformas Religiosas e também na Revolução Francesa e no período napoleônico. Paris sempre foi um bom exemplo dessa verdade histórica. Dos escombros da Guerra Franco-Prussiana a Igreja Católica empreendeu uma intensa campanha para recuperar o terreno ideológico perdido pela onda materialista e pela penetração do Espiritismo no seio das massas. A ordem era explorar tudo o que pudesse ressuscitar o misticismo e reacender a crença nos dogmas. Um dos principais recursos foi o maciço apoio teológico às aparições de Lourdes, onde a camponesa Bernadette afirmava que a Virgem Maria lhe aparecera entre 1858 e 1862. Em 1860 espalhara-se a notícia de que o herdeiro da família imperial, ainda bebê, havia sido curado pelas águas milagrosas de Lourdes. Estava criado o mito. Algum tempo depois a camponesa vidente, como sempre, foi internada num convento, sob a tutela policial do clero. Essa mesma fórmula de marketing místico-dogmático seria também utilizada em Portugal, com a criação dos segredos de Fátima, onde os ingênuos portadores da revelação também seriam curiosamente isolados pelo clero. Nem precisa dizer o que significa o fenômeno brasileiro de Aparecida do Norte. Vejamos o que relata o mesmo Rupert Christiansen[28] sobre as repercussões religiosas, em 1873, da Guerra Franco-Prussiana e da Comuna de Paris: 


“Contrariando a tendência do século XIX, mais favorável ao ateísmo, ao materialismo, ao positivismo, à ciência, e, no limite, um cristianismo humanizado, historicamente plausível, a Igreja católica assumiu uma postura reacionária. (...) Floresciam cultos penitentes e piedosos, tais como o Coração de Jesus, e ressuscitando antigos rituais, as pessoas se punham de joelhos na via sacra ou no mês de Maria. No campo, registraram-se tantos prodígios, milagres e visões que o bispo de Órleans sentiu-se obrigado a baixar uma circular recomendando aos fiéis que não acreditassem em tais manifestações. O catolicismo ultramontano, fervoroso apoiador da infalibilidade papal e da independência da Santa Sé, ganhou ascendência sobre as tendências reformadoras. Joana d’Arc, salvadora da pátria em tempos de guerra, foi lembrada num drama de cinco atos, várias biografias e, só em Paris, ganhou duas novas estátuas. Uma vaga positivamente medieval de peregrinações varreu o país: ligada ao sistema ferroviário, Lourdes converteu-se num local de grande afluência. 

O Estado apoiava tudo. Os legisladores aumentaram em 3,5 milhões de francos o orçamento dos cultos, subsídio pago à Igreja, anualmente, e que fora abolido pela Comuna, instituindo nas escolas um rigoroso ensino de moral e religião; da mesma forma, a criação de universidades católicas foi incentivada. Em diversas fábricas e ateliês organizaram-se círculos de orações que os aprendizes eram obrigados a freqüentar: ‘Espérance de la France, ouviers – souez Chrétiens!’ (Trabalhadores, esperança da Franca, sejam cristãos!). A fim de banir a hipocrisia da Paris iníqua, destruída pela ira de Deus, promovia-se o retorno dos valores básicos em torno dos quais a França se harmonizaria. 

Só os intelectuais não estavam satisfeitos. Flaubert, Renan, Taine, Goncourt, Michelet, Gautier, Zola, George Sand e seus confrères não engoliam a panacéia de um catolicismo tradicional.” 

Nessa campanha de reação aqui descrita por Christiansen, logicamente, estava embutido como inimigo perigoso, o Movimento Espírita, que o autor, embora não conheça, citou como “Cristianismo mais humanizado, historicamente plausível”. No trecho que fala da circular do bispo de Órleans sobre “não acreditar em tais manifestações”, também o autor não foi a fundo na sua pesquisa, senão teria incluindo nela os fenômenos espíritas, citados fartamente pela imprensa da época. Entre as biografias de Joana d’Arc encontrava-se entre as mais procuradas “A Vida de Joana d’Arc, ditada por ela mesma”, obra mediúnica de Ernance Dufaux, colaboradora de Allan Kardec. Mas na sua análise podemos entender por que o Espiritismo foi sendo banido da historiografia francesa e européia, bem como das tendências que lhe seguiam o modelo, também na América e nos demais continentes. Isso aconteceu através da identificação entre o clero religioso e o clero acadêmico, cuja estrutura eclesiástica são idênticas tanto no corporativismo como no dogmatismo das idéias e procedimentos. As universidades nasceram nas igrejas e vice-versa. Os historiadores e sociólogos também precisam de bons empregos e reconhecimento social. As escolas fundamentais e superiores de grande prestígio sempre foram católicas ou protestantes, ou dominadas por mestres e doutores oriundos do clero eclesiástico. Logo, a produção de conhecimento deve estar estreitamente ligada a essas confissões religiosas. Todos os livros ali escritos e utilizados como material didático devem seguir esses parâmetros ideológicos. A única alternativa de pesquisa independente era a linha do materialismo dialético, muito presente nas instituições públicas, no qual qualquer assunto ligado à religião era logo rotulado de “ópio das massas” e automaticamente excluído dos seus círculos de conhecimento. Qualquer conhecimento que ameace essa estrutura, que coloque na relatividade sua competência é automaticamente repudiado, através de reações admiravelmente carregadas de emotividade. Mesmo os acadêmicos materialistas rejeitam o Espiritismo, não pelos seus conceitos teológicos, mas pelas suas implicações filosóficas antidogmáticas que agridem o comportamento desses chamados “livres pensadores”. Dessa forma, o Espiritismo foi sendo gradualmente apagado, primeiramente nos verbetes das principais enciclopédias francesas e inglesas, cuja influência era mais visível entre a população. Fora das enciclopédias, era mais fácil ignorá-lo como elemento cultural popular ou erudito. Se não estava nas enciclopédias é porque não era popular e se ainda estivesse em algumas delas não era assunto de pessoas eruditas. Daí para os livros de historiografia linear e cronológica foi apenas um passo. Quando apareceu o modismo da “História das Mentalidades e do Cotidiano”, achamos que alguma novidade iria tirar o Espiritismo dos porões da História, mostrando que ele fazia parte do dia-a-dia de milhões de pessoas na Europa e no resto do mundo. Nada disso aconteceu até agora. Só apareceram pesquisas sobre assuntos superficiais como o perfume, os costumes sexuais, a culinária, a moda, etc. As mesas-girantes, os Espíritos, o magnetismo, as centenas de artigos polêmicos pró e contra o Espiritismo, as críticas literárias e notícias sobre a Sociedade Espírita de Paris e de outras cidades da França e da Europa, tudo vem sendo ignorado como se nunca tivessem existido. Esse tipo de interesse parece seduzir somente alguns heróicos historiadores brasileiros, sedentos de informações sobre o passado do Movimento. Eruditos, porém amadores na arte e na ciência historiográfica, muitos deles não conseguem nem mesmo ultrapassar as primeiras barreiras da investigação. Os recursos são escassos, o tempo é curto e as pistas sobre as fontes são praticamente inexistentes. Mesmo assim, surgem oportunidades interessantes e que contribuem para manter acesa a chama da curiosidade, como a que aconteceu com o Dr. Silvino Canuto Abreu. 

Estando em viagem de trabalho na França, no ano de 1939, ele teve a feliz inspiração e também um estranho convite par visitar a Livraria Leymarie, a célebre editora dirigida no século XIX pelo casal Marina e Pierre-Gaetan Leymarie. Nessa “casual” e histórica experiência o pesquisador brasileiro foi movido por uma irresistível disposição de copiar e adquirir alguns documentos que ele identificara como fontes “raríssimas e preciosas”, incluindo um exemplar original da primeira edição de “O Livro dos Espíritos”. Em 1925 grande parte desses documentos havia sido transferida para a tutela da “Maison des Spirites”, em Paris, cujo acervo correria risco altíssimo de destruição com a ocupação das tropas nazistas em 1940. Foi dessa experiência que o Dr Canuto nos legou o inesquecíveis artigos na imprensa espírita e o simples, porém inestimável romance sobre “a tradição histórica e lendária” da obra principal da Doutrina dos Espíritos. 

Figura ímpar de vasta cultura e erudição, o Dr. Silvino Canuto Abreu certamente foi uma das pessoas que mais contribuíram para a preservação da memória do Espiritismo. Sua obras são impecáveis, tanto pelo gosto quanto no estilo. Escrevia e falava com fluência os idiomas clássicos e suas principais derivações modernas, o que lhe permitia o acesso aos textos e relíquias literárias da antiguidade religiosa oriental e greco-romana. 

Dessa forma ele nos brindou com pérolas do tipo “O Evangelho por fora”, cujas ricas notas excedem a própria narrativa, mas que nos ensina um olhar especial e diferenciado sobre as coisas e a essência da Codificação. Depois que lemos um exemplar presenteado pelo confrade Azamar Trindade, passamos a usar mais frequentetemente a expressão Espírito Verdade e bem menos “Espírito de Verdade”. 

No apetitoso “ O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária”, também editado pelo Instituto de Cultura Espírita de São Paulo, nos deliciamos com uma fictícia - ou seria real? - descrição dos acontecimentos cotidianos que marcaram o lançamento do Livro dos Espíritos, no dia 18 de abril de 1857. Conduzindo o relato, o nosso cronista descreve os fatos desde as primeiras horas da manhã, quando o lote da publicação chega para ser exposto na livraria Dentu até as últimas horas da noite, num coquetel comemorativo, reunindo no pequeno apartamento de Rivail e Amélie todas as pessoas que colaboraram diretamente para que edição viesse à público. É um texto perfeito para um roteiro de cinema. Sobre esse episódio Chico Xavier, em relato para Suely Caldas Schubert, disse que, naquela manhã, ao sair da livraria, Kardec encontrou-se com George Sand e ofereceu o seu exemplar histórico do Livro para a conhecida escritora e ex-companheira de Chopin. 

Temos ainda, com seu toque de genialidade, a tradução da primeira edição do Livro dos Espíritos, feita especialmente para comemorar o 100 anos do evento, em 1957. Também não podemos esquecer seus artigos publicados na Revista Santa Aliança (Metapsíquica), nos quais mergulhamos nas mais remotas raízes da tradição herética lyonesa e nos fatos que as ligam com os adeptos do Espiritismo nos tempos modernos. Com o mesmo talento, biografou o Dr. Bezerra de Menezes, fornecendo ricos subsídios para a história da formação das primeiras instituições espíritas no século XIX. 

O Dr. Silvino, na condição de médico e adepto da homeopatia, nos legou também um precioso acervo a respeito das atividades dos fundadores dessa modalidade curativa e suas ligações e afinidades com o kardecismo. Frequentou importantes círculos espíritas na França, sempre em busca de “novidades antigas” , tendo convivido com o escritor Gabriel Dellane, filho de uma das médiuns de Allan Kardec e produto autêntico da primeira geração de espíritas históricos: 

“Assisti a trabalhos por ele presididos. Ouvi suas lições práticas. Suas longas e cintilantes narrativas. Suas discussões, em que às vezes erguia a voz, exaltado pela convicção posta em dúvida, e logo a baixava, sorridente, ao perceber a porta do misticismo, que detestava como cientista.” 

Mas de todas as suas contribuições, sempre com grande fôlego intelectual, destaca-se uma revelação pessoal, feita diante de várias testemunhas (principalmente o casal Freitas e Marlene Nobre) , cuja versão e repercussão tornaram-se maiores do que o próprio fato. Diante do espanto dessas pessoas, Canuto conduziu-os ao seu escritório e sacou dos seus arquivos os tais textos e aprofundou ainda mais a gravidade da revelação , dado ao impacto ali causado na mente dos presentes e suas consequências no universo social espírita. Ele se referia às cartas redigidas por Allan Kardec e dirigidas a Léon Denis contendo denúncias de traição ao Espiritismo contra o advogado J.B. Roustaing. As palavra atribuídas ao Dr. Canuto foram extraídas de um artigo de Carlos de Brito Imbassay, publicado no jornal Mundo Espírita, do Paraná, em 31 de agosto de 1980: 

"Estava na França pouco antes de estourar a Guerra de 1939 quando, intempestivamente, fui procurado por dois cidadãos que se apresentaram e se disseram que ali estavam por ordem espiritual. Os cidadãos haviam recebido instrução de seus guias que deveria vir do Brasil uma determinada pessoa em tais circunstâncias que coincidiam exatamente com as minhas e que a esse cidadão deveriam ser entregues os arquivos particulares do próprio Allan Kardec, pois a Europa iria passar uma fase conturbada de guerra e, se esses documentos fossem encontrados, seriam destruídos.Gostaria de doar este acervo à Federação Espírita Brasileira, mas ela é roustainguista e, na certa, não vai admitir que seja ela própria a portadora de documentos que condenam "Os Quatro Evangelhos" (de Roustaing!). 

Para quem alimenta uma imagem sacralizada do Codificador, que era um cientista nato, esta não é uma informação facilmente compreensível sobre Allan Kardec. Para quem foi educado para cultuar a natureza mística das instituições espíritas, o questionamento científico da figura de Roustaing não combina com a postura serena do mestre lyonês, mesmo que os textos por ele escritos e publicados na Revue digam ao contrário. Acreditam também alguns confrades mais moderados que essa grave questão será esquecida ou melhor compreendida com o passar do tempo mas, a bem da verdade, o que estava em jogo naquele momento grave era o desfecho de uma velha disputa ideológica (místicos e científicos) e talvez de poder institucional em torno da FEB. Em todo caso, o assunto já faz parte da história das nossas controvérsias e merece registro. Polêmicas que fiquem à parte, pois o que nos interessa realmente é apresentar a figura admirável de Canuto Abreu aos nossos leitores. Tarefa difícil, já que, sempre que o colocamos em destaque, surge na sua biografia as afinidades e também alguns embates entre ele e algumas personalidades influentes do nosso movimento.

[1] Tomo I. Editora das Américas, São Paulo, 1957. 

[2] Agosto de 1859, volume 8. 

[3] À Caminho da Luz, FEB Editora. 

[4] Mitos e Lendas – Atlas do Extraordinário. Vols. 1 e 2. Ediciones del Prado. Madrid, 1996. 

[5] Citado por Marvin Perry, Civilização Ocidental, uma História Concisa. Martins Fontes. 

[6] Citado por Will Durant – César e Cristo, capítulo IX. 

[7] César, Roger Bruns. Coleção Grandes Líderes. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1988. 

[8] “ História material em Walter Benjamin”. Conferência publicada pela revista USP 

[9] Paris Babilônia, a capital francesa nos tempos da Comuna. Editora Record. Rio de Janeiro,1998. 

[10] Darwin, a vida de um evolucionista atormentado. Adrian Desmond e James Moore. 1ª ed. Geração Editorial. São Paulo. 2000. 

[11] A Era da Incerteza.Livraria Pioneira Editora. 7ªed. São Paulo, 1986. 

[12] História da Filosofia. Will Durant. Editora Nova Cultural. São Paulo,1996. 

[13] “A atividade cerebral e os hormônios da hipófise denominados “estimulina” influem sobre todo o conjunto glandular e nas reações viscerais subordinadas ao vago e ao simpático. O excesso de atividade cerebral produz o stress, moléstia moderna que pode ser combatida com a supressão das causas determinantes e com repouso e derivações mentais, das quais as mais salutares são os trabalhos manuais, os esportes leves e os passeios atraentes. Livre a mente do acúmulo das solicitações internas e externas dos esforços intelectuais ligados ao trabalho e aos hábitos sociais, o cérebro descansa, elimina a intoxicação inibitória, e, por fim, a depressão desaparece.” - Edgard Armond, in “na Semeadura, vol 2. Editora Aliança.1977. 

[14] Auguste Comte, Coleção “Os Pensadores”. Nova Cultural. São Paulo, 1996. 

[15] Revista Espírita, julho de 1862. A nota foi acompanhada de um longo artigo de Allan Kardec sobre o assunto. 

[16] Sócrates, Coleção “Os Pensadores”. Nova Cultural. São Paulo, 1996. 

[17] Obras Póstumas. “Minha Primeira Iniciação no Espiritismo.” Lake Editora. 

[18] Foi dessa expressão que tiramos o título e o subtítulo da nossa obra. Nota do autor. 

[19] A inicial “M” despertou em muitos leitores a hipótese de associá-la à figura revolucionária de Marx. 

[20] Enciclopédia Barsa, vol. 6, p. 496, Rio de Janeiro/ São Paulo, 1994. 

[21] O Homem Voa! – A vida de Santos Dumont, o conquistador do ar. DBA, São Paulo, 2001. Hermínio C. Miranda, na obra “Guerrilheiros da Intolerância” informa que Santos Dumont já havia tido uma existência no Brasil, animando a personalidade do santista Bartolomeu de Gusmão, o padre voador. 

[22] Entendendo o Espiritismo, Editora Aliança, São Paulo, 2001. 

[23] A Alma é imortal. Gabriel Delanne, capítulo 3, a História de Katie King. FEB Editora, tradução de Guillon Ribeiro. 

[24] Editora Pensamento, São Paulo. s/d. 

[25] Citado por Hermínio Miranda no artigo “Um precursor esquecido: Daniel Dunglas Home. O Reformador, nº4, abril de 1972. 

[26] Citado por Conan Doyle em “História do Espiritismo”. Editora Pensamento 

[27] Ano VII, fevereiro de 1864. 

[28] Capítulo 11, págs. 355 e 356.



Livro III - A RAZÃO E O MITO


1018 - Em que sentido se devem entender as palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo?”

- O Cristo respondeu em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações puros e desinteressados. Ele está em todos os lugares em que domine o amor do Bem, mas os homens ávidos das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra, não estão com ele. – O Livro dos Espíritos.


No século XIX havia também entre os filósofos e a comunidade científica uma nova palavra de ordem: desmentir o clero e a Bíblia. Nas primeiras décadas, marcadas pelo espírito de contra-revolução, escritores como François Chateubriand[1] gastaram a pena para romancear o cristianismo primitivo, mas pecaram na historicidade ao reafirmarem a identificação do Evangelho com a Igreja Romana nas mesmas raízes. Esse desleixo ético acentuou ainda mais a raiva dos homens de ciência. A causa dessa hostilidade era o profundo abismo que existia entre o racionalismo e as interpretações dogmáticas do Velho e do Novo Testamento. Esta era ainda uma atividade de alto risco ideológico, porém oferecia projeção e prestígio intelectual a quem se dispusesse a questionar a autenticidade e a veracidade dos textos sagrados.

Um outro fator estimulante para esse espírito de contestação foi a explosão da arqueologia, animada pela busca romanticista do passado. Nomes como Schliemann e Champolion decifravam os mistérios da Antiguidade dando aos mitos um tratamento documental e historicizante. As descobertas das cavernas de Altamira e da civilização etrusca pré-romana desafiavam todos os conhecimentos acumulados sobre as origens da civilização. A Bíblia não poderia deixar de ser vista também como objeto de uma investigação tão profunda como a de natureza arqueológica. O grupo de intelectuais que se interessou por esse aspecto dos textos sagrados, com um significativo número de autores, ficou conhecido como “A Alta Crítica da Bíblia”. Como legítimos herdeiros do iluminismo, para eles o clero e o uso da Bíblia como instrumento político-ideológico era a causa de todos os problemas que impediam que a Humanidade rompesse os limites impostos pelo passado e avançasse para o futuro. E a promessa do futuro não podia ser mais de natureza religiosa e mística; naquele momento passou a ser uma questão científica e materialista. Tudo deveria caminhar nesse sentido. No centro dessas contestações estava como alvo um personagem central, o marco divisor da História e da historiografia cristã: Jesus. Ele é a peça que estabelece o tempo histórico, ficando durante séculos como referência principal entre a Criação e o Juízo Final. Tudo que acontece na História é avaliado como “antes” ou “depois” de Cristo. Isso incomodava profundamente aqueles que só enxergam pela ótica da matéria e, portanto, viam em Jesus um obstáculo cultural que deveria ser removido da História humana como personagem real. Para tanto, esses pensadores, profundamente influenciados por Voltaire, vão se aproveitar da própria fraqueza da tradição católica para difundir e reforçar a idéia de um Jesus mito. Ernest Renan, autor de A Vida de Jesus, Os Apóstolos, Os Evangelhos, Origens do Cristianismo, São Paulo, e inúmeras outras obras, foi o mais lido entre as estrelas da “Alta Crítica”, mas não foi o primeiro a propor essa idéia. Ela fora herdada de uma linha de pensadores germânicos do século XVIII e XIX, que viam na teologia e na exegese elementos historicamente insustentáveis; Jesus também passou a ser visto como uma mera hipótese histórica. Hermann Reimarus (1768) e seus seguidores propuseram Jesus como um filósofo e não o fundador do cristianismo que se conhecia. Isso era lógico, porém muito chocante na época. Em 1828, Heinrich Paulus já defendia a idéia de que os milagres de Jesus eram fenômenos reais, porém naturais e mal explicados. Já David Strauss (1835) classificou-os como mitos que escondiam a verdadeira história de Jesus. Também as epístolas de Paulo foram alvos da “Alta crítica” em voga: Ferdinand Baur (1835) afirmava que, com exceção de Gálatas, Coríntios e Romanos, todas as outras cartas eram falsas. Em 1840, Bruno Bauer defende a idéia da fusão de teologias judaica, romana e grega para explicar a construção do “mito” Jesus. A demolição da tradição cristã das igrejas não parou por aí: na Inglaterra, França e na Holanda, até o final do século, surgiram inúmeras obras de negação histórica de Jesus. Até mesmo alguns padres católicos foram excomungados por raciocinarem nessa tendência. Enfim, foi um longo trabalho de dois séculos, com a intenção deliberada de varrer a memória de Jesus da História. Era uma espécie de vingança da visão totalitária do tempo histórico imposto pela da Igreja e pelas suas perseguições contra a liberdade de expressão, durante quase dois mil anos. Resumindo toda a trajetória dessa guerra intelectual contra a Bíblia e o Cristianismo, Will Durant[2] conclui que houve tantos exageros de crítica que, se elas fossem aplicadas a outros personagens como Sócrates, Davi ou Hamurabi, também eles seriam mitos. Durant, que não é nem um pouco emotivo ao falar de Jesus e da Bíblia, diz que, na essência, os quatro evangelhos são coerentes entre si e que “seria um milagre ainda mais incrível que em apenas uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como a de Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora idéia da fraternidade humana”.

Em 14 de outubro de 1863, Allan Kardec obteve dos Espíritos alguns esclarecimentos sobre o futuro de várias dessas publicações, entre elas a de Ernest Renan:


“Pergunta: (a Erasto) - Que efeito produzirá A Vida de Jesus, de Renan?

R: - O efeito será imenso, o rumor será grande no clero porque esse livro faz ruir os alicerces do edifício em que ele se abriga há dezoito séculos. O livro não é irrepreensível, longe disso, porque é o reflexo de uma opinião exclusiva, que circunscreve sua visão ao estreito círculo da vida material. Renan, no entanto, não é materialista, mas pertence àquela escola que, se não nega o princípio espiritual, também não lhe atribui nenhum papel efetivo, direto, nas coisas do mundo. Ele é desses cegos inteligentes que explicam ao seu modo o que não podem ver; que, não compreendendo o mecanismo de visão à distância, acham que só se pode conhecer uma coisa tocando-a. Por isso reduziu a figura do Cristo às proporções do homem mais vulgar, negando-lhes todas as faculdades que são atributos do Espírito livre e independente da matéria.

Entretanto, a par dos erros capitais, especialmente no que se refere à espiritualidade, esse livro contém observações muito justas, que tinham até agora escapado aos comentadores e que lhe dão elevado alcance em certo sentido. Seu autor pertence à legião de Espíritos encarnados que podem ser considerados os demolidores do velho mundo, cuja missão é nivelar o terreno onde será construído um mundo novo, mais racional. Quis Deus que um escritor, justamente credenciado entre os homens pelos seus talentos, viesse lançar luz sobre certas questões obscuras e eivadas de preconceitos seculares, a fim de predispor os espíritos às novas crenças. Renan, sem perceber, aplainou o caminho para o Espiritismo.


Esse foi o aspecto do Cristianismo e da religiosidade que chamou a atenção de Allan Kardec e que seria o principal objetivo do plano de ação dos Espíritos na elaboração da Doutrina Espírita. A Codificação seria, na visão antecipada dos Espíritos, o principal sustentáculo para a preservação e renovação dos fundamentos históricos da Cristandade e ele o principal instrumento. Sua intenção essencial não era convencer os céticos, pois eles sempre existiram e existirão enquanto houver a razão e o livre-arbítrio, mas preservar a boa fé contra perigos da dúvida e do desencanto. O fim da esperança e da fé no futuro seria também, naquele contexto, o fim da civilização.

As obras de Allan Kardec e as idéias dos Espíritos tinham como objetivos comunicacionais e principalmente ideológicos a harmonia entre a fé a e a razão. Esse complicado trabalho seria realizado em duas etapas: primeiramente através de uma trégua, na qual os fenômenos desviariam a atenção dos choques extremistas entre os materialistas e os religiosos fanáticos. Somente depois é que ambos seriam chamados à uma reflexão. Na verdade os Espíritos não estavam interessados nem nos intelectuais nem no clero, mas nos espectadores dessa guerra. Os primeiros já haviam feito sua escolha, que era o narcisismo intelectual e a busca de glória nas academias. O clero, que já possuía a glória, optaria pela preservação da sua imagem.

Para atingir o público espectador era preciso demolir cuidadosamente os dogmas e, ao mesmo tempo, reconstruir a fé.

Os Espíritos não tinham nada contra a Igreja, muito pelo contrário. Somente achavam que ela estava muito comprometida com os interesses de César e não abriria mão dos seus objetivos materiais para servir a Deus. Mas a Igreja que os Espíritos queriam atingir era a comunidade conceitual e não a instituição. Eles sabiam que no espírito comunitário residia o cristianismo puro e dali ressurgiriam a fé espontânea e o bom senso, forçando a instituição a mudar de comportamento. Essa estratégia já havia sido aplicada em outros períodos críticos do Cristianismo, quando os Espíritos infiltraram-se na Igreja, usando como médiuns, elementos de grande habilidade espiritual como Francisco de Assis e Bento de Núrsia. Por incrível que pareça, a Doutrina Espírita, dentro do mais autêntico espírito herético, conseguiu salvar a Igreja do efeito devastador do materialismo, obrigando-a a mudar, gradualmente, em alguns de seus mais intransigentes pontos de vista.


A PALAVRA DE DEUS

“Antigamente, quando se ia consultar a Deus, dizia-se vamos ao vidente; porque os que hoje se chamam profetas chamavam-se videntes”. (Samuel, Livro I, 9:9). “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E o que acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão os vossos velhos; (Atos, 2:17).


Como releitura da Bíblia, os livros de Kardec também não se restringem apenas ao fator teórico-filosófico, mas se estendem ao mundo social, criando um movimento que tende ser cada vez mais crescente e significativo na vida contemporânea. Essa influência não será no sentido sectário e massificante que as doutrinas geralmente tomam, quando crescem socialmente, nem de prestígio no sentido de poder institucional, econômico e político, que marcaram, por exemplo, o desenvolvimento das religiões tradicionais. Essa influência vem ocorrendo, silenciosamente, através da mudança gradual da mentalidade e dos conceitos de vida praticados, espontaneamente, pelas novas gerações de Espíritos que reencarnam na Terra. Esses Espíritos já trazem em suas bagagens intelectual e moral as noções universalistas que o Espiritismo preconiza; são almas que despertam, desde a infância física, tendências contrárias aos valores do materialismo e da brutalidade que, por outro lado, caracterizam também muitas outras almas que estão voltando à carne, talvez realizando as últimas provas e expiações neste Planeta. Mesmo que essas almas mais evoluídas, que estão retornando à Terra, não tenham nenhum tipo de contato com instituições e conhecimentos doutrinário-espíritas, elas manifestam, naturalmente, muitas vezes sem a consciência objetiva, os valores morais e racionais estabelecidos pelos Espíritos Superiores, que aprenderam em núcleos da erraticidade[3], antes da reencarnação. Neste novo milênio, veremos surgir, cada vez mais, no seio de todas as religiões e escolas filosóficas, incluindo as mais conservadoras, líderes e pessoas de expressão influenciadora, defendendo, abertamente, idéias como a pluralidade dos mundos e das existências, e da comunicação natural com o mundo espiritual. Isto é até empolgante para os Espíritas, mas, ao mesmo tempo, deve servir de alerta, para que a Doutrina não seja transformada em instrumento de poder institucional ou usada para fins menos dignos pelas outras religiões já viciadas nesse processo.

Os conceitos delineados por Allan Kardec já ultrapassam, atualmente, as dimensões físicas e inibidas dos Centros Espíritas e penetram, eticamente nas artes plásticas, na literatura, no cinema, na música, nas mais diversas instituições humanitárias, nas ciências e, principalmente, no comportamento cotidiano. Isso não ocorre somente de maneira direta e proposital, através da inspiração dos Espíritos, mas também de forma quase imperceptível no decorrer das décadas, através da renovação de valores, transformados lentamente, conforme as tendências que surgem na Sociedade. Realmente, o mundo vem mudando, moral e intelectualmente, desde a Codificação; é uma mudança lenta, muitas vezes contrariada por alguns fatos que parecem retrocedê-la, mas que se realiza gradualmente no conjunto de valores pessoais. Quando Espíritos como Santo Agostinho, Adolpho (Bispo de Argel) e São Francisco Xavier[4] discursavam sobre a estupidez da prática do duelo, este hábito cruel era uma forte realidade cultural do século XIX, que se contava às centenas. Hoje podemos perguntar com toda tranqüilidade e espanto: ainda se pratica, literalmente, o duelo em defesa da honra? Com certeza temos outras formas de duelos, tão destrutivos quanto aqueles de confronto mortal explícito, porém, a Sociedade, bem como as leis, não o aceitam mais naquela forma fria e cerimonial.

Ao lermos Kardec, encontramos, em primeiro lugar, a realização de uma extensa e pormenorizada revisão, uma continuidade natural dos livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento, que são a principal referência cultural dos valores religiosos e morais do Ocidente. Nessa revisão da Bíblia nos deparamos com a contestação sistemática das idéias adulteradas ou de interpretações equivocadas e também das posturas das igrejas que se constituíram em torno do Cristianismo institucionalizado, ao longo dos séculos. Essa releitura estabelece ligações históricas com todas as fases da evolução humana nos seus múltiplos aspectos; essas, por sua vez, têm como conseqüência uma nova interpretação dos conceitos e dos fatos bíblicos, agora sob a ótica crítica do pensamento científico contemporâneo. Para Kardec a Bíblia em si não é um erro. O erro se encontra na interpretação que os homens fazem dela, fazendo dos textos históricos, escritos em linguagem figurada, objeto de culto e interesse institucional. Um exemplo disso é a expressão “palavra de Deus”, cuja interpretação obscura transformou-a em dogma ou, como bem definiu Herculano Pires[5], “um novo bezerro de ouro”. Para o Espiritismo a Bíblia é composta por documentos históricos, escritos e interpretados por seres humanos; devem ser lidos ao mesmo tempo com o respeito que se tem pelas coisas sérias e a racionalidade para com as verdades escondidas nas metáforas e símbolos. Seu caráter “sagrado” não está no fato de ser uma verdade absoluta e sim no seu aspecto espiritual e religioso. Ser “sagrado” não significa ser dogmático, que não deva ser lido com a razão e o bom senso. A inteligência e a capacidade de discernimento também são coisas divinas e, portanto, igualmente sagradas. Os textos bíblicos foram revelados e produzidos numa época em que a Humanidade estava dando os primeiros passos na conquista da inteligência e do seu equilíbrio com as emoções; as civilizações agrárias dessa época eram marcadas pelos limites da compreensão racional e da consciência, daí o predomínio da violência e da brutalidade, que encontramos fartamente no Velho Testamento. Richard Simonetti[6] lembra que os fundamentalistas, que se prendem muito à letra e desprezam o espírito da palavra bíblica, passam a condenar radicalmente a mediunidade e o contato com os Espíritos, alegando essas duas passagens do Velho Testamento: “Não vos voltareis para os médiuns, nem para os feiticeiros, a fim de vos contaminardes com eles”. (Levítico, 19:31) e “Não haja no teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem advinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mostos.” (Deuteronômio, 18:10-11). Esquecem eles que Jesus restabeleceu essas recomendações de Moisés sobre os abusos mediúnicos dando ele mesmo diversos exemplos de comunicação com os que partiram para outro mundo e com os que ficaram, depois que Ele se foi, como na cena do Tabor, quando entrou em contato com os Espíritos de Elias e de Moisés, e nos episódios das suas aparições. Simonetti argumenta também que esses mesmos intérpretes de conveniência teriam muito o que explicar sobre porque não colocam em prática essas “determinações” bíblicas, todas elas combatidas publicamente por Jesus:


“Os filhos devem pagar pelos pecados dos pais (Êxodo, 20:5); Quem trabalhar no Sábado será morto (Êxodo, 35:2); Animais e aves serão sacrificados, sangue espargido sobre altares, atendendo a variados objetivos (Levítico, caps. 1 a 7); Quando morrer o homem sem deixar descendente, seu irmão deverá casar-se com a viúva (Deuteronômio, 25:5); Os filhos desobedientes e rebeldes, que não ouçam os pais e se comprometam no vício, serão apedrejados até a morte (Deuteronômio, 21:18-21); É proibido comer carne de porco, lebre ou coelho (Levítico, 11:5-7); O homossexualismo será punido com a morte (Levítico, 20:13); A zoofilia sexual será punida com a morte (Levítico, 20:15-16); Deficientes físicos estão proibidos de aproximar-se do altar do culto, para não profaná-lo com seu defeito (Levítico, 21:17- 23); O hanseniano deve ser segregado da vida social, vivendo no isolamento (Levítico, cap. 13); Os adúlteros serão apedrejados até a morte (Deuteronômio, 22:22); A blasfêmia contra Deus será punida com o apedrejamento, até a morte (Levítico, 24:16-16);


Quanto à mulher, em particular:

Ao dar a luz um menino ficará impura por 40 dias. Se for menina ficará impura por 80 dias (Levítico, 12:1-5);

A noiva que simular a virgindade ao casar-se será apedrejada até a morte (Deuteronômio, 22:21); Descontente com a esposa, o homem poderá dispensá-la, sem nenhuma compensação, dando-lhe carta de divórcio (Deuteronômio, 24:1).”


O TERCEIRO TESTAMENTO

“ O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo como este partiu das de Moisés, é uma conseqüência direta de sua doutrina” – A Gênese, Caracteres da Revelação Espírita, item 30.


A violência e a brutalidade que existem hoje são exceções que a nossa moral não aceita, porque não é mais encarada naturalmente como naqueles tempos antigos. O advento do Espiritismo coincide com o surgimento da civilização tecnológica industrial, mecânica e digital, onde não há mais espaço para os dogmas e as superstições das religiões das sociedades agrárias. A transformação do mundo exterior e material, pelas ciências e pela tecnologia, deve ser acompanhada pela transformação da mentalidade e, principalmente, dos valores do mundo interior e espiritual. Somente as pessoas de intelecto curto e de imaturidade espiritual aceitam a idéia de que o “Reino de Deus” é o mundo exterior e material, comandado pela força dos temidos decretos de um Deus irado, vingativo e incapaz de perdoar seus filhos. Essa idéia equivocada sobre o Criador e o Universo descrita nos antigos textos bíblicos não se coaduna com os ensinamentos de brandura e amor contidos no Evangelho, que são os mesmos ensinados pelas doutrinas cristãs mais abertas. A Doutrina Espírita mostra uma nova perspectiva do Universo criado por Deus e do destino das suas criaturas. Mostra que Moisés foi uma revelação importante para aqueles tempos e que teve que ser retificada nos séculos seguintes pelos ensinamentos de Jesus. Prova disso é que os seguidores fanáticos de Moisés foram cúmplices da condenação de Jesus à pena de morte. Os ensinamentos de Jesus não podiam ser compreendidos em sua plenitude na época em que ele viveu, daí as perseguições e a promessa da sua volta, para complementá-los, quando tivéssemos maturidade para entender. A volta de Jesus não poderia ser de forma literal, como muitos esperam, e cansar-se-ão de esperar, porque, se fosse desse jeito, em carne e osso, ou através de aparições, logo seria rejeitada como bruxaria ou falsa profecia. São os seus ensinamentos é que estão de volta, agora anunciados pelo próprio Espírito Verdade (símbolo da harmonia da compreensão racional e emocional) e confirmados pelos conhecimentos científicos do nosso tempo. Os Espíritos não são uma invenção do Espiritismo; eles sempre estiveram presentes na vida cotidiana das pessoas porque eles são as próprias pessoas que partem daqui para outras dimensões. E vice-versa; isso está cheio de exemplos não somente na história bíblica, nos profetas, nas experiências de muitos personagens, nos acontecimentos da vida de Jesus e dos apóstolos, mas em todas a s culturas históricas teológicas. Os Espíritos tanto podem ser o conjunto de individualidades humanas desencarnadas, que se dedicam ao Mal e que formam as legiões simbólicas de Lúcifer, do Demônio, do Espírito da Besta, com suas mentiras e armadilhas, etc., como podem ser o conjunto de obreiros do Bem, que levam uma vida justa e honesta e, naturalmente, se agrupam nas hostes simbólicas da Luz, do Espírito de Verdade, dos Anjos do Senhor, que sãos os condutores das Humanidades que habitam os milhões e milhões de planetas do Universo Infinito, formando as muitas “moradas” da casa do Pai. O Bem é tudo aquilo que obedece ao progresso e evolução; que transforma o mundo exterior e o interior dos seres, formando o Reino de Deus; o Mal é tudo aquilo que desobedece ao progresso e à evolução, estacionando e se fixando no mundo exterior e material, negando os valores interiores do altruísmo e degenerando-se no egoísmo e na brutalidade, formando o Reino de César. O Reino de Deus são as suas leis perfeitas e que representam a felicidade; o Reino de César é a negação das leis de Deus e que representam a dor e o sofrimento do qual não conseguimos nos libertar. É para essas inúmeras contradições humanas, nas quais se perdem milhões de Espíritos encarnados e desencarnados, nos mundos de provas e expiações, que se manifestam os Espíritos Superiores, mais experientes. Eles trazem mensagens e exemplos de “salvação”, ensinados pela vivência, em forma de amor e sacrifício, em várias épocas, em várias circunstâncias e em diversos mundos que estão na mesma condição que a Terra.

As religiões dogmáticas tinham transformado a relação humana com o mundo metafísico, antes simples e natural, numa relação complexa e inacessível ao homem comum. Essa comunicação de mundos e dimensões veio sendo tão obstruída e controlada no decorrer dos séculos que, realmente, tornou-se uma possibilidade muito remota, um privilégio dos “iluminados”; numa só palavra: um milagre. As comunicações Espíritas, mesmo as que ocorreram fora do contexto da Codificação, quebraram esse limite e expuseram abertamente algo que normalmente seria impossível: entrar em contato com pessoas que se tornaram mitos inatingíveis e receber delas idéias e instruções diretas, com intermediação simples e sem controle ideológico ou político; o único controle seria a razão. Isso explica porque os nomes que aparecem nas mensagens são simplesmente “inacreditáveis”, porque, pela lógica daquilo que seria “normal”, ou seja, do mito, não seria viável. Tirando a figura do mito, da sacralização simbólica e emblemática que foi dada a essas pessoas, esses nomes se tornam comuns, pois foram pessoas que viveram e conviveram entre nós antes que se tornassem mitos. É o caso de uma mensagem de Jesus, publicada num jornal espírita de New Orleans[7], em 1868. Por que Jesus não poderia se comunicar como Espírito? Por que, mesmo sendo Espíritas, duvidamos, não da fonte ou do médium, mas da autenticidade do autor? Não seria porque, para nós, Jesus, como um Sócrates, um Moisés ou um apóstolo Paulo, ainda são mitos? Essa mensagem foi reproduzida na “Revista Espírita” de setembro do mesmo ano e Kardec a encarou com a maior naturalidade possível, dizendo: “Seja como for, ela trás, no fundo e na forma dos pensamentos, na simplicidade junto à nobreza do estilo, um cunho de identidade que não se poderia desconhecer. Atesta, da parte dos assistentes, disposições de natureza a lhes merecer esse favor, e não podemos senão os felicitar. Pode ver-se que as instruções dadas na América sobre a caridade e a fraternidade não cedem em nada às que são dadas na Europa. É o elo que unirá os habitantes dos dois mundos.”


“Filhos, eu vos escrevi: Quando vossa boa união me chamar, virei a vós. E vossa boa união me chamou; eis aqui. Eis-vos agora como meus apóstolos de outrora. Fazei como os bons e não façais como os maus; que ninguém renegue, que ninguém traia! Ides sentar-vos à mesma mesa que reunia os amigos da minha fé e do meu coração; que ninguém seja nem Pedro, nem Judas!

Ó meus bons filhos, olhai em torno de vós e vedes! Minha cruz, o instrumento glorioso de meu vil suplício, domina os edifícios da tirania... e eu, eu não tinha vindo senão para pregar a liberdade e a felicidade. Com a minha cruz afogaram os corpos no sangue e as consciências na mentira! Com minha cruz, disseram aos homens: “Obedecei aos vossos senhores; curvai-vos ante os opressores!” E eu dizia: “Sois todos filhos de um mesmo pai, sem distinção, a não ser a de vossos méritos, resultante da vossa liberdade”.

Eu tinha dito aos grandes: “Humilhai-vos” e aos pequenos “Erguei-vos” e exaltaram os grandes e rebaixaram os pequenos. Que fizeram de mim, de minha memória, de mina lembrança, de meu apostolado? Um sabre! – Sim, e há ainda os que se fizeram agentes dessa infâmia!... Oh! Se se pudesse sofrer na morada celeste, eu sofreria!... E vós, vós deveis sofrer... E deveis estar prontos a tudo para a redenção que comecei, ainda que não fosse senão para arvorar sobre a mesma montanha o mesmo sinal de união!... Será visto e compreendido, e deixarão tudo para o defender, para o abençoar, para o amar.

Filhos, ide para o céu com a fé, e toda a humanidade vos seguirá sem medo e com amor! Logo sabereis, na prática, o que é o mundo, se a teoria não vos tiver ensinado.

Tudo o quanto vos foi dito para a prática do verdadeiro cristianismo não será a sombra da verdade! O triunfo que vos espera está tão acima dos triunfos humanos e dos vossos pensamentos, quanto as estrelas do céu estão acima dos erros da Terra!

Oh!... Quando eles verem como Tomé! Quando tiverem tocado!... Vós vereis! Vereis! As paixões vos criarão obstáculos, depois vos socorrerão, porque serão as boas paixões após as más paixões.

Pensai em mim quando fordes partir meu pão e beber meu vinho dizendo que arvorais, para a eternidade, a bandeira dos mundos... Oh! Sim, dos mundos, porque ela unirá o passado, o presente e o futuro a Deus!”


Uma outra mensagem, publicada em O Livro dos Médiuns para ilustrar a necessidade de análise, é também assinada por “Jesus”. Não possui o mesmo padrão de simplicidade e elevação; insinua a inferioridade humana, a vaidade e o orgulho, persistindo na falsa idéia de uma salvação sem responsabilidade individual:


“Destas brilhantes e luminosas regiões em que o pensamento humano mal pode chegar, o eco de vossas palavras e das minhas veio tocar o meu coração.

Oh, de que alegria me sinto inundado em vos vendo, a vós, os continuadores de minha doutrina. Não, nada se aproxima do testemunho dos vossos bons pensamentos! Vós vedes, filhos, a idéia regeneradora lançada por mim outrora no mundo, perseguida, retida um momento sob pressão dos tiranos, como vai agora, sem obstáculos, esclarecendo os caminhos da humanidade, tão longo tempo mergulhada nas trevas.

Todo sacrifício grande e desinteressado, meus filhos, cedo ou tarde produz seus frutos. Meu martírio vo-lo provou; meu sangue derramado por minha doutrina salvará a humanidade e apagará as faltas dos grandes culpados!

Sede benditos, vós que hoje tomais lugar na família regenerada! Ide, coragem, filhos!”


OS VIVOS E OS MORTOS


Todas essas informações doutrinárias que acabamos de resumir estão contidas e melhor explicadas na Codificação Espírita, situando-nos como individualidades e criaturas imortais. Ela responde quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Tais informações foram levantadas em forma de questionamentos pelo Codificador e equacionadas por uma plêiade de Espíritos Superiores, liderada pelo Espírito Verdade; foram analisadas, selecionadas, sistematizadas e publicadas, sucessivamente, entre 1857 e 1868, sob um rígido controle metodológico de Allan Kardec, mas também com a sabedoria dos Seres Superiores, que vislumbram uma realidade mais ampla e sem os nossos conhecidos limites materiais. Muitos desses Espíritos não sabem tudo, porém sabem muito mais do que nós. Sua sabedoria já está muito próxima dos mistérios do Criador e da Criação e isso nos ajuda a superar os obstáculos que hoje nos desafiam a existência; eles já aprenderam a amar, sem limites e nós estamos incluídos nesta lista de seres que amam e que anseiam fazer progredir. Para eles, a felicidade é amar, proteger e libertar as criaturas que ainda não compreendem porque sofrem e não possuem maturidade para serem plenamente felizes. Quando esses Espíritos conseguem despertar em nós um certo grau de consciência, suficiente para o reconhecimento das causas e conseqüências dos problemas nos quais estamos envolvidos, ficam satisfeitos e se afastam, temporariamente, para que possamos romper, sozinhos, outros limites que a Lei da Evolução nos oferece. Muitos desses Espíritos que se comunicaram na Codificação possuem responsabilidades de grande dimensão no direcionamento coletivo do nosso Planeta. Por isso, em determinadas épocas, sobretudo as de transformações profundas, interferem em nosso benefício, sempre mostrando rumos mais seguros diante desses períodos de provas difíceis. Nesses momentos, já registrados em outras épocas da nossa História, quando tudo parece estar perdido e sem perspectiva, os Espíritos Superiores lançam seus ensinamentos como “salva-vidas” em meio as tempestades sociais: diante do caos, mostram a ordem e o equilíbrio; diante da dor, mostram a esperança; diante do ódio e da vingança, mostram que não há solução senão o Amor, em todas as suas manifestações que já conseguimos distinguir: a solidariedade, a cooperação, a piedade, a compaixão, a tolerância, o perdão, a renúncia. Para esses Espíritos experientes, que já passaram pelo que estamos passando, as curtas existências na carne são oportunidades valiosas para rompermos os obstáculos; a simples posse de um corpo, independente da circunstância, é uma poderosa ferramenta de progresso individual ou do grupo ao qual estamos ligados; desistir ou desviar dessas oportunidades significa recusar um medicamento de cura e prolongar o sofrimento. Como, no plano mental, o esquecimento objetivo faz parte das provas a serem realizadas na carne, os Espíritos interferem na memória espiritual, nas lembranças subjetivas que temos dos planos espirituais de onde viemos. Para nós, essas lembranças são noções que chamamos vagamente de “destino”. Para eles, são compromissos específicos que foram escolhidos e assumidos, conscientemente, antes da reencarnação. Entre nós e eles, esses são pontos de vista muito diferentes, que fazem dos Espíritos, seres mais aptos a ver coisas que não conseguimos, ou não queremos, enxergar quando estamos na carne.

Tudo isso, no século XIX, era informação restrita a apenas alguns círculos de conhecimento; ainda assim, com muitas ressalvas, pois não havia meios seguros para confirmá-la. Tal conhecimento estava oculto e guardado onde sempre esteve, para ser usado somente nas situações necessárias: no “inconsciente”. Esse foi o ponto de partida dos Espíritos Superiores para interferir no momento crucial da Humanidade contemporânea.

A grande marca que está presente em todos esses escritos de Allan Kardec e dos Espíritos Superiores é a revelação explícita do Mundo Espiritual, do Universo fora ou além da matéria densa. Afinal, tudo foi feito para explicar os eventos iniciados em Hydesville e a inteligência manifestada através das mesas-girantes no mundo inteiro. A possibilidade da ação direta, no plano da matéria palpável, de uma força extrafísica e inteligente, não ficaria somente na esfera do diálogo filosófico entre “mortos” e vivos. Depois dos livros de Allan Kardec, ficou muito difícil estabelecer e distinguir quem realmente são os mortos e quem são os vivos.


O ESPÍRITO VERDADE


Muito já se falou e escreveu o sobre o aspecto tríplice da Doutrina Espírita, o de Ciência, Filosofia e Religião. Há quem veja nessa análise apenas uma simplificação didática para melhor compreensão do seu conjunto ou, ainda, uma mera repartição doutrinária para justificar as preferências que os adeptos manifestam quanto aos conteúdos e suas manifestações sociais. Há um pouco de verdade em cada uma dessas avaliações, mas todas elas trazem consigo a marca genérica da revelação. Mesmo os aspectos científico e filosófico trazem embutidos nas suas premissas as idéias de um Conhecimento Revelado, não importando qual tenha sido as ferramentas para que se chegasse a esse resultado. Essa marca chama-se “Espírito Verdade”. Ela aparece em todas as experiências e dissertações expostas nos livros de Allan Kardec, na Revista Espírita e em praticamente tudo o que foi e vem sendo escrito e registrado sobre o Espiritismo. É o centro de uma unidade e também a principal referência de tudo o que acontece no conseqüente movimento social que vem se articulando desde o século XIX. Até mesmo as palavras “Codificação” e “Codificador” estão, primeiramente, relacionadas a este centro, para depois assumir seus respectivos papéis. Todos os Espíritos que se comunicam falam em nome dessa Entidade, e tudo o que se fala tem como objetivo primordial chamar a atenção de todas as pessoas e conduzi-las para essa grande convergência que se chama “Espírito Verdade”.

Como já dissemos, contraditoriamente esse conhecimento revelado, personalizado na figura do Espírito Verdade, não é (como as revelações anteriores) indiscutível, inquestionável, imutável por mãos humanas, não sendo, portanto, dogmático. A revelação Espírita não acontece no sentido vertical do Conhecimento Autoritário e imposto, o qual rejeita e critica; ela passa por todos os demais conhecimentos classificados e aceitos pela Humanidade como o Conhecimento Lógico-Racional, o Conhecimento Intuitivo e o Conhecimento Empírico. O Espiritismo acontece como evento-revelação num determinado contexto histórico, como aconteceu em outras épocas, em vários lugares do mundo. Não segue, ao nosso ver, o modelo histórico linear, etapista, evolutivo e seqüencial. Sabemos que a história da Humanidade não é linear como nos apresentou Emmanuel no seu À Caminho da Luz. Essa linearidade da historiografia de Emmanuel, no jeito de escrever de Humberto de Campos e de outros, só existe nas suas formas particulares de expor os fatos. Tais características não desabonam seus trabalhos, mas coloca-os no plano relativo do conhecimento histórico e nunca no absoluto, como se poderia pensar. Emmanuel obedeceu a lógica da linearidade histórica que existia e ainda existe entre muitos historiadores encarnados. Poderia, se quisesse, revelar fatos que não são do conhecimento da nossa historiografia e totalmente fora do tempo e espaços que a nossa História registrou. Quem pode garantir que antes das civilizações da Antiguidade Oriental e greco-romana não tenham existido outras de igual importância? Nesse ponto Allan Kardec foi mais prudente, pois sabia desses limites, que para os Espíritos não existe, a não ser que, deliberadamente, por algum motivo, omitam tais informações. Assim, as revelações que vêm sendo feitas não podem ser enquadradas nessa perspectiva de uma História linear e seqüencial. O ideal seria observar numa perspectiva mais ampla. Então, é muito relativo dizer que Moisés recebeu a “primeira” revelação e que a “segunda” foi feita pelo próprio Jesus, e a “terceira” é o Espiritismo, revelado pelo Espírito Verdade. Alguns autores afirmam, por exemplo, que o Espiritismo “encerra” o “ciclo” de revelações iniciadas com Moisés, sendo a Doutrina Espírita a “última” delas. E colocam “última” no sentido de que não haverá mais nenhuma daqui em diante. Ora, é uma afirmação muito bonita, admirável, no seu aspecto ideológico, porém sem nenhuma expressão de historicidade, científica ou filosófica. Mesmo não sendo a “primeira” ou a “terceira e última”, a Doutrina Espírita continua sendo uma importante revelação, pois está inserida num contexto histórico extremamente significativo da História Humana. Não importa o tempo que ela vai predominar. Se não podemos afirmar com certeza que não houve revelações “importantes” antes de Moisés, também não podemos afirmar que elas não vão acontecer no futuro, quando o Espiritismo vier a ser superado por outros conhecimentos que ainda não temos capacidade de compreender. E isso está explícito logo na primeira pergunta de O Livro dos Espíritos, dúvida que é melhor esclarecida na questão de nº 11: - O que é Deus? Um dia será dado ao homem compreender a o “mistério” da Divindade?

Quando falamos que o Espiritismo pode vir a ser superado no futuro não devemos entrar em pânico, simplesmente porque a Verdade que o Espiritismo representa e prega pode ser a Verdade Absoluta para os Espíritos Superiores, porém muito relativa para nós. Essa é a marca que se apresenta para nós nas obras de Allan Kardec e que se chama o “A Verdade”. É essa mesma verdade que vinha sendo anunciada nas Escrituras Sagradas, não só da tradição judaico-cristã, mas de todas as religiões e filosofias do mundo e que estiveram voltadas para a promoção do ser Humano. As promessas messiânicas de um libertador universal, de um salvador do mundo, estão registradas em praticamente todas as culturas do planeta. É claro que ela teria que se manifestar em algum lugar e em algum momento em que pudesse ser transferida do seu caráter particular para o geral, do específico para o genérico, de uma nação para o mundo, de um grupo humano para toda a Humanidade. Não é por ser “transcendental”, e de aspecto “sobrenatural” e “metafísico” que uma revelação tenha que se manifestar, por exemplo, em nossa época, como um mega e espantoso evento tecnológico, vindo, por exemplo, do Espaço sideral. Não, ela pode ser tão simples e próxima da Humanidade como o nascimento natural em uma manjedoura, como foi o caso de Jesus. Esse caso foi “transcendente” pelo seu significado espiritual, de ruptura de conceitos milenarmente arraigados nos costumes humanos, e não por ter sido algo “milagroso” e “sobrenatural”, como entendem as inteligências rudes e limitadas. Tal qual o advento de Moisés ou o de Jesus, ou de outros que talvez tenham acontecido, o advento do “Espírito Verdade” aconteceu sem nenhuma mostra de fenômeno sobrenatural ou milagroso. A visão mágica, sobrenatural e milagrosa foi dos espectadores e não do fenômeno em si. Moisés não precisava explicar essas coisas ao povo rude e ignorante da sua época, que aceitou sem questionar muito aquela revelação como fenômeno sobrenatural. Jesus chegou a dar algumas explicações sobre as coisas que aconteceram em torno do seu nascimento, das curas e de muitos fenômenos que ocorreram nas suas experiências. Mesmo assim, tudo o que não foi compreendido pela ciência da época, teve que ser transferido para o terreno da fé, dos milagres ou adiado para o futuro. Os Evangelhos são muito claros nessas três hipóteses. Mas com o Espiritismo seria bem diferente. Como revelar algo tão importante, que supere as outras revelações, sem levar em conta o conhecimento e o contexto histórico em que as pessoas estão vivendo. Em sua época Moisés operava com recursos, vamos dizer, “paranormais” e, muitas vezes apelava para a força. Jesus também usou esses recursos e trocou a força pelo exemplo e pelas parábolas. Isso bastava. Mas no século XIX, como já vimos, isso seria impraticável.

Na cultura das revelações uma coisa é muito importante e estratégica: as atividades precursoras. Elas funcionam como preparação de um terreno árido, que hoje poderíamos chamar de “formação de opinião pública”. Moisés usou desses recursos. Jesus pode ter se utilizado da tradição dos Essênios, os terapeutas caridosos da época, e, com certeza, para esse fim, mandou João Batista, um verdadeiro “trator de fogo”, para aplainar primeiro os corações endurecidos. O “Espírito Verdade” foi mais longe: mandou alguns precursores “muito antes”, Sócrates e Platão, por exemplo; alguns “pouco antes”, Franklin e Swedenborg; e outros “pouquíssimo antes”: muitos médiuns, de tarefa e missionários, e a liberação, antes restrita e agora controlada, das intervenções de Espíritos sobre a matéria e a sociedade encarnada. Entenda-se aqui os fenômenos de Hydesville e de centenas de outros registrados no mundo inteiro. Allan Kardec, encarnado, também funcionou, ao mesmo tempo, como médium e mensagem, pois fazia parte da equipe “desencarnada” do “Espírito de Verdade”. Tudo aconteceu de forma natural, embora tenha parecido ser sobrenatural. Até mesmo Kardec teve uma vida normal e só ficou sabendo do que se tratava quando estava bem maduro e esclarecido, no momento certo. O fenômeno das mesas-girantes foi só o começo de uma grande tempestade de informações reveladas que o “Espírito Verdade” estava preparando para a Humanidade.

A IDENTIDADE DO ESPÍRITO

“A qualificação de Espírito Verdade não pertence senão a um só, e pode ser considerada como um nome próprio. Está especificada no Evangelho. Aliás esse Espírito se comunica raramente e apenas em circunstâncias especiais. É preciso manter-se em guarda contra os que indevidamente se enfeitam com esse título. São fáceis de reconhecer, pela prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem.” (Allan Kardec – Qualificação de Santo aplicada a certos Espíritos / Revista Espírita –julho de 1866).


Quem é o Espírito Verdade? Essa é uma pergunta para a qual se têm muitas e ao mesmo tempo nenhuma resposta. Muitas porque tudo indica ser uma entidade “familiar”, muito próxima da experiência humana, que todos conhecem e se sentem muito íntimos. Nenhuma porque ela é oculta, anônima, impessoal, universal, que está acima dos limites da família humana, da qual ainda nos sentimos pouco íntimos. É como se o “Espírito Verdade” fosse Jesus, um simples cidadão da Galiléia, nos ensinando coisas novas na linguagem modesta de um carpinteiro e, ao mesmo tempo, fosse um Espírito de alta hierarquia, de natureza angélica e muito acima dos limites humanos, nos ensinando coisas que nos parecem fabulosas e inacreditáveis. Sabemos que ele é a volta de Jesus, como foi prometido, mas não se identifica como Jesus. Diz que é a Verdade. Mas Jesus também não se identificou como o “Jesus” que viria a ser mais tarde, nem como um Espírito angélico: disse simplesmente que era o “Messias” e que a profecia estava sendo cumprida. Isso mostra que a identidade do Espírito não é a marca da individualidade mas a “condição” em que ele se encontra num determinado contexto. Jesus era o “Messias”; o Espírito Verdade é “a volta de Jesus”. Foi por isso também que o professor Rivail aceitou a sugestão do seu Espírito protetor para usar o pseudônimo “Allan Kardec”. A condição de “Codificador” do Espiritismo, de portador de uma revelação divina e universal não poderia ser personalizada pelo nome humano de Rivail. Allan Kardec vai além de um pseudônimo, é emblema e instrumento intelectual, o “médium” e a “mídia” de uma mensagem coletiva dos Espíritos, cuja unidade é o Espírito Verdade. Essa revelação, totalmente aberta, pública, distanciada de personalismos, mas dotada de muita “Personalidade”, no sentido metafísico e coletivo das grandes verdades, foi preparada para acontecer exatamente num momento em que o mundo estava mergulhado na indiferença espiritual. Se ela viesse pelos canais já conhecidos como, por exemplo, as Igrejas, teria sido fatalmente rejeitada. Daí a sua principal característica: a impessoalidade humana e ao mesmo tempo a sua personalidade cósmica e divina. Esse talvez seja o significado bíblico do termo “Paradoxo”, como se define nos dicionários: “contradição, pelo menos na aparência” que se dá ao “Paráclito” ou “Paracleto”. Essa é a denominação que Allan Kardec deu ao Espiritismo, interpretando os conhecidos versículos do Apóstolo João. Paracleto “é o designativo aplicado ao Cristo e especialmente ao Espírito Santo”. “Paracletear” é um verbo que significa “sugerir a (alguém) o que deve responder”. Significa ainda “Defensor, protetor, intercessor, mentor”. Assim como Kardec, encontramos nessas definições tudo o que está relacionado ao Espiritismo: os fenômenos aparentemente sobrenaturais, a volta do Cristo, o Espírito Santo ou Espírito de Verdade, que é o líder e a plêiade de Espíritos santificados, ou seja, evoluídos e superiores, que “paracleteiam”, sugerem, inspiram o que os médiuns devem responder aos que buscam o “Consolo” para suas dores e aflições.

O Espírito Verdade aparece em vários momentos da obra de Kardec: em O Livro dos Espíritos se apresenta como membro de um grupo e assina uma mensagem para Kardec, juntamente com vários Espíritos conhecidos da nossa Humanidade. Nos demais livros e na Revista Espírita aparece, circunstancialmente, cumprindo uma tarefa coletiva, com exceção de O Evangelho segundo o Espiritismo. Nessa obra assina, enfaticamente, o prefácio, no qual usa uma linguagem de metáforas, “típica dos anjos”, bastante simbólica, imponente e de autoridade universal. Este anúncio do Espírito Verdade é, historicamente, muito semelhante ou equivalente ao que foi feito por Jesus na Sinagoga de Nazaré, ao ler o famoso trecho do livro de Isaías (1-2): “O espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar a boa nova aos pobres; ele me enviou para consolar os aflitos, e pregar a liberdade dos cativos, e fazer recobrar a vista aos cegos, e para libertar os oprimidos” (Lucas, IV-16 a 21):


“Os Espíritos, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta desde que dele recebeu o comando, espalham-se sobre toda a superfície da Terra; semelhantes às estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade, são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu sentido verdadeiro para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos.

As grandes vozes do céu ressoam como o som da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao concerto divino; que vossas mãos tomem a lira; que vossas vozes se unam, e que num hino sagrado se estendam e vibrem de uma extremidade a outra do Universo.

Homens, irmãos a quem amamos, estamos junto de vós; amai-vos também uns aos outros, e dizei do fundo do vosso coração, fazendo as vontades do Pai que está no céu: ‘Senhor!, Senhor!’ e podereis entrar no reino dos céus.”


No capítulo XX, “Os trabalhadores da Última Hora” assina a mensagem de conclusão denominada “Os obreiros do Senhor”, na qual confirma o compromisso dos espíritas na difusão e exemplificação das novas verdades e anuncia o cumprimento de algumas profecias do Novo Testamento sobre a transformação da Humanidade:


“(...) Deus faz neste momento o recenseamento dos seus servidores fiéis, e marcou com o seu dedo aqueles que não tem senão a aparência do devotamento, a fim de que não usurpem mais o salário dos servidores corajosos, porque é àqueles que não recuarem diante de suas tarefas que vai confiar os postos mais difíceis na grande obra de regeneração pelo Espiritismo, e estas palavras se cumprirão Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros no reino dos céus!”


No capítulo VI, “O Cristo Consolador”, ele se apresenta de forma mais emblemática, assumindo a mesma identidade messiânica de Jesus, sempre dando cumprimento às profecias e promessas do Cristo.

Kardec o apresenta dessa forma:

“(...) O Espiritismo vem, no tempo marcado, cumprir a promessa do Cristo: o Espírito de Verdade preside à sua instituição, chama os homens à observância da lei e ensina todas as coisas em fazendo compreender o que o Cristo não disse senão por parábolas (...)”


E o Espírito Verdade assim se expressa, com uma fala histórica e magnânima, dando aos homens a chave da transformação interior e a responsabilidade pela salvação:


“Venho, como antigamente entre os filhos transviados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como antigamente minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande que faz germinar a planta e eleva as ondas. Revelei a Doutrina divina e, como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim todos os que sofreis!

(...) Em verdade, vos digo, aqueles que carregam seus fardos e que assistem seus irmãos são meu bem-amados; instruí-vos na preciosa doutrina que dissipa o erro das revoltas, e que vos ensina o objetivo sublime da prova humana. Como o vento varre a poeira, que o sopro dos Espíritos dissipe os vossos ciúmes contra os ricos do mundo que, freqüentemente, são muito miseráveis, porque suas provas são mais perigosas que as vossas. Eu estou convosco e o meu apóstolo vos ensina. Bebei da fonte viva do amor e preparai-vos, cativos da vida, para vos lançar um dia livres e alegres no seio d’Aquele que vos criou fracos para vos tornar perfectíveis, e que vós mesmos trabalhareis vossa maleável argila, a fim de serdes os artífices de vossa imortalidade.”


A mesma mensagem também foi incluída nas dissertações finais de O Livro dos Médiuns, um pouco diferente, mas com a mesma essência de conteúdo. Allan Kardec fez o seguinte comentário sobre ela:


“Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, foi assinada por um nome que o respeito só nos permitiria reproduzir com absoluta reserva, tão grande seria a insigne graça de sua autenticidade, e porque já muito se abusou desse nome em comunicações evidentemente apócrifas. Esse nome é o de Jesus de Nazaré. Não duvidamos absolutamente que ele possa manifestar-se. Mas se os espíritos verdadeiramente superiores só o fazem em circunstâncias excepcionais, a razão nos impede aceitar que o Espírito puro por excelência responda a qualquer apelo. Haveria pelo menos profanação em lhe atribuirmos uma linguagem indigna dele.

É por essas considerações que temos sempre evitado publicar tudo o que traz o seu nome. Acreditamos que nunca seríamos demasiado cuidadosos no tocante a publicações dessa espécie, que só têm autenticidade para o amor-próprio dos interessados e cujo menor inconveniente é o de fornecer armas aos adversários do Espiritismo.

Como temos dito, quanto mais elevados são os Espíritos, mais desconfiança deve se ter da assinatura dos seus nomes. Seria necessária uma grande dose de orgulho para alguém vangloriar-se de ter o privilégio de suas comunicações, julgando-se digno de conversar com ele como se fosse com os seus iguais. Na comunicação acima constatamos apenas a superioridade da linguagem e dos pensamentos, deixando a cada um o cuidado de apreciar se aquele de quem ela traz o nome a rejeitaria ou não.”


Em maio de 1864, em Bordeaux, por ocasião do lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo, surge uma mensagem (II), na qual o Espírito Verdade é mais explícito sobre a sua identidade. Allan Kardec publica a mensagem na Revista Espírita (Dezembro de 1864, vol. 12) reconhecendo a veracidade da origem, afirmando: “Se se a compara com às que são dadas na Imitação do Evangelho (prefácio e capítulo III) e que levam a mesma assinatura, posto obtida por médiuns diferentes e em épocas diversas, nota-se entre elas uma analogia marcante de tom, de estilo e de pensamentos, que acusa uma origem única. Para nós, dizemos que pode ser do Espírito Verdade, porque é digna dele; ao passo que temos visto massas assinadas por este nome venerado ou o de Jesus, cuja prolixidade, verbiagem, vulgaridade, por vezes mesmo a trivialidade das idéias, traem a origem apócrifa aos olhos menos clarividentes.”


“Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de boa vontade. Esta palavra foi esquecida pelo maior número, e a incredulidade, o materialismo vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado em vossa terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vem a todos os pontos da Terra fazer ouvir a trombeta que retine. Escutai suas vozes; são destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos; os tempos preditos são chegados; todas as profecias serão cumpridas.

Pelos frutos se reconhece a árvore. Vede quais são os frutos do Espiritismo: casas onde a discórdia tinha substituído a harmonia voltaram à paz e à felicidade; homens que sucumbiam ao peso de suas aflições, despertados aos acentos melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que seguiam caminho errado e, corando de suas fraquezas, arrependeram-se e pediram ao Senhor a força para suportar suas provações.

Provações e expiações, eis a condição do homem da Terra. Expiação do passado, provações para fortificar contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela atividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria e prepará-lo para os prazeres puros, que o esperam no mundo dos Espíritos.

Há várias moradas na casa de meu Pai, disse-lhes eu há dezoito séculos. Estas palavras, o Espiritismo veio fazê-las compreendidas. E vós, meus bem amados, trabalhadores que suportais o calor do dia, que credes ter que vos lamentar da injustiça da sorte, abençoai vossos sofrimentos; agradecei a Deus, que vos dá meios de resgatar as dívidas do passado; orai, não com os lábios, mas com o coração melhorado, para vir ocupar melhor lugar na casa de meu Pai. Porque os grandes serão humilhados; mas sabeis, os pequenos e os humildes serão exaltados.”


Em O Livro dos Médiuns, capítulo XXVII, sobre as Contradições e Mistificações, o Espírito Verdade intervém nos trechos mais delicados, nos quais faz questão de deixar a sua marca de autenticidade. Nessa época surgia em Paris uma seita obscura denominada “Doutrina do Espírito Único”, arrebanhando, como sempre, muitos adeptos invigilantes. Preocupado com o assunto, Kardec questiona e obtém dele as seguintes respostas:


“6. Como podem os Espíritos, que parecem desenvolvidos em inteligência, ter idéias evidentemente falsas sobre certas coisas?

- Eles têm suas doutrinas. Os que não são bastante adiantados, mas julgam que o são, tomam as suas idéias pela verdade. É como acontece entre vós.

7. Que pensar das doutrinas que só aceitam a comunicação de um Espírito, que seria Deus ou Jesus?

- O Espírito que a ensina deseja dominar e por isso quer impor-se como único. Mas o infeliz que ousa tomar o nome de Deus pagará bem caro o seu orgulho. Essas doutrinas se refutam a si mesmas porque estão em contradição com os fatos mais amplamente verificados. Não merecem o exame sério, pois não têm fundamento.

A razão vos diz que o bem procede de uma fonte boa e o mal de uma fonte má. Como quereis que uma árvore boa dê maus frutos? Já colhestes uvas na madeira e videira? Onde o contraste? A diversidade das comunicações é a prova patente da diversidade de sua origem. Aliás, os Espíritos que desejam ser os únicos a se comunicarem se esquecem de dizer por que motivo os outros não o poderiam fazer. Sua negação é a negação do que o Espiritismo tem de mais belo e mais consolador: as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os entes que lhe são mais caros e que assim estariam perdidos para eles sem retorno. São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o destacam do mundo material. Suprimir essas relações seria mergulhá-lo na dúvida que é o seu tormento, seria alimentar o seu egoísmo. Examinando com atenção a doutrina desses Espíritos deparamos a cada passo com injustificáveis contradições, provas da sua ignorância a respeito das coisas mais evidentes, e por conseguinte com os sinais seguros de sua inferioridade.”


Kardec prossegue numa série de perguntas a respeito dos conhecimentos e doutrinas que são propagadas por Espíritos inferiores e o Espírito Verdade esclarece que elas são produtos da ignorância e do orgulho das partes envolvidas: os que propõem e os que as aceitam. Diz ainda que Deus permite que essas coisas aconteçam, as mistificações, para provar a perseverança dos verdadeiros adeptos e punir os que fazem do Espiritismo um simples meio de diversão. Ele nos dá ainda uma boa receita para distinguir, nesses casos, o que é bom e o que é ruim:


“Se surgirem dissidências capitais, referentes ao próprio fundamento da doutrina, tendes uma regra segura para as apreciar. A regra é esta: a melhor doutrina é aquela que melhor satisfaz ao coração e à razão e que dispõe de mais recursos para conduzir os homens ao bem. Essa, eu vos dou a certeza, é a que prevalecerá.”


JOÃO BATISTA, ELIAS E O ESPIRITO VERDADE

João Batista foi o anunciador do Messias às margens do rio Jordão e por suas palavras de fogo foi pronunciada a grande oportunidade e advertência de salvação: “Eis o Cordeiro que tira os pecados do mundo”. Naquela época a nossa humanidade já estava moralmente falida no vencido ciclo civilizatório greco-romano e, segundo os historiadores astrólogos, ingressava na Era de Peixes, polarizada com Virgem, signos de cujas simbologias os cristãos extrairiam seus emblemas máximos de regeneração em uma nova etapa humana: o de pescadores de almas; e da Virgem Maria, responsável pela tônica de pureza de coração, brandura, humildade e compaixão.

Primo em segundo grau de Jesus, João Batista trazia em si o Espírito de Verdade que existiu no profeta Elias e que foi identificado no célebre episódio da Transfiguração. Essa revelação de Jesus, da sua a condição de Cristo, acompanhado de Elias e Moisés), foi testemunhada somente pelos discípulos Pedro, João e Tiago, a quem Jesus pediu segredo sobre o que viram e ouviram. Os demais, ainda espiritualmente imaturos diante da Verdade, ficariam extremamente apavorados com desdobramentos da inesquecível cena do Tabor, porém não tão abalados, perplexos e impressionados como ficaria Pedro. Ali estava acontecendo um encontro histórico da tradição messiânica e seus profundos efeitos no futuro. O Espírito de Verdade contido em João Batista deveria preparar o terreno para a semeadura do Evangelho e iniciar Jesus na sua tarefa pública de três anos, na qual as coisas testemunhadas pelos seus ouvintes deveriam mudar da água para vinho no seu aspecto externo; e internamente da lama para água desta para a luz. Também nas instruções que faria aos discípulos, pouco antes de partir, Jesus lembra que o Espírito de Verdade, tal como Elias e João Batista, vai anunciar a seu retorno pela promessa do Paracleto ou Consolador, por meio da lembrança e retomada dos seus ensinamentos que seriam esquecidos e desviados nos séculos seguintes.

A autoridade espiritual de João Batista esteve, portanto, nos principais momentos da revelação da Verdade messiânica: na luta de Elias contra os reis e profetas de Baal, que pretendiam a destruição da fé em Israel; no batismo de Jesus no rio Jordão; no renovado combate de fé contra a realeza corrupta e contra o paganismo romano; e finalmente no Paradoxo da revelação espírita comandada pelo próprio Espírito de Verdade no século XIX.

Como todos os profetas de Israel, João Batista se mostra como um ser “misantropo e sombrio” ou “radical socialista” (Will Durant, Nossa Herança Oriental), crítico do sistema social e do mau comportamento dos sacerdotes e dirigentes políticos. Por isso João Batista em tudo lembra Elias e também os seus antigos adversários. O rei Acab e a rainha Jezebel, agora são representados por Herodes e Herodíades, adoradores de Baal, usurpadores do trono e da riqueza alheia. Imorais, criminosos e violentos, essas duas almas delinquentes voltariam a representar no final do século XVIII como Luiz XVI e Maria Antonieta, o rei indeciso e imprevidente; e a rainha de origem austríaca, muito dada ao luxo, sempre repudiados xingados pela plebe. Esses antigos ladrões de vinhas, caluniadores e assassinos de Nabote, já haviam sido cruelmente mortos, conforme havia sido vaticinado por Elias- e seu sangue lambido por cães. Na França revolucionária, sob a acusação de alta traição, a velha e viciada representação monárquica perderia o trono, inúmeras videiras e principalmente suas cabeças, sendo também seu sangue lambido pelos cães atraídos pelo cheiro da morte na guilhotina. A mesma revolução que daria fim aos abusos do clero e da nobreza permitindo a manifestação do Paracleto na Europa e no recém liberto mundo colonial americano.


ESPIRITISMO E ESOTERISMO

Como um todo, a obra de Allan Kardec teve, sem sombra de dúvida, um caráter pessoal marcado pela sua investidura missionária, não significando, porém, em momento algum, uma tendência personalista. Esse aspecto pessoal forte e influente, mais um reflexo do perfil intelectual de Kardec, talvez tenha sido o principal motivo da rejeição dos seus conteúdos pelas tradicionais correntes do espiritualismo, sobretudo alguns grupos esoteristas mais conservadores. Estes não aceitam essa investidura, talvez porque Kardec tenha levantado o véu de coisas e mistérios que sempre supervalorizaram a imagem e a ideologia das sociedades secretas. Como categoria de conhecimento, seja revelado ou lógico-racional, o esoterismo não possui unidade doutrinária; é uma grande diversidade de conceitos dispersos, muitos sem relação de causa e efeito e que, quando não compreendidos no seu sentido simbólico, acabam caindo no terreno obscuro das crenças superficiais. Se não fosse Kardec, o Espiritismo também seria a mesma coisa, o mesmo que tem sido para a maioria das pessoas que desconhece, por ignorância natural ou por preconceito, as obras do mestre lyonês. Afinal, hoje a ignorância chama tudo o que lida com o desconhecido de “esotérico”, assim como tudo que lida com a mediunidade e com o mundo espiritual é chamado de “Espiritismo”. Semelhante ao vulgo, esse esoterismo de consumo, afastado da marca séria e iniciática de alguns mestres importantes, nega também que os Espíritos possam se manifestar mediunicamente; negam, portanto, os fatos e as evidências que a comunidade científica da época não teve a coragem de negar. Muitos desse cultuadores do esoterismo também afirmam, dogmaticamente, que Allan Kardec não foi um “Iluminado”, mas não explicam, claramente, o que é realmente um ser iluminado, quais as suas características: seria a inteligência ou a humildade, ou, então, a combinação das duas coisas? Será que é preciso nascer na Índia ou no Tibet para ser iluminado? Se Kardec era ou não um iluminado, também nunca demonstrou essa pretensão, porém o que fica bem claro na sua trajetória é a sua iniciação, como processo educativo de transformação, cuja base vivencial era a seriedade e preocupação de fazer, bem feito, um trabalho de síntese acessível, tanto ao homem erudito como ao homem comum; concluir uma obra que pudesse satisfazer tanto o intelecto como a sensibilidade espiritual humana. Tudo isso de forma altruísta, sem interesse material de lucros, sem personalismo, sem a fuga e o isolamento dos problemas do mundo. Tudo feito com dedicação e sacrifício que muitos “iluminados” talvez não se dispusessem a fazê-lo. Tudo foi feito com um único e exclusivo interesse: o amor à Verdade e ao próximo. Não foi exatamente isso que escreveu, por exemplo, Annie Besan sobre as características dos grandes Mestres?

Mas quem pode esclarecer melhor esse assunto é Edgard Armond[8], que na sua visão doutrinária eclética e, ao mesmo tempo, na sua autonomia erudita de mestre das coisas espirituais, compara Espiritismo e Esoterismo e coloca as coisas nos seus devidos lugares:


“(...) Se o Esoterismo, por justificada conveniência, apresentou separação, limitação de possibilidades, no que respeita ao conhecimento e à realização espiritual, o Espiritismo, ao contrário, se traduz como união e libertação; se o primeiro era um sistema de parada, de expectativa, no sentido de que os homens deveriam aguardar melhores dias para o trabalho geral, o segundo é um comando de avanço, um sinal de que a hora de esforço chegou para todos os homens. Se o Esoterismo foi um velário que cobria mistérios inacessíveis, o Espiritismo é a força que rasga a cortina, revelando horizontes escampos, iluminados, acessíveis a todos os caminheiros.

Se o primeiro colocava Deus fora da órbita das possibilidades humanas, o segundo aponta o Cristo como a revelação física da Divindade, isto é, como aspecto da Divindade acessível ao homem, por força de uma individuação divinizada.

Um limita, outro expande; um dificulta, outro facilita; um restringe o esforço ao campo do indivíduo, outro dilata as possibilidades, pelo concurso estimulador de forças e entidades de planos de vida diferentes.

(...) Ambos, esoterismo e Espiritismo, pregam a Verdade por modos diferentes, com aspectos e limites diferentes, no entendimento e na prática e, quanto aos resultados, não há comparação possível entre os sistemas, pois enquanto o Esoterismo é intelectual e introspectivo, o Espiritismo é essencialmente ação realizadora, tanto no campo individual como no coletivo.

Um é seletivo e aristocrático, enquanto o outro é generalizado e democrático; um de elites, outro de massas, finalmente (...)”


AS OBRAS BÁSICAS E COMPLEMENTARES




O PENTATEUCO KARDEQUIANO 

A expressão “pentateuco kardequiano”, terminologia tipicamente “herculanista”, hoje amplamente utilizada para englobar a obra de Allan Kardec num conjunto literário-teológico, mostra que os espíritas ainda flutuam com muita intimidade e conforto no universo cultural judaico-cristão e no qual buscam um sentido para os múltiplos desafios filosóficos que a Doutrina Espírita provoca nas pessoas. Esse enfoque tradicionalista predomina no movimento por influência de intelectuais pioneiros, marcados pelas suas raízes religiosas. É o caso não somente de Leon Denis, de J. Herculano Pires e outros, mas também dessa descrição sobre o plano de elaboração de O Livro dos Espíritos feita por Carlos Imbassahy[9], e que confirma essa tendência cultural dos nossos pensadores:


“O Velho Testamento, excluídos os dez mandamentos, é posto à margem. As suas páginas obsoletas já não servem à nossa renovação espiritual. Mantém-se do Novo Testamento muitas lições edificantes, e os Evangelhos, onde ressumbram as lições do Cristo. O Livro dos Espíritos é a coluna mestra do Novíssimo”.


Dentro dessa ótica tradicionalista temos em O Livro dos Espíritos não só uma obra que contém toda a estrutura da Doutrina Espírita e também as matrizes dos temas que foram desdobrados para formar as outras quatro obras complementares da Codificação. Ela possui um forte vínculo histórico-religioso com o judaísmo e o cristianismo primitivo. Também nessa abordagem histórica está presente não somente o conteúdo revolucionário dos seus conceitos filosóficos, mas, principalmente, a sua expressão como marco inicial do Paracleto, o célebre evento profetizado por Jesus no Novo Testamento, reunindo o maior grupo de Espíritos reconhecidamente sábios e de alta hierarquia para cumprir tal profecia. Ele marca, portanto, na visão de Kardec e de tantos outros intérpretes da revelação espírita, a simbólica volta de Jesus registrada no Evangelho de São João como o “Consolador”. Ele representa, segundo Herculano Pires, o fim do espiritualismo utópico e o nascimento do espiritualismo científico. Com ele ingressamos na chamada Era do Espírito, do nascimento das experiências que irão libertar definitivamente a Humanidade dos grilhões das reencarnações expiatórias para as existências predominantemente regenerativas nos séculos futuros.

Apesar de ser uma obra essencialmente filosófica, ela vem sendo celebrada desde o seu lançamento, pelos adeptos religiosos, como uma autêntica concretização profética, no sentido místico ou apocalíptico, de que “os tempos são chegados”. Já os espíritas não religiosos, fazem essa leitura de “os tempos são chegados” com um significado diferente: a ação natural e irreversível da lei do progresso. O livro é, portanto, mais do que um tratado filosófico-religioso, pois é também um manual de fundamentos e conceitos do conhecimento científico espírita, tal qual a definição sintética que o seu fundador expõe em O que é o Espiritismo: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo espiritual”.

Mas, apesar da metodologia positiva aplicada na obtenção e sistematização das informações, o conteúdo, ao nosso ver, da mais importante obra de Allan Kardec e de seus autores-parceiros sempre lembra que tudo que ali está se trata de uma revelação mediúnica feita por Espíritos. Daí a dificuldade, para muitos, de evitar uma interpretação sobrenatural ou mística desses fatos. O Codificador, no entanto, sabia fazer tal distinção, isto é, diferenciava muito bem o que era natural daquilo que parecia ser sobrenatural, comportamento racional e prático que grande parte dos espíritas ainda não assimilaram. O Livro dos Espíritos não é um livro “sagrado” como a Bíblia cujas revelações dogmáticas e inquestionáveis destoam profundamente, em estilo, do método positivo de Kardec. Aliás, os espíritas adoram questionar esses pontos fracos da Bíblia, mas quase sempre reagem muito mal quando as obras de Kardec sofrem o mesmo tipo de questionamento. Para estes tradicionalistas, qualquer análise do pentateuco kardequiano deve ficar fora de cogitação, como se essas obras fossem verdades absolutas e sagradas.

Também a expressão “Espíritos Superiores”, utilizada por Kardec para distinguir a condição dos Espíritos numa escala simplificada, foi adquirindo no movimento um significado pejorativo e distorcido, que confunde a atitude de respeito com a submissão e o abandono completo da racionalidade. A superioridade dos Espíritos que se comunicaram nas páginas da Codificação não está na rotulação classificatória, nos títulos e muito menos nos nomes que ali aparecem e sim, principalmente, nas idéias por eles transmitidas. As respostas de Santo Agostinho ou de São Luiz não são confiáveis e superiores porque esses Espíritos foram santificados pela canonização católica, mas porque eles são portadores de conceitos atraentes e inteligentes. A idéia de Kardec era exatamente reeducar nossa postura passiva, mostrando a realidade que sempre esteve oculta por trás dessa santidade exterior com que esses Espíritos foram rotulados na Terra. Também o Espírito de Verdade, que é visto erroneamente como uma entidade sobrenatural e santificada, sempre se comunicou contrariando esse enfoque oracular que ainda fascina os incautos, mostrando-se sempre de maneira natural, humilde e bem próximo dos seres humanos. A sua superioridade não está no seu título de chefe dos Espíritos que trabalharam com Kardec, mas na sua postura; a marca “Verdade” desse Espírito significa sinceridade, honestidade, moral superior, e nunca um objeto de fetiche e dogma. Suas advertências em O Livro dos Médiuns negam todas as forma de misticismo tolo e de crença cega.

No primeiro número da Revista Espírita, de janeiro de 1858, Kardec explica aos leitores como se processou o trabalho de construção da obra que colocou a relação entre homens e Espíritos no seu devido lugar de naturalidade:


“Muitas vezes nos foram dirigidas perguntas sobre a maneira por que foram obtidas as comunicações que constituem O Livro dos Espíritos. Resumimos aqui, com muito prazer, as respostas que temos dado a tais perguntas: é uma oportunidade para resgatarmos uma dívida de gratidão para com as pessoas que tiveram a boa vontade de nos prestar os seus serviços.

Como explicamos, as comunicações por meio de batidas outrora chamadas signologia, são muito lentas e muito incompletas para um trabalho de fôlego; por isso tal recurso jamais foi utilizado. Tudo foi obtido pela escrita por intermédio de diversos médiuns psicógrafos. Nós mesmos preparamos as perguntas e coordenamos o conjunto da obra; as respostas são, textualmente, as que nos deram os Espíritos; a maior parte delas foram escritas sob as nossas vistas, outras foram tiradas de comunicações que nos foram remetidas por correspondentes ou que colhemos aqui e ali, onde estivemos fazendo estudos. Parece que para isso os Espíritos multiplicam aos nossos olhos os motivos de observação.

Os primeiros médiuns que concorreram para o nosso trabalho foram as senhoritas B..., cuja boa vontade jamais nos faltou. O livro quase todo foi escrito por seu intermédio e em presença de numeroso público que assistia às sessões, nas quais tinha o mais vivo interesse. Mais tarde os Espíritos recomendaram uma revisão completa em sessões particulares, tendo-se feito, então todas as adições e correções julgadas necessárias. Esta parte essencial do trabalho foi feita com o concurso da Senhorita Japhet (Rua Tiquetone, 14), a qual se prestou com a melhor boa vontade e mais completo desinteresse a todas as exigências dos Espíritos, porque eram eles que marcavam dia e hora para suas lições. O desinteresse não seria aqui um mérito especial, desde que os Espíritos reprovam qualquer tráfico que se possa fazer da sua presença; a Senhorita Japhet, que é também uma notável sonâmbula, tinha seu tempo utilmente empregado: mas compreendeu que também lhe daria uma aplicação proveitosa ao se consagrar à propagação da doutrina. Quanto a nós, já declaramos desde o princípio, e temos a satisfação de o reafirmar agora, jamais pensamos em fazer de O Livro dos Espíritos objeto de especulação: seu produto será aplicado a coisas de utilidade geral. Por isso seremos sempre gratos aos que, de coração e por amor ao bem, se associaram à obra a que nós nos consagramos”.





1857-A base doutrinária: “O Livro dos Espíritos”


Escrito no estilo clássico de perguntas e respostas, O Livro dos Espíritos é aberto, sem rodeios e de forma bem objetiva, com uma pergunta direta e obtendo dos Espíritos uma resposta no mesmo estilo:

1- O que é Deus?

- Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.


E noutra questão logo adiante:


4- Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?

- Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá.


Note-se que na pergunta de Kardec o conceito de Deus é impessoal e bem diferente da concepção religiosa judaico-cristã de uma divindade humana e paternal. Igualmente na resposta dos Espíritos encontramos uma síntese teológica revolucionária, definindo Deus como causa primária e inteligência suprema. É claro que o conceito dos Espíritos sobre a inteligência não é o que predominava nos meios científicos daquela época nem se restringe ao aspecto lógico-matemático positivista; nessa síntese provavelmente já podemos identificar a idéia mais ampla da inteligência integral – pensamento, ação e emoção – e que se manifesta nas diversas capacidades cognitivas através das múltiplas competências.

O livro apresenta a Doutrina Espírita como um conjunto de fundamentos expostos em oito princípios que representam também a síntese do conhecimento filosófico-espiritual acumulado pelas civilizações. No Espiritismo vamos encontrar, numa perspectiva histórica – sem linearidade, porém com unidade – a somatória de experiências filosófico-religiosas, desde o animismo totêmico até as concepções mais abstratas propostas pelas trilogias antigas: egípcia, babilônica, assíria, persa, hindu, chinesa e grega. Como todas as revelações dessa natureza, elas causam basicamente três reações de impacto nas mentes que tomam contato com essas idéias: uma reação de indiferença, uma reação de negação e rejeição; e uma reação de assimilação e aceitação. As duas primeiras são comportamentos defensivos que tentam proteger a mente de informações consideradas ameaçadoras. A terceira reação é das mentes abertas por diversas experiências que levam ao amadurecimento espiritual. São princípios filosóficos que causa um forte abalo existencial na mentalidade humana, ainda obscurecida pelos limites orgânicos e bloqueada pela representação social e também pela influência dos fenômenos da natureza rústica do nosso mundo. Como na Parábola do Semeador, as sementes das revelações aqui contidas terão efeitos diversos e imprevisíveis nas mentes e nos corações em que são depositadas:

A existência do Espírito: uma individualidade inteligente que anima o corpo humano, com o qual forma o conjunto da alma ou “Espírito encarnado”;

Sua sobrevivência após a morte: a morte do corpo físico não significa somente o fim da existência, mas uma série de incidentes entre muitas existências do mesmo Espírito;

A pluralidade das existências: nos mundos inferiores as diversas existências são a garantia da aquisição de conhecimento e da realização de novas experiências evolutivas;

A pluralidade de mundos: a diversidade de existências e experiências exige a diversidade de “habitats” ou mundos específicos ao estágio de evolução dos seres e das formas;

A comunicabilidade e relacionamento entre Espíritos encarnados e desencarnados: é o reflexo de uma convivência natural, que é somente ignorada em mundos inferiores e atrasados moral e intelectualmente;

A lei de causa e efeito: para toda ação há uma reação correspondente, tanto no plano fenomênico exterior quanto no plano moral ou interior;

A evolução progressiva dos seres e das formas: tudo parte da homogeneidade para a heterogeneidade, da simplicidade para a complexidade, diversidade e pluralidade.

A primeira edição de O Livro dos Espíritos continha 501 questões, e a segunda, ampliada e revista, permanece até hoje com 1019 perguntas e respostas sobre os mais variados assuntos que poderiam partir da dúvida humana na busca de novos conhecimentos. Em 17 de junho de 1856, numa reunião familiar, através da médium Srta. Baudin, Kardec questiona a opinião do Espírito de Verdade sobre o trabalho de revisão a que submetera o livro e obteve a seguinte resposta:


“O que foi feito está bom. Mas quando o completares, convém revê-lo mais uma vez para desenvolvê-lo em certos pontos e abreviá-lo em outros.


Pergunta - Achais que ele deva ser publicado antes que sucedam os acontecimentos anunciados?


Resposta - Uma parte, sim; tudo, não, porque te asseguro que teremos capítulos bem espinhosos. Por mais importante que seja este primeiro trabalho, de certo modo não é senão uma introdução. Tomará proporções que hoje estás longe de suspeitar. Compreenderás, tu mesmo, que certas partes só poderão ser publicadas mais tarde e gradativamente, à medida que as novas idéias forem se desenvolvendo e criando raízes. Seria imprudente publicar tudo de uma vez. É preciso dar à opinião o tempo de formar. Encontrarás impacientes que te empurrarão para frente. Não lhe dês ouvidos. Olha e observa, sonda o terreno e espera. Faze como o general prudente, que só ataca, quando chega o momento favorável.”


Nota: (escrita em janeiro de 1867):


“À época em que foi dada esta comunicação só tinha em vista O Livro dos Espíritos, e, como disse o Espírito, estava longe de imaginar as proporções que iria tomar o conjunto do trabalho. Os acontecimentos vaticinados só deveriam realizar-se depois de muitos anos, visto que não sucederam até o momento. As obras que apareceram até agora foram publicadas sucessivamente, e fui levado a fazê-lo, à medida que as novas idéias se iam desenvolvendo. Das que ainda restam fazer, a mais importante, a que pode ser considerada o coroamento do edifício e contém, com efeito, os capítulos mais espinhosos, não poderia ter sido publicada, sem prejuízo, antes do período dos desastres. Eu não via, então, senão um livro, e não compreendia que ele pudesse ser cindido, ao passo que o Espírito fazia alusão aos que deveriam vir depois, que teria sido inconveniente publicar prematuramente.

‘Sabe esperar’, dissera o Espírito: ‘Não dês ouvidos aos impacientes que te empurrarão para frente.’ Os impacientes não faltaram e, se os ouvisse teria conduzido o navio em cheio, contra os escolhos. Coisa estranha! Enquanto uns me gritavam para andar mais depressa, outros me acusavam de ir devagar. Não dei atenção nem a uns nem a outros, tomei sempre por bússola a marcha das idéias.

Quanta confiança no futuro deveria animar-me, à medida que eu ia vendo realizar-se as coisas previstas que reconhecia a profundeza e sabedoria das instruções de meus protetores invisíveis.”


O Livro dos Espíritos é dividido em seis partes que são expostas da seguinte forma:

- Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, contendo 16 temas sobre questões filosóficas e metodológicas da obra;

- Livro Primeiro: As Causas Primárias, contendo os seguintes capítulos: Deus, Elementos Gerais do Universo, Criação e Princípio Vital;

- Livro Segundo: Mundo Espírita ou dos Espíritos, contendo os seguintes capítulos: Dos Espíritos, Encarnação dos Espíritos, Retorno da Vida Corpórea à Vida Espiritual, Pluralidade das Existências, Considerações sobre a Pluralidade das Existências, Retorno à Vida Corporal, Emancipação da Alma, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo, Ocupações e Missões dos Espíritos, Os Três Reinos;

- Livro Terceiro: As Leis Morais, contendo os seguintes capítulos: A Lei Divina ou Natural, Lei de Adoração, Lei do Trabalho, Lei da Reprodução, Lei da Conservação, Lei da Destruição, Lei de Sociedade, Lei do Progresso, Lei de Igualdade, Lei de Liberdade, Lei de Justiça, Amor e Caridade, Perfeição Moral;

- Livro Quarto: Esperanças e Consolações, contendo os seguintes capítulos: Penas e Gozos Terrenos, Penas e Gozos Futuros.

- Na “Conclusão”, contendo em nove tópicos a síntese sobre as questões levantadas na introdução e no conjunto da obra, Allan kardec encerra o livro com este parecer do Espírito Santo Agostinho:


“Por muito tempo, os homens têm se dilacerado mutuamente e anatematizado em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o com tal sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os unirá um dia, porque lhe mostrará onde está a verdade e onde está o erro. Mas haverá por muito tempo ainda escribas e fariseus que o negarão, como negaram o Cristo. Quereis saber, pois, sob a influência de quais Espíritos estão as diversas seitas que se dividem o mundo? Julgai-as pelas suas obras e pelos seus princípios. Jamais os bons Espíritos foram os instigadores do mal; jamais aconselharam ou legitimaram o homicídio e a violência; jamais excitaram os ódios dos partidos nem a sede de riquezas e de honras, nem a avidez dos bens da Terra. Só aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos, são os seus preferidos e são também os preferidos de Jesus, porque seguem o caminho que lhes indicou para chegarem até ele.”


Allan Kardec recebeu inúmeras cartas, e registrou algumas delas na Revista Espírita, comentando as impressões que este livro causava nos leitores, sobretudo aquelas que evidenciavam uma transformação moral em virtude do contato com os ensinamentos dos Espíritos. Da cidade Bordeaux, em 25 de abril de 1857, escreveu um capitão reformado:


“V.Sª submeteu minha paciência a uma grande prova, pelo retardamento da publicação de O Livro dos Espíritos, há tanto tempo anunciado. Felizmente não perdi com a espera, porque ele ultrapassa toda a idéia que eu havia feito, baseado no prospecto. Impossível descrever o efeito em mim produzido: sinto-me como um homem que saiu da escuridão; parece-me que uma porta, até hoje fechada, abriu-se subitamente; minhas idéias ampliaram-se em poucas horas! Oh! Quanto a humanidade e todas essas miseráveis preocupações me parecem mesquinhas e pueris ao lado desse futuro de que não duvidava, mas que me era de tal modo obscurecido pelos preconceitos, que eu apenas o imaginava! Graças ao ensino dos Espíritos, agora se me apresenta sob uma forma definida, perceptiva, maior, mais bela, e em harmonia com a majestade do Criador. Quem quer que leia esse livro, meditando como eu, nele encontrará inesgotável tesouro de consolações, pois que ele abarca todas as fases da existência. Em minha vida sofri perdas que me afetaram vivamente; hoje não me causam nenhum desgosto e toda a minha preocupação é empregar utilmente o tempo e minhas faculdades para acelerar o meu progresso, pois agora para mim o bem tem uma finalidade e compreendo que uma vida inútil é uma vida egoística, que não nos ajudará a avançar na vida futura.

Se todos os homens que pensam como eu e como o senhor, e que são multidão, ao que espero, para a honra da humanidade, pudessem se entender, reunir-se e trabalhar de acordo, que poder não teriam para apressar a regeneração que nos é anunciada!

Quando eu for a Paris terei a honra de o procurar e, se não for abusar do seu tempo, pedir-lhe-ei mais explicações sobre certos trechos e alguns conselhos sobre a aplicação das leis morais em certas circunstâncias pessoais. Receba, senhor, a expressão de todo o meu reconhecimento, porque o senhor me proporcionou um grande bem, mostrando-se o único caminho da felicidade real neste mundo e, quiçá, além disso, um lugar melhor no futuro”.



O QUE É O ESPIRITISMO - 1859




Publicação didática publicada após as repercussões e dúvidas geradas  por  O Livro dos Espíritos (1857),resumeindo os princípios da Doutrina Espírita respondendo às principais críticas. 

Na primeira parte encontramos três diálogos socráticos entre Allan Kardec e três opositores: o crítico, o cético, e o padre.

Na segunda Kardec expõe as noções elementares de Espiritismo; 

E na terceira, propõe a solução de alguns problemas cotidianos na visão doutrina espírita.





1861 - A prova científica: “O Livro dos Médiuns”


É o aspecto experimental da Doutrina Espírita, um desdobramento dos temas do Livro 2º de O Livro dos Espíritos, a partir do capítulo 6º até o final, explicando os processos e regras que regem a intervenção dos Espíritos no mundo corpóreo. É também um tratado fundamentado em pesquisas e experiências práticas, contendo orientações teóricas dos Espíritos sobre os problemas nelas levantados. Em seu “Tratado de Metapsíquica” Charles Richet reconhece a autenticidade científica do O Livro dos Médiuns exatamente porque apresenta os problemas e soluções, utilizando-se do método científico.

No capítulo 1º, denominado “Existem Espíritos?” Kardec traça uma série de considerações sobre este assunto e propõe o seguinte desafio aos céticos:


“6. Afastemos por um instante os fatos que consideramos incontestáveis. Admitamos a comunicação como simples hipótese. Solicitamos aos incrédulos que nos provem, através de razões decisivas, que ela é impossível. Não basta a simples negação, pois seu arbítrio pessoal não é lei. Colocamo-nos no próprio terreno, aceitando a apreciação dos fatos espíritas, através das leis materiais. Que eles assim possam tirar, do seu arsenal científico, algumas provas matemáticas, física, química, mecânica, fisiológica, demonstrando por A mais B, sempre a partir do princípio da existência e da sobrevivência da alma que:

1º) O ser pensante, durante a vida terrena, não deve mais pensar depois da morte;

2º) Se ele pensa, não deve mais pensar nos que ele amou;

3º) Se pensa nos que amou, não deve querer comunicar-se com eles;

4º) Se pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado;

5º) Se está ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

6º) Por meio de seu corpo fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte;

7º) Se pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser vivo;

8º) Se pode agir sobre um ser vivo, não pode dirigir-lhe a mão para fazê-lo escrever;

9º) Podendo fazê-lo escrever, não pode responder-lhe as perguntas nem transmitir-lhe seus pensamentos.

Quando os adversários do Espiritismo nos demonstrarem que isso tudo não é possível, através de razões tão evidentes como as de Galileu, para provar que o Sol não girava em torno da Terra, então poderemos dizer que as suas dúvidas são fundadas. Mas, até hoje, infelizmente, toda a sua argumentação se resume nestas palavras: Não creio nisso, porque é impossível. Eles retrucarão, sem dúvida, que cabe a nós provar a realidade das manifestações. Já lhe demos as provas, pelos fatos e pelo raciocínio; se recusam uma e outras, e se negam até mesmo o que vêem, cabe a eles provar que os fatos são impossíveis e o nosso raciocínio é falso.”


É um livro que aprofunda as questões sobre as nossas relações com os Espíritos, levantando, também, as mais curiosas e interessantes perguntas a respeito da naturalidade e a prática da mediunidade. Dessa forma, Kardec questiona os Espíritos com as dúvidas mais comuns aos leigos e também recebe respostas claras e bem apoiadas no senso comum:


“221.

1. A faculdade mediúnica é indício de algum estado patológico ou simplesmente anormal?

- Às vezes anormal, mas não patológico. Há médiuns de saúde vigorosa. Os doentes os são por outros motivos.

5. A mediunidade poderia produzir a loucura?

- Não produziria mais do que qualquer outra coisa, quando a fraqueza do cérebro não oferecer predisposição para isso. A mediunidade não produzirá a loucura, se esta não existir em germe. Mas, se o seu princípio já existe, o que facilmente se reconhece pelas condições psíquicas e mentais da pessoa, o bom senso nos diz que devemos ter todos os cuidados necessários, pois nesse caso qualquer abalo será prejudicial.

6. Será prudente não desenvolver a mediunidade das crianças?

- Certamente. E sustento que é muito perigoso. Porque esses organismos frágeis e delicados seriam muito abalados e sua imaginação infantil muito superexcitada. Assim, os pais prudentes as afastarão dessas idéias, ou pelo menos só lhes falarão a respeito, no tocante às consequências morais.


O Livro dos Médiuns é dividido em duas partes e exposto da seguinte forma:

- Introdução: contendo uma comparação entre a parte teórica da Doutrina e a parte prática, que são as manifestações mediúnicas.

- Primeira Parte: Noções Preliminares, contendo os seguintes capítulos: Existem Espíritos? O Maravilhoso e o Sobrenatural, Método, Sistemas.

- Segunda Parte: Das Manifestações Espíritas, contendo os seguintes capítulos: Ação dos Espíritos sobre a Matéria, Manifestações Físicas e Mesas-Girantes, Manifestações Inteligentes, Teoria das Manifestações Físicas, Manifestações Físicas Espontâneas, Manifestações Visuais, Bicorporeidade e Transfigurações, Aparições de Espíritos de Vivos, Laboratório do Mundo Invisível, Locais Assombrados, Natureza das Comunicações, Sematologia e Tiptologia, Pneumatografia ou Escrita Direta, Pneumatofonia, Psicografia, Os Médiuns, Médiuns Escreventes ou Psicógrafos, Médiuns Especiais, Formação dos Médiuns, Inconvenientes e Perigos da Mediunidade, Papel do Médium nas Comunicações, Influência Moral do Médium, Influência do Meio, Da Mediunidade nos Animais, Da Obsessão, Identidade dos Espíritos, Das Evocações, Perguntas que se Podem Fazer, Contradições e Mistificações, Charlatanismo e Prestidigitação, Reuniões e Sociedades, Regulamento. Dissertações Espíritas, Vocabulário Espírita.


Todas as experiências e demonstrações de caráter mediúnico foram supervisionadas pelos Espíritos Erasto e São Luís, que dão explicações sobre a absoluta naturalidade dos fenômenos. A preocupação dos Espíritos, principalmente do Espírito de Verdade, é ensinar aos encarnados a distinguir as boas manifestações das mistificações, mostrando as suas características e dando exemplos de como elas acontecem. Num trecho de uma mensagem aos Espíritas de Lyon, publicada na Revista Espírita, Erasto reforça a necessidade da constante observância dos ensinamentos de O Livro dos Médiuns para dar esses esclarecimentos:


(...) Um médium pode ser fascinado; um grupo, enganado; mas o controle severo dos outros grupos, a ciência adquirida e a grande autoridade moral dos chefes de grupos; as comunicações dos principais médiuns, que recebem um cunho de lógica e de autenticidade de nossos melhores Espíritos, rapidamente farão justiça aos ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos enganadores, imperfeitos ou maus. Repeli-os impiedosamente, a todos esses Espíritos que dão conselhos exclusivos, pregando a divisão e o isolamento. Quase sempre são Espíritos vaidosos e medíocres, que tendem a impor-se aos homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes louvores exagerados, a fim de os fascinar e de os manter sob domínio. Geralmente são Espíritos sedentos de poder, que, déspotas públicos ou no lar, quando vivos, ainda querem ter vítimas para tiranizar após a sua morte. Meus amigos, em geral desconfiai das comunicações que têm um caráter de misticismo ou de estranheza, ou que prescrevem cerimônias e atos bizarros; então há sempre um motivo legítimo de suspeita. Por outro lado, crede bem que quando uma verdade deve ser revelada à Humanidade, é, por assim dizer, instantaneamente comunicada a todos os grupos sérios, que possuem médiuns sérios.

Enfim, creio que é bom repetir que ninguém é médium perfeito se for obsedado. A obsessão é um dos maiores escolhos, e há manifesta obsessão quando um médium não é apto a receber comunicações senão de um Espírito especial, por mais alto que este procure colocar-se. Em conseqüência, todo médium, todo grupo que se julgam privilegiados por comunicações que só eles podem receber e que, por outro lado, são submetidos a práticas que tocam a superstição, estão indubitavelmente sob o domínio de uma obsessão muito bem caracterizada. Digo tudo isto, meus amigos, porque existem no mundo dos médiuns fascinados por pérfidos Espíritos. Desmascararei impiedosamente tais Espíritos, se ousarem ainda profanar nomes venerados, dos quais se apoderam como ladrões e com os quais se enfeitam orgulhosamente, como lacaios com as roupas dos patrões. Eu os pregarei no pelourinho sem piedade, se persistirem em desviar do reto caminho a Cristãos honestos, Espíritas zelosos, de cuja boa-fé abusaram. Numa palavra, deixai-me repetir o que já aconselhei os Espíritas parisienses: é melhor repelir dez verdades momentaneamente do que admitir uma só mentira, uma única teoria falsa. Porque sobre essa teoria, sobre essa mentira podereis construir todo um sistema, que desmoronaria ao primeiro sopro de verdade, como um monumento erigido sobre areia movediça. Ao passo que se hoje rejeitardes certas verdades, certos princípios, porque não vos são demonstrados logicamente, logo um fato brutal ou uma demonstração irrefutável virá afirmar-vos a sua autenticidade (...)”




1864- A moral: “O Evangelho Segundo o Espiritismo”


É o best-seller da Codificação e o carro-chefe das atividades doutrinárias nos lares espíritas, nas instituições e das editoras que publicam as obras de Kardec. Apesar da intenção e da sua estrutura filosófica, como já haviam previsto os Espíritos, o livro repercutiu, como uma obra que iria reaçar a religiosidade e o aspecto consolador da Doutrina. Entre as adversidades e as especulações filosóficas do destinou então a curiosidade pelos fenômenos, as massas sofridas naturalmente se inclinariam para o problema da dor. O Evangelho, juntamente com as curas e a assistência material são os principais elos do Espiritismo com a tradição cristã primitiva.

A título de ilustração podemos citar o caso[10] da Editora da Federação Espírita Brasileira, que comemorou em 2001 a 118ª edição dessa obra com a marca de 3 milhões de exemplares vendidos, seguidos de O Livro dos Espíritos (1,5 milhão), O Livro dos Médiuns (915 mil), A Gênese (425,5 mil), O Céu e o Inferno (433 mil) e Obras Póstumas (253mil). Nas edições de bolso desses livros a FEB registrou, desde as primeiras edições, a venda de 330 mil exemplares, sem incluir as tiragens das edições em esperanto, inglês, francês e espanhol.

O Evangelho é um desdobramento das leis morais contidas no Livro 3º de O Livro dos Espíritos. A Doutrina tinha sido apresentada ao público, inicialmente, como uma Ciência, dando-se destaque aos fenômenos mediúnicos; diante dos primeiros questionamentos, a comunicação doutrinária tomou corpo filosófico e passou a discutir o sentido da vida e das coisas: quem somos, de onde viemos, para aonde vamos? Essa postura filosófica gera efeitos de ordem moral e, a partir daí, uma ampla discussão ética dos costumes e do comportamento das culturas judaico-cristãs que dominam a civilização ocidental e grande parte do Oriente. Essa é a função teórica e o objetivo principal de O Evangelho segundo o Espiritismo: uma releitura do Novo Testamento e uma discussão da moral do Cristo sob a ótica do Racionalismo. Um ano antes, o historiador Ernest Renan (1823-1892) lançara o livro A Vida de Jesus uma polêmica biografia na qual concluía que o cristianismo era um produto do imaginário popular e que Jesus tinha sido, ainda que um “homem incomparável”, apenas ser humano. Enquanto Renan simplificava a figura do Cristo, rejeitando sua perfeição absoluta e impraticável ao homem comum, reduzindo-o ao aspecto humano, Allan Kardec mostraria Jesus como um Espírito superior e modelo ideal de perfectibilidade relativa e acessível pela experiência evolutiva. Uma das conclusões mais significativas de Kardec sobre este assunto está sintetizada na frase de abertura do livro: “Não há fé inabalável senão aquela que pode enfrentar a razão face a face.” Trata-se de uma nova interpretação, de Kardec e dos Espíritos, dos temas evangélicos que foram objeto pedagógico e vivencial de Jesus. Esses temas, descritos nos quatro Evangelhos, foram os mesmos expostos, resumidamente, no discurso conhecido como “Sermão da Montanha”. Ali encontramos uma síntese das leis que regem o Universo, as mesmas descritas em O Livro dos Espíritos, e sua relação ética com o comportamento moral idealizado para a Humanidade. No prefácio há uma mensagem do Espírito Verdade na qual exorta a importância e a gravidade da missão dos Espíritos com as seguintes palavras:

“(...) Eu vos digo, em verdade, são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu sentido verdadeiro para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos (...)”


Tal mensagem, como já comentamos anteriormente, é também uma clara referência aos abusos religiosos cometidos pelas instituições históricas que se apropriaram socialmente do Cristianismo. Nesta mensagem também se identifica o seu autor, que usa como título A Verdade, representando a moral da coletividade de Espíritos que se intitulam o Consolador, o Paráclito, o Paradoxo prometido nos versículos de São João Evangelista. Tal revelação, que Kardec denomina a Terceira Revelação Universal - pois a Primeira teria sido a Lei Mosaica (Monoteísmo e os Dez Mandamentos), a Segunda, o próprio Cristo (As Leis Universais das Bem-Aventuranças) - está exposta num dos capítulos do livro (6º), contendo mensagens e explicações sobre o advento do Espírito Verdade.

Em Obras Póstumas Kardec relata que manteve o conteúdo do livro em segredo, do editor inclusive, até ser impresso. Tinha escolhido o título de “Imitação do Evangelho”, porém, por sugestão do editor Didier e de outras pessoas, mudou para o título atual. Ansioso quanto à repercussão, dos textos ali reunidos e comentados por ele, Kardec consulta os Espíritos. A mensagem foi recebida em Sègur, no dia 9 de agosto de 1863:


“Pergunta - Que pensais sobre a nova obra em que estou trabalhando atualmente?

Resposta - Este livro de Doutrina terá considerável influência. Aborda ali questões capitais, e não somente o mundo religioso nele encontrará as máximas que lhe são necessárias, mas a vida prática das nações extrairá excelentes instruções. Fizeste bem em tratar de questões de alta moral prática, do ponto de vista do interesse geral, dos interesses sociais e dos interesses religiosos. A dúvida tem que ser desfeita; a Terra e sua população civilizada estão preparadas; há muito que teus amigos do Além-Túmulo a desbravaram. Lança, pois, a semente que te confiamos, porque chegou a hora de a Terra gravitar na ordem radiante dos mundos e de sair, finalmente, da penumbra e da névoa intelectual. Completa tua obra com a proteção de teu guia, o guia de todos nós, e com o concurso dos Espíritos que te são fiéis, em cujo número podes contar-me sempre.


P - O que dela dirá o clero?


R - O clero clamará por heresia, por ver que nela atacas sem rebuços as penas eternas e outros pontos em que fundamentam a sua influência e o seu crédito. Clamará mais alto por sentir-se ferido de modo diverso do que sentiu com a publicação de O Livro dos Espíritos, cujos dados principais podia, em rigor, aceitar. Porém, agora, vais entrar numa nova senda, na qual ele não poderá acompanhar-te. O anátema secreto tornar-se-á oficial e os Espíritas serão combatidos pela Igreja romana como os judeus e os pagãos. Em compensação, verão seu número aumentar com essa perseguição, principalmente ao verem os sacerdotes acusarem de obra absolutamente do demônio, uma Doutrina cuja moralidade brilhará como um raio de sol, com a publicação do teu novo livro e dos que se seguirem.

Aproxima-se a hora em que terás que declarar, abertamente, o que é o Espiritismo e mostrar a todos onde está a verdadeira Doutrina ensinada pelo Cristo. A hora em que, à face do Céu e da Terra, deverás proclamar o Espiritismo como a única tradição, realmente, cristã, a única instituição, verdadeiramente, divina e humana. Ao te escolherem, os Espíritos sabiam da solidez de tuas convicções, que a tua fé, como um muro de aço, resistirá a todos os ataques.

Entretanto, amigo, se tua coragem ainda não fraquejou diante do pesado encargo que aceitaste, sabes que no princípio não tiveste obstáculos, mas agora vão começar as dificuldades. Sim, caro mestre, prepara-se a grande batalha. O fanatismo e a intolerância, revoltados com o sucesso de tua propaganda, vão alvejar a ti e aos teus com armas envenenadas. Apresta-te para a luta. Mas tenho confiança em ti, assim como tens em nós, porque tua fé é das que removem montanhas e fazem caminhar sobre as águas. Coragem, pois! Que a tua missão se cumpra! Conta conosco, e conta, principalmente, com o grande Espírito do Mestre de todos nós, que te protege de um modo muito especial.”




A estrutura de O Evangelho segundo o Espiritismo está exposta da seguinte forma:


- Prefácio, com mensagem e advertência do Espírito Verdade;

- Introdução: Autoridade da Doutrina Espírita; Controle universal dos ensinamentos dos Espíritos; Notícias Históricas; Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã do Espiritismo;

- 27 capítulos com interpretações de Kardec e dos Espíritos sobre as máximas do Cristianismo. Kardec não quis se ater aos aspectos polêmicos e duvidosos da biografia de Jesus, exatamente pela falta de uma documentação histórica de credibilidade. Como está exposto na introdução, concentrou-se naquilo que considerou acima de qualquer suspeita: o conteúdo moral, com algumas reservas sobre temas provavelmente adulterados pela tradição sacerdotal:


“Podem dividir-se as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo, os milagres, as profecias, as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja e o ensinamento moral. Se as quatro primeiras partes foram objeto de controvérsias, a última manteve-se inatacável. Diante desse código, a própria incredulidade se inclina; é o terreno onde todos os cultos podem se reencontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam suas crenças, porque jamais foram objeto de disputas religiosas, sempre e por toda parte levantadas pelas questões de dogma; aliás, discutindo-as, as seitas encontrariam aí sua própria condenação, porque a maioria está mais interessada na parte mística do que na parte moral que exige a reforma de si mesmo. Para os homens, em particular, é uma regra de conduta abrangendo todas as circunstâncias da vida, privada ou pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas sobre a mais rigorosa justiça; é enfim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade esperada, um canto do véu levantado sobre a vida futura. É esta parte o objeto exclusivo desta obra.”


E sobre os riscos da perda de autenticidade nas adaptações modernas dos textos bíblicos, explica a sua metodologia, esclarece os cuidados tomados com a escolha dos temas, bem como com a tradução confiável desses temas:


“Para evitar esses inconvenientes, reunimos nestas obras os artigos que podem constituir, propriamente falando, um código de moral universal, sem distinção de culto. Nas citações, conservamos tudo o que era útil ao desenvolvimento do pensamento, não eliminando senão coisas estranhas ao assunto. Por outro lado, respeitamos, escrupulosamente, a tradução original de Sacy, assim como a divisão por versículos. Mas em lugar de nos prender a uma ordem cronológica impossível e sem vantagem real em semelhante assunto, as máximas foram agrupadas e classificadas, metodicamente, segundo sua natureza, de maneira que elas se deduzam, tanto quanto possível, uma das outras. A chamada dos números de ordem dos capítulos e dos versículos permite recorrer à classificação vulgar, julgando-se oportuno.”


As mensagens dos Espíritos para o Evangelho segundo o Espiritismo trazem sempre a marca inconfundível do cristianismo primitivo e do aspecto consolador do Espiritismo. Entre elas encontramos uma obra-prima das dissertações evangélicas, um exemplo que mostra as características pessoais e como atuam os Espíritos Superiores para auxiliar a Humanidade sofredora. A mensagem foi assinada pelo Espírito Cáritas, martirizada em Roma, e dada em Lyon em 1861:


“13. Chamo-me Caridade e sou a rota principal que conduz a Deus; segui-me, porque sou o objetivo a que todos deveis visar. Fiz esta manhã a minha caminhada habitual e, coração angustiado, venho vos dizer: Oh! Meus amigos, quantas misérias, quantas lágrimas, e quanto tendes a fazer para secá-las todas. Inutilmente, procuro consolar as pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! Há bons corações que velam sobre vós; não sereis abandonadas; paciência! Deus está aí; sois suas amadas; sois suas eleitas. Elas pareciam ouvir-me e voltavam para o meu lado grandes olhos ansiosos; eu lia sobre seus pobres rostos que seu corpo, esse tirano do Espírito, tinha fome, e se minhas palavras lhes serenavam um pouco o coração, não enchiam seu estômago. Eu repetia ainda: Coragem! Coragem! Então uma pobre mãe, muito jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e a estendeu no espaço vazio, como a me pedir para proteger esse pobre e pequeno ser que não tomava num seio estéril senão um alimento insuficiente.

Alhures, meus amigos, vi pobres velhos sem trabalho e cedo sem asilo, atormentados por todos os sofrimentos da necessidade, e envergonhados da sua miséria, não ousando eles que jamais mendigaram, ir implorar a piedade dos transeuntes. Coração cheio de compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga por eles, e vou por todo o lado estimular a beneficência, insuflar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos. Por isso, venho a vós, meus amigos, e vos digo: lá embaixo há infelizes, cuja mesa está sem pão, a lareira sem fogo e o leito sem cobertor. Não vos digo o que deveis fazer; deixo essa iniciativa aos vossos bons corações; se vos ditasse a minha linha de conduta, não teríeis o mérito de vossa boa ação; eu vos digo somente: Sou a Caridade, e vos estendo a mão pelos vossos irmãos sofredores.

Mas se peço, também dou e dou muito; convido-vos para um grande banquete; e vos forneço a árvore onde vos saciareis. Vede como é bela, como está carregada de flores e de frutos! Ide, Ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa bela árvore que se chama Beneficência. Em lugar dos ramos que houverdes tirado, fixarei todas as boas ações que fizerdes e levarei essa árvore a Deus para que a carregue de novo, porque a beneficência é inesgotável. Segui-me, pois, meus amigos, a fim de que os conte entre os que se alistam sob a minha bandeira; sede corajosos; eu vos conduzirei no caminho da salvação, porque eu sou a Caridade.”


No capítulo 21 – “Haverá falsos Cristos e falsos Profetas”, Kardec usa um trecho do Novo Testamento para ensinar normas sobre o relacionamento entre os homens e os Espíritos, alertando sobre uma nova categoria de falsos profetas: os maus Espíritos.


“(...) O Espiritismo vem revelar uma outra categoria bem mais perigosa de falsos Cristos e de falsos Profetas, que se encontram, não entre os homens, mas entre os desencarnados: as dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudo-sábios que, da Terra, passaram para a erraticidade, e se adornam com nomes veneráveis para procurar, graças à mascara com a qual se cobrem, recomendar idéias, freqüentemente mais bizarras e as mais absurdas. Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam sua ação de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, audiente ou falante. O número daqueles que, em diversas épocas, mas nos últimos tempos, sobretudo, se deram como alguns dos antigos Profetas, pelo Cristo, por Maria, Mãe do Cristo, e mesmo por Deus, é considerável. São João adverte contra eles, quando diz: ‘Meus bem-amados, não acrediteis em todos os Espíritos, mas experimentai se os Espíritos são de Deus; porquanto vários falsos profetas se ergueram no mundo.’ (...)”


Aqui fica bem explícito que o Apóstolo não só confirma a existência dos Espíritos e sua atuação entre os encarnados, mas também a diferença entre os bons e os maus. No dia 14 de setembro de 1863, Allan Kardec receberia uma outra mensagem dos Espíritos, a respeito dessa obra. Nela, o Espírito revela ao Codificador o seu compromisso pré-reencarnatório e no final o próprio Kardec explica sua sintonia segura e cautelosa com seus mentores:


“Nota: Eu solicitaria uma comunicação qualquer e que enviassem a Sainte-Adresse.”


‘Quero falar-te de Paris, embora não veja a utilidade disso, já que meus sentimentos íntimos manifestam-se à sua volta e teu cérebro apreende nossas inspirações com a facilidade que mesmo percebes. Nossa atuação, principalmente a do Espírito de Verdade, é constante sobre ti e é tal que dela não podes esquivar-te. É por isso que não entrarei em pormenores inúteis, a respeito do plano de tua obra, que modificaste completamente, de acordo com meus conselhos ocultos. Compreendes, agora, a razão pela qual tínhamos necessidade de conservar-te sempre à mão, livre de qualquer outra preocupação que não fosse a da Doutrina. Uma obra como a que elaboramos em conjunto exige recolhimento e um isolamento sagrado. Acompanho com vivo interesse os progressos de teu trabalho, que representam um grande passo à frente e abrem, finalmente, ao Espiritismo, a larga via das aplicações úteis à Sociedade. Com essa obra o edifício começa a desembaraçar-se dos andaimes, e já se pode entrever sua cúpula delineando-se no horizonte. Continua, pois, sem impaciência e sem fadiga; o monumento ficará concluído na hora certa.

Já tratamos contigo de questões incidentes, como, por exemplo, as religiosas. O Espírito Verdade falou-te sobre as demonstrações de resistência que sucedem nesta hora. Estas hostilidades previstas são necessárias para manter desperta a atenção dos homens, tão fácil de se desviar de um assunto sério. Aos soldados que se batem pela causa vêm juntar-se, incessantemente, novos combatentes, cuja palavra e cujos escritos farão sensação, levando a perturbação e à confusão às fileiras dos adversários.

Adeus, caro amigo de outras épocas, fiel discípulo da Verdade, que continua nessa vida a obra a que, outrora, juramos, perante o Grande Espírito que te ama e venero, consagrar nossas forças e nossas vidas até que a terminássemos. Eu te saúdo.’


Observação: O Plano da Obra fora, com efeito, completamente modificado, o que o médium certamente não podia saber, achando-se ele em Paris e eu em Sainte-Adresse. Ele também não podia saber que o Espírito de Verdade me havia falado sobre a oposição do Bispo de Alger e de outros. Todas essas circunstâncias eram propositadas, para me confirmar a parte que tinham os Espíritos na realização de meus trabalhos.”


Em 1º de novembro de 1904, a Revue Spirite trouxe a público uma histórica página de Allan Kardec tecendo alguns comentários sobre o interesse e a influência dos Espíritos por esta obra. O texto, intitulado “Imitação do Evangelho – Fenômeno de Clarividência” permanecera inédito por 41 anos, provavelmente porque o Codificador se sentiu constrangido em publicá-lo enquanto estava encarnado. É um documento que reafirma o caráter coletivo da revelação espírita e confirma o estreito relacionamento de Kardec com uma equipe espiritual na realização das suas tarefas:



“Paris, 20 de outubro de 1863


A Senhorita V..., natural de Lyon, é dotada de uma notável segunda vista, conseguindo não só ver os Espíritos no estado normal, sem que esteja sonambulizada, como também observar, com grande precisão, os fatos que se desenrolam a distância.

Uma vez estando em Paris, onde veio passar alguns dias, deliberou visitar-me, na Rua Saint-Anne, tendo encontrado minha esposa, por vez que – desde meu retorno de Saint-Adresse – me havia eu retirado para Ségur, a fim de , com mais tranqüilidade, trabalhar em minha obra sobre o Evangelho. Nosso encontro foi impossível, em vista de ter a Senhorita ter empreendido viagem de regresso ainda naquela tarde. Mas, durante a conversa com minha esposa diz-lhe esta


-“Uma vez que não podereis avistar-vos com meu marido, o que ele muito lamentará, não poderíeis transportar-vos em Espírito até onde se encontra, e vê-lo”?


Por um instante, recolheu-se a Senhorita, e disse:


- “Sim, vejo-o; acha-se num aposento muito iluminado, no pavimento térreo; há ali três janelas...Oh!... e como tudo é alegre! A casa é circundada por jardins...por toda árvores e flores... Tudo respira a calma e tranqüilidade... Ele está sentado, próximo a uma janela, trabalhando... Está cercado por uma multidão de Espíritos que lhe conservam a boa saúde...alguns há que parecem muito elevados, e o inspiram; um deles especialmente parece ser superior a todos os demais, sendo-lhes objeto de deferências.


Pergunta – Acaso percebeis a natureza do trabalho de que meu marido se ocupa?


Resposta – Um momento... Vejo um Espírito que segura um livro de grandes proporções... abre-o e mostra-me o que se acha escrito... leio: Evangelho.


Observação – Com efeito, trabalhava eu em meu livro sobre os Evangelhos, e cujo título constitui-se ainda em segredo para todos. A Senhorita V...não poderia conhecê-lo. Quanto a minha esposa, ignorava ela se, naquele momento, me ocupava disso ou de outro qualquer assunto. Nada, conseqüentemente, podia influenciar o pensamento da clarividente. A descrição dos recantos é, além do mais, precisa, sendo de ressaltar que ela jamais viu esses lugares. A peça onde me instalara está provida de exatamente três janelas, o que não é comum, e, de todos os lados, confina com os jardins. Minha esposa ignorava estivesse eu nesse cômodo, que é o salão. Poderia, com muito maior probabilidade, supor-me no escritório. Todas as circunstâncias comungam na prova de que, em realidade, a Senhorita V... a tudo presenciava, não sendo joguete da própria imaginação. Tal fato constitui-se, para mim, numa prova do interesse que os Espíritos tinham por esse trabalho, bem como da assistência que a mim dispensam e a minhas atividades.


Na escolha e organização temática feita pelo Codificador, o Evangelho do Cristo foi exposto e comentado dessa forma:


- Eu não vim destruir a lei; aqui é feita uma comparação do impacto das contestações que o Cristianismo fez com o judaísmo, com aquelas que o Espiritismo faz com as igrejas cristãs.

- Meu Reino não é deste mundo; uma reflexão sobre a vida futura (sobrevivência após a morte) e a simbologia do Reino como a vida mental (psicológica); a realeza de Jesus como autoridade espiritual.

- Há muitas moradas na Casa de meu pai; a exposição do conceito de pluralidade e categorias de mundos materiais e planos ou dimensões de vida espiritual; explicação da categoria de mundos a que pertence a Terra.

- Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo; uma discussão sobre a diferença dos conceitos de “reencarnação” e “ressurreição” e suas implicações morais e sociais.

- O Cristo Consolador; a promessa da vinda de um “Consolador” feita aos discípulos é identificada como a Doutrina Espírita ou o advento do “Espírito Verdade”.

- As Bem-Aventuranças (os aflitos, pobres de espírito, os de coração puro, brandos e pacíficos); é a mais extensa das interpretações, pois abrange todo o conteúdo da moral cristã (vícios, defeitos e virtudes) e suas relações com o mundo Contemporâneo; os temas do “Sermão do Monte” superam o significado poético e místico para explicar as origens das inquietações e angústias psicológicas que atormentam o Homem atual.

- Amar ao próximo como a si mesmo; o verbo amar é transposto do plano poético para o científico e prático, sendo exposto como uma lei universal que resume todas as outras leis que regem a Natureza.

-Amai os vossos inimigos; é uma crítica ao desinteresse ou incapacidade de perdoar, condição indispensável para a harmonia individual.

- Que a vossa mão esquerda não saiba o que dá a vossa mão direita; reflexões sobre a prática individual e social da Caridade; é a base ideológica do movimento social espírita.

- Honrai a vosso pai e a vossa mãe; as dimensões e os limites dos laços de família; a família nuclear, sanguínea e a família universal.

- Fora da Caridade não há salvação; o dogma da salvação pela fé e pela predestinação é questionado pelo conceito de caridade cristã.

- Não se pode servir a Deus e a Mamon; a postura dos cristãos diante dos valores como a fortuna, a propriedade e a desigualdade social.

- Sede perfeitos; discussão do caráter da perfeição nos planos relativo e absoluto; a transformação moral como produto do esforço pessoal; a harmonia entre o corpo e o Espírito.

- Muitos os chamados e poucos os escolhidos; a natureza provacional e expiatória do Planeta Terra e a seleção dos habitantes que nela permanecerão ou serão banidos para outros mundos compatíveis com as suas atitudes.

- A fé transporta montanhas; a diferença entre a fé e a crença; a crença como estágio parcial da mente humana e a fé como produto da plenitude mental; a fé como força energética.

- Os trabalhadores da última hora; mensagens e advertências aos que se dedicam à difusão e vivência dos ensinamentos do Cristo.

- Haverá falsos cristos e falsos profetas; o caráter das profecias e dos profetas; prodígios dos falsos profetas e frutos dos verdadeiros; os falsos profetas da erraticidade (Espíritos inferiores).

- Não separeis o que Deus juntou; discussão sobre o dogma da indissolubilidade do casamento e sobre o divórcio.

- Moral estranha; as aparentes contradições de alguns ensinamentos de Jesus.

- Não coloqueis a candeia sob o alqueire; a universalidade dos ensinamentos de Jesus e a universalidade dos ensinamentos dos Espíritos; porque se deve dar remédio aos que estão doentes e pedem cura e porque não se deve “jogar pérolas aos porcos”.

- Buscai e achareis; o conforto material é proporcional às necessidades do Espírito encarnado; ninguém tem menos ou mais do que precisa ou merece.

- Dai gratuitamente o que recebestes gratuitamente; os limites éticos entre o dever e o talento; as implicações morais do comércio dos bens e dons espirituais;

- Pedi e obtereis; a prece como veículo de comunicação mental entre os diversos planos de vida no Universo; conceitos e preconceitos em torno da prece; o que é ritual e o que é intencional; o que é eficaz ou ineficaz numa prece.

- Capítulo final: coletânea de preces espíritas, contendo um preâmbulo de Kardec, explicando o significado da prece como força mental e autenticidade espiritual, e uma interpretação da prece dominical (Pai Nosso).


VERTICALIZAR PARA ENXERGAR

“Os fariseus e escribas tiraram a chave do conhecimento e a ocultaram. Nem eles entraram nem permitiram entrar os que querem entrar. Vós, porém, sede inteligentes como as serpentes e simples como as pombas”. Tomé –39


No livro que causaria tantas reações por parte dos segmentos religiosos dogmáticos e intelectuais não menos dogmáticos, incluindo alguns espíritas, as máximas do Cristo foram objeto de uma leitura e interpretação diferenciadas, por Kardec e pelos Espíritos. Fica evidente que a leitura intelectual sempre pende para o seu aspecto horizontal e não penetra nos seus conteúdos semióticos, ou seja, nas estruturas subjetivas e psicológicas dos ensinamentos de Jesus. Kardec e os Espíritos fazem uma abordagem aparentemente convencional pelas linguagens filosófica e religiosa, porém o resultado é uma leitura verticalizada, em pé, na qual desvendam-se dimensões surpreendentes da moral do Cristo.

O Evangelho até pode ser lido, mas não pode ser compreendido pelo critério lógico-racional. A lógica é uma conexão de sentidos exatos e invariáveis, que se aplica somente aos fenômenos objetivos. Já a temática evangélica é essencialmente ilógica e poética, porque está estruturada numa conexão inversa, de sentidos inexatos, variáveis, de pessoa para pessoa, de ponto de vistas diversos, onde cada caso é um caso, de diferentes percepções.

Quando aplicamos o modelo lógico-racional na leitura evangélica ela geralmente se torna rude, ridícula, vulgar e se afasta da essência espiritual que lhe caracteriza. O significado oculto, no sentido educativo, torna-se obscuro e permanece contraditório aos olhos comuns da inconsciência. Daí a reação irritante e a sensação de impotência racional que nos ocorre quando experimentamos esse choque entre o objetivo e o subjetivo. Tentamos respirar num ambiente onde as guelras do pensamento deveriam ser substituídas pelos pulmões do sentimento. Peixes fora d’água! É assim que nos comportamos quando intelectualizamos o Evangelho. Restringir o Evangelho dentro dos modelos filosóficos sistemáticos, sobretudo na lógica materialista aristotélica, é violentá-lo até mais completa asfixia moral.

Essa é a causa principal da enorme diferença do Evangelho das demais obras de Allan Kardec ou qualquer outra de filosofia existencial. Aos nossos olhos racionais ela destoa da demais exatamente porque, nas outras, os problemas são medidos pela régua positiva, enquanto nas máximas do Cristo tal tipo de mensuração não funciona, porque é inadequada. É o que se pode chamar de conflito entre a leitura horizontal versus a leitura vertical. Na primeira, até vemos uma “lógica”, mas logo ocorre a incompatibilidade de conceitos e impressões; na segunda, lendo “em pé” e não “de quatro”, conseguimos sintonizar pela superconsciência a dimensão psicológica das coisas. Então, Jesus se nos apresenta como um holograma existencial, no qual temos que verticalizar o nosso olhar para enxergar um pouco mais além dos limites da razão. Talvez tenha sido isso que ocorreu com o apóstolo Tomé nesta cena enigmática e impressionante, na qual compreendeu e ingressou definitivamente no verdadeiro sentido do “Reino de Deus”.


“Disse Jesus aos discípulos: Comparai-me e dizei-me com que vos pareço eu.

Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo.

Disse Mateus: Tu és semelhante a um homem sábio e compreensivo.

Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante.

Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da Fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.

Então Jesus levou Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, estes lhe perguntaram: Que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar.”


Mas a leitura vertical, além dos limites da razão, se não significa a estagnação intelectiva dos conceitos evangélicos, também nada tem a ver com a sua regressão aos graus de compreensão e expressão abaixo do nível de consciência racionalizada, quase sempre manifestada no imaginário místico exótico e confuso, exteriorizado nas práticas ritualísticas. Também existem níveis de compreensão e expressão místicas cujas curvas de sensibilidade se equilibram com a razão e assumem o sentido poético e filosófico diferenciados dessas manifestações populares e pitorescas do cristianismo romano e protestante. Os espiritualistas tradicionais, embora ainda ligados às suas raízes religiosas mais remotas, cuja tônica principal é o medo e o sentimento de culpa, já possuem condições, senão espirituais, mas intelectuais de romper com esses conceitos ( na verdade preconceitos) ainda materializados das idéias cristãs. Não precisam mais dos sacramentos, mas também não precisam cair no ridículo de praticarem o culto à deusa Razão ou casarem-se numa Igreja Positivista. Deveríamos, pelo menos, nos dedicar ao exercício da reformulação íntima dessas formulações dogmáticas da relação Homem-Deus para assumirmos uma religiosidade mais livre, um misticismo mais introspectivo e harmônico com o mundo exterior. Dissemos exercício de reformulação porque em termos de Evangelho não existe erro ou pessoas erradas; existem, sim, diferentes graus de compreensão e expressão, cujas estruturas são sempre dinâmicas e que mudam em sentido crescente, segundo as necessidades pessoais de cada ser. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual esse texto apócrifo[11] de Tomé, ou atribuído a ele, não tenha entrado para o rol dos textos “sagrados”. Isto porque , em nenhum momento, encontramos nele motivos e pretextos para o ritual exterior, para o misticismo tolo, para o abuso de poder, a hierarquia sacerdotal e muito menos para os privilégios institucionais que marcariam a fundação das chamadas igrejas cristãs.

Também ficaram mais claros os motivos pelos quais a Igreja rejeitara os chamados Evangelhos Apócrifos, sobretudo aqueles que davam mais ênfase ao aspecto moral, deixando de lado as polêmicas biográficas e supostas frases que tentam justificar o poder clerical e a autoridade institucional das igrejas. Nota-se também uma clara semelhança estrutural com o Evangelho de São Tomé, descoberto nas primeiras décadas do século XX, no Egito, portanto desconhecido no tempo de Kardec.



1865 - A Justiça Divina: “O Céu e o Inferno”


É o desdobramento do Livro 4º de O Livro dos Espíritos e nele aprofundam-se temas como as penas e gozos terrestres e futuros e os dogmas das penas eternas, da ressurreição da carne, do paraíso, inferno e purgatório. Na análise de J. Herculano Pires, que traduziu a primeira parte de uma das edições que consultamos, a problematização desses temas foi estruturada como se fosse um processo de julgamento: na primeira parte os fatos são expostos; na segunda parte temos o depoimento das testemunhas, devidamente posicionadas no contexto processual, e a sentença do juiz: “Estamos ante um tribunal divino. Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.” O objetivo de Kardec e dos Espíritos era desmantelar, teoricamente, as teologias católica e protestante, submetendo-as à prova da análise racional e da pesquisa científica. Era o golpe final nos dogmas e interpretações tendenciosas dos textos bíblicos:

Primeira Parte: exposição dos fatos em onze capítulos com os seguintes títulos: O futuro e o nada, a preocupação com a morte, o céu, o inferno, o purgatório, doutrina das penas eternas, As penas futuras segundo o Espiritismo, os anjos, os demônios, intervenções dos demônios nas manifestações modernas e da proibição da evocação dos mortos.

Segunda parte: Capítulo 1 – A transição, que fala sobre as impressões e implicações psicológicas da morte, e os sete capítulos seguintes, contendo os depoimentos das testemunhas (Espíritos desencarnados que falam das suas experiências com a morte sob várias condições): Espíritos felizes, Espíritos de condição mediana, Espíritos sofredores (o Castigo), Suicidas, Criminosos arrependidos e Espíritos endurecidos e Expiações terrenas.


Vejamos apenas três exemplos:


Espíritos Felizes


“O Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris, morreu em 21 de abril de 1862, após um ano de cruéis padecimentos. Prevendo o seu fim, ele havia dirigido ao presidente uma carta, contendo a seguinte passagem:

‘No caso de uma súbita separação de minha alma e meu corpo, venho lembrar-vos uma solicitação que já vos fiz há cerca de um ano. É a de evocar o meu Espírito o mais rapidamente possível e sempre que julgardes conveniente (...)’


“(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862)


1. Evocação. – Atendo ao vosso chamado para cumprir minha promessa.

2. Meu caro Sr. Sanson, cumprimos um dever e sentimos um prazer ao vos evocar o mais cedo possível, após a sua morte, como era do vosso desejo.

- É uma graça especial de Deus que permite ao meu Espírito poder comunicar-se. Agradeço a vossa bondade, mas estou fraco e tremo. (...)

- Quanto tempo levastes para recobrar a lucidez mental?

- Oito horas. Deus, repito, me havia dado uma prova da sua bondade. Julgou-me bastante digno e jamais poderei agradecer-lhe como devo.

- Estais bem certo de não pertencer mais ao nosso mundo?

- Oh! Claro que não sou mais do vosso mundo. Mas estarei sempre perto de vós para vos proteger e vos sustentar na pregação da Caridade e da abnegação que orientaram a minha vida (...)”


Espíritos de Condição Mediana


José Bré (falecido em 1840; evocado em Bordeaux em 1862, por sua neta).

“- Meu caro avô, quer contar-me como se sentem os Espíritos e fornecer-me alguns detalhes úteis ao nosso adiantamento?

- Tudo o que quiseres, querida filha. Estou expiando a minha falta de fé. Mas a bondade de Deus é grande: levo em conta as circunstâncias. Sofro, não do modo como deves imaginar, mas pelo pesar de não haver empregado bem o tempo que passei na Terra.

-Como não o empregou bem? O senhor sempre viveu como um homem de bem?

- Sim, do ponto de vista dos homens. Há, porém, um abismo entre o homem honrado perante os homens, e o homem honrado perante Deus. Desejas instruir-te, cara filha, vou procurar-te fazer perceber a diferença (...)”


Espíritos Sofredores


“Um Espírito sofredor apresenta-se sob o nome de Lisbeth, Bordeaux, 13 de fevereiro de 1862.

- (...) Quer dar-me alguns detalhes sobre a sua última existência? Disso pode resultar algum ensinamento que nos seja útil, tornando, assim, produtivo o seu arrependimento. (O Espírito mostrou grande indecisão em responder a este pedido e a algumas perguntas que se seguiram).

- Fui de elevada condição social. Possuía tudo o que os homens acham que dá felicidade. Rica, fui egoísta; bela, fui vaidosa, indiferente, desleal; nobre, fui ambiciosa. Esmagava com o meu prestígio aqueles que não prosternavam o bastante diante de mim, e pisava, também, os que se achassem sob os meus pés, sem pensar que a cólera do Senhor faz baixar, igualmente, cedo ou tarde, as frontes mais altivas.

– Em que época viveu?

- Há cinqüenta anos, na Prússia.

– Durante esse tempo não fez nenhum progresso como Espírito?

- Não. A matéria sempre se rebelava. Não podes compreender a influência que ela ainda exerce, apesar da separação do corpo e do Espírito (...)”




1868- As origens e o destino: “A Gênese”


Este livro está relacionado com O Livro dos Espíritos da seguinte maneira: Livro 1º (capítulos 1º, 3º e 4º), Livro 2 (capítulos 9º,10º e 11º) e as partes do Livro 3º que tratam das origens da vida e da evolução física da Terra.

Seguindo os passos analíticos de Léon Denis e Gabriel Delanne, é novamente J. Herculano Pires, que apresenta a obra com tradução de Victor Tolendal Pacheco e faz algumas considerações a respeito do livro, cujo conteúdo classifica como A revelação do mundo. Essa revelação dos mistérios do universo vem sendo feita lenta e gradualmente para a Humanidade nas suas sucessivas gerações; mas é somente no século XIX que ela toma rumos significativos por efeito da aceleração das descobertas científicas. Das revelações simbólicas dos tempos primitivos até hoje evoluímos do sobrenatural para o paranormal e deste caminhamos para o natural. Allan Kardec deixa o campo exclusivamente doutrinário para dialogar com as Ciências, delineando as primeiras linhas de harmonização entre a Fé e Razão, entre a Ciência e a Religião.

A obra foi estruturada e exposta, como todas as outras, segundo os formatos científicos convencionais da época: tese, antítese e síntese. Kardec coloca como subtítulo do livro “Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, para discutir o caráter da revelação espírita, propondo os seguintes temas: A Doutrina Espírita é resultante do ensino coletivo e concordante dos Espíritos; a Ciência é chamada a explicar a Gênese, segundo as leis da matéria; Deus prova sua grandeza e seu poder pela imutabilidade de suas leis, e não por sua suspensão; para Deus, o passado e o futuro são o presente.

Em 22 de fevereiro de 1868, Kardec recebeu esta mensagem do Espírito do Dr. Demeure sobre o livro. Nela percebe que todo o processo faz parte de um projeto estratégico direcionado não só aos encarnados, mas também às comunidades de Espíritos do plano extra-físico:


“Primeiramente, duas palavras sobre a obra que está no seu início. Como já dissemos tantas vezes, é urgente pô-la em execução sem perda de tempo e apressar o mais possível a sua publicação. É necessário que já tenha produzido a primeira impressão, quando irromper o conflito europeu. Se tardar, os acontecimentos brutais poderão desviar a atenção das obras filosóficas. E como esta obra está destinada a desempenhar seu papel na elaboração que se prepara, convém não deixar de apresentá-la em tempo oportuno. No entanto, é necessário também evitar que, por isso, se prejudique o seu desenvolvimento. Dai-lhe toda a amplitude necessária; cada pequena parte tem o seu peso na balança da ação. Numa época tão decisiva como esta, urge nada negligenciar, quer na ordem material, quer na ordem moral.

Pessoalmente estou satisfeito com o trabalho, mas minha opinião pouco vale comparada com a satisfação daqueles que irá transformar. O que, principalmente, faz com que eu me rejubile são as suas consequências sobre as massas, tanto do Espaço, como da Terra.”


O trecho, a seguir, é um exemplo das graves repercussões que o livro teria na Sociedade da época. Era o lado teológico antecipado das conclusões dos estudos sobre as origens das espécies e evolucionismo da biologia contemporânea:


O Paraíso Perdido


“23. O Senhor Deus fez sair do jardim de delícias, a fim que fosse trabalhar no cultivo da terra de onde ele fora tirado. – 24. E, tendo-o expulso, colocou querubins diante do jardim de delícias, os quais faziam brilhar uma espada de fogo, para guardar o caminho que conduzia à árvore da vida.


15. Sob uma imagem pueril e por vezes ridícula, se nos detivermos na forma, a alegoria esconde, frequentemente, as maiores verdades. Haverá fábula mais absurda, à primeira vista, que a de Saturno, um deus que devora pedras, tomando-as por seus filhos?

(...) Toda mitologia pagã, na realidade, não passa de um vasto quadro alegórico dos diversos lados bons e maus da Humanidade. Para os que procuram seu espírito, é um curso completo da mais alta filosofia tal como sucede com as nossas fábulas modernas. O absurdo seria tomar a forma pelo fundo.

16. O mesmo sucede com a Gênese, onde é preciso enxergar as grandes verdades morais sob figuras materiais, as quais, tomadas ao pé da letra, seriam tão absurdas, como em nossas fábulas, se tomássemos ao pé da letra as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.

Adão é personificação da Humanidade; sua falta individualiza a fraqueza do homem, no qual predominam os instintos materiais aos quais não sabe resistir.

A árvore, como a árvore da vida, é o emblema da vida espiritual; como a árvore da Ciência é a da consciência que o homem adquire, do Bem e do Mal, mediante o desenvolvimento de sua inteligência e do livre-arbítrio em virtude do qual ele escolhe entre os dois; marca o ponto em que a alma do homem, cessando de ser guiada somente por seus instintos, toma posse de sua liberdade e incorre na responsabilidade de seus atos.

O fruto da árvore é o emblema do objetivo dos desejos do homem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência.

(...) A morte do qual foi ameaçado, para o caso de que ele afrontasse a proibição que lhe era feita, é uma advertência para as conseqüências inevitáveis, físicas e morais que decorrem da violação das leis divinas que Deus gravou em sua consciência. É bem evidente que aqui não se trata da morte corporal, pois que, depois de sua falta, Adão viveu ainda por muito tempo, mas, sim, da morte espiritual, ou em outras palavras, da perda dos bens que resultam do progresso moral, perda, cuja expulsão do jardim das delícias é a sua imagem.

17. Hoje a serpente muito se distancia de personificar a astúcia; ela entra nesta narrativa, em relação à sua forma, mais do que o seu caráter; é uma alusão à perfídia dos maus conselhos que deslizam como a serpente, e dos quais, por esta razão, não desconfiamos (...)”


A Pluralidade de Mundos


Os primeiros 12 capítulos do livro abordam os temas clássicos sob a ótica do Espiritismo: Caracteres da Revelação Espírita; Deus; O Bem e o Mal; Papel da Ciência na Gênese; Antigos e Modernos Sistemas do Mundo; Uranografia Geral; Esboço Geológico da Terra; Teoria sobre a Terra; Revoluções do Globo; Gênese Orgânica; Gênese Espiritual e Gênese Mosaica. Do capítulo 13 ao 15 de A Gênese predominam como temas “os milagres”, seus caracteres; os fluidos e os milagres do Evangelho. Os capítulos 16, 17 e 18 tratam das “predições”: teoria da presciência e predições do Evangelho e os sinais dos tempos.

Mas dentre todas as partes do livro uma chama a atenção do leitor para um detalhe curioso: o capítulo VII, Uranografia Geral é totalmente de autoria do Espírito Galileu, a partir de material coletado em comunicações psicografadas pelo astrônomo Camille Flamarion, entre 1862 e 1863, na Sociedade Espírita de Paris. Trata-se de uma ampla descrição do universo e dos temas mais destacados da Física e da Astronomia: o espaço e o tempo; a matéria; as leis e as forças; a primeira criação; a criação universal; os sóis e os planetas; os satélites; os cometas; a Via Láctea; as estrelas fixas; os desertos do espaço; sucessão eterna dos mundos; a vida universal e a diversidade de mundos.

Sobre o tema que conclui a sua dissertação, a “Diversidade de Mundos”, num determinado trecho Galileu observa:


“Sem dúvida é belo haver reconhecido a ínfima posição da Terra, e sua medíocre importância na hierarquia dos mundos; é belo ter abatido a presunção humana que nos é tão cara e termos nos humilhado diante da grandeza absoluta: porém será ainda mais belo interpretar sob o senso moral, o espetáculo do qual fomos testemunha. Desejo falar da potência infinita da Natureza, e da idéia que devemos fazer de seu modo de ação nas diversas partes do vasto Universo.”


É necessário lembrar também que, tanto em O Livro do Espíritos como nas comunicações publicadas na “Revista Espírita”, encontramos farto material descritivo sobre a vida em outros planetas. As descrições feitas por alguns Espíritos esclarecem que, apesar de aparentarem a ausência de vida, pois muitos planetas são gasosos, eles servem de morada para seres e formas que a vista física humana não consegue ainda identificar. É o caso da descrição de Júpiter feita por Bernard Palissy em 9 de Março de 1858. O famoso ceramista francês (1510-1589), que vivera na corte de Catarina de Médicis, desencarnou aos 80 anos sob angustiosa provação, encarcerado na Bastilha. A descrição é cautelosa e provoca, em certos trechos, alguns impasses entre Kardec e o Espírito. Kardec jamais dava à essas comunicações o caráter de autenticidade absoluta e ao publicá-las sempre advertia o leitores sobre esses critérios. Mesmo assim, considerava a importância filosófica dos conteúdos, pois estes permitiam a comparação com a realidade terrena e a reflexão sobre as semelhançaa e diferenças. O mundo descrito por Palissy é uma sociedade cujos contrastes com a Terra se evidenciam sobretudo no aspecto moral.


“P. - Existem lá o tédio e o desgosto da vida?

- Não: o desgosto da vida origina-se no desprezo de si mesmo.

(...)

P. - Comunicai-vos mais facilmente que nós com os outros Espíritos?

- Sim; sempre. Não existe mais a matéria entre eles e nós.

P. - A morte inspira o mesmo horror e pavor que entre nós?

- Por que apavorante? Entre nós já não existe o mal. Só o mau se apavora ante o último instante: teme o seu juiz.

P. - Em que se transformam os habitantes de Júpiter depois da morte?

- Crescem sempre em perfeição, sem passar por mais provas.

P. - Não haverá mais em Júpiter Espíritos que se submetam a provas a fim de cumprir uma missão?

- Sim; mas não é uma prova: só o amor do bem os leva ao sofrimento.

P. - Podem eles falhar em sua missão?

- Não, porque são bons. Só existe fraqueza onde haja defeitos.

P. – Poderias nomear alguns dos Espíritos habitantes de Júpiter que tivessem desempenhado uma grande missão na Terra?

- São Luis.

P. Não poderias nomear outros?

- Que vos importa? Há missões desconhecidas, cujo objetivo é a felicidade de um só. Por vezes são as maiores; e as mais dolorosas.

(...)

P. – As habitações de que nos deste uma mostra nos teus desenhos estão reunidas em cidades como aqui?

- Sim. Aqueles que se amam se reúnem. Só as paixões estabelecem a solidão em torno do homem. Se o homem ainda mau procura o seu semelhante, que é para ele um instrumento de dor, porque o homem puro e virtuoso deveria fugir de seus irmãos?

P. - Os Espíritos são iguais ou de várias graduações?

- De diversos graus, mas da mesma ordem.

P. - Pedimos que te reportes especialmente à escala espírita que demos no segundo número da Revista e que nos digas a que ordem pertencem os Espíritos encarnados em Júpiter.

- Todos bons, todos superiores. Por vezes o bem desce até o mal; entretanto, o mal jamais se mistura com o bem.

P. – Os habitantes formam diferentes povos como aqui na Terra?

- Sim: mas todos unidos entre si pelos laços de amor.

P. - Sendo assim as guerras são desconhecidas?

- Pergunta inútil.

P. - O homem poderia chegar, na Terra, a um tal grau de perfeição que a guerra fosse desnecessária?

- Ele chegará a isto, sem a menor dúvida. A guerra desaparecerá com o egoísmo dos povos e à medida que melhor seja compreendida a fraternidade.

P. - Os povos são governados por chefes?

- Sim.

P. - Em que consiste a autoridade dos chefes?

- No seu grau superior de perfeição.

P. – Em que consiste a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em Júpiter. De vez que todos são bons?

- Têm maior ou menor soma de conhecimentos e de experiência; depuram-se à medida que se esclarecem.

P. – Como aqui na Terra, lá existem povos mais ou menos avançados do que os outros?

- Não, mas entre os povos há diversos graus.

P. - Se o povo mais adiantado da Terra fosse transportado para Júpiter, que posição ocuparia?

- A que entre vós é ocupada pelos macacos.

P. - Lá os povos se regem por leis?

- Sim.

P. - Há leis penais?

- Não há mais crimes.

P. – Quem faz as leis?

- Deus as fez.

P. – Há ricos e pobres? Por outras palavras: há homens que vivem na abundância e no supérfluo e outros a quem falta o necessário?

- Não: todos são irmãos. Se um possuísse mais do que o outro, com este repartiria; não seria feliz quando seu irmão fosse necessitado.

P. - De acordo com isso as fortunas de todos seriam iguais?

- Eu não disse que todos sejam igualmente ricos. Perguntaste se haveria gente com o supérfluo enquanto a outros faltasse o necessário.

P. - As duas repostas se nos afiguram contraditórias. Pedimos que estabeleças a concordância?

- A ninguém falta o necessário; ninguém tem o supérfluo. Por outras palavras, a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeitos?

P. – Agora compreendemos. Mas te perguntamos, entretanto, se aquele que tem menos não é infeliz em relação àquele que tem mais?

- Ele não pode sentir-se infeliz, desde que nem é invejoso nem ciumento. A inveja e o ciúme produzem mais infelizes que a miséria.

P. – Em que consiste a riqueza em Júpiter?

- Em que isto vos importa?

P. – Há desigualdades sociais?

- Sim.

P. - Em que estas se fundam?

- Nas leis da sociedade. Uns são mais adiantados que outros na perfeição. Os superiores têm sobre os outros uma espécie de autoridade, como um pai sobre os filhos.

P. - As faculdades do homem são desenvolvidas pela educação?

- Sim.

P. - Pode o homem adquirir bastante perfeição na Terra para merecer passar imediatamente para Júpiter?

- Sim. Mas na Terra é o homem submetido a imperfeições a fim de estar em relação com os seus semelhantes.

P. - Quando um Espírito deixa a Terra e deve reencarnar-se em Júpiter, fica errante durante algum tempo, até encontrar o corpo a que se deve unir?

- Fica errante durante algum tempo, até que se tenha livrado das imperfeições terrenas.

P. - Há várias religiões?

- Não. Todos professam o bem e todos adoram um só Deus.

P. - Há templos e um culto?

- Por templo há o coração do homem; por culto o bem que ele faz.



Obras Póstumas é uma compilação dos escritos de Allan Kardec, lançada postumamente em Paris, em janeiro de 1890, pelos dirigentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Inicia com a biografia de Kardec (publicada na Revue Spirite) e o discurso de Camille Flammarion nos funerais de Kardec em 1869.

São  artigos escritos por Kardec que não haviam sido publicados ilustrados por comunicações mediúnicas ocorridas em reuniões e registradas pelo Codificador: a música celeste, a natureza de Cristo, o conhecimento do futuro, as manifestações dos Espíritos, fotografia e telegrafia do pensamento.


O ESPIRITISMO E A HERESIA

“Estás de volta, meu amigo, e não perdeste teu tempo (...) Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos”. Mensagem do Espírito d’E para Allan Kardec (30/09/1863) – Obras Póstumas.


Ao analisarmos o conjunto de obras de Allan Kardec, incluindo a Revista Espírita, certamente concluímos que o Espiritismo é, entre outras tantas coisas, um código moral cuja referência ética são os princípios universais de conduta encontrados em todas as sociedades históricas. Sua essência fenomenal e de conceitos é milenar, mas sua fundação como síntese doutrinária e sistematizada, bem como sua organização científica experimental, somente foi possível no século XIX, num contexto geo-histórico no qual os conhecimentos e valores humanos e sociais estavam sofrendo profundas transformações e questionamentos. A principal referência ética ocidental, na qual as sociedades européias e francesas estavam inseridas, ainda era a moral judaico-cristã, então sob o domínio sócio-institucional do clero romano e protestante. Mesmo com o advento do racionalismo cartesiano e do iluminismo, no século anterior, o mundo ocidental ainda estava preso aos costumes feudos-clericais da Idade Média e que na Era Moderna se cristalizaram em um sistema conhecido como Antigo Regime. Neste sistema, cujas peças de superestrutura eram o mercantilismo colonial, a sociedade estamental e o absolutismo monárquico, o catolicismo tinha um papel de destaque. A mentalidade européia já havia conhecido a força revolucionária iniciada nos Estados Unidos em 1776 e cujo apogeu se daria na França com a Quedada Bastilha em 1789.

Mas, quando tudo parecia ter mudado com a queda dos regimes absolutistas, com a extinção dos privilégios sociais e da escravidão, surge na Europa uma onda contra-revolucionária e conservadora reivindicando a antiga ordem na qual uma aristocracia deveria fazer valer seus interesses sobre a maioria. Todas as conquistas liberais que pareciam ter elevado a Humanidade a um nível mais avançado foram sendo esquecidas para dar lugar às tradições que consagravam a lei do mais forte e a desigualdade. Na base dessa grande reação estava o instituto da religião católica. Foi dela e de suas doutrinas dogmáticas que brotaram as forças ideológicas reacionárias que rejeitaram as mudanças que dariam um novo rumo na história humana; foi ela uma das principais forças de sedução e poder que desviaram Napoleão Bonaparte do seu antigo ideal libertário, para servir de suporte de repressão e garantir os novos interesses de um cristianismo capitalista. Nada melhor do que uma religião organizada e a coerção social do clero para colocar freio nos impulsos transformadores. Nada melhor do que a dupla ameaça ideológica, de crime político e heresia religiosa, para aqueles que contestam as tradições. Se havia um novo establishment, a Igreja respondia pelo principal elemento ideológico do sistema, agora adaptado aos tempos modernos. Apesar de todas as circunstâncias inovadoras no pensamento, a superstição e o medo ainda continuaram sendo amplamente explorados pela classe política e clerical. Métodos de controle e policiamento como a delação, a confissão e a excomunhão voltaram a ter a mesma força dos tempos antigos. Essa era a situação moral da sociedade européia na qual nasceu o futuro Professor Rivail. O menino que iria se tornar Allan Kardec, filho de pai maçom e de família burguesa, não tinha outra alternativa senão estudar na Suíça para fugir da rígida educação jesuítica imposta pela nova ordem napoleônica.

Mas, por que Kardec interessou-se pelos temas religiosos ou transcendentais, no caso a temática bíblica, quando poderia ter permanecido nas especulações filosóficas ou no prazeroso campo experimental da mediunidade? Por que a publicação do Evangelho, por que O Céu e o Inferno e A Gênese, quando tudo está muito bem colocado e definido em O Livro dos Espíritos? Kardec queria agradar a gregos e troianos, a religiosos e não religiosos? Duvidamos muito dessa hipótese, já que suas idéias eram tão independentes e demolidoras quanto as de Darwin, Spencer, Nietzsche ou Marx. O Evangelho segundo o Espiritismo e seus outros livros dão uma nova visão sobre a Bíblia, sendo a síntese da heresia que sempre despertou no clero a fúria e a violência contra todos os que desafiam os seus dogmas. Então, por que esse esforço de comparação do Espiritismo com a cultura religiosa do Antigo e Novo Testamentos? Se Kardec tivesse nascido na China ou na Índia, provavelmente teria comparado o Espiritismo com as idéias de outros filósofos daquelas regiões do Oriente, como fez com as de Moisés e Jesus? Cremos que não, porque tal comparação não foi apenas uma obra do acaso e sim parte de um contexto histórico respaldado por uma missão de grande significado espiritual, cuja função tinha muitas semelhanças e ligações históricas com a missão de Moisés e de Jesus. O Espírito de Verdade não é mera coincidência, muito menos uma expressão insignificante no trabalho de Kardec; sua identidade, tal como foi ali apresentada, não é uma simples questão de ponto de vista ou de interpretação de suas mensagens, mas a própria essência filosófica do cristianismo puro e autêntico, perdido nos séculos de decadência moral da civilização motora da Humanidade contemporânea.

O Evangelho não é uma religião no sentido vulgar e institucional, mas está repleto de religiosidade e está presente em todas as obras de Kardec, em todas as suas atividades e em todos os momentos em que a Doutrina Espírita teve que dar provas de sua autoridade e identidade superior aos sistemas filosóficos comuns. Entendemos que Kardec aproveitou uma excelente oportunidade para desfazer uma antiga e importante confusão histórica, “... são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu sentido verdadeiro...”. O cristianismo, que havia sido apropriado criminosamente pelo clero romano, não podia ser comparado positivamente com o Espiritismo. Era necessário mostrar o cristianismo verdadeiro, sem dogmas, sem hierarquia sacerdotal; o cristianismo de Deus e não o de César. Como entender o Espiritismo sem compreender a essência moral do cristianismo, sem as fantasias biográficas e invencionices históricas sobre Jesus e dos apóstolos, alimentadas pelo catolicismo? O Evangelho de Kardec, assim como as demais obras, só podiam mesmo ser queimado em praça pública pela Inquisição, como realmente aconteceu em Barcelona em 1863. Afinal, nelas não se encontram brechas literárias e teológicas para justificar o papado e a sua infalibilidade, muito menos para a idéia absurda de que “Fora da Igreja não há salvação”. A mensagem do Espírito d’E é bem ilustrativa nesse ponto: “Não é de admirar, pois, o encarniçamento com que o clero combate o Espiritismo; é levado pelo instinto de conservação. Ele, porém, já viu suas armas embotar-se contra esse poder nascente; seus argumentos não conseguiram vencer a lógica inflexível; só lhe resta o do demônio, recurso bem fraco para o século XIX”.

Na concepção política do clero, Kardec representava um grande perigo para o sistema social e para a superestrutura católica; era um novo Martinho Lutero, na verdade um novo Jan Huss... Para o clero, o seu Evangelho era o mais perigoso de todos os textos apócrifos. Nem quando Ernest Renan publicou sua obra realista sobre Jesus a Igreja se mostrou tão incomodada como quando Kardec e os Espíritos resolveram comentar as máximas de Jesus. Muitos desses Espíritos foram sacerdotes católicos e grandes nomes da escolástica e da patrística, aumentando mais ainda o ódio contra aquele desconhecido e humilde professor de Paris. Realmente, Kardec não estava preocupado em agradar ninguém, a não ser a sua consciência.

O desenvolvimento da moral judaico-cristã no Ocidente ocorreu em meio aos conflitos dos dogmas de fé da tradição teológica oriental, representando a ortodoxia, versus os dogmas racionalistas das escolas gregas, representando a heterodoxia. Enquanto o dogma de fé serviu historicamente como objeto de fetiche, culto sacralizado e sustentáculo da estrutura político-clerical, o dogma filosófico serviu como instrumento de reflexão e mecanismo de defesa do pensamento autônomo, da heresia e da contestação. No seio do cristianismo encontramos essas duas correntes do pensamento herético em todas as épocas e algumas delas progrediram tanto no terreno institucional que foram perdendo sua marca contestatória, como o catolicismo e o protestantismo. Essa é uma tendência conservadora que ronda o movimento espírita, sobretudo naqueles núcleos onde o mediunismo e o comportamento dogmático superam o conhecimento doutrinário. Em alguns grupos esse comportamento chega mesmo a assumir o aspecto de seita. O Espiritismo liga-se ao Cristianismo exatamente pelos dogmas filosóficos e têm suas origens históricas nas chamadas heresias cristãs, movimentos sociais onde se cultivava o sentido puro e original da ética cristã. A idéia de heresia tinha para os gregos um significado de autonomia de pensamento e conduta. O herege é aquele que pensa e age livremente sem nenhum obstáculo ideológico. O chamado cristianismo espírita ou “espiritismo cristão” é, ou deveria ser, no mínimo, essencialmente herético, à esquerda da religião dogmática sem, no entanto, perder suas raízes religiosas, relacionadas ao comportamento natural da lei de adoração.

Se o pensamento filosófico evolui, o pensamento ou a experiência místico-religiosa também deveria acompanhar essa transformação, tanto no psiquismo como na sua expressão exterior e social. Quando Jesus ensinava que o verdadeiro templo é o que está dentro das pessoas, sendo o corpo humano uma espécie de santuário, estava naturalmente se referindo às manifestações místico-religiosas que deixaram de ter significado material e exterior, mas que continuam espiritual e interiormente vivas na consciência. Esse é o progresso e a evolução religiosa que o Espiritismo ensina. Tudo que antes vinha sendo comunicado formalmente, de maneira idealizada e simbólica, em forma de compromissos cerimoniais e rituais, agora pode ser expressado espontaneamente em forma prática, no comportamento, na transformação de atitudes.

Nas religiões tradicionais geralmente os defeitos humanos não são da responsabilidade das pessoas, mas de causas que lhes fogem do controle, coisas tipo do “pecado original”. Como no Espiritismo não há essa possibilidade, pois as leis naturais são sempre educativas e sem privilégios fictícios de salvação artificial, se insistirmos em não mudar de atitudes teremos duas opções: rejeitamos a doutrina, pois sua moral não se coaduna conosco - tornando-se até mesmo causa de irritação e contrariedade - ou praticamos a dissimulação, mais conhecida como hipocrisia. Se escolhermos a mudança, ela também deve ser de forma natural, gradual, sem forçamentos, embora possa ser organizada ou sistematizada como forma de aprendizagem. Os defeitos precisam ser transformados em virtudes; é uma necessidade evolutiva. O egoísmo e a agressividade, que foram virtudes nos remotos tempos das cavernas, por questão de sobrevivência, hoje já não são mais necessários, embora ainda os tenhamos como impulsos e reações momentâneas nas situações em que nos sentimos ameaçados. Também nas religiões tradicionais esses conflitos psicológicos sempre foram manipulados num jogo maniqueísta de controle social e interdição da privacidade. Fomos educados durante milênios nessa perversão da moral e da religiosidade, onde a culpa e o perdão se tornaram objetos de exploração política e comercial. Essa tendência já deveria ter sido banida do mundo através do Espiritismo e da Psicologia, mas o vício sacerdotal de controle e manipulação de mentalidades ainda é muito forte em nossas culturas. Somos viciados nessa dependência de sempre ter alguém resolvendo por nós os nossos problemas e assumindo nossas responsabilidades.

No movimento espírita encontramos, naturalmente com herança histórica, ainda hoje, as matrizes das mentalidades do pensamento e do comportamento filosófico-religioso, que são os modelos psicológicos encontrados nas seitas e funções sociais judaicas (portageiros, publicanos, fariseus, saduceus, essênios, escribas, terapeutas, nazarenos, samaritanos, etc.). Arriscamos dizer que Kardec já tinha a percepção dessa influência cultural e que as “Notícias Históricas” colocadas na introdução do Evangelho poderia ser um pretexto para essa análise. O assunto pode ter sido evitado na época por falta de tempo ou por inconveniência programática; assim como os chacras e o perispírito, a ciência e psicologia ainda não dominavam a estrutura celular e a mente, podendo esses temas tornar-se alvo de controvérsias inúteis e negativas ao movimento. Antes de serem judaico-cristãos esses arquétipos ideológicos são humanos e poderiam ser encontrados em qualquer cultura humana, exatamente porque eles representam a síntese dos problemas e contradições da experiência moral humana em processo dialético de transformação (o velho versus o novo). Assim como encontramos na mitologia grega os tipos psicológicos envolvidos com eternos conflitos existenciais, na cultura judaico-cristã temos personagens de comportamento semelhante.

Quando nasce uma criança em uma família, que é por sua vez formada por outras famílias, ao conhecê-la, os seus membros sempre identificam nessa criança os traços mais visíveis do seu grupo de parentesco. A mesma criança é vista de maneira diferente pelos diversos parentes maternos e paternos, cujos olhos sempre realçam mais aqueles aspectos que são mais próximos dos seus. Uns dizem: ela se parece com o pai ou com a mãe; outros garantem: ela puxou mais pela avó materna ou então pelo avô paterno, comparando os traços da criança com os traços das pessoas que conhece naquela família. Também o Espiritismo é uma criança recém-nascida numa grande complexa família, cujo sangue ideológico é simples na aparência, mas muito complexo em suas raízes. Cada membro da família que vem conhecê-lo quase sempre identifica na Doutrina as referências parecidas com as suas. É assim que o católico, por exemplo, quando conhece o Espiritismo nem se lembra ou se preocupa que na sua frente está um ser que possui vida e identidade própria. Portanto, enxerga nele apenas as aparências, ou seja, um pouco da filosofia cristã da sua igreja, a identidade de alguns Espíritos que militaram no ofício sacerdotal e logo vêem nisso uma síntese do Espiritismo e um convite para uma continuidade de sua tradição. Aliás, Kardec, talvez por cautela, dizia que isso seria até natural, que o objetivo do Espiritismo não era converter os adeptos de outras religiões e sim provar e refletir com eles sobre a sobrevivência da alma após a morte física. Assim, os católicos ou protestantes poderiam continuar sendo o que eram adotando os princípios do Espiritismo. Fariam, portanto, se quisessem, uma leitura do Espiritismo segundo suas tradições e valores culturais. Mas, como disse o poeta, “as aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam”. Foi exatamente por isso que Kardec tratou de estabelecer diferenças entre as coisas novas e as outras que já existiam, começando pelas palavras e pelas práticas. Por isso, ao invés de novas igrejas com práticas espíritas, fundassem autênticos “centros espíritas”, abertos e livres da necessidade de sincretismos. Partiu da sua própria experiência intelectual e cultural cristã para propor essa mudança de postura analítica e pragmática. Kardec entendia e respeitava as tradições e valores, mas não se deixava levar pelas aparências. Veja-se, por exemplo, a sua leitura do Evangelho comparada com a leitura de Roustaing: o primeiro via a tradição cristã e a comunicação de Espíritos com identidade histórica sob a ótica crítica do seu tempo e da sua realidade. Para ele a tradição e os valores do passado deveriam ser cultivados, porém submetidos ao crivo da razão. Já o segundo não fez essa distinção contextual e também não aplicou o critério racional para avaliar essa mesma tradição, bem como os seus valores. Enquanto Kardec apresentou um Evangelho simples, mas cheio de filosofia, rico em conteúdos morais, com interpretações cautelosas, cientificamente sustentáveis, inclusive, Roustaing leu o Evangelho sob a ótica do sincretismo místico da sua formação religiosa, exótico, complexo, com interpretações obscuras aos olhos racionais; aceitou, sem critério seletivo científico, do médium e dos Espíritos, comunicações e idéias de difícil comprovação científica. Kardec entendeu e compreendeu perfeitamente o Espiritismo e leu o Evangelho sob seus parâmetros doutrinários, aceitando somente aquilo que tinha razão de ser e lógica de significados. Porém, mesmo tendo uma rigorosa postura racional-científica, demonstrou uma admirável sensibilidade moral e filosófica. Para os ortodoxos Roustaing entendeu, mas não compreendeu o Espiritismo na sua plenitude; valorizou mais os traços aparentes do que a essência da doutrina, deixando a tradição e o fenômeno falarem mais alto. Enquanto Kardec viu no fenômeno apenas um pretexto para atingir a moral, Roustaing fez um percurso diferente: colocou a filosofia e a moral de lado e concentrou-se na aparência detalhada e superficial do fenômeno. Um, pela investigação compreensiva, extraiu e compartilhou com seus seguidores da mesma linha leite e mel da sua pesquisa; o outro, pela especulação investigativa, só conseguiu extrair, na opinião dos conservadores e puristas, curiosidade, sensacionalismo místico, polêmica e confusão. Não é à toa que os kardecistas definem o trabalho de Kardec, como ele próprio, de revelação impessoal positiva ou científica e os roustanistas atribuem ao trabalho de Roustaing o status personalista de “revelação da revelação”.

Dessa forma, quem ingressa no pensamento e no movimento espírita não assimila de imediato sua essência doutrinária porque já trás no seu psiquismo essas marcas culturais que precisam ser aclimatadas ao novo ambiente ideológico. Até mesmo Allan Kardec, ao fazer essa relação entre a cultura dos Espíritos com a cultura humana deixou sua marca pessoal, seu ponto de vista e suas referências psicológicas na elaboração da doutrina espírita. Os próprios espíritos que emitiram e opinaram sobre conceitos filosóficos nas obras básicas espíritas são caracterizados por essas marcas culturais. Mas todos eles, apesar dessas diferenças pessoais de enfoque, trazem em comum a marca herética nos seus pensamentos e emoções.

A filosofia espírita é muito abrangente em relação aos problemas humanos e cosmogonias do universo. Porém, é no terreno moral e comportamental que está a sua razão de ser, a raiz vital que vai interferir e gerar mudanças no terreno social. Saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos não implica nenhuma repercussão no meio exterior se não houver repercussões significativas no conjunto de elementos morais que formam o nosso mundo íntimo e que nos serve de bússola existencial. É aí que entram em cena os códigos morais que surgem em todas as civilizações. O Evangelho de Jesus é um deles e expõe perfeitamente todos os princípios que identificam as leis universais e as propostas de transformação evolutiva do ser humano que encontramos em todos os demais códigos. Não existe nele nada de superior ou inferior aos outros. Ele é apenas o código mais adequado para necessidades que nele se identificam. Todos os exageros que nele encontramos geralmente são erros de interpretação elaborados tendenciosamente com alguma intenção menos digna de bloquear o progresso e a liberdade humana, como o controle, o exibicionismo, a ameaça e a exploração ideológica.

Enquanto os espíritas permanecerem ligados intelectual e emocionalmente aos autênticos conceitos dessa doutrina, sua ligação com o Evangelho será sempre histórica e pura e este será um código moral harmônico, representando a constância, o equilíbrio, a sensatez, a consciência, a autenticidade e a espontaneidade humanas. Do contrário, sem essa relação de fidelidade, ele será sempre incompreensível, impraticável, conflituoso, passional, hipócrita, artificial, formal, etc. Por isso, todo rótulo que se dá ao Espiritismo é superficial e insignificante em relação à sua grandeza doutrinária. O Espiritismo não é apenas uma religião, porque não é pequeno e limitado como as religiões têm sido praticadas; não é apenas uma filosofia porque antecede e ultrapassa as premissas filosóficas humanas, dessas que se viciam na ginástica intelectual prolixa e inútil; não é também apenas uma ciência porque não se restringe, como a maioria delas, ao jogo interesseiro, repetitivo e espetacular de fenômenos. É, ao mesmo tempo, tudo isso, no sentido de que possui religiosidade própria, tem uma mística sadia e inconfundivelmente cósmica, possui uma filosofia tão nobre e inteligente quanto a grega e contextualizada e pragmática como a romana; possui uma ciência objetiva e cujas intenções são as mais verdadeiras e humanas, como a prova da imortalidade e o exercício da cura. Por acaso não encontramos tudo isso relatado na experiência vivencial de Jesus? Não é essa a essência das parábolas, das bem-aventuranças, reconhecidas em nosso tempo pela sabedoria do Mahatma Gandhi com o verdadeiro espírito da Lei Universal? Não é esse o sentido verdadeiro dessas palavras do Espírito de Verdade: “... dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos”?


[1] Ver a comunicação do Espírito desse escritor nas dissertações finais de O Livro dos Médiuns.

[2] César e Cristo. História da Civilização. Volume III. Editora Record.

[3] Estado dos Espíritos errantes, isto é, não encarnados, durante os intervalos de suas diversas existências corpóreas. A Erraticidade não é, em absoluto, símbolo de inferioridade para os Espíritos. Há Espíritos errantes em todas as classes, com exceção dos da primeira ordem, ou puros Espíritos, os quais, não tendo mais que passar pela reencarnação, não podem ser considerados como errantes. Os Espíritos errantes são, conforme o seu grau de depuração, felizes ou infelizes. É nesse estado que o Espírito, então despojado do véu material do corpo, reconhece as suas existências anteriores e as faltas que o distanciam da perfeição e da felicidade infinita, É ainda nessa mesma condição que, no intuito de progredir rapidamente, escolhe novas provas. Allan Kardec, Vocabulário Espírita.

[4] O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XII.

[5] Visão Espírita da Bíblia. 17ª ed. Edições Correio Fraterno do ABC. S.B. do Campo, 2001.

[6] Artigo: “Reunião Mediúnica no Tabor”. O Reformador. FEB. Ano 119, nº 2071, outubro de 2001.

[7] “Le Salute”, 1º de junho de 1868.

[8] Religiões e Filosofias, capítulo XI. Editora Aliança, 2ª ed. 1980.

[9] A Missão de Allan Kardec, página 59.

[10] O Reformador. Ano 119 – 2.071 – outubro de 2001.

[11] Fonte : O Quinto Evangelho São Tomé - 13 e 13-A, encontrado no Egito em 1945, traduzido em 1976 por Humberto Rodhen a partir da versão francesa de Philip de Soares). Editora Matin Claret.



CRONOLOGIA E CONTEXTOS 1870 a 2002


1870 – A rápida Guerra Franco-Prussiana termina com a titulação de Guilherme I, como kaiser alemão no Palácio de Versalhes. Na Inglaterra, Willian Crookes inicia suas pesquisas sobre os fenômenos espíritas. Emma Harding publica nos EUA History of Modern American Espiritualism. Tropas brasileiras, argentinas e uruguaias ocupam Assunção. É inaugurado no cemitério Père-Lachaise o dólmen druida sob o túmulo de Allan kardec.

1871 ¬– Explode a Comuna de Paris, uma insurreição popular contra a III República, reprimida com grande derramamento de sangue. Pierre-Gaëtan Leymarie torna-se editor da Revue Spirite. Willian Crookes entrega na Academia Real de Londres o relato de suas conclusões sobre a veracidade dos fenômenos espíritas. 

1872 – O reverendo Stainton Moses começa a receber mensagens psicografadas na Inglaterra ressaltando a religiosidade do Espiritismo. Nasce na Boêmia Francisco Valdomiro Lorenz.

1873 – É fundada em Londres a “British National Association of Spiritualists”. No Rio de Janeiro é fundada a “Sociedade de Estudos Espiríticos Grupo Confúcius”.

1874 – Nasce em Xirica, atual Eldorado, a poetisa Francisca Júlia da Silva. Alfred Russel Wallace realiza o primeiro registro científico de fotografia de um Espírito materializado. Acontece a histórica sessão de materialização de despedida do Espírito Katie King.

1875 – Pierre-Gaëtan Leymarie, editor da “Revue Spirite” é processado e condenado a prisão por falsificação de fotografia de Espíritos. O Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro anuncia o aparecimento de O Livro dos Espíritos, em português; o Editor é o francês B. L. Garnier. Nasce no Maranhão José Olimpio Guillon Ribeiro, autor , tradutor e ex-presidente da FEB.  Antonio Silva Neto funda no Rio a “Revista Espírita”, primeiro órgão carioca no gênero. Anália Franco torna-se a primeira mulher jornalista do Brasil.

1876 – É fundada no Rio de Janeiro a “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade” sob a direção evangélica de Bittencourt Sampaio. Depois de cumprir pena de prisão, Leymarie é inocentado das acusações no caso das fotografias.

1877 – Tem início na Alemanha as históricas sessões com médium americano Henry Slade sob a direção do Prof. Frederich Zöllner. Na Argentina surge a Sociedade Espiritista “Constancia”. Nasce nos EUA, no Kentucky, o médium Edgar Cayce.

1878 – Nasce em Piracicaba Pedro de Camargo “Vinícius”. 

1879 – Na Argentina Antonio Ugart funda a revista “La Fraternidad”. Nasce no Rio Grande do Sul o médico Oscar Rill Pithan.

1880 – No Rio de Janeiro surge o “Grupo dos Humildes”, dirigido por Antonio Sayão. Nos EUA Epes Sargent publica Bases Científicas do Espiritismo. Nasce, em Sacramento MG, Eurípedes Barsanulfo.

1881 – No Rio de Janeiro, no dia 28 de agosto, a polícia proíbe a realização de sessões da Sociedade “Deus, Cristo e Caridade”. D. Pedro II recebe em audiência uma comissão espírita. É realizado no Rio de Janeiro o I Congresso Espírita do Brasil.

1882 – É criada na Inglaterra a “Society for Psycal Research”. Desencarna o pesquisador da imortalidade Johann Karl F. Zöllner.

1883 – Augusto Elias da Silva inicia no Rio de Janeiro a publicação de “O Reformador”. Desencarna Amélie Gabrielle Boudet. É fundada em Santos, SP, a Sociedade Espírita Anjo da Guarda.

1884 – É fundada a Federação Espírita Brasileira, tendo como órgão de comunicação a revista “O Reformador”. Na Inglaterra Stainton Moses funda a “Spiritualist Alliance”.

1885 – Léon Denis publica na França o livro O Porquê da Vida. Desencarnam o escritor Victor Hugo e o pesquisador Louis Alphonse Cahagnet.

1886 – Bezerra de Menezes anuncia no Rio de Janeiro, no salão da FEB, na rua Guarda Velha, sua adesão ao Espiritismo. É fundado em Barra do Piraí, RJ, o Grêmio Espírita de Beneficência. Desencarna o médium Daniel D. Home.

1887 – O Jornal “O Paiz” passa a publicar os artigos doutrinários de Max, pseudônimo de Bezerra de Menezes. Ludwik Lejzer Zamenhof lança na Polônia o primeiro livro sobre o idioma Esperanto.

1888 – A Lei Áurea extingue a escravidão no Brasil. A médium Eusápia Paladino inicia sua carreira sob a direção científica do Prof. Chiaia. Em Barcelona tem início o 1º Congresso Espírita Internacional, sobre a presidência do Visconde de Torres-Solano. Nasce em Botucatu o médium Carmilo Mirabelli.

1889 – É proclamada a República no Brasil. A família imperial se exila na França. Em Paris, no salão de festas da loja maçônica Grande Oriente da França, Léon Denis defende a tese kardequiana no 2º Congresso Espiritualista Internacional. O médium Frederico Júnior psicografa, na Sociedade Espírita Fraternidade, as “Instruções do Espírito de Allan Kardec”. Bezerra de Menezes funda o Centro Espírita do Brasil e, com Augusto Elias da Silva, a primeira Escola de Médiuns. Nasce em Botucatu-SP o médium Carmine Mirabelli.

1890 – São publicadas na França as Obras Póstumas de Allan Kardec. Antonio Gonçalves “Batuíra” funda em São Paulo a revista “Verdade e Luz”. F. V. Lorenz publica, ainda na Boêmia, sua primeira obra em Esperanto.

1891 – Paul Gibier publica na França O Espiritismo. César Lombroso inicia suas pesquisas com Eusápia Paladino. No Brasil o novo Código Penal, redigido por Antonio Batista Pereira, enquadra genericamente a prática do Espiritismo como crime. Nascem o ativista Leopoldo Machado, o esperantista Ismael Gomes Braga e Maria da Cruz Xavier, colaboradora de Eurípedes Barsanulfo. 

1892 – Surge em Madrid a revista “La Irradiacion”. No Rio de Janeiro é fundada a “Sociedade de Estudos Psíquicos”. Nasce em Taubaté o historiador espírita Silvino Canuto Abreu. 

1893 – Gabriel Delanne publica na França “Le Phenomène Spirite”. Desencarna no Rio de Janeiro Luiz Olímpio Telles de Menezes. A Federação Espírita Brasileira é dominada pelo grupo dos “científicos”, que renegava as obras religiosas de Allan Kardec.

1894 – Andrew Glendinning publica na Inglaterra The Veil Lifted, sobre fotografias de Espíritos. Charles Fristz funda na Bélgica o jornal “Spiritualism Modern”. Nasce, em Guaratinguetá, Edgard Armond. Elias da Silva, Fernandes Figueira e Alfredo Pereira iniciam a restauração doutrinária na FEB publicando em “O Reformador” um editorial intitulado “Sectarismo”. Antonio Alves da Fonseca, Leopoldo Cirne e João Lourenço de Souza ingressam nos quadros da FEB, representando o progresso nas áreas doutrinária, assistencial e de propaganda. Em 3 de agosto Bezerra de Menezes é eleito presidente da Federação Espírita Brasileira. Funda-se na França a revista “Le Progrés Spirit”. Os irmãos Lumière fazem, em Paris, a primeira exibição de Cinema.

1895 – Gabriel Delanne funda a “Revue Scientifique et Morale du Spuiritualism”. Joaquim Antonio de São Tiago funda o Centro Espírita Caridade de Jesus, em São Francisco do Sul-SC. O ativista negro Emídio João Paulo Ribeiro publica no Recife o jornal “O Espírita”.

1896 – É encenada no Teatro Renaissance, em Paris, a peça “Spiritisme”, de Victorien Sardou. É publicado em Taubaté-SP, o jornal “Alvião”.

1897 – Fernando Lacerda publica em Portugal “No País da Luz”, com mensagens mediúnicas de escritores lusitanos. Léon Denis publica na França “Cristianismo e Espiritismo”. É fundada a Livraria da Federação Espírita Brasileira.

1898 – Grabriel Delanne publica A alma é Imortal. É publicada em São Paulo a Revista de Estudos Psíquicos.

1899 – Cairbar Schutel torna-se prefeito e presidente da Câmara de Matão. Nasce, no dia 16 de abril, em Uberaba, a médium, Maria Modesto Cravo, precursora das atividades de Chico Xavier. António Gonçalves da Silva, conhecido como Batuíra, torna-se agente exclusivo em São Paulo  da revista Reformador.

1900 – Desencarna no Rio de Janeiro o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes. Nasce em Valença, Rio de Janeiro, a médium Yvonne do Amaral Pereira.

1901 – Desencarna em Paris Perre-Gaëtan Leymarie. É fundado no Rio de Janeiro o Grêmio de Propaganda Espírita Luz e Amor. Desencarna a poetiza Auta de Souza.

1902 – Nasce nos EUA Carl Ranson Rogers. É fundada a Federação Espírita do Paraná sob a presidência de João Urbano de Assis Rocha.

1903 – Léon Denis publica “No Invisível”. Nasce em Serra Negra o orador e ativista Romeu de Campos Vergal.

1904 – O “Boston Journal” publica a notícia da descoberta do esqueleto humano de Charles B. Rosna na adega da casa onde viveu a família Fox, comprovando 56 anos depois os acontecimentos de Hydesville. O cronista João do Rio (Paulo Barrreto) publica na Gazeta de Notícias as reportagens “Religiões do Rio”, dentre elas “O Espiritismo entre os Sinceros”. É publicada em Nápoles a obra poética de 314 tercetos, psicografada pelo menino-médium Héctor Bernardini, de dez anos de idade, atribuída ao Espírito Dante Alighieri.

1905 – Albert Einstein divulga sua Teoria da Relatividade Restrita. Nasce em Pacatuba, Ceará, o médium Francisco Peixoto Lins, o Peixotinho. Em 15 de agosto Cairbar Schutel publica em Matão o primeiro número de “O Clarim”.

1906 – João Leão Pitta funda em Piracicaba o “Grupo Espírita Fora da Caridade não Há Salvação”. Alexandre Aksakof publica Animismo e Espiritismo. José Lapponi, médico do papa, publica Hipnotismo e Espiritismo. Surgem nos EUA as primeiras igrejas pentencostalistas.

1907 – Eurípedes Barsanulfo funda em Sacramento, Minas Gerais, o Colégio Allan Kardec. Na Itália, em Turim, o Prof. Morselli publica Psicologia e Espiritismo.

1908 – Léon Denis publica O problema do Ser, do Destino e da Dor. Em Belo Horizonte é fundada a “União Espírita Mineira” sob a presidência de Antonio Lima. FUndção da União Espírita do Estado de São Paulo.

1909 – Desencarna em São Paulo Antonio Gonçalves “Batuíra”. César Lombroso publica Ricerche sui fenomene ipinoti e spirici; desencarna no mesmo ano na cidade de Turim. Desencarna na Espanha Amália Domingo Y Soler. Freud publica A Interpretação dos Sonhos.

1910 – Nasce em Cachoeira das Três Moças (Pedro Leopoldo) Francisco Cândido Xavier.

1911 – É inaugurada no Rio de Janeiro, na avenida Passos, a sede da Federação Espírita Brasileira, sob a presidência de Leopoldo Cirne. Anália Franco funda em São Paulo a “Colônia Regeneradora D. Romualdo”. 

1912 – A FEB inaugura, em 3 de maio, um curso gratuito de esperanto. Naufrágio do Titanic mata 1.513 pessoas. A médium Zilda Gama dá início a sua carreira literária com o livro Elegias Douradas.

1913 – O Almirante Osborne Moore publica nos EUA The Voices, sobre fenômenos espíritas de voz direta. Léon Denis preside o Congresso Espírita de Genebra.

1914 – Nasce, em Avaré, José Herculano Pires. Juliette Alexandre-Bisson publica Os Fenômenos ditos de Materialização. Tem início a I Guerra Mundial. O médium Carmine Mirabelli é nternado por dezenove dias no Asilo de Alienados do Juqueri, diagnpsticado-se pelos Drs. Francisco Franco da Rocha e Felipe Aché que o paranormal possuía “energia nervosa” acima do normal. O médium receb ajuda de pesquisadores, como o médico Dr. Alberto de Melo Seabra, e passa a colaborar nas sessões espíritas experimentais.

1915 – É fundada na Bahia a União Espírita Baiana, sob a presidência de José Petitinga.

1916 – É fundada por Antonio José Trindade, em São Paulo, a Sinagoga Espírita Nova Jerusalém. Os jornais Correio Paulistanp e a Gazeta publicam reportagens do "Homem Misterioso", sobre o médium Carmine Mirabelli, com ampla repercussão popular. O jornal O Estado de S. Paulo, em 18 de maio de 1916 cobriu a materialização, pelo médium, do espírito do ex-bispo da Diocese de São Paulo, D. José de Camargo Barros, em sessão ocorrida na cidade de Santos. Estiveram presentes médicos e oficiais da Força Pública de São Paulo. 

1917 – Na Irlanda o Dr. W. J. Crawford, da “Queen’s University” publica The Reality of Psychic Fenomena. Na Rússia acontece a Revolução Bochevique de Outubro. Carmine Mirabelli funda em São Paulo o Centro Espírita São Luiz, modelo de instituição que seriam fundadas em várias cidades brasileiras. No mesmo ano foi contatado um curiso fenômeno de bilocação e transporte:  “Conta-se que certa vez ele estava, com um grupo de pessoas na Estação da Luz em São Paulo e pretendia viajar para Santos. Um pouco antes de o trem sair ele desapareceu, para assombro de todos, sendo cientificada a sua presença em São Vicente, mais tarde, por telefone, ficando provado que ele foi encontrado na cidade que distava 90 Km da Estação da Luz, exatamente dois minutos após o seu desaparecimento". Fonte: Coleção Carmine Mirabell- Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Editora Francisco Spinelli. A inauguração do Centro Espírita São Luiz, em São Vicente, SP, às 15 horas de sábado, 25 de agosto de 1917. A instituição beneficente, foi fundada no domingo, 12 de agosto de 1917.

1918 – Em transe mediúnico, Eurípedes Barsanulfo relata para seus alunos uma premonição da assinatura do Tratado de Versalhes.

1919 – É fundado em Paris o “Instituto Metapsíquico Internacional” sob a direção de Gustave Geley. Desencarna Anália Franco.

1920 – É Fundada a Sociedade das Nações.

1921 –A médium de efeitos físicos  Anna Prado e seu marido Eurípedes Prado realizam em Belém sesãoes de materialização, com o registro de Raymundo Nogueira de Faria,  "O Trabalho dos Mortos", publicada no mesmo ano pela Federação Espírita Brasileira (FEB). A obra foi lustrada por fotografias de autoria do maestro Ettore Bosio. Numa dessas sessões o espírito de Rachel Figner se materializou na presença de seu pai, Frederico Figner, diretor da Casa Edison, no Rio de Janeiro. É fundada a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, sob a presidência de Angel Aguarod. Descoberta das ondas curtas permite a radiodifusão internacional.´Nasce em Congonha do Campo-MG o médium Zé Arigó (José Pedro de Freitas).  

1922 – Charles Richet publica o Traité de Methapsychic. É realizada em São Paulo a Semana de Arte Moderna.

1923 – Angel Scharnichia funda em Buenos Aires a revista “La Idea”. É fundada em Paris, por Jean Meyer, a “Maison des Spirites”.

1924 – Explode em São Paulo a rebelião tenentista de Isidoro Dias Lopes. Desencarna Gustave Geley, fundador do Instituto Metapsíquico Internacional.

1925 – Cairbar Schutel lança em Matão a “Revista Internacional do Espiritismo”. Léon Denis defende em Paris a tese do Espiritismo Religioso no III Congresso Internacional Espírita. Camille Flammarion desencarna na França. 

1926 – É fundada a Federação Espírita Portuguesa. No Rio Grande do Sul é fundado o “Hospital Espírita de Porto Alegre”. Arthur Conan Doyle publica The History of Spiritualism. Desencarna Gabriel Delanne.

1927 – É fundado em Pedro Leopoldo o Centro Espírita “Luiz Gonzaga”, sediado na casa José Cândido Xavier. Desencarna o filósofo Léon Denis. Nasce na Bahia o médium Divaldo Pereira Franco.

1928 – Alexander Fleming descobre a penicilina. Seis milhões de camponeses morrem durante uma coletivização imposta pelo governo soviético. Desencarna  Henri Sausse, biógrafo de Kardec. Francisco Valdomiro Lorenz é admitido, por ordem do governador Getúlio Vargas, no Prefessorado Estadual do Curso Primário. Vargas havia lhe ofertado, após prova de concurso públio, o cargo na  Secretaria do Interior e Justiça, no Departamento de Relações Consulares.

1929 – O mundo capitalista é atingido pelo “crack” da Bolsa de Nova York. 

1930 – Getúlio Vargas assume o governo do Brasil após a queda no Professorado Estadual do Curso Prim de Washington Luiz. Desencarna na Inglaterra Arthur Conan Doyle. É fundada a União Espírita Sergipana. João Souza Moraes prepara o primeiro “Almanaque Espírita” no Brasil.

1931 – Chico Xavier psicografa as primeiras poesias de “Parnaso Além-Túmulo” Desencarna Jean Louis Mayer.

1932 – É fundado no Rio de Janeiro o jornal “Mundo Espírita”. A FEB publica Parnaso Além-Túmulo. É realizada em São Paulo uma reunião pioneira de jovens espíritas, no “Centro Espírita Maria de Nazaré”. Nos EUA, Edgar Cayce inicia a divulgação de mensagens mediúnicas sobre a civilização da Atlântida. Nasce em Santa Catarina o escritor e jornalista Jaci Régis. O periódico O Vanguarda,  abordou a materialização, pelo médium Carmine Mirabelli, do espírito de São Francisco de Assis. Outras materializações que chamaram a atenção à época, foram as dos espíritos de Giuseppe Parini e de Harun al-Rashid.

1933 – É fundada a União Federativa Espírita Paulista, presidida por Caetano Mero. 

1934 – O prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, assina um decreto reconhecendo a Federação Espírita Brasileira como entidade de utilidade pública. Luis Gomes da Silva funda em Santos a primeira Mocidade Espírita do País. Manuel Porteiro e Humberto Mariotti destacam-se no 5º Congresso Internacional de Espiritismo, em Barcelona, com suas teses sobre problemas sociais.

1935 – É fundada em Maceió a Federação Espírita de Alagoas, sob a presidência de José Joaquim de Lima. Tropas federais sufocam a Intentona Comunista no Brasil. É fundada em Campos-RJ, a Escola Jesus Cristo, pelo professor Clóvis Tavares. 

1936 – Canuto Abreu, Edgard Armond, C.G.S. Shalders e Antonio Carlos Cardoso organizam o grupo de estudos que se transformaria na “Sociedade Metapsxxíquica de São Paulo”. O Dr. Militão Pacheco e Pedro Lameira de Andrade, membros da “Sociedade Espírita São Pedro e São Paulo”, e Pedro de Monte Ablas, fundam a “Congregação Espírita de São Paulo”, a futura FEESP. Cairbar Schutel inicia a propaganda espírita na Rádio Cultura de Araraquara.

1937 – A polícia política (DOPS) do Estado Novo fecha por três dias a sede da FEB no Rio de Janeiro. Desencarna o Dr. Dias da Cruz, ex-presidente da FEB. 

1938 – Desencarna, em Matão, Cairbar de Souza Schutel. Em São Paulo desencarna o Dr. Pedro Lameira de Andrade. Chico Xavier psicografa À Caminho da Luz e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, contendo importantes revelações espirituais. A Revista norte-americana ”The Two Words” publica mensagem do Espírito Cairbar Schutel através da médium inglesa Mary Wood.

1939 – Começa a II Guerra Mundial. Desencarna José Petitinga. Edgard Armond torna-se secretário da Federação Espírita do Estado de São Paulo, sob a presidência de Américo Montagnini. A FEB publica A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi, traduzida por Guillon Ribeiro. Realiza-se o I Congresso de Jornalistas e Escritores Espíritas.

1940 – Um grupo de espíritas, com auxílo da União Federativa inaugura em São Paulo a Rádio Piratininga. Nasce, em Minas Gerais, Edson Arantes do Nascimento, “Pelé”, Cidadão do Mundo e Atleta do Século. Desencarna Sir Oliver Lodge.

1941 – É fundada a “Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro”. Novamente a polícia ordena o fechamento da FEB no Rio de Janeiro.

1942 – É fundado em Franca o jornal espírita “Nova Era”. Edgard Armond publica o opúsculo Estudo da Mediunidade.

1943 – Desencarna na Itália Ernesto Bozzano. É fundado no Rio de Janeiro o “Hospital de Clínicas Allan Kardec”. Edgard Armond publica Mediunidade de Prova. Chico Xavier inicia a publicação da série “André Luiz” com o livro Nosso Lar. Desencarna Guillon Ribeiro.

1944 – Em 8 de agosto a Federação Espírita Brasileira e o médium Chico Xavier são processados pela família do escritor Humberto de Campos. Edgard Armond publica Missão Social dos Médiuns. É criada a Cruzada dos Militares Espíritas.

1945 – É fundada em Florianópolis a Federação Espírita Catarinense, presidida por Osvaldo Melo. O EUA explodem duas bombas atômicas no Japão. Termina a II Guerra Mundial e começa a “Guerra Fria”. Getúlio Vargas é deposto da presidência do Brasil.

1946 – Em 30 de abril tem início o Primeiro Congresso Espírita da Alta Paulista, sobre a presidência de Urbano de Assis Xavier e J. Herculano Pires. Instala-se em Buenos Aires o Primeiro Congresso Espírita Pan-Americano. A FEB lança a primeira edição de O Livro dos Espíritos em esperanto.

1947 – Edgard Armond propõe em São Paulo a tese de unificação do Movimento Espírita em torno da União Social Espírita, a futura USE. Desencarna o médium e conferencista Parigot de Souza.

1948 – É assinada a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. O Embaixador do Brasil na ONU, Oswaldo Aranha, dá o voto decisivo para a criação do Estado de Israel. É fundado o “Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo”, sob a presidência de J. Herculano Pires. É assassinado na Índia o Mahatma Gandhi. É criado em Barretos o COMBESP, Concentração de Mocidades Espíritas. Leopoldo Machado realiza no Rio o I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil. O médium Francisco Peixotinho realiza em Pedro Leopoldo, com Chico Xavier, as primeiras sessesões de cura e materializações.

1949 – A FEB anuncia a realização do “Pacto Áureo”, para a unificação do Movimento Espírita brasileiro. A Confederação Espírita Panamericana – CEPA realiza no Rio o seu II Congresso. Fundação em São Paulo, pela enfermeira Nancy Puhlmann Di Girolamo, como extensão do Centro Espírta Nosso Lar,  as Casas André Luiz.

1950 – É inaugurada, em 6 de maio, a primeira aula da “Escola de Aprendizes do Evangelho”, ministrada por Pedro de Camargo “Vinícius”, na Federação Espírita do Estado de São Paulo. É fundada a Federação Espírita do Piauí. 

1951 – É fundada a Federação Espírita do Ceará, presidida por José Borges dos Santos. Edgard Armond publica Passes e Radiações e Os Exilados da Capela. É fundada a Federação Espírita de Goiás. Desencarna em São Paulo, vítima de atropelamento, o médium Carmine Mirabelli.

1952 – Desencarna Carlos Fortunatti, antigo militante da Sociedade Constancia e da Confederacion Espiritista Argentina. É criada na FEESP a “Fraternidade dos Discípulos de Jesus”.

1953 – Realiza-se o III Congresso Espírita Panamericano. Em Portugal o movimento espírita sofre perseguições do clero e do regime ditatorial salazarista. A sede da Federação Espírita Portuguesa é invadida e tem seus bens confiscados; é destruída uma biblioteca com 12 mil volumes.

1954 – Getúlio Vargas suicida-se no Palácio do Catete. Desencarna Manoel Quintão. É inaugurada na FEESP a “Fraternidade dos Discípulos de Jesus”. Yvonne Pereira publica o livro Memórias de um Suicida, do Espírito Camilo Castelo Branco.

1955 – Realiza-se no Rio Grande do Sul a 1ª Feira do Livro Espírita com a venda de 1.949 obras. Hercílio Maes publica Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores, pelo Espírito Ramatis.

1956 – Na Argentina acontece o II Congresso Internacional sobre Reencarnação. Hercílio Maes publica Mensagens do Astral, do Espírito Ramatis. José Pedro de Freitas, o Zé Arigó, realiza curas através do Espírito do Dr. Fritz.

1957 – Os soviéticos lançam no espaço o satélite Sputinik. Milhares de pessoas reúnem-se no Ginásio do Pacaembú, em São Paulo, para comemorar o I Centenário do Espiritismo. Canuto Abreu publica A Tradição Histórica e Lendária de O Livro dos Espíritos. É inaugurado em Araras o “Sanatório Antonio Luis Sayão”. Desencarnam Francisco Valdomiro Lorenz e Leopoldo Machado.

1958 – Desencarna em Portugal o médico e escritor espírita Antonio Joaquim Freire. O médium Zé Arigó sofre sua primeira condenação por prática ilegal de medicina. Hernani Guimarães Andrade publica “Teori Corpuscular do Espírito”

1959 – Chico Xavier instala seus trabalhos na cidade de Uberaba. Júlio de Abreu Filho inicia a publicação da “Revue Spirite”, traduzida em português. Desencarna o compositor Heitor Villa Lobos.

1960 – Karl E. Muller, presidente da Federação Espírita Internacional defende num congresso espiritualista de Londres a tese da reencarnação. Realiza-se a I Convenção Espírita em Defesa da Escola Pública.

1961 – O presidente Jânio Quadros renuncia ao mandato e gera uma crise política no Brasil. Wanda Marlene produz para a TV Itacolomi a novela “Lívia”, adaptada do romance mediúnico Há Dois Mil Anos. Yuri Gagarim torna-se o primeiro Homem a viajar no espaço. É construído numa só noite, de 12 para 13 de agosto, o Muro de Berlim. Jovens de Campinas, Santos, Sorocaba e São Paulo criam o MUV, Movimento Universitário Espírita.

1962 – Instala-se no Rio de Janeiro o I Congresso de Cegos Espíritas. Alunos da 7ª turma da Escola de Aprendizes do Evangelho, da FEESP, fundam em São Paulo o CVV - Centro de Valorização da Vida. 

1963 – A União Soviética instala mísseis em Cuba e gera uma crise internacional com risco de guerra nuclear com os EUA. É fundada na nova capital do Brasil a União Espírita de Brasília e o Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas. Chico Xavier psicografa a histórica mensagem de Bezerra de Menezes sobre a unificação dos espíritas. O presidente dos EUA, John Kennedy, é assassinado em Dallas.

1964 – O Presidente João Goulart é deposto por um golpe militar. O médium José “Arigó” é condenado num processo criminal movido por clérigos e médicos de Belo Horizonte. É lançado um selo postal comemorando o Centenário de O Evangelho segundo o Espiritismo. É lançado na cidade de Araras o “Anuário Espírita”, editado pelo Instituto de Difusão Espírita. O pastor Martin Luther King recebe o prêmio Nobel da Paz. É criada a Organização para a Libertação da Palestina – OLP. Desencarna a médium Maria Modesto Cravo.

1965 – O Espiritismo sofre perseguições na Península Ibérica, governada por ditaduras, com o confisco e desaparecimento da biblioteca da Federação Espírita Portuguesa. Na Espanha os cultos religiosos não católicos estão proibidos. Chico Xavier e Waldo Vieira partucipam em Uberaba de sessões de materialização com os médiuns Antonio Alves Feitosa e Otília Diogo. 

1966 – J. Herculano Pires e Sylvia Mele Pereira iniciam novas traduções das obras de Allan Kardec. O médium Peixotinho desencarna na cidade de Campos.

1967 – Martin Luther King se manifesta contra a Guerra do Vietnã e prepara a Marcha dos Pobres. Christian Barnard realiza na África do Sul o primeiro transplante de coração.

1968 – Martin Luther King é assassinado em Menphis. Realiza-se em Curitiba o IV Congresso de Jornalistas e Escritores Espíritas. Os “Beatles” tornam-se o maior fenômeno musical do século. É fundada em São Paulo a Associação Médico-Espírita. Cientistas da NASA e RCA  realizam pesquisas com o médium Zé Arigó.

1969 – A astronave Apolo 11, dos EUA, leva o primeiro Homem a pisar na Lua. O Festival de Woodstock, nos EUA, reúne 800 mil jovens no auge do movimento hippie. Desencarna a médium Zilda Gama e o esperantista Ismael Gomes Braga.

1970 – Realiza-se em São Paulo o III Congresso Educacional Espírita.

1971 – Chico Xavier se apresenta no Programa “Pinga-Fogo”, da TV Tupi, e bate recorde nacional de audiência. Desencarna o médium Zé Arigó.

1972 – Chico Xavier e J. Herculano Pires tornam-se a principal atração da 2ª Bienal do Livro, em São Paulo.

1973 – Crise mundial do Petróleo. Começa a Guerra do Yon Kipur, entre árabes e israelenses. É fundada em São Paulo a Aliança Espírita Evangélica. Chico Xavier recebe na Câmara Municipal o título de Cidadão Paulistano. 

1974 – J. Herculano Pires denuncia a publicação de uma edição adulterada de O Evangelho segundo o Espiritismo, publicada pela FEESP.

1975 – Fim da Guerra do Vietnã. Os EUA saem derrotados do conflito com um saldo de 46 mil mortos. Bill Gates e Paul Allen fundam nos EUA a Microsoft, uma das empresas que vão revolucionar a tecnologia de informática. Nos EUA, Edith Fiore inicia experiências terapêuticas de vidas passadas. A pedido da Igreja Católica, a novela da Rede Globo “Roque Santeiro” é censurada e vetada pelo regime militar.

1976 – A TV Tupi leva ao ar a novela “A Viagem”, de Ivani Ribeiro. Em Minas um grupo de sacerdotes católicos faz campanha de boicote contra a “diabólica” novela da TV Tupi, que alcançaria 85% de audiência.

1977 – Rachel de Queiroz torna-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. O presidente Ernesto Geisel fecha o Congresso Nacional. O reverendo anglicano Chad Varah, fundador do “Samaritans” de Londres vem ao Brasil para se reunir com os voluntários do CVV. A agência de publicidade CBB&A cria e divulga anúncios do CVV, elevando em mil por cento o número diário de atendimentos do posto da rua Abolição, em São Paulo.

1978 – A TV Tupi leva ao ar a novela espírita de Ivani Ribeiro, “O Profeta”. Nasce na Inglaterra o primeiro bebê de proveta.

1979 – Desencarna em São Paulo J. Herculano Pires. O Irã torna-se uma república islâmica.

1980 – Começa a guerra Irã-Iraque. Corrida do ouro leva milhares de garimpeiros a Serra Pelada. John Lennon é assassinado em Nova York. No Rio realiza-se o I Encontro e Mostra de Cinema Espírita.

1981 – A IBM lança o seu primeiro PC – computador pessoal.

1982 – A Inglaterra derrota a Argentina na Guerra das Malvinas. Desencarna em São Paulo Edgard Armond. 

1983 – É descoberto, no Instituto Pasteur da França, o vírus da AIDS.

1984 – Congresso brasileiro rejeita a emenda das Eleições Diretas. É fundado em Philadelphia, EUA, a “Allan Kardec Educational Society”.

1985 – Mikail Gorbachev inicia a reforma da URSS através da perestróika e da glasnost. Nova produção da novela de Dias Gomes, “Roque Santeiro”, cujo tema central é indústria da canonização, bate recorde de audiência na televisão.

1986 – Acidente nuclear em Chernobyl espalha nuvem radiativa pela Europa. Carlos Bernando Loureiro funda em Salvador-BA o Círculo de Pesquisas Ambroise Paré, atuando  com vários médiuns, entre os quais José Alberto Medrado, com o qual obteve a materialização do Espírito “Noiva”.

1987 – EUA e URSS assinam acordo histórico para a destruição pacífica de artefatos nucleares.

1988 – O líder ecologista brasileiro Chico Mendes é assassinado no Acre. Divaldo Franco faz conferência na ONU sobre Espiritismo e Parapsicologia.

1989 – A “Revue Spirite” volta a ser editada na França. O ditador romeno Nicolae Ciausescu é deposto e fuzilado. Começa a crise comunista no Leste Europeu. Jaci Régis realiza em São Paulo o I Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. O túmulo de Kardec no Père-Lachaise sofre um atentado a bomba.

1990 – Queda do Muro de Berlim. A Alemanha é reunificada. Tem início nos EUA o Projeto Genoma. Mikhail Gorbachev recebe o Prêmio Nobel da Paz. A reestruturação do sistema de comunicações abre espaço para a veiculação de vários programas espíritas na TV via satélite.

1991 – Começa a Guerra do Golfo Pérsico. Essa década será marcada também pela produção de vários filmes de conteúdo espírita e que se tornaram sucessos de bilheteria como “Ghost”, com Woopie Goldberg; “Além da Eternidade”, de Steven Spilberg; “Morrendo e Aprendendo” e o “O Campo dos Sonhos”.

1992 – Realiza-se no Rio de Janeiro a ECO- 92, reunindo 114 chefes de Estado. O IBGE divulga que 35 milhões de crianças brasileiras vivem na miséria. É criada a União Européia.

1993 – Israel e OLP assinam um acordo de Paz. Acontece o primeiro atentado terrorista no World Trade Center.

1994 – Líderes israelenses e árabes recebem o Prêmio Nobel da Paz.

1995 – Minisonda da NASA penetra a atmosfera do planeta Júpiter. Desencarna no Rio de Janeiro a autora de telenovelas Ivani Ribeiro (Cleyde Alves Ferreira).

1996 – O vocalista brasileiro Renato Russo falece vitimado pela Aids. Surge o coquetel Anti-Aids, 100 vezes mais eficiente do que o AZT. 

1997 – O remake da novela “A Viagem” é levado ao ar pela Rede Globo de Televisão. É inaugurado o Museu Espírita de São Paulo. É realizada na Inglaterra a primeira clonagem de um animal, a ovelha Dolly.

1998 – É realizado em Campinas, São Paulo, o I Congresso Internacional de Vida Passada. O filme “Titanic”, um grande sucesso mundial, faz apologia da imortalidade da alma. 

1999 – O filme “O Sexto Sentido”, sobre o fenômeno da morte, fica em segundo lugar em sucesso de bilheteria. No Brasil foi visto por mais de 4 milhões de expectadores antes de ser lançado em vídeo.

2000 – As Escolas de Aprendizes do Evangelho, da FEESP, Aliança e Setor III, completam 50 anos. A Fraternidade dos Discípulos de Jesus estima em seis mil o número de seus membros que ingressaram pela Aliança Espírita Evangélica. Pesquisas da USP e da Universidade Federal de Juiz de Fora, divulgam a veracidade das curas nas cirurgias espirituais. Divaldo Pereira Franco representa a comunidade espírita no Fórum de Líderes Religiosos do Mundo, em Nova York. Editoras espíritas ganham avenida exclusiva na 16ª Bienal do Livro em São Paulo, cujas vendas ultrapassam a 25 mil unidades. A USE promove encontro de 11 entidades espíritas para a elaboração de uma “Carta de Intenções de Acordo de União pela Difusão da Doutrina Espírita”. A revista Veja publica na edição de 26 de julho, matéria “À nossa moda”, afirmando que a doutrina espírita só deu certo no Brasil e que os fenômenos de Hydesville foram fraudados.

2001 – É realizado em São Paulo o I Encontro Espírita através da união de 25 instituições, 20 editoras e participação de 6.500 pessoas. Um novo atentado terrorista derruba as torres do World Trade Center matando milhares de pessoas em Nova York.

2002 – Em pesquisa popular feita no primeiro semestre, pela Rede Globo – Minas e Telemar, Chico Xavier foi escolhido “O Mineiro do Século”. O seu mais famoso livro, Nosso Lar, alcança a 50ª edição em português com 1,35 milhões de exemplares. O Brasil conquista no Japão o título de Pentacampeão Mundial de Futebol. No mesmo dia, 30 de junho, Chico Xavier desencarna em Uberaba. 

2003 – O líder sindical Luis Inácio Lula da Silva assume a presidência da república do Brasil. O Projeto Genoma Humano é finalizado, com 99% do DNA sequenciado a uma precisão de 99,99%. Desencarna Hernani Guimarães Andrade, cientista espírita brasileiro.

2004 - Criada a rede social Orkut (Site de relacionamentos do Google). Foi criada a rede social Facebook.  Em 26 de dezembro um terremoto no Oceano Índico, seguido de Tsunamis provoca a destruição nos países do Sudeste Asiático. Estimou-se o número de mortos em 400.000 pessoas.

2005- O programa de TV Linha Direta, especializado em famosos casos policiais, exibe a biografia dramatizada do médium Zé Arigó, interpretado pelo ator Antoni Calloni.  Fundação do Youtube, e seu primeiro vídeo. Google anuncia parceria com a NASA para fins de pesquisa espacial.

2006- Foi criado o Microblogging Twitter. Cientistas da Nasa encontram provas de água no planeta Marte. Plutão deixa de ser reconhecido como um planeta pela União Astronômica Internacional, reduzindo o sistema solar para oito planetas.

2007. Criado no Brasil o blog Observador Espírita. Lançamento da Nova História do Espíritismo, pela Editora do Conhecimento. Google Lança o Google Street View. Documento do Vaticano, assinado pelo Bento XVI, declara a Igreja Católica como única Igreja de Cristo na Terra, causando polêmica entre líderes religiosos. 

2008-  Lançamento do filme “Bezerra de Menezes”, de Glauber Filho e Joel Pimentel. O Vaticano disponibiliza ao público arquivos referentes sobre a Inquisição no século XVI. Bill Gates se retira da Microsoft para se dedicar a fins filantrópicos. 

2009- Barack Obama toma posse como presidente dos Estados Unidos da América. A empresa AMD (Advanced Micro Devices) anuncia que o número de utilizadores de Internet alcança 1,5 bilhões. 

2010- Chico Xavier, filme dirigido por Daniel Filho estreia  no dia 2 de abril. Em 6 de maio já havia sido visto no cinema por três milhões de pessoas.  Dilma Rousseff é eleita a primeira mulher presidente no Brasil com 56% dos votos. Nosso Lar, filme dirigido e roteirizado por Wagner de Assis, baseado na obra Chico Xavier e André Luiz foi lançado em 3 de setembro tendo alcançado um público de 1,6 milhão de espectadores nos cinemas em 10 dias de exibição e foi visto por mais de 4 milhões de espectadores nos cinemas.

2011- Lançamento do filme “As mães de Chico Xavier”, de Glauber Filho e Halder Gomes. Terremoto e tsunami atingem a costa nordeste do Japão, com saldo de 10.000 mortos, milhares de desaparecidos e desabrigados. Um dos reatores da usina nuclear de Fukushima explodiu, provocando vazamento radioativo.

2012 – Lançamento do filme “E a vida continua”, do diretor Paulo Figueiredo. O CVV – Centro de Valorização da Vida comemora em São Paulo os 50 anos de atuação no Barsil.  Governo americano fecha o site Megaupload e prende seus criadores, causando invasões do grupo "Anonymous" aos sites do governo e da gravadora Universal Music. Sonda Kepler descobre 26 planetas fora do sistema solar.

2013- Incêndio na boate Kiss foi em Santa Maria-RS mata 242 pessoas e fere 680 outras.  Edward Snowden ex agente da CIA denuncia em entrevistas aos jornais The Guardian e The Washington Post esquema de espionagem realizado pelo governo norte americano em sistemas de comunicação de todo o mundo.

2014- Facebook anuncia a compra do WhatsApp por 16 bilhões de dólares.

2015- Uma série de atentados terroristas ao jornal Charlie Hebdo, e um mercado judaico em Paris, deixa ao menos 19 mortos e 17 feridos, incluindo 3 dos terroristas. Uma policial também foi morta a tiros no sul da capital francesa. Foi o pior ataque terrorista da França desde a Segunda Guerra Mundial.

2016- Lançamento do documentário Data Limite. OMS declara emergência internacional por microcefalia. A Câmara dos Deputados do Brasil decide em plenário pela continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

2017 – Lançamento do filme “ A menina índigo”, do diretor Wagner de Assis.  Coréia do Norte faz um teste com uma bomba de Hidrogênio, seu maior teste nuclear, aumentando as tensões na península corean. Lançamento o livro-ficção  “Estação Amizade”, contando a história de jovens envolvidos com as questões do suicídio. O Programa CVV-Estação Amizade, de prevenção do suicídio entre jovens, recebe o selo “Boas Praticas” da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.  O CVV recebe da Anatel e Ministério da Saúde o número telefônico 188, para uso gratuito em rede nacional de prevenção do suicídio.


 

Livro IV - O MOVIMENTO ESPÍRITA


“Não ouvis já se agitar a tempestade que deve dominar o velho mundo e tragar do nada a soma das iniqüidades terrestres? Ah! Bendizei o Senhor, vós que haveis posto vossa fé em sua soberana justiça e como os novos apóstolos da crença revelada pelas vozes proféticas superiores, ide pregar o dogma novo da reencarnação e da elevação dos Espíritos, segundo tenham bem ou mal cumprido suas missões, e suportado suas provas terrestres (...)” – (Erasto, discípulo de São Paulo e anjo guardião do médium, Paris, 1863) – O Evangelho segundo o Espiritismo. 


A diferença entre Espiritismo e Movimento Espírita surgiu a partir do momento em que Allan Kardec e os Espíritos Superiores definiram e estabeleceram as suas respectivas funções de trabalho. Aos Espíritos caberia a construção doutrinária e, ao Codificador e seus seguidores, a sua formatação e comunicação, através da organização temática, da expressão literária e das suas diversas manifestações sociais. É claro que não haveria uma separação rígida de funções, pois tudo foi feito em conjunto; afinal, Kardec, que era também um membro ativo e opinante do corpo de ideólogos, comandado pelo Espírito Verdade, provavelmente, já havia planificado, anteriormente à sua encarnação, muitos dos trabalhos que materializou mais tarde. Hoje sabemos que também os médiuns, os colaboradores e até mesmo os editores que lhe serviram de apoio foram previamente escolhidos para a tarefa. A Srta. Caroline Baudin, de apenas dezesseis anos, sua irmã Julie Baudin, de catorze, e também as mocinhas Ruth Celine Japhet e Ernance Dufaux, não possuíam nenhuma formação filosófica convencional; eram Espíritos em tarefa missionária que trabalhavam, anonimamente, dóceis e inconscientes, operando as cestinhas que “escreviam” sobre as folhas. Sabendo das implicações sociais do exercício da mediunidade numa sociedade ainda marcada pelos preconceitos e superstições, o Professor Rivail, além de usar o pseudônimo Allan Kardec, também omitiu nas suas obras os nomes das médiuns que possibilitaram a publicação das mesmas. Com isso ele evitava as perseguições que estavam acontecendo no mundo inteiro, sobretudo na América, com as irmãs Fox. 

Antes de vir para a França[1], a família Baudin, residindo nas ilhas Reunião, no Índico, teve sérios problemas com a comunidade onde viviam por causa do surgimento dos fenômenos. O modismo das mesas-girantes já tinha chegado nas colônias. Na casa dos Baudin não poderia ser diferente. Em abril de 1853 Caroline foi correndo avisar o pai que na “mesa rotante” com a qual brincavam havia um Espírito querendo enviar-lhe um recado urgente sobre o navio Bois-Rouge. Era o capitão Régnier, dando a notícia que a embarcação sob seu comando havia naufragado há dez dias nos recifes de Simon’s Bay. O capitão e a tripulação haviam morrido no acidente e este veio pedir preces para os marujos. Charles Baudin desconfiou da notícia preferindo aguardar a confirmação, mas não recusou o pedido de ajuda do Espírito. O capitão disse que a notícia oficial do desastre só viria quatro meses após aquela conversa. O fato e os boatos se espalharam por toda a ilha, através dos criados, tomando rumos imprevistos pela família, porém já conhecidos dos Espíritos que os acompanhavam. A notícia foi confirmada exatamente como o Espírito havia dito. Mas a repercussão na pequena comunidade não teve a mesma reação de entusiasmo que teve entre os Baudin. Charles chegou a ser acusado de tramar o naufrágio com o capitão para receber um lucrativo seguro do navio. O pároco da ilha logo espalhou sua teoria sobre a influência do demônio. Os empregados da fazenda, ex-escravos africanos, iniciaram a prática de rituais para afastar as almas dos marinheiros que queriam vingança. A professora das meninas pediu demissão dizendo aos quatro ventos que trabalhava com uma família de bruxos. A confusão armada pelos Espíritos atingiu em cheio a tranqüilidade dos Baudin. Mas a solução também partiu deles: tempos depois manifesta-se, então, um novo Espírito Guia dizendo-lhes que, em breve, eles iriam para Paris, ajustando-se novos negócios, novos estudos, novas amizades, os noivados de Julie e Caroline e, principalmente, o reencontro de todos como um velho amigo e chefe, desde os tempos dos Druidas. O Guia era Zéphyr, cujo nome tinha sido dado pela Senhora Clémentine Baudin e tinha o significado dos ventos que sopram continuamente naquelas terras longínquas, remanescentes do lendário continente da Lemúria. Profetizando os acontecimentos futuros, o Espírito Guia já havia sentenciado: “Chamam-me pelo que sou: o Zéphyr da Verdade. Anuncio a próxima descida dos eflúvios celestes que a Verdade irradiará pelo mundo”. 

O comandante do navio que levou a Família Baudin, velho amigo de Charles, era parente de Madame Plainemaison. Já em Paris, algum tempo depois, Caroline e Julie, operando sua “mesa rotante”, distraíam-se cantarolando a Marselhesa, enquanto aguardavam a manifestação de Zéphyr. O Espírito surgiu batendo sobre a mesa, no mesmo ritmo do famoso hino revolucionário, escrevendo logo depois: “Nosso dia de glória já chegou. Vamos ter, finalmente, o convívio de nosso velho chefe druida. Sim, ele mesmo em pessoa! Caroline vai atrai-lo”. A pedido dos familiares “Zéphyr” soletrou, em sílabas, um nome até então estranho e desconhecido: “AL-LAN-KAR-DEC”. Ninguém imaginava que, dias depois, ao convidarem o prof. Rivail para uma visita familiar, os Baudin estavam na verdade atraindo o velho chefe druida. 

Comparando a missão das meninas francesas com a tarefa das meninas Fox, na América do Norte, percebemos que as primeiras foram protegidas, naturalmente, pela sua formação e características morais, encerrando discretamente suas atividades, juntamente, com a missão de Kardec. As irmãs Fox, embora tivessem exercido um papel importante no advento histórico dos fenômenos, não eram missionárias. Elas foram escolhidas porque possuíam mediunidade de prova[2] e foram protegidas até certo ponto, mas, sendo pressionadas socialmente, foram sendo seduzidas pelo aspecto exterior desses fenômenos. Kate e Margareth sofreram todos os tipos de humilhações para negarem suas experiências. Os inúmeros fracassos na vida pessoal levaram-nas ao alcoolismo. Margareth chegou a declarar em 1888 ao jornal “New York Herald”[3] que fraudava os fenômenos. Mais tarde reconheceu que não havia suportado as dificuldades financeiras e que, pela sua própria instabilidade emocional, deixou-se convencer por pessoas interessadas em “esmagar o Espiritismo” de que estava sob a influência do demônio. A irmã mais velha, Leah Fox Fish, foi acusada de desviar as irmãs na tentativa de enriquecimento ilícito. No final da vida Kate e Margareth morreram na miséria e talvez tenham sido enterradas como indigentes. Leah teve mais sorte ao ter se casado um homem de posses. Inúmeros Espíritos portadores de mediunidade de prova estavam reencarnados naqueles primeiros tempos do Espiritismo, porém poucos, como sempre, desempenharam suas funções com dignidade e discrição. Como bem demonstrou André Luiz, em Os Mensageiros, as exigências dos sentidos e do mundo exterior desencadeiam no médium em prova uma terrível lista de tentações que lhe servirão de tormento e ao mesmo tempo motivo de resistência e remoção de obstáculos pessoais. A revolta contra as provas; o problema da renda financeira; a interferência familiar através de pressões e chantagens; a sedução pelo sexo, poder e vícios; o medo, a desconfiança e a dúvida; a vaidade e a presunção são apenas algumas das causas mais comuns dos fracassos dos médiuns de prova. Com raríssimas exceções, a maioria desses pioneiros se rendeu aos lucros fáceis do “show business”. Muitos, ao constatarem os limites das suas faculdades em algumas situações, apenas se faziam passar por médiuns. São exemplos reais de como a mediunidade deve ser tratada tanto no plano pessoal como na vida social. 

Mas, na condição de encarnados, Allan Kardec e seus colaboradores não poderiam realizar funções que somente seria possível aos desencarnados, como também estes não poderiam fazê-lo, caso tentassem quebrar os limites da matéria densa. Os limites foram respeitados por ambas as partes, e o trabalho fluiu normalmente, sob a proteção das leis naturais que regem os fenômenos em questão. Em 1859, o Espírito Verdade define o verdadeiro caráter do Espiritismo e estabelece, novamente, os parâmetros desse relacionamento entre os Espíritos e a Humanidade. Nas primeiras palavras da mensagem está contida a essência do movimento, ou seja, o espírito da heresia em oposição determinada contra a ortodoxia. Ele propõe uma reflexão sobre o destino da Doutrina no coração dos Homens, na sociedade humana e a responsabilidade que estávamos adquirindo com a aceitação ou rejeição dos novos conhecimentos: 


“Outrora vos teriam crucificado, queimado, torturado. A força foi derrubada; a fogueira, extinta; os instrumentos de tortura, quebrados. A arma terrível do ridículo, tão poderosa contra a mentira, mover-se-á contra a verdade. Seus inimigos mais terríveis se fecharam num círculo intransponível. Com efeito, negar a realidade de nossas manifestações seria negar a revelação, que é a base de todas a religiões; atribuí-las ao demônio, pretender que o Espírito do mal venha vos confortar, vos desenvolver o Evangelho, exortar-vos ao bem, à prática de todas as virtudes, é simplesmente e felizmente provar que ele não existe. Todo reino dividido contra si mesmo perecerá. Restam os maus Espíritos. Jamais uma árvore boa produzirá maus frutos; jamais uma árvore má produzirá bons frutos. Nada de melhor tendes a fazer do que lhes responder o que respondia o Cristo aos seus perseguidores, quando formularam contra ele as mesmas acusações, e, como ele rogar a Deus que os perdoe, pois não sabem o que fazem.” 


Na mesma ocasião o Espírito falou sobre a responsabilidade coletiva da França com relação a sua missão de renovação do planeta, deixando claro que não se tratava de uma fatalidade, mas uma oportunidade, cuja importância seria cobrada proporcionalmente aos benefícios da revelação. Tudo indica que o líder dos Espíritos moralmente superiores já vislumbrava o futuro do Movimento Espírita na Europa e a possibilidade de transferi-lo para outros lugares: 


“A França leva o estandarte do progresso e deve guiar as outras nações; provam-no os acontecimentos passados e contemporâneos. Fostes escolhidos para serdes o espelho que deve receber e refletir a luz divina, que deve iluminar a Terra, até então mergulhada nas trevas da ignorância e da mentira. Mas se não estiverdes animados pelo amor do próximo e por um desinteresse sem limites; se o desejo de conhecer e propagar a verdade, cujas vias deveis abrir à posteridade não for o único móvel a guiar os vossos trabalhos; se a mais leve reserva mental de orgulho, de egoísmo e de interesse material achar lugar em vossos corações, não nos serviremos de vós, senão como o artista que provisoriamente emprega uma ferramenta defeituosa; viremos a vós até que tenhamos encontrado ou provocado um centro mais rico do que vós em virtudes, mais simpático à falange dos Espíritos que Deus enviou para revelar a verdade aos homens de boa vontade. Pensai nisto seriamente. Descei aos vossos corações, sondai-lhes os mais íntimos refolhos e expulsai com energia as más paixões que nos afastam, senão retirai-vos, antes de comprometerdes os trabalhos de vossos irmãos pela vossa presença, ou a de Espíritos que trairíeis convosco.” 


O Movimento Espírita surge, então, na sua origem mais autêntica, pela ação dos Espíritos, nos episódios de Hydesville, posteriormente, nas mesas-girantes e espalha-se rapidamente pelo mundo inteiro. É transferido definitivamente para o Plano Material nas primeiras edições das obras da Codificação, de cuja propaganda editorial dependeria o sucesso na difusão das idéias. Como objeto de consumo cultural, o livro era a grande expressão da mídia no século XIX, e a cultura literária era, como ainda tem se mantido até hoje, a principal fonte de produção, de comunicação e veiculação do conhecimento. Não bastava escrever coisas interessantes; era preciso conhecer e saber explorar os percursos que essas idéias poderiam fazer, através do livro e do seu mercado consumidor. Como exemplo, lembramos a primeira edição de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin. Publicada em 1859, teve uma tiragem de 1.500 exemplares, a qual foi totalmente esgotada apenas numa tarde. Já a primeira obra de Sigmund Freud não teve a mínima repercussão, durante o lançamento. Não era, apenas, uma questão de conteúdo; era, principalmente, um problema de contexto histórico e mercadológico. No caso de O Livro dos Espíritos Kardec fez um teste editorial para sondar a reação da opinião pública sobre os assuntos ali contidos: publicou uma edição em 18 de abril de 1857, contendo 501 perguntas e aguardou o “feedback”. Tendo confirmado o grande interesse dos leitores e uma reação positiva dos formadores de opinião, Kardec lança em 18 de março de 1860 uma segunda edição, “inteiramente refundida e consideravelmente aumentada”, contendo 1019 questões. Kardec já havia alertado o público sobre a parcialidade da primeira edição, alegando falta de espaço gráfico e o surgimento de novos estudos que complementariam a obra em sua totalidade. 


OS SEIS PERÍODOS


Todas as atribulações pelas quais o Movimento Espírita vem passando foram classificadas pelos Espíritos como “provas” ou “fases de amadurecimento”. Tanto o Movimento quanto a sociedade na qual ele se propagaria seriam gradualmente preparados para uma atuação e aceitação de todos esses ensinamentos renovadores. O tempo e os acontecimentos seriam os principais agentes das transformações. Sobre isso Allan Kardec escreveu[4] que o Espiritismo passaria por cinco períodos de desenvolvimento até chegar no sexto e último, que seria marcado pela sua total aceitação, não como simples prática religiosa, mas como uma ampla referência ética na Sociedade humana. Segundo ele, o Espiritismo já havia superado os dois primeiros períodos, o das “mesas-girantes” e denominado o da “Curiosidade”; e também o “Filosófico”, marcado pelo aparecimento de O Livro dos Espíritos. Naquele momento, em 1863, os Espíritas já estavam vivendo o terceiro período: o de “Luta”, quando os adversários, acordaram da fase dos deboches e, percebendo sua grande penetração em todas as camadas sociais, passam a empreender uma verdadeira cruzada de combate, caracterizada pela cólera e ataques violentos: “sermões furibundos, mandamentos, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de jornais, nada foi poupado, nem mesmo a “calúnia”. Essa luta seria responsável pela construção de um quarto período, o “Religioso”. Este, por sua vez, seria sucedido por um quinto período, o “Intermediário”, que receberia, mais tarde, uma denominação apropriada, caracterizada por realizações que finalmente resultariam no sexto e último período, o da “Regeneração social”. Este, segundo Kardec, abriria a era do século XX: 


“Nessa época todos os obstáculos à nova ordem de coisas queridas por Deus, para a transformação da Terra, terão desaparecido. A geração que surge, imbuída das idéias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que deve inaugurar a vitória definitiva da união, da paz e da fraternidade entre os homens, fundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica. Assim se verão verificadas as palavras do Cristo, pois todas devem ter cumprimento nesta hora, porque os tempos preditos são chegados. Mas é em vão, que tomando a figura pela realidade, buscais sinais no céu: esses sinais estão ao vosso lado e surgem em toda parte.” 


Nesta primeira observação o Codificador fornece as pistas do futuro do Espiritismo, sem, no entanto, dar detalhes de épocas ou datas. Ao se referir ao século XX limitou-se a dizer que ele seria apenas uma era de “abertura” das transformações, sendo também profético ao admitir que o Espiritismo não permaneceria isolado nos centros espíritas como seitas ou grupos de exclusividade religiosa. A denominação “Espírita” dadas aos grupos perderia com o tempo o caráter sectário de “rótulo” e “proselitismo” que tanto atrai, fanatiza e radicaliza, atualmente, muitos setores do Movimento. Isso vale tanto para os herdeiros dos “científicos”, quanto para os herdeiros dos “místicos”. O quinto período, “intermediário”, pode significar uma transformação gradual desse aspecto exclusivista e rotulante, adquirida como mecanismo de defesa no período de luta, pelos adeptos e entidades, para uma ampliação muito próxima do que poderíamos chamar de “ecumenismo” das doutrinas espiritualistas, conservando estas uma grande parte das suas características originais e absorvendo os aspectos universalistas do Espiritismo. Isso quer dizer que, mesmo as entidades e os adeptos da Doutrina Espírita, ainda não conseguiram – apesar de usar a nomenclatura “Espírita” – “vivenciar” plenamente os ensinamentos dos Espíritos Superiores. Essa vivência plena faria com que o Espiritismo superasse o seu caráter puramente doutrinário particularista para atingir o estado puro da universalidade cristã, que é a “regeneração social”. Em outras palavras, nem todos os Homens se tornarão Espíritas no futuro, neste sentido doutrinário restrito e institucionalizado que damos hoje ao Espiritismo. Para regenerar a sociedade antes é preciso regenerar o ser humano. Nesse aspecto, atualmente e também nas próximas décadas, nem a Humanidade, muito menos os Espíritas que fazem parte dela, estão à altura de um processo radical de regeneração. Há muita água para rolar por baixo dessa ponte. Alguns setores já estão acenando para essa realidade, porém ainda são muito ignorados e mesmo combatidos entre nós. Não se sabe certamente o que Allan Kardec quis dizer com “período religioso”, se foi pela tendência de sincretismo com religiões tradicionais, que as pessoas e os grupos manifestam ao ter os primeiros contatos com o Espiritismo; ou se é uma fase de misticismo religioso ou predominância da mística judaico-cristã no Movimento, como reflexo e reação de épocas sociais críticas e de grande propagação do materialismo. Isso se identifica plenamente com as primeiras décadas do século XX, com as violentas repercussões do capitalismo financeiro e tecnológico e também o desenvolvimento do Espiritismo evangélico no Brasil e sua crescente influência externa, como veremos mais a frente. Quanto ao “período intermediário”, queremos crer que ainda não há, hoje, senão alguns pequenos indícios identificados em grupos que combinam conservadorismo e ecletismo, e que procuram desfazer-se, lentamente, do exclusivismo e das ações proselitistas, mas permanecem historicamente “atados” às suas raízes mais remotas. Sobre o “período de regeneração social”, então, nem se fala: acreditamos que o Codificador estaria se referindo, no mínimo, aos dois ou três primeiros séculos do Terceiro Milênio, quando a Sociedade venha a atingir um certo grau de maturidade e boa convivência, estimulada por novas “crises” ou “ondas” do Capital e também pelas tendências que hoje já se manifestam no mundo, como os atuais conceitos de Comunidade, Ética e Cidadania, que vão se delineando nas relações entre os indivíduos e os povos. Nesses conceitos, vivenciados pelas novas gerações de Espíritos mais purificados, com certeza, estarão embutidos os princípios Espíritas. 


“É notável que as comunicações dos Espíritos tenham tido em cada período um caráter especial: no primeiro eram frívolas e levianas; no segundo foram graves e instrutivas; desde o terceiro eles pressentiram a luta em suas várias peripécias. A maior parte das que se obtém hoje nos diversos centros têm por objeto premunir os adeptos contra as manobras de seus adversários. Assim por toda parte é anunciado um resultado idêntico. Esta coincidência, sobre este ponto de vista, como muitos outros, não é um dos fatos menos significativos. A situação se acha completamente resumida nas duas comunicações seguintes, cuja verdade muitos Espíritas já reconheceram”. 


Aqui Kardec se referia às históricas advertências do Espírito de Erasto, discípulo de São Paulo, apóstolo. A primeira mensagem, denominada “A Guerra Surda”, foi dada em Paris, no dia 14 de agosto de 1863 e prepara os militantes para as provas que ele denomina o nosso “Gólgota”. A Segunda mensagem fala especificamente do tema “Obsessão”, cujo alvo principal são os médiuns invigilantes. 

“A luta vos espera, meus caros filhos. Eis porque convido a todos a imitar os lutadores antigos, isto é, a cingir os rins. Os anos que vão se seguir são plenos de promessas, mas, também, de ansiedades. Não venho dizer: Amanhã será o dia da batalha! Não, porque a hora do combate ainda não está fixada, mas venho vos advertir, a fim de que estejais prontos para todas as eventualidades. Até agora o Espiritismo só encontrou uma rota fácil e quase florida, porque as injúrias e as troças que vos dirigem não têm nenhum alcance sério e ficam sem efeito, ao passo que de agora em diante aos ataques que forem dirigidos contra vós terão um outro caráter: eis que vem a hora que Deus vai fazer apelo a todos os devotamentos, em que vai julgar seus servidores fiéis, para dar a cada um a parte que tiver merecido. Não sereis martirizados corporalmente, como nos primeiros tempos da Igreja; não erguerão fogueiras homicidas, como na Idade Média; mas vos torturarão moralmente; levantarão embustes; armarão ciladas, tanto mais perigosas quanto usarão mãos amigas; agirão na sombra e recebereis golpes, sem saber por quem são vibrados e sereis feridos em pleno peito por flechas envenenadas de calúnias. Nada faltará às vossas dores; suscitarão defecções em vossas fileiras e supostos Espíritas, perdidos pelo orgulho e pela vaidade, exibirão a sua independência, exclamando: ‘Somos nós que estamos no reto caminho’. Tentarão semear o joio entre os grupos, provocando a formação de grupos dissidentes; captarão os vossos médiuns para fazê-los entrar num mal caminho e para os desviar dos grupos sérios; empregarão a intimidação para uns, a captação para os outros; exploração de todas as fraquezas. Depois, não esqueçais, que alguns viram no Espiritismo um papel a desempenhar, e um primeiro papel, que hoje experimentam mais de uma desilusão em sua ambição. De um lado lhe será prometido o que não puderem achar no outro. Depois, enfim, com dinheiro, tão poderoso no século passado, não poderão encontrar comparsas para representar indignas comédias, a fim de lançar o descrédito e o ridículo sobre a doutrina. 

Eis as provas que vos esperam, meus filhos, mas das quais saireis vitoriosos, se, do fundo do coração, implorardes o socorro do Todo-Poderoso. Eis por que vo-lo repito de todo o coração: meus filhos, cerrai fileiras, sobreponde-vos, porque é o vosso Gólgota que se ergue; e se não fordes crucificados em carne e osso, sê-lo-eis nos vossos interesses, nas afeições, na honra! A hora é grave e solene; para trás, então, todas as mesquinhas discussões, todas as perguntas ociosas e todas as vãs pretensões de preeminência e de amor próprio; ocupai-vos dos grandes interesses que estão em vossas mãos e cujas contas o Senhor vos pedirá. Uni-vos para que o inimigo encontre vossas fileiras compactas e cerradas; tendes uma palavras de ligação sem equívoco, pedra de toque, com o auxílio da qual podeis reconhecer os verdadeiros irmãos, pois esta palavra implica abnegação e devotamento e resume todos os deveres do verdadeiro Espírita.

Coragem e perseverança, meus filhos! Pensai que Deus vos olha e vos julga; lembrai-vos também que os vossos guias espirituais não vos abandonarão enquanto vos acharem no caminho certo. Aliás, toda essa guerra terá um só tempo e voltar-se-á contra os que julgavam criar armas contra a doutrina. O triunfo, e não mais o holocausto sangrento, irradiará no Gólgota espírita. 

Até breve, meus filhos; saúde a todos. 


Fronstispício e sumário de um edição de 1925



A “REVUE SPIRITE” 

“Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito”. 


O Espiritismo estava já em pleno movimento. O trabalho de continuidade seria realizado, a partir de 1858, com a fundação da “Revista Espírita”, em 1º de janeiro, e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de abril do mesmo ano. Ali Kardec pôs em prática o seu lado brilhante de comunicador e de relações públicas. Naquela época, já utilizava recursos de marketing como a mala-direta, folhetos e a promoção de vendas. 

Na Revista Espírita, que tinha como subtítulo “Jornal de Estudos Psicológicos” e a proposição filosófica acima citada, aplicou um jornalismo nos moldes acadêmicos atuais e também assessorava centenas de Sociedades Espíritas espalhadas pelo mundo, recebendo inúmeras informações dos assinantes. Pouco antes de lançar o primeiro número, em 1858, Kardec manifestava uma preocupação profética sobre um possível desvio dos objetivos iniciais da publicação. Em 15 de novembro de 1857, na casa do Sr. Dufaux, consulta os Espíritos, através da mediunidade da jovem Ernance Dufaux. Os conselhos do Espírito e as primeiras experiências de Kardec são também ótimos exemplos para quem pretende atuar no campo da Comunicação Espírita: 


“P. – Tenho a intenção de publicar um jornal espírita. Achais que o conseguirei e me aconselhais a fazê-lo? A pessoas a que me dirigi, o Sr. Tiedeman, não parece resolvido a me dar o seu concurso pecuniário. 

R. – Sim. Com perseverança o conseguirás. A idéia é boa, mas é preciso deixá-la amadurecer mais. 

P. – Receio que outros me levem dianteira. 

R. – É necessário providenciar. 

P. – Não desejo outra coisa, mas falta-me tempo. Tenho dois empregos que me são necessários, como sabeis. Desejaria poder renunciar a eles a fim de poder me consagrar inteiramente à obra, sem qualquer preocupação estranha. 

R. – Não será preciso abandonar nada, por enquanto. Sempre se acha tempo para tudo. Mexe-te e o conseguirás. 

P. – Devo agir sem o concurso do Sr. Tiedeman? 

R. – Age com ou sem ele. Não te preocupes: podes dispensá-lo. 

P. – Eu tinha intenção de fazer um primeiro número de experiência, a fim de dar início ao jornal em uma certa data, podendo continuar mais tarde, se conviesse. O que achais disso? 

R. – A idéia é boa, mas um primeiro número não será suficiente. Entretanto será útil e mesmo necessário porque abrirá caminho para o restante. É preciso fazê-lo com o máximo de cuidado, de maneira a lançar as bases para um sucesso duradouro. Se for mal feito melhor seria que não o fizesses, porque a primeira impressão que causar poderá decidir de seu futuro. É preciso que seja dedicado, sobretudo no começo, a satisfazer a curiosidade. Deve conter tanto o sério como o agradável. O sério interessa aos homens de Ciência e o agradável distrai o vulgo. Essa parte é essencial, mas a outra é mais importante, pois sem ela o jornal não teria uma base sólida. Numa palavra, convém evitar a monotonia usando a variedade, reunir a instrução sólida ao interesse. Será para os teus trabalhos ulteriores um poderoso auxiliar. 


Nota – Apressei-me em redigir o primeiro número, e o fiz aparecer em 1º de janeiro de 1858, sem ter dito nada a ninguém. Não tinha um só assinante, ou algum capitalista que me fornecesse os fundos necessários. Fi-lo, pois, inteiramente por minha conta e risco, e não tive motivo para me arrepender, pois o sucesso ultrapassou minha expectativa. A partir de 1º de janeiro, os números sucederam sem interrupção, e, como havia previsto o Espírito, o jornal tornou-se para mim poderoso auxiliar. Reconheci mais tarde que tinha sido uma felicidade eu não haver encontrado financiador, porque fiquei mais independente, ao passo que um estranho poderia ter querido impor-me suas idéias e sua vontade, entravando-me o andamento do trabalho. Sozinho não tinha que prestar contas a ninguém, por mais pesada que fosse minha tarefa, como trabalho.” 


Realmente foi uma tarefa árdua. Allan Kardec trabalhou sozinho do primeiro ao último número dirigido por ele, o qual deixou pronto pouco antes do seu desencarne, em 31 de março de 1869. Escreveu centenas de artigos de esclarecimentos, reproduziu valiosas mensagens de Espíritos sobre diversos assuntos, noticiou dezenas de acontecimentos marcantes, respondeu a muitos ataques com elegância e respeito aos adversários, sempre demonstrando a tranqüilidade de quem cumpria um dever acima das imperfeições humanas. Dava atenção especial às correspondências vindas dos lugares mais distantes ou desconhecidos, nas quais via uma excelente oportunidade para demonstrar a universalidade do Espiritismo. Uma dessas correspondências, enviada de Lima, no Peru, tornou-se famosa pelo seu conteúdo muito curioso. O correspondente Dom Fernando Guerreira escreve relatando sua experiência ao ensinar o Espiritismo para uma comunidade de indígenas descendentes dos Incas. Dom Fernando os classifica de “selvagens”, porém fica espantado ao perceber que eles demonstram uma grande capacidade de compreensão dos ensinamentos traduzidos de O Livro dos Espíritos e que, desses ensinamentos, manifestavam uma necessidade de transformação moral. Dom Fernando conta que, para eles, a idéia da reencarnação lhes parecia muito natural. Um dos indígenas perguntou-lhe se, após a morte, poderia renascer entre os brancos. O correspondente disse que sim, e o indígena concluiu que D. Fernando poderia ser, então, um parente deles e que o fato dele ser bom e amado por eles era também resultado da reencarnação. Mais ainda, o indígena percebeu que nenhum deles deveria fazer mal aos brancos porque, na verdade, talvez algum branco poderia ser um dos seus irmãos. 

Casos como esse enviado do Peru demonstravam a grande repercussão que o Espiritismo teve naquela época, proporcionalmente mais do que hoje, se considerarmos as diferenças de recursos de comunicação e do contingente populacional daquele tempo. A Revista, dentro dos seus limites, procurava dar ampla cobertura de tudo que acontecia em torno do Espiritismo, mantendo-se atenta quanto aos fatos positivos ou negativos que poderiam abalar a imagem da Doutrina. Os inimigos, de plantão, estavam dispostos a criar confusões e deturpar as informações; Kardec fazia o oposto, observando tudo o que se passava e colocando, o tempo todo, as coisas em pratos limpos. Se as obras da Codificação representam o conjunto teórico-científico do Espiritismo, a Revista Espírita pode ser considerada o seu principal acervo documental, contendo os fatos e os números que comprovam e ampliam todo o conjunto de conhecimentos formatados nos livros fundamentais. 

Chega a ser surpreendente constatarmos hoje que, naquele contexto histórico, em que as múltiplas ideologias tomavam de assalto a Sociedade, no geral, a opinião pública se dividia somente entre duas correntes de idéias: o Materialismo e o Espiritismo. Essa informação veiculada na Revista Espírita não era uma opinião isolada de Kardec nem dos Espíritas da época, mas um diagnóstico compartilhado por todos os grupos que discutiam naquele momento crítico a ética e o conhecimento: cientistas, filósofos, artistas, religiosos e políticos. O Materialismo era a principal referência dos que negavam Deus e as teorias sobre a Criação; o Espiritismo servia de referência para todos aqueles que tentavam, cada um a seu modo, mostrar os limites do conhecimento científico materialista. Mesmo os não Espíritas, quando as discussões não se aprofundavam em questões religiosas ou dogmáticas, acabavam apelando para alguns conceitos e experiências resultantes dos fenômenos mediúnicos para defenderem seus pontos de vista. A Revista Espírita a tudo observava atenta e tranqüilamente, separando os excessos e chamando as polêmicas para o terreno da sobriedade e bom senso. Quando surgiu a primeira estatística sobre os dados relativos ao crescimento social do Espiritismo, publicada em janeiro 1869, Allan Kardec deu a ela um tratamento imparcial, reconhecendo certos limites, alguns exageros e, também, a necessidade de correções. Ainda assim, surpreende a quantidade de pessoas que adotavam a Doutrina como referência de cosmovisão, mesmo não sendo Espíritas no sentido ideológico que damos hoje a essa palavra. Como era impossível, segundo o próprio Kardec, levantar uma enumeração exata dos Espíritas – pois bastava ser simpatizante –, optou-se por uma análise da proporção relativa, um método qualitativo que não é totalmente exato, mas, respeitando-se as proporções, chega-se aos resultados desejados. O levantamento foi feito em cima de “mais de dez mil observações”, extraídas das correspondências e das relações mantidas pela Revista e pela Sociedade. Kardec também revela que o número de adeptos, pessoas que aceitavam o Espiritismo como conhecimento de causa, centuplicou-se num período dez anos. Para demonstrar essa evidência, comenta: “Esse número aumenta dia-a-dia, numa proporção considerável: é um fato positivo, reconhecido pelos próprios adversários: a oposição diminui, prova evidente de que a idéia encontra mais numerosas simpatias.” O Codificador também toca no assunto das pessoas que trazem o Espiritismo como “idéias inatas”, que nunca ouviram falar da Doutrina, não as aprenderam em grupos, porém revelam um conhecimento que não poderia estar pré-concebido no cérebro. 

Os dados da pesquisa publicada na “Revue Spirite” foram também apreciados na época por um jornal parisiense chamado “La Solidarité”, de 15 de janeiro de 1869, trazendo o seguinte comentário: 


“Lamentamos não poder reproduzir, por falta de espaço, as reflexões muito sábias que o Sr. Allan Kardec acrescenta a essa estatística. Limitar-nos-emos a constatar com ele que há espíritas em todos os graus da escala social: que a grande maioria dos espíritas se acha entre pessoas esclarecidas e não entre os ignorantes: que o Espiritismo se propagou por toda parte, de alta a baixo na escala social: que a aflição e a infelicidade são os grandes recrutadores do Espiritismo, em conseqüência das consolações e das esperanças que ele dá aos que choram e lamentam; que o Espiritismo encontra mais fácil acesso entre os incrédulos em matéria religiosa que entre as pessoas que têm uma fé fixa: enfim, que depois dos fanáticos, os mais refratários às idéias espíritas são as criaturas cujos pensamentos estão todos concentrados na posse e nos prazeres materiais, aliás seja qual for a sua condição.” 


E num trecho mais adiante conclui: 

“Engana-se muito a Revista Espírita quando estima apenas em seis ou sete milhões o número de espíritas para o mundo inteiro. Evidentemente se esquece de contar a Ásia. Se pelo termo espírita entendem-se as pessoas que crêem na vida além-túmulo e nas relações dos vivos com as almas das pessoas mortas, há que contá-los às centenas de milhões”. 


A partir de abril de 1869 a “Revue Spirite” continuou sendo publicada nos mesmos padrões até o início da década de 1920. Um dos seus editores mais destacados foi Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), que assumiu a tarefa logo após o desencarne de Kardec, e dirigiu-a durante 30 anos. Seu trabalho foi acompanhado com extrema dedicação por sua esposa, Marina Leymarie, que assumiu a direção da revista até 1904, transferindo o trabalho para Paul, o filho do casal. Foi Leymarie o divulgador mais entusiasta das experiências de Willian Crookes e também dos primeiros ensaios de fotografia espírita. 

Mas a década de 1870 seria um dos períodos mais difíceis do Movimento Espírita, marcado por uma intensa reação do clero e perseguições que tentavam, a todo custo, desmoralizar o Espiritismo perante a opinião pública. Os Espíritos já haviam alertado para a necessidade dessas provas, já que elas seriam importantes na efetivação da moral espírita na sociedade. Nos tempos de juventude, o novo editor da “Revue Spirite” militara como republicano e, por este motivo, tinha sido exilado da França. Anistiado e de volta à pátria, interessa-se pela Doutrina e passa a freqüentar as famosas reuniões da rua Saint-Anne, juntamente com outros dois jovens médiuns: Camille Flammarion e Victorien Sardou. Leymarie tornar-se-ia mais tarde um bode expiatório, assim como o célebre caso Dreyfus[5], e também o mais conhecido exemplo de inúmeros outros nos quais os espíritas seriam envolvidos pela malícia e interesses menos dignos dos seus adversários. Mais tarde esses fatos seriam relatados fielmente por Marina Leymarie na obra “Procès des Spirites”.[6] Usando a fraude técnica na obtenção de fotografias de Espíritos, o médium-fotógrafo Édoard Buguet foi preso pela polícia francesa. No processo movido pelo Ministério Público em 1875, contava como cúmplices o Sr. Firman, médium de efeitos físicos, e o editor Leymarie. Buguet havia abusado da confiança de Leymarie para obter parte do seu material apreendido. O processo foi uma sucessão de acusações distorcidas e depoimentos falsos dados por pessoas hostis ao Espiritismo, inclusive de Buguet. Tudo estava planejado para que Leymarie fosse condenado, mas a verdadeira intenção era condenar o Espiritismo perante a opinião pública. A própria esposa de Allan Kardec, Amélie Boudet, já bastante idosa, foi intimada como testemunha e muito maltratada no seu interrogatório. Todos foram condenados. Burguet livrou-se da prisão transferindo-se para Bruxelas; Firman também foi libertado usando de influências familiares. Leymarie permaneceu preso e, mesmo recorrendo a tribunais superiores, permaneceu condenado. Tinha sido detido em Paris, na prisão de Mazas, em 22 de abril de 1875 e, um ano depois, exatamente no mesmo dia e na mesma hora, dera entrada na prisão de la Santé. Cumprida a pena de um ano, a condenação seria anulada. Já em Bruxelas, Buguet decidiu escrever ao Ministro de Justiça da França inocentando Leymarie e confessando que, mesmo sendo médium e fotógrafo, porém sem compromisso moral com a doutrina espírita, realmente tinha utilizado a fraude numa parte do seu material para obter resultados financeiros: 


“Antes, e logo após a minha prisão, sentia-me muito indisposto, o que me havia levado, há algum tempo, a servir-me de subterfúgios para suprir minha mediunidade; infelizmente, eu era comerciante e médium, e lamentava deixar, sempre que a minha mediunidade falhava, partir os clientes com a importância que seria minha. Foi em tais condições que a polícia me surpreendeu, e tive de mostrar-lhes o que se denominava meu truque; aconselharam-me, vivamente, a prosseguir naquele mesmo caminho porque – disseram-me – não seria condenado. As celas da prisão e as Mazas produziram sobre mim o mais triste efeito; preferia antes morrer do que passar um ano inteiro nelas; também na fase de instrução me foi repetido que deveria sustentar a inexistência de mediunidade, pelo que eu não seria condenado senão a uma simples multa e que, se eu dissesse ao contrário, iria para a prisão; acreditei, pois, que, negando a minha mediunidade, os senhores Leymarie e Firman seriam liberados, de vez que não se poderia condená-los mais do que ao principal acusado.” 


Amélie Boudet, revelando uma admirável lucidez e prova da sua atuante posição no movimento espírita, também fez questão de deixar registrado no tribunal esse depoimento no qual denuncia os abusos de autoridade e reivindica a tradição de justiça francesa: 

“Declaro que o Senhor Presidente da Sétima Câmara Correcional não me deixou livre para bem desenvolver o meu pensamento, pois, em meu interrogatório introduziu reflexões estranhas ao debate e desejou ridicularizar o Senhor Rivail, conhecido como Allan Kardec, fazendo dele um simples compilador e negando o seu título de escritor. Protesto energicamente contra essa maneira de interrogar e solicito ser ouvida novamente, porque é costume na França respeitar as senhoras, sobretudo quando têm cabelos brancos. Não se deveria interromper-me e mandar-me sentar, após terem divertido com o que considero inatacável, ou seja, o direito de ter feito construir um túmulo para o meu companheiro de provações, para o esposo estimado e honrado por homens do mais alto valor.” 


Com o desaparecimento gradual dos principais seguidores de Kardec, a “Revue Spirite” foi perdendo a sua força editorial e afastando-se da sua linha essencialmente espírita. Isso aconteceu nas três décadas nas quais a França passou por graves problemas sociais, incluindo as duas guerras mundiais. Nos anos 1950 a revista tornou-se propriedade particular de Hubert Forestier, que na época presidia a União Espírita Francesa, fundada em 1883 por Gabriel Delanne. Nessa nova fase a revista perde o seu caráter essencialmente Espírita e se desvia dos seus objetivos iniciais. A própria União Espírita Francesa mudaria seu nome em 1976 para “Union Scientifique Francophone pour l’Investigation Psychique et l’Etude de la Survivence de l’Ame”. A “Revue Spirite” foi substituída pela “Renaître 2000”. Como se observa, pelo próprio nome, a nova entidade volta a estaca zero, ignorando toda as investigações históricas feitas por Kardec e nomes consagrados da comunidade científica da época. Os aspectos filosófico e religioso são praticamente esquecidos. Atualmente, após longas disputas judiciais e um amplo esforço de reorganização, a “Revue Spirite” e “Union Spirite Française at Francophone” voltaram para as mãos de militantes espíritas como Roger Perez, que atuava no Marrocos, e Claudia Bonmartin[7], uma brasileira radicada em Paris. Trata-se de um resgate do espírito original do Movimento Espírita, que pretende, através da colaboração de assinantes, fazer circular a revista no mundo inteiro, em vários idiomas. No Brasil os números antigos da “Revue Spirite”[8] foram preservados em 12 volumes, em formato em livro, com textos traduzidos por Júlio de Abreu Filho[9]. A iniciativa de tradução foi de Herculano Pires, que considerava o heróico trabalho feito por Abreu com o marco de uma nova era do Espiritismo na América Latina. Nos longos e cansativos anos de tradução e nas 4.800 páginas traduzidas estava guardada a História do Espiritismo. Herculano complementou essa tarefa solicitando a ajuda de especialistas franceses para comparar as traduções com os originais. Não satisfeito com algumas passagens, Herculano decidiu empreender ele mesmo um trabalho perfeccionista de revisão e acabamento no texto final. Na apresentação primeiro volume, o dedicado intérprete de Allan Kardec define assim a importância da histórica coleção jornalística: 


“Até agora, entretanto, essa obra era simples raridade bibliográfica, reservada ao conhecimento de alguns privilegiados que a possuíam no original francês. E é inacreditável que no Brasil, onde o Espiritismo encontrou por assim dizer o clima espiritual mais apropriado ao seu desenvolvimento, só agora a Revista Espírita seja colocada ao alcance do público, em tradução para a nossa língua. Kardec revela, como vimos que a Revista foi o seu mais importante instrumento de pesquisa, verdadeira sonda para a captação das reações do público, ao mesmo tempo que instrumento de divulgação e defesa da Doutrina. Mais do que isso, porém, constitui-se numa espécie de laboratório em que as manifestações mediúnicas, colhidas à luz dos princípios de O Livro dos Espíritos e controladas pelas experiências da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e pelas novas manifestações espirituais recebidas.” 


A SOCIEDADE DE ESTUDOS ESPÍRITAS DE PARIS 


Para Allan Kardec a fundação de uma Sociedade representava não só uma solução para o problema de espaço físico e legal, mas um passo importante na consolidação do movimento e propaganda do Espiritismo, através de decisões planejadas e da qualidade das comunicações mediúnicas que nela poderiam acontecer, como realmente se concretizou. 

Também encontramos nesse acontecimento o modelo institucional dos primeiros centros e entidades federativas que viriam ser fundadas em vários países, bem como dos problemas resultantes das diferenças de personalidade e objetivos pessoais dos seus membros. 

Mas na sua essência a Sociedade de Paris funcionava como um autêntico centro espírita, com sessões públicas ou privativas, de acordo com a ocasião. Por ter sido uma realização estreitamente ligada aos eventos históricos e proféticos da Codificação, a Sociedade contava com um corpo de membros encarnados e desencarnados de alta responsabilidade em relação aos trabalhos que seriam ali desenvolvidos no decorrer de alguns anos. 

Os nomes dos médiuns notáveis, bem como dos sócios mais atuantes eram constantemente publicadas na Revista Espírita, ainda que o anonimato protegesse alguns, que eram citados por letras iniciais de pseudônimos. Todas as sociedades que se formaram em outras localidades e que a ela se ligava por laços de afinidade também foram incluídas como braço útil do grande empreendimento do Espírito de Verdade. Sob sua liderança ali se manifestavam todas as ideias que poderiam ser de utilidade educativa naquele contexto e servir também como exemplo para a organização do Movimento Espírita no futuro. 

As Entidades que formavam a equipe do Espírito de Verdade eram todas de elevada hierarquia espiritual, provavelmente originárias de esferas espirituais onde estão guardados os registros e programas evolutivos, individuais e coletivos dos povos. Foram especialmente reunidos num contexto histórico de grande importância no destino da Humanidade. Tinham amplo conhecimento pessoal e acesso irrestrito à informações de ordem cármica; possuíam autoridade para invocar Espíritos em diversas condições e circunstâncias e dar esclarecimentos sobre inúmeras questões de ordem filosófica, religiosa ou científica. 

Quando algum acontecimento de natureza grave ameaçava a harmonia dos trabalhos ou deturpação de conteúdos, o próprio Espírito de Verdade intervinha com suas exortações. Muitos desses acontecimentos foram registrados nos livros da Codificação, como referências didáticas e na Revista Espírita, como documentos históricos. Eles só voltariam a se comunicar em épocas de gravidade ou em apoio à trabalhos missionários de complementação social da obra de Allan Kardec. Não é de se estranhar, portanto, que, na atualidade, não haja tanta facilidade para a comunicação dessa plêiade de Espíritos que se manifestaram naquela época. 

Nos primeiros seis meses as reuniões aconteciam na residência de Kardec, na rua dos Mártires, tendo como médium principal a Srta. Dufaux. Conta-nos o Codificador que havia espaço apenas para 15 a 20 pessoas, mas, com freqüência, agrupavam-se umas 30, incluindo entre elas “príncipes estrangeiros e outras distintas personalidades”. Como explica Herculano Pires, também não era de se estranhar, pois a capital francesa era o centro cultural do mundo e Allan Kardec tornou-se, naturalmente, um alvo de interesse mundial, sendo procurado por figuras de destaque da política, dos meios intelectuais e das artes. Mesmo assim, nunca se deixou levar pela vaidade para tirar proveito do seu prestígio. Ao contrário, tratava a todos com igual consideração e respeito, procurando esclarecê-los sobre a nova Ciência que fundava e também com cuidado de não envolver o Espiritismo em escândalos públicos. 

O regime político do II Império era mais brando, segundo Christiansen, “uma tirania silenciosa – raramente bestial, freqüentemente piedosa, às vezes genuinamente benevolente – para que os prósperos e egoístas pudessem ignorar com facilidade, pois propiciava muita diversão e muito lucro para que alguém se dispusesse a agir em sentido contrário”. 

O Imperador sabia de tudo, ou quase tudo, que se passava na cidade. Assim como fazia questão de exibir publicamente suas amizades e hóspedes no famoso château de Compiàgnig, também recebia-os no palácio para conversas reservadas, como se fosse assunto de Estado. Diversas vezes Allan Kardec realizou visitas ao Imperador, com quem mantinha encontros amistosos, juntamente com outras personalidades de Paris. 

Quando a censura barrou o livro de Ernance Dufaux, sobre “A vida de São Luís”, Napoleão quis conhecê-la pessoalmente, apesar dos protestos da imperatriz, a espanhola e católica Eugênia de Montijo. No Palácio de Fontenebleau, Ernance psicografou uma mensagem do próprio Napoleão Bonaparte, o tio, respondendo, em grande parte as inquirições mentais que só o sobrinho encarnado conhecia. Um dos guias espirituais da médium era um certo Javary, norte-americano ligado a Franklin, cuja missão era unir o espiritualismo da América com o magnetismo francês. Javary disse também que trabalhou muito para influenciar Napoleão III, pela inspiração, a ceder o território da Louisiania para os Estados Unidos. Esse era o período da “evolução liberal” (1860 a 1869), em que o imperador francês deu algumas garantias de liberdade aos cidadãos. Posteriormente, sufocado pelas contradições internas e pela malícia diplomática de Otto Bismarck, Napoleão III mergulharia a França na guerra que culminaria no desastre de Sedan, em 1870 e na revolta dos “communards”. 

Sobre a instalação da Sociedade Espírita, Allan Kardec conta que um certo “general X”, na época Ministro do Interior do II Império, era simpático ao Espiritismo e isso facilitou a obtenção de uma licença policial para o funcionamento em local novo e mais apropriado. Um Chefe de Polícia, conhecido do Sr. Dufaux, expediu a licença em apenas 15 dias, quando, pelos canais normais, demoraria cerca de três meses. 

Alguns freqüentadores assumiram as despesas do aluguel em cotas e a Sociedade se instalou, no primeiro ano, na Galeria Valois, do “Palais-Royal”, onde se reuniam às terças-feiras. Depois, no segundo ano, transferiram-se, também no “Palais-Royal”, para um dos salões do restaurante Donix, na Galeria Montpensier e, finalmente, em local próprio, na rua e galeria Sant’Ana, nº 59. Já nas reuniões iniciais percebia-se a falta de homogeneidade do grupo, composto de pessoas que eram admitidas sem nenhum critério específico, a não ser o da boa vontade. Isso resultou, segundo Kardec, em “inúmeras vicissitudes” e “não poucos obstáculos” ao seu trabalho. Entenda-se aqui os desentendimentos e a influência de Espíritos perturbadores sobre alguns membros menos esclarecidos e invigilantes. 

Sobre esse problema, Allan Kardec preferiu ser discreto nos detalhes particulares, nos momentos mais delicados, porém não se omitiu quanto a busca de uma solução mais abrangente. Em 1868, propõe um projeto para a Sociedade Espírita onde, na introdução, aponta as causas e antecipa as futuras divergências que tumultuariam o Movimento Espírita nas décadas seguintes, principalmente no Brasil, onde o seu crescimento seria mais perceptível. 

“Um dos maiores obstáculos que podem entravar a propagação da Doutrina é a falta de unidade. O único meio de evitá-lo, se não no presente, pelo menos no futuro, é formulá-la em todas as suas partes e até nos menores detalhes com tal precisão e clareza que toda interpretação divergente se torne impossível”. 


Citando o Cristianismo como exemplo desses desvios no passado, pela falta de precisão na sua organização, Kardec define o papel futuro do Espiritismo: 


(...) Só o Espiritismo, bem entendido e bem compreendido, pode remediar este estado de coisas e tornar-se, como disseram os Espíritos, a grande alavanca da transformação da Humanidade. A experiência deve esclarecer-nos quanto à marcha a seguir. Mostrando-nos os inconvenientes do passado, ela no diz claramente que o único meio de evitá-los para o futuro é assentar o Espiritismo nas bases sólidas de uma doutrina positiva, nada deixando ao arbítrio das interpretações. As dissidências que poderiam surgir fundir-se-ão por si mesmas na unidade principal que será estabelecida sobre as bases mais racionais, se estas bases forem claramente definidas e não deixadas na imprecisão. Resulta ainda dessas considerações que essa marcha, dirigida com prudência, é o mais poderoso meio de lutar contra os antagonistas da Doutrina Espírita. Todos os sofismas irão quebrar-se contra os princípios aos quais a razão esclarecida nada teria a censurar.” 


Há quem leia e entenda nesse trecho das Obras Póstumas um motivo claro e definido para banir do Movimento Espírita toda e qualquer manifestação diferente daquelas que aconteceram no tempo de Kardec. Outros enxergam, não a exclusão, mas a necessidade de inclusão das diferentes manifestações a fim de que, pela somas das semelhanças e respeito às diferenças, se chegue ao consenso, pelo menos, dos objetivos gerais da Doutrina. No documento de “Constituição do Espiritismo” Kardec também expressou a sua opinião sobre as “divergências” e “convergências” na convivência entre os espíritas: 


“Para assegurar a unidade no futuro uma condição indispensável é que todas as partes do corpo da Doutrina sejam determinadas com precisão e clareza, sem nada ficar mal definido. Por isso procedemos de maneira que os nossos escritos não se prestem a interpretações contraditórias e procuraremos manter sempre essa norma. Quando for dito claramente e sem ambigüidade que dois e dois são quatro, ninguém poderá pretextar que insinuamos que dois e dois são cinco. Podem formar-se, paralelas à Doutrina seitas que não adotem os seus princípios, ou todos os seus princípios, mas não dentro da Doutrina por questões de interpretação do texto, como se formaram tantas pelo sentido que deram às próprias palavras do Evangelho (...) Se, portanto, formar-se alguma seita a seu lado, fundada ou não sobre os princípios do Espiritismo, acontecerá uma de duas coisas: ou esta seita estará com a verdade, ou não estará. Se não estiver, sucumbirá por si mesma, pela força da razão e do senso comum, como tem acontecido com tantas outras nos séculos passados. Se suas idéias forem justas, ainda que seja num único ponto, a Doutrina, que procura o bem e a verdade onde quer que se achem, assimilá-las-á, de sorte que em vez de ser absorvida é ela que absorve. 

Se alguns de seus membros se separarem é porque acreditam poder fazer melhor. Se realmente fizeram melhor, ela os imitará; se fizerem maior bem, ela se esforçará por fazer outro tanto, e mais ainda, se puder. Se fizerem o mal, ela deixará que o façam, certa de que, mais cedo ou mais tarde, o bem prevalece sobre o mal e a verdade sobre a falsidade. Eis a única luta em que se empenhará. 

Acrescentamos que a tolerância, conseqüência da caridade, que é a base moral espírita, lhe imputa o dever de respeitar todas as crenças. Desejando ser aceita livremente, por convicção e não por coação, proclamando a liberdade de consciência como um direito natural imprescritível ela diz: ‘Se estou com a razão, os outros acabarão por pensar como eu; se estou errado, acabarei por pensar como os outros’. Em virtude desses princípios, não atirando pedras em ninguém, não dará pretexto a represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos”. 


QUEM ERAM OS ESPÍRITAS? 


Em Janeiro de 1867 Allan Kardec publicava na “Revue Spirite” um ensaio denominado “Olhar retrospectivo sobre o Movimento Espírita”. Era uma curiosa análise baseada no comportamento das pessoas que buscavam ou evitavam o Espiritismo, e nas razões que as levavam a fazer tais escolhas. Nitidamente preocupado com a expansão da Doutrina, Kardec abre seu artigo perguntando: “Será esse movimento, como dizem alguns afetadamente, um fogo de palha?” E logo em seguida conclui: “Mas esse fogo de palha já dura há quinze anos e, em vez de se extinguir, sua intensidade aumenta de ano para ano. Ora, não é este o caráter das coisas efêmeras e que só se dirigem à curiosidade.” 

Para ilustrar suas reflexões, o Codificador elabora uma interessante classificação das nuanças que caracterizavam as duas principais correntes ideológicas naquele contexto: o espiritismo e o materialismo. Nelas ele conseguiu distinguir 15 categorias e para cada uma delas apontava “aproximadamente a proporção de adeptos sobre 10, que cada uma fornece ao Espiritismo”. O interessante da avaliação é que ela continua muito atual, levando-se em conta que as razões da aceitação ou rejeição da Doutrina eram mais de natureza pessoal, diríamos psicológicas, e não acentuadamente sociais e exteriores. Em cada uma das camadas encontramos traços de personalidade que interferem na escolha e que representam a diversidade de solos onde o Espiritismo iria lançar suas sementes. Kardec observou que existiam “aquelas junto as quais há um acesso mais ou menos fácil e aquelas contra as quais ele se choca como a picareta contra o granito”. Sobre essas últimas camadas, basicamente refratárias, e cuja soma numérica representava mais ou menos a metade da população, Kardec comenta que somente os novos elementos de renovação da Humanidade e de progresso poderiam facilitar a sua assimilação. Foi dessa análise que surgiria, mais tarde, em Obras Póstumas o famoso ensaio “As Cinco Alternativas da Humanidade”, significando ao mesmo tempo um valioso estudo sociológico do Movimento, bem como um ponto de reflexão para o auto-conhecimento dos adeptos. 


“I - os fanáticos de todos os cultos. - 0 

II – os crentes satisfeitos, com convicções absolutas, fortemente estacados e sem restrições, posto que sem o fanatismo, sobre todos os pontos de culto que professam e com o qual estão satisfeitos. Esta categoria compreende, também, as seitas que, por isso mesmo, abriram cisão e operam reformas, se julgam na posse de toda a verdade, e, por vezes, são mais absolutas do que as religiões mães. – 0 

III - os crentes ambiciosos, inimigos das idéias emancipadoras, que lhes poderiam fazer perder o ascendente que exercem sobre a ignorância. – 0 

IV – os crentes pela forma que, por interesse, simulam uma fé que não têm, e quase sempre se mostram mais rígidos e mais intolerantes do que os religiosos sinceros. – 0 

V – os materialistas por sistema, que se apóiam numa teoria raciocinada e na qual muitos estriam contra a evidência, por orgulho, para não confessar que puderam enganar-se; em maioria, são tão absolutos e intolerantes em sua incredulidade quanto os fanáticos religiosos em sua crença. – 0 

VI – os sensualistas, que repelem as doutrinas espiritualistas e espíritas por medo que elas as venham perturbar em seus prazeres materiais. Fecham os olhos para não ver. – 0 

VII – os despreocupados, que vivem ao dia-a-dia, sem se preocupar com o futuro. Em maioria não saberiam dizer se são espiritualistas ou materialistas; para eles o presente é a única coisa séria. - 0 

VIII – os panteístas, que não admitem uma divindade pessoal, mas um princípio espiritual universal, no qual se confundem as almas, como as gotas d’água no oceano, sem conservar sua individualidade. Esta opinião é um primeiro passo para a espiritualidade e, por conseqüência, um progresso sobre o materialismo. Posto que um pouco menos refratários às idéias espíritas, os que a professam são, em geral, muito absolutos, porque neles é um sistema pré-concebido e raciocinado e muitos não se dizem panteístas senão para não se confessarem materialistas. É uma concessão que fazem às idéias espíritas para salvar as aparências. – 1 

IX – os deístas, que admitem a personalidade de um Deus único, criador e soberano de todas as coisas, eterno e infinito em todas as suas perfeições, mas rejeitam todo culto exterior. – 3 

X - os espiritualistas sem sistema, que não pertencem, por convicção, a nenhum culto, sem repelir nenhum, mas que não têm qualquer idéia assentada sobre o futuro. – 5 

XI – os crentes progressistas, ligados a um culto determinado, mas que admitem o progresso na religião e o acordo das crenças com o progresso das ciências. – 5 

XII – os crentes não satisfeitos, nos quais a fé é indecisa ou nula, sob os pontos de dogma, que não satisfazem completamente à sua razão, atormentada pela dúvida. – 8 

XIII – os incrédulos por falta de melhor, dos quais a maior parte passou da fé à incredulidade e à negação de tudo, por não terem encontrado nas crenças com que foram embalados uma sanção satisfatória para a sua razão, mas dos quais a incredulidade deixa um vazio penoso, que se sentiriam felizes de poder enchê-lo. - 9 

XIV – os livres pensadores, nova denominação pela qual de designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam ligados pelo culto em que o nascimento os colocou sem o seu consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto a mais absoluta incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre pensamento; todo homem que não se guia pela fé e, por isto mesmo, livre pensador. A este título os Espíritas também são livres pensadores. 

Mas para os que podem ser chamados os radicais do livre pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, por assim dizer, exclusiva; para estes, ser livre pensador não é crer apenas no que vê: é não crer em nada; é libertar-se de todo o freio, mesmo do medo de Deus e do futuro; a espiritualidade é um aborrecimento e não a querem. Sob este símbolo da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas; e, coisa singular, é quanto ao nome deste símbolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, lançam a pedra a quem quer que não pensem como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livres pensadores, como os que se dizem filósofos. Eles se dividem, naturalmente, em: Livres pensadores incrédulos, que entram na 5ª categoria. – 0. 

Livres pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional. – 9. 

XV – os Espíritas por intuição, aqueles em quem as idéias espíritas são inatas e que as aceitam como uma coisa que lhes não é estranha. – 10 


Dois anos depois, em janeiro de 1869, a “Revue” publica não menos curiosa e atual Estatística do Espiritismo de nominada “Proporção Relativa dos Espíritas”, baseada em “resultado do levantamento de mais de dez mil observações”, cujos dados são precedidos e complementados de observações de enorme riqueza analítica e que define bem a visão que Allan Kardec tinha da doutrina e do movimento social que naquela ocasião entrava no décimo quinto ano de existência: 


I. – Em relação às nacionalidades. Não existe, por assim dizer, nenhum país civilizado da Europa e da América onde não haja espíritas. Eles são mais numerosos nos Estados Unidos da América do Norte. Seu número aí é calculado,por uns, em quatro milhões,o que já é muito,e por outros em dez milhões. Esta última cifra evidentemente é exagerada, porque compreenderia mais de um terço da população, o que não é provável. Na Europa a cifra pode ser avaliada em um milhão, no qual a França figura com seiscentos mil. Pode-se estimar os espíritas do mundo inteiro em seis ou sete milhões.Mesmo que fosse a metade, a História não oferece nenhum exemplo de uma doutrina que, em menos de quinze anos, tivesse reunido tal número de adeptos disseminados por toda a superfície do globo.Se aí incluíssemos os espíritas inconscientes, isto é, os que só são por intuição, e mais tarde se tornarão espíritas de fato,só na França poder-se-iam contar vários milhões. Do ponto de vista da difusão de idéias espíritas, e da facilidade com que são aceitas, os principais países Europa ser classificados como se segue: 

1º - França. 2º - Itália. 3º - Espanha. 4º - Rússia, 5º - Alemanha. 6º- Bélgica. 7º- Inglaterra. 8º - Suécia e Dinamarca. 9º - Grécia. 10º - Suíça. 

II. – Em relação ao sexo , em 100: homens,70; mulheres, 30. 

III.- Em relação à idade: de 30 a 70 anos, máximo: de 20 a 30, média: de 70 a 80,mínimo. 

IV. – Em relação à instrução: o grau de instrução: o grau de instrução é muito fácil de avaliar pela correspondência. Em 100: instrução cuidada,30; -simples letrados, 30 :- instrução superior, 20: - semi-letrados, 10:- iletrados, 6:- sábios oficiais,4. 

V. – Em relação às idéias religiosas: em 100: católicos romanos, livres pensadores, não ligados ao dogma,50: - católicos gregos, 15: - judeus,10: - protestantes liberais,10: - católicos ligados ao dogma, 10: - protestantes ortodoxos, 3: - muçulmanos,2. 

VI. – Em relação à fortuna, em 100: mediocridade,60: - fortunas médias,20:- indigência,15:- grandes fortunas,5. 

VII. – Em relação ao estado moral, abstração feita da fortuna, em 100: aflitos,60: - sem inquietude, 30:- felizes do mundo,10: - sensualistas, 0. 

VIII.- Em relação à classe social. Sem poder esclarecer qualquer proporção nesta categoria, é notório que o Espiritismo conta entre seu aderente: vários soberanos e príncipes regentes: membros de famílias soberanas e um grande número de personagens tituladas. Em geral é nas classes médias que o Espiritismo conta mais adeptos: na Rússia é mais menos exclusivamente na nobreza e na alta aristocracia e na alta aristocracia: é na França que mais se propagou na pequena burguesia e na classe operária. 

IX.- Estado militar, segundo o grau: 1º - tenentes e sub-tenentes: 2º - sub-oficiais: 3º- capitães: 4º - coronéis:5º- médicos e cirurgiões: 6º - generais:7º- guardas municipais: 8º- soldados da guarda: 9º - soldados de linha. Observação: entre os tenentes e sub-tenentes espíritas estão quase todos na ativa: entre os capitães há cerca de metade na ativa e metade na reserva:os coronéis, médicos, cirurgiões e generais, em maioria na reserva. 

X.- Marinha: 1º - marinha militar: 2º - marinha mercante. 

XI.- Profissões liberais e funções diversas. Temo-los grupados em dez categorias,classificadas segundo a proporção dos aderentes que fornecem ao Espiritismo. 

1º - Médicos homeopatas. – magnetistas (ideologia). 

2º- Engenheiros. – Professores:diretores e diretoras de internatos. – Professores livres. 

3º - Cônsules. – Padres católicos. 

4º - Pequenos empregados . - Músicos. – Artistas líricos.- Artistas dramáticos. 

5º - Meirinhos – Comissários de polícia. 

6º - Médicos alopatas.- Homens de letras. – Estudantes. 

7º - Magistrados. – Altos funcionários. – Professores oficiais e de liceus. - Pastores protestantes. 

8º - Jornalistas.- Pintores. – Arquitetos. – Cirurgiões. 

9º - Notários.- Advogados. _ Procuradores. – Agentes de negócios. 

10º- Agente de câmbio. – Banqueiros. 


XII. – Profissões industriais, manuais e comerciais,igualmente grupadas em dez categorias: 

1º - Alfaiates.- Costureiras. 

2º - Mecânicos. – Empregados de estrada de ferro. 

3º - Tecelões. – Pequenos negociantes.- Porteiros. 

4º - Farmacêuticos. – Fotógrafos.- Relojoeiros. – Viajantes comerciais. 

5º - Plantadores. – Sapateiros. 

6º - Padeiros.- Açougueiros. – Salsicheiros. 

7º - Marceneiros.- Tipógrafos. 

8º - Grandes industriais e chefes de estabelecimentos. 

9º - Livreiros. – Impressores. 

10º- Pintores de casas.-Pedreiros.- Serralheiros. – Merceneiros.- Domésticos. 



DA FRANÇA AO BRASIL 

“No Rio, as pessoas levantam-se antes do sol. Por volta da meia jornada, todos ficam em casa (...) Nessa hora só se encontram na rua, dizem os brasileiros, escravos, cães e franceses. De fato, nada atrapalha a atividade dos nossos compatriotas, que, para cuidar dos seus negócios, enfrentam corajosamente os raios de chama que caem do céu. Eles correm para a alfândega, para os negociantes, para a polícia, onde quer que a sua presença se faça necessária; não têm outra preocupação além dos próprios interesses”. - Charles Expilly in “Le Brésil tel qu’ il est. Paris, 1862. 


Tudo indica que o Sr. Jean Charles Expilly[10], conhecido viajante e escritor, reconhece que a presença dos seus compatriotas no Rio antigo era bem significativa. A afeição deles pela graciosa paisagem carioca vinha do século XVI, quando a famosa expedição invasora de Nicolas de Villegaignon ali aportou em 1555. A colônia, composta por católicos e protestantes calvinistas em constantes rixas, foi instalada na ilha de Serigipe, ganhou a simpatia dos Tamoios, mas não conseguiu estabelecer-se diante das intensas lutas defensivas dos portugueses. A atração dos franceses pela “mais bela baía do mundo”, no dizer de Humberto de Campos, persistiria nos séculos seguintes, mas a preocupação e os interesses desses não se restringiria apenas aos negócios. Como veremos logo adiante, eles teriam um papel importantíssimo na formação cultural do Brasil. 

As famosas viagens que o Codificador fez através da Sociedade Espírita resultaram na formação de novos grupos e de inúmeros jornais espíritas. Segundo Jean Vertier, em O Nascimento do Espiritismo, existiam na época mais de mil sociedades espíritas no mundo inteiro. Quando encarnado, Allan Kardec nunca veio ao Brasil mas, dentre seus colaboradores mais íntimos, existia um grupo que ficou conhecido nas primeiras reuniões ainda domésticas como os “brésiliens”. Também das suas atividades de divulgação surgiu, em 1869, um contato profícuo entre Paris e a Bahia de São Salvador, através do jornal “Echo de D’Além-Túmulo”. Seu redator era Luís Olympio Telles de Menezes, professor e jornalista, que transformou o jornal, além de eixo doutrinário, num corajoso e ativo veículo abolicionista. O jornal trazia estampado em suas edições os seguintes dizeres: 


“O Echo D’Além-Túmulo deduzirá de cada assinatura realizada 1$000, cuja soma será anualmente publicada e destinada para dar liberdade aos escravos, de qualquer cor, do sexo feminino, de 4 a 7 anos de idade, nascidos no Brasil.” 


O Movimento Espírita no Brasil teve seus precursores e uma fase primitiva, quase esotérica, por conta das suas reuniões secretas nos redutos domésticos. A prática do magnetismo e do sonambulismo já era comum desde as primeiras décadas do século XIX. Quando as mesas girantes ainda eram vistas como fruto do sobrenatural, no Ceará, em 1853[11], elas já eram encaradas como veículo de contato natural entre encarnados e desencarnados. O comerciante Smith de Vasconcellos e sua esposa, mais tarde Barão e Baronesa de Vasconcellos, reuniam a elite local para fazer experiências com as mesas dançantes. Entre os participantes encontravam-se o médico homeopata Antonio Paes da Cunha Mamede, os senhores Antonio Eugênio da Fonseca e Antonio Joaquim de Barros, o professor Manoel Caetano Spínola, o vigário Alencar e o Dr. Castro e Silva. Na Bahia, em 1845, na comarca da Mata de São João, foram registradas sessões mediúnicas nos mesmos moldes das primeiras reuniões espíritas. Também nos primeiros tempos o clero católico não dava importância às essas reuniões e até participava delas, pois era coisa da elite endinheirada e de imigrantes franceses muitos bem considerados na Corte. Na década de 1860 o Espiritismo ainda era associado ao magnetismo mesmeriano, à homeopatia e às mesas falantes, novidades européias aparentemente tardias no Brasil, mas ainda inofensivas à poderosa religião de Estado. Entretanto, na Bahia, o Dr. Luís Olímpio e seus companheiros de combate deram um rumo diferente e público ao espiritismo brasileiro. Foi lá, pela situação de conflito com os opositores, que movimento nacional nasceu como atividade política, adquirindo marca ideológica e personalidade de militância social. As lutas que ali se travaram pela imprensa e nos bastidores dos gabinetes políticos e eclesiásticos só teriam um segundo tempo significativo no final do século XIX, no Rio, e nas primeiras décadas do século XX, com as batalhas comandadas por Eurípedes Barsanulfo, em Minas, e Cairbar Schutel, no interior de São Paulo. Ubiratan Machado[12] descreve assim o percurso corajoso do nosso combatente da primeira hora: 


“A vida corria serena e plácida, com os deveres dominicais cumpridos com fervor e pontualidade, quando Luís Olímpio descobriu o Espiritismo. Só então o pacto funcionário demonstrou a sua insuspeitada fibra, revelando-se um professor de energia. Aos 40 anos, idade em que nas pessoas de tendências místicas se acentua a inquietação com o problema da morte e da sobrevivência do espírito, Luís Olímpio se tornou o astro central do sistema planetário espírita baiano. Ao seu redor, gravitavam jovens e homens maduros, oriundos das melhores famílias da terra (...) Foi por essa época (1865) que o grupo, cada vez mais coeso, intensificou a divulgação do Espiritismo. A fé estava firme. Convinha transmiti-la a outros. A hora de chamar e escolher havia chegado. Assim às experiências práticas, Luís Olímpio e seus amigos acresceram uma enérgica ação apostólica. A propaganda utilizava todos os meios disponíveis, da conversa pessoal aos artigos em jornais. No círculo de fiéis, o entusiasmo se tornou delirante quando o próprio Allan Kardec, na Revue Spirite, revelou o seu júbilo com aqueles longínquos discípulos tropicais.” 


Começava, então, uma longa e enigmática história do declínio do Movimento Espírita na Europa e sua gradual ascensão no Brasil. A França, como depositária e agente das mais importantes transformações que o Ocidente já presenciava desde a civilização greco-romana, entrava agora em processo de decadência. Em 1908, pouco antes da Primeira Grande Guerra, Léon Denis[13] já vivia esse terrível período na qual a Civilização da Luz foi se apagando e lamentava o fato da sua pátria ter sido superada pela determinação anglo-saxônica e germânica, desprezando os mais sagrados benefícios de evolução espiritual: 


“A França é, pelo contrário, uma nação de vontade fraca e volúvel. Os franceses passam de uma idéia a outra com extrema mobilidade e a este defeito não são estranhas as vicissitudes de sua História. Seus primeiros impulsos são admiráveis, vibrantes de entusiasmo. Mas, se com facilidade empreendem uma obra, com a mesma facilidade a abandonam, quando o pensamento já vai a edificando e os materiais se vão reunindo silenciosamente ao seu derredor. Por isso o mundo apresenta, por toda a parte, vestígios apagados de sua ação passageira, de seus esforços depressa interrompidos.  Além disso, o pessimismo e o materialismo, que cada vez mais se alastram entre eles, tendem também a amesquinhar as qualidades generosas de sua raça. O Positivismo e o agnosticismo trabalham sistematicamente para apagar o que restava de viril na alma francesa; e os recursos profundos do espírito francês atrofiam-se por falta de uma educação sólida e de um ideal alevantado. Aprendamos, pois, a criar ‘uma vontade de potência’, de natureza mais elevada do que a sonhada por Nietzsche. Fortaleçamos em torno de nós os espíritos e os corações, se não quisermos ver o nosso país votado à decadência irremediável.” 


No final de sua obra o filósofo e herdeiro de Kardec profetiza o futuro e dá mais um grito de alerta aos quatro cantos da sua velha Gália: 


“Vivemos em tempos de crise. Para que as inteligências se abram às novas verdades, para que os corações falem, serão necessários avisos ruidosos; serão precisas as duras lições da adversidade. Conheceremos dias sombrios e períodos difíceis. A desgraça aproximará os homens; só a dor verdadeiramente lhes faz sentir que são irmãos. Parece que a nação segue seu caminho orlado de precipícios. O alcoolismo, a imoralidade, o suicídio, o crime e a anarquia fazem suas devastações. A cada instante, estrungem escândalos, despertando curiosidades novas, remexendo o lodo onde fermentam as corrupções; o pensamento rasteja. A alma da França, que foi muitas vezes a iniciadora dos povos, o seu guia na vida sagrada, essa grande alma sofre por sentir que vive num corpo viciado. 

Ó alma viva da França, separa-te desse invólucro gangrenado, evoca as grandes recordações, os altos pensamentos, as sublimes inspirações do teu gênio. Porque o teu gênio não está morto, dormita. Amanhã despertará! 

A decomposição precede a renovação. Da fermentação social sairá outra vida, mais pura e mais bela. Ao influxo da Idéia Nova, a França encontrará de novo a crença e a confiança. Levantar-se-á maior e mais forte para realizar sua obra neste mundo.” 


Numa extensa reportagem sobre o Espiritismo[14], a revista brasileira “Veja” chama a atenção dos leitores sobre um fato aparentemente inexplicável: por que o Espiritismo, uma doutrina “importada” da França, só deu certo no Brasil? 

Por trás dessa observação estão perguntas ainda mais intrigantes que os autores da matéria jamais teriam condições de responder: primeiro, porque não estavam realmente interessados em compreender e explicar o assunto e, sim, expor superficialmente a atração dos brasileiros pelo Espiritismo que, para eles, foi importado, equivocadamente, somente por ser um produto da França e de conotações pseudocientíficas; segundo, porque os autores da matéria, pela própria ignorância sobre o tema e a urgência de conclusões que a publicação de revistas semanais exigem, nem imaginavam o que se passava para que tal fenômeno social ocorresse. Para eles, tudo foi reflexo de um engano, de uma deturpação religiosa, embora não tenham conseguido explicar suas causas, muito menos entendido porque tantas pessoas sérias simpatizam com a idéia. Essa é uma tendência da historiografia contemporânea, que se reflete de maneira deformada no jornalismo, superficial e inculto. 

Mas, afinal, como o Espiritismo veio parar no Brasil de forma tão diferenciada do que ocorreu em outros países? 

No aspecto sociológico, considerando o marcante contexto em questão, devemos lembrar que a língua francesa era o idioma universal da época. A presença cultural francesa no Brasil foi tão intensa e influente quanto a presença econômica inglesa. As missões culturais francesas iniciadas por D. João VI tiveram plena continuidade no Segundo Reinado, quando D. Pedro II foi dando ao Estado brasileiro um direcionamento inspirado nas experiências conservadoras que ocorriam na França pós-Revolução. Do Código Civil napoleônico, aqui claramente adaptado no período regencial, passando pela utilidade ideológica da Guarda Nacional, a revolução tecnológica da Escola de Minas, não esquecendo logicamente dos hábitos de consumo, o modo cotidiano de vida francês, muito mais ainda o parisiense, era o modelo ideal da burguesia nacional. Nossa aristocracia sofria de um histórico complexo de inferioridade em relação aos europeus, fator agravado pelo nacional-romantismo do século XIX. Tudo que era de origem européia inspirava superioridade cultural e gozava de alto prestígio na sociedade. Quando se tratava do elemento cultural esse prestígio se acentuava. No estímulo ao consumo das constantes novidades parisienses estavam os veículos impressos de comunicação e informação: livros, jornais, revistas, almanaques, manuais de etiqueta social, produtos essenciais para tentar preencher uma enorme e interminável lacuna cultural com um “quê” de sentida nostalgia espiritual. É que, no aspecto psicológico, especificamente de causas psíquicas remotas, os laços entre a Terra de Santa Cruz e a Grande Nação Latina seriam muito mais estreitos do que imagina nossa vã historiografia. Falando desse assunto numa entrevista radiofônica, o médium brasileiro Chico Xavier cita o Espírito Emmanuel, o mesmo autor da revelação sobre aos reais motivos da antiga rivalidade franco-germânica[15]: 


“Perguntei a ele, em 1965, onde estavam aqueles companheiros de Allan Kardec que vibravam com a Doutrina Espírita na França, onde estava aquele contingente de almas heróicas, sublimes, que aceitaram aquelas idéias e as divulgaram com tanto entusiasmo pelo mundo inteiro. Então ele me disse que do último quartel do século 19 para cá, de 15 a 20 milhões de espíritos da cultura francesa, principalmente simpatizantes da obra de Allan Kardec, se reencarnaram no Brasil para dar corpo às idéias da Doutrina Espírita e fixarem os valores da reencarnação. Foi assim que, nos últimos 80 anos, desenvolveu-se entre nós tal amor à cultura francesa, que milhares de nós outros sabemos de ponta a ponta a história da revolução francesa e nada conhecemos a respeito do Marquês de Pombal, dos reis de Portugal, que foram os donos da nossa evolução primária. Isso está no conteúdo psicológico de milhões e milhões de brasileiros, que estão fichados - por certidão de Cartório - como brasileiros, mas que psicologicamente são franceses”. 


Durante a mesma entrevista, o jornalista J. Herculano Pires fez uma intrigante observação sobre essas semelhanças culturais históricas entre os dois países: 

“É interessante citar aqui uma coisa muito curiosa, que ainda parece que não foi lembrada. O Brasil é a primeira grande nação do ocidente que está se tornando basicamente reencarnacionista. A idéia da reencarnação penetrou de tal maneira em nosso país, por influência não só do Espiritismo mas também das religiões africanas que foram trazidas aqui pelo contingente negreiro, que dificilmente encontramos hoje uma pessoa que, se não aceita positivamente a reencarnação, também não a nega, não a combate. Isso é muito curioso porque no ocidente só houve uma nação reencarnacionista no passado, que foi a França. O Brasil será, dentro em breve, a grande nação reencarnacionista do ocidente. E o professor lan Stevenson, na sua pesquisa sobre a reencarnação, disse que no Brasil encontrou uma compreensão mais precisa, mais natural da reencarnação”. 


O Espiritismo chegou ao Brasil pelas mãos dos jovens “doutores” brasileiros, que iam estudar na Europa, geralmente em Paris, e o domínio do francês era praticamente obrigatório para o exercício profissional dos seus títulos. Muitos franceses que residiam no Brasil também contribuíram com essa propagação. É o caso de Alexander Canu, que traduziu e publicou por conta própria O Espiritismo; e do educador Cassimir Lieutaud, que em 1860 publicou no Rio de Janeiro o livro Les temps sons arrivés (Os tempos são chegados), de temática essencialmente espírita. Materialista convertido, Alex Canu era um ex-colono do Saí e Lieutaud era diretor de uma das mais conceituadas escolas particulares do Rio, arriscando sua posição social assumindo publicamente o Espiritismo. Membro de destaque do fechado grupo da colônia francesa, era freqüentador da redação do Courrier du Brésil, ponto de encontro de exilados e opositores do regime de Napoleão III e também de intelectuais fascinados pelo Velho Continente ou em busca de um “branqueamento” cultural europeu, incluindo Machado de Assis. 

Para Ubiratam Machado (Os Intelecutiais e o Espiritsmo), os europeus  Cassimir Lieutaud, Adolph Hubert, Morin e a médium psicógrafa Madame Perret Coulard são “...os verdadeiros introdutores da doutrina de Kardec no Brasil”: 


“Naquela roda de homens pragmáticos e de sonhadores, a doutrina espírita encontrou imediata receptividade. O Espiritismo não surgia apenas como uma nova opção mística, uma brecha para se entrever os arcanos misteriosos da morte: vinha, também, enlaçado às mais modernas tendências liberais. Em particular, ao socialismo. As teorias de Charles Fourrier e Pierre Leroux, prematuras no tempo de marica, encontravam receptividade entre muitos românticos brasileiros. O prestígio do segundo, sobretudo, que procurava explicar as desigualdades sociais através da pluralidade das existências, já vinha da França, aureolada pela admiração que lhe devotava George Sand. Os franceses do Brasil, que conheciam aquelas teorias, se entusiasmaram quando viram encaixadas no corpo de uma doutrina mística. Graças a esses elos de simpatia entre Espiritismo e idéias socialistas, o Courrier se tornou o primeiro ninho, em nosso país, onde se acomodaram as crenças espíritas. Em 1861, Adolph Hubert, editor do jornal, admitia sua condição de espírita: um espírita cauteloso, cartesianamente sem fanatismos.” 


As primeiras obras de Allan Kardec editadas no Brasil, já na década de 1870, foram publicadas por B. L. Garnier, irmão dos famosos editores que possuíam negócios gráficos em Paris. Inicialmente as edições eram impressas na Tipografia Charles Barry, mas na França trabalhavam com os Garnier operários portugueses e brasileiros que poderiam facilitar a revisão das encomendas editoriais do Brasil. Desde 1846 ele era o editor das mais famosas publicações oferecidas na Corte: os melhores romances europeus, a Biblioteca Universal, a Revista Popular e depois o Jornal das Famílias. Este último tinha como colaboradores grandes nomes da literatura como Machado de Assis, o historiador português Alexandre Herculano e o diplomata e historiador Francisco Adolfo Varnhagen. Segundo Frédéric Mauro[16], B. L. Garnier era apelidado pelos escritores de “O Bom Ladrão”, brincadeira que significava ser ele um editor que cumpria suas promessas, apesar da pouca remuneração. Garnier chegou ao Brasil no dia 24 de Julho de 1844 e faleceu no Rio no início do século XX. Sua coragem, combinada com ousadia comercial em publicar O Livro dos Espíritos, lhe custou pesadas críticas e também muita publicidade gratuita, proporcionada por cronistas incipientes que ainda desconheciam os efeitos imprevisíveis da comunicação de massa. A edição feita em 1875 foi traduzida por Joaquim Carlos Travassos, sob o pseudônimo “Fortúnio”, provavelmente por influência de Lieutaud – amigo íntimo do editor – bem como de Antonio Silva Neto e Bittencourt Sampaio, que possuíam livros editados por Garnier. Para garantir o mesmo sucesso alcançado em Paris, anunciou-se no Jornal do Commércio, no dia 14 de janeiro de 1875, o mesmo texto promocional redigido 18 anos antes pelo jornalista francês G. du Chalard, publicado no Courrier de Paris. A matéria era ao mesmo tempo cautelosa e sedutora, simpática e aparentemente neutra, modelo que não deveria ser desprezado numa sociedade tão reacionária quanto a nossa, tal qual a francesa: muito católica, mística e em busca da glória nacional. 


“Imprensa – Publicou-se, traduzido por Fortunio, O Livro dos Espíritos ou Philosofia Espiritualista, de Allan Kardec, que, aliás, protesta não ser mais do que o compilador das doutrinas que lhe ensinaram os espíritos sobre a imortalidade da alma, a natureza dos mesmos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente e a futura e o porvir da humanidade (...)” 


O Jornal do Commércio, fundado em 1827, era propriedade do francês Pierre Plancher, exilado no Brasil por força da restauração de Luiz XVIII. Em Paris, Plancher era o editor de nomes de prestígio como Voltaire e Benjamin Constant de Rebecque. Com a queda de Carlos X, retorna para a França deixando como sucessores Junius e Julius Villeneuve, e ainda Fançois Antoine Picot. 

A vinda, em 1841, do Dr. Benoît-Jules Mure, médium clarividente, e a conversão do médico português João Vicente Martins, médium psicógrafo, para divulgar a Homeopatia no Brasil, é mais um desses fatos que ao mesmo tempo intrigam e convencem os curiosos sobre essas relações aparentemente ocultas entre o Brasil, a França e o Espiritismo. Foi ou não uma coincidência do destino? A adoção por esses dois militantes neo-espiritualistas do lema “Deus, Cristo e Caridade”, o mesmo que identifica as falanges espirituais do Espírito Ismael, também foi produto do acaso? Fazendo a necessária ligação cultural entre a França e o Brasil, Canuto Abreu demonstra claramente, mesmo nas entrelinhas romanceadas da sua obra, que a Doutrina Espírita e suas atividades precursoras sempre estiveram presentes nos dois países. Era, vendo agora pela ótica do Espírito Humberto de Campos, uma evidente tentativa, por parte dos Espíritos, especificamente de Ismael, de introduzir no Brasil as bases do Espiritismo. Alimentando essa misteriosa ligação, conta-nos também o nosso erudito historiador[17] que no círculo de pessoas que ajudaram a estabelecer o Espiritismo na França havia um pequeno grupo apelidado de “os brasileiros”: 


“Leclerc e Canu tinham a alcunha de ‘Brésiliens’, que os desvanecia. Vieram ao Brasil, em 1842, numa leva de cem famílias francesas, contratadas por Dom Pedro II, para fundarem, pelo sistema socialista de Fourier, a ‘Colônia do Sahy’, em Santa Catarina. Foram tais famílias selecionadas por suas crenças ‘espiritualistas’, incumbindo-se da seleção o Professor Jobard, Presidente Perpétuo do Museu Industrial de Bruxelas, fundador da Escola de Magnetismo Espiritualista da Bélgica e mais tarde, Vice-Presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, criada por Allan Kardec, em 1º de abril de 1858. Trouxe-as ao Brasil, em navio francês, o Doutor Benoît Mure – o nosso Bento Mure – introdutor da Homeopatia e do Magnetismo Espiritualista em nossa Terra, fundador, no Rio de Janeiro, da Escola Hahnemaniana em sua fase primitiva. Canu primeiro e Leclerc em seguida, afastaram-se, em 1843, da Colônia do Sahy por julgarem inviável o plano socialista de Fourier. Tiveram a sorte de prosperar na Corte. Viúvo, Canu, professor de Francês, contraiu novas núpcias com brasileira rica e com ela foi morar em Paris, desde 1846. Leclerc dedicou-se à compra e venda de vitualhas para navios e, abastado, voltou à pátria em 1854, deixando descendentes no Brasil.” 


Na seção necrológica da Revista Espírita de janeiro de 1867, Kardec noticiou o falecimento de Leclerc, seguida de uma comunicação de seu Espírito através do médium Sr. Desliens, na qual descreve sua experiência e o reencontro com antigos companheiros: “Sanson, Baluze, Sonnez, o alegre Sonnez de cuja verre satírica eu tanto gostava, depois Jobard, o bravo Costeau e tantos outros. Em último lugar, a Sra. Dozoa: depois um pobre infeliz, muito para lastimar, e cujo arrependimento me toca. Orai por ele, como por todos os que se deixaram dominar pela prova”. 


“A Sociedade Espírita de Paris acaba de sofrer uma nova perda na pessoa do Sr. Charles-Julien Leclerc, antigo mecânico, de cinquenta e sete anos, morto subitamente de um ataque de apoplexia fulminante, a 2 de dezembro, quando entrava na ópera. Tinha morado muito tempo no Brasil e lá, tinha aprendido as primeiras noções de Espiritismo, para o que o havia preparado a doutrina de Fourrier, da qual era zeloso partidário. Voltando à França, depois de haver conquistado uma posição de independência por seu trabalho, dedicou-se à causa do Espiritismo cujo alto alcance humanitário e moralizador para a classe operária tinha entrevisto facilmente. Era um homem de bem, querido, estimado e lamentado por todos que o conheceram, um Espírita de coração, esforçando-se para pôr em prática, em proveito de seu adiantamento moral, os ensinamentos da doutrina, um desses homens que honram a crença que professam.” 


A FALANGE DE BENOÎT-JULES MURE 

“Diz-se que foi um Espírito muito elevado. Era médico homeopata, um verdadeiro apóstolo espírita; faleceu no Cairo a 4 de junho de 1857. Deve encontrar-se em Júpiter.” – Allan Kardec, Revue Spirite, 1858. 


O ideal socialista foi, sem nenhuma dúvida, um dos principais veículos responsáveis pelo trajeto do Espiritismo da França para o Brasil. No mesmo barco vieram, com reforço ideológico, as idéias curativas de Samuel Hahnemann. O Dr. Benoît Mure era o líder dos imigrantes europeus que desembarcaram na Barra do Sahy, em Santa Catarina, um grupo de fourieristas e saint-simonianos que aqui aportaram em busca do sonho de um mundo melhor. As promessas de progresso e prosperidade da Revolução Industrial fascinaram o mundo burguês, mas haviam aumentado imensamente o fosso que separava as camadas sociais. Victor Hugo, Adolf Blanqui, Émile Zola, Flora Tristan e tantos outros denunciam em seus escritos as calamidades sociais resultantes do lucro irresponsável. Os salários são reduzidos a níveis escandalosos e a exploração da mão-de-obra atinge as raias da escravidão, agravadas pela violência e pelo terrorismo. As péssimas condições de vida levam as pessoas à perda de perspectiva no futuro e da confiança no Estado. É o primeiro passo para a degradação moral. Atormentados pela fome, sem trabalho, sem moradias e sem ter nem mesmo o direito de sonhar, as camadas pobres se entregam completamente a humilhação e, como forma de sobrevivência e adaptação, passam abandonar os valores mínimos de dignidade e auto-estima. Vem à tona a promiscuidade sexual, a degeneração familiar, a prostituição, o alcoolismo, o suicídio, a propagação de doenças, a desnutrição e a invalidez precoce de crianças, a massa de mendigos abandonados nas ruas, uma multidão de órfãos e bastardos. Essas cenas dantescas, relatadas nos jornais e nas páginas de escritores influentes, são mais comuns nos centros industriais decadentes. 

Somente uma reforma racional poderia diminuir as misérias e angústias do proletariado. Era necessário, então, o renascimento da utopia. Seus novos filósofos, herdeiros do iluminismo, reacenderam a chama da esperança nos corações, pois traziam consigo excelentes planos para resolver o trágico problema social. Todos eles tinham em mente uma renovação prática e as melhores referências éticas para justificar suas idéias utópicas. Se não tivessem nascido antes de Allan Kardec poderiam todos ser facilmente classificados como espíritas autênticos. O Conde Henri de Saint-Simon (1760-1825), crítico do clero, da superstição e do dogma, entendia que o cristianismo tradicional deveria ser reformulado, tornando-se mais adequado ao mundo científico-industrial. Seu discípulo mais famoso, Auguste Comte, levaria tal idéia ao pé da letra. Saint-Simon também compreendia que o Cristianismo possuía uma essência que veio sendo ofuscada pelo interesse clerical. Tal essência era o mandamento da igualdade entre irmãos da mesma espécie. Para ele o dogma foi colocado acima da moral e isso colocou a Doutrina do Cristo fora de sintonia com a realidade social. O novo clero, representado por filósofos mais humanistas, deveria estar a par do conhecimento científico, ensinando um novo cristianismo, de amor incondicional entre os seres, neutralizando o nacionalismo fútil e separatista, despertando assim uma união mais sólida através da moral e da espiritualidade. Essa seria a verdadeira religião universal, sem mitos e dogmas e perfeitamente ajustada ao progresso. Robert Owen (1771-1858), rico empresário escocês, movido pela paixão do progresso, mas profundamente afetado pelo sentimento de compaixão ao próximo, decidiu cortar o queijo e melhorar a vida dos seus empregados, dando-lhes moradias, salários justos, educação e os recursos necessários da vida digna. Achava que o ambiente era sempre o melhor modelador do caráter e que as chagas sociais – a ignorância, o alcoolismo e o crime – eram produtos das más condições de vida. Cortando o mal pela raiz, tudo ficaria mais fácil. Era necessário reformar a educação pública e as fábricas através de um novo sistema coletivo, mais harmonioso e sem a competição desleal do capitalismo então vigente. Sua comunidade experimental – New Harmony – instalada em Indiana, nos Estados Unidos, não suportou a concorrência capitalista e fracassou. Sabe-se que Owen, humanitário, porém decepcionado com as religiões tradicionais, foi buscar respostas na mediunidade excepcional de Mrs Hyden[18], notável psicômetra e mais tarde médica de profissão e professora universitária nos Estados Unidos. Sobre essas experiências com a famosa médium norte-americana ele declarou sua plena convicção não só nos fenômenos espíritas, mas principalmente na ampla repercussão que eles teriam na História da Humanidade. Owen já enxergava nesses fenômenos o aspecto moral que as pessoas não conseguiam visualizar no socialismo que ele propunha: 


“Tracei pacientemente a história dessas manifestações, investiguei os fatos a ela ligados, em numerosos casos testemunhados por pessoas de grande caráter; tive catorze sessões com a médium Mrs. Hyden, durante as quais ela me deu todas as oportunidades para verificar, quando possível, se poderia ter havido qualquer mistificação de sua parte. Não só me convenci de que não havia mistificação, com médiuns fidedignos nesses processos, mas que os mesmos estão destinados, no atual período, a realizar a maior revolução moral no caráter e nas condições da raça humana”. 


Mas qual seria o projeto social que melhor expressaria as idéias da Doutrina Espírita? O que pretendiam os Espíritos, no aspecto sociológico, quando ensinaram os fundamentos do Espiritismo aos encarnados? Saint-Simon, Proudhon, Owen e Fourier seriam bússolas sociais recomendadas pelos Espíritos Superiores? Karl Marx, ao contrário, seria, nesse aspecto, a inversão dos valores, o anti-Cristo do socialismo? Que tipo de transformações se espera quando entramos em contato com os princípios espíritas? O que é prioritário mudar, no contexto indivíduo-coletividade, a paisagem e a realidade social, ou o ponto de vista do sobre ela? Seria o Espiritismo uma utopia e esta seria semelhante àquelas que foram imaginadas por Platão (República), Santo Agostinho (Cidade de Deus), Campanella (Cidade do Sol), Morus (Ilha Utopia e o Principado de Ademo), Bacon (Nova Atlântida e a Casa de Salomão) ou as mais recentemente criadas pelos socialistas do século XIX? Não seriam todos eles, incluindo os socialistas utópicos do século XIX, médiuns videntes, como Swedenborg e Jackson Davis, que viram, em desdobramento ou projeção da consciência, a realidade de mundos mais perfeitos que a Terra? Do ponto de vista material, a descrição de Nosso Lar, feita pelo Espírito André Luiz, não se enquadra no conceito de utopia? As revelações de Humberto de Campos, em Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, ou de Emmanuel, em À Caminho da Luz, não se utilizam da linguagem típica do imaginário utópico? 

Olhando pela ótica de Fourier, quando encarnado, não seria atrevimento algum afirmar que o Espiritismo representa a possibilidade de realização da utopia desses pensadores e também da concepção social cristã. Para ele a organização de grupos humanos em falanges e em falanstérios (coletividades maiores) seria uma extensão de um plano divino e o cumprimento de um processo de regeneração da sociedade. Não seria essa a transição de mundo de expiações e provas para mundos regenerados? O Reino dos Céus não seria pluralidade e a escala de mundos inferiores e superiores, entre a erraticidade e a perfeição? Quando compreendido como a projeção exterior da nossa consciência e das habilidades cognitivas pessoais, o Reino não significa a materialização dos conceitos filosóficos espíritas? Porém, quando desencarnado, Fourier foi questionado por um discípulo espírita, que solicitou sua evocação com as seguintes dúvidas[19]: 

“Irmão Fourier, do alto esfera ultramundana, se teu Espírito me pode ver e ouvir, eu te peço comunicar-te comigo, afim de me fortificar na convicção que a tua admirável teoria dos quatro movimentos fez nascer em mim sobre a lei da harmonia universal, ou de me desenganar se tiveste a infelicidade, tu mesmo, te enganares. – A ti, cujo gênio incomparável parece ter levantado a cortina que ocultava a Natureza, e cujo Espírito deve ser mais lúcido ainda do o era no mundo material, eu te peço que me digas se reconhece, no mundos dos Espíritos, como na Terra, que haja desmoronamento da ordem natural estabelecida por Deus, em nossa organização social: se as atrações passionais são realmente a alavanca de que Deus se serve para conduzir o homem ao seu verdadeiro destino: se a analogia é um meio mais seguro para descobrir a verdade. 

Peço-te que me digas, também, o que pensas das sociedades cooperativas que germinam de todos os lados na superfície do nosso globo.” 


A resposta, dada em Paris, em 9 de março de 1869, pelo grupo mediúnico do Sr. Desliens: 


“É uma pergunta muito séria, caro irmão em crença, indagar de um homem se ele se enganou, quando um certo número de anos se passaram desde que ele expôs o sistema que melhor satisfazia as suas aspirações para o desconhecido! Enganei-me?... Quem não se enganou quando quis, com as suas, levantar o véu que lhe ocultava o fogo sagrado?! Prometeu fez homens com esse fogo, mas a lei do progresso condenou esses homens às lutas físicas e morais. Eu fiz um sistema, destinado, como todos os sistemas, a viver um tempo, depois transformar-se, associar-se a novos elementos mais verdadeiros. Vede, há idéias como homens. Desde que nasceram, não morrem: transformam-se. Grosseiras de início,envoltas na canga da linguagem, encontram sucessivamente artistas que as talham e as vão pulando cada vez mais, até que esse eixo informe se tenha tornado o diamante de vivo brilho, a pedra preciosa por excelência. 

Busquei conscienciosamente e achei muito. Apoiando-me nos princípios adquiridos, fiz avançar alguns passos o pensamento inteligente e regenerador. O que descobri era verdadeiro em princípio: falseei-o, ao querer aplicá-lo. Quis criar a série, estabelecer harmonias. Mas essas séries, essas harmonias não necessitavam de criador: existiam desde o começo: eu não podia perturba-las querendo estabelecê-las sobre as pequenas bases de minha concepção, quando Deus lhes havia dado o Universo por laboratório gigantesco. 

Meu mais sério título, e o que ignoram e talvez mais desdenhem, é ter partilhado com Jean Reynaud, Ballanche, Joseph de Maistre e muitos outros, o pressentimento da verdade: é ter sonhado com essa regeneração humana ela provação, essa sucessão de existências reparadoras, essa comunicação do mundo livre e do mundo encadeado à matéria, que tendes a felicidade de tocar com o dedo. Nós tínhamos previsto e vós realizais o nosso sonho. Eis os nossos maiores títulos de glória, os únicos, que por minha parte, estimo e dos quais me lembro. 

Duvidais, dizei vós, meu amigo! tanto melhor: porque aquele que duvida verdadeiramente, procura: e aquele que procura, encontra. Procurais, pois, e, se não depende senão de mim pôr a convicção em vossas mãos, contai com o meu concurso devotado. Mas escutai um conselho de amigo, que pus em prática em minha vida e no qual sempre me achei bem: Se quiserdes uma demonstração séria de uma lei universal, buscai a sua aplicação individual. Quereis a verdade? Buscai-a em vós mesmos, e na observação dos fatos de vossa própria vida. Todos os elementos da prova lá estão. Que aquele que quer saber se examine, e encontra.” 


Todas essas questões nos levam neste momento a uma única dúvida e, ao mesmo tempo, uma especulação sobre ter sido ou não obra do acaso a vinda para o Brasil de socialistas utópicos, entre os quais muitos se tornariam precursores ou importantes ativistas do Espiritismo. Qual seria, por exemplo, a intenção do Dr. Mure quando decidiu imigrar para o Brasil com um grupo de mais de mil pessoas, a maioria espiritualistas, interessadas na construção de uma sociedade mais justa? Seria apenas uma fatalidade histórico-econômica ou houve algum estímulo do mundo dos Espíritos para que esse fato acontecesse? 

Em 1831, na mesma Lyon, no Croix-Rousse, na qual vivera Fourier e da qual partira o Dr. Mure e seus companheiros, ocorrera uma rebelião de tecelões, esmagada por uma sangrenta repressão governamental. Muitos historiadores afirmam que essa revolta foi o principal ponto de partida para a explosão revolucionária da França pós-Napoleão. Mas a utopia do Dr. Mure e do seu grupo representava o lado mais pacato de Lyon, composto de pacifistas, sonhadores, otimistas, gente simples e esperançosa, perfeitamente identificadas com os projetos delineados por Fourrier. Terreno bastante fértil para o Espiritismo. Ela também ocultava um intento que, no dizer do Espírito Humberto de Campos, foi produto de uma admirável intuição sobre o que se passava no mundo espiritual. Não pode ser apenas coincidência que em 1840 registrou-se o estabelecimento de 29 comunidades fourrieristas na América do Norte e, como aconteceria em Santa Catarina, todas elas tiveram duração curta. 

Nesse verbete sobre economia, da Enciclopédia Britânica, encontramos um perfil do tipo de comunidade socialista que se tentou implantar no Brasil, na cidade de São Francisco do Sul. Seu principal inspirador foi, como de muitos socialistas do seu tempo, um adepto convicto da reencarnação. Nessa utopia enxergamos não somente uma teoria e um projeto, mas também a irresistível vontade de comparar essa descrição com as comunidades ou colônias espirituais existentes na Erraticidade, cuja revelação foi discreta em O Livro dos Espíritos, porém revelada mais amplamente nas obras de André Luiz: 


“Charles Fourier era um pequeno empregado de comércio, que chegou a ter uma certa influência no movimento socialista francês. Seu pensamento pode ser qualificado de economicamente retrógrado, visto que prega a volta às pequenas comunidades-modelo, quase medievais, em que seriam suprimidos os males do mundo moderno. A par disso, não há na sua tese qualquer hostilidade ao capital em si. Os lucros seriam distribuídos na seguinte proporção: 4/12 para o capital, 5/12 para o trabalho e 3/12 para o talento. Embora aceitando a existência do capitalista, Fourier se opunha aos intermediários. Suas comunidades-modelo (falanstérios) eram, no fundo, um misto de cooperativas de consumo e produção. Na comunidade imaginada por Fourier as paixões humanas teriam livre curso, constituindo a base da mecânica social, da mesma forma que a gravidade, segundo Newton, constituía o fundamento da mecânica celeste. As paixões humanas, sabiamente aproveitadas, permitiriam a constituição de comunidade-modelo, cuja população o autor limita a 1.500 pessoas. Descreve essas comunidades em pormenor, atribuindo-lhes resultados extraordinários, como a elevação da vida humana para 140 anos e a obtenção da maturidade psicológica das crianças aos quatro anos de idade.” 


Na Internet, num site turístico da antiga cidade catarinense, no link denominado “Falanstério do Saí”[20], a história da colônia socialista, que funcionou entre 1842 e 1843, é contada assim: 


“Na parte continental do município de São Francisco do Sul, encontra-se o Distrito do Saí, o qual é composto das localidades de Torno dos Pintos, Estaleiro e Vila da Glória. É uma região essencialmente ecológica, oferecendo aos que por lá passam, passeios e recantos de rara beleza. Ainda encontram-se na região vestígios da passagem dos franceses que em 1842 fundaram o Falanstério do Saí, experiência das doutrinas do célebre Francisco Maria Carlos Fourier, o predecessor do socialismo moderno. Essa experiência foi organizada pelo Dr. Benoît-Jules Mure, a quem se deve o estabelecimento do Instituto Homeopático do Rio de Janeiro. Um senhor Jolly, que morava em Paris, na rua D´Autin, nº 29, era encarregado do recrutamento dos colonos e o “Conseil du Brésil” estabelecido na mesma cidade, à rua Castellane, nº 10, conseguia os passaportes. A Colônia Industrial Francesa, regada pelos rios Saí-Guaçú e Saí-Mirim, deveria se transformar numa metrópole de renovação social, capaz de resolver a crise das nações superlotadas da Europa e provar que o Homem, melhor orientado, poderia refazer-se em uma sociedade feliz e mais perfeita. A empresa fracassou, porém a maioria das famílias francesas, como os Ledoux, Reinert e Devoisin, permaneceram no Distrito, contribuindo com o desenvolvimento político-social da região.” 


Assim como Allan Kardec, o humanista Benoît-Jules Mure era filho de Lyon. Herdeiro de um rico comerciante de artigos de seda, o menino Benoît nasceu no dia 4 maio de 1809, na rua Mercière, crescendo com saúde frágil, mais tarde constantemente ameaçada pela tuberculose. Foi da sua debilidade física e da sua cura pelo homeopata Sébastien de Guidi que surgiu o interesse pela nova ciência curativa. Sua formação médica se deu na Universidade de Montpellier, um reduto tradicional da medicina vitalista, sendo posteriormente iniciado na homeopatia pelas próprias mãos de Samuel Hahnemann. O célebre fisiologista François Broussais (1772-1838) definiu Mure como “um dos maiores gênios do século” e o biógrafo Ch. Janot o pintou como alguém que “reunia às qualidades de médico as de engenheiro, poeta, inventor, editor, colonizador e filósofo”. Dono de uma fortuna estimada em 500 mil francos, Mure viu no socialismo e na homeopatia a possibilidade de transformar o mundo. No Brasil sua medicina social esteve sempre voltada para os excluídos, inclusive os escravos, elaborando projetos de atendimento de baixos custos e que reduziu de 10% para 2% os índices de mortalidade entre os cativos que trabalhavam nas plantações de cana-de-açúcar. 

A história do Dr. Mure é um excelente exemplo para se entender como as novas idéias passam por um delicado processo de adaptação até serem socialmente digeridas nas culturas já estabelecidas. Nela identificamos com particular interesse uma prova viva de que Espiritismo, a Homeopatia e o Socialismo são idéias provenientes de mundos superiores e que, nos planetas ainda primitivos como a Terra, teriam uma longa trajetória de tentativas e experimentações entre a utopia e a realidade. Não podemos negar também que, mesmo não sendo o Dr. Mure um adepto histórico e contemporâneo da Doutrina de Kardec, ele foi o principal responsável pela introdução no Brasil das bases precursoras nas quais o Espiritismo encontraria terreno fértil para a sua propagação. Ele trouxe para o Brasil não só a homeopatia e o projeto colonial societário de Fourier, mas trouxe principalmente exemplos de civilidade e ecologia social que só se tornariam comuns nas décadas finais do século seguinte. Trouxe também muitos cidadãos franceses que, pelas suas características ideológicas certamente se tornariam futuros espíritas, mais ainda, formadores de opinião e de hábitos identificados com o Espiritismo e com as tendências reformadoras que começam a ganhar terreno no Terceiro Milênio. Convertendo brasileiros cultos e prestigiados para a homeopatia e para o socialismo utópico, e vice-versa, Mure estava dando a eles, pelo “princípio das semelhanças”, as primeiras doses curativas daquilo que mais tarde Allan Kardec definiria como bases filosóficas e morais do Espiritismo. Ubiratan Machado[21] percebeu assim essa associação entre a doutrina de Kardec e a medicina social de Mure no Brasil: 


“Em contraste com a posição cautelosa das elites, a homeopatia encontrou imediata receptividade popular. Desde o tempo em que o sistema de Hahnemann era difundido por magnetizadores até esta década de 1880, o prestígio das fórmulas homeopáticas cresceu em proporção geométrica, enquanto o número de médicos homeopatas aumentou em proporção aritmética. Isso explica as multidões que acorriam aos consultórios homeopáticos. O povo valorizou, sobretudo, a união da Homeopatia e Espiritismo. Médicos homeopatas e espíritas seriam uma espécie de mensageiros luminosos, em missão na Terra. Daí a imensa clientela de esculápios espíritas que mantinham consultório homeopático, tais como os Drs. Castro Lopes, Joaquim Travassos e Adolfo Bezerra de Menezes. Ou um espírita titubeante mas homeopata convicto, como o Dr. Melo Moraes. E foram muitos os que, sem diploma médico, prescreviam a homeopatia, consolidando uma tradição bem brasileira: a do médium que, através do seu Espírito-guia, receita os medicamentos de Hahnemann. Esses espíritas seriam largamente procurados pelo povo. E até, segredo de polichinelo, por figurões da nobreza do Império. Como aconteceria com o famoso médium receitador carioca João Gonçalves do Nascimento, de livre trânsito em todas as classes sociais. Nos sobradões e nos humildes chalés suburbanos. Em todo o século XIX, seu prestígio mediúnico só encontraria equivalente no psicógrafo Frederico Pereira da Silva Júnior”. 


A Homeopatia chegou ao Brasil bem antes de Mure. Há registros de que em 1818 já havia um grande círculo homeopático liderado por Antonio Ferreira França e que José Bonifácio correspondia-se com Hahnemann. Mas foi a ousadia política e o ativismo social de Mure que deu a ela a fama pública de ciência moderna e de consolo caritativo popular. Observando suas viagens pela Europa, África e América do Sul, cuja velocidade era surpreendente ante a lentidão dos meios de comunicação de transporte da época, é praticamente impossível não comparar a sua atuação com os conhecidos precursores da mentalidade espírita. Ele reunia numa só pessoa as características de Paracelso, Rousseau, Swedenborg, Pestalozzi, Davis, Mesmer, Hahnemann[22] e Owen. Sua presença na maioria dos lugares por onde passava sempre resultava em algum distúrbio social, visto que sua proposta de vida, seja na área profissional, seja na política, era sempre um choque contra o conservadorismo. Mostrava-se simultaneamente um pregador religioso, ativista político, médico e curandeiro popular, defensor civil, tecnólogo, jornalista, publicitário, enfim, tudo que era necessário para difundir e implantar os conceitos de uma sociedade mais justa e composta de seres livres e conscientes da sua condição humana. Muitas vezes teve que fugir sob risco de prisão ou mesmo de assassinato porque suas atividades quase sempre significavam uma ameaça ao comum e ao mediano estabelecido. Sua linguagem mudava de terminologia de acordo com a circunstância, mas sempre refletia um permanente estado de guerra contra as posturas reacionárias aos seus projetos, como nesta fala sobre a necessidade de reforma da Medicina[23]: 


“Nós contamos com um processo de conversão em massa. Apenas um décimo da população ainda se atem aos sistemas antigos, enquanto todo o restante adota com convicção a reforma médica. Os bancos da Faculdade estão praticamente desertos e, dos doutores que produz, a metade abraça a Homeopatia. Temos um segundo ministério abalado e modificado por conta da questão médica que varre o Brasil inteiro, desde os inspetores de polícia até o Conselho de Estado e as Câmaras. A luta é aberta, ardente, declarada, não existem transações. Não estaremos pedindo lugar junto às sociedades alopáticas e levantamos sem temor bandeira após bandeira, escola após escola. Os homens religiosos tomam o partido da medicina do sacrifício e do espiritualismo, contra a da matéria e do egoísmo. Nossas preces nos sustentam os nossos sonhos, nossos Te Deum, nossos triunfos...” 


E nesta outra, aos 42 anos de idade, faz uma síntese da sua militância reconhecendo que teve que correr contra o tempo para levar a efeito uma tarefa missionária de difícil realização: 


“Por nossa parte na divulgação da Homeopatia, tanto na Europa como na América, podemos reivindicar a fundação de três institutos e de 50 dispensários...a conversão de 100 médicos, a instrução de 500 alunos, a redução da mortalidade em nações inteiras, numerosas obras escritas em italiano, português, francês e árabe, 2.000 artigos em jornais, viagens por todas as latitudes, o desmonte de epidemias e contágios, o desencadear de paixões odiosas, a indiferença, perseguições, inveja, calúnias, derrotas ou empates, o tempo, o trabalho e o dinheiro perdidos para sempre, e poder-se-á compreender que, se a Providência evidentemente nos sustentou durante uma prova superior às nossas forças, fomos merecedores desse favor praticando, antes de tudo, a máxima salutar: ‘Ajuda-te que o céu te ajudará’.” 


A primeira vinda de Mure ao Brasil aconteceu em 21 de novembro de 1840, quando desembarcou no Rio de Janeiro para expor ao governo imperial o seu projeto de colonização societária, a “Union Industrialle”, tendo como sócios-diretores os companheiros Derrion e Jolly [24], todos do grupo fourierista dissidente “Harmonienne”. Essa opção, que tinha as razões geográficas óbvias, talvez esconda motivos que só a sua habilidade mediúnica poderiam explicar. Suas antenas estavam voltadas para os quatro cantos do planeta em busca de oportunidades de transformações sociais. Tudo indica que suas referências eram encontradas nas publicações sobre os negócios da nova onda imperialista industrial, mas também não dispensava sua ligação intuitiva com as forças espirituais renovadoras que se manifestam no século XIX. Seu primeiro contato no Brasil foi justamente Manuel de Araújo Porto-Alegre, por recomendação de Silvestre Pinheiro Ferreira, este último autor de um “Projeto de Associação para o melhoramento da sorte das industriosas”, datado de 1840. Silvestre, que era membro da Academia de Ciências de Lisboa e das Sociedades Histórica e Literária do Rio de Janeiro, abordava nesse estudo a contextualidade das idéias de Thomas Morus. Outro contato importante foi com o grupo de franceses que dirigia o “Jornal do Commércio”, especificamente François Antoine Picot, a quem endereçava cartas para publicação nas quais expunha os motivos para a criação de um falanstério em nosso país. Picot seria mais tarde uns dos investidores paralelos do novo negócio da sociedade de mecânicos formada em Paris e que seria transferida para o Brasil assim que recebesse o aval político e financeiro do jovem D. Pedro II. Foi Picot o financiador do barracão que funcionou como hospedaria destinada aos primeiros colonos que aqui chegaram. Dessa forma Mure ia, pelas tintas da imprensa[25], dourando a pílula da opinião pública brasileira, cuja identidade nacional ainda estava em lento processo formação: 

“No estado de sofrimento e de contínuas crises em que se acha há alguns anos a indústria na Europa, a necessidade da imigração é ali tão vivamente sentida, quanto a de atrair colonos é nos vastos impérios que começam a vida de nações no continente da América (...)  Terra querida do Céu, prepara-te para cobrir tua superfície com todos os tesouros que teu seio encerra e para alimentar as povoações que vir-te-ão visitar (...) E tu, valente renovo da raça portuguesa, povo brasileiro, alegra-te: o século dos trabalhos heróicos pode para ti recomeçar; tu podes hoje, regenerando a um só tempo a ti e a Humanidade, alcançar a glória imortal. Terás leis, terás língua, tua religião, teus costumes serão os destes inúmeros peregrinos que virão pedir-te hospitalidade e cujos filhos serão os concidadãos teus. E tu, jovem Imperador, os destinos afiançam tuas armas e teu título; podes possuir o mais belo império que monarca algum haja ocupado; teus súditos serão os mais submissos e os mais dedicados de quantos têm tido os reis, pois dever-te-ão uma pátria verdadeira e a ventura de ter-te livremente escolhido”. 


A escolha dos futuros colonos era feita sob rigorosa seleção, obedecendo a critérios de aptidão profissional e até mesmo moral. Escrevendo da França, em 13 de agosto de 1841, o sócio de Mure, o Sr. Michel Derrion, explicava, com todo o empenho da propaganda imperialista alternativa, como funcionava a captação dos falansterianos: 


“Não tenho palavras com que vos possa exprimir o interesse com que aqui vamos acompanhando nas vossas cartas os esforços que ides empregando para fazerdes prevalecer no Espírito do imperador do Brasil e do seu governo a idéia de riqueza e poder que adquiriria esse vasto império pela aquisição de uma população laboriosa e inteligente, escolhida da primeira nação do mundo e natural quase toda dessa cidade de Paris, centro da indústria e das artes. Já sabeis que grande cuidado nós pomos na escolha dos trabalhadores da nossa colônia. Muitas comissões de admissão se acham encarregadas de tomar as informações necessárias para julgar do valor moral e profissional de cada um deles. Cada um depois passa por um exame particular; e só depois que provar de maneira satisfatória que é homem de bom porte, laborioso e capaz, é que é admitido com sua família. E, eis porque de 700 indivíduos que se apresentaram, somente foram admitidos 345, que devem partir com as suas mulheres e filhos, e alguns com suas mães e irmãs, fazendo por tudo o número de 1.150 pessoas. Já fiz o inventário de todas as profissões e conhecimentos possuídos pelos membros da nossa sociedade, e aqui vou dar-vos dela uma idéia. Advirto, porém, que além da lista que vou apresentar, falta ainda tudo quanto é relativo às profissões de mulheres, de que, por hora, não pude fazer o cálculo; e que além dos 326 operários apontados na lista, há muitas outras pessoas que só vem assistir aos nossos trabalhos como curiosos e sem tomar parte neles, mas que por outra arte têm meios de subsistência segura. Temos, pois, agricultores, 105; arquitetos, 2; aparelhadores, 1; etc... Já organizamos coros que executam com muita harmonia diversos cantos, dos quais compusemos a poesia e a música. Domingo, p.p., 8 de agosto, estávamos reunidos 300 dentre nós e assistimos a um jantar no grande salão da Hermitage, na barreira dos Martyrs. Assim, como todas as reuniões mensais, passou-se esta na melhor ordem. Nossos societários dão, em todas as ocasiões, provas de que sabem juntar ao amor do trabalho o uso da educação, que não exclui nem a franqueza nem a civilidade. Por conseguinte, Senhor, aprontai para os nossos precursores bom acolhimento; são eles os batedores do nosso exército pacífico. Trilhando a suas pisadas, estamos prontos a arrastar a Europa para uma nova cruzada do Oriente para o Ocidente, que criará em vez de destruir, que firmará os impérios em vez de tombá-los e que merecerá as simpatias dos dois mundos”. 


Depois desses primeiros preparativos, nos quais incluímos a uma intensa peregrinação nos gabinetes de políticos, ocorre o contato com o Ministério Imperial e finalmente uma entrevista como o próprio Pedro II, ainda muito jovem, por que não dizer, ainda criança, que aprovou, com ressalvas contratuais, o auxílio ao projeto. 

O embarque dos primeiros cem colonos aconteceu no famoso porto Le Havre, ao norte da França, a bordo do navio “Caroline du Havre”, chegando no Rio de Janeiro no dia 14 de dezembro de 1841. A viagem durava, em média, 45 dias. A expectativa era enorme, tanto na França quanto no Brasil, afinal estava em jogo o projeto de uma utopia, tema extremamente controverso e tão polêmico como a homeopatia e o magnetismo. Mure conhecia muito bem essas barreiras ideológicas e, no Brasil, demonstrava muita cautela ao associar esses dois assuntos temendo represálias tanto da classe médica quanto da aristocracia rural escravocrata. Mesmo assim, preferia correr certo risco. O Jornal do Brasil noticiou esse acontecimento com um texto que refletia o lado mais realista e crítico sobre o falanstério: 


“Vai a nossa Pátria ser teatro de uma experiência de que depende talvez a sorte das sociedades humanas. Serão realizáveis, serão meras utopias dos socialistas modernos? O mais razoável dentre eles, Fourier, não imaginaria senão quimeras? A Colônia do Sahy em breve responderá a essa pergunta, e Deus queira que sua resposta seja favorável. Se o for, a prosperidade de nossa Pátria terá dado um grande passo para adiante. Na Europa toda a classe que sofre tem os olhos fitos no Sahy; prospere a colônia e todos esses escravos dos capitais, todas essas vítimas que um trabalho contínuo superior às forças humanas não preserva da miséria, trar-nos-ão seus braços, sua indústria. Se não prosperar, se o sistema desta sociedade for quimérico, como os demais, ainda assim lucraremos: homens industriosos, afeitos ao trabalho, morigerados, terão vindo aumentar nossa população. Recomenda por tão faustos auspícios, a Colônia do Sahy que merece todas as simpatias do patriotismo, teve a honra de ser apresentada a Sua Majestade o Imperador e o Jornal do Commércio dá em seu número de terça-feira conta de sua apresentação”. 


Também, sempre que possível, Mure aproveitava o tempo para a prática curativa e também o seu incontido desejo de aliciar seus companheiros de profissão para as lides de Hahnemann. As reações negativas não tardariam e logo o médico se tornaria um alvo do agressivo espírito retrógrado e reacionário. As acusações promovidas pelos ciumentos opositores variavam de prática de delitos criminosos como assassinato por envenenamento, sedução sexual, subversão política e social e concubinato. Na própria Colônia do Sahy o Dr. Mure foi acusado por alguns moradores de possuir hábitos estranhos (possivelmente intercâmbio mediúnicos e aplicação de passes magnéticos), de manter relação conjugal ilegal e escandalosa, pois vivia com uma segunda mulher, Annabelle Cretiat. Antes tinha sido casado com a filha de um líder de um grupo de saint-simonianos, provavelmente o Sr. Saint-Amand Bazar, do qual fizera parte quando mais jovem. Aliás, dessa nova relação com Annabelle nasceu sua filha brasileira, Camila Leocádia Mure, mais tarde casada com Gustavo Luiz Lebon, também descendente de falansterianos. Juntamente com a nova esposa Mure trouxe para o Brasil uma sobrinha chamada Cammille Lallement e uma criada de nome desconhecido. 

Consta em alguns registros que em 1845[26], já no Rio de Janeiro, o Dr. Mure tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e, dois anos mais tarde dali foi expulso por manifestar idéias incompatíveis com a filosofia da entidade. Em 1847 ele revela um outro lado polêmico e inovador da sua personalidade: o de educador preocupado com os novos rumos do ensino. É dessa época a fundação, por ele empreendida, do Instituto Panecástico do Brasil, cuja finalidade era ampliar a credibilidade científica da Homeopatia[27] difundindo as idéias e práticas educativas de Joseph Jacotot. Nas páginas da revista “A Scientia”, fundada pelo novo grupo, explicava-se que a instituição universalista visava “propagar os princípios da emancipação do imortal Jacotot e substituir à autoridade e ao pedantismo os direitos da razão humana”. 

É claro que nem tudo foi o céu que se idealizava nas reuniões dos societários em Paris. Logo na chegada em Santa Catarina o grupo foi surpreendido por um acontecimento trágico no qual o piloto do navio Caroline envolveu-se com a mulher de um colono e acabou assassinando o mesmo. Mure também teve que enfrentar a rivalidade entre um grupo fourierista da sede da colônia e outro saint-simoniano que se apartou foi instalar-se na região do Palmitar. Em pouco tempo o projeto começou a dar os primeiros sinais de fracasso. Muitos erros foram cometidos, sobretudo na previsão de futuros problemas de ordem econômica. Os acordos contratuais não poderiam jamais prever os boicotes comerciais, a má vontade e a lentidão dos recursos governamentais, o impacto de uma nova situação de vida e a inexperiência de operários e habitantes caracteristicamente urbanos, como relatou um observador do próprio Jornal do Commércio, em 29 de fevereiro de 1843: 

“Vi na colônia carpinteiros ocupados em lavrar terras, curtidores em plantar, engenheiros a abrir valas, maquinistas a derrubar paus, finalmente fabricantes de máquinas a vapor rebocando paredes. É verdade que nisso foi um tanto culpado o empresário, que, ao princípio, devia mandar vir da França lavradores, para depois chamar artistas e maquinistas.” 


Também por influência desses reveses e da força reacionária de um certo Conde Ney, funcionário diplomático do governo francês no Brasil, foi proibida a imigração de mil franceses, prevista nos planos de Mure. Os 217 socialistas utópicos vindos da França não conseguiram prosperar com o seu projeto e muitos deles foram tentar a vida em outros centros brasileiros, bem como na Argentina e no Uruguai. Outros voltaram para a França e é possível que entre esses últimos estivesse o casal Pierre-Gaëtan e Marina Leymarie, futuros sucessores de Allan Kardec e Amélie Gabrielle Boudet na Revue Spirite. Segundo Gustave Macé[28], Comissário de Polícia de Paris e amigo de Leymarie, o casal fundou em sua própria residência a Liga do Ensino, com a finalidade de instruir e formar novos adeptos do Espiritismo e também participou da criação do Falanstério de Guise, fundado por J.B. Godin. Com o fracasso da colônia, Mure foi para o Rio fundar sua escola homeopática e dali, algum tempo depois, mudou para o Egito, em companhia da sua dedicada aluna Sophie Liet. Não desanimou e, ao seguir para a Europa em 13 de abril de 1848, já delineava planos para a fundação de uma nova colônia no Norte da África. João Vicente Martins seguiria do Rio para Salvador, onde fundou a Sociedade Homeopata Baiana, celeiro histórico de importantes ativistas espíritas brasileiros. Nessa época Mure já tinha amadurecido suas idéias socialistas, agora claramente independentes dos teóricos que anteriormente o influenciaram. Sua nova utopia recebeu o sugestivo nome de “Armanase”, cujo significado em sânscrito, o idioma sagrado da Índia, poderia ser traduzido como “O Império da Inteligência”. Nela a homeopatia, bem como suas concepções pessoais de uma sociedade livre em corpo e espírito, incluindo sua crença nos “gnomos”, teria ampla possibilidade de realização. Provavelmente, em desdobramento perispiritual, Mure visita uma comunidade urbana no planeta Vênus, onde viu organizações arquitetônicas e sociais avançadas e que sua memória espiritual, ofuscada pela volta brusca ao corpo físico, associou naturalmente aos conhecidos falanstérios de Charles Fourrier. Dessas experiências Mure idealizaria a comunidade armanasiana, de acordo com Sophie Liet, onde a liderança estaria a cargo da classe dos sábios e dos luminares. Armanase seria então "... a aristocracia e o reino das inteligências de primeira grandeza...”. Nela consagra-se o princípio da responsabilidade coletiva: a pessoa é soberana; o povo reina; os eleitos governam e as cooperativas administram. Tal harmonia se tornaria realidade porque, ao contrário dos mundos atrasados e conflituosos, as leis sociais primariam pelo respeito ao tripé do equilíbrio do convívio comum: a família é sagrada; a propriedade é inviolável e a liberdade é absoluta. 

Dessa vez Mure estava indo longe demais? Um atentado contra sua vida mudaria seus planos, inclusive de retornar ao Brasil e, gravemente debilitado, em virtude de um ferimento grave, aguardou pacientemente seu retorno ao mundo espiritual. 

Um ano mais tarde a Revue Spirite publicaria, em 1858[29], uma comunicação do Espírito Mure. Allan Kardec explica que a evocação tinha sido feita a pedido do Sr. Jobard, notável membro da Sociedade Espírita de Paris e amigo pessoal do médico. Kardec comenta que o Dr. Mure era dotado de predicados respeitáveis, classifica-o com um adjetivo inconfundível e aproveita a comunicação para desfazer equívocos sobre alguns conceitos do pré-Espiritismo: 


“1. Evocação. 

— Eis-me aqui. 

2. — Teríeis a bondade de nos dizer onde vos achais? 

— Estou errante. 

3. — Vossa morte ocorreu a 4 de junho deste ano? 

— Não, no ano passado. 

4. — Lembrai-vos do vosso amigo Sr. Jobard? 

— Sim, frequentemente estou a seu lado. 

5. — Quando eu lhe transmitir esta resposta ele terá prazer, pois sempre vos teve uma grande afeição. 

— Eu o sei; é um dos Espíritos que me são mais simpáticos. 

6. — Em vida que pensáveis que fossem gnomos? 

— Supunha que fossem capazes de se materializar e tomar formas fantásticas. 

7. — E o credes ainda? 

— Mais que nunca; agora tenho certeza. Mas gnomo é um vocábulo que lembra muito a magia. Agora prefiro dizer Espírito em vez de gnomo. 

Nota: Em vida acreditada nos Espíritos e em sua manifestação. Apenas os chamava de gnomos, enquanto que agora prefere a denominação genérica de Espíritos. 

8. — Ainda credes que os Espíritos, que em vida chamáveis gnomos, possam tomar fantásticas formas materiais? 

— Sim. Mas sei que isto nem sempre se faz, porque há pessoas que poderiam ficar loucas se vissem as aparências que tais Espíritos podem tomar. 

9. — Que aparências podem ser estas? 

— De animais, de diabos. 

10. — É uma aparência material tangível, ou uma pura aparência, como em sonhos e visões? 

— Um pouco mais material que nos sonhos; as aparições que nos poderiam amedrontar não podem ser tangíveis: Deus não o permitiria. 

11. — A aparição do Espírito de Bergzabern, sob a forma de um homem ou um animal, seria dessa natureza? 

— Sim, é desse gênero. 

Nota: Não sabemos se em vida ele admitia que os Espíritos pudessem tomar forma tangível; mas é evidente que agora se refere à forma vaporosa e impalpável das aparições. 

12. — Acreditais que irá reencarnar em Júpiter? 

— Irei para um mundo ainda inferior a Júpiter. 

13. — É por vossa própria vontade que ides para um mundo inferior a Júpiter ou porque ainda não mereceis ir para este planeta? 

— Creio mais que seja por não o merecer e para desempenhar certa missão em mundo menos adiantado. Sei que alcançarei a perfeição; e é isto que me leva a ser modesto. 

Nota: Esta resposta é prova da superioridade deste Espírito e concorda com o que nos diz o Padre Ambrósio: há mais mérito em pedir uma missão num mundo inferior do que querer adiantar-se muito num mundo superior. 

14. — O Sr. Jobard pediu-nos que vos perguntássemos se havíeis ficado contente com o vosso necrológio, escrito por ele. 

— Jobard deu-me nova prova de simpatia escrevendo aquilo. Agradeço e desejo que o quadro, um tanto exagerado, que fez de minhas virtudes e habilidades, possa servir entre vós de exemplo aos que percorrem a senda do progresso. 

15. — Em vida fostes homeopata. Que é o que pensais agora da homeopatia? 

— A homeopatia é o começo da descoberta dos fluidos latentes. Muitas outras descobertas igualmente preciosas serão feitas e virão formar um todo harmonioso, que conduzirá vosso globo à perfeição. 

16. — Que valor emprestais ao vosso livro Le Médicine du Pleuple? 

— É a pedra do operário que levei à obra.” 


JOÃO DO RIO E A FEDERAÇÃO 


Recordando um outro dado histórico interessante da ligação do Brasil com o Espiritismo, no reduto das nossas lojas maçônicas encontramos, por exemplo, figuras históricas como Mariano José Pereira da Fonseca, o Marquês de Maricá. Em 1840 ele publica a obra Pensamentos e Reflexões, contendo teses muito semelhantes a da pluralidade de mundos e de vidas sucessivas. Preso e interrogado por força do clero, mais tarde, Maricá tornou-se personalidade importante da vida política imperial, provavelmente por influência e simpatia de D. Pedro II pela causa maçônica e também pelas “novidades” espiritualistas vindas de Paris. Como se sabe, o imperador brasileiro rompeu, politicamente, com a Igreja exatamente por causa da questão de uma bula papal que proibia a participação de católicos nas reuniões de lojas maçônicas. 

Outra origem cultural, que deixaria marcas profundas no movimento espírita brasileiro, é a forte tradição mediúnica das práticas curativas e rituais dos indígenas e dos escravos africanos. De um lado tivemos, desde o início um espiritismo de elite, doutrinário e intelectual, restrito às camadas sociais mais elevadas; e de outro lado um espiritualismo animista prático, sem cultura doutrinária, predominantemente medianímico, de grande penetração popular e muito influenciado pelo catolicismo e pela cultura afro-ameríndia. A análise de Ubiratan Machado, para quem o sincretismo, a prática doméstica e a ideologia socialista-romântica serviram de adubo social ao Espiritismo tropical, concorda com essa linha de pensamento: 


“A esta altura, o Espiritismo não era mais uma doutrina alienígena, um exotismo destinado a logo ser superado, espécie de scottish religioso. O sincretismo com as práticas religiosas de origem negra se tornaria evidente. Lembremos, à guisa de curiosidade, que é por essa época (1871), que Machado de Assis localiza o início de Esaú e Jacó, onde aparecem vários seguidores de Allan Kardec, e, sobretudo, a Cabocla do Castelo, esplêndido tipo de espírita à brasileira. 

A aceitação popular, tal qual como vinha ocorrendo na Europa, incentivava a investida dos detratores. Qualquer argumento seria bom. O mais comum, porém, de maior impacto e mais invocado, repetido até a exaustão, garantia que o Espiritismo era uma fábrica de loucura (...) 

Nada disso impedia que as coordenadas espíritas se disseminassem em todos os segmentos sociais, fundindo-se cada vez mais às crença e crendices de origem afro-negra e às superstições e hábitos peculiares ao catolicismo popular brasileiro. 

Com esse acelerado processo de sincretismo, o nome do Espiritismo passou a abarcar uma gama imensa de manifestações religiosas, algumas bem distantes da matriz kardecista. Mas para o povo, bastava uma tintura de maravilhoso e a evocação dos mortos, para ser enquadrado como Espiritismo. O quadro era confuso, sendo difícil desemaranhar os fios que entrelaçavam as várias crenças. Destacava-se, porém, com um notável vigor, um Espiritismo popular, de perfil eminentemente brasileiro. Pode-se dizer, parodiando a parábola evangélica, que havia muitos chamados e muitos escolhidos. Afinal, tudo em nossa sociedade patriarcal e escravocrata era convidativo ao mágico, às experiências paranormais”. 


Para as massas, e para o deleite dos críticos, não existe essa distinção conceitual: tudo é “espiritismo” ou “baixo espiritismo”, entre os mais generosos. As diferenças conceituais e doutrinárias sempre existiram, porém, na prática cotidiana, o sincretismo seria a característica mais forte da repercussão do Espiritismo no Brasil. A umbanda é um caso mais grave desse sincretismo, já que surgiu como um movimento sincrético deliberadamente dissidente do Espiritismo. Sua origem, em dois centros espíritas cariocas na década de 1930, teve um significado político desafiador àquilo que se considerava uma atitude arrogante, racista e colonizadora do Espiritismo trazido da Europa. Considerando apenas o aspecto mediúnico e esquecendo o lado filosófico, os dissidentes questionavam: Por que somente Espíritos de “brancos” se comunicavam ou eram respeitados como intérpretes doutrinários? Aqui se vê claramente o sentimento racial de mágoa e vingança motivando o desentendimento entre o Espiritismo e as crenças e práticas afro-brasileiras. 

Tudo isso facilitou, mas também complicou aqui o estabelecimento do Espiritismo na sua forma mais “pura” e autêntica. Numa incursão histórica no Rio de Janeiro, no início do século XX, o cronista João do Rio (Paulo Barreto)[30], nos dá um panorama de como a Doutrina Espírita era vista pelos não espíritas. O famoso jornalista publicou em 1904 na “Gazeta de Notícias” uma série de reportagens sobre diversas manifestações religiosas na sociedade carioca. Ao distinguir os espíritas entre alguns “sinceros” escolheu como modelo a Federação Espírita Brasileira. 


“O Marechal Ewerton Quadros[31] esperava um bonde para a cidade, quando um bonde passou inteiramente vazio. 

— Porque não toma este? — perguntaram-lhe. 

O marechal mergulhou mais a face adunca nas barbas matusalênicas: 

— Não é possível. Está cheio de Espíritos maus! — e como se aparecesse outro inteiramente cheio, agarrou-se ao balaústre e veio de pé até a cidade. 

Desde de que se deixa a traficância do baixo espiritismo, que se conversa nas rodas intelectuais cultivadas, esse estado alucinante torna-se normal. 

(...) Já não se conta o número de Espíritos ortodoxos, conta-se a atração dos nosso cérebros mais lúcidos pela ciência da revelação. A Marinha, o Exército, a advocacia, a medicina, o professorado, o grande mundo, a imprensa, o comércio têm milhares de espíritas. Há homens que não fazem mistério da sua crença. Os generais Girad e Piragibe, o major Ivo do Prado, o almirante Manhães Barreto, Quintino Bocaiúva, Eduardo Salamonde, os Drs. Giminiano Brasil, Celso dos Reis, Monte Godinho, Alberto Coelho, Maia Barreto, Oliveira Menezes, Alfredo Alexander proclamam a pureza de sua fé. A Federação tem 800 sócios e ainda o ano passado expediu 48 mil receitas. 

Os que não praticam a moral, aceitam a parte fenomenal. É ao chegar a essa esfera que se começa a temer a frase do católico: ‘O Espiritismo é um abismo encantador; foge ou de lá nunca mais sairás.’ Se na sociedade baixa, centenas de traficantes enganam a credulidade com uma inconsciente mistura de feitiçaria e catolicismo, entre a gente educada há um número talvez maior de salas onde estudam o fenômeno psíquico e a advinhação do futuro, com correspondência para Londres e um ar superiormente convencido. 

(...) O meu amigo dizia-me: 

— Nunca se viu uma crença que com tal rapidez assombrasse crentes. Se o Fígaro dava para Paris cem mil espíritas, o Rio deve ter igual soma de fiéis. O Brasil pela junção de uma raça de sonhadores como os portugueses com a fantasia dos negros e o pavor do indiano do invisível, está fatalmente à beira dos abismos de onde se entrevê o além. A Federação publicou uma estatística de jornais espíritas no mundo inteiro. Pois bem: existe no mundo 96 jornais e revistas, sendo que 56 em toda a Europa e 19 só no Brasil... 

(...) A Federação fica na rua do Rosário, 97. É um grande prédio, cheio de luz e claridade. Cumprem-se aí os preceitos da ortodoxia espírita; não há remuneração de trabalho e nada se recebe pelas consultas. A diretoria gasta parte do dia a servir os irmãos, tratando da contabilidade, da biblioteca, do jornal, dos doentes. A instalação é magnífica. No primeiro pavimento ficam a biblioteca, a sala de entrega do receituário, a secretaria, o salão de espera dos consultantes e os consultórios. Seis médiuns psicógrafos prestam-se duas horas por dia a receitar, e as salas conservam-se sempre cheias de uma multidão de doentes, mulheres, homens, crianças, figuras dolorosas com um laivo de esperança no olhar. 

A casa está sonora de um rumor contínuo, mas tudo é simples, caridoso e sem espalhafato. Quando entramos não se lhe altera a vida nervosa. A Federação parece um banco de caridade, instalado à beira do outro mundo. Os homens agitam-se, andam, conversam, os doentes esperam que os Espíritos venham receitar pelos braços dos médiuns, sob a ação psicográfica, falam e conversam enquanto o braço escreve. Atravessamos a sala dos clientes, entramos no consultório do Sr. Richard. Há uma hora que esse honrado cavalheiro, espírita convencido, escreve e já receitou para quarenta e sete pessoas. 

(...) No segundo pavimento, encontramos desenhos de homens ignorantes inspirados pelos grandes pintores. Rafael guia a mão de operários em movimentados quadros de batalhas, e outros pintores mortos, sob incógnito, fazem desenhos extraordinários por intermédio de maquinistas da Armada.... 

Essas coisas eram explicadas simplesmente, como se tratássemos de coisas naturais. 

(...) Nós ainda olhamos fotografias de Espíritos, o retrato de D. Romualdo, um sacerdote que do além-túmulo vem sempre visitar a Federação, e esperamos a sessão de estudo, atraídos, querendo ter a doce paz daqueles entes. 

A sessão começou às sete e meia, na sala do 2º andar, toda mobiliada de canela cirée com frisos de ouro. Nas cadeiras, cavalheiros de sobrecasaca, senhoras, demoisellles. Os bicos Auer acesos banhavam de luz clara toda a sala, e pelas janelas abertas ouviam-se na rua o estalar de chicotes e gritos de cocheiros. 

Sem as visitas do Irmão Samuel, ninguém diria uma sessão espírita. Depois de lida e aprovada a ata da sessão anterior, como na Câmara dos Deputados, Leopoldo Cirne, o presidente, que ao começo nos dissera um adeusinho, perfeitamente mundano, transfigura-se e sua voz toma suavidades inéditas. 

— Concentremo-nos, irmãos! 

Imediatamente todos fechamos os olhos, como querendo concentrar o pensamento numa única idéia. As senhoras tapam o rosto com o leque e têm os olhos cerrados. De repente, como movida por todas aquelas vontades, a mão do psicógrafo cai, apanha o papel, o lápis, e escreve rapidamente linhas adelgadas. No silêncio ouve-se o lápis roçando o papel de leve; e é nesse silêncio que o lápis pára, o médium esfrega os olhos e começa a leitura da comunicação. 

— ‘Paz! Irmãos. Deus seja convosco. As palavras do filósofo grego: conhece-te a ti mesmo...’ 

É Samuel, o Espírito, que fala, achando que para compreender a vida e o bem é necessário antes de tudo conhecer-nos a nós mesmos. Leopoldo Cirne não se move. Quando Samuel termina, ouve-se então a sua voz delicada, trêmula de humildade. 

É ele quem faz o comentário: 

— Meus irmãos, essas palavras que Sócrates mandou inserir no templo de Delfos...” 

Esse homem, que nós vemos tão correto e tão mundano, gostando de Eça de Queirós e lendo Verlaine, surge-nos o pastor, o rabi, o iniciador. O seu semblante espiritualiza-se em atitudes extáticas, a sua voz é a blandícia mesma que nos acaricia a alma pregando a bondade e a demolição das vaidades. As senhoras ouvem-no ansiosas; ao nosso lado dizem-no inspirado, atuado pelos Espíritos. De tal forma é sutil o seu raciocínio, de tal forma se desfaz velhas crenças no incensário de um Deus espiritual que, decerto, se o atuam Espíritos, fala pela sua boca Ponce de Léon. 

Ele cala, enxuga a face. Depois, no estudo do Evangelho, no trecho de Jesus com os escribas e fariseus sobre o alimento da alma, de novo a sua voz corre como um fio d’água entre as sombras macias, sorvida por toda aquela gente atenta e sôfrega. Leopoldo Cirne acaba num sopro, tão baixo que mais parece uma vaga harmonia. 

Em seguida fala o Sr. Richard, que condena alguns dos nossos males, entre os quais o patriotismo – porque não se pode amar uns mais do que os outros, quando todos são iguais perante a Deus. 

— Terminamos o nosso. Não há mais quem queira falar? 

Leopoldo Cirne ergueu a loira cabeça de Salvador, fixando os olhos na minha pobre pessoa. Era a atração do abismo, uma explicação indireta, feita como quem, muito cansado da travessia por mundos ignorados, viesse a conversar à beira da estrada com o viandante descrente. 

(...) Depois um arrastar de cadeiras, apertos de mão, riso, conversa. Está acabada a sessão. Leopoldo Cirne volta da sua transfiguração, recobrando a voz habitual e a cortesia de sempre. 

Faço, receoso, um cumprimento aos seus dotes sagrados. 

— Ah! — sim? faz ele, pasmado, como se nunca se tivesse ouvido. 

Então peguei no chapéu sorrateiramente. Esse constante estado flutuante entre a realidade e o invisível, essas fugidas ao espaço para conversar com os Espíritos, a caridade evangélica do homem à beira do real eram alucinantes. Desci as escadas devagar, aquelas escadas por onde sempre subia a romaria dos enfermos; na rua enxuguei a fronte, olhando o edifício, menos misterioso que qualquer clube político e como passasse um bonde inteiramente vazio, refleti que esse bonde podia ser como o do marechal Quadros e voltei, a pé, devagar, para não dar encontrões nas pessoas que talvez comigo tivessem passado todo aquele dia do outro mundo.” 


SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS 

“O Homem é aquilo que ele acredita ‘’ – Anton Tchecov. 


A principal causa da deturpação e desvio das grandes idéias filosóficas e concepções religiosas é que os homens, não se esforçando o suficiente para compreendê-las, passam a adaptá-las ao seu modo de ser e de agir. Não conseguindo mudar a si mesmos, empreendem pelos seus pontos de vista a mudança dos princípios que não conseguiram assimilar. 

Quando os Espíritos e Allan Kardec montaram o corpo doutrinário do Espiritismo já contavam com possíveis desvios ou adaptações dos princípios fundamentais, pois que, apesar do grande embasamento filosófico, nenhuma doutrina, na sua expressão social, pode resistir à força da cultura na qual está inserida. Sócrates foi adulterado dessa forma; os ensinamentos de Jesus só não sofreram maior violência de conteúdo, porque o Mestre teve a magnífica idéia de condensá-los na simplicidade pedagógica das parábolas e nas exortações sintéticas do “Sermão do Monte”. Mesmo assim, como não era possível violar a espinha dorsal do Cristianismo, a tradição clerical apelou para os aspectos pessoais e fantasiosos da sua biografia, a fim de desviá-lo das suas finalidades originais para os seus interesses institucionais. 

Então, por mais que o Espiritismo seja claro nos seus conceitos, a maioria dos espíritas ainda está muito longe da clareza e objetividade das idéias dos seus propositores, mantendo-se muito próxima de suas antigas raízes religiosas e intelectuais. É difícil aceitar essa realidade, mas tanto os Espíritas conservadores quanto os mais liberais, no aspecto doutrinário, são em muitos casos novos dogmatizadores. Não é uma questão de capacidade intelectual, mas de cultura, de maturidade espiritual ou ainda de tendências comportamentais, que são coisas diferentes entre si, que possuem diferentes forças influenciadoras. Praticamente, todas as controvérsias e divergências que encontramos no Movimento Espírita são reflexos desse fator cultural que ainda está muito arraigado nos espíritos dos adeptos, sobretudo dos líderes. Grande parte dessa interferência cultural, de tendência ao dogma, vem das duas Igrejas antigas, a de Roma e a de Constantinopla, de quem herdamos a maioria das características psicológicas do comportamento religioso predominante na civilização cristã. Estas, por sua vez, foram herdeiras do modelo cultural judaico, cujas seitas e partidos religiosos agrupavam os mais variados “tipos psicológicos”, verdadeiros arquétipos que se manifestariam mais tarde nas principais escolas filosóficas e religiosas do Ocidente, incluindo o Movimento Espírita. Quando Jesus escolheu seus discípulos, não deixou de considerar esse perfil psicológico de cada um, ou seja, não escolheu aleatoriamente. Cada um deles, além de dotes mediúnicos naturais, tinha uma característica pessoal que os identificava mentalmente com suas origens culturais e tendências espirituais. Essas marcas pessoais estavam relacionadas social e psicologicamente com as três principais seitas judaicas, matrizes das mentalidades, as quais podem ser hoje identificadas nitidamente entre os adeptos do Espiritismo, ou de qualquer grupo judaico-cristão. Jesus também fez um amplo uso desses arquétipos para compor os exemplos de conduta dos personagens de suas parábolas. Tanto os apóstolos quanto os personagens de suas histórias eram divididos psicologicamente entre o comportamento dogmático e o comportamento autônomo. Por exemplo, enquanto Pedro tendia para o convencional, Paulo se desprendia das tradições e partia para aquilo que os gregos chamavam de “heresia” ou autonomia de pensamento e expressão. Era uma herança vivencial de Estêvão. Nesse sentido, vejamos se Allan Kardec não foi também um herege, como o corajoso diácono, animado do mesmo Espírito do profeta Ezequiel, se dirigindo corajosamente aos membros do alto clero judaico: 


“Homens teimosos, pagãos de alma e ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo, justamente como vossos pais o fizeram! A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Eles mataram os homens que predisseram a vinda do Justo que vós traístes e matastes – vós que recebestes a Lei das mão dos anjos e não a seguis” –(Atos –VII, 51-3.) 


A semelhança entre Estêvão e Ezequiel, “notáveis médiuns de incorporação”, é impressionante: 

“Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, por que não me quer dar ouvidos a mim; pois a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração.” 


Também neste trecho: 

“Então entrou em mim o Espírito, e me pôs em pé, e falou comigo, e me disse: vai e encerra-te dentro da tua casa.” 


Alguns seguidores de Estêvão, de Paulo e de Allan Kardec não tiveram a mesma ousadia e dogmatizaram suas ações atrevidas e heréticas: criaram a Igreja e tentam estreitar o Espiritismo e aprisioná-lo nas suas inibidas visões de mundo. É praticamente impossível compreender esses problemas da movimentação histórica do Cristianismo e do Espiritismo sem conhecer essas referências psicológicas (fariseus, escribas, saduceus, zelotes, essênios e terapeutas). Elas são, no campo psico-ideológico, da religiosidade e das crenças, as nossas raízes antropológicas mais antigas e profundas. Podem ser também as mesmas características que Allan Kardec deu aos três graus ou classes de Espíritas (O Livro dos Espíritos, Conclusão, VII). Não há como negar que, todos nós, mesmo não gostando ou admitindo ter uma “crença”, possuímos tais características, em sua plenitude de comportamento ou em traços que revelamos nas atitudes. Esse é um “mistério” cultural que Allan Kardec não quis explicar em sua época, pois essa tarefa seria, talvez, de Sigmund Freud ou de outra grande expressão da Psicologia. 

No entanto, seu pequeno esboço histórico é tremendamente revelador dos detalhes mentais que marcariam a obra do ilustre médico austríaco, não por coincidência de origem judaica. Para Kardec, a noção do “Inconsciente” era muito mais ampla, pois estava acrescida da informação das múltiplas existências, embora não contasse com os preciosos conceitos construídos pelo mestre da Psicanálise. Por essas e outras razões, não seria de espantar também que os mesmos Espíritos daqueles tempos antigos e medievais hoje estivessem “infiltrados” (entenda-se reencarnados) e comprometidos com as mais destacadas expressões do Movimento Espírita, propagando, de forma inconsciente, os elementos das famosas controvérsias judaicas, das polêmicas bizantinas sobre a natureza do corpo de Jesus, e também na ideologia totalitária da Santa Inquisição e do “Index Librorium Proibitorium” no julgamento e “queima” de escritores, médiuns e livros suspeitos de impureza doutrinária; encontramos também tais características no marianismo dos grupos nitidamente femininos, no ocultismo medieval, e muitas outras tendências, que brotam, espontaneamente, da diversidade cultural e racial do nosso País e das múltiplas origens dos Espíritos que aqui reencarnam. Quando vemos nomes lendários tomando formas influenciadoras e gerando tendências no Movimento Espírita como os “científicos”, os “místicos”, ou diversos Espíritos, assim como também inúmeros elementos reacionários que se auto-denominam “puristas e fiéis”, não podemos esquecer que eles surgem exatamente porque encontram público disposto e afinizado com os seus pontos de vista. Pensadores reacionários ou ecléticos podem ser tão úteis quanto perniciosos ao Movimento Espírita exatamente porque carregam na bagagem psíquica a doença potencial do sectarismo e do dogma; isso vai depender muito de como suas idéias serão encaradas ou colocadas em prática. Idéias extremistas do tipo “Espiritismo não é religião” ou o seu inverso “Espiritismo é apenas religião” podem transformar-se em seitas intelectualistas isoladas, ou em seitas evangelistas de massa, cujos germes do fanatismo se diferenciam apenas no enfoque que cada uma dá à sua forma de pensar. 

As diferenças entre as instituições Espíritas e suas respectivas idéias sobre o Movimento Espírita não estão somente nas interpretações dos conteúdos doutrinários e, sim, na formação cultural e nas tendências psíquicas pré-encarnatórias das pessoas que ali se atraem, se afinizam e convivem. Mas é preciso aceitá-las com um espírito mais tolerante e paciente, tal como Jesus fez nos seus primeiros contatos com os discípulos, e como Paulo faria com relação aos judeus e aos gentios. Negar que existam essas tendências ou discriminá-las é uma forma de manter um certo exclusivismo ou diferencial em relação à maioria; é também prova de um comportamento elitista. Elitismo é arrogância e esta gera a intolerância, comportamento frontalmente contra os ensinamentos do Espiritismo e dos Espíritos que opinaram nos textos da Codificação. 

É muito importante lembrar que a principal característica de um movimento social é a sua historicidade e não o imaginário idealizado que os seus participantes dão a ele. Uma coisa é o Movimento Espírita como ele “é”, se manifestando como História, fato social, acontecendo no tempo e no espaço; outra coisa é o que os Espíritas pensam e sentem sobre isso, incluindo o que esse movimento “deveria” ser. Quando identificamos idéias do tipo “Terceira Revelação”, “Espiritismo, religião do futuro”, “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, não podemos esquecer que são idealizações e não fatos consumados; podem vir a ser realidade ou não. A própria história de Jesus ou de Judas poderiam ter sido bem diferentes se a Lei de Livre-Arbítrio tivesse sido usada de forma também diferente. 


KARDEC “ESPÍRITO” SE COMUNICA 

Sempre que tratarmos dos problemas que envolvem o Movimento Espírita, não podemos esquecer que existe essa diferença entre o real e o ideal, entre o fato e o imaginário na sua manifestação. Como em todas as organizações humanas, nas espíritas nem sempre é a razão ou a lógica que comandam as nossas atitudes, mesmo em se tratando de um ideal superior, que deveria estar acima dessas coisas pequenas. O que predomina nos momentos de divergências, quase sempre, é o egoísmo e os interesses pessoais, que camuflamos como se fosse interesse coletivo, para não sairmos “perdendo” em “disputas” que colocam em cheque as nossas verdades com as verdades alheias. 

Esse foi também o ponto nevrálgico em que se apoiou o Espírito de Allan Kardec para criar uma atmosfera de reflexão e auto-crítica no Movimento Espírita, logo após o seu desencarne. Sabendo com antecipação dos ataques dos adversários encarnados e desencarnados, o Codificador transmitiu mensagens mediúnicas históricas na Sociedade Espírita de Paris e também no Brasil, quando do famoso cisma entre “místicos” e “científicos”, no final do século XIX. 

As primeiras mensagens, recebidas por diversos médiuns, foram publicadas na Revista Espírita através de fragmentos selecionados pelo novo editor. Eram agradecimentos pelas manifestações durante os funerais e algumas exortações sobre a “esperança” e a “fraternidade” como sentimentos fundamentais para manter acesa a chama do Espiritismo. Numa segunda mensagem Kardec justifica sua ausência alegando uma grande intensidade de trabalho no Plano Espiritual e manifesta a preocupação em reafirmar a estreita relação que deve existir entre a propaganda da doutrina e a conduta dos seus seguidores para o progresso na sua expansão: 


“O que vos aconselho, antes de mais nada e sobretudo, é a tolerância, a afeição, a simpatia de uns para com os outros e também para com os incrédulos. Quando vedes um cegos na rua, vosso primeiro sentimento é a compaixão. Que assim seja também para os vossos irmãos cujos olhos estão fechados e velados pelas trevas da ignorância ou da incredulidade.” 

(...) As brochuras, os jornais, os livros, as publicações de toda espécie são meios poderosos de introduzir a luz por toda a parte, mas o mais seguro, o mais íntimo e o mais acessível a todos é o exemplo da caridade, a doçura e o amor.” 


Em 21 de setembro de 1869 o Espírito Kardec se manifesta para falar sobre o tema “aniversários e centenários”, para ele um costume do mundo moderno digno de elogio. Fala das datas e das lembranças para marcar a distinção que o povo faz, como reflexo da consciência universal, entre os conquistadores e os regeneradores. Diz que a glória dos conquistadores “se extingue com a fumaça do sangue que eles derramaram e as lágrimas que fizeram correr” e que a dos regeneradores “aumenta sem cessar, porque o Espírito, engrandecendo-se, recolhe as folhas esparsas em que estão inscritos os atos gloriosos desses homens”. Ao exemplificar sua observação Kardec parece mergulhar no tempo e na própria experiência para lembrar um conhecido apóstolo da liberdade de consciência: 


“Após quinhentos anos, Jan Huss vive na memória de todos, ele que verteu apenas o seu próprio sangue para a defesa das liberdades que havia proclamado. Mas alguém se lembra do príncipe que, na mesma época, ao preço de enormes sacrifícios dos homens e recursos, tentou apoderar-se das terras de seus vizinhos? Lembra-se do malfeitor armado que exigia tributos do viajante imprudente? Não obstante, a celebridade é atribuída ao guerreiro, ao bandoleiro e ao filósofo: mas o guerreiro e o assassino estão mortos para a prosperidade. Sua lembrança jaz encerrada entre duas folhas amareladas das histórias medievais. O pensador, o filósofo, o que primeiro despertou a idéia do direito e do dever, que substituiu a escravidão e o jugo pela esperança da liberdade, esse está vivo em todos os corações. Ele não procurou o seu bem-estar e a sua glória, procurou a felicidade e a glória para a Humanidade futura!” 


Em novembro de 1869 a Revista Espírita traz uma comunicação denominada “Desertores”, na qual o Espírito do Codificador fala da soma que ocorre entre os ingredientes negativos e positivos para formar a história das grandes ações. Do choque entre as ações favoráveis e as desfavoráveis é que surge a força de uma idéia, pois aqueles que agem contra são na verdade pontos de atração que, mais cedo ou mais tarde, acabam se integrando ao pólo que os atraíam pela repulsa. Os que gratuitamente fizeram do Espiritismo um ponto de repulsão e nele se perderam, dedicando-se a combatê-lo pela pura emoção, pagam caro, em amargas provas, pela sua obra sem rumo: 


“Após minha volta ao Mundo do Espíritos, reencontrei um certo número desses infelizes. Estão arrependidos, lamentam sua inação e suas más decisões, mas não podem recuperar o tempo perdido! Voltarão logo à Terra com firme resolução de contribuir ativamente para o progresso, mas estarão ainda em luta com as suas velhas tendências, até que consigam triunfar definitivamente” 


No Brasil as históricas “Instruções aos Espíritas do Brasil”[32] foram dadas na sede da Sociedade Espírita Fraternidade, através de Francisco Frederico Júnior, médium de grande prestígio, mas também bastante “envolvido” nas controvérsias entre místicos e científicos. Assunto muito delicado, pois, por incrível que pareça, o Espírito que criou a Doutrina, ensinou e provou a possibilidade dos “mortos” se comunicarem com os “vivos”, teve que “pisar em ovos” para emitir sua opinião sobre os nossos problemas e comprovar que sua comunicação era autêntica. Mesmo assim, deixou dúvidas entre alguns céticos. O clima de confiança e respeito entre os membros das reuniões mediúnicas, típicas das comunidades cristãs primitivas e das reuniões dirigidas por Kardec, aos poucos foi perdendo espaço para os sentimentos e atitudes negativas entre os irmãos de doutrina. É que, ao contrário do que acontecia agora, nos primeiros tempos a mediunidade-missão se sobrepunha à mediunidade-tarefa; a característica moral e impessoal se impunha sobre a característica intelectual e personalista. Mesmo os médiuns de alto potencial técnico, quando não conseguem manter o devido padrão moral, passam a ser alvos inevitáveis de questionamentos e incertezas. 

As Instruções do Espírito de Allan Kardec só podem ser medidas no seu real valor se lhe dermos crédito no seu sentido geral, de preocupação coletiva. Deixando de lado a idéia de discriminação da fonte mediúnica, da linguagem, ou qualquer tipo de suspeita menos digna, para olharmos, tão somente, o conteúdo, vamos descobrir nelas um manancial realmente muito útil e sempre atual, no que diz respeito aos problemas do nosso ideal. Dias antes de entrar diretamente no assunto, o Espírito Allan Kardec alerta para os riscos da indisciplina mental, ou invigilância, do próprio médium e abre sua prédica, preparando os corações menos humildes para ouvir as duras verdades das quais se fazia, mais uma vez, porta-voz. A mensagem mostra um Allan Kardec bem diferente dos tempos de Paris e portador de uma linguagem religiosa cheia de sincretismo, típica dos kardecistas da Federação Espírita Brasileira. Vendo por esse aspecto crítico, a intenção é claramente uma tentativa de historicizar e investir a FEB como legítima herdeira do Espiritismo no Brasil e, de fundo, com o respaldo de Roustaing e o Guia Ismael, como a “revelação da revelação”: 


“Eis que se aproxima para mim o momento de cumprir minha promessa, vindo fazer convosco em particular e com os espíritas em geral um estudo rápido e conciso, sobre a marcha da nossa Doutrina nesta parte do planeta. É natural que a vossa bondade me forneça para isso ensejo, na próxima sessão prática, servindo-me do médium com a mesma passividade com que o tem feito das outras vezes. A ele peço, particularmente, não cogitar da forma da nossa comunicação, não só porque dessa cogitação pode advir alteração dos pensamentos externados, como ainda porque acredito haver necessidade, sem ofensa à sua capacidade intelectual, de submeter a novos moldes, quanto à forma, àquilo que tenho dito e vou dizer em relação ao assunto.” 


E voltou Kardec, em Espírito, como prometera, para dar sua opinião sobre o cisma brasileiro e os rumos pelos quais o movimento poderia enveredar. Foi no dia 5 de fevereiro de 1889: 


“Paz e amor sejam convosco. 

Que possamos ainda uma vez, unidos pelos laços de fraternidade, estudar essa Doutrina de paz e amor, de justiça e esperanças, graças à qual encontraremos a estreita porta da salvação futura – o gozo indefinido e imorredouro para as nossas almas humildes. Antes de ferir os pontos que fazem o objetivo da minha manifestação, devo pedir a todos vós que me ouvis – a todos vós espíritas a quem falo neste momento – que me perdoem se porventura, na externação dos meus pensamentos, encontrardes alguma coisa que vos magoe, algum espinho que vos vá ferir a sensibilidade do coração. 

(...) Sempre compassivo e bom, volvendo os piedosos olhos à Humanidade escrava dos erros e das paixões do mundo, Deus torna uma verdade as palavras do seu amantíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e manda o Consolador – O Espírito de Verdade – que vem abertamente falar da revelação messiânica a essa mesma Humanidade esquecida do seu imaculado Filho, aquele que foi levado pelas ruas da amargura, sob o peso das iniqüidades e das ingratidões dos homens! 

(...) Sendo assim, a esse pedaço de terra a que chamais Brasil, foi dada também a revelação da revelação, firmando os vossos Espíritos, antes de encarnarem, compromissos de que ainda não vos desobrigastes. E perdoai que o diga: tendes mesmo retardado o cumprimento deles e de graves deveres, levados por sentimentos que não convém agora perscrutar. 

(...) Assim, quando os inimigos da luz, quando o Espírito das trevas julgava esfacelada a bandeira de Ismael, símbolo da trindade divina, quando a voz iníqua já reboava no espaço glorificando o reino das trevas e amaldiçoando o nome do Mártir do Calvário, ele recolheu o seu estandarte e fez que se levantasse uma pequena tenda de combate com o nome – Fraternidade! Era este, com certeza, o ponto para o qual deviam convergir todas as forças dispersas – todos os que recebiam a semente no pedregulho! 

Certos de que acaso é palavra sem sentido e testemunha dos fatos que determinam o levantamento dessa tenda, todos os espíritas tinham o dever sagrado de vir aqui se agrupar, ouvir a palavra sagrada do bom Guia Ismael, único que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta, único que tem toda a responsabilidade da sua marcha e do seu desenvolvimento.

Mas, infelizmente, meus amigos, não pudestes compreender ainda a grande significação da palavra Fraternidade! 

Não é um termo, é um fato; não é sua palavra vazia, é um sentimento sem o qual vos achareis sempre fracos para essa luta que vós mesmos não podeis medir, tal a sua grandeza extraordinária! 

Ismael tem o seu Templo e sobre ele a sua bandeira ‘Deus Cristo e Caridade!’ Ismael tem a sua pequenina tenda, onde procura reunir todos os seus irmãos – todos aqueles que ouviram a sua palavra e a aceitaram como verdade. Chama-se Fraternidade! 

Pergunto-vos: pertenceis à Fraternidade? Trabalhais para o levantamento desse Templo cujo lema é Deus, Cristo e Caridade? Como? E de que modo? 

(...) Mas onde a vantagem das subdivisões? Onde o interesse real para a Doutrina e seu desenvolvimento, na dispersão que fazeis do vosso grande todo, dando já desse modo um péssimo exemplo aos profanos, por isso que pregais a fraternidade e vos dividis cheios de dissensões? Onde a vantagem de tal proceder? Estarão na diversidade dos nomes que dais aos grupos? Por que isso? Será porque este ou aquele haja recebido maior doação do patrimônio divino? Será porque convenha à propaganda que fazeis? 

Mas, para a propaganda, precisamos dos elementos constitutivos dela. Pergunto: — onde a Escola de Médiuns? Existe? Porventura os homens que têm a boa vontade de estudar convosco os mistérios do Criador, preparando seus Espíritos para o ressurgir na outra vida, encontram em vós os instrumentos disciplinados – os médiuns perfeitamente compenetrados do importante papel que representam na família humana e cheio dessa seriedade, que dá uma idéia exata da grandeza da nossa doutrina? Ou a vossa propaganda se limita tão somente a falar do Espiritismo? Ou os vossos deveres e as vossas responsabilidades, individuais e coletivas, se limitam a dar a nota do ridículo àqueles que vos observam, julgando-vos doidos e visionários? 

Meus amigos! Sei quanto é doloroso tudo isto que vos digo, pois cada um dos meus pensamentos é uma dor que repassa profundamente o seu Espírito. Sei eu as vossas consciências sentem perfeitamente todo o peso das verdades que vos exponho. Mas eu vos disse ao começar: — temos responsabilidades e compromissos tomados, dos quais procuramos desobrigar-nos por todos os meios ao nosso alcance. 

Se completa não está minha missão na Terra, se mereço ainda do Senhor a graça de vir esclarecer a doutrina que aí me foi revelada, dando-vos nossos conhecimentos compatíveis com o desenvolvimentos das vossas inteligências, se vejo que cada dia que passa da vossa existência – iluminada pela sublime luz da revelação, se produzirdes um trabalho na altura da graça que vos foi concedida – é um motivo de escândalo para as vossas próprias consciências; devo usar da linguagem rude do amigo, a fim de que possais, compenetrados verdadeiramente dos nossos deveres de cristãos e de espíritas, unir-vos num grande agrupamento fraterno, onde – avigorados pelo apoio mútuo e pela proteção dos bons – possais enfrentar o trabalho extraordinário que vos cumpre realizar para a emancipação dos vossos Espíritos, trabalho que inegavelmente ocasionará grande revolução na Humanidade, não só quanto à parte da Ciência e da Religião, como também na dos costumes! 

Uma vez por todas vos digo, meus amigos: — Os vossos trabalhos, os vossos labores não podem ficar no estrito limite da vossa boa vontade e da propaganda sem os meios elementares indicados pela mais simples razão. 

(...) Meus amigos! Sem caridade não há salvação. Sem fraternidade não pode haver união. 

Uni-vos, pois, pela fraternidade debaixo das vistas do bom Ismael, vosso Guia e protetor. Salvai-vos pela Caridade, distribuindo o bem por toda parte, indistintamente, sem pensamento oculto. Aqueles que vos pedem lhes deis a vossa crença ao menos um testemunho moral, que os possa obrigar a respeitar em vós o indivíduo bem intencionado e verdadeiramente cristão. 

(...) Permita Deus que os espíritas, a quem falo, que os homens, a quem foi dada a graça de conhecerem em espírito e verdade a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, tenham a boa vontade de me compreender, a boa vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhes consagro”. 


OS PUROS E OS IMPUROS 

Estamos na cidade de Santos, a histórica metrópole do litoral paulista, imortalizada numa conhecida canção da década de 1970 e também pelo time de futebol no qual Pelé iniciou sua carreira profissional e projetou-se como o Atleta do Século. Os caminhos que nos levam até ela são as famosas curvas das estradas que contornam perigosamente a Serra do Mar. A descida rápida pelas rodovias Anchieta e Imigrantes, que sempre fascina os turistas da Capital e do interior, provoca uma surdez momentânea nos viajantes, causada pela pressão atmosférica. O efeito desagradável passa quase despercebido com a ajuda da paisagem deslumbrante do Oceano Atlântico, que também banha o Guarujá, São Vicente e a Praia Grande. Em dias de sol o mar é de um azul indescritível e quem olha de cima tem a impressão de que aquelas cidades vivem em permanente clima de veraneio. Os santistas sentem um grande orgulho de tudo isso, talvez um reflexo da grandeza oceânica; adoram sua cidade e provavelmente muito antes das aventuras de Bartolomeu de Gusmão, o padre voador, já possuíam uma curiosa tradição vanguardista em todas as áreas do conhecimento. José Bonifácio, do núcleo dos Andradas, maçom e patriarca da Independência, nasceu na cidade e nela foi iniciado nas práticas precursoras do Espiritismo, como a homeopatia e o magnetismo. Em Santos existe um grande número de centros espíritas, alguns quase ou já centenários e Anália Franco também deixou na cidade a marca dos seus exemplos de ajuda ao próximo. No final da década de 1940 o Centro Espírita Ismênia de Jesus teve entre seus colaboradores mais atuantes o famoso médium de efeitos físicos Peixotinho. Algumas inforações mediúnicas afirmam que a cidade é uma extensão de uma antiga e importante colônia espiritual, atualmente dirigida pelo Espírito Cairbar Schutel e que dali coordena o movimento espírita no Brasil e no mundo. Henrique Diegues[33], um antigo militante santista e membro da loja maçônica José Bonifácio, obteve de Chico Xavier a informação de que a colônia espiritual santista “Alvorada Nova” localiza-se na direção Norte da cidade e nos disse que a prova está no livro de André Luiz E a Vida Continua...[34], quando, nos anos 1960, a personagem Alzira Campos revela para os companheiros recém-desencarnados as suas impressões sobre o local que os acolhera: 


“Certamente já sabem que estamos rodeados por vida citadina muito intensa. Residências, escolas, instituições, templos, indústrias, veículos, entretenimentos públicos... 

(...) Isso aqui é uma cidade relativamente grande. Nada menos de cem mil habitantes e, ao que dizem, com administração das melhores. 

(...) Não se aflijam. Vocês conhecerão tudo a seu tempo. A cidade é linda. Uma espécie de vale de edifícios, como que talhados em jade, cristal e lápis-lazúli. Arquitetura original, praças encantadoras recamadas de jardins. Creiam vocês que caminhei, fascinada, de rua a rua”. 


Diegues lembra também que participou da fundação de vários núcleos espíritas e que na década de 1920 seus avós, de origem galega, realizavam sessões doutrinárias, de materialização e caravanas de auxílio aos moradores pobres dos morros. Quando da instalação do Estado de sítio, durante governo de Artur Bernardes, numa reunião convocada na casa do avô para alertar os membros sobre o risco de prisão, uma jarra de água, colocada sobre uma mesa, explodiu sob forte impacto espalhando água e estilhaços de vidro por todos os lados. Logo em seguida manifestou-se um Espírito, em fala também explosiva e indignada, profetizando que chegaria o tempo em que o Espiritismo seria espalhado pelo mundo, como a água daquela jarra, e pregado livremente em praças públicas. Coincidência ou não, foi o próprio Henrique Diegues, muito anos depois, quem organizou a primeira palestra pública de Espiritismo em Santos, realizada nas escadarias do prédio da Alfândega, na região portuária central. O diretor do prédio, católico fervoroso, só exigiu que Henrique não permitisse que “os Espíritos invadissem o local e permanecessem ali perturbando o expediente...” Outra coincidência é que o neto dos pioneiros espíritas também teve a façanha de conseguir junto às autoridades a construção da Praça Allan Kardec, localizada no bairro da Ponta da Praia. A inauguração, em 1º de outubro de 1972, na presença de cerca de 400 pessoas, teve canto de coral, um memorável discurso do Professor Altivo Ferreira e a presença do Dr. Luiz Monteiro de Barros, da USE, de Carlos Jordão da Silva, da FEESP, e do general Bandeira Brasil, então prefeito-interventor militar na cidade. 

Mas o sincretismo do Espiritismo com a umbanda na baixada santista é histórico e muito expressivo, por influência de uma fusão racial e cultural do catolicismo ibérico com os cultos afro-indígenas, desde os tempos coloniais. Essa característica também inspirou uma curiosa e combativa forma de kardecismo em nosso movimento. É o chamado Espiritismo laico, que não nasceu exatamente aqui, mas, por ser intensamente praticado e divulgado por alguns confrades santistas, adquiriu o apelido de “Grupo de Santos”. 

É abril, o mês em que se comemora o surgimento de O Livro dos Espíritos e em muitos lugares realizam-se as tradicionais Semanas Espíritas. Em Santos, ao invés de “Semana Espírita”, está sendo realizada a “Primeira Semana Kardecista”. Adentramos ao auditório do Instituto Cultural Kardecista de Santos, para assistir o documentário de Edson Audi sobre a vida de Allan Kardec. O cineasta filmou na Europa os lugares onde o Codificador nasceu, estudou, trabalhou, e mais tarde dedicou-se ao Espiritismo. O seu olhar se dirige agora ao Cemitério Père-Lachaise em cujas alamedas tristes vai mostrando, aqui e ali, algumas sepulturas de personalidades famosas do século XIX, até chegar ao dólmem druida sob o qual foram enterrados os restos mortais de Rivail e da companheira Amélie Boudet. O túmulo, erigido em pedra bruta, é totalmente diferente dos demais e nota-se ao seu redor uma movimentação singular. Aproximando a câmera, Audi mostra alguns detalhes curiosos como velas e muitos vasos de flores. Na platéia do instituto escutamos algumas gargalhadas, misto de espanto e indignação. Percebemos também que alguns expectadores do filme olham para a tela com um certo ar de nostalgia, que não sabem se é saudade do passado, ou espera do futuro, provocado pelo ideal doutrinário que cultivam. Outros acham engraçado que certos visitantes façam o sinal da cruz diante do busto de Kardec. Certos visitantes não resistem e passam vagarosamente a mão na base da estátua, talvez querendo levar dali uma lembrança palpável do que viram. Realmente o túmulo é um local de peregrinação e devoção religiosa e a maioria dos expectadores do filme, freqüentadores do Instituto, são espíritas areligiosos, alguns anti-religiosos. Aqui não se faz preces nas aberturas dos eventos, nem qualquer outro tipo de cerimonial que lembre o comportamento religioso judaico-cristão. Aliás, a expressão “judaico-cristão” é constantemente repetida como argumento defensivo em praticamente todas as críticas à religiosidade. Para alguns deles a religião e a religiosidade são coisas idênticas e não se faz a necessária distinção entre os aspectos sócio-institucionais exteriores e o emocional, de origem antropológica mais antiga e mais profunda do que suas manifestações sociais e exteriores. Na mesma linha dos intelectuais do século XIX, confundem também cristianismo com catolicismo. Sensíveis e amáveis, mostram-se sempre alegres, fraternos; adoram as artes e fazem dos temas espíritas uma verdadeira festividade cultural. Ali não falta espirituosidade e bom humor. Só não gostam de religião e misticismo. Observa-se neles um certo complexo de inferioridade quando comparam o Espiritismo com outras doutrinas; querem e sentem, a todo custo, a necessidade de provar para sociedade que os espíritas não são aquilo que mostram as aparências. Supervalorizam os títulos acadêmicos esperando que disso poderão extrair algum prestígio social. Aliás, esse hábito não é exclusividade dos confrades santistas. Esse sentimento de inferioridade e vergonha do sincretismo incentiva uma excessiva intelectualização da Doutrina e a conseqüente abominação de tudo o que é comum e trivial, segundo eles, incluindo a popularização do Espiritismo pela via mística cristã. Buscam um diferencial que possa distingui-los da massa espírita pouco culta. Uma antiga rivalidade entre santistas e campineiros parece ter sido transferida para o Movimento Espírita. Como um grupo de jovens de Campinas ficou conhecido na década de 1960 por suas posições radicais, os santistas não poderiam perder essa parada e desencadearam uma movimentação na mesma linha de atuação. Tornaram-se então herdeiros indiretos do médico baiano Joaquim de Souza Ribeiro (1884-1956), radicado em Campinas, e do ativista político Campos Vergal, intelectuais anti-místicos e anti-religiosos históricos. Como a maioria dos grupos espíritas, atuam na assistência social, mas, no aspecto doutrinário, renegam as instituições federativas nacionais, segundo eles contaminadas pelo evangelismo místico. Tentam, dentro dos seus limites, ampliar suas fronteiras políticas através da CEPA – Confederação Espírita Pan-americana, órgão que passou a abrigar uma grande parte de adeptos marginalizados do Espiritismo intelectualista. Durante algum tempo tiveram algum peso na USE paulista, mas suas teses foram fortemente rechaçadas pelo grupo cristão dominante. Trata-se de uma questão ideológica que para muitos é um escândalo e para eles é ponto de honra e um cavalo de batalha. É que, para os espíritas convencionais, eles são um tanto estranhos e atrevidos, um desvio do comum, chegando mesmo a parecer que são ateus ou membros de uma nova Igreja Positivista. Mas eles acham exatamente o contrário: se auto-definem como kardecistas puros, porém progressistas e que a maioria dos espíritas no Brasil é retrógrada está na contra-mão da rota traçada por Allan Kardec. Sendo o Espiritismo uma doutrina típica da modernidade, construída dentro dos paradigmas científicos e filosóficos do século XIX, entendem eles que sua rota histórica é a pós modernidade, ou seja , a “desconstrução” natural das suas características superadas e a descobertas de novos paradigmas. Para os espíritas convencionais suas idéias são chocantes e provocativas porque idéias e personalidades “sacralizadas” como o Cristianismo, os Espíritos Superiores e até mesmo Allan Kardec são para eles alvo natural de críticas e contestações filosóficas. Contudo, são portadores de idéias sinceras, cheias de idealismo e que nos remetem sempre à reflexão. Como todos os demais espíritas, flutuam entre o extremismo e a moderação, mesmo porque sofrem constantes ataques extremados e injustos, o que provoca reações defensivas carregadas de emoção e agressividade ideológica. Aparentemente são céticos, mas não são “contra Jesus”, nem contrários ao Evangelho, muito menos inimigos da religião, como querem seus preconceituosos e inseguros adversários. Isto porque, entre eles, a palavra de ordem é sempre questionar. A sacralização das obras de Kardec e das atividades espíritas é fortemente criticada e continua sendo motivo de atritos ideológicos com o stablishment buracrata-religioso que domina as instituições espíritas no país. A discussão sobre a religiosidade ou não do Espiritismo já superou aquela fase passional, de estilo bizantino, e parece ter assumido ares de convicção permanente. Querem destacar e gerar uma mentalidade social e política espírita e acenam sempre para a necessidade de atualização do Espiritismo, pois alguns conceitos contidos na Codificação estão, para eles, claramente ultrapassados. Na saída, antes do “até logo”, conseguimos alguns exemplares do jornal “Abertura”[35], onde encontramos artigos nos quais podemos ter uma idéia mais clara de quem são, o que pensam e como se comportam esses nossos irmãos. Vamos perceber também quanto o nosso movimento está ideologicamente dividido e como são profundas as divergências sobre o significado e a significação da Doutrina Espírita. Trata-se de textos críticos ou auto-críticos, permeados de verdades e alguns exageros, mas que também revelam perfeitamente o perfil e as razões de quem fala: 


“A deturpação do Espiritismo começou logo que ele se instalou no Brasil. Os primeiros espíritas não tiveram estrutura mental e emocional para absorver o pensamento de Allan Kardec. Derivaram para o evangelismo, atendendo às próprias tendências: fruto do roustainguismo. 

O movimento espírita engatinhou pelo menos 50 anos até que veio o “boom” de Chico Xavier. Desde então verificou-se que o roustainguismo estava visceralmente infiltrado no pensamento espírita brasileiro, influenciado por Bezerra de Menezes e seus parceiros, com a fundação da Federação Espírita Brasileira. 

Isto porque Emmanuel, guia de Chico Xavier, só fez acentuar esse desvio fundando oficialmente a religião espírita e referendando a cristolatria inaugurada pelo anjo Ismael. Ambos afirmaram, como Espíritos Superiores, que o Espiritismo tem por missão restaurar o evangelho e como tal existe entre eles e as igrejas cristãs um laço muito forte, mesmo que estas o rejeitem. 

Esse afastamento da real estrutura do Espiritismo Kardecista originou uma subdoutrina espírita, um pseudo-Espiritismo, cujos alicerces repousam claramente nas idéias de Roustaing, Emmanuel e outros ligados ao cristianismo. Tornou-se aceito porque os dirigentes espíritas de todos os níveis, em sua esmagadora maioria, desconhece o pensamento de Allan Kardec. Oriundos do catolicismo sentem-se ‘em casa’ com essa derivação evangélico-mediúnica a que se reduziu o projeto inicial do fundador do Espiritismo. 

A imagem do Espiritismo brasileiro é religiosa, confundida com a umbanda e cultos afro-católicos. Todo o esquema de atuação está assentado sobre os pressupostos do catolicismo, isto é, culpa e castigo, e esse é o pensamento central desse pseudo-Espiritismo. Além de Roustaing, outros personagens entram nessa história: Emmanuel (Chico Xavier), Joana de Angelis (Divaldo Franco), Edgard Armond e até Pietro Ubaldi, bem como outros que nada têm com o pensamento de Kardec. Aliás, ele é o grande excluído. 

Existe um grupo de espíritas que se auto-denominam ‘autênticos kardecistas’ e que se esmera num ferrenho combate à Federação Espírita Brasileira e ao roustainguismo, centrado no detalhe absolutamente desprezível do corpo fluídico de Jesus. No dizer de Krishnamurti de Carvalho Dias, esse é o ‘boi de piranha’ que possibilita a entrada de conceitos contrários à grande contribuição kardecista, que é a imortalidade, a lei da evolução, progressiva e contínua. 

Entretanto, esse grupo ‘autêntico’, curiosamente, aceita o aspecto religioso do Espiritismo e de certa forma a cristolatria roustainguista ao apoiar-se nas teses de Emmanuel sobre a evolução em linha reta e o papel de ‘governador’ do planeta atribuído ao Cristo, quando nada disso pode ser encontrado no pensamento genuíno de Kardec. 

Enfim, os combates margeiam o político e o imaginário, pois esses tais de ‘espíritas autênticos’ continuam acreditando que Kardec foi apenas o codificador e não o fundador do Espiritismo. E ainda continuam atrás do mito cristão do salvador e do mito judaico do messias. 

Não aprenderam a lição histórica da evolução geral e do sentido progressista de Kardec. Apegam-se ao aspecto místico da revelação sobrenatural, na chefia mística de Jesus Cristo, como ‘o Espírito de Verdade’ e daí por diante. 

Há mais de trinta anos estamos lutando, muitas vezes solitariamente, pela instalação da doutrina kardecista, única forma de salvar o Espiritismo fundado por Allan Kardec de naufragar. Porque o Espiritismo que se pratica e se propaga no Brasil, de modo geral, não foi fundado nem codificado por Kardec.” 


O grupo “autêntico” citado no editorial provavelmente são os ortodoxos seguidores J. Herculano Pires, supomos. Se percorrermos com um olhar mais crítico os rumos do movimento espírita nacional vamos realmente constatar esse “desvio” das características originais. Um exemplo disso é a diferença gritante que existe entre a obra mediúnica de Chico Xavier e o esquema místico e idólatra que foi sendo construído em torno do médium. Uma reportagem da TV Globo exibida logo após o desencarne de Chico Xavier, mostrou bem o quanto o sincretismo religioso ainda envolve o Espiritismo no Brasil. Chico Xavier não foi mostrado como um fiel discípulo de Kardec, mas um santo que futuramente poderá se canonizado pela Igreja Católica, pelos seus feitos e milagres. A emissora de TV não elaborou a matéria a partir do ponto de vista único e isolado de seus produtores, mas do comportamento observado entre o grande público para o qual a reportagem sendo estava direcionada. Um ano antes, um cinegrafista da mesma emissora registrou um raio de luz penetrando pela janela do hospital onde Chico estava internado. O fenômeno luminoso que, segundo o próprio Chico, era o Espírito de sua mãe, foi mostrado cansativamente quando o médium desencarnou. Físicos e parapsicólogos logo foram chamados para dar a tradicionais explicações inexplicáveis. A matéria, que enfatizou a fé como conteúdo principal, foi concluída com uma cena mostrando um terço católico colocado ao lado de imagens de Jesus na cabeceira da cama Chico, provavelmente colocados ali pelas empregadas da casa. Para um expectador desatento, conclui-se facilmente, pelas imagens, que Chico não era totalmente espírita e que o catolicismo ainda rondava o seu ideal. A morte de Chico e o tal fenômeno foram os assuntos do mês. Não tardou muito para vir a resposta católica: um efeito visual na vidraça de uma casa na periferia de São Paulo e que lembra imagem da Virgem Maria explodiu como alvo de culto e romaria. Toda a imprensa desviou suas atenções para o assunto. Especialistas e especuladores foram chamados e conclui-se que era um defeito de fabricação do vidro a causa do fenômeno. Mas quem estava interessado na explicação científica? A romaria continuou com todo o entusiasmo, devidamente acompanhada pela imprensa e intensamente vigiada pelo clero. Era a “repetição” da velha história: quando o Espiritismo começou a ser assimilado pelas massas na França, criou-se o mito de Nossa Senhora de Lourdes. Durante a Primeira Guerra Mundial, quando muitas pessoas buscavam notícias de parente mortos, explorou-se intensamente as aparições de Fátima, em Portugal. 

É desse perigoso jogo ideológico, no qual a Igreja Católica possui experiência milenar, que surgem as confusões doutrinárias e o alimento principal do sincretismo que persegue o Espiritismo. Isso também explica o porquê de determinados segmentos do movimento espírita parecerem tão intransigentes e radicais nas questões de pureza doutrinária. 

Mas os nossos indignados e exigentes confrades santistas não passam “impunes” aos olhos do Movimento Espírita. São fortemente atacados e perseguidos por algumas lideranças importantes, que os isolam de várias formas, incluindo a conhecida acusação de “perturbação espiritual”. Jaci Régis, pensador e divulgador histórico do “grupo”, lamenta, como todos nós deveríamos lamentar, que seus livros sejam proibidos em muitas instituições espíritas e que suas conferências sofram boicote organizado por dirigentes inseguros e ciumentos. Sem dúvida um efeito esdrúxulo das “comissões de doutrina”, incentivadas pelos ortodoxos e patrulheiros doutrinários de plantão. Essas manifestações de intolerância e sectarismo certamente não foram herdadas de Allan Kardec e mostram o quanto o totalitarismo católico e protestante ainda interferem no Movimento Espírita. 

Um segundo artigo, publicado um ano depois do primeiro que citamos, juntamente com as primeiras notícias da Semana Kardecista, em Santos, é uma queixa e também uma resposta severa aos ataques dos críticos. O editorial, provavelmente também redigido por Jaci Régis, foi denominado “Desrespeito a Kardec”: 


“O avanço sereno e permanente da luta pela constante atualização do pensamento kardecista, pode ser medido pelas reações dos conservadores. 

O termo ‘conservador’ é aplicado aqui aos que, embora afirmando teoricamente que Kardec afirmou o progresso da doutrina, recusam-se a sair do lugar em que se acomodaram e se mantém apegados às deformações criadas em torno do verdadeiro sentido do Espiritismo. 

Uma das formas dessa reação é desqualificar o trabalho de atualização. A proposta pela atualização tem sido colocada de forma consciente e absolutamente responsável, e jamais pretendeu, nem se pretende, solapar, minimizar ou destruir o trabalho de Kardec. 

Ao contrário, trabalha justamente por preservá-lo, mantendo-o útil e apropriado ao desenvolvimento da ciência, para que sirva de apoio às necessidades das pessoas. 

Os conservadores tentam passar a idéia de que somos um grupo de desvairados e desordeiros doutrinários. Para isso, utilizam-se de recursos tradicionalmente utilizados pelos grupos religiosos e partidários, incapazes de aceitar a diversidade, as mutações e tornam-se prisioneiros de esquemas mentais comprometidos com o passado. 

Nesse sentido, vale protestar contra a inclusão dos chamados ‘laicos’, que seríamos nós, no conjunto do ‘novidadeiros’ apresentados como indivíduos desqualificados intelectual e moralmente para serem levados a sério. 

Tal procedimento mostra como certos espíritas desrespeitam Kardec. Pois o maior ‘novidadeiro’ na expressão pouco feliz de alguns autores foi justamente Kardec. Eles julgam que apelando para o cinismo e para a calúnia manterão o Espiritismo preso ao aspecto religioso, católico e evangélico, com que desfiguraram o pensamento do fundador da doutrina. 

O avanço e a atualização do Espiritismo são necessidades fundamentais para seu próprio projeto de influenciação social. Nele permaneceremos e venceremos. 

Não é, pois, a nós – que queremos um Espiritismo atualizado e atuante – que eles ofendem. Mas ao fundador da doutrina, cuja memória, mais uma vez é deixada de lado e amesquinhada por interesses nem sempre muito claramente definidos”. 


Afinal de contas, quem é quem? Quem é puro ou impuro? Quem é conservador e quem é progressista? Até parece que estamos falando dos dois partidos políticos do período imperial, sabiamente manipulados por D. Pedro II: nada mais liberal do que um bom conservador... 

A idéia do cultivo de uma pureza doutrinária espírita no Brasil já era uma preocupação de intelectuais do século XIX, que se viam na condição de missionários para proteger a Doutrina Espírita contra os ataques inimigos, que geralmente apelavam para o sincretismo com a intenção de confundir o público. O jornalista baiano Antonio Silva Neto era um dos mais atuante nessa frente de batalha. Neto era presidente da Sociedade de Estudos Espíritas Confúcio e também editor da versão brasileira da Revista Espírita, fundada em 1875. A publicação, que durou apenas seis números, teria a função de artilharia na guerra ideológica e também colocar as coisas nos devidos lugares, ou seja, o problema da pureza e do sincretismo deveria ser sanado prioritariamente, como ensinava Kardec, pelas palavras. Ao traduzir o vocabulário espírita de O Livro dos Médiuns, Silva Neto foi um dos que se esforçaram pela propagação de uma terminologia kardecista, quase sempre mal utilizada nos meios doutrinários. Ubiratan Machado[36] recorda que, por sua influência, a expressão francesa “medianimité” recebeu na tradução o devido tratamento lingüístico, mas não triunfou corretamente no idioma português como “medianinidade” e sim como a conhecida “mediunidade”. Foi assim também que o termo primitivo “espiritista” praticamente desapareceu no início do século XX para dar lugar ao equivalente e mais confortável “espírita”: 


“O temor de adaptar até simples palavras demonstra como o espiritismo brasileiro estava inseguro, diante do modelo francês. Mas, a tentativa de regularização do léxico espírita correspondia a uma urgente necessidade, evitando um futuro cisma por falta de entendimento semântico entre os crentes. Estes não vinham de um único segmento social. Alguns eram homens do povo. A maioria, porém, dos kardecistas puros (e era a estes que Silva Neto se dirigia) continuava de representantes das classes socialmente mais elevadas. Havia mesmo adesão cada vez maior de personalidades de repercussão na vida intelectual do país. Adesão, em muitos casos, feita com extrema cautela. Noutros, constituindo-se em autêntica explosão, como a conversão, ou melhor, reconversão de Melo Moraes.” 


Em 1894, no auge dos conflitos entre místicos e científicos, a pureza doutrinária serviu de bandeira para a retomada das diretrizes centralizadoras da Federação Espírita Brasileira, então abalada por essas divergências. O fato que marcou essa restauração foi o lançamento no Reformador do inesquecível editorial que pregava a tolerância e a busca do meio termo entre as duas correntes antagônicas. No relato de Canuto Abreu[37] o evento histórico ficou assim registrado: 


“A presidência foi confiada a Dias da Cruz, espiritista puro, isto é nem científico nem místico. O novo rumo foi traçado no editorial Sectarismo, que precisamos conhecer nesse trecho: ‘O espírita está, pois, em seu verdadeiro posto quando se coloca entre o homem de ciência e o homem de fé, não possuindo as crendices de um, nem por igual as negações do outro. Não nos desviemos do nosso lugar. Postos entre a fé e a razão, evitemos os exageros do sectarismo, pois que ele é o verdadeiro inimigo. Este grifo é nosso e feito para salientar que, no programa meio termo, deviam ser considerados inimigos do Espiritismo puro os científicos (psiquistas, ocultistas e kardecistas) e os místicos (rustanistas, swedemborgistas, teosofistas). Entre esses dois grupos sectários é que devia ficar o espírita puro”. 


Mas é perfeitamente compreensível, ainda que não se justifique, que as entidades federativas ainda hoje sejam marcadas por práticas e difusão de idéias que não são, em termos doutrinários, as de Kardec, nem dos Espíritos que participaram da Codificação. Também as entidades ortodoxas, que paradoxalmente se consideram vanguardistas, não praticam aquilo que Kardec praticava, em termos de Movimento Espírita. Nem poderia ser. Historicamente isso seria impossível. Além do mais, não podemos confundir História com nostalgia. O Espiritismo é um movimento utópico-ideológico essencialmente histórico e real, estando, portanto, direcionado ao mesmo tempo ao futuro e aos fatos contextuais do tempo presente. Nostalgia é a ideologia ou utopia invertida para um passado que não existe mais, sendo, dessa forma, muitas vezes inútil e fantasiosa. O resgate do cristianismo primitivo idealizado pelos espíritas na atualidade é um exemplo dessa confusão: uns entendem que o resgate está na essência filosófica e na prática atitudinal do Cristo; outros caem no terreno do imaginário mais comum e tentam reproduzir, como num teatro, as experiências descritas nos evangelhos ou nos romances mediúnicos de época. Os grupos que buscam, desesperadamente, defender a Doutrina do sincretismo, através da idealização de uma pureza doutrinária saudosista e nostálgica da Belle Èpoque espírita francesa, acabam sendo apenas agressivos e incoerentes, ficando cada vez mais solitários em suas ações radicais. Outros, querendo reviver os tempos primitivos do cristianismo, buscam um futuro fantasioso, descolado da realidade e das tendências sociais, caminhando, também, para o isolamento das seitas. 

É assim que encontramos os mais diversificados tipos de entidades e centros espíritas, todos, provavelmente, muito românticos e convictos de serem fiéis à Allan Kardec. Contudo, felizmente, o que vem garantindo a presença e o crescimento do Espiritismo e do seu livre debate no Brasil, até mesmo a sua exportação para outros países, é a literatura. É ela, inclusive, quem garante a co-existência desses conceitos teóricos divergentes e comparativos. Sempre que produzido farta e democraticamente, sem o controle ideológico das entidades, o livro , o jornal, a revista, enfim a comunicação espírita vai se inserir cada vez mais, como hábito cultural no contexto da Sociedade contemporânea. Mesmo não agradando gregos nem troianos, a comunicação, ao lado das escolas sistemáticas, é que garantiu a formação de uma opinião pública sobre o Espiritismo e não como se pensa erroneamente, pelas entidades federativas. Não é à toa que a sociedade brasileira associa o Espiritismo, não aos membros diretores de entidades, mas quase sempre às expressões literárias e criadoras de métodos de propagação doutrinária ou de assistência social e espiritual. 

Mesmo assim, não é possível explicar, senão pela lei da reencarnação, o surgimento de fenômenos humanos que fizeram do Espiritismo uma autêntica “religião” brasileira; eles pensaram e serviram à Doutrina, a seu modo, criando tendências e dando a ela novas diretrizes. A homeopatia, o magnetismo, o sonambulismo, a cultura místico-religiosa cristã, o mediunismo mágico-anímico africano e indígena, bem como o seu sincretismo com o catolicismo nas práticas de terreiro, a arte e a literatura romântica, a força cultural do idioma francês, o modelo científico positivista, o jornalismo cultural e engajado dos intelectuais, tudo isso contribuiu para que o Espiritismo frutificasse em nossa pátria com características muito peculiares. Mas somente a reencarnação de Espíritos simpáticos a essa idéia e, mais ainda, comprometidos ideologicamente, como tarefa pré-reencarnatória, com a sua propagação é que explica esse fenômeno social no Brasil. É realmente possível que grande parte das pessoas que tiveram contato com o Espiritismo na Europa e na América no século XIX reencarnaram no Brasil trazendo no Espírito essa tendência ideológica. Já a decadência do Movimento Espírita na Europa e nos demais países explica-se também pelo desaparecimento dos milhões de adeptos que não conseguiram expressar socialmente suas novas convicções, e por uma série de eventos históricos que ocorreram nesses lugares. O Espiritismo tinha grande força de expressão na época de Allan Kardec, como constatam as estatísticas publicadas na Revista Espírita em janeiro de 1869. Posteriormente, no início do século XX, as características e os motivos das adesões continuaram os mesmos: sofrimentos, a busca de notícias de parentes mortos na Primeira Guerra Mundial, etc. Segundo Anita Becquerel[38], o declínio do Movimento Espírita na Europa está associado ao desencarne dos seus principais esteios: Léon Denis, Conan Doyle, Camille Flamarion, Sir William Barret, Gabriel Delanne e outros. Outro fator que, segundo ela, diminuiu a procura por entidades espíritas e pelas leituras foi o progresso material alcançado pelos países europeus, após a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que as pessoas perdessem o interesse pelas coisas transcendentes. É claro que ela se referiu aos países ligados à OTAN, pois, no Leste europeu o Espiritismo no seu aspecto filosófico e religioso foi banido pelos chamados regimes marxistas. Havia interesse, sim, pelo aspecto estritamente fenomênico, com vistas à exploração militar do assunto. 


QUEM SOMOS? PARA ONDE VAMOS? 


O Brasil é, sem dúvida, a grande expressão do Movimento Espírita mundial. Enquanto nos outros países o movimento foi murchando no último século, aqui ele veio crescendo em todos os aspectos. As mesmas características publicadas na Revista Espírita em 1869 ainda se aplicam ao Brasil de hoje. Por quê? 

Somos, estatisticamente, o país mais espírita do mundo! Como isso aconteceu? 

As novas expressões que surgem, em outros lugares, ou são muito distanciadas do modelo proposto por Allan Kardec ou são, geralmente, levadas por brasileiros que lá residem, ou ainda, por pessoas que vieram ao Brasil e acabaram conhecendo essas manifestações. Como bem observou, o escritor francês Jacques Lantier[39], os franceses ficam admirados ao saberem que entre os maiores destaques da cultura francesa, fora da França, não estão Voltaire, Diderot, nem Montesquieu, mas um homem completamente desconhecido na França que usava o pseudônimo “Allan Kardec”. Como explicar esse fenômeno sociológico? Será porque o Brasil não tinha “tradições culturais” e era “carente de ideologia para seus anseios de desenvolvimento”? 

No Brasil[40], o Movimento Espírita ainda é pequeno, se comparado com o católico e o protestante, mas também já é bastante complexo e marcado pela diversidade. Não podemos explicar, ainda, essa diversidade senão pelo aspecto psicológico, incluindo as causas pré-encarnatórias, dos adeptos e dos grupos dos quais fazem parte. Histórica e sociologicamente fica muito difícil estabelecer uma conexão entre as causas e os efeitos desse fenômeno. Essas tendências, de profundas marcas psíquicas, são muito interessantes: umas formam vertentes que tentam imitar o que Kardec praticava no século XIX, porém extáticas e socialmente inexpressivas; outras estão muito distantes do padrão institucional proposto, inicialmente, pelo Codificador – não como regra de organização dogmática e absoluta, mas, apenas, como sugestão operacional – que, por estarem mais sintonizadas com a realidade do mundo atual, crescem em grande escala social. Há desde pequenos e isolados institutos de difusão, que acreditam, exageradamente, na sua fidelidade e pureza doutrinárias, até grandes movimentos de massa, semelhante às novas igrejas protestantes, que difundem conhecimentos poucos ortodoxos e sem o devido cuidado com os princípios doutrinários. Temos iniciativas de pequeno porte, que beneficiam alguns poucos deserdados, como também as campanhas sociais de grande abrangência; todas com forte espírito de autonomia e livre iniciativa: as dezenas de editoras, jornais, revistas, sites na Internet, produtoras de audiovisuais para Rádio e TV; milhares de entidades de assistência social, escolas de ensino regular, enfim, um movimento muito significativo, tendo até, informalmente, representantes nos vários poderes constitucionais. Todos animados pelo espírito altruísta dos essênios e herético dos valdenses. Os simpatizantes não assumidos são outros tantos milhões. Felizmente, não se encontra no Movimento Espírita, mesmo nos grandes grupos federados ou de massas, aquelas tendências consumistas, que poderiam praticar um Espiritismo de “mercado”, como acontece com milhares de seitas católicas e protestantes. Nelas o conhecimento religioso e a religiosidade são reduzidos a objetos de compra e venda, “produtos ou serviços” com “marcas”, “rótulos” e “embalagens”, todos substituíveis segundo a preferência ou circunstância na qual estão envolvidos os “clientes”. Nossa “massa”, por força da tradição herética descentralizadora, da autonomia das instituições, do livre pensamento e do livre-arbítrio dos adeptos, ainda não se configurou, como escreveu Herculano Pires, um “rebanho” que se presta à tosquia mal intencionada de falsos pastores. Somos, sim, ou deveríamos ser, um rebanho no sentido verdadeiro, evangélico e espiritual, obedientes e humildes às leis de Deus, mas atentos, vigilantes e intrépidos às leis dos homens, às sugestões dos maus Espíritos e aos erros e abusos dos nossos líderes. O jornalista e escritor baiano Deolindo Amorim (1908-1984) tinha opinião igual a de Herculano e sempre demonstrou uma sincera preocupação com os rumos que o movimento espírita vinha tomando em relação ao espírito crítico dos adeptos. Num célebre texto denominado “Evangelho e Cultura”[41] ele observou: 


“Na maioria dos grupos, principalmente os heterogêneos, sempre que se procura difundir ou facilitar a instrução, a fim de elevar o nível da maioria, vem logo a reação, ora disfarçada, ora evidente, porque a cultura, na realidade, ameaça o pontificado de falsos ídolos. Isto é uma verdade que ninguém poderia obscurecer, porque é a própria experiência que o demonstra. A cultura, para certos grupos e certas pessoas, é um perigo, porque abre os olhos e a inteligência de muita gente. Daí a guerra fria, ou também violenta, que se faz a qualquer movimento cultural, utilizando sempre, como chavão, um falso conceito de humildade. Tudo isso, no fundo, é o receio de que alguém, cedo ou tarde, venha fazer sombra ou não queira mais sujeitar-se à tutela espiritual de quem quer que seja. Sim: com a disseminação da cultura, naturalmente vão desaparecendo os tabus, vão caindo muitos pedestais de sabedoria ou de virtude artificial. É justamente por isso mesmo que se combate a cultura, até mesmo em nosso meio, por mais incrível que nos pareça! 


Pedro de Camargo “Vinícius” (1878-1966), um dos mais queridos apóstolos do Espiritismo em nosso País, já havia experimentado, nos tempos pioneiros da doutrina no Brasil, essa necessidade que todos nós, espíritas, temos de entender a nossa maneira de ser, de crer e de agir. Assim como Allan Kardec teve a moral livre e inteligente de Pestalozzi como modelo, no Instituto de Yverdon, o pequeno Pedrinho, também de espírito inquieto, modelou-se na disciplina metódica e no exemplo evangélico de Miss Watts, uma educadora missionária da Igreja Metodista e fundadora do Colégio Piracicabano. Vinícius estava sempre buscando respostas para solucionar essas questões que incomodavam todos aqueles que ansiavam enxergar o nosso futuro. Numa carta ao velho amigo e apóstolo de Matão, Cairbar Schutel, ele tentava compreender os rumos que o Movimento Espírita estava tomando naquele ano de 1936[42]: 


“Você sabe que em São Paulo já fundaram também outra União ou Federação Espírita Paulista? Sabe que já fundaram também outra Sociedade intitulada de Estudos Psíquicos e Científica? Pois não é certo que já existe uma União ou Federação Espírita Paulista, como também uma sociedade científica ou metapsíquica para estudos e pesquisas dos fenômenos espíritas? Não seria melhor e mais eficiente que estivessem unidos esses elementos? E isto para não falar em outra sociedade, da qual é chefe o Mirabelli. É assim que agem os espíritas, numa dispersão lamentável de elementos que podiam ser aproveitados com resultados positivos para a propaganda, se não fora esse prurido de chefiar, de dirigir e aparecer! E o que fazer, meu Schutel, velho pioneiro da causa? Paciência, não é? Vigiar e orar, não é assim?” 


Mas é dele também a autoria de um dos mais inspirados perfis do Movimento Espírita já traçados em nosso tempo[43]. Nele compreendemos como os Espíritos Superiores fizeram desmoronar a religião institucional e dogmática, para lançar no plano individual das nossas responsabilidades a religião verdadeira. Naquelas linhas, finalmente, podemos entender quem somos, a que viemos e para onde estamos caminhando, de acordo com as determinações do nosso livre-arbítrio: 

“A malsinada indisciplina reinante entre os adeptos do Espiritismo, longe de ser, como em geral pensam, motivo de lamentação e desalento, constitui, antes, a prova evidente da superioridade desta excelsa doutrina. É mais um testemunho eloqüente que demonstra o que, por vezes, temos dito: o Espiritismo é o mesmo Cristianismo, reivindicando os seus direitos através da ação do prometido Paracleto – que quer dizer – Advogado, Defensor ou Intercessor”. 


A VINHA E A ESSÊNCIA 


O movimento espírita começa exatamente quando as primeiras informações da Doutrina começam a ter repercussão moral no íntimo das pessoas. Quando isso acontece , somos naturalmente impelidos a fazer escolhas e tomar atitudes sobre os conceitos que de alguma forma extraímos da Codificação. 

Portanto, o que caracteriza verdadeiramente um movimento social não é a sua organização, sua estrutura administrativa ou sua imagem institucional. Um movimento social é, acima de tudo, a expressão de uma vontade coletiva, dos sentimentos e anseios das pessoas e dos grupos que se reúnem por afinidade de aspirações. Essa verdade cultural e sociológica se aplica perfeitamente ao Movimento Espírita, que é uma filosofia plural que se movimenta livremente através da consciência dos seus adeptos. 

O Espiritismo não existe por causa das instituições espíritas, embora elas sejam importantes para zelar pela sua continuidade. São importantes, mas não são essenciais. A essência está naquilo que as pessoas pensam, sentem e fazem. E isso pode acontecer dentro ou fora das instituições. Elas são os meios e não a finalidade da Doutrina. Entre nós existem homens de ciência, de reflexão filosófica, de adoração religiosa, e principalmente de ação pragmática na promoção do espírito em evolução, na carne ou na erraticidade. 

Assim, somos pesquisadores, educadores, artistas, ativistas sociais e políticos, vinculados ou não a instituições, sempre sonhando e trabalhando para que a ideologia que abraçamos como proposta de vida seja também útil aos nossos irmãos de Humanidade. 

Queremos ser melhores e também melhorar o mundo. Queremos evoluir e transformar as coisas, sempre para melhor. Por isso toleramos até mesmo os intolerantes, porque acreditamos que um dia eles também vão mudar. Uns, não importa como, acreditam que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde com a propaganda, outros com os estudos, outros ainda com a ação e o exemplo. 

O importante é que somos espíritas, condição que carrega no seu significado toda a responsabilidade do conhecimento e do compromisso com a Verdade. Somos livres, somos a imagem e a semelhança de Deus. Somos Espíritos. 


SEIS GERAÇÕES 

Allan Kardec desencarnou aos 69 anos. Na referência de desempenho existencial descrita por André Luiz em “Missionários da Luz”, ele quase não atinge a meta de “completista”, ou seja, 70 anos de labuta carnal. Voltou ao mundo espiritual por causa de aneurisma cerebral, depois de um estafante trabalho editorial, espiritual e político na Revista Espírita e na Sociedade Espírita de Paris. O Espírito Dr. Demeure vivia alertando-o sobre suas condições saúde, mas o trabalho era urgente e tão amplo que sua seqüência deveria ser concluída numa outra existência próxima. Isto porque o nosso mestre, aparentemente, começou tarde e só teve 14 anos para organizar a estrutura da doutrina e do movimento. Antes disso, ele não era Kardec, não era espírita, não tinha preocupações com o mais Além, enfim era Rivail, um cidadão comum, preocupado em sobreviver e honrar os compromissos pessoais. A carreira de empresário e educador fracassou e ele teve que se virar em outras tarefas comuns aos mortais. Nesse percurso, paralelo ao trabalho doutrinário social, certamente ele percorreu seus portais íntimos, tentando romper os obstáculos da sua experiência pessoal como Espírito em evolução. Se Kardec voltou ou vai voltar para terminar a tarefa é conversa para outra ocasião, pois o que nos interessa nesse momento é fazer uma reflexão sobre essa primeira parte da tarefa do Codificador. 

A razão do Espiritismo é o ser humano e a lógica do seu movimento social é a transformação da pessoa, através da mudança de déias, da renovação de sentimentos e das atitudes. É uma proposta revolucionária e não reformista. Não é maquiagem superficial ou mero evento conjuntural; é conjunto de mudanças profundas, estruturais, como os grandes fatos de longas permanências. Assim como aconteceu com outras doutrinas de grande impacto histórico, o Espiritismo não é simples objeto de observação científica e especulação filosófica. É um fato social espontâneo que surgiu naturalmente e passou a fazer parte do cotidiano e das mentalidades. Portanto, seria um erro ideológico de graves conseqüências obstruir ou desviar o Espiritismo da sua finalidade primordial, que é a promoção existencial humana. Tudo no Universo já está resolvido e solucionado, já possui respostas e é do conhecimento das mentes mais evoluídas. O único enigma que permanece não decifrado é o da individualidade espiritual, cujos detalhes misteriosos só podem ser desvendados pelas ações do livre arbítrio, no ambiente natural de provas e expiações. A própria psicologia já conseguiu mapear e explicar muitas das reações e atitudes humanas, mas ainda não conseguiu penetrar no terreno imprevisível das escolhas e das decisões. Esse campo é exclusivo da relação entre criatura e Criador, sendo este último o único a conhecer o complexo universo das probabilidades das mentes criadas por Ele, à sua imagem e semelhança. 

Por isso, todo o esforço empreendido pelo movimento espírita em melhorar o mundo passa primeiro pelo ser humano. Qualquer tentativa contrária desse sentido é perda de tempo ou intenção perversa e deliberada para retardar a evolução humana. Nossos inimigos já conhecem essa realidade, ao contrário de muitos espíritas, que permanecem estáticos, iludidos com as maravilhas exteriores dos fenômenos ou do mundo prazeroso das elucubrações filosóficas e vaidoso das atividades institucionais. Como no passado , muitos de nós continuamos achando que, para nos “salvar”, basta saber pensar como manda o figurino, vestir o hábito da aparência e nos envolvermos nos bastidores políticos das organizações intermediárias entre a Terra e o Céu. Talvez esse seja um ponto de vista radical, talvez agressivo, irritante e ameaçador para todos nós, principalmente quando nos mostramos preguiçosos e acomodados com relação aos compromissos que assumimos com o trabalho espírita em nossas encarnações atuais. Por isso, não basta comemorar os 150 anos da Doutrina com a perplexidade dos ignorantes, a empolgação dos novatos ou o desencanto dos veteranos. Se assim for, será necessário outros 150 para que despertemos para as suas verdades. 150 anos significam, em média, duas existências humanas e seis gerações, tempo curto e de poucos resultados, quando mensurados no plano coletivo da História, mas longo e de graves repercussões se medido no plano das individualidades que, aos milhões, vêm sendo atingidas, neste e em outros planos, pelas bases doutrinárias dos Espíritos. Dos seis períodos previstos por Kardec para o desenvolvimento, propagação e repercussão do Espiritismo nas mentes humanas, observamos que muito já ingressaram na fase de maturidade social, porém muitos permanecem nas fases primitivas da infância e adolescência da doutrina. Os períodos foram apontados não pelo relógio do tempo existencial, mas pela bússola da consciência. O tempo social e lógico da doutrina não o mesmo tempo consciencial e psicológico dos adeptos. Essa diferença se acentua ainda mais quando lembramos que os espíritas não são todos mentalmente iguais, pois cada um tem o seu ritmo pessoal e a sua equação individual para ser solucionada. A maioria dos espíritas já reencarnaram com alguma referência espírita, após uma longa iniciação intelectual, desenvolvendo habilidades filosóficas superficiais nas colônias da erraticidade. Porém, não atingimos as respectivas competências emocionais. E essas só são adquiridas na carne, quando nos submetemos de peito aberto às experiências vivenciais. 

Este é um momento de comemoração de um século e meio de uma grande revelação. E isso merece todas as reverências da grandiosidade do evento. Mas é também o momento para questionar sobre como estamos aproveitando essa oportunidade de enxergar além do grande véu que há séculos encobria os nossos olhos. É o momento de comemoração do tempo existencial e físico, todavia é também a hora de reflexão máxima sobre o tempo consciencial e metafísico, para qual certamente nos comprometemos com lances comoventes de arrependimento e muitas promessas de renovação, mas, como sempre, com poucas realizações.

[1] O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária. Canuto Abreu. Edições LFU. São Paulo. 

[2] Edgard Armond explica assim essa diferença entre mediunidade natural e de prova: “No primeiro caso, o Espírito, já convenientemente evoluído, é senhor de uma sensibilidade apurada, que lhe permite vibrar normalmente em planos superiores, sendo a faculdade puramente espiritual. No segundo caso, foi fornecida ao médium uma condição especial, não hereditária, que lhe permite servir de instrumento aos Espíritos desencarnados para suas manifestações, bem como demonstrar outras modalidades da vida espiritual. Conquanto os efeitos sejam, nos dois casos, mais ou menos semelhantes, diferentes são, todavia, as causas e os valores qualitativos das faculdades.” Mediunidade, capítulo 5, página 37. Editora Aliança. 28ª ed. 1992. 

[3] Esses fatos são narrados em detalhes por Sir Arthur Conan Doyle em História do Espiritismo, páginas 105 a 109. Editora Pensamento. Ver também os artigos de Jáder dos Reis Sampaio – “As Irmãs Fox, Conan Doyle e o Espiritismo”, em “O Reformador”, Federação Espírita Brasileira, ano 119, nº 2071, outubro de 2001; e de Nazareno Tourinho – “O que vê o Quevedo”, em Jornal Espírita, Federação Espírita do Estado de São Paulo, ano XXVI, nº 313, setembro de 2001. 

[4] Revista Espírita, Ano VI, volume 12, dezembro de 1863 

[5] O processo espírita de Leymarie teve muita semelhança com famoso caso do oficial do Exército, Alfred Dreyfus, isto é, a fragilidade e a imparcialidade da justiça francesa. De origem judaica, Dreyfus foi acusado, indevidamente, de passar segredos militares aos prussianos. Emille Zola imortalizou o fato ao escrever na imprensa o libelo “Eu acuso”, em 1898. 

[6] Resumo em português, traduzido por Hermínio C. Miranda. FEB Editora. 

[7] Revista Internacional de Espiritismo. Ano LXXV - nº 7, agosto de 2000. Entrevista com Anita Becquerel. 

[8] Editora Cultural Espírita – Edicel, Sobradinho, DF. 

[9] Júlio de Abreu Filho também traduziu A História do Espiritismo de Sir Arthur Conan Doyle. 

[10] Segundo André Scoville, “ Charles Expilly, já então com alguns livros publicados na França, estabeleceu-se no Rio de Janeiro e, na falta de melhor oportunidade, assumiu um cargo de direção na fábrica de fósforos de seu primo Nausier. Procurando alternativas para se manter no Brasil, conseguiu, em 1853, uma audiência com o Imperador Dom Pedro II, ocasião em que propôs a criação de um estabelecimento de ensino para as filhas de funcionários do governo, o qual seria dirigido por sua esposa. O Imperador apreciou a idéia e determinou que a esposa de Expilly elaborasse um estudo completo sobre o estabelecimento. Todavia, esse projeto não foi adiante e Expilly continuou desempenhando suas atividades comerciais”. “O desejado e o rejeitado: o Sebastianismo que Charles Expilly encontrou por aqui”. Revista Letras, Curitiba, n. 68, p. 115-128, jan/abr. 2006. Editora UFPR. 

[11] Citado por Luciano Klein Filho em artigo publicado no site da internet “Portal do Espírito”. Consulta em 12/09/2003. 

[12] Os Intelectuais e o Espiritismo. Edições Antares / Instituto Nacional do Livro / Fundação Pró-Memória, 1983. 

[13] O problema do Ser, do Destino e da Dor. FEB editora, 3ª parte item XX - A Vontade. 

[14] “À nossa moda”, por Flávia Varella. Veja, nº 1.659, p.72-78, 26 de julho de 2000. 

[15] “No Limiar do Amanhã”, entrevista gravada em Uberaba e transmitida pelas rádios Mulher (São Paulo), Cacique (Santos) e Morada do Sol (Araraquara). Transcrita e publicada pela Revista Internacional de Espiritismo em março de 1972. 

[16] O Brasil no Tempo de Dom Pedro II. Companhia das Letras, 1998. 

[17] O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, capítulo 6, pág. 133. 

[18] História do Espiritismo, Arthur Conan Doyle, cap. VIII. Editora Pensamento. 

[19] Revista Espírita, abril de 1869, vol. 4 

[20] www.saofranciscodosul.com.br. Consulta em 29/05/2003. 

[21] Os Intelectuais e o Espiritismo, cap. VII. 

[22] O Espírito de Hahnemann teve presença marcante nas comunicações registradas nas obras de Kardec e na Revista Espírita. 

[23] Biografia de Mure por Ch. Janot. Extraído de L´Homéopathie Moderne. In “Les Grandes Homéopathes Français”, 1936. Biblioteca da Associação Paulista de Homeopatia. 

[24] É possível que se trate de H. Jolly, gerente da Revue Spirite, em 1877, durante período da prisão de P.G. Leymarie. 

[25] Essa narrativa também foi baseada na monografia Falanstério do Saí: importante página da História Nacional, do historiador Aurélio Alves Ledoux. Instituto Binot Palmier de Genoville, São Francisco do Sul, 2002. Descendente dos falansterianos Léon Ledoux e Rose Grisard Ledoux e justificando plenamente o seu timbre pessoal – “À Serviço da História” –, Aurélio também nos forneceu gentilmente preciosas fontes documentais para compor a nossa pesquisa. 

[26] Fourier – Utopia e Esperança na Península do Saí. Raquel S. Thiago. Co-Edição FURB-UFSC. Joinville, 1995. 

[27] Artigo de Ivone Galo, publicado no site da Clínica Mater Natura – www.paginet.com.br (28/11/2003). 

[28] Citado por Francisco Thiesen – O Reformador, dezembro de 1975 e inserido no prefácio do livro “O Processo dos Espíritas” 

[29] Ano I, novembro, nº 11. 

[30] “O Espiritismo entre os Sinceros”, in As Religiões no Rio, página 154. Editora Nova Aguillar. Rio de Janeiro, 1976. 

[31] Militar do Exército que presidiu a Federação Espírita Brasileira. 

[32] Citado por Canuto Abreu em Bezerra de Menezes, Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895. Edições FEESP. 

[33] Relatos feitos em conversação informal, em 20/12/2002, numa reunião do ICKS – Instituto Cultural Kardecista de Santos. 

[34] FEB Editora. 5ª edição. 

[35] “Radiografia da Deturpação do Espiritismo”. Abertura – Jornal de Cultural Espírita. Editor: Jaci Régis. Março de 2001 e Março de 2002. No site Panorama Espírita esse texto aparece como de autoria de Carlos de Brito Imbassahy. 

[36] Os Intelectuais e o Espiritismo, cap. VI, página 135. Machado se refere também ao médico e historiador baiano Alexandre José de Melo Moraes (1816-1882), autor de obras histórico-literárias como “Elementos de Literatura e o Brasil Histórico”; “A Independência”, etc. (Fonte: Dicionário Prático Ilustrado Lelo. Porto, 1966). 

[37] Bezerra de Menezes, página 66. Edições FEESP, São Paulo, 1996. 

[38] O Espiritismo, Coleção Esfinge. Edições 70. Lisboa. 

[39] Revista Internacional de Espiritismo, nº 07, Matão, agosto, 2000. 

[40] “Depois de católicos apostólicos romanos (73,8%), evangélicos (15,5 %) e sem religião (7,3%), o quarto grupo mais numeroso é dos espíritas (como os kardecistas), que soma 2,3 milhões de pessoas e representa 1,4% da população. Os dados em % também estão distribuídos por região: Nordeste (0,6), Sul (1,3), Norte (0,5), Sudeste (2,0) e, superando todas as outras, o Centro-Oeste (2,2). Folha de São Paulo, Caderno Especial “CENSO 2000” (Fontes: IBGER / ISER), 09/05/2002. 

[41] Idéias e Reminiscências. Instituto Maria, 1980. 

[42] Vinícius, educador de almas. Wilson Garcia e Eduardo Monteiro. Eldorado / EME. Página 88. 

[43] Idem, página 69.



Livro V – OS APÓSTOLOS DO CRUZEIRO

“Visitei hoje o Colégio Allan Kardec, dirigido pelo competente e dedicado Professor, Sr. Eurípedes Barsanulfo, encontrando presentes às lições do dia 94 alunos dos 113 atualmente matriculados. Acompanhei os trabalhos e pude verificar que o método de ensino adotado é racional e que os alunos vão assimilando bem todas as matérias lecionadas neste colégio, que se impõe no conceito público desta cidade, não só pela boa disciplina, mas também pela dedicação desinteressada do seu diretor e de seus dignos auxiliares, aos quais deixo consignados os meus aplausos pelos bons resultados que vão colhendo, e meus agradecimentos pelo modo gentil com que me receberam no seu estabelecimento de ensino”. – Termo de Visita de Ernesto de Mello Brandão, Inspetor Regional de Ensino. Sacramento, 29 de abril de 1913. 


A guerra de idéias entre as instituições tradicionais e o Movimento Espírita, desencadeada na Europa e na América do Norte, teria também suas graves repercussões na América Latina, onde a Igreja gozava do status de religião oficial desde os primeiros anos da colonização. As ondas precursoras tiveram exatamente a função de minimizar esse impacto doutrinário sobre um terreno conservador e reacionário. O magnetismo, a homeopatia, o liberalismo das lojas maçônicas, o modismo das mesas-girantes, a adesão dos aristocratas e intelectuais, uma elite de formadores de opinião, o mediunismo afro-indígena e o sincretismo, tudo isso contribuiu para que o período filosófico espírita penetrasse no país sem ser visto como uma grave ameaça ao clero e ao Estado. Na América do Norte tudo tinha sido mais fácil, por causa da condição política dos Estados Unidos, mas havia em contrapartida a mentalidade retrógrada do protestantismo puritano e o perigoso hábito medieval de linchamentos populares contra pessoas acusadas de magia e bruxaria. No Brasil, apesar da estrutura escravocrata, católica e imperial, havia de certa forma muito mais liberdade nesse tipo de experimentalismo porque tais idéias quase sempre partiam de núcleos sociais privilegiados, incluído de membros do clero. O próprio imperador Pedro II era uma pessoa inquieta, em constante busca de novidades e de elementos renovadores que pudessem colocar o Brasil em pé de igualdade com as nações modernas, permitindo a instalação de falanstérios socialistas e núcleos anarquistas. Como havia predito Kardec, a guerra aberta só seria desencadeada quando o Espiritismo deixasse de ser visto apenas como brincadeira fútil e modismo para tornar-se uma referência filosófica e existencial. No Brasil essa mudança de rota aconteceria já no final século XIX, quando no Rio, Salvador e Recife o Espiritismo já estava praticamente estabelecido, ainda que em condições precárias, também já bastante afetado pelo sincretismo afro-católico. A guerra vai tomar um sentido geopolítico de “interiorização da metrópole”, lembrando analogicamente as Entradas e Bandeiras do período colonial. Não foi à toa que Cairbar Schutel viria a ser apelidado de “Bandeirante do Espiritismo” e também não é exagero descrever os antigos membros do Grupo Confúcius, Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo e Anália Franco como combatentes da primeira linha desse front de batalhas, num intenso período de luta já anteriormente visualizado pelo Codificador. 

No início do século XX, tornaram-se históricos no interior de São Paulo os debates públicos entre Cairbar de Souza Schutel e o padre ultramontano João Batista Van Esse e também com o professor protestante Faustino Ribeiro Júnior, ambos da cidade de Matão. Na região do Triângulo Mineiro, alguns anos antes, o educador católico Eurípedes Barsanulfo chocou a tradicional comunidade de Sacramento, muito influenciada pela Sociedade São Vicente de Paulo, da qual era o principal membro ativo, ao anunciar sua adesão ao Espiritismo. Organizou pela imprensa uma polêmica doutrinária com o vigário local para provar a legitimidade histórica do Espiritismo. Barsanulfo, que era um exemplo notável e popular de cidadania e dedicação religiosa, tomou essa decisão radical da sua conversão após dois acontecimentos: ter lido o livro Depois da Morte, de Léon Denis, e ter recebido uma mensagem mediúnica, em sessão Espírita, realizada numa fazenda em Santa Maria, próxima a Sacramento. O rústico Centro, fundado em 1900 por Mariano Cunha, que faria história no Triângulo Mineiro e no Brasil Central, foi construído, precariamente, numa gleba de fazenda, doada por um simpatizante das novas idéias. Toda a região sabia dos estranhos fenômenos que lá aconteciam, atingindo os moradores e até mesmo os animais das propriedades vizinhas. Eurípedes estava encantado, porém cheio de dúvidas, após ter lido, numa só noite, a obra de Denis. Em plena tarde, de uma sexta-feira da Paixão, em 1904, convida o amigo José Martins Borges para uma excursão até Santa Maria. Corina Novelino[1] relata, assim, o histórico contato de Eurípedes com os primeiros fenômenos: 


“Eurípedes e o companheiro chegaram a Santa Maria, com o objetivo de observar tudo ao vivo. Deixaram os animais presos à porta da residência modesta de José Mariano da Cunha, onde se realizavam, provisoriamente, as reuniões. Entraram no recinto, respeitosos. Os trabalhos já haviam iniciado. O secretário lia um trecho do Evangelho, que se relacionava à Paixão do Cristo. A pequena sala achava-se totalmente tomada. Duas alas de tamboretes e bancos rústicos e baixos, alongavam-se em toda a extensão da sala. Ali se achavam os médiuns de incorporação e curadores e ainda irmãos idôneos, que formavam a linha de sustentação vibratória. Os médiuns de recepção e os curadores intercalavam-se na linha. Todos os lugares ocupados. Atrás da linha, onde se encontrava o médium Aristides Ferreira da Cunha, situavam-se dois lugares desocupados, providencialmente à espera dos dois visitantes. Ambos tomaram assento. Eurípedes acompanhou a leitura com atencioso respeito e interesse. Em seguida, tomou parte na oração do presidente, com a mesma posição íntima. 

Tudo lhe era novo e surpreendente. Nunca se sentira tão vibrátil, em outras ocasiões, nos ofícios religiosos de que tomara parte. Todavia, admirava-se de ver homens incultos assumirem a grande responsabilidade da difusão dos Evangelhos do Senhor. Ali se achava o Aristides, por exemplo, indivíduo tão seu conhecido, carregando um coração de ouro, mas com um cérebro vazio. Um pensamento vibrava-lhe na mente... resolve fazer seu pedido e fá-lo, mentalmente, com unção: 

Tudo compreendi na Bíblia. Mas o meu entendimento está fechado para as Bem-Aventuranças. Se é verdade que os Espíritos se comunicam com os vivos, rogo a João Evangelista elucide-me pelo médium Aristides. 

Alguns minutos após, Eurípedes ouvia a mais ‘extraordinária dissertação filosófico-doutrinária, que jamais conhecera, em toda a sua vida, sobre o luminescente discurso de Jesus’, por intermédio do intérprete solicitado. 

Impossível atribuir a Aristides, semi-analfabeto, aquela linguagem sublime, onde o magnetismo de poderosa eloqüência empolgava até às lágrimas os circunstantes. 

(...) Ao final da luminosa exposição, a Entidade assinala sua identidade com o selo vibrante de fraterna saudação: Paz! João, o Evangelista.” 


A mesma biógrafa explica que a ligação entre Eurípedes e João Evangelista era muito antiga. O médium Chico Xavier, que também desconhecia o fato, revelou a seguinte informação do Espírito de Emmanuel, em 1954: “Nos tempos evangélicos, Eurípedes fora educado por Inácio, pupilo de João, que se tornara grande propagador da Boa Nova, em Antioquia. Adolescente, ainda, Eurípedes substituíra o Benfeitor na pregação, na Palestina, onde manteve contatos com João, e onde fora martirizado.” No livro Ave Cristo, de Emmanuel, ainda segundo Corina Novelino, Eurípedes Barsanulfo aparece como o personagem Rufo – um cristão, escravo romano, radicado nas Gálias, dedicando-se à pregação do Evangelho. 

Numa segunda visita a Santa Maria, Eurípedes ouve, inicialmente, algumas palavras do Espírito Dr. Bezerra de Menezes, que lhe confirma suas faculdades curadoras e o “apresenta” ao Espírito de São Vicente de Paulo, o grande Apóstolo da Caridade. Após revelar-lhe que o assistia como guia espiritual desde o berço, Vicente de Paulo o alerta sobre as provas que irá sofrer nesta nova etapa da sua existência: 


“Abandone, sem pesar e sem mágoa, o seu cargo na Congregação. Convido-o a criar outra instituição, cuja base será o Cristo e cujo diretor espiritual serei eu e você o comandante material. Afaste-se de vez da Igreja. Quando você ouvir o espoucar dos fogos, o repicar dos sinos ou o som das músicas sacras não se sinta magoado, nem saudoso, porque o Senhor nos oferece um campo mais amplo de serviço e nos conclama à ação dinamizadora do Amor. 

Meu filho, as portas de Sacramento vão fechar-se para você. Os amigos afastar-se-ão. A própria família revoltar-se-á. Mas, não se importe. Proclame sempre a Verdade. Porque, a partir desta hora, as responsabilidades de seu Espírito se ampliaram ilimitadamente. Você atravessará a rua da amargura, com os amigos a ridicularizarem uma atitude que não podem compreender.” 


Desses fatos, e de muitos outros que iriam tornar-se legendários em Sacramento, surgiu uma das páginas mais belas do Espiritismo apostólico no Brasil, movimento que, infelizmente, abortara no Velho Continente. Dali, nasceu a primeira e mais prestigiada entidade educativa Espírita do Brasil, o Colégio Allan Kardec. Segundo a biógrafa, era uma verdadeira ressurreição, em Minas Gerais, do inesquecível Instituto Pestalozzi, no qual fora educado o Codificador. A mesma afirma que nome do colégio foi escolhido pelo Espírito Maria de Nazaré, a que foi mãe de Jesus e que muito estimava Eurípedes. O professor não dava muita importância para essas revelações, mas também não reagia com ceticismo nem indiferença aos conselhos obtidos através dos contatos com nomes conhecidos da mítica cristã, talvez porque possuía um alto grau de sensibilidade mediúnica. Reagia, sim, com humildade e cautela, afirmando que não merecia tais atenções. Através de Chico Xavier, o Espírito Hilário Silva relata numa crônica que Eurípedes, pelo desdobramento, certa vez manteve contato com o Espírito que foi Jesus sem nunca ter revelado aos amigos e parentes tal experiência. Certa ocasião Chico Xavier confessou a Henrique Diegues, um antigo espírita santista, que Eurípedes habitava a mesma esfera de Espíritos da condição de Jesus. Segundo algumas obras mediúnicas[2], a maioria das entidades que participaram dos eventos históricos da tradição judaico-cristã eram Espíritos oriundos do sistema Sírius, onde evoluíra Jesus e também de onde já haviam sido banidas as coletividades criminosas que habitaram primeiramente Capela e posteriormente foram exiladas na Terra. 

O Espírito Maria enviou para Eurípedes uma mensagem de consolo nas primeiras provações da nova fé, sugerindo que o nome e a história de Allan Kardec deveriam servir de sustentáculo ideológico nesta nova empreitada. O pequeno colégio era palco constante de ensinamentos pouco ortodoxos para a época e repleto de demonstrações da naturalidade dos fenômenos Espíritas. Em certa ocasião, numa das salas de aulas, Eurípedes demonstrou aos seus alunos uma prova dessa diversidade de seus dons mediúnicos. Entrou subitamente em transe e, alguns minutos depois, conta aos presentes que assistira a uma reunião de importantes líderes mundiais numa sala ampla de um famoso palácio em Paris. O acontecimento relatado em detalhes por Eurípedes aos alunos só aconteceria oito meses depois: era a assinatura do histórico Tratado de Versalhes, em 1918[3]. Com a mesma habilidade de presciência Eurípedes já havia antecipado o início da guerra. Seu prestígio como educador e médium, principalmente de cura, espalhou-se por uma vasta região de Minas e interior de São Paulo. Eram casos raríssimos de fenômenos de bi-locação, dando aulas e realizando partos em lugares longínquos, cirurgias dificílimas, curas de doenças sem profilaxia na época, clarividências e inúmeros relatos de desobsessão, nos quais internava os doentes mentais no porão do Colégio Allan Kardec para a doutrinação dos Espíritos perseguidores e o reequilíbrio magnético das vítimas. Esses loucos considerados irrecuperáveis, rejeitados até pelos hospícios, saiam dali completamente curados após o tratamento com passes e evangelização das vítimas e dos algozes. 

Da farmácia de homeopatia de Eurípedes partiram inúmeras receitas para a cura do corpo e da alma da população pobre que buscava por seu socorro, exemplos ainda hoje muito vivos nas lembranças do povo humilde e devoto do Triângulo Mineiro e das regiões vizinhas. Sofreu perseguições de todos os tipos: de religiosas, de médicos, políticos, enfim, todos que se incomodavam com o seu estilo de vida incomum. Mas nada impedia o exercício da sua grande vocação. Desencarnou no dia primeiro de novembro de 1918, vitimado pela gripe espanhola que assolava o Brasil naquela época e que matara até mesmo um presidente da república. 

Foi assim que Sacramento tornou-se a principal referência do Espiritismo prático e apostólico no Brasil, amparado pelas mais reconhecidas entidades espirituais com estreitos vínculos com o Cristianismo primitivo e com a Codificação. 


O BANDEIRANTE DO ESPIRITISMO


Eurípedes Barsanulfo e Cairbar Schutel são figuras ainda pouco conhecidas na história brasileira, evidentemente porque passaram pelas vidas política e social de forma discreta e humilde. Mas a repercussão dos seus atos e idéias ainda soa como regras morais profundas nas regiões onde viveram e se mantêm incrivelmente lúcidas na memória do Movimento Espírita Brasileiro. Esses, assim como os outros que vamos lembrar mais adiante, foram exemplos planejados previamente no mundo espiritual e plantados em território brasileiro pela Lei da Reencarnação, que cumpre as determinações da Justiça Divina, muitas vezes escrevendo certo por linhas tortas. Foi desses acontecimentos que o Movimento Espírita tirou modelos inatacáveis para se espalhar nos quatro cantos do País e suportar o baque constante das perseguições da Igreja e dos inimigos gratuitos. As pessoas podem até resistir aos fatos e aos argumentos, mas dificilmente deixam de ser influenciados pelos exemplos. Ambos, Eurípedes e Cairbar, destacaram-se como precursores do trabalho desenvolvido, posteriormente, por corajosos pioneiros que, cada qual ao seu tempo e pelo contexto histórico, enfrentaram, e ainda enfrentam, perigosos obstáculos ideológicos. Eurípedes chegou a ser objeto de encomenda de assassinato. A armadilha foi desfeita com uma advertência do Espírito de Bezerra de Menezes e pela própria autoridade moral do Apóstolo do Triângulo que, corajosamente, abriu o coração ao seu algoz e desfez a influência espiritual obsessiva de que o mesmo era vítima. Era uma prova viva de amor ao inimigo. Cairbar quase foi linchado em praça pública por uma malta de fanáticos, a mando do clero local. 

Descendente de imigrantes franco-suíços, nascido na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, Cairbar Schutel iniciou seus estudos no Colégio Pedro II, porém decidiu, ainda menino, trabalhar como aprendiz de farmácia. Com essa profissão de fé, foi tentar a vida no interior de São Paulo, passando por Piracicaba e Araraquara, fixando-se, finalmente, em Matão. A cidade não ficaria famosa somente pela bela valsa que leva seu nome, mas também pela carreira apostólica do jovem negociante que ali vivenciaria outro belo capítulo do Espiritismo religioso. É Leopoldo Machado[4] quem registra de forma empolgante esses eventos biográficos. Abrindo um parêntese sobre o ilustre educador e inesquecível militante da Unificação Espírita, conta-se que Leopoldo se comunicava com os amigos por carta através um papel timbrado, em cujo cabeçalho trazia o seguinte lema: “Toda carta é uma pergunta e toda pergunta merece uma resposta.” É, também, com essa objetividade de comunicador nato, que descreve a adesão desse carioca (que ele apelidou de bandeirante) ao Espiritismo, fato que denominaria, até com certo exagero, de “A Estrada de Damasco” de Cairbar. Contudo, a verdade é que, segundo o próprio Machado, o jovem Cairbar estava passando por uma crise existencial religiosa, na qual questionava o motivo pelo qual pai, que era católico, justo e bom, não fizera questão de iniciá-lo na religião da família? O pai era também maçom e um padrinho de “Loja” de Cairbar tentou batizá-lo na Igreja, só conseguindo mediante a própria autorização do menino e sob a promessa de dar-lhe dois presentes: um relógio e uma roupa de marinheiro, que desejava há algum tempo. Cairbar ficou órfão aos nove anos e, desde então, ficou sob os cuidados do avô. Essa crise se manifestava com mais intensidade quando tinha “sonhos” muito “reais” com os pais falecidos. Procurou respostas nas religiões tradicionais, mas a solução só foi encontrada ao procurar o único espírita da cidade para esclarecer suas dúvidas. Era Manoel Calixto, um velho amigo e seu admirador. Queria freqüentar as sessões Espíritas e pedia ao amigo que o levasse até ao Centro. Calixto decepcionou Cairbar, dizendo que não fazia sessões havia mais de dois anos, porque estava cansado de atender Espíritos que vinham pedir-lhe para que mandasse rezar missas para suas almas. Fizera isso por muito tempo e agora estava exausto e sem dinheiro, para pagar os serviços da Paróquia. Depois de muita insistência, Calixto cedeu e realizou uma sessão, porém alertou Cairbar que, se aparecesse algum Espírito pedindo missa, não pagaria as despesas. 

Essa visão esdrúxula e até cômica do Espiritismo contribuiu, ainda mais, para aumentar as dúvidas de Cairbar, não para desviá-lo de sua busca, mas para aprofundar seus questionamentos. Leopoldo Machado conta que, na histórica sessão realizada na casa de Quintiliano José Alves, comunicaram-se vários Espíritos, e nenhum deles pediu missa. Porém, entre eles falou um de voz mansa e serena, dirigindo-se, especialmente, a Cairbar para lembrar-lhe sua “missão” na difusão do Espiritismo. A voz se identificou como de D. Pedro II, o Imperador do Brasil. D. Pedro, como nos informa a crônica de Humberto de Campos, passara pela prova de nascer, crescer e dirigir o Brasil, e depois ser tristemente banido para terras estrangeiras, levando, apenas, um saco contendo alguns punhados de terra da Pátria querida. O Imperador, agora um dedicado trabalhador do Evangelho, numa remota existência, também muito marcante, tinha sido o soldado romano Longinus[5], o mesmo que vigiava, com seus subordinados, a Cruz do Calvário de Jesus e lhe fizera experimentar o fel amargo. Cairbar ouviu com admiração e naturalidade a mensagem do velho e bondoso Imperador. Este lhe dissera que tinha uma missão a cumprir na difusão do Espiritismo. Algumas semanas depois, chegava à sua farmácia uma encomenda vinda da Capital do País, contendo aquilo que seu biógrafo, agora sem nenhum exagero, definiu como “o farol que começara a clarear, diferentemente, a sua existência.” Eram dois exemplares da Codificação: O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo. Então, desses para os outros livros de Allan Kardec foi apenas mais um passo. Todavia, um outro passo seria o mais importante de todos. Cairbar viu o fenômeno, leu os livros fundamentais e agora precisava colocar em prática tudo o que havia acontecido; era a necessidade de saltar além das constatações científicas e convicções filosóficas e vivenciar, socialmente, os fatos que mudaram os rumos de sua vida. Para explicar esse raciocínio do pioneiro de Matão, Leopoldo Machado lembra aquilo que Allan Kardec já havia percebido muitos anos antes: os fenômenos não transformam curiosos em espíritas praticantes. Em Belém do Pará, a família Prado chegou a reunir mais de 400 pessoas para assistir aos fenômenos de materialização de Espíritos e muitos outros de realidade incontestável. Desse imenso público, apenas, duas pessoas se interessaram pelas conseqüências morais do que viram; foram apenas duas que perceberam ali as pérolas do Reino de Deus e a superioridade do Mundo Espiritual. Ainda assim, tornaram-se espíritas a seu modo, sem muito compromisso. Uma delas, depois, voltou-se para a teosofia. 

Machado está repleto de razão na sua observação. É só lembrar as experiências do Cristianismo Primitivo. Não foram somente os “milagres” de Jesus que formaram a base humana essencial do seu Evangelho e, sim, a coragem dos mártires de enfrentar os leões famintos dos circos romanos e a fúria das multidões, sedentas do seu sangue. Era essa multidão, representada hoje pela ignorância religiosa, que Cairbar deveria enfrentar na sua trajetória de ousadia e coragem, juntamente com os leões do seu mundo íntimo, o qual fazia questão de golpear todos os dias com seu esforço de renovação interior. Homem de fé, mas também de inteligência, Cairbar fundou, em 1905, um Centro Espírita e deu-lhe o nome de “Amantes da Pobreza”. Neste gesto carregado de atitude simbólica e realizadora, de iniciativa conjunta com seus guias espirituais, é fácil perceber de que forma assimilara os ensinamentos morais de Allan Kardec e dos Espíritos Superiores. Assim pode-se perceber, primeiramente, a sua vocação evangélica ou vivencial, apoiada numa sólida base intelectual. Só para lembrarmos algumas de suas atitudes, como cidadão e como espírita convicto, citaremos aqueles que ainda servem de inspiração aos novos pioneiros. Matão era, apenas, um povoado quando ali chegou o jovem Cairbar. Inconformado com essa situação, procurou um deputado amigo e iniciou com ele uma campanha, para que a localidade ganhasse o status de município. O plano deu certo e, para efetivar a vitória jurídica, Cairbar resolveu comprar, com recursos próprios, um prédio e presentear a cidade nascente com uma sede da Câmara Municipal. Foi prefeito da nova cidade por dois mandatos e afastou-se da política para dedicar-se a difusão do Espiritismo. Depois do “Amantes da Pobreza”, pioneiro na região, fundou o jornal “O Clarim” e, posteriormente, a “Revista Internacional do Espiritismo”. Esses dois veículos de comunicação, ainda hoje muito atuantes, serviram como porta-vozes de um dos mais agitados períodos de intrigas e perseguições contra os Espíritas. Seus artigos eram de grande eficácia, tanto pela elegância quanto pela justeza e rigor dos seus argumentos contra aqueles que se intitulavam os donos da verdade. 

Para Cairbar, a propaganda doutrinária era vital para o sucesso da empreitada e não economizava forças para realizá-la. Nos momentos mais difíceis, chegou a demonstrar total desprendimento ao afirmar que “Se fosse necessário, venderia todos os seus bens, para garantir a divulgação da Doutrina”. No período de 1911 a 1937 publicou 15 livros, demonstrando um enorme esforço de aprendizagem e de comunicação, na leitura, interpretação e tradução de textos em latim e francês, já que fora apenas um autoditada. 

Se o Espiritismo que Cairbar Schutel viveu fosse apenas um Espiritismo experimental e intelectual, fechado nos gabinetes e sessões secretas, jamais teria causado o incômodo e a repercussão que teve naquela região nova e promissora, que corria o risco de ser fatalmente dominada pelo Catolicismo. O ponto central do seu trabalho era o exemplo da convicção e da persistência em sempre oferecer o melhor, ocupando um espaço ideológico de direito e de fato. Essa preocupação, em todos os aspectos e detalhes aparentemente menos importantes pode ser constatada até mesmo na qualidade do papel que escolhia para imprimir a sua Revista. Nela, impressa em papel de primeira categoria encontramos pérolas autênticas, como os artigos de Gabriel Delanne, vindos da França e traduzidos pessoalmente por Cairbar. No seu livro de memórias[7] o Dr. Ary Lex começa o seu curioso relato falando dos tipos de personalidade que encontrou durante as seis décadas em que atuou no movimento espírita paulista. 

Escreveu ele: 

“Conhecemos muitos tipos de pessoas: as tímidas, que freqüentam ambientes espíritas durante anos, sem manifestar suas opiniões; as extrovertidas, sempre falantes, com muitas idéias, mas sem realizações práticas; as sonhadoras, com planos mirabolantes e inexeqüíveis, querendo modificar tudo e criar estruturas e obras faraônicas; as ditadoras, que não admitem qualquer contestação e suas idéias; as irritadas, sempre contra tudo e contra todos; as místicas, que buscam um Espiritismo que se assemelhe às práticas de antes, cheias de rituais, substituindo os santos pelos guias e os deuses pelos espíritos desencarnados; e, finalmente, as egoístas, que não perdem a oportunidade para sua auto-promoção. 

Decepcionamo-nos com as lutas pelo poder, travadas por pessoas que jamais poderiam ter falhas morais; com a intransigência de dirigentes, que afastam todos aqueles que lhes podem fazer sombra; com aqueles que se insinuam, querendo trazer para o movimento espírita idéias e práticas incompatíveis com a Codificação.” 


Para exemplificar esses conceitos, produto da sua própria personalidade crítica e exigente, o Dr. Ary Lex citou dois exemplos que ele considerava marcantes: “ o Comandante Edgard Armond, homem notável, pela sua honestidade, método e dedicação à Federação Espírita de São Paulo, mas que, em matéria de Doutrina, devido à influência de suas idéias orientais, apresentava tendência freqüente a fugir dos ensinos de Allan Kardec.” [8] 

E Cairbar Schutel, cuja lembrança viva se conservou em suas memória com esse episódio, durante a inauguração da nova sede do Centro Espírita Maria de Jesus, em São Carlos, presidido pelo pioneiro espanhol José Marques Garcia: 


“ (...) Falaram vários oradores: muito entusiasmo e emoção. Por fim falou Marques Garcia, sem grandes dotes de oratória, pois era um homem bom para realizar tarefas administrativas e não grande pregador. Garcia comunicou a fundação, em Franca,do Lar da Velhice Desamparada, o qual estava enfrentando grandes dificuldades. Pedia, portanto, aos presentes que pudessem contribuir com alguma importância, que o fizessem, encaminhando seus donativos, após a reunião. Cairbar Schutel levantou-se agitado, vai à tribuna e fala energicamente: ‘Protesto contra esse pedido de donativos! Vocês estão transformando a Casa Espírita em Igreja Católica, onde se dá o pão espiritual e depois se passa a sacola’. A assistência, que superlotava o salão, ficou traumatizada. Marques Garcia ficou abalado e triste. Isso aconteceu há 63 anos, mas gravamos nitidamente. Tínhamos 14 anos de idade, na ocasião. Após alguns minutos de surpresa e de choque, sobe à tribuna Campos Vergal, que ainda não era político consagrado, mas hábil no congraçamento. Empregou todos os recursos de oratória para tranqüilizar as pessoas e conseguiu que o ambiente ficasse sereno. Relembramos esse episódio para salientar aos espíritas que o fato de procurarmos seguir os ensinamentos do Cristo e de adotarmos o aspecto religioso do Espiritismo, como fazia Cairbar Schutel, não significa que deixemos de fazer críticas, quando necessárias. Ser cristão não significa ser amorfo, incolor, inodoro e insípido. Por esse motivo, sempre admiramos as atitudes desassombradas de Herculano Pires, Deolindo Amorim, Carlos Imbassay, Wandick de Freitas e outros. Quanto ao episódio em foco: Cairbar Schutel, espírito evoluído, agora desencarnado,, continua dando enorme quinhão de trabalho na seara espírita; quando encarnado, não conseguir ser suave ao presenciar uma atitude que reprovava. Somos incapazes de dizer se ele fez bem ou mal.” 


Realmente, a grande obra de Cairbar foi a exemplificação de idealismo e convicção, quando se tratava de defender a Doutrina e o direito de professá-la publicamente. Essa sua postura combativa nutriu uma verdadeira escola política de militância espírita surgida na cultura republicana do interior paulista, alimentando e atraindo os mais antigos; formando e espalhando gerações de lideranças do Movimento Espírita nacional, como, por exemplo, Romeu de Campos Vergal, Lameira de Andrade, Vinícius, Fausto Lex, Ary Lex, Herculano Pires, Gustavo Marcondes, Terezinha Oliveira, Wilson Ferreira de Melo, Altivo Ferreira, Mário Boari Tamásia, Carlos Steagall, Thomaz Novelino, Walter Radamés Accorsi, Servilio Marrone, Nestor Mendes da Rocha, Alcides Hortêncio, Eliseu Rigonati, Apolo Oliva Filho, Nelson Lobo de Barros, Djalma de Deus Silva, Milton Ferreira, José Justino Castilho. Nessas páginas não caberia a enorme lista de pioneiros e seus sucessores naturais, em sua maioria Espíritos procedentes da Europa revolucionária, reencarnados no Brasil com tarefas previamente definidas, individuais e coletivas. Habilidosos e experientes na rebeldia ideológica e na atuação social, eles souberam aprender as lições dos Mestres e aplicar o exemplo dos líderes mais atrevidos e corajosos. Na condição de antigos mártires cristãos ou de algozes dos mesmos, de simpatizantes do Espiritismo no século XIX ou de inimigos intransigentes e difamadores da Doutrina de Kardec, agora mais tranqüilos e redimidos, contribuíram ao abrir caminho para os que agora estão chegando e já visualizam no futuro outros desafios que lhes aliviem os erros cometidos no passado e que promova a irreversível iluminação de suas consciências. Schutel foi um desses que voltou acompanhado de velhos companheiros de ideal e também preparado para rever, acolher e perdoar antigos desafetos. 

Seguindo o raciocínio cartesiano e sua conseqüente tendência iluminista, Cairbar promoveu em certa ocasião, na cidade de São Carlos, um congresso que tinha como tema “A Liberdade de Consciência”. Para a preocupação do clero local, conseguiu reunir nessa festa todos aqueles que se sentiam oprimidos pelos abusos de poder: maçons, protestantes, judeus, católicos progressistas, céticos, liberais e até socialistas. No entanto, o fato que marcou essa sua luta foi, sem dúvida, a campanha do padre Van Esse contra a instalação do Centro Espírita “Amantes da Pobreza”. O padre conseguiu de um delegado de polícia a ordem para fechar o Centro. Cairbar decidiu ir para a praça pública e ali reivindicar os direitos constitucionais. Desse acontecimento surgiu o jornal “O Clarim”, para denunciar os desmandos desse tipo e também difundir as idéias que representavam o principal motivo dessa luta. A campanha de Van Esse chegou ao cúmulo de organizar um ato “religioso”, reunindo diversos sacerdotes, todos treinados para denegrir o Espiritismo e seu principal expoente em Matão. Fazia parte do plano o boicote comercial à farmácia de Cairbar com as conhecidas ameaças de excomunhão. Cairbar reagiu com a distribuição de panfletos e com um pequeno comício. O delegado arbitrário quis proibi-lo de falar em público, proibindo, também, o povo de ouvi-lo. Os poucos que tiveram a coragem de assistir ao comício ouviram Cairbar expor a modernidade e o destaque do Espiritismo sobre as religiões tradicionais, principalmente o Catolicismo. Entretanto, vendo que a proibição policial não surtira efeito, Van Esse reuniu uma horda de fanáticos para dispersar o comício espírita. Leopoldo Machado relata que a malta, pouco confiante no poder da sua fé contra o “Demônio”, se garantiu com porretes, punhais e revólveres. Enlouquecidos, partiram em franca luta para a praça, fato que desagradou muito os moradores pacíficos e ordeiros, entre os quais um médico e um advogado, não espíritas, que se mostraram indignados com o desrespeito às liberdades individuais. 

Depois desse triste incidente, no qual foi duramente advertido e ameaçado pelos mais impulsivos, Van Esse transferiu-se para Araraquara. Conta-se que, antes de partir, foi procurar Cairbar para pedir desculpas e deixar um presente para o antigo desafeto: uma Bíblia. O último encontro foi encerrado com algumas palavras secas, mas com um abraço de despedida. 

Muito interessante também é o relato da desencarnação de Cairbar, em 1938, quando, apenas vinte minutos depois, mesmo enfraquecido, manifestou-se, para dar prova da sua sobrevivência da sua alma, após a morte. Era a versão brasileira da experiência de Sanson, membro da Sociedade Espírita de Paris, relatada por Allan Kardec em O Céu e o Inferno. A mensagem foi transmitida por Cairbar através do amigo Urbano de Assis Xavier, médium de sua extrema confiança: “— Urbano, conforte o pessoal, estou satisfeitíssimo!”, disse Cairbar. Na manhã do dia seguinte falou novamente: “— Não queria comunicar-me para não desgastar mais o Urbano, mas, eu que preguei tanto a vida após a morte, aqui estou para dar o testemunho da imortalidade.” 

Algumas comunicações mediúnicas dão notícias de que Cairbar, atualmente, é o Espírito responsável pela propagação do Espiritismo em nosso planeta, tarefa que executa a partir da colônia Alvorada Nova, núcleo espiritual governado por ele e localizado na região santista do litoral de São Paulo. Não há notícias sobre sua ligação com os tempos apostólicos de Jesus, porém, pela envergadura da sua tarefa, provavelmente deve ter sido um dos pioneiros do Cristianismo Primitivo. 


O MÉDICO DOS POBRES 


Antes de Eurípedes e Cairbar, dois personagens também tiveram atuações marcantes como pioneiros do Espiritismo apostólico no Brasil: educadora Anália Emília Franco e o médico Adolfo Bezerra de Menezes. 

O Dr. Bezerra, cearense de Riacho do Sangue e conhecido no Rio de Janeiro como “o médico dos pobres”, interessou-se pelo Espiritismo ao ler O Livro dos Espíritos, presente do seu primeiro tradutor em língua portuguesa, o Dr. Joaquim Carlos Travassos. Alguns anos depois, no dia 17 de agosto de 1886, diante de um público de quase duas mil pessoas, no salão de honra da Guarda Velha, declara sua adesão à Doutrina Espírita. Essa atitude tinha sido provocada por um teste pelo qual Bezerra submetera a mediunidade do homeopata João do Nascimento. Bezerra solicitou uma receita para si mesmo, dando dados pouco esclarecedores sobre sua saúde. O diagnóstico veio rápido e confirmava a existência de uma dispepsia. A notícia foi dada em diversos jornais [9]da Capital como mais um simples evento cultural promovido pela Federação Espírita Brasileira. Porém, o seu protagonista não era mais um dentre os inúmeros conferencistas que lá compareciam para expor suas idéias e sim uma espécie de mito vivo, daqueles que as pessoas comuns e as existencialmente indecisas ficam observando, ainda que de forma inconsciente, olhando-as como bússolas a oferecer um Norte para suas vidas sem rumo: 


“Foi grande ontem a concorrência de senhoras e cavalheiros no salão da Guarda, para ouvirem o Dr. A. Bezerra de Menezes. O orador começou explicando os motivos poderosos que o levaram a abraçar o Espiritismo, dentre os quais denominava o preceito de que os princípios da religião estão fora do alcance da compreensão da razão, preceito que assim inutiliza a ação da mais elevada faculdade do homem. Foi estudando a moral e a teogonia romana que o orador se convenceu da veracidade dos ensinos espiríticos, completamente conformes com aquela, e se discordam desta, é por ser esta, como ele demonstra, o fruto de interpretações humanas. 

Tratou depois largamente da Doutrina Espírita; sendo acolhido, ao terminar, por calorosos aplausos” 


Sobre a leitura da primeira edição brasileira de O Livro dos Espíritos, publicada em 1875 pela livraria Garnier, Bezerra comentou depois que, ao ler Allan Kardec, tivera uma dupla reação: ficou, ao mesmo tempo, admirado com aquele universo de revelações e também com a sensação de que nada daquilo lhe era estranho. Seu anúncio em público teve um grande impacto na Corte Imperial, pois o regime era ainda muito atrelado ao clero católico. Além disso, Bezerra havia sido vereador por dois mandatos e tornara-se deputado-geral. Escrevia, agora, artigos espíritas sob o pseudônimo de “Max” no jornal “O Paiz”[10], dirigido por Quintino Bocaiúva. A família deixada no Ceará também não lhe perdoou o gesto, acusando-lhe de renegar a religião de berço, como se renegasse o leite materno. A crítica vinha de um irmão e foi para ele que Bezerra enviou uma carta na qual expõe todo o seu sentimento sobre o novo compromisso ideológico. A carta[11] tornou-se um dos opúsculos mais lidos de Bezerra e, num dos trechos, o bom médico confessa ao irmão o porquê da mudança: 


“Não sou cristão, porque meus pais me criaram nessa lei e me batizaram; mas, sim, porque minha razão e minha consciência, livremente agindo, firmaram minha fé nessa Doutrina sublime, que, única na Terra, eleva o Homem, em Espírito, acima da sua condição carnal – que, por si mesma, se revela obra de infinita sabedoria, a que o Homem jamais poderá chegar. Tendo diante dos olhos de minha alma o código sagrado da revelação messiânica, procuro, sem descanso, arrancar de mim os maus instintos naturais e substituí-los pelas virtudes cristãs. Tendo fé, tenho esperança e, quanto à caridade, procuro tê-la o mais que me é possível, na medida do ensino de São Paulo. Não guardo ódio e perdôo as injúrias, evito fazer o mal e procuro fazer bem aos próprios que me odeiam.” 


Nesta carta encontramos uma concepção muito diferenciada do Espiritismo que se praticava naquela época, no Brasil e na Europa, e que veio persistindo e ainda persiste em nossa época. Note-se que Bezerra de Menezes já havia superado as primeiras características das pessoas que se tornam Espíritas, apontadas por Allan Kardec. Tinha plena consciência da importância da transformação moral e do que era o trabalho de auto-análise e reformulação interior e qual o papel que o Espiritismo tinha que realizar nesse setor delicado da experiência humana. Aliás, como mudar a sociedade se não houver mudança de comportamento e de atitudes? Se não era essa a finalidade do Espiritismo, qual a vantagem de deixar de ser católico, protestante ou mesmo ateu? Por que adotar um novo ideal de vida, se continuamos esperando que as mudanças venham de fora para dentro? Deve ter sido essa a intenção de Bezerra ao responder ao irmão o significado da sua nova fé. É bem verdade que tais mudanças não ocorreram somente no campo intelectual e no muno do teórico-filosófico. Nem tudo era poesia e calmaria, pois na sua trajetória existencial as mudanças foram precedidas por severas provações severas, como um processo de adubação do solo moral. O biógrafo Francisco Acquarone mostra que o nome e a legenda em torno de Bezerra de Menezes foram construídos com sacrifícios e decepções que a maioria dos destacados militantes do Movimento Espírita nem ousaria pedir como prova. De fato, a vida de Bezerra foi, sem exagero, de completa renúncia, longe do egoísmo e da busca de notoriedade que tanto cultivamos e buscamos em nossas medíocres experiências, na vida comum e no ideal espírita. Bezerra não fez parte do corpo de trabalhadores espíritas da primeira hora, mas, pela própria natureza do seu caráter, se impôs, sem o querer, como o líder natural de todos os nomes que aparecem na lista dos históricos fundadores do Movimento Espírita Brasileiro. O Bezerra encarando, militante espírita, político, ser humano sujeito aos altos e baixos da rotina cotidiana, é bem diferente desse Bezerra Espírito, cuja imagem mística foi sendo construída ao longo dos anos e que tendeu para uma espécie de santificação, dado o grande interesse do público religioso pelas suas atividades curativas. Muitos se chocam ao saber das suas preferências doutrinárias, das suas batalhas políticas contra os adversários ideológicos, achando que, pelo fato de ter sido um cristão exemplar, era ingênuo, imaturo e se deixava levar pela leviandade de querer agradar a todos. Todos os membros do Grupo Confúcius[12], sem exceção, viam em Bezerra uma autoridade espontânea para conduzi-los na busca de seus objetivos. Isso significa que viam nela a difícil habilidade de gerir conflitos. Eram elementos ligados à Medicina Homeopática e conheciam a história do médico que abandonara a estabilidade da vida militar, para dedicar-se aos riscos da política; conheciam também a sua fama de médico cristão e profundamente caridoso. Mas seu prestígio parlamentar e sua notoriedade moral não eram meros acessórios sociais e sim ferramentas para remover obstáculos que exigiam muita paciência e obstinação. 

Foi desse grupo, que durou apenas três anos, que surgiram as primeiras traduções brasileiras das obras de Allan Kardec. Mas foi também dele que brotou o mais significativo cisma ideológico do Espiritismo no Brasil. Sem dúvida nenhuma que foi um ataque cuidadosamente planejado por organizações espirituais obscuras, com a finalidade de semear a confusão e o desvio dos verdadeiros objetivos da Doutrina Espírita em nosso País. Canuto Abreu apontou, preservando seu anonimato, uma figura obscura como catalisador negativo dessa manobra: 

“Muitos homens bons a homeopatia espírita conquistou para o Espiritismo. E maus também. Houve um homem, que chamaremos por Professor T., a quem coube o papel de opositor dos planos de Ismael. Conhecemo-lo já bastante velho e alquebrado, mas ainda no posto infeliz que o destino lhe reservara. Não queremos crer que agisse só pela força de seus sentimentos. Atuou antes como médium do escândalo necessário. O Professor T. foi durante toda a vida o médium do escândalo para os kardecistas. Inteligente, ativo, operoso, conhecendo suficientemente o Espiritismo, possuindo uma esposa com faculdades mediúnicas notáveis, pôde, pelo maravilhoso que fazia, arrastar muitos incautos. Foi Bezerra quem o combateu e venceu, usando para isso duma violência inusitada nos arraiais espíritas, como veremos. A Sociedade Deus, Cristo e Caridade agasalhou, em seu redil, esse terrível lobo e o resultado foi a separação entre místicos e científicos, onde só deveriam existir cristãos espíritas. Os místicos abandonaram-na e foram fundar, em 2 de março de 1880, a Sociedade Espírita Fraternidade, levando consigo, segundo diziam, o estandarte de Ismael. Queriam, portanto, ser o centro diretor do Espiritismo brasileiro, do qual Ismael era considerado o chefe espiritual”. 


Na ótica desse historiador tudo foi traçado pelas conhecidas técnicas obsessivas, fundadas na lógica das ligações cármicas, intimamente associadas aos defeitos morais de todos os que seriam, e ainda são, envolvidos na sinistra trama. O idealismo da vida presente, quase sempre, nos deixa ingênuos e camuflam as nossas quedas no passado, tornando-nos vulneráveis e escravos dos erros pretéritos, bem como das nossas inclinações. São ingredientes perfeitos para os golpes daqueles Espíritos que não toleram a idéia da transformação moral, sobretudo dos seus adversários. Então, essa é a origem da “matéria-prima” que gerou a polêmica entre “místicos” e “científicos” . Esse cisma, já histórico, partia da idéia antagônica de “fidelidade versus infidelidade” à obra de Allan Kardec, tendo como ponto de discórdia as famosas polêmicas ou “torneios” filosóficos, bem ao estilo bizantino. Para Kardec, esses temas, além de superficiais e ultrapassados pela mentalidade científica moderna, não caberiam dentro da amplitude de concepções racionais da nova revelação. Porém, os temas ainda exerciam profundo fascínio no psiquismo de alguns neófitos espíritas, influenciados de um lado pelas idéias de J. B. Roustaing e outras correntes de pensamento voltadas para o positivismo. Esses assuntos deveriam permanecer no terreno das concepções íntimas, onde cada um conserva suas limitações e capacidade de rupturas filosóficas. Mas a coisa tomou proporções de rivalidade e exibicionismo intelectual, estabelecendo-se verdadeiros “partidos” ideológicos em torno dessas questões. São idéias realmente atraentes, do ponto de vista da especulação intelectual, mas superficializadas, sem o sentido lógico e nobre que merece a filosofia. O adjetivo “bizantino” que lhe aplicamos já era usado por Bezerra de Menezes, com certo ar de tristeza, e não como idéia de desprezo; mas é também uma inevitável comparação com a superficialidade dos concílios católicos medievais e dos partidos heréticos de Bizâncio, onde se chagava ao cúmulo dos morticínios em massa, explorados, politicamente, por governantes desonestos e manipuladores e por sua turba de assessores interesseiros. No caso do Movimento Espírita, os inimigos invisíveis da Doutrina, que são os mesmos de outrora, descobrem, com certa facilidade, as nossas experiências em vidas antigas e, não raro, encontram a matéria-prima de que precisam para formar armadilhas psicológicas desse tipo. Muitos de nós, que militamos nos primeiros tempos do Movimento Espírita, estivemos estreitamente ligados a esses abusos da Razão e, não por coincidência, nos envolvemos com compromissos de difundir as novas idéias, até para apagar graves erros cometidos nos desvios das verdades espirituais. Somos Espíritas, mas não conseguimos esconder o orgulho que marca em nós o pervertido sacerdote materialista, o fanático e esquisito monge dos mosteiros, o vingativo feiticeiro tribal, o anárquico e irresponsável líder de massas populares, o político corrupto e o profissional liberal desonesto e sem ética, que fomos no passado. Quando estamos no auge da empolgação ideológica atual, os Espíritos inimigos vasculham nossos arquivos mentais e encontram um mapa completo dos nossos desvios e também os personagens que fizeram parte dessas histórias, sobretudo, os que foram profundamente lesados por nós. Isso forma a receita de cultura “cármica”, que fornece as armas mais eficientes para os seus ataques contra o ideal maior que nos une. Esses Espíritos aproveitam-se dessas manchas antigas, que hoje se apresentam como rachaduras frágeis em nosso psiquismo, que podem ser rasgadas ainda mais pela invigilância. Dependendo da fragilidade do alvo humano, os eficientes hipnotizadores das sombras chegam a propor às suas vítimas uma fusão de personalidades, de ontem e de hoje, com imagens idealizadas para o futuro, geralmente recheadas de anseios e desejos de supervalorização do ego. A maioria das vítimas nem percebe o que se passa porque crê estar protegida pelas suas “opiniões” arraigadas. Essa maioria só descobre a eficiência do “Orai e vigiai”, quando tudo está perdido. 

Esse era o perfil psicológico que predominava nos grupos e o clima que Bezerra de Menezes encontraria no Movimento Espírita Brasileiro, na passagem do século XIX para o século XX. Segundo Acquarone[13], Bezerra conheceu as promessas de consolo e felicidade futuras nos livros de Allan Kardec, mas também encontraria, entre os primeiros Espíritas o ambiente de amarguras e decepções; quanto ao conjunto de práticas e a militância, viu na sua frente um panorama desanimador: 


“Em cada mesa de presidência, pontificavam um diretor, quase sempre ignorante e xucro. Campeava a incompreensão ou, paradoxalmente, a ‘compreensão’ demasiada. Cada ‘chefe’ entendia de torcer, a seu modo, os fundamentos da Doutrina. E os postulados de Kardec diluiam-se, inexplicavelmente, criando aspectos imprevistos e resvalando, muitas vezes, para o ‘espiritismo’ mais baixo e degradante. Ignorantes, estultos e prepotentes, os dirigentes semeavam, na inconsciência das massas, o vírus nocivo do fanatismo mais torpe que já existiu no campo doutrinário (...) O Espiritismo ressentia-se, mais do que em qualquer outra época, de uma elite de pregadores, conscienciosos e honestos, superiormente instruídos e capazes de exemplificar aos grupos de adeptos e simpatizantes as verdadeiras diretrizes da Terceira Revelação”. 


Em certo momento o clima pendeu para a disputa de poder nas instituições, tendo como pano de fundo as divergências ideológicas entre religiosos e não religiosos. Na batalha pela realização do sonho de unidade e entendimento entre os Espíritas brasileiros, Bezerra tinha como retaguarda não só a proteção e a inspiração dos Espíritos ligados o movimento, incluindo o próprio Allan Kardec, mas, principalmente, as características morais. Esse foi o motivo de ter sido escolhido para incorporar a histórica figura fraterna e agregadora de que precisava o Movimento. Sua vida pessoal vinha sendo marcada pela dor da perda da primeira esposa e de dois filhos. O desencanto com a política levou-o à extrema pobreza material, fator agravado pela sua total falta de ambição e organização financeira pessoal, chegando ao limite das necessidades materiais. Bezerra atendia uma clientela muito pobre que não lhe rendia, praticamente, nenhum honorário. Os amigos tinham que intervir na cobrança de consultas para diminuir as dificuldades da família. Não era irresponsabilidade, mas uma profunda sensibilidade e desprendimento para com a miséria humana, que, insistentemente lhe batia à porta. Entre a miséria extrema do outro e sua suportável necessidade, optava sempre pelo mais fraco, o que corria risco de vida ou degeneração moral, geralmente mães desesperadas com crianças em estado deplorável. 

Nos primeiros tempos da República, sob forte influência positivista, o Código Penal [14]de 1890 tornou-se uma grande ameaça às práticas “espíritas” no Brasil. Era uma trama jurídica, com o aval da Igreja, previamente preparada para que o clero pudesse manter o controle das rédeas da “religião oficial” no País. A polícia agia rapidamente e sem distinção de estilos e atitudes dos praticantes. A delação e a vingança eram as principais ferramentas de trabalho das forças oficiais e também das “forças ocultas”. Nessa época famoso cronista João do Rio[15] chamava a atenção dos seus leitores na imprensa carioca para a confusão que havia se estabelecido e a injustiça que se fazia com o nome do Espiritismo: 


“Se quiseres andar um mês a visitar diariamente uma dezena de médiuns, não chegas a visitar a metade das casas de cura espírita que infestam a cidade. Os espíritas dizem que Sócrates foi espírita e Platão também, posto que vagamente. Com esta opinião assim vasta, quem se atira ao estudo das religiões, das ciências ocultas da nossa terra, verifica nas baixas camadas a fusão de todas as feitiçarias, de todos os ocultismos no Espiritismo. O povo, meu caro, não pode nem quer diferenciar. Para as mulheres que vão pedir amores, ou alívio das moléstias ou o bom humor do marido, tanto faz que seja uma cartomante, um preto mina mandingueiro, uma rezadeira, ou um médium. O principal é que as forças do mundo invisível venham prestar-se aos seus desejos e que se realize o milagre (...) Mais Espiritismo falso! É esta uma das causas que têm concorrido para o descrédito da doutrina. É perfeitamente incompreensível que os médiuns de profissão não tenham a prevenção dos espíritas sinceros. Na maioria dos centros espíritas dos Estados, a reputação dos mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios, e onde para eles o ofício não seria lucrativo, por causa do descrédito de que se tornariam objeto, e da concorrência dos médiuns desinteressados que se encontram por toda parte (...) Quantas dúzias de barracas de Espíritos há pela cidade? Há pelo menos, há no mínimo uma dezena delas, incluindo as cartomantes, as videntes sonambúlicas, os cínicos feiticeiros. Com exceção de uns dez mais espertos, todos absolutamente todos, ignoram os rudimentos da Doutrina Espírita, fazem uma deslavada mistura de santos com Espíritos, organizam uma corte invisível, a seu talante, e berram aos ouvidos dos incautos a esperança da boa fortuna e da saúde.” 


Mas as perseguições não foram em vão. Elas tiveram o mérito de mostrar aos Espíritas que, divididos, estariam todos derrotados; pela tolerância e sadia convivência, todos poderiam sobreviver. Bezerra seria o símbolo dessa reunião. Mesmo não aceitando a presença e a influência do Espírito de Ismael, de quem Bezerra era fiel discípulo, os científicos viam no “Bom Velhinho” a figura do equilíbrio, discordando, porém, das suas “preferências religiosas”. Já os kardecistas, mesmo enciumados pelas atenções que Bezerra dispensava aos científicos, percebiam que não chegariam a lugar nenhum sem a companhia de tão valoroso e respeitado apóstolo. Bezerra era orientado, pessoalmente, pelo Espírito Santo Agostinho, o propositor da idéia do compromisso e da técnica de reforma íntima, contida nas questões 918 e 919 de O Livro dos Espíritos. No auge do cisma, para convencer Bezerra a dirigir a Federação Espírita Brasileira, naquele momento um autêntico “presente de grego”, Bittencourt Sampaio sugeria-lhe a prática da homeopatia para viver dignamente e doar-se sem preocupações ao novo trabalho. Bezerra respondeu que não entedia “patavinas” de homeopatia e que usava a medicina dos Espíritos e não as dos médicos. O médium Frederico Júnior também estava presente e, através dele, manifestou-se Santo Agostinho, confirmando as palavras de Sampaio e querendo dizer que Bezerra fazia muito mais do que os homeopatas. Bezerra reagiu, educadamente, perguntando a Agostinho se lhe sugeriam ganhar dinheiro com o Espiritismo. O Espírito respondeu certamente que não, mas que o ajudaria a ganhar a vida dignamente e que, nas horas mais difíceis, lhe traria “alunos de matemática”. Bezerra entendeu o recado lembrando que, certa vez, num momento de dificuldade financeira, quando ainda era aluno da faculdade, apareceu alguém pedindo-lhe aulas particulares de matemática; o cliente pagou adiantado e nunca mais voltara para tomar uma única lição. O Espírito Agostinho insistiu para que Bezerra aceitasse o convite de Sampaio, lembrando que a união dos Espíritas dependia da sua boa vontade de homem e que eles, os Espíritos, dependiam dela para realizar o trabalho deles. O convite foi aceito e daí em diante o movimento espírita, como todos sabemos, não foi mais o mesmo. Bezerra deu a ele um novo tom, uma nova afinação com o seu diapasão inconfundível. Além da natural presença de espírito, marca pessoal de sensibilidade, Bezerra trazia uma enorme bagagem política, fator que facilmente poderia denegrir a imagem do Espiritismo, mas que em suas mãos significou um habilidoso instrumento de negociações num grave e delicado momento da efetivação da Doutrina em nosso país. Para os espíritas e adversários do Espiritismo Bezerra possuía todas as virtudes que engrandeciam ou os defeitos que diminuíam a importância da mesma. Mas para a opinião pública, tradicional expectadora de exemplos, ele continuava sendo inatacável, pois o seu perfil humanista estava acima de qualquer opinião doutrinária. Quando do seu desencarne, também a maioria dos jornais fluminenses noticiou o fato e nenhum deles deu publicidade de sua crença ou filiação filosófica, mas sim ao caráter e a imagem que os habitantes da cidade do Rio Janeiro tinham da sua pessoa: 


“Sucumbiu ontem, às 11h30, após longos e dolorosos padecimentos, que foram a última prova imposta à sua resignação verdadeiramente cristã, o eminente brasileiro cujo nome, encimando estas linhas, como homenagem póstuma às virtudes da sua vida, por tantos anos fulgurou nos anais da política do império e hoje, apenas vive na tradição dos que o amaram, ou da inexaurível fonte da sua bondade receberam inesquecíveis benefícios. 

Foi esta a característica essencial do venerado extinto.Político militante, filiado à mais adiantada parcialidade do antigo Partido Liberal, deputado, vereador da extinta Câmara deste município, a cujos destinos por longos anos presidiu; escritor – que o era com raro merecimento e brilho – em todas essas manifestações da sua atividade, deu sempre o Dr. Bezerra de Menezes as mais brilhantes provas de sua capacidade, do seu valor moral e intelectual; mas foi sobretudo no abnegado sacerdócio da sua clínica e na doce penumbra da sua vida íntima que mais refulgiram os peregrinos dotes de seu espírito, multiplicando-se em desvelos, em solicitude, em carinhoso desinteresse por todos os que sofriam. E jamais bateu um desses, enfermo ou necessitado, inutilmente á sua porta. 

Tempo houve em que, fascinado pelo desejo de servir á sua pátria, em cargos públicos, exclusivamente de confiança popular, como acabamos de aludir, substituiu o exercício da Medicina pela tribuna parlamentar ou pelos onerosos encargos de chefe da Municipalidade, em que se conservou perto de vinte anos (...) 

Passou através das grandezas deste mundo e do fastigio do poder sem lhes sentir a vertigem, sobranceiro, indiferente, alheio a ambições, tendo pelas seduções da fortuna um desprezo que tanto contrasta com o culto hoje incondicionalmente rendido a essa mesquinha preocupação, cujo cultivo, em certas camadas da sociedade contemporânea, tanto rebaixa o espírito da nossa nacionalidade. 

É realmente edificante, no meio das ambições que na hora presente se disputam entre nós a posse das melhores posições, para a ostentação de inesperadas opulências, opor exemplo desse grande cidadão, que não é mera figura – encaneceu no serviço da Pátria e da Humanidade e, tendo entrado para a vida pública com fortuna, dela se retirou pobre, depois de haver exercido, gratuitamente por um largo período, o cargo de vereador, que não era então remunerado, em ter tido em suas mãos, como seu presidente, as chaves da Municipalidade, de que não se utilizou, senão para assegurar-lhe as condições de prosperidade, de que rezam as tradições desse tempo(...) 

Assim, de fato, viveu esse grande homem, misto de interesse, de abnegação, de fé e de grande moral, e que, de sessenta e oito anos, voltados à atividade constante do trabalho, extremo de ambições vulgares, sai da vida, deste charco, que o não conspurcou, cercado de uma auréola de virtude e através de uma glorificadora apoteose de bênçãos e lágrimas (...) 

A sociedade brasileira, particularmente a sociedade fluminense, contraiu com o venerando morto uma dívida que, revertendo em benefícios de sua família, honrará a memória daquele que tantos serviços lhe prestou. Resta que a pague, provando assim que a ingratidão não é a única moeda com que o povo costuma retribuir sacerdócios dos que serviram à Pátria e à Humanidade (...)” – O Paiz, 12 de abril de 1900[16]. 


O Dr. Bezerra de Menezes é uma figura muito significativa e admirável, não apenas como militante encarnado que foi, mas uma grande expressão da Espiritualidade, que trabalha, incessantemente, pelo estabelecimento da moral Espírita em nosso Planeta e em nosso País. No mundo espiritual, como extensão da sua vivência apostólica na Terra, é tido hoje como um dos mais atuantes expoentes da caridade, dirigindo uma vasta legião de médicos e enfermeiros desencarnados da sua conhecida “Fraternidade dos Humildes”. 

Há muitos espíritas que afirmam, sempre em caráter reservado, a revelação de que o Dr. Bezerra de Menezes, assim como algumas personalidades do pioneiro Movimento Espírita Brasileiro, pertenceram ao quadro dos antigos apóstolos de Jesus, na Palestina. Encontramos vários deles militando no Espiritismo brasileiro, sobretudo os que tinham tendências claramente evangélicas. Bezerra teria sido, no tempo das primeiras pregações, o médico e evangelista grego Lucano. No livro “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” Bezerra é apontado como discípulo de Ismael e foi investido pelo Espírito-Guia do Brasil na tarefa de equilibrar o processo de organização e unificação do Movimento Espírita brasileiro, como vimos, bastante tumultuado pelas divergências internas e interferências negativas dos adversários espirituais. 


ISMAEL, “DEUS CRISTO E CARIDADE”

“O Brasil samba que dá, bamboleio que faz gingar. O Brasil do meu amor, terra de Nosso Senhor” 

– Ary Barroso – Aquarela do Brasil. 


Santo Agostinho é reconhecido como figura espiritual autêntica nos trabalhos históricos da Codificação. Mas o mesmo já não acontece com Ismael, um Espírito que atuou, incisivamente, nos eventos citados do Movimento Espírita brasileiro e cuja identidade foi mais amplamente revelada pelo Espírito Humberto de Campos, através do médium Chico Xavier. Ismael é apresentado no livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como preposto de Jesus para o governo espiritual do Brasil. Edgard Armond, em diversas obras e na sua auto-biografia, tem essa mesma opinião. Carlos Torres Pastorino conta, no prefácio de um livro que fala sobre Getúlio Vargas[17], que o presidente somente consumou a sua difícil escolha de sacrifício pessoal após reunir-se espiritualmente com Ismael na fatídica madrugada de 24 de agosto de 1954. Tal informação mediúnica dada a Pastorino aponta Ismael como a entidade que dirige todos os acontecimentos relacionados ao destino do nosso país e que, naquele caso, Vargas passava por uma provação na qual teve a opção de escolha entre o suicídio, do qual iria arcar com danos morais, aliviados pelo gesto de renúncia pessoal, ou resistir e desencadear uma grave convulsão social no qual iria desencarnar, prematuramente, milhares de pessoas: 


“Apresentam com interesse outrossim as interpretações dadas pelo autor aos fatos da vida diária, sob o ponto de vista histórico ou científico, assim como chegam a comover as auto-recordações, que levantam uma ponta do véu pessoal, tendo a sinceridade como garantia de verdade. Neste setor, há um aceno ao desaparecimento do grande Getúlio Vargas. E o que diz Caio Miranda, embora vagamente, confirmam as palavras que ouvimos de outro Mestre, que nos testemunhou ter sido o Chefe de Estado, naquela madrugada de grande sofrimento e angústia, chamado em espírito a uma reunião presidida por Ismael, o Anjo-Guia do Brasil. Nessa assembléia espiritual, foi exposto o grande perigo que corriam dezenas de milhares de criaturas em nossa pátria, que iriam desencarnar antes do tempo, por causa do iminente levante armado que se preparava. E foi-lhe apontada a única solução para evitar a hecatombe, deixando-o porém livre para resolver: o auto-sacrifício espontâneo, em benefício da população. Regressando ao corpo físico, consumou sem titubear o holocausto, para evitar o mal maior. Que esta não fora sua intenção, prova-o o fato de haver-se ele preparado para dormir, vestindo o pijama. Se outro fôra seu pensamento, tê-lo-ia executado antes de haver-se deitado. Inegavelmente, não escapou às terríveis conseqüências físicas do desencarne prematuro, que atingem a todos aqueles que abandonam a vida pela própria mão, qualquer que seja o motivo determinante. No entanto, foi sustentado pelos Maiores da Espiritualidade que, reconhecendo a coragem e o sacrifício, o ampararam nos angustiosos transes e nas terríveis dores que sofreu, e de até hoje ainda das quais não se libertou de todo. (...) 


Para os “científicos” antigos e atuais, Ismael simplesmente não passa de uma entidade fictícia, produto da imaginação dos Espíritos e dos médiuns, incluindo Chico Xavier. Ainda hoje encontramos artigos dos seus herdeiros, que ironizam a figura de Ismael, usando o prefixo “anjo”, e as aspas são para acentuar o tom jocoso e irreverente. Não só duvidam da figura de Ismael, mas acham que seu nome é utilizado para justificar as disputas políticas e ideológicas dentro das entidades. Pensadores não religiosos como Jaci Régis nunca esconderam sua opinião de que Ismael exista, mas que se trata do Espírito de um padre católico, tal qual Emmanuel e todos os outros que participaram da codificação e que direcionaram a doutrina segundo sua ideologia religiosa. Ary Lex, sempre desconfiado das revelações do “Plano Espiritual”, se referia a Ismael como “...esse Espírito que é o mentor da FEB.” Alguns dirigentes da Federação Espírita Brasileira já foram acusados diversas vezes de usarem o livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho em prol dos seus interesses políticos e pessoais. A mais grave acusação partiu de Manuel Araripe de Faria, em 1947, que denunciou a falsificação dos originais de Chico Xavier como se fosse uma intenção rasteira de incluir indevidamente o nome a J. B. Roustaing na obra. A intenção, segundo o acusador, era transformar Roustaing num fato histórico, colocando-o em destaque, ainda que numa aparente e insignificante frase do capítulo XXII: 


“(...) Em uma de tais assembléias, presidida pelo coração misericordioso e augusto do Cordeiro, fora destacado um dos grandes discípulos do Senhor, para vir à Terra com a tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo um método de observação a todos os estudiosos do tempo. Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade Lyon. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardeciana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos.” 


Antes de editar o livro, a FEB havia publicado mensalmente os capítulos na revista “O Reformador”, em 1938, e dessa experiência, segundo o acusador, colheu as repercussões sobre a qualidade das informações, incluindo a necessidade de não deixar de fora Roustaing, o segundo principal patrono doutrinário da entidade. A Diretoria da FEB reagiu com a devida indignação exigindo provas do acusador, mas também não deu conta de esclarecer o público sobre o destino que se deu ao texto original. Esse episódio aumentou ainda mais as dúvidas sobre a identidade e a condição do Espírito Ismael, bem como a autenticidade mediúnica do livro, ou melhor, das edições da FEB. Numa carta[18] datada em 29 de setembro de 1946, o presidente da FEB, Wantuil de Freitas, recebeu de Chico Xavier estas considerações de solidariedade em relação ao caso: 


“Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing, em “Brasil”, foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a Casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho – o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem.” 


E sobre uma revisão e modificação propostas por Wantuil, talvez para tentar agradar os críticos, em carta de 24 de agosto de 1947, Chico adverte: 


“Nosso gesto poderia traduzir, para muitos, temor ou excessiva consideração para com o bloco que nos acusa de interpolar os textos mediúnicos, porque não tendo havido uma providência desta, em qualquer edição dos livros recebidos em Pedro Leopoldo, desde a publicação de Parnaso, há quinze anos, a mudança seria extremamente chocante” (...) De uma coisa podemos estar certos – é de que nunca estaremos livres da perseguição e leviandade dos nossos adversários gratuitos. Mais vale recebê-los com paternal vigilância que dispensar-lhes excessiva consideração (...) Restituí-lhe o livro ontem com todas as corrigendas que fizeste e podes crer que esses reajustamentos e todos os outros que puderes fazer, no Brasil, Coração do Mundo e em todos os outros livros, representam motivo de imenso prazer e de indefinível conforto para mim. Deus te recompense”. 


Porém, para os que aceitam tal revelação, o Espírito Ismael é realmente o conhecido personagem do Antigo Testamento, ainda que seja um símbolo espiritual de coletividade. Essa idéia é confirmada pela própria dupla Humberto de Campos e Chico Xavier no livro Crônicas de Além-Túmulo, num texto sobre o Apóstolo Pedro; isso com o aval de Emmanuel, o Espírito que coordena esses trabalhos de revelações. Na crônica, Humberto de Campos cita uma referência em que o próprio Espírito do Apóstolo Pedro diz ter vindo conhecer, no Brasil, a obra evangélica de Ismael, “filho de Abraão e Agar", não deixando dúvidas de que, para eles, o Espírito de Ismael se trata do mesmo personagem bíblico da Gênese (16:11, 25:9 e 28:9). 

Observando atentamente o texto bíblico, Ismael, semelhante ao seu pai, aparece como uma espécie de entidade-símbolo das raças e povos historicamente desprezados pelas nações, que seriam reunidos e consolados na “Canaã”, a terra prometida aos oprimidos. Como sabemos, “Canaã” e “Jerusalém” não são, na Bíblia, meros acidentes geográficos, mas símbolos de coletividade espiritual. Para os muçulmanos, os povos semitas da Arábia são todos “descendentes” de Ismael, o “patriarca” da tribo perdida no deserto. O nome Ismael em hebraico significa “Deus ouve”. 

A escolha de Ismael, feita por Jesus, para dirigir espiritualmente o Brasil é, para os espíritas ismaelistas, uma prova de que a criação do nosso País, como nação, já estava traçada nas profecias das Escrituras Sagradas. Vejamos o que diz o livro do Gênese: 


“Sara, mulher de Abraão (pai de uma multidão), não lhe tinha dado filhos; mas, possuindo uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a Abraão: ‘Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava, para ver se, ao menos por ela, eu possa ter filhos’. Abraão aceitou a proposta de Sara tomou, pois, sua escrava, Agar, a egípcia, passados dez anos que Abraão habitava a terra de Canaã. Este aproximou-se de Agar e ela concebeu. Agar, vendo que tinha concebido, começou a desprezar a sua senhora. Então Sara disse a Abraão: ‘Caia sobre ti o ultraje que me é feito! Dei-te minha escrava, e ela, desde que concebeu, olha-me com desprezo. O Senhor seja juiz entre mim e ti. Abraão respondeu-lhe: ‘Tua escrava está em teu poder, faze dela o que quiseres.’ E Sara maltratou-a de tal forma que ela teve de fugir. 

O Anjo do Senhor, encontrando-a no deserto junto de uma fonte que está no caminho de Sur, disse-lhe: ‘Agar, escrava de Sara, donde vens? E para aonde vais?’- ‘Eu fujo de Sara, minha senhora’, respondeu ela. ‘Volta para a tua senhora, tornou o anjo do Senhor, e humilha-te diante dela.’ E juntou: ‘Multiplicarei tua posteridade de tal forma, e será tão numerosa que não se poderá contar.’ Disse ainda mais: ‘Estás grávida, e vais dar à luz um filho: dar-lhe-ás o nome de Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. Este menino será como um jumento bravo: a sua mão se levantará contra todos e a mão de todos contra ele, e levantará sua tenda defronte de todos os irmãos. Agar deu ao Senhor, que lhe tinha falado, o nome: Vós sois El-roí (Deus de visão), ‘porque, dizia ela, não vi eu aqui mesmo o Deus que me via? E por isso deu-se aquele poço o nome de poço Lahai-roí (Sois um Deus de visão, o Deus que me vê); ele se encontra entre Cadés e Barad. 

Agar deu à luz um filho a Abraão, o qual pôs o nome de Ismael. Abraão tinha a idade de oitenta e seis anos quando Agar lhe deu à luz Ismael.” 


Entretanto, no capítulo 17, relata-se ainda que Abraão havia sido informado sobre o nascimento de outro filho (Isaque), através da própria Sara, agora abençoada pela fertilidade, e o patriarca preocupa-se quanto ao destino de Ismael. Abraão recebe ainda a seguinte revelação do Senhor: 

“Mas, quanto a Ismael, eu te ouvi. Eis que vou abençoá-lo e fazê-lo fecundo, e vou multiplicá-lo muitíssimo. Ele produzirá certamente doze maiorais, e eu vou fazer dele uma grande nação”. 


Assim, explica-se a descendência de Ismael. Aqui, na visão ismaelistas, pode-se observar, simbolicamente, a revelação da formação de futuras nações do mundo. Dentre elas, na perspectiva da revelação de Humberto de Campos, é possível que se inclua o Brasil: 

“Estes são os nomes dos filhos de Ismael, segundo sua ordem de nascimento: o primogênito de Ismael, Nebaiot; em seguida, Cedar, Adbeel, Mabsã, Mesma, Duma, Massa, Hadad, Tema, Jetur, Nafis e Cedma. Tais são os filhos de Ismael, e estes são os seus nomes segundo suas cidades e seus respectivos acampamentos, doze chefes de suas tribos. A duração da vida de Ismael foi de cento e trinta e sete anos, depois, ele entregou a sua alma, foi unir-se aos seus. Seus filhos habitaram desde Hevila até Sur, que se encontra em frente de todos os seus irmãos.” 


O uso da nomenclatura hebraica para identificação de Espíritos de alta hierarquia deve-se, provavelmente, ao fato de que os hebreus foram os primeiros a receberem do Plano Espiritual Superior, e preservarem para o Ocidente, as revelações desta natureza. Allan Kardec publicou na Revista Espírita (Ano IV, nº 06, junho de 1861) esta comunicação do “Anjo Gabriel”: 


“Sou Gabriel, o anjo do Senhor, que me encarrega de vos abençoar, não por vossos méritos, mas pelos esforços que fazeis para os adquirir. A vida deve ser um combate. Não se deve jamais parar, jamais vacilar entre o bem e o mal. A hesitação já vem de Satã, isto é, dos maus Espíritos. Coragem, pois! E quanto mais espinhos em vosso caminho, mais esforços necessitais para seguir. Se ele fosse semeado por rosas, que mérito teríeis diante de Deus? Cada um tem o seu calvário na Terra, mas nem todos os percorrem com a sua suave resignação de que Jesus vos deu o exemplo. Ele foi tão grande que os anjos se comoveram! E os homens? Quando muito vertem uma lágrima a tantas dores! Ó dureza do coração humano! Mereceríeis semelhante sacrifício? Lançai o rosto no pó e pedi misericórdia ao Deus mil vezes bom, mil vezes meigo, mil vezes misericordioso! Um olhar, ó meu Deus, sobre a vossa obra, sem o que ela perecerá! Seu coração não está à altura do vosso; não pode compreender este excesso de amor de vossa parte. Tende piedade; tende mil vezes piedade de sua fraqueza. Levantai sua coragem por pensamentos que não vem senão de vós. Abençoai, sobretudo, para que dêem frutos dignos de vossa imensa grandeza! 

Hosana! No mais alto dos céus e paz aos homens de boa vontade! 

É assim que terminarei as palavras que Deus me ordenou que vos transmitisse. 

Sede abençoados no Senhor, a fim de vos despertardes um dia em seu seio.” 


(Evocação de um Bom Espírito, em Soultz, Alto-Reno, pela Sra. X) 


Também no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho encontramos, além de Ismael, o nome de Helil, outro Espírito citado como responsável pelos problemas sociológicos da Terra e que teve como missão reencarnar em Portugal, na figura do Infante D. Henrique de Sagres, para empreender os trabalhos que resultariam mais tarde no “descobrimento” do Brasil. Edgard Armond[19] explica dessa forma alguns pontos sobre esta questão de nomenclaturas: 


“Para o governo espiritual da Terra, da qual é o Espírito Protetor, Dirigente e Responsável, Jesus estabelece guias e assessores, que respondem pela orientação, proteção e encaminhamento espiritual de países e povos. Mas, num sentido mais geral, abrangendo o globo todo, existem Espíritos da classe dos arcanjos, mensageiros Seus e colaboradores íntimos, que agem estabelecendo união com Seus seguidores encarnados no plano físico. São seus nomes: Ariel - Gabriel - Rafael - Daniel - Samuel - Miguel e Ezequiel, cada qual com atribuições determinadas. Obviamente, no Plano Espiritual estas divisões e nomenclaturas próprias da nossa linguagem possuem a grandiosidade e a majestade dos Planos Espirituais Sublimados.” 


O mesmo autor[20] afirma, como Kardec, que na tradição secreta dos hebreus a idéia de um Ser único, eterno e imutável, evoluiu lentamente a partir do conceito de “Elohin” (vários deuses), “Jhavé” (dois deuses) e “Jeovah” (um só deus). Armond expõe que, mesmo “Jeovah” não é Deus, mas um Espírito de alta hierarquia, protetor do povo de Israel. 

Dentro dessa mesma perspectiva da revelação folclórica de Humberto de Campos, um outro detalhe muito curioso de uma provável e remota ligação entre Ismael, o povo hebreu e o Brasil é que, em 1948, quando a Assembléia das Nações Unidas resolveu, por diversos motivos, criar o Estado de Israel, o acontecimento foi presidido, pessoal e simbolicamente, por um representante do Brasil. A curiosidade está no fato de Ismael, o Espírito Guardião do nosso país, ter sido no passado o símbolo da tribo rejeitada pelos hebreus e agora, através do embaixador brasileiro na ONU, o Sr. Oswaldo Aranha[21], devolver aos judeus, com um gesto espiritualmente muito emblemático, o direito de usufruir um território-nação. O sobrenome “Aranha”, como todos que lembram outros persistentes elementos da natureza (Barata, Saraiva, Marimbondo, Oliveira, Pereira, Pedreira, etc.) foram adotados pelos judeus convertidos em Portugal e, notadamente no Brasil colonial, chamados de “cristão-novos”. Algumas correntes do judaísmo considera esse fato político presidido por Aranha como a consolidação profética da vinda do Messias. 

Para os chamados Espíritas “científicos”, ou “voltaireanos”, e seus seguidores atuais, a ligação entre Bezerra de Menezes e Ismael é apenas “misticismo” e também objeto de especulação de poder e prestígio do Movimento Espírita Nacional. Tudo não passaria também de uma tentativa de legitimar o prestígio monárquico de FEB sobre todas as instituições federativas. Na ótica crítica, positiva ou materialista, o livro do Espírito Humberto de Campos jamais poderia ser classificado como historiografia e não passa de um relato místico-literário de um poeta. O fundo narrativo seria uma influência do contexto histórico no qual o Brasil estava mergulhado numa ditadura ufanista e o Espiritismo necessitava ser reconhecido e legitimado pela sociedade e pelo governo nacional-fascista do Estado Novo. Segundo o historiador Alcir Lenharo[22], autor de O Triunfo da Vontade, sobre o nazismo e “A Sacralização da Política”, sobre a longa ditadura de Vargas, o momento histórico era apropriado ao clima místico e sagrado. Cremos nós que não é necessário ir tão longe e fundo nessas comparações. Bastaria perguntar se o Espírito Humberto de Campos possuía na época uma formação histórico-doutrinária suficiente para sustentar suas revelações. Segundo Edgard Armond, o famoso cronista é ligado a um grupo espiritual denominado “Fraternidade da Lei Áurea”, formado por Espíritos que tiveram atuação marcante nos fatos históricos do Brasil. Mas sua inexperiência em relação à história do Espiritismo e à doutrina Espírita é evidente em alguns textos, inclusive quando afirma que Kardec foi enterrado do Père-Lachaise, ignorando que o funeral se deu primeiramente no cemitério Mont-Martre. As informações históricas de suas crônicas, segundo ele mesmo, são obtidas do “folclore” existente no mundo espiritual. Apesar da beleza da linguagem poética e da sedução espontânea da narrativa dos fatos, não se sabe até hoje de quais fontes ele extraiu toda essa epopéia da história brasileira, muito menos dos acontecimentos relacionados ao cristianismo primitivo e do Movimento Espírita na Europa. Humberto de Campos, ou Irmão X, pelas mãos de Chico Xavier, já entrevistou o apóstolo Pedro, o filósofo Sócrates e também Judas Iscariotes, numa visita a Jerusalém durante a Semana Santa. Existe alguma realidade oculta na sua narrativa folclórica? 

Essa é mais uma herança do cisma brasileiro: “Crer ou não crer, eis a questão”. Como esta é uma decisão que ninguém pode tomar por nós e que a ferramenta principal do livre-arbítrio nunca é a negação gratuita e o contra-senso, mas sempre o bom-senso, apelemos para o próprio Ismael e julguemos, não sua identidade, mas o conteúdo e a intenção de suas palavras. A mensagem foi dada no Grupo Confúcius[23]: 


“O Brasil tem a missão de cristianizar. É a terra da promissão. A terra de todos. A terra da fraternidade. A terra de Jesus. A terra do Evangelho. Não foi por acaso que tomou o nome de Vera Cruz, Santa Cruz. Não foi por casualidade que recebeu desde o berço o leite da religião cristã. Não foi sem significação que a vira os primeiros navegadores debaixo do Cruzeiro do Sul. Na Era Nova e próxima, abrigará um povo diferente pelos costumes cristãos. Cumpre ao que ora ouve os arautos do Espaço, que convocam os homens de boa vontade para o preparo da Nova Era, reconhecer em Jesus o chefe espiritual. Com o Evangelho explicado à luz do Espiritismo, a moral de Jesus, semeada pelos jesuítas e alimentadas pelos católicos, atingirá sua finalidade, que é rejuvenescer os homens velhos, que aqui nascerão ou que para aqui virão de todas as partes do globo, cansados de lutas fraticidas e sedentos de confraternidade. 

A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho em espírito e verdade. Os que quiserem cumprir o dever, a que se obrigaram antes de nascer, deverão, pois, reunir-se debaixo deste pálio trinário: Deus, Cristo e Caridade. Onde estiver esta bandeira, aí estarei eu, Ismael.” 


Quando surgiu a célebre questão do Pacto Áureo, para a unificação do movimento espírita em torno da Federação Espírita Brasileira, apareceu também uma mensagem mediúnica[24] atribuída à Ismael. A comunicação foi dada no Rio de Janeiro em 5 de outubro de 1949 e, mesmo sendo considerada autêntica pelos ismalistas, parece mais uma apologia do otimismo e da união dos espíritas do que propriamente uma ratificação ou investidura espiritual do polêmico e famoso acordo. A linguagem é mística e revela também o histórico sincretismo religioso dos membros daquela entidade : 


"Ajuda-me, Jesus! Ajuda-me, Mãe Santíssima! Irmãos, filhos de minha alma, fiéis aprendizes de minha humilde oficina na grande forja do Mestre e Senhor! Eu vos saúdo e abençôo, em nome desse mesmo Mestre e Senhor, pedindo recebais meus votos em vossos corações e os transmitais a todos os obreiros da seara divina, aos trabalhadores de última hora que fazem jus ao salário e se entregam à tarefa com toda a dedicação. 

"Sim! O fruto amadureceu. E, na hora precisa, por todos pode ser saboreado, meus amigos, por todos os arrebanhados por mim para preparar o celeiro. Na Pátria do Cruzeiro, homens falíveis criaram separações imaginárias, embora no fundo seus corações buscassem a Jesus. Os que as assistiam mais de perto sabiam que, a seu tempo, o véu que lhes encobria a verdade viria a ser afastado e o reino do entendimento raiaria entre eles, para que unidos buscar pudessem o reino da paz, aquele que só Jesus está em condições de distribuir entre os homens. 

"Avante, caravaneiros da Pátria do Evangelho! Não permitais que o homem velho sufoque o novo que surge das páginas do Livro Santo! Que a humildade seja a vossa primordial arma, a exemplo de Jesus. Que a renúncia, amigos, vos secunde em todos os atos para buscardes e terdes em vós o reino dos céus. Jamais impere o personalismo em vossos corações. Todas as vezes que a luta pela conquista do bem se vos tornar áspera e encontrardes dificuldades em vencê-la, orai, amigos da caravana que se não extingue. Orai! Orai! Elevai-vos acima de vós mesmos nas asas da prece e, na volta, certamente trareis um anjo do Senhor convosco. 

"Testemunhos, nós os teremos que dar. Decepções, vós as encontrareis ainda. Mas, que dizermos do Sermão da Montanha, se não houvera decepções? Benditos os que padecem perseguições e injúrias! Benditos os aflitos! Benditos os que sofrem carência de justiça! 

"As lutas terão que atingir-nos incessantemente. Todavia, se tivermos Jesus no coração; a fé que remove montanhas e a consciência tranqüila do dever bem cumprido, diante da dor, nada deveremos temer. 

"Caminhemos sempre! Daqui faço um apelo aos meus colaboradores na divulgação do Evangelho, nesta parte do hemisfério, para que a lição recebida no dia de hoje fique gravada em suas almas. Que jamais irmãos movidos pelo mesmo ideal se entrechoquem, por não haver tolerância, por não haver renúncia, por não haver humildade. Que a confraternização, hoje festejada por todos os corações que se guiam pelas luzes da Terceira Revelação, possa servir de marco a uma nova era de entendimento através da propaganda dos ensinos evangélicos, da difusão da Luz aos mais longínquos recantos da Terra, da caridade indispensável aos que sofrem, encarnados ou desencarnados, necessitados do pão material ou do espiritual. 

"Se minhas palavras vos merecerem fé, guardai-as em vossos corações. Cheguem elas, se possível, a todos quantos se interessam pela Paz e pela Harmonia universais. 

"Que Deus vos abençoe e ilumine. Que a Virgem Santíssima vos envolva em seu Amor. 

"Em nome do Divino Mestre e Senhor, em seu sacratíssimo nome, abençôo a família espírita." 


Há, realmente, da parte de muitos de nós uma certa reação do temperamento místico quando se fala em entidades como Gabriel, Ismael, Maria de Nazaré, Maria de Magdala e tantos outros mitos da tradição judaico-cristã. É que nosso referencial cultural e psicológico, e não adianta negá-lo com arroubos de arrogância materialista, é o Cristianismo do imaginário bíblico medieval e católico; o espírito do Cristianismo primitivo não existe em nós senão pelas notícias históricas do Além; somos ainda, no fundo da alma, divididos entre a emoção e a razão; por isso, quase sempre, quando acusados em nossas convicções, optamos pelos extremos: a negação ou a fé cega. Fé racional é, para muitos de nós, um ideal de vida espiritual, um projeto que ainda não se concretizou e isso não se faz apenas com leituras e discursos; fé racional, como a de Allan Kardec, só realmente vivenciando. Sabendo desses nossos limites, André Luiz e Emmanuel, por exemplo, são mais discretos nesse aspecto e não revelavam nomes que pudessem ser transformados em objeto de culto místico exagerado ou superestimação pelas massas. Quando citam Espíritos de alta hierarquia ou então os mais humildes que trabalham no setor de segurança ou socorro nas esferas inferiores, omitem suas características particulares “angélicas” ou que, muitos destes, são de origem indígena e africana, vestindo inclusive trajes típicos das suas culturas. Em trabalhos mediúnicos, em que geralmente essas manifestações são “proibidas” ou rigidamente controlados nas instituições mais “científicas”, os médiuns videntes, por exemplo, não podem “ver” aquilo que lhes aparece na retina espiritual, mas só o que é “doutrinariamente correto”. Enfim, é uma questão de preferências e tendências. Mesmo assim, André Luiz e Emmanuel não foram poupados pelos críticos sobre algumas “histórias” que deixaram “vazar” através de Chico Xavier. Exemplos: os capelinos, o papado e a besta apocalíptica, um dos papas “Gregório” como chefe de hordas umbralinas, cidades do umbral inferior, etc. 


YVONE E O ANJO GUERREIRO 


A médium Yvone Pereira deixou no livro Devassando o Invisível preciosos ensinamentos aos médiuns e estudiosos do Espiritismo. Cuidadosa no trato doutrinário e nos comentários sobre os fatos narrados, a médium expõe em crônicas cenas e personagens do mundo invisível evocando, o tempo todo, os autores clássicos, bem como os mais prestigiados continuadores de Allan Kardec. Numa dessas crônicas – Como se trajam os Espíritos... – Yvone rememora suas experiências com as visões daqueles que se lhe apresentaram mais belos e bem trajados, sejam materializados durante a vigília, seja durante o desdobramento do corpo astral. Ela começa pelo Espírito Charles – cujos trajes variam entre os costumes ocidentais e orientais (príncipe da Índia). Descreve Chopin e Victor Hugo, envoltos numa névoa azul translúcida. Cita também uma falange de iniciados hindus (da qual ela se declara pupila) com seus trajes típicos marcados pelos turbantes. Depois descreve o esperantista Zamenhof, segundo ela, mais humanizado e vaporoso, com um terno do século XX. As curiosas descrições são encerradas com uma entidade talvez até hoje não identificada precisamente e que ainda desperta dúvidas e especulações nos antigos e novos leitores de Yvone. Quem seria tal entidade de aparência angélica? 


Vejamos como a médium a descreveu: 

“E, finalmente, um vulto muito nobre, observado no ano 1930, cuja identidade ignoramos, mas a quem denominamos Anjo Guerreiro, pelas particularidades do quadro em que se deixou contemplar. Acreditamos, porém, tratar-se de algum integrante da legião protetora do Brasil, ou do movimento Espírita no Brasil. O certo era que trajava uma túnica grega, curta, atada por um cinto dourado; diadema discreto, um simples friso de ouro, à cabeça, e guiando um biga romana como que construída de alabastro. Com a destra, empunhava as rédeas, sem que, todavia, aparecessem cavalos, e, como a sinistra, uma flâmula de grandes dimensões, alvinitente, onde se lia – “Salve, Brasil imortal!” 

Estampava-se visivelmente nessa entidade, assim materializada, o tipo oriental, o árabe, evocando também o tipo brasileiro muito conhecido no estado de Goiás. Era jovem, belo e sorridente, e um luzeiro cor-de-rosa envolvia-o, espraiando-se em torno e se estendendo longamente sobre uma multidão que cantava hosanas e empunhava pequenas flâmulas, multidão que seguia em cortejo atrás da biga. Não nos estenderemos em particularidades quanto à essa visão, por não julgá-la interessante para essas páginas. No entanto, jamais fomos informada da identidade de tão formoso Espírito. Acrescentaremos, apenas, que sua aparição assinalou etapa definitiva em nossa vida e em nossos labores espíritas”. 


Então? Nossa mente não permite nenhuma certeza e até nos convida ao esquecimento desse episódio que a razão humana não consegue compreender totalmente. Porém, o coração prossegue curioso e pergunta: Não seria Ismael, o Espírito dirigente dos antigos operários que se reuniram nos grupos que dariam origem à Federação Espírita Brasileira? 

Certeza, certeza nunca vamos ter, mas é certo que também gostaríamos de ver essa verdade parcialmente revelada através da obra descritiva de um artista plástico, cujos pincéis detalhassem em traços e cores cada uma das palavras escritas por Yvone Pereira. 

Artisticamente falando, alguém se atreveria? 


A UTOPIA DO ESPERANTO 

Uma das grandes bandeiras do movimento espírita no Brasil foi o Esperanto, causa introduzida e institucionalizada na Federação Espírita Brasileira em 1909 por influência de grupos espíritas da França, também entusiastas da ideia de um idioma neutro e universal. A utopia linguística do médico judeu Ludovico Lázaro Zamenhof poderia ser um poderoso instrumento de difusão do Espiritismo, no mesmo espírito de confraternização entre as nações. A crença na eclosão e expansão no esperanto ganhou muitos adeptos e também contou com a opinião de muitos Espíritos engajados, mostrando que a ideia era fruto de esferas e superiores e fazia parte de um grande plano de pacificação, entendimento, colaboração e solidariedade entre os povos. Zamenhof passou a ser visto no movimento espírita não apenas como um pesquisador e ideólogos, mas um autêntico missionário. Uma ideia inovadora e também muito simples para a complexidade e interesses das relações humanas, sobretudo no terre da política. A tradição histórica da expansão dos idiomas sempre esteve ligada aos negócios nacionais, sobretudo das grandes potências. Tudo que falamos e escrevemos praticamente veio dos gregos, depois dos romanos e de pois dos impérios mercantilistas e industriais europeus. Vimos que o próprio Espiritismo chegou ao Brasil pela força da língua francesa, então a mais influente no universo cultural, assim como a própria ideia do esperanto.  A fato de não ter sido divulgado no idioma inglês talvez explica a pouca repercussão do Espiritismo nos país e nos domínios anglo-saxônicos. Atualmente, além do inglês, a grande preocupação de quem precisar difundir ideia e produtos é o mandarim, viando o gigantesco mercado produtor e consumidor da China. Esse cenário não era previsto na época do aparecimento do esperanto, muito menos as inúmeras transformações ocorridas depois das duas grandes guerras mundiais. E vem a dúvida que quer calar: o que aconteceu e o que vai acontecer com o esperanto. O idioma não prosperou na sociedade contemporânea e muito menos no movimento espírita, permanecendo como uma utopia e promessa para o futuro. Todos esforços possíveis, institucionais e ideológicos, foram empenhados nessa causa dentro da Federação Espírita Brasileira, federativas regionais e inúmeras casas espiritas por meios de campanhas e publicações. O livro Memórias de um Suicida, de Camilo Castelo Branco e Yvone do Amaral Pereira continua sendo  o melhor exemplo de engajamento espiritual esperantista. O Espirito-autor se lamenta não ter podido se aproximar dos médiuns brasileiros pela dificuldade idiomática e aponta o esperanto como solução para esse obstáculo. No burgo Esperança, que abriga os suicidas e uma grande comunidade de Espíritos educadores,  a Cidade Universitária, tem núcleos específicos para o ensino do novo idioma. A FEB mantém a proposta esperantista como politica institucional, a despeito de todos os argumentos contrários do que acreditam que a ideia não vingou, assim como o Espiritismo não sobreviveu no seu berço doutrinário e cultural. Ela teve nos seus quadros não somente os incentivadores simpatizantes de praxe mas também grandes especialista no assunto, como Ismael Gomes Braga, criador em 1937 do Serviço de Propaganda do Esperanto. Foi iniciado no idioma ao 16 anos de idade, em Ubá-MG,mas foi  na cidade de Teixeiras, onde trabalhava,  que teve seus primeiros contatos com os fenômenos espíritas, bem como com a sua tarefa espiritual difusora. 

“Em 1912, quando trabalhava na cidade de Teixeiras, em Minas Gerais assistiu a uma sessão com as chamadas "mesas falantes". Buscando colocar à prova o que realmente havia por trás do fenómeno, perguntou-lhe, em Esperanto, quantos irmãos tinha ("Kiom da fratoj mi havas?"). Ouviram-se de imediato cinco pancadas, o que evidenciava que a inteligência oculta conhecia o novo idioma. Entretanto, Ismael pensara no número oito, uma vez que tinha cinco irmãos e três irmãs. Insatisfeito, refez a pergunta, tendo se ouvido o mesmo número de pancadas. Ismael preparava-se para abandonar o que parecia ser uma brincadeira de mau gosto, quando se lembrou do prefixo "ge", que em Esperanto exprime a união de seres dos dois sexos. Refez então a pergunta, agora com a especificidade correta do idioma: "Kiom da gefratoj mi havas?" ("Quantos irmãos e irmãs eu tenho?"), ao que se ouviram então as oito pancadas.[1] A partir de então, ainda com o auxílio do Maestro, iniciou-se na doutrina espírita, campo em que também se destacou como difusor”.


FRANCISCO V. LORENZ E GETÚLIO VARGAS

Outro importante especialista no idioma universal foi o médium e escritor Francisco Valdomiro Lorenz, imigrante tcheco radicado na pequena cidade de Dom Feliciano, no Rio Grande do Sul, fugindo das perseguições do Império Austro-Húngaro aos nacionalistas da sua terra. Lorenz tinha o mesmo perfil de BenoÎt Mure, embora fosse extremamente discreto em suas atividades sociais, preferindo a simplicidade do lavrador e o anonimato do magistério numa pequena comunidade rural. Era homeopata e desenvolveu uma espécie de vacina contra a febre amarela, curando mais 500 pessoas que tinham sintomas da doença. Escrevia compulsivamente, produzindo dezenas obras ( muitas desaparecidas), em mais de 40 idiomas; e incontáveis artigos sobre os mais diversos assuntos. Seus escritos sobre linguística e esperanto tiveram o apoio da FEB, porém sua inclinação para o espiritualismo universalista o manteve distante dos quadros doutrinários da entidade. Seus livros encontram mais eco nas editoras alternativas, de publicações da maçonaria e dos círculos esotéricos. Era de uma enorme capacidade de síntese e didática, típica das inteligências superiores. Assim também era sua mediunidade, de alta qualidade e uma admirável “diversidade de carismas”, no dizer Caio Hermínio Miranda.  Em 1938 Lorenz foi a Porto Alegre participar de um concurso público para efetivação no cargo de professor e essa experiência tão comum na vida de um simples servidor poderia ter passado despercebida se não tivesse como protagonista o nosso querido biografado. O relato é de um seu irmão maçom, publicado na revista União, de outubro de 1965:

  

"Corria o ano de 1928 e governava o Estado do Rio Grande do Sul o Dr. Getúlio Vargas. Certa manhã, recebi um amável convite para comparecer às 14 horas na Biblioteca Pública, pois que lá estava sendo feita uma triagem de todo o Professorado Estadual do Curso Primário, por ordem de S. Ex.a o Dr. Getúlio Vargas, então vivamente interessado na reforma e aprimoramento do ensino. Além disso, salientou que entre os que seriam examinados estava um homem que era um verdadeiro fenômeno e que ele tinha sincero desejo de que tam-bém eu o conhecesse. Aquiescendo ao convite, compareci à hora aprazada e lá o encontrei. O amigo que me convidara era professor de Contabilidade e mantinha o Curso Rápido Comercial num prédio sito à Praça Parobé. Ao fundo de um enorme salão estava a Comissão Examinadora, presidida pelo ilustre e saudoso Ir. Dr. Maurício Cardoso. Os demais membros da Comissão eram o que de mais exponencial existia em Porto Alegre naquela época.

A chamada dos examinadores era procedida em ordem alfabética, e naquele dia estavam na letra "F". Em dado momento ouviu-se chamar: "Francisco Valdomiro Lorenz". Imediatamente viu-se, encaminhando-se em direção à Mesa, um cidadão aparentando 45 anos, trajado de branco, botinas pretas, lenço de seda ajustado ao pescoço com uma aliança e de chapéu de palhinha na mão. À sua passagem pelo longo corredor, com facilidade se escutaram risinhos de professorinhas muito bem vestidas e pintadas, o que fez com que o Ir. Bahlis (quem me convidou) murmurasse, contrafeito: daqui a pouco vocês mudarão de atitude! Efetiva-mente, iniciadas as provas, o grande matemático, Dr. Francisco Rodolpho Simch, viu que es-tava diante de um grande estudioso da matéria, o que o levou a distender-se longamente sobre o tema que lhe estava afeto. Com profunda admiração, constatou que o examinando discorria com indiscutível autoridade sobre os mais complexos aspectos da Matemática, culminando por enredar-se na própria origem dos algarismos - matéria essa muito familiar ao examinando. Sob grande e justificada expectativa seguiu-se a prova de Português. Respondendo e solucionando todas as perguntas e questões atinentes com segurança e, sobretudo, simplicidade, foi em certa parte solicitado a analisar a palavra "sobrevivência". Fê-lo, lógica e lexicamente, dentro das normas gramaticais, tendo, ao final, se colocado à disposição para responder sobre algo mais que desejassem a respeito da aludida palavra. Foi a essa altura que teve início um diálogo que ficou indelevelmente gravado na mente de todos os presentes. Vou esforçar-me no sentido de relatá-lo com a máxima fidelidade:

Dr. Maurício Cardoso: 

- Pelo que vejo, o Sr. dedica-se ao estudo da etimologia das palavras.

Lorenz: 

- Sim, Ex.ª, estudo.

Dr. Maurício Cardoso: 

- Além do Latim, grego e árabe, que são as raízes de nosso idioma, aprecia ou estuda também outras línguas vivas?

Lorenz: 

- Sim, Ex.ª. De modo especial as línguas chamadas "mortas".

Dr. Maurício Cardoso: 

- O senhor diz "mortas". Por que não prefere as "vivas"?

Lorenz: 

- Porque, salvo erro de minha parte, as "vivas" nada mais são que herdeiras das "mortas".

Dr. Maurício Cardoso: 

- Embora imperfeitamente, dedico-me também ao estudo de alguns idiomas, porém vivos. Agradar-lhe-á dialogarmos rapidamente em francês, que é considerado "idioma universal"?

Lorenz respondeu-lhe em francês, tendo o Dr. Maurício manifestado sua satis-fação.

Dr. Maurício Cardoso: 

- Mas, o que me diria se tentássemos dialogar noutros idiomas que atualmente são usados pelos povos deste Planeta?

Lorenz: 

- Estou às inteiras ordens de V. Ex.ª.

Neste ponto foi que os presentes tiveram a revelação do Grande Homem mo-destamente vestido e que suscitara os risinhos que tanto mal fizeram ao saudoso Ir. Bahlis.

Como era notório nas altas esferas da intelectualidade brasileira, o Dr. Maurício Cardoso falava corretamente doze idiomas "vivos". Valendo-se disso, conversou com o Ir. Lorenz em todos eles, e em cada um desses idiomas, com grande diplomacia e hu-mildade, es-cutava observações de Lorenz, mais ou menos como esta: Ex.ª, a sua pronúncia desta palavra denota que o seu professor era originário ou descendente de algum habitante de tal ou qual cidade da Alemanha, Áustria, Inglaterra, Pérsia, etc. Isso é natural, porquanto esses povos, através de muitos séculos, empenharam-se em muitas guerras, e certas palavras sofre-ram sub-stâncias alterações, principalmente em sua tônica. E prosseguindo: nas capitais, onde se cul-tuam as regras gramaticais, a pronúncia é assim (e pronunciava as palavras, citando os moti-vos).

Empolgado diante daquele verdadeiro repositório de saber, o Dr. Maurício Car-doso arriscou: 

- O senhor fala mais alguma língua? 

- Sim, algumas. 

- Quantas mais? 

- Bem, diz Lorenz, eu entendo e escrevo atualmente em cinqüenta e duas. En-tretanto, devo confessar que estou lutando para aperfeiçoar-me na pronúncia das que eram faladas pelos Maias, Astecas e Ameríndios. 

- Mas, então o Sr. fala o idioma japonês? 

- Sim, respondeu Lorenz. 

- Tenho um amigo na Diretoria de Higiene, o Dr. Nemoto, japonês de nasci-mento, que certamente gostará de falar com o senhor. Está de acordo em que lhe peça para vir até aqui para esse fim? 

- Com muita honra, Ex.ª. Diante disso, o Dr. Maurício Cardoso providenciou a vinda daquele cavalheiro e enquanto não chegava, providenciou as demais provas de habitação do examinando, que em todas elas se revelava um grande mestre.

As todas essas, eram quase 16 horas quando chegou o Dr. Nemoto. Feitas as apresentações, imediatamente iniciaram o diálogo em japonês, e, decorridos poucos instantes, o Dr. Nemoto esclarece aos presentes que realmente seu ilustre interlocutor era mesmo um fenômeno lingüístico, porquanto, com sincera admiração de sua parte, ele descobria que ele, Nemoto, não estava falando o japonês usado em Tóquio, e sim em Yokohama, o que era verdade.

Foi nessa altura que teve lugar um fato que emocionou extraordinariamente aquela felicíssima assistência: o Dr. Maurício bate no tímpano e diz: - Senhoras e Senhores! Convido a que nos levantemos!

Todos de pé, ele deixa a Presidência da Mesa, encaminha-se para o nosso Ir. Lorenz e diz-lhe:

- Mestre, vinde ocupar o lugar que indevidamente eu estava ocupando. Ele vos cabe.

Uma salva de palmas, que durou muito tempo, coroou as palavras do Dr. Mau-rício Cardoso. Muito acanhado, extraordinariamente encabulado, Lorenz baixou a cabeça e apenas conseguiu murmurar: 

- Oh! Por caridade Doutor, se está concluída a minha prova, permita que eu volte para minha casa em São Feliciano.

- Mas, o senhor não reside em Porto Alegre?

- Não, senhor. Há muitos anos resido no Distrito de São Feliciano, Município de Encruzilhada. Andam dizendo por aí que em breve serão mudados os nomes para Dom Fe-liciano e Encruzilhada do Sul.

Diante disso, o Dr. Maurício externou em palavras cheias, de emoção e entusi-asmo a sua admiração por ele e deferiu seu pedido.

No dia seguinte, nova surpresa estava reservada ao Ir. Lorenz. O Dr. Getúlio Vargas, informado do que ocorrera, mandou chamá-lo ao Palácio, manifestou-lhe também sua grande admiração e convidou-o para trabalhar na Secretaria do Interior e Justiça, no Departa-mento de Relações Consulares, pois, trabalhando como tradutor, iria prestar relevantes servi-ços naquele setor.

- Sr. Governador, disse Lorenz. Sensibilizado ao máximo, agradeço a V. Ex.ª tão honroso convite. Entretanto, se vossa extrema bondade permite, imploro que me deixe voltar para minha Escola. O senhor nem pode imaginar o quão feliz me sinto em poder ir diari-amente para minha Escola, levando junto comigo um elevado número de meninos!

O saudoso Dr. Getúlio Vargas, embora coerente com a idéia inicial, terminou concordando, e lá se foi o Ir. Lorenz para o convívio de seus amados meninos".

Pelo Amado Irmão Sephariel - Hermanubis USA

http://www.hermanubis.com.br


ANÁLIA EMÍLIA FRANCO 

Em 1866 a “Revista Espírita” abriu o seu número do mês janeiro com uma interessante pergunta aos seus leitores: “As mulheres têm alma?” 

O título do artigo de Allan Kardec era para chamar a atenção sobre o histórico preconceito social em torno das mulheres, fortemente alimentado pelas ideologias religiosas dogmáticas. A resposta ao título era clara quanto à origem dessa mentalidade: 

“Sabe-se que a coisa nem sempre foi tida como certa, pois ao que se diz, foi posta em deliberação num concílio. A negação ainda é um princípio de fé em certos povos. Sabe-se a que grau de aviltamento essa crença as reduziu na maior parte das regiões do Oriente. Posto que hoje, nos povos civilizados, a questão seja resolvida em seu favor, o preconceito de sua inferioridade moral perpetuou-se a tal ponto que um escritor do século passado, cujo nome me escapa, assim definia a mulher: ‘Instrumento de prazer do homem’, definição mais muçulmana do que cristã. Desse preconceito nasceu sua inferioridade legal, ainda não apagada de nossos códigos. Por muito tempo elas aceitaram essa escravização como uma coisa natural, tão poderosa é a força do hábito. Assim, também, os que, votados à servidão de pai a filho, acabam por se julgarem de natureza diversa da dos seus senhores.” 


Depois de discorrer sobre o fato de que o sexo só existe nos organismos biológicos e mostrar as incoerências desses costumes machistas, Kardec conclui sua curiosa e sempre atual dissertação lembrando que o problema da igualdade entre o homem e a mulher já não era mais uma teoria especulativa. A Doutrina Espírita esclarecia que o problema se tratava de um direito fundado nas mesmas leis da Natureza, abrindo-se então “a Era da emancipação legal da mulher, assim como da igualdade e da fraternidade”. Mas aqui nos trópicos essa realidade também começava a contrariar não só alguns costumes refratários sobre os gêneros, mas também os dogmas que os alimentava. Apenas nove anos depois da publicação desse artigo, surgia na conservadora sociedade imperial brasileira a primeira mulher jornalista do País. Era Anália Emília Franco. Espírita convicta e militante, ela também se tornaria símbolo das lutas vivenciais pioneiras para a implantação do Espiritismo em nosso País. Nascida um ano antes da publicação de O Livro dos Espíritos, Anália atravessou a passagem do século XIX para o século XX, deixando um verdadeiro rastro de luz e de bons exemplos por onde passou com a sua vocação para as iniciativas sociais[25]. Ao desencarnar, em 1919, na capital paulista, ela deixou como herança 70 escolas, dois albergues, uma colônia regeneradora para mulheres, 23 asilos para crianças órfãs, uma banda musical feminina, uma orquestra, um grupo dramático, além de oficinas para trabalhos artesanais em 24 cidades do interior de São Paulo. Muito mais do que números, Anália Franco trouxe para o Movimento Espírita, mesmo sem ter essa intenção, um novo foco de interesse pelas atividades de assistência social. Foi uma das trajetórias apostolares mais curiosas da nossa história, não apenas por ter sido mulher atuante, numa época de fortes preconceitos, mas principalmente pelas atitudes pelas quais ficaria conhecida, exatamente num país ainda muito distante da então mentalidade européia progressista. Fora do Movimento Espírita, e também da historiografia sobre o jornalismo no Brasil, Anália hoje só é lembrada como nome de bairros residenciais e instituições caritativas que se espalharam pelo Brasil. Por trás das placas de rua que indicam como chegar ao “jardim” e a um shoping center de São Paulo que levam seu nome, oculta-se uma belíssima história de vida que na política certamente seria rotulada de “heroísmo”. Se fosse católica, com certeza, seria um caso clássico de propaganda eclesiástica para a “canonização”. Mas não foi bem assim. Uma das lembranças mais significativas de Anália Franco na memória popular no século XIX, é a do seu esforço para reunir e proteger centenas de crianças negras, filhos de escravos, que eram expulsas das fazendas e abandonadas nas estradas, por força da Lei do Ventre Livre. Inconformada com as conseqüências desastrosas dessa aberração jurídica do abolicionismo “gradual”, publicava artigos emocionantes para chamar a atenção e sensibilizar as mulheres dos fazendeiros a tomar uma atitude contra essas práticas desumanas. Dessa campanha surgiu a primeira Escola Maternal para crianças carentes, fato que causou espanto na Sociedade da época. Não era só isso que incomodava: ela percorria as ruas com seus “negrinhos” pedindo esmolas para ajudar nas despesas, causando um tremendo mal estar na hipocrisia da comunidade “cristã” do nosso Império. Sendo mulher, espírita e protetora de negros, ainda na época da monarquia, Anália logo ganharia a simpatia de abolicionistas e republicanos, o que lhe valeram as perseguições do clero, dos escravocratas e de muitos monarquistas de “fachada”. Sabe-se, no entanto, que D. Pedro II era um liberal republicano e entusiasta da reforma agrária feita nos EUA por Lincoln; mas via na abolição da escravatura no Brasil somente um trampolim político da nova aristocracia rural e que resultaria no abandono social das comunidades negras. O velho imperador também tinha medo de causar no Brasil uma espécie de guerra de “Secessão invertida”, na qual a unidade territorial do país e a liberdade cultural dos ex-escravos fossem seriamente ameaçadas. Veio a República, proclamada por um fiel monarquista, e as promessas de grandes transformações científicas do Positivismo, sob o slogan “Ordem e Progresso” logo cairiam por terra. Diante das nossas contradições comteanas, os fazendeiros de café do Oeste paulista finalmente chegaram ao poder. Os temores de Pedro II tinham se concretizado: os escravos foram retirados das senzalas e atirados nos morros e favelas. Os sertanejos continuavam sendo oprimidos pelo latifúndio e expulsos pela seca. O Brasil continuava o mesmo, a mesma estrutura sob o disfarce de um novo regime. Apesar do esforço hercúleo de homens como o barão de Mauá, já havíamos perdido o bonde da industrialização e da modernidade. O problema social do trabalho e da renda justa, que nos países desenvolvidos era tratado com a polidez da política, no Brasil era considerado “caso de polícia”. Assim, mais uma vez, a pobreza e a miséria do povo brasileiro foram sendo cuidadosamente enrustidas sob a ordem oligárquica manipuladora. A garantia de perpetuação dessa nova elite republicana era o “coronelismo”, com suas poderosas ferramentas de dominação: o “curral eleitoral” e o infalível “voto de cabresto”. Foi assim que, do ponto de vista político, se desenrolaram as duas primeiras décadas do século XX no Brasil. 

Enquanto tudo isso acontecia, em 1911, na região paulistana que hoje abriga o gigantesco bairro de Vila Formosa, Anália Franco adquiria, com recursos próprios, a Chácara Paraíso, uma propriedade de 75 alqueires, para fundar a “Colônia Regeneradora D. Romualdo”. Ali Anália passou a ensinar horticultura e criação animal para meninos e internou e recuperou dezenas de moças prostituídas, através da orientação moral e do ensino profissionalizante. Suas caravanas em busca de auxílio para suas obras tornaram-se famosas em várias cidades do interior, sempre em companhia do esposo, Francisco Antonio Bastos e do seu grupo de artistas músicos e atores. 

Outra imagem inesquecível de Anália Franco foi um histórico encontro com o famoso Padre Euclides, na cidade de Ribeirão Preto, durante uma apresentação da “Banda Musical Operárias do Bem”. Anália temia ser hostilizada pelo prestigiado sacerdote católico do interior paulista. Ao encontrá-lo, diante do clima de expectativa dos convidados, tomou a iniciativa da saudação dizendo-lhe, com humildade: “Padre, eu vim a Ribeirão Preto para aprender, com o senhor, praticar a caridade”. “Dona Anália”, respondeu-lhe o sacerdote, “a senhora está enganada. Não veio aprender, mas sim ensiná-la. Eu tenho esta batina que me abre muitas portas e até mesmo muitas bolsas. A senhora professa uma Doutrina tão nobre como qualquer outra, mas ainda pouco compreendida, o que lhe dificulta os passos. Mas eu e a senhora seguimos o mesmo caminho, procurando minorar o sofrimento alheio. Esta é a verdadeira lei de Deus.” No dia seguinte, o padre Euclides foi o primeiro a visitar as “Operárias do Bem”, para levar o seu donativo. 

Na tumultuada década de 1920, a República Velha daria os seus últimos suspiros. Os estoques de café se acumulavam e a Sociedade não queria mais pagar os prejuízos dos subsídios criados pelo Convênio de Taubaté: os preços caíam e os fazendeiros nada perdiam; o governo oligárquico, controlado pelos exportadores, desvalorizava a nossa moeda e ganhava-se muitas libras esterlinas com a fraude monetária. O povo pagava a conta com a inflação e o alto custo de vida. Surgem então, em cena, os intrépidos “tenentes”, revoltados contra a situação em que seus superiores deixaram o Brasil chegar. A nova palavra de ordem nos quartéis era a moralização urgente. O Brasil vai ser incendiado por uma onda revolucionária, em vários estilos. Militares, operários, artistas e intelectuais querem uma República nova, sem os vícios da corrupção, sem os costumes decadentes da Belle Èpoque européia. O mundo está mudando. Depois da Primeira Guerra Mundial, uma segunda onda depressiva está desafiando o sistema capitalista e o café brasileiro não tem mais compradores. Será que o Brasil também vai mudar? Estoura, finalmente, a Revolução de 1930, uma nova promessa de colocar o país nos eixos. Getúlio Vargas é agora o seu chefe supremo. Ele tinha sido Ministro da Fazenda do último governo da República Velha e também vítima do fim da “Política do café com leite”, onde paulistas e mineiros monopolizavam a presidência da república. Vargas vai permanecer habilmente no poder até 1945. O Brasil mudou? Julgue o próprio leitor, consultando os nossos bons livros de História. Mas a mudança que para nós tornou-se bastante visível foi aquela que transformaria o Brasil num país predominantemente urbano. 

É nesse novo cenário e num outro contexto histórico que o Espiritismo vai dar um salto importante no Brasil, e talvez no mundo, através dos mesmos princípios delineados pelo seu Codificador. Esse salto veio com a ação renovadora de novos apóstolos, portadores de novas estratégias de propaganda e vivência da Doutrina do Espírito de Verdade. Eles já reconhecem um novo líder da falange dos Espíritos, o Guia Ismael, e também a experiência exemplificadora daqueles que antecederam seus os passos em solo brasileiro. A bússola continua sendo o Evangelho. 


CARMINE MIRABELLI

Como havia acontecido na Europa e na América do Norte no século XIX, o movimento espírita brasileiro teve, em diverso contextos, a força da propaganda fenomenal, tradicionalmente protagonizada por médiuns de alto potencial de impacto, geralmente portadores de efeitos físicos e também médiuns curadores. Esse estilo fenomênico de propaganda quase sempre é marcado por polêmicas e graves conflitos sociais, por ser naturalmente de abalo da opinião pública e também provocação quase inevitável de interesses religiosos e corporativos. Historicamente a maioria desses médiuns sofre perseguições de todos os tipos, na tentativa de desqualificá-los em seus desafios paradigmáticos, bem como desmoralizá-los como modelos humanos de comportamento e conduta. Mesmo sendo portadores de faculdades e habilidades psíquicas admiráveis, nem todos são portadores de qualidades espirituais, trazendo nas suas bagagens os defeitos, as limitações pessoais e, como agravantes, as provas e expiações das suas falências anteriores. Alguns atuaram sem ter até mesmo o mínimo de informação e capacitação doutrinária, tornando-se presas frágeis dos inimigos e detratores do Espiritismo. 

O divórcio e distanciamento moral entre esses médiuns e a doutrina espírita é clássico e histórico, na medida em que as perturbações psíquicas afloram e não encontram o devido respaldo e controle pessoal. Poucos resistem a essas provas - pois recusam os estudos e a disciplina -  e acabam cedendo às tentações de forças inferiores, sempre atentas e dispostas a denegrir a imagem deles e da causa com as quais se comprometeram antes de reencarnarem. Nem é preciso muito esforço para lembrar, por exemplo, a repercussão das atividades curadoras de Zé Arigó e do Espírito Dr. Fritz, bem como dos médiuns que o sucederam nessa tarefa. Nomes como Ana Prado, Peixotinho, Otília Diogo, Edson Queiróz (mesmo sendo médico, foi intensamente perseguido por colegas de profissão), cada qual com suas qualidades e limitações,  ficarão gravados para sempre na história do Espiritismo, não somente pelas suas habilidades mediúnicas, mas sobretudo pelas suas trajetórias dolorosas. 

Lembrando da triste experiência de Otília Diogo, surpreendida e denunciada por fraudes, numa fase muito crítica da sua vida particular, Chico Xavier declarou constrangido para revista O Cruzeiro: 

"(...) uma criatura humana, com defeitos, qualidades e anseios humanos". 

E sobre a sua atuação nas célebres materializações de Uberaba, em 1965, faz um depoimento cheio de gratidão e muito consciente da sua responsabilidade doutrinária:  

“Com todo prazer, tive a felicidade de assistir junto aos médicos aqui presentes, essas experiências científicas, realizadas pela querida companheira Otília, a quem respeitosamente, agradeço por ter atendido a esse convite feito por esses médicos. A minha pessoa não deveria ocupar esse lugar, mas fiquei feliz por ter participado. Foi comovente eu ter podido abraçar a irmã Josefa materializada. Estou muito contente, também, por ter conseguido sair numa foto ao lado da nossa querida amiga, Irmã Josefa. Quanto às minhas considerações pela pessoa de dona Otília Diogo, digo, com respeito e agradecimento pela sua humildade de se colocar à mercê de médicos que, aqui, estão exigindo dela o máximo, para que tudo que trazia consigo fosse retirado, trocando até mesmo suas vestes, para que não houvesse motivos de surgirem dúvidas sobre sua mediunidade”. 


Finalmente, para melhor ilustrar essas características marcantes nas carreiras desses protagonistas metafísicos, escolhemos a figura literalmente espetacular de Carmine Mirabelli.  O médium paulista foi talvez, entre seus pares brasileiros nessa modalidade, o que teve maior exposição e impacto social. Sua atuação de quatro décadas ocorreu entre a trajetórias dos apóstolos doutrinários já citados e o advento de Chico Xavier, mostrando exatamente o papel e a função desse tipo de militância mediúnica.  Sua carreira extraordinária foi mesclada de propaganda doutrinária, ativismo político e paciente colaborador de pesquisas científicas. Nessa primeira modalidade, Mirabelli inovou ou antecipou o modelo das franquias sociais, fundando, implantando e mantendo em diversas cidades núcleos com a denominação “Centro Espírita São Luiz”.  

Em um evento público do núcleo da cidade de São Vicente, em 25 de agosto de 1917, sábado, às 15 horas, na rua Marquês de Tamandaré, número 36,  o médium compareceu alguns minutos após ter desaparecido da companhia de amigos com quem conversava na Estação Ferroviária da Luz, na cidade de São Paulo, Capital, a 90 quilômetros de distância.  Na mesma cidade, sofreu agressão física de populares após ter permanecido  por alguns minutos dentro de uma fogueira de festejos juninos tendo saído dali sem nenhuma queimadura. A agressão contra ele aconteceu quando voltava para sua residência veranista na orla.

Citando alguns do seus principais biógrafos, bem como depoimentos memoráveis de amigos,  Antonio Lucena,  resumiu em “O Reformador” (maio de 1991)  a inquieta e  intensa desse extraordinário médium: 

“Chegou a ser internado num manicômio, em Juqueri (SP), para que a ciência médica examinasse sua suposta insânia. Depois de 18 dias de observações, foi declarado, por uma equipe de renomados psiquiatras, perfeitamente são. Os médicos disseram que os fenômenos produzidos por ele eram totalmente autênticos. Diante dessa comprovação, a grande imprensa, como “O Jornal de São Paulo”, “A Gazeta” e o “Estado de São Paulo”, tornou público os fatos inusitados que com ele ocorriam. inúmeros cientistas propuseram-se a fazer experiências científicas sob a direção de médicos, dirigidas pelo Dr. Everardo de Souza.

Os fenômenos produzidos por Carmine Mirabelli eram de fato extraordinários. Quando em transe ele falava vinte e oito línguas diferentes e escrevia em outras tantas; ainda em transe mediúnico, ele dissertava com critério e grande lucidez sobre Medicina, Direito, Sociologia, Economia, Política, Teologia, Psicologia, História Natural, Astronomia, Física, Filosofia, Lógica, Música, Ocultismo, Naturalismo, defendendo teses exaustivas sobre todos esses assuntos.

Mediunizado, escrevia, em vinte minutos, uma mensagem que ao natural levaria algumas horas. Na produção de efeitos físicos impressionava pelos fatos produzidos, como: levitação, transporte de objetos, desmaterialização de corpos orgânicos e inorgânicos, ruídos, pancadas, etc. Certa vez, materializou-se um Espírito em plena luz do dia, visto por dezenas de pessoas. Ele próprio se desmaterializou por vezes, voltando a se materializar a centenas de quilômetros. Em meio a toda essa sorte de fenômenos, Mirabelli, de repente, foi tomado por Espíritos pintores e começou a pintar, em curto espaço de tempo, telas maravilhosas, a crayon, aquarela, óleo e outras modalidades. Em pouco tempo forma-se uma galeria com mais de 40 quadros, de famosos pintores do Além. São retratos, grupos, paisagens, flores, pássaros, animais, tudo de uma beleza sem par. Mirabelli nunca estudou pintura ou desenho. Não ficou só na pintura, também entrou pelo terreno da música, executando ao piano, sem conhecer música nem os teclados, obras de Wagner e outros músicos famosos, grande perfeição. Ao violino tornou -se virtuose quando incorporado pelo Espírito Paganini! Numa reunião em Santos, tocou várias peças ao violino, numa corda só, como em vida terrena fazia Paganini, em Paris. Tudo presenciado por uma plateia cultíssima e estupefata. No terreno da poesia, produzia maravilhas. Muitas das quais musicou, sem conhecer música, nunca é demais repetir. Em março de 1922, numa, sessão, na Academia de Estudos Psíquicos César Lombroso, em São Paulo, à qual estavam presentes diversos cientistas, pesquisadores da fenomenologia mediúnica, como o Dr. Eurico Góes, Dr. Antônio Azevedo, Dr. Carlos Pereira de Castro, Dr. Alfredo Navarro, Dr. Olegário Moura, Dr. José Gauzzelli e  tantos outros, começaram extraordinárias manifestações efeitos físicos, despertando em todos a maior atenção. Os objetos voavam e se cruzavam de um lado para o outro, havia efeitos luminosos, e, no meio de tudo isso manifestou-se o Espírito Dante Alighieri, que fez uma preleção em versos.

(...) Casou-se e, em 1913, ingressou na Cia. de Calçados Clark. Foi promovido à subgerência da firma, mas, em seguida, irromperam os inusitados fenômenos, que deixaram todos em polvo rosa. As caixas de sapatos começaram a voar, como se criassem asas; enorme balbúrdia, ninguém sabia de nada, nem ele próprio, que ignorava a sua mediunidade. “Coisas do diabo”, pensava a maioria. Foi chamada a polícia. O padre apareceu para exorcizar, e tudo continuava no mesmo. Sensacionalismo na imprensa, até que se descobriu que ele, Mirabelli era o provocador de tudo aquilo Foi logo dispensado da firma e tudo voltou ao normal. Por sua capacidade e conhecimento admitiram-no na  Cia. de Calçados Vilaça, repetindo-se ali os mesmos fenômenos, de forma assustadora. Concluíram que ele deveria ser internado num hospício. Foi internado no Sanatório de Juqueri, onde os médicos, os mais afamados de São Paulo em Psiquiatria, tendo à frente os doutores Filipe Ache e Franco da Rocha, em junta médica, puderam constatar sua boa sanidade mental, vendo nele o mínimo indícios de alienado mental. Deram-lhe alta.

Transferiu-se para o Rio Janeiro e nessa Capital continuaram os extraordinários fenômenos. Sua vida passou a  ser de verdadeiro martírio, pois além dos Espíritos amigos familiares, a sua mediunidade ensejava a presença de Espíritos menos esclarecidos, zombeteiros e brincalhões, que usavam de expedientes, para as mais incríveis peripécias, como as ocorridas na Casa Clark, sendo que ele próprio muitas vezes foi vítima de rudes agressões com ferimentos graves… Os Espíritos atrasados promoviam verdadeiras desordens. Objetos transportavam-se de lugar, chegando a quebrar-se. Contou o Dr. Clarlos Imbassahy que, certa vez, o hospedou em sua residência em Icaraí, Niterói, e de imediato começaram os fenômenos. Estavam todos na sala de visitas conversando, e de repente um espelho de cristal, com mais de um metro, que se encontrava no “hall” de entrada, atravessou a parede e foi cair no meio da sala em pedaços. Outros objetos já haviam voado das prateleiras, o que levou a Srª. Maria Imbassahy a solicitar que, pelo Amor de Deus, Mirabelli se transferisse para um hotel.

(...) Mirabelli com a maior boa vontade permitia que se realizassem todas essas investigações, criando instituições para facilitar esse trabalho. Fundou a Academia Brasileira de Metapsíquica do Rio de Janeiro, o Centro de Estudos Psíquicos César Lombroso e o Instituto Psíquico Brasileiro, os dois últimos no Estado de S. Paulo.

Por diversas vezes escapou de desastres automobilísticos, graças ao seu conhecimento prévio do que iria acontecer. Viajava, um dia, para Jaboticabal (SP) a fim de realizar uma sessão, quando repentinamente pediu que todos se agarrassem, porque um carro em sentido contrário se chocaria com o seu. Diminuiu a marcha e dois minutos depois ocorreu o choque. Felizmente nada aconteceu de grave. Os prognósticos infelizes tiveram o seu desfecho trágico; em 1º de maio de 1951, ele foi atropelado na Av. Nova Cantareira, em S. Paulo, desencarnando no desastre aos 62 anos de idade.


[1] Eurípedes o Homem e a Missão, IDE, Araras, SP. 1979. 

[2] Universo e Vida , pelo Espírito Áureo, FEB Editora; Origens da raça Adâmica, Hilarion de Monte Nebo. Editora Pensamento. 

[3] Eurípedes Barsanulfo, o Apóstolo da Caridade, Jorge Rizzini. Edições Correio Fraterno. São Bernardo do Campo. 

[4] Uma Grande Vida, Casa Editora O Clarim, Matão, S.P., 1980. 

[5] Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho, Humberto de Campos e Francisco Cândido Xavier, FEB Editora. 

[6] Parábolas e Ensinos de Jesus. 11ª ed. Casa Editora “O Clarim”. Matão. 1979. 

[7] 60 Anos de Espiritismo no Estado de São Paulo (Nossa Vivência). Edições FEESP. 1ª edição. Julho de 1996. 

[8] Essa obra de Ary Lex surgiu em tom reacionário, como reflexo contextual do lançamento do livro “Vivência do Espiritismo Religioso”, manual de experiências da Aliança Espírita Evangélica e que realça as práticas desenvolvidas por Armond na FEESP. Essa rigidez ortodoxa do Dr. Ary é uma evidente contradição se lembrarmos que o próprio era adepto do espiritismo religioso, ou seja, do cristianismo primitivo, de origem e natureza essencialmente oriental e iniciática. O adjetivo “oriental, empregado preconceituosamente por ele e por outros ortodoxos, revela seus limites intelectuais e emocionais com relação aos assuntos culturais diversos (porém não divergentes) do Espiritismo, ao qual se apegam excessivamente aos detalhes e ignoram a grandeza do corpo doutrinário. Nota do autor. 

[9] “Diário de Notícias, 16 de agosto de 1886”. Citado por João Marcos Wiguelin em “Memória Espírita - Papéis Velhos e Histórias de Luz. Edições Leon Denis. Rio de Janeiro. 

[10] Obra editada em três volumes pela Fraternidade Ass. Esperança, Editora e Distribuidora, São Paulo. 

[11] Uma Carta de Bezerra de Menezes, FEB, Rio de Janeiro, 1994. 

[12] A diretoria dessa Sociedade era composta pelos seguintes membros: Dr. Joaquim Carlos Travassos, Eugênio Boule, Cassimir Lieutaud, Bittencourt Sampaio, Madame Perret-Collard e Madame Rosa Molteno. 

[13] Bezerra de Menezes, o médico dos pobres, Ed. Aliança, São Paulo, 1992. 

[14] Capítulo III – Dos Crimes contra a Saúde Pública. Art. 157 – Praticar o Espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar talismãs e cartomancia para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública: Penas – de prisão celular por um a seis meses e multa de 100$ a 500$000. Citado por João Marcos Weguelin em “Memória Espírita – Papéis velhos e histórias de luz”. Edições Leon Denis. 

[15] “Os dias passam...”, Emílio Cristovam dos Santos (João do Rio). Citado por Cleusa Beraldi Colombo in Idéías Sociais Espíritas, Comênius-Ideba. 

[16] Memória Espírita- Papéis Velhos e Histórias de Luz. Citado pelo autor com grafia atualizada. 

[17] Assim Ouvi do Mestre, Caio Miranda. Livraria Freitas Bastos Editora. 

[18] Suely Caldas Schubert em Testemunhos de Chico Xavier. FEB Editora. 

[19] Na Semeadura II, Editora Aliança, São Paulo, 1977. 

[20] Religiões e Filosofias, Editora Aliança, São Paulo, 1980. 

[21] Aranha representava uma facção anti-fascista dentro do governo Vargas. O fato desse diplomata ter pertencido a um governo com muitos membros e atitudes anti-semitas não diminui a importância do seu gesto simbólico e espiritual. Oficialmente o Estado Novo não era simpático ao nazi-fascismo nem aos Aliados; o que contava era a conveniência política daquele contexto histórico. Analisando essa simpatia de membros daquele governo de Vargas pelo totalitarismo e pelas teorias racistas da época, o cientísta político Marcos Chor Maio, da Fundação Oswaldo Cruz, lembra que não se pode avaliar essas características do passado com as referências do nosso tempo. Segundo ele, o multiculturalismo atual nos permite olhar essas fatos com maior abrangência, o que nos causa choque. Mas naquele tempo essa visão estreita fazia parte de uma mentalidade e de uma ideologia dominantes. O mesmo critério pode ser aplicado ao caso da Inquisição e da catequese indígena feita pelos jesuítas no período colonial. Explica-se, sim, mas não se justifica. 

[22] Editados respectivamente pela Papirus/Unicamp e Ática. 

[23] Citado por Canuto Abreu in Bezerra de Menezes, Edições FEESP, 1996. 

[24] Fonte: Universo Espírita – site na internet (www.universoespirita.com.br) 

[25] Paulo Alves de Godoy, artigo no Jornal Espírita, São Paulo, 1997.



Livro VI - A ERA CHICO XAVIER

Quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto, um bacharel formado, um rotulado desses que por aí vão felicitando a Família, a Pátria e a Humanidade? Nada disso. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos, um quase adolescente, nascido ali, assim em Pedro Leopoldo, pequeno rincão do estado de Minas Gerais. Filho de pais pobres, não pôde ir além do curso primário, dessa pedagogia incipiente e rotineira, que faz do mestre-escola, em tese, um galopim eleitoral e não vai, também em tese, muito além das quatro operações e da leitura corrida, com borrifos de catecismo católico, de contrapeso”. Manuel Quintão


O que vai marcar a história do Movimento Espírita no século posterior à Codificação é a sua crescente expansão no Brasil, recebendo a influência das transformações sociais que aqui ocorreram a partir da década de 1920, e respondendo às suas solicitações mais urgentes. Entre elas, a que mais se evidenciou foi a intensa urbanização, fortemente incrementada por um grande contingente de imigrantes europeus, árabes, asiáticos e de milhares de migrantes de praticamente todas as regiões do país. Nas décadas seguintes o Brasil passaria por uma rápida e espantosa inversão demográfica do mundo rural para as cidades, um fenômeno que se intensificou após a Segunda Guerra Mundial[1]. À medida que ocorre o deslocamento interno e o crescimento da população, ocorre também um novo processo de ocupação geográfica pela fundação de novas cidades, uma nova interiorização, e com ela também migra a nova cultura neocolonizadora. Assim como todas as outras formas de cultura filosófica e religiosa, o Espiritismo também penetrou no interior do país por força das estradas de ferro e dos fluxos migratórios que ia muito além dos trilhos. Em 1947 um censo doutrinário, realizado pelo grupo que futuramente viria compor a primeira diretoria da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – USE, apurou em mais de 700 mil o número de Espíritas no Estado. Em 1969, pelos dados do IBGE, o número caiu para 664.368 mil, o que revelava a pouca conscientização dos Espíritas ao fornecer informações para órgãos oficiais. 

Se no século XIX o Rio de Janeiro foi o centro dos acontecimentos, pela sua própria condição política e econômica, no século XX vamos identificar em São Paulo um novo eixo a influenciar os eventos mais expressivos da sociedade brasileira e também do Espiritismo no Brasil. A capital paulistana, que no início do século era pequena e provinciana, torna-se, nas primeiras décadas, um grande centro cosmopolita. A explosão urbana e populacional viria acompanhada não só dos fenômenos econômicos e culturais que marcaram o advento do Modernismo, mas também de todos os problemas de ordem social e psicológica, na forma de sofrimento e adaptação ao novo estilo de vida que se configurava. A concentração humana no mundo rural, essencialmente conservador, lento em suas mudanças de hábitos, e vertical nas suas relações sociais e políticas, seria substituída pelo universo urbano, de ritmo efervescente, dinâmico, com maior grau de mutabilidade e horizontalidade social. Em pouco tempo São Paulo se tornaria uma cidade inquieta, com vocação para as manifestações políticas de todas as cores ideológicas e para as artes de vanguarda, mas também para uma sociedade de massas. Nas primeiras cinco décadas do século XX os paulistanos assistiriam bem de perto aos mais significativos eventos da nossa história republicana: o comando da política do café com leite, as greves anarquistas de 1917, os levantes militares do tenentismo em 1924, o Movimento Antropofágico e a Semana de Arte Moderna de 1922, a crise das oligarquias e a Revolução de 1930 e, finalmente, a famosa reação do Movimento Constitucionalista de 1932. Em meio a todas essas agitações a cidade seguia na curiosa e incessante metamorfose que se consagraria na sua principal marca de identidade. Na definição do Professor Antônio Cândido[2], São Paulo era um “deserto cultural” nos anos 30 e essa paisagem sofreria uma grande transformação nas próximas décadas. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que na época veio ao Brasil para compor o primeiro grupo de professores da recém criada Universidade de São Paulo, a USP, registrou em suas memórias essa rápida transformação da Capital paulista. No tempo em que permaneceu na cidade, Lévi-Straus espanta-se com o acelerado desenvolvimento urbano, em contraste com a paisagem verde e selvagem ainda presente nas cercanias. Escreveu ele[3]: 


“Em 1935, a cidade de São Paulo, ainda centro pioneiro, transformava-se a olhos vistos em metrópole industrial e financeira. Mudando dia-a-dia, ela oferecia um espetáculo fascinante ao geógrafo, ao sociólogo, ao etnólogo. A cidade também tinha uma beleza singular devido às rupturas de ritmo, aos paradoxos arquitetônicos, aos contrastes de formas e de cores. Apesar ou por causa da falta de organização, a paisagem urbana tornava-se, por vezes lírica (...) Em plena cidade, o gado disputava a rua com o bonde, sempre cheio nas horas de pico.” 


Nesse tempo o Movimento Espírita, como nos demais lugares, ainda não estava preparado para absorver essas transformações. Não tínhamos o devido embasamento doutrinário e técnico para atender essa nova demanda social. A assistência social e a educação espiritual seriam os dois grandes temas que iriam desafiar a comunidade espírita paulistana e brasileira. No setor de assistência social o Movimento já contava com uma larga experiência, herdada dos pioneiros do século XIX, notadamente da tradição curativa alimentada pelos homeopatas e por Anália Franco. Outra frente de trabalho que se tornaria marca do Movimento Espírita seriam os hospitais psiquiátricos, criados como alternativa pioneira de tratamento mais humanizado dos pacientes com doenças mentais. Nessa mesma linha alternativa surgiriam diversas entidades para atendimento médico ou psicológico especializado, tendo como base de ação a concepção Espírita dos problemas humanos e as práticas terapêuticas espirituais. Essa tendência persistiu ao longo dos anos e a maioria dos núcleos espíritas que se abriam estavam direta ou indiretamente ligados à uma entidade de assistência social. Mas no setor de assistência espiritual e educacional não ocorrera nenhuma transformação significativa desde os primeiros tempos. Os modelos que existiam eram meras reproduções de alguma atividade já conhecida. A sociedade estava mudando rapidamente e era preciso encontrar uma solução adequada para solucionar o problema do grande contingente humano gerado pela urbanização, já em franco andamento. Esse raciocínio que estamos expondo não era dos técnicos de órgãos públicos nem de líderes do Movimento Espírita, mas dos Espíritos, que enxergaram tais obstáculos bem antes de se tornarem realidade. Eram mudanças praticamente irreversíveis, que seriam efetuadas juntamente com outros fenômenos sociais como populismo político, os primeiros avanços tecnológicos da indústria e a poderosa influência dos meios de comunicação de massa como o rádio, o cinema e a televisão. Pela própria experiência histórica, os demais movimentos ideológicos logo entenderam o que estava acontecendo e se organizaram, rapidamente, para enfrentar essa nova realidade. Os espíritas, mesmo acanhados, no entanto, seriam chamados, novamente, para uma participação diferenciada, pois o que estava em jogo não era somente a quantidade de pessoas a serem amparadas, mas, principalmente, a qualidade desse atendimento. Na visão de alguns Espíritos que propuseram as mudanças que vamos aqui relatar, os centros espíritas não deveriam estar apenas cheios de novos adeptos, mas repletos de adeptos renovados. Para tanto, não era necessário apenas o suporte material das grandes instalações para receber o grande público, mas uma estrutura qualitativa, de recursos humanos e espirituais inovadores. As experiências anteriores, no Rio de Janeiro, Nordeste, Triângulo Mineiro, e mesmo em São Paulo, estiveram concentradas, basicamente, no atendimento terapêutico e na difusão literária, em pequena escala. Segundo esses Espíritos que atuaram como ideólogos, principalmente na Federação Espírita do Estado de São Paulo, agora era preciso agir em sintonia com os novos tempos. As obras de Allan Kardec, desconhecidas no próprio meio espírita, no seu formato literário, não seriam satisfatórias, do ponto de vista do consumo popular e de massa. As inibidas e rústicas casas Espíritas, com seu tradicional clima de penumbra e grupos extremamente centrados em si mesmos, não suportariam o impacto dessas mudanças de crescimento intenso que atingia as cidades. Era preciso criar novos mecanismos de difusão doutrinária e contato com a nova clientela citadina, pois as imensas filas humanas se tornariam cada vez mais comuns nos estabelecimentos que se dispusessem a oferecer auxílio. Aquilo que hoje as igrejas, a seu modo, praticam com as massas[4], era para ter sido praticado pelos espíritas, há 60 ou 50 anos. Poderíamos ter hoje todos os recursos de que dispõem os irmãos protestantes e católicos na difusão de suas doutrinas. Essas oportunidades foram dadas pelos Espíritos em vários momentos, como evidentes sinais do futuro, mas os espíritas não tiveram maturidade para percebê-las e materializá-las. Sempre que esses sinais apareciam, surgiam nos grupos as resistências, em formas de divergências e acusações mútuas, geralmente sobre alguma postura ou opinião sobre a Codificação. Só para citar um exemplo, ocorrido bem mais tarde, quando estava para surgir, na década de 1970, as primeiras emissoras de rádio em freqüência modulada (FM’s), algumas entidades espíritas receberam mensagens falando do assunto e foram estimuladas a se organizarem nesse sentido. Naquele quase ninguém desconfiava que as FM’s se tornariam um grande fenômeno de comunicação de massa, sobretudo nas duas décadas seguintes. Os Espíritos já sabiam. É claro que eles não disseram “Comprem canais de FM!”, mas deram várias pistas para que isso acontecesse. Enquanto isso, os Espíritos adversários faziam o oposto, dizendo: “Briguem, desentendam-se, desorganizem-se!” 

Mesmo assim, duas grandes novidades de grande influência vão surgir no movimento espírita, a partir da década de 1940. Elas vão reacender o espírito herético do cristianismo primitivo estabelecendo novos paradigmas diante da ortodoxia cristã tradicional, como também no próprio meio espírita, ainda muito atingido pela força social das igrejas e pela rigidez cientificista. Esses novos “hereges” vão chocar-se com a ortodoxia agindo como ferramentas diferenciadas de relacionamento com o público de massa, não pela quantidade, mas pela qualidade de novas informações e procedimentos educativos, voltados para um trabalho de renovação moral mais objetivo do que vinha sendo feito. Para os Espíritas, as massas não deveriam ser objeto de manipulação, perpetuando sua inconsciência coletiva. Na sua natural alienação mental, devem ser atingidas por informações que incentivem a personalização humana e, conseqüentemente, sua consciência crítica e auto-crítica. Lembrando Tahar Bem Jelloun[5], um poeta marroquino, escrevendo sobre os excessos da ortodoxia e do fundamentalismo, “Quando o pensamento crítico se retira, deixando o campo livre a todas as extravagâncias, e quando a dúvida, metódica ou estratégica, se ausenta, o indivíduo renuncia a sua condição como tal, mergulha na multidão e torna-se um elemento insignificante, apagado e irreconhecido. O diálogo torna-se impossível.” 

Um Espiritismo de massas correria esse risco, como aconteceu com o cristianismo católico e protestante. Era necessário fazê-lo crescer sem esses erros comuns das grandes religiões, preservando ao mesmo tempo o senso crítico e a sensibilidade das pessoas. Expandir socialmente a Doutrina e mantê-la afastada do fundamentalismo e do totalitarismo, amigos da estreiteza e inimigos do diálogo, seria um novo desafio, muito semelhante ao que Allan Kardec havia feito com relação aos obstáculos ideológicos do século XIX. Esse trabalho delicado seria realizado em duas frentes, aparentemente distintas, porém muito interligadas: a grande propagação da literatura psicografada, de conteúdos renovados e reveladores; e a sistematização da Doutrina Espírita em escolas práticas e iniciáticas. Esses dois acontecimentos históricos tiveram como protagonistas principais, no campo da vivência, juntamente com seus mentores e auxiliares, duas grandes personalidades do movimento espírita contemporâneo: Francisco Cândido Xavier, com o impacto literário das revelações de Emmanuel e André Luiz, associado ao seu apostolado mediúnico; Yvone do Amaral Pereira, com sua obra literária precursora e geradora de escolas de mediunidade e hospitais psiquiátricos epíritas;  e Edgard Armond, com a metodologia de padronização no atendimento terapêutico e nas escolas doutrinárias para leigos e médiuns. Trazendo consigo a inconfundível marca “herética” do Cristianismo Primitivo e do Espiritismo religioso, é claro que essas duas grandes mudanças no tradicional roteiro de práticas doutrinárias não ficariam isentas do bombardeio de opiniões polêmicas, proporcionais às repercussões que tiveram no meio social. No campo filosófico, com figura ortodoxa e resistente à mudanças, destacou-se J. Herculano Pires, jornalista de grande influência intelectual, cuja rica biografia e militância no universo da comunicação também se confunde com os principais acontecimentos do movimento espírita no século XX. 


YVONE DO AMARAL PEREIRA

O trabalho literário e vivencial de Yvone do Amaral Pereira foi e tem sido um dos mais influentes no movimento espírita brasileiro, sobretudo por causa do conteúdo diferenciado e didático dos seus livros. Ao contrário das demais obras psicografadas, cujos condutores são principalmente os Espíritos, Yvone tornou-se a própria narradora de algumas das suas obras, relatando suas experiências mediúnicas por meio do desdobramento.  Assim como as obras de André Luiz e Emmanuel influíram na renovação  das práticas e na multiplicação de núcleos espíritas, alguns livros dessa médium também realizaram esse fomento doutrinário e assistencial, porém mais especificamente na criação e formação dos hospitais psiquiátricos espíritas. Essa modalidade assistencial foi a que estabeleceu o maior grau de proximidade do Espiritismo com as ciências médicas sem que houvessem tantos confrontos entre a doutrina e os interesses corporativos, como aconteceu nas demais áreas da medicina. Desde a época da Codificação a doença mental vinha sendo alvo de ruidosas polêmicas e acusações ao movimento sem que houvesse uma definição de como ocorreria a fusão da psiquiatria com as teorias e práticas curativas espiritas. O trabalho da Yvone Pereira serviria como ponte para estreitar as relações entre esses dois mundos: os consultórios, clínicas, hospitais e os centros espíritas. 

 Não foi coincidência que as obras de Yvone, assim como mais tarde as de André Luiz,  tenham sido publicadas no mesmo período   em que ocorreu a criação do maioria dos estabelecimentos psiquiátricos espíritas no Brasil.  O número de livros de Yvone não foi tão prolífico quanto os de Chico Xavier , porém foram de alta capacidade transformadora.   “Memórias de um Suicida”, realizado com o Espírito Camilo Cândido Botelho (pseudônimo do escritor português Camilo Castelo Branco) talvez é o que melhor ilustra essa tese. A obra foi produzida em 1926, entretanto, segundo a própria Yvone, não tinha unidade nem embasamento doutrinário, pois Camilo Castelo Branco não tinha conhecimento nme vocabulário sobre Espiritismo para explicar as inúmeras informações expostas nos capítulos. O impasse para ordenar as narrativas soltas foi solucionado pelo Espírito Léon Denis, que deu ao livro um roteiro moral e filosófico. O livro só seria editado em 1954, após muitas batalhas sobre a conveiencia ou não da sua publicação. Ansioso e angustiado com o compasso de espera importo por Yvone,  o Espírito autor sugeriu até mesmo que o a obra sofresse revisão do Dr. Carlos Imbassay, conhecido especialista nas obras de Camilo. Entretanto a médium achou por bem não acatar a sugestão, temendo uma mutilação dos conteúdos e da organização feita por Denis.  Os personagens de memórias de um Suicida são quase todos dirigentes, colaboradores e internos de uma grande instituição correcional para tratamento e reeducação de desencarnados pelo suicídio.  Camilo relata sua própria experiência suicida, a terrível passagem pelo “vale sinistro”, o resgate, a internação e um manicômio e finalmente a recuperação, bem como sua matrícula compulsória numa escola comportamental da colônia. Essa complexa organização urbana, descrita muito antes de Nosso Lar e outras colônias, provavelmente localiza-se na extensa região que divide São Paulo e Minas Gerias, como aponta essa rápida citação “(...) a sombria e majestosa Mantiqueira”. No livro de mais de quinhentas páginas Camilo apresenta primeiramente o Vale dos Suicidas ou dos “Réprobos”, cenário mental escuro e pavoroso onde almas afins se atraem para purgar os mais dolorosos efeitos da autodestruição. Em seguida, sob a condução seletiva e severa da Legião dos Servos de Maria, Camilo atinge a Colônia Correcional do Burgo Esperança, núcleo menos escuro em cujos departamentos e edifícios são recolhidos e matriculados os criminosos em seus múltiplos e graves delitos contra si mesmos. Ali estão a Torre de Vigia, Isolamento e o Manicômio, partes do grande Hospital Maria de Nazaré (ou Hospital Matriz). Num plano mais iluminado encontra a Cidade Universitária, metrópole de estilo arquitetônico hindu, descrito pelo autor como um padrão de civilização inimaginável na esfera material, formada por avenidas imensas, lagos e arvoredos majestosos e floridos. Alinhadas em posição setenária, ali estão as Academias iniciáticas de habilitação para reencarnações expiatórias e regeneradoras. Cada uma delas com letreiros indicando as disciplinas a serem cursadas: Moral, Filosofia, Ciência, Psicologia, Pedagogia, Cosmogonia e Esperanto. Das turmas ingressantes e aptas (após um longo e sofrível período de adaptação), a do narrador foi uma das mais vultosas, contando com “cerca de duzentos pecadores”, tendo um grande contingente de damas brasileiras, de diversas camadas sociais. Os alunos, após a aula magna dada pelo diretor do Burgo e da Mansão Esperança (Irmão Sóstenes), foram apresentados aos principais instrutores: o ancião romano Epaminondas de Vigo; o iniciado médio-oriental Souria-Omar e finalmente o jovem, quase adolescente, Aníbal de Silas. Cada um deles se desdobraram no ensino específico dos seguintes conteúdos: gênese planetária, pré-história; evolução do ser; imortalidade da alma; a  tríplice natureza humana; as faculdades da alma; a lei das vidas sucessivas em corpos carnais terrenos, ou reencarnação; medicina psíquica; magnetismo e noções de magnetismo transcendental; moral cristã; psicologia e civilizações terrenas. Tosas as aulas eram alternadas com aulas de evangelho. Em seguida foram organizados em “agrupamentos homogêneos de dez individualidades”, sendo separadas as damas dos cavaleiros, ainda em desequilíbrio emocional, para evitar a interferência de ideias e inclinações mentais que “oprimem a vontade, turbam as energias da alma e entorpecem as faculdades”. A escola e os cursos ali ministrados tinham como diretrizes os seguintes dizeres: CONFIAI! APRENDEI! E TRABALHAI!

Foi dessa e das demais narrativas que a sucederam na descrição das tragédias terrenas e experiências de além-túmulo, que surgiu a ideia de continuidade, pela fundação e expansão, de dezenas de instituições hospitalares psiquiátricas e instituições assistenciais de orientação espírita. Na história de quase todas elas confirma-se que a criação e estruturação das mesmas surgiram a partir das insistentes exortações do Espírito Dr. Bezerra de Menezes. Em Uberaba, a médium Maria Modesto Cravo (após tratamento de obsessão e recomendação de Eurípedes Barsanulfo) fundou “O Ponto Bezerra de Menezes”, modelo de praticamente quase todos os hospitais espíritas brasileiros: a Casa de Saúde Allan Kardec em Franca –SP (fundada como abrigo em 1922 e depois especializada 1933); o próprio Sanatório Espírita de Uberaba (1933); o Hospital Espírita de Porto Alegre (fundado em 1925, depois de quase oito anos de debates e estudos com o Dr. Bezerra na Sociedade Espírita Allan Kardec);  o Instituto Américo Bairral, de Itapira (1937); Hospital Espírita de Marília (1948), cuja base foi o Hospital Espírita de Deus e Centro Espirita Verdade e Luz (1939); Sanatório Antonio Luiz Sayão (1950), em Araras-SP; Hospital Allan Kardec, em Presidente Prudente (1951, fechado em 2016);  Hospital Espírita João Marchesi, de Penápolis-SP (1952); e as Casas André Luiz (1949), anexo do Centro Espírita Nosso Lar, em São Paulo, considerado hoje o maior complexo para tratamento de crianças com deficiência intelectual da América Latina. Em 1972, com a crise dos hospitais psiquiátricos públicos (no caso do paulista Juqueri), uma nova geração de hospitais foi fundada pela iniciativa de ativistas espíritas, sobretudo no interior do estado de São Paulo, que abriga a maior parte dessas instituições brasileiras. 

Outra influência direta e prática da obra de Yvone Pereira foi o CVV- Centro de Valorização da Vida, órgão fundado em 1962 composto por voluntários  da Federação Espírita do Estado de São Paulo-FEESP e que hoje fazem cerca de 1 milhão de atendimentos por ano. O CVV, atualmente de natureza areligiosa, é a única instituição não governamental que usa o telefone de três dígitos gratuito como suporte de um plano e rede nacional de prevenção do suicídio junto ao Ministério da Saúde e a Anatel- Agência Nacional de Telecomunicações. No início dos anos 1970 os fundadores do CVV receberam de Yvone Pereira a informação de que a instituição tinha sido planejada no Burgo Esperança, em sintonia com inúmeras outras que seriam fundadas em diversos países na mesma época. Também em entrevista dada em 1979 ao casal Mauro e Elisabeth Operti e a Altivo Carismi Pamphiro, a escritora confirma a influência do livro na criação do CVV. 

“- O livro tem produzido frutos, tanto no sentido de salvar criaturas do suicídio como na criação de obras do movimento espírita...

Sim. E uma dessas obras é o Centro de Valorização da Vida, CVV. Esse movimento é mundial, mas ainda não havia no Brasil. Jacques Conchon, espírita de São Paulo, criou essa instituição influenciado pelo Memórias de um Suicida, por causa do apelo que o livro faz para que os homens criem algo para evitar o suicídio... Eles fazem plantão noite e dia... São verdadeiros abnegados... Jacques Conchon disse que a situação mais difícil de recuperar um candidato a suicídio é o caso de amor, porque aí eles não podem fazer nada. Se o problema é doença, eles tratam, põem em hospital; se é financeiro, alugam casa, compram mobília, arranjam emprego. Tudo isso é causa de suicídio. Já os casos de amor são mais difíceis. Em 15 anos eles perderam dez casos. Eu creio que a proporção é grande. Eram todos casos de amor... Isso talvez se dê porque não se pode controlar o coração de uma pessoa. Se alguém é abandonado pelo outro a quem ama, o que fazer? O remédio para uma pessoa apaixonada que é desprezada é a conformidade com a situação, é voltar-se para Deus ou, então, seguir o conselho do Léon Tolstoi: arranjar um outro amor. Léon Tolstoi dá esse conselho. No livro Sublimação ele fala: “Não vale a pena se matar nem se desesperar; arranja outro amor. Porque o nosso coração não pode viver sem amar e ser amado”.


Além dos postos de atendimento e diversos programas de prevenção de prevenção do suicídio, o CVV fundou em 1972 o Hospital Francisca Júlia, nos mesmos moldes humanitários dos modelos surgidos na década de 1930. Tanto os postos como o hospital foram criados por inspiração de Francisca Júlia e Batista Cepellos, poetas parnasianos desencarnados por suicídio e que comunicaram pela primeira vez suas intenções nas páginas do livro Parnaso Além-Túmulo, de Francisco Cândido Xavier. Na Rádio Emmanuel,  há uma mensagem gravada de Francisca  Júlia falando sobre o tema.   A história dos dois poetas e do CVV foi registrada no “Como Vai Você? – CVV, 50 anos ouvindo pessoas”. 


NOS TEMPOS DO COMANDANTE 


Durante muito tempo acreditou-se, e ainda há uma forte tendência nesse sentido, de que o Espiritismo, como qualquer filosofia revolucionária, iria causar uma profunda transformação na sociedade e nos seus segmentos mais influentes. Diante de novos paradigmas, as idéias espíritas seriam naturalmente aceitas como as mais compatíveis com as mudanças em andamento no início do século XXI. Na educação não seria diferente e foi exatamente isso que Kardec entendeu quando mudou de postura nas primeiras reuniões que frequentou em Paris. Porém, muitos espíritas acreditaram que o Espiritismo deveria ser propagado socialmente através de escolas e sistemas educacionais já existentes, o que evidentemente é um equívoco, pois tais sistemas são incompatíveis com os paradigmas propostos pelo Espiritismo e com as mudanças sociais também em curso. Diversas tentativas foram feitas nesse sentido e todas, quando não fracassaram, caíram na rotina e nos resultados óbvios dos modelos educacionais tradicionais e de caráter puramente formal e intlectual. Essa mudança paradigmática da instrução para a educação, da cognição para o comportamento, do fator intelectual para o fator moral, só ocorreria, de fato, depois de quase um século após o aparecimento da doutrina espírita. 

Numa edição de 27 de julho de 2.000[6], a revista semanal brasileira “Veja” publicou uma matéria de capa sobre a espantosa propagação Espiritismo no Brasil, sobretudo entre as classes mais cultas e de maior renda. Num determinado trecho da reportagem, no qual são citados alguns dados estatísticos mais curiosos, encontramos este: 

“Nas salas de aula da Federação Espírita de São Paulo, 11.300 alunos sentam-se para aprender desde os fundamentos do kardecismo até como ser médium ou como se tornar um expositor da doutrina. Há dez anos, eram menos de 6.000”. 

Esses dados são reais, mas não foi revelada a causa histórica desse fenômeno cultural que não se restringe apenas à Federação. Se forem somadas as atividades educativas desenvolvidas pelos centros espíritas que formam a Aliança Espírita Evangélica, filhote institucional da FEESP, esses números sobre alunos e escolas de Espiritismo praticamente se duplicam. A origem de tudo isso está numa determinada época e intimamente ligada às idéias de um determinado homem. É evidente que no rol de escritores e militantes que complementam o trabalho de Allan Kardec existem vários nomes importantes, conhecidos ou menos destacados, porém, todos prestadores de respeitáveis serviços de difusão das verdades espirituais. Mas preferimos citar aqui somente aqueles que tiveram grande influência nos eventos conjunturais e nas estruturas históricas do movimento espírita. Dentre os militantes históricos brasileiros, pós Allan Kardec, surgiu em São Paulo, nas primeiras décadas do século XX, a figura muito expressiva e contagiante de Edgard Pereira Armond (1894-1982), o célebre instrutor e criador de cursos e trabalhos sistematizados na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Autor eclético e de grande erudição em praticamente todas as esferas de conhecimentos úteis ao campo doutrinário, procurou dar ao Espiritismo uma abrangência cultural mais ampla, com a nítida intenção de esvaziar tanto a ignorância doutrinária como as tendências sectárias e ortodoxas que predominavam nos grupos espíritas. Em suas diversas obras literárias e inúmeros artigos, encontramos o estilo inconfundível que marcam os Espíritos práticos e dinâmicos: conhecimento, objetividade e síntese. O choque e a reação das lideranças menos dinâmicas seria inevitável, daí a repercussão mais emocional do que racional das suas realizações. Ao nosso ver, por esse motivo, seus críticos mais intransigentes têm deixado apenas um rastro de conceitos mal formulados sobre sua obra e que apenas confirmam a sua importância como inovador de idéias e estimulador da curiosidade dos que buscam romper os limites pessoais e de atuação no Movimento. São mentes identificadas intelectual e socialmente com a doutrina, porém espiritualmente imaturas. Sentem um nítido desconforto quando se defrontam com temas que desafiam seus limites íntimos mais dolorosos, que os tornam iguais a todos os espíritas comuns, e que podem desfazer a imagem distorcida que possuem de si mesmos e diante do nosso movimento social. Esta é a razão do comportamento reacionário diante de ideias objetivas de transformação pessoal e que, como disfarce e bloqueio psicológico, toma a forma discursiva de sectarismo, ortodoxia e pureza doutrinária. Não foi somente Armond que foi intensamente bombardeado nesse sentido. O próprio Allan Kardec e todos aqueles que defenderam o Espiritismo religioso sistemático, foram e são combatidos pelos companheiros de ideal. O Espiritismo cristão, lyonês, foi sufocado na Europa e ignorado na América do Norte não só por causa da reação clerical e acadêmica, mas também porque sofreu o desprezo de grande parte da intelectualidade espírita e espiritualista, temerosa dos preconceitos sociais e dos próprios obstáculos pessoais. No Brasil, palco da ressurreição espírita-cristã, militantes históricos expressivos tornaram-se exemplos desse tipo de reacionarismo, expondo publicamente suas posturas, considerando a idéia de reforma moral um equívoco, simples efeito da passividade e da ignorância doutrinária. Semelhante aos espiritualistas anglo-saxões, quanto à aceitação da reencarnação, não conseguiram compreender a proposta educativa da transformação pessoal, olhando-a com forte suspeita de fanatismo religioso e cedendo ao tradicional e defensivo orgulho filosófico e científico das escolas intelectualistas. Conheciam cognitivamente a estrutura da doutrina, mas não conseguiram visualizar suas repercussões íntimas, um claro efeito do despreparo emocional. Este é um dado muito curioso e delicado, pouco discutido nos meios doutrinários, que mostra porque Armond tornou-se um marco divisor na história do Espiritismo no Brasil. Com uma forte marca pessoal, o Comandante iria fazer história assumindo em torno de si três antigos desafios do movimento espírita: as escolas doutrinárias iniciáticas, a massificação das práticas curativas e finalmente a segunda grande tentativa de unificação do movimento. A ferramenta principal dessa transformação seria o reforço da expressão religiosa, através da associação ideológica entre o Espiritismo e o chamado cristianismo primitivo. 

A associação sistemática entre Espiritismo e o Cristianismo era um tabu, tanto para aqueles que não tinham coragem de romper com o catolicismo quanto para aqueles outros que preferiam permanecer na fase primária da Doutrina, ou seja, a especulação fenomênica. É verdade que os pioneiros da FEB já cultivavam o evangelismo e isto serviu de motivo para a ruptura entre místicos e científicos, que viam nesse comportamento apenas uma herança católica cuja ênfase nos “Os Quatro Evangelhos”, de Roustaing, colocava em segundo plano toda a obra de Kardec Mas a experiência deveria ir além do misticismo poético e passivo do expectador inoperante, muito semelhante ao modismo egocêntrico da auto-ajuda. A idéia de Armond era quebrar esse individualismo através de um movimento social de massa mostrando um amplo perfil de ativista: educador, jornalista, poeta, romancista e, sobretudo, um inquieto realizador de eventos de propaganda cultural doutrinária. Mas foi no terreno do ensino e da educação que ele se revelou como o maior inovador contemporâneo da abordagem prática da ética espírita, implantando na FEESP a Escola de Aprendizes do Evangelho, um marco histórico-doutrinário do Espiritismo. Evidentemente a idéia era polêmica e poderia fracassar logo no início, como a Escola de Médiuns do Dr. Bezerra, na qual só apareceram “professores”. Lembrando disso, ele teve a feliz idéia de matricular-se como aluno “número um”. Em 1947, na União da Mocidade, Ary Lex já havia criado um curso doutrinário apostilado denominado “Curso de Espiritismo Científico”, mas este não teria o mesmo impacto social da Escola de Armond, evidentemente por causa da ênfase estritamente intelectual. Essa tendência intelectualista persistiu teve o seu apogeu nos anos 1980, na época de Rino Curti, cuja direção da área de Ensino provocaria também uma crise institucional. Mas a experiência de Armond era bem distinta porque possuía o diferencial iniciático, motivo do sucesso da escola, mas ao mesmo tempo de grandes controvérsias, por causa dos conteúdos curriculares e os métodos seletivos de aprendizagem. 

UMA ESCOLA REVOLUCIONÁRIA

A primeira aula da Escola de Aprendizes aconteceu em 6 de maio de 1950 e teve como expositor Pedro de Camargo “Vinícius”, um admirado e celebrado condutor de palestras evangélicas. Os dois já haviam realizado uma inovação na FEESP e que talvez possa ser apontada como atividade precursora da Escola. Eram as famosas “Tertúlias Evangélicas”[7], que logo foram apelidadas de “Domingos de Vinícius”. As manhãs de domingo, que eram sempre ociosas, se tornaram um grande sucesso de público na rua Maria Paula. Armond também dera a ele a tarefa de gerenciar e nutrir com seus preciosos artigos o jornal “O Semeador”. Além de Vinícius, foi escolhido a dedo um seleto grupo de expositores e futuros autores da “Iniciação Espírita”, recebendo cada um deles a incumbência de preparar um determinado assunto e também sistematizá-lo em texto de apostila. Foi assim que, no primeiro ano de funcionamento, 272 aprendizes assistiram às aulas de grandes vultos da cultura espírita da época[8]: Silvino Canuto Abreu, Emílio Manso Vieira, Iracema Martins de Almeida, Carlos Jordão da Silva, Sérgio Valle, Júlio de Abreu Filho, Benedito Godoy Paiva, o próprio Comandante Armond e até mesmo Ary Lex, mais tarde um severo crítico desse sistema. O próprio Ary conta em suas memórias[9] que não admitia a idéia de ficar em pé para cantar a prece dos aprendizes, permanecendo em atitude rebelde, sentado aguardando o começo da aula. Apesar das reações contrárias, a Escola tornou-se um sucesso que arrebanharia milhares de alunos nos anos seguintes, saindo dos seus bancos importantes expressões do movimento espírita atual e todo um conjunto de efeitos sociais já previstos pelo seu idealizador. Ary Lex reconheceu dessa forma o potencial social e a capacidade aglutinadora da Escola: “ Está aí o grande celeiro que abasteceu de trabalhadores, nestes 40 anos, a Casa Transitória. Foi também daí que partiu a grande maioria dos cooperadores da Área de Assistência Espiritual, onde muitas centenas militam até hoje”. 

A Escola de Aprendizes do Evangelho tem, então, a sua raiz mais próxima na questão 919 de O Livro dos Espíritos[21], na qual a resposta foi dada pelo Espírito de Santo Agostinho e cujo conteúdo é uma preciosa e detalhada síntese das suas experiências práticas no campo da reforma íntima e da transformação moral. O resultado desse trabalho é o próprio relato da parábola do Semeador, pois os alunos, em suas diferentes fases de aprendizagem e graus de compreensão dos ensinamentos, mesmo depois de terem concluído a escola e terem atingido o “grau” de “discípulo”, estarão sujeitos às adversidades do mundo e a responsabilidade do seu livre-arbítrio; poderão ser o sal da terra ou simplesmente o fracasso na lavoura, como a opção feita por Judas Iscariotes. 

É claro que nem todos os espíritas se identificam com essas propostas, exatamente porque somos, todos, diferentes na forma de entender, compreender e ainda vivenciar o Espiritismo. Mas, não é porque não temos afinidade com tais idéias e experiências, que vamos negar que ela tenha o seu valor prático e histórico no Movimento; e muito menos combatê-las ou agredi-las como se fossem “heresias” contra os “dogmas” kardecistas. Isso não significa que não deva sofrer críticas analíticas e comparativas, perfeitamente naturais em ambientes filosóficos abertos e não sectários. Ney Prieto Peres, colaborador de Armond e um dos fundadores da Aliança Espírita Evangélica e do Setor III[31] da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, elaborou um trabalho de comparação teórica e prática da Escola de Aprendizes do Evangelho com a Codificação mostrando em detalhes a perfeita sintonia dessa proposta com a Doutrina Espírita. O resultado foi o livro Manual Prático do Espírita[32], onde se estabelece logo de inicio a diferença entre doutrina e método de ensino doutrinário. Trata-se de uma adaptação metodológica sem os recursos ilustrativos das aulas de história, geografia, biologia, antropologia, etc., que compõem o programa de aulas da Iniciação. Não tem também os recursos cerimoniais iniciáticos utilizados por Armond, muito importantes na fixação vivencial dos conceitos; o livro concentra-se apenas no aspecto teórico e exercícios dos processos de reformulação de sentimentos e atitudes. O trabalho de Peres foi prefaciado duas vezes por Edgard Armond, que não viu nenhum problema deste novo formato “segundo a Doutrina Espírita”, exatamente porque mantinha a essência da Escola, que era a ênfase na idéia de reforma íntima. Mesmo assim, o assunto reforma íntima ainda é tabu no meio espírita e continua sofrendo restrições por alguns segmentos ou sendo tratado de forma superficial e banalizada em outros tantos, provando que o obstáculo quanto à natureza da Escola nunca foi de caráter doutrinário ou de pureza doutrinária e sim de capacidade emocional de assimilação dessas propostas. Depois de várias décadas de história ninguém, até este momento, se deu ao trabalho de estudar a fundo as estruturas das Escolas de Aprendizes do Evangelho como objeto científico educacional- sociológico antropológico - e tantas outras nuances culturais que ela traz embutida no seu funcionamento. Pelo pouco que ainda conhecemos, e também através de conversas com pessoas idôneas e experientes no setor, chega-se à uma conclusão muito simples: a Escola de Armond é uma reprodução de muitas que existem há muito tempo no mundo dos Espíritos, sobretudo nas colônias próximas da Terra e que se dedicam a adaptação dos desencarnados aos problemas da erraticidade. Só não haviam sido implantadas anteriormente porque, estando muito a frente do seu tempo, certamente seriam duramente rejeitadas, pela imaturidade e a mediana visão de mundo que marcava o Movimento Espírita nos primeiros tempos. Quem conhece a nossa história na França e no Brasil sabe do que estamos falando. Não devemos esquecer que até mesmo a simples idéia de escola intelectual era muito combatida; imagine então uma escola iniciática. Falar de reforma íntima naqueles tempos era uma postura de “religiosos”, uma verdadeira “heresia” aos postulados “científicos” do Espiritismo. 


ESCOLA PARA MÉDIUNS E PASSE-PADRÃO


Outra grande inovação desse pioneiro foi a realização de um antigo sonho de Allan Kardec e de Bezerra de Menezes em criar uma “Escola para Médiuns”, já na década de 1940. Nem é preciso dizer que também houve reação de resistência, sobretudo dos nossos “doutores” do templo. O ponto inicial desse acontecimento, também histórico, foi o lançamento do livro Mediunidade[33], em 1945. Era um tratado reunindo pequenos opúsculos lançados anteriormente: Contribuições ao Estudo da Mediunidade, em 1942, Mediunidade de Prova e Desenvolvimento Mediúnico, em 1943, e Missão Social dos Médiuns, em 1944. Além das referências já apontadas pelo Codificador, o livro trazia uma exposição inédita na diferenciação dos conceitos de “mediunidade de prova” e “mediunidade natural” e que só seriam abordados, bem mais tarde, por André Luiz no livro Nos Domínios da Mediunidade. Nele encontra-se também uma interessante e corajosa revisão do conceito de mediunidade como fenômeno “orgânico”, que Armond argumenta ser um fenômeno espiritual e psíquico, independente do corpo físico. Para exemplificar sua concepção ele cita esse depoimento de Pietro Ubaldi[34]: “Devo esta comunicação a uma mediunidade, cujo surto se produziu após longa maturação, conseguida a poder de estudos, de renúncia material e de desenvolvimento moral. Observei que o progredir para a perfeição moral representa condição necessária ao desenvolvimento deste gênero de mediunidade, exclusivamente espiritual”. E explica porque citou o famoso médium italiano: 


“Ele diz – mediunidade exclusivamente espiritual – para explicar que as suas faculdades não semelhantes àquelas que muitos adeptos da doutrina espírita classificam como fenômeno orgânico, coisa pertencente ao corpo físico, e essa distinção que faz corrobora nitidamente e plenamente justifica o modo por que encaramos a mediunidade em sentido, separando a mediunidade-conquista da mediunidade de prova”. 


As reações ortodoxas não tardaram, mas o livro tornou-se um clássico do assunto, cuja elaboração, tal qual O Livro dos Médiuns, não foi produzida somente por teorias, mas por uma vasta experiência prática e metodológica do Comandante. 

Finalmente, na mesma linha inovadora, seguindo os passos dos terapeutas essênios, de Jesus e dos apóstolos, dos cristãos primitivos, de Mesmer, etc., Armond criou também o primeiro sistema de padronização de cura magnética ou “fluidoterapia” de que se tinha notícia no Ocidente. Para isso valeu-se de seus conhecimentos de Medicina, da sua grande intuição e da experiência mediúnica dos seus dedicados assistentes. Era uma resposta técnica à necessidade de atender com organização, conforto e agilidade, o grande público que se dirigia para as instalações da FEESP em busca de socorro físico e espiritual. Padronização significava método e organização. Por isso o livro Passes e Radiações (1950) também se tornaria um marco literário no terreno do Espiritismo prático-científico, assim como os seus naturais desdobramentos, que é a Cromoterapia e estudos de Psiquismo[35]. Nele Armond antecipa as revelações mais detalhadas de André Luiz sobre o “duplo etérico” (Nos Domínios da Mediunidade) e sobre os “centros de forças” ou “chacras” (Entre a Terra e o Céu). Sobre este último assunto, Armond esclarece que Kardec conhecia os “chacras” e não ventilou o assunto por uma questão de conveniência de programação. Se em 1940, já causou reação tão desfavorável no meio espírita, imagine-se em 1857. Todas essas experiências de cura são conhecidas e praticadas no plano espiritual e largamente divulgadas pelas obras mediúnicas aqui citadas. Não há incompatibilidade com a Codificação, a não ser pela ótica limitada de quem desconhece o valor do método e da experimentação científica na prática mediúnica e na cura espiritual. Armond explica que essas idéias partiram de Espíritos ligados à saúde e assistência aos encarnados, mas sobretudo muito preocupados com a melhoria e moralização do atendimento ao público. Entre eles o próprio Espírito de Louis Pasteur, a quem o Comandante homenageou com a classificação dos tratamentos magnéticos (P-1, P-2, P3-A e P3-B). Para justificar a sistematização e padronização dessas atividades Armond explica que a prática livre do passe não diminui sua utilidade pois ela é quase sempre realizada pelos portadores da mediunidade-tarefa, previamente preparados antes da reencarnação e orientada por mentores especializados. Porém, toda atividade fundamentada no conhecimento e no treinamento logicamente torna-se mais eficiente, facilitando a atuação dos benfeitores espirituais. A prática padronizada foi uma combinação entre as duas esferas de atuação assistencial, a dos encarnados e desencarnados, para diminuir a deficiência, inclusive de resultados contrários e maléficos, causada pelo empirismo e o arbítrio pessoal das ações pouco esclarecidas. Trata-se de um desdobramento prático de conhecimentos teóricos do Curso de Médiuns, que por sua vez se constitui numa extensão e aperfeiçoamento de alguns temas da Escola de Aprendizes do Evangelho, denominados Medicina Psicossomática[36]. Juntas, essas três frentes de conhecimento formam uma trilogia de ampla preparação de trabalhadores voluntários para o livre e espontâneo exercício da caridade aos necessitados. Segundo Armond[37], é um resgate histórico das mais antigas tradições humanas de assistência humanitária e que, em nosso tempo foi revivida pelo Espiritismo: 


“No campo da ciência oficial, os passes magnéticos nunca foram aceitos e sua aplicação vem sendo sempre ridicularizada, mesmo quando realizada por médicos e outros profissionais titulados; por isso, como agente terapêutico, só muito rara e excepcionalmente têm sido eles utilizados, e sua prática é até mesmo considerada transgressão legal, sujeita a penalidades. É o imposto que ainda se paga à rotina e ao preconceito das coisas do passado. Entre os Espíritas, todavia, o passe é um agente usual de cura e foi o Espiritismo que promoveu sua reabilitação aos olhos do povo, prestando-lhe desta forma enorme serviço, mormente ao mais humilde e necessitado que, dessa prática, aufere enormes benefícios. Ao mesmo tempo honrou, assim, o Espiritismo, a memória de todos aqueles que, no campo científico, arrostando com dificuldades de toda sorte, tornaram-se fiadores e pioneiros de sua aplicação: Paracelso e Van Helmont, na Idade Média; na Era Moderna, Mesmer, Du Potet, Puissegur, Bué, Gauthier, La Foantine, Deleuse e outros eminentes e devotados investigadores que encarnaram na Terra com essa tarefa e que, apesar de nunca tomados a sério mas, ao contrário, sempre desprezados pelos corifeus das academias, jamais desanimaram e acabaram por estabelecer fundamentos sólidos ao conhecimento a à prática deste eficiente elemento de cura natural.” 


Acrescentaríamos nós que entre os “corifeus das academias” encontram-se muitos espíritas, movidos geralmente por ideologias classistas e, portanto, reacionários a essas práticas historicamente progressistas e sempre sintonizadas com os ideais de caridade cristã e com novos conhecimentos espirituais. 


O IDEAL DE FRATERNIDADE 

“Nos Planos Espirituais, as entidades se agrupam por afinidades morais e vibratórias, isto é, segundo condições evolutivas significando, para umas, escravização e temores e, para outras, as mais evoluídas, ordem, disciplina, responsabilidade, unidade de sentimentos e participação”. – As Fraternidades – Vivência do Espiritismo Religioso. 


Edgard Armond é, com certeza, uma vertente muito diferente no Movimento Espírita tradicional, exatamente porque surgiu como uma proposta revolucionária, e não reformadora, a partir de uma crise de estagnação pela qual passava o movimento nas primeiras décadas do século XX. A marca iniciática da sua Escola, introduzida como elemento didático nos cursos sistematizados da FEESP, bem como a relação operacional direta com Espíritos de forte cultura religiosa, serviram como instrumentos de neutralização das banalidades que estavam retrocedendo o Espiritismo ao período das mesas-girantes. Nos anos 1930 e 1940 a Doutrina, no Brasil, ainda era vista apenas como especulação filosófica e diversão pseudocientífica. Os médiuns eram seres de uso descartável para espetáculos que mais se assemelhavam ao circo do que à pesquisa, numa época em que o Movimento Espírita era ainda muito fragmentado em ações socialmente isoladas. Outra tendência que tomava corpo era a dos intelectuais, que lutavam para desvincular a doutrina das suas raízes filosófico-religiosas através da politização do movimento. Armond reagiu a tudo isso e não só inovou com uma Escola técnica, mas inventou uma escola filosófica espírita, o que assusta os mais conservadores que vêem nisso não um fato complementar e confirmador da superioridade da Codificação, mas um acontecimento ameaçador à sua integridade histórica e doutrinária. O fato é que a doutrina vagava na superficialidade intelectual e nas atividades mediúnicas empíricas causando uma ansiedade de realização permanente nos Espíritos mais dinâmicos. Já nessa época muitos vultos importantes do Espiritismo intelectualista empolgaram-se, como era típico daquele contexto, com possibilidade de mudar o mundo, “politizando” o Movimento Espírita. Naturalmente, afetados pelo excesso de entusiasmo, se esqueciam que as preferências políticas dos espíritas, assim como as preferências ideológicas no meio religioso, são reflexos psicológicos da personalidade e não uma simples questão de “politização”. Armond pretendia sacudir essa viciação, para ele equivocada, a mesma que fez degenerar o movimento na Europa e na América do Norte, dando um rumo social mais significativo ao Cristianismo restaurado por Kardec. A idéia já havia sido tentada por Bezerra de Menezes, mas somente Armond conseguiu delinear, com clareza, esse projeto de socializar a evangelização das massas e educar sistematicamente a mediunidade em bases Espíritas. Os relatos que citaremos mais adiante, extraídos de sua autobiografia, dizem que ele foi investido na direção da FEESP por determinação do Espírito Ismael. Era uma época de grandes transformações no movimento espírita Brasileiro, e a instituição paulista seria um dos principais palcos dessas mudanças históricas, ainda que existissem os obstáculos das imperfeições humanas dos seus membros. 

A essa altura é muito importante lembrar que Armond, tal qual Chico Xavier, Emmanuel e André Luiz, rompe a linha de revelações do mundo espiritual mostrando a existência, além das “colônias”, de comunidades ideológicas denominadas “Fraternidades do Espaço”[38], nas quais milhares de Espíritos se agrupam por afinidade de idéias e sentimentos, para realizar tarefas específicas de proteção e auxílio aos encarnados. Ele amplia revelações contidas no livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho: quando Jesus se dirige a Ismael, dizendo: “Reúne as incansáveis falanges do Infinito, que cooperam nos ideais sacrossantos de minha doutrina, e inicia, desde já, a construção da pátria do meu ensinamento”; e no livro Nosso Lar, ao falar da Ministra Veneranda, a servidora Narcisa diz para André Luiz: 

“As Fraternidades da Luz, que regem os destinos cristãos da América, homenagearam Veneranda conferindo-lhe a medalha do Mérito de Serviço, a primeira entidade da colônia que conseguiu, até hoje, semelhante triunfo, apresentando um milhão de horas de trabalho útil, sem interromper, sem reclamar e sem esmorecer.” 

No mesmo livro, no capítulo 41, ao falar do impacto que a Segunda Guerra Mundial teve no Plano Espiritual, André Luiz revela: 


“Sabia-se, desde muito, que as Grandes Fraternidades do Oriente suportavam as vibrações antagônicas da nação japonesa, experimentando dificuldades de vulto (...) Assim como os nobres círculos espirituais da velha Ásia lutavam em silêncio, preparava-se Nosso Lar para o mesmo gênero de serviço”. 


O aspecto da identificação pelo simbolismo que caracterizam as “Fraternidades do Espaço” foi durante muito tempo omitido pelos autores citados e consagrados, porque a aparência perispiritual e a cultura desses grupos fogem completamente da idéia ortodoxa que predomina no meio Espírita. São os ameríndios, africanos, asiáticos, Espíritos de outros orbes, enfim, toda uma diversidade de inteligências que, sabemos existir nos conceitos da Codificação, mas que podem ser “rejeitados” por diversos motivos de ortodoxia, inclusive preconceito racial e cultural herdado do elitismo colonial europeu. 

Foi a partir dessas informações, reveladas a diversos médiuns e comprovadas por verificações, que Armond criou, em 31 de maio de 1952, a Fraternidade dos Discípulos de Jesus - FDJ, composta inicialmente de membros encarnados e associada espiritualmente à Fraternidade do Trevo, composta por desencarnados. Foi inaugurada somente em 1954 com o ingresso de alunos oriundos da 1ª Turma da Escola de Aprendizes da FEESP. A FDJ[41], organizada por estatutos e regimento interno, reúne atualmente milhares de membros encarnados, todos oriundos das Escolas de Aprendizes do Evangelho, que têm como objetivo vivenciar, permanentemente, os ensinamentos cristãos à luz da Doutrina Espírita. Comunicações mediúnicas surgidas nos três setores de atuação dos discípulos informam que atualmente, no mundo espiritual, a FDJ é independente e dirigida pelo próprio Espírito Armond, reunindo milhares de ex-alunos que após o desencarne continuaram cultivando os ideais da Escola . 

Ao criar toda essa sistemática Armond estava apenas preocupado com o tipo de relação e compromisso que os adeptos do Espiritismo poderiam desenvolver com a doutrina, deixando bem claro que tudo era uma questão de opção individual, nunca de julgamento, aprovação ou condenação absolutas. Quando Jesus foi em busca de discípulos, ele mesmo fez pessoalmente a seleção, deixando claro que na iniciação quem faz a primeira chamada é o Mestre, mas a escolha definitiva é feita pelo livre-arbítrio e pela vida do discípulo. Edgard Armond entendia que existem três modos de “vivência espiritual”, de acordo com o entendimento individual[42]: 


“Uns a realizam simplesmente crendo; outros, crendo e participando de atos exteriores, como no cumprimento de um dever; outros, finalmente, mais esclarecidos, estudando, praticando e devotando-se às realizações, com o desejo sincero de tornar suas vidas espiritualmente melhores. O Discípulo de Jesus, crê, participa e devota-se, aperfeiçoando seus conhecimentos e sua espiritualidade, para dedicar-se ao serviço do Bem. Desde que passou a discípulo, tornou-se um porta-voz do Mestre, um agente Seu, iluminado pelo amor e pela fé mais pura e profunda, nas sombras e nas misérias deste mundo de provas e expiações.” 


Dessas três definições de vivência, a terceira é a que fez do trabalho de Armond um fato histórico de grande repercussão social. É nesse aspecto que ele se tornou um divisor de águas no Movimento Espírita, independente dos supostos conceitos ou preconceitos sobre a sua pureza doutrinária. 


DA FEESP A ALIANÇA 

A trajetória pessoal de Edgard Armond,  na vida profissional e na militância espírita, sempre foi marcada por duas características inconfundíveis: escola e disciplina. Militar e participante ativo na época do “Tenentismo”, era formado em Farmácia e Odontologia pela Faculdade do Estado de São Paulo. Na Força Pública de São Paulo fez carreira na Escola de Oficiais tornando-se diretor da Biblioteca e professor de História, Geografia e Geometria e, mais tarde, chegou a exercer o cargo de sub-comandante. Foi durante muitos anos membro da Maçonaria, onde alcançou o grau de grão-mestre. Seu interesse pelo espiritualismo era antigo e sempre o estimulou a buscar novos conhecimentos e relações. Essa busca o levou a conhecer pessoas de destaque nesse setor como Krishnamurt, Krum Heler, Janerajadasa, Raul Silva e o famoso médium de efeitos físicos Carmilo Mirabelli. Na década de 1930, formou juntamente com Silvino Canuto Abreu, Carlos Gomes de Souza Shalders e Antônio Carlos Cardoso, um grupo de estudos e práticas mediúnicas, pelo qual entrou em contato com reconhecidos médiuns como o velho Ramalho e Linda Gazera; esta última havia trabalhado com Charles Richet na Europa. Nessa época também realizou diversos trabalhos com o notável médium paranaense Luiz Parigot de Souza. Seu contato mais influente com líderes Espíritas aconteceu numa palestra na sede da Associação Classes Laboriosas, na Capital paulista, quando conheceu importantes ativistas como Professor Américo Montagnini, João Batista Pereira e o Dr. Pedro Lameira de Andrade. Na mesma reunião estava presente o jovem médium, em início de carreira, Francisco Cândido Xavier. Ao receber, naquela tarde de domingo, o folheto “Palavras do Infinito”, ditado pelo Espírito de Humberto de Campos, Armond considerou-se, definitivamente, inclinado ao Espiritismo. 

Seu ingresso na Doutrina e na FEESP foi marcado por diversos fatos muito curiosos, como um grave acidente automobilístico, do qual tinha sido avisado, e a sua nomeação, para o cargo de Secretário-Geral, comunicada por um memorando da Diretoria. Sua trajetória naquela Casa seria marcada também por lutas ideológicas históricas e arrebatadoras que transformariam profundamente o Movimento Espírita paulista e brasileiro. Quem faz um relato mais preciso sobre esses episódios é o jornalista Valentim Lorenzetti (1938-1990), que redigiu uma rápida biografia do Comandante, a partir de dados fornecidos pelo próprio Armond, por ocasião do seu desencarne em 1982[43]. É um documento que registra fatos importantes e nomes significativos do movimento espírita e que merece ser transcrito integralmente: 


“Como a Federação apenas se instalara naquele prédio, adaptado para sua sede própria, nada encontrou organizado ou em funcionamento regular, estando tudo por fazer, em todos os setores. João Batista Pereira, na eleição então realizada, deixara a presidência para Américo Montagnini e na sigla “Casa dos Espíritas do Brasil” se fundiram a Sociedade Espírita São Pedro e São Paulo, até então dirigida pelo Dr. Augusto Militão Pacheco, a Sociedade de Metapsíquica de São Paulo, dirigida pelo Dr. Shalders (que era um desdobramento do grupo de estudos de 1936) e a própria Federação. O maior interesse da época, como já foi dito, eram os fenômenos de efeitos físicos, que não existiam na Casa, mas eram assistidos em vários lugares fora, para onde os diretores se transladavam, às vezes em conjunto. 

O primeiro contato mediúnico na Casa foi com o auxílio da médium particular Sra. N. A., esposa de um tabelião da Capital, e foi por ela que o Dr. Bezerra (naquela ocasião assumindo a direção espiritual da Casa) transmitiu a frase conhecida: “No mundo, o Brasil, no Brasil, esta terra que tem o nome do grande Apóstolo e aqui, esta nossa casa, que será um farol a iluminar a humanidade.” 

Naqueles primeiros dias, predominavam, por toda a parte, os efeitos físicos, e era marcante a falta de médiuns de confiança para o intercâmbio com o Plano Espiritual Superior; atendendo a um pedido, o Espírito de Bezerra de Menezes prometeu sanar a lacuna; passados poucos meses, apareceu na Casa um rapaz moreno escuro, que se dizia graxeiro da Sorocabana, em Assis, e médium de incorporação. Submetido a uma prova, satisfez plenamente. Chamava-se Ary Casadio e ficou combinada sua mudança para a Capital, sob a proteção da Casa, onde ficou alojado. Mais tarde trouxe a esposa e filhos pequenos e dedicou-se, inteiramente, aos trabalhos da Casa, prestando, durante longo tempo, ótimos serviços, tanto internos quanto externos, em ocasiões solenes e em trabalhos práticos, inclusive, depois dos congressos de unificação realizados a partir de 1947, acompanhando, inclusive, como médium, a Caravana da Fraternidade, que viajou por vários estados do País, na propaganda da Unificação Doutrinária. Para melhorar as condições da família, arranjou-se-lhe um emprego no Tribunal de Justiça, como escrevente. Mais tarde, formou-se em Direito e abandonou o serviço no Tribunal, por conveniência familiar, mudando-se para Osasco. 

A carência inicial de médiuns já levara, antes, a formação do Grupo Razin, com sete membros, com o que o intercâmbio melhorou muito. Eis os nomes de seus membros primitivos, além do Comandante: Raul de Almeida Pereira, funcionário do I.B.C. – médium de incorporação, vidência e audição; José Quintais, mais tarde funcionário do departamento de projetos da Indústria Villares – vidência, audição, psicografia e desenho mediúnico; Rubens Fortes, oficial reformado do Exército – incorporação consciente; Altair Branco, engenheiro; Luiz Verri, cabeleireiro de senhoras – vidência e audição; Paulo Vergueiro Lopes de Leão, pintor da Escola de Belas-Artes. O grupo funcionou bem até 1950, data em que foi dissolvido por não haver concordado com a criação da Escola de Aprendizes do Evangelho, exceto dois membros: Paulo Vergueiro e Carlos Jordão, que fora convidado e passou a fazer parte do grupo nos últimos dois anos. 

Durante as reuniões, duas coisas importantes aconteceram: 1) Manifestou-se, pela primeira vez, a entidade feminina designada pelo nome de ‘Castelã’, que, a partir de então, dispensou ao Grupo valiosíssima colaboração e, em 1953, pelo médium Divaldo[44], identificou-se como protetora pessoal do Comandante, tendo sido na Itália papal, rainha de Nápoles, em 1481, como Margarida de Médicis. 2) Em uma das reuniões, em 1941, surgiu, de improviso, um médium desconhecido, jovem, que se dizia médico e se chamava Élio. Sua trajetória foi rápida, porém proveitosa. Acercou-se da reunião, no saguão do salão superior, sentou-se ao lado do Comandante, ouviu, durante alguns momentos, uma mensagem que estava sendo transmitida e interrompeu o trabalho, convocando o Comandante para uma reunião urgente. Atendendo ao solicitado, a reunião foi feita na Escola de Belas-Artes, à rua Onze de Agosto, onde não haveria interrupções; acompanharam o Comandante o engenheiro Altair, Luiz Verri, Lopes de Leão, diretor da Escola, e o médium. 

Foi nesta imprevista reunião que foram feitos os primeiros contatos com Ismael, o preposto de Jesus para a condução espiritual do Brasil, o qual, incorporado no referido médium, e sob controle do vidente Verri, transmitiu suas primeiras instruções ao Comandante, investindo-o na tarefa de dirigir a Federação, estabelecendo a prevalência do Espiritismo Evangélico e construindo, oportunamente, as bases para o êxito desse transcendente acontecimento. Como o Comandante alegasse que isso não era tarefa para um, mas para muitos, Ismael respondeu, dizendo: ‘Você foi o escolhido e aqui será o chefe; e terá todo o nosso apoio, enquanto for fiel ao programa que estabelecemos, com toda a liberdade para realizá-lo.’ 

O Comandante ponderou mais uma vez que estava, apenas, iniciando a organização da Casa, estando quase só, ao que Ismael respondeu, abrindo os braços e mostrando ao vidente uma vasta planície, a perder-se no horizonte e tomada por guerreiros vestidos de armaduras antigas, cobertos de capacetes brilhantes:

 ‘Não estarás só; terás o apoio de todos’; e repetindo, energicamente, a frase e entregando-lhe um montante luminoso (espada antiga manejada com as duas mãos: ‘Aqui está o chefe, e esta é a espada do comando’. E rematou a entrevista dizendo: ‘Para te auxiliar nos primeiros dias como conselheiros e elementos de ligação conosco, colocaremos junto de ti três companheiros valorosos. Este, disse, apontando o primeiro deles, chamarás Lorenense; este, mostrando o segundo, chamarás Luzitano, e este, apontando o terceiro, chamarás Britânico’. 

Nota: Tanto a multidão de guerreiros como os auxiliares apontados pertenciam à Fraternidade dos Cruzados. Os dois primeiros se afastaram, após a formação do primeiro conselho da Federação e o último, cujo verdadeiro nome era Ricardo Coração de Leão, Rei da Inglaterra, e comandante da Terceira Cruzada Histórica, permanece no posto até hoje, sendo na Federação conhecido, simplesmente, como Ricardo. Essa designação do Alto foi confirmada, a partir desse dia, várias vezes, em quase todos os trabalhos da Federação, e o Comandante deu conhecimento dela à diretoria da Federação e a vários auxiliares, na própria ocasião, tendo recebido sempre o mais completo apoio de todos os companheiros.” 


Este é um relato que certamente não agradaria alguns intelectuais “científicos”, porém constitui-se num dos episódios mais interessantes da memória recente do Espiritismo no Brasil. Preferências à parte, historicamente falando, tudo isso é muito significativo. E história não é apenas uma questão de gosto, preferência ou simpatia: é história. Essa investidura espiritual de Armond na FEESP teve outros capítulos marcantes, como a formação do Conselho de Orientação daquela casa, em 19444 transformado em órgão deliberativo. A proteção espiritual prometida a ele não era mera formalidade. A composição do primeiro grupo orientador, bem como a eleição das primeiras propostas de estruturação, seriam verdadeiras batalhas contra os tradicionais inimigos da renovação: 

“Com este precioso auxílio, que era dado quando necessário ou quando pedido, em reuniões reservadas, inclusive com membros da Diretoria representada pelo companheiro Montagnini, a organização da Casa caminhou rapidamente, até a formação do Conselho em 1941, cuja constituição foi outro ato dramático das atividades iniciais da Casa. Para essa formação, eram organizadas lista de nomes que eram submetidas aos assessores em reuniões especiais e ali se examinava a identidade pessoal e as possibilidades de colaboração de cada um, como engenheiros, médicos, magistrados, professores, industriais, militares, etc. 

A lista era metida na gaveta da secretaria e, no dia seguinte, os escolhidos eram confirmados com uma cruz, e os confirmados iam sendo convocados para uma reunião importante no dia 23 de setembro; na convocação, o Comandante assinava como coordenador e dizia que se tratava de importante acontecimento espiritual, do qual os convocados seriam participantes, caso o desejassem. 

No dia aprazado, cheios de curiosidade, mas reservados e em silêncio, todos compareceram e o programa foi iniciado da seguinte forma: o Comandante, presidente da reunião, tomou a palavra e explicou que a importância do acontecimento era toda espiritual, não estava em coisas exteriores, mas nas conseqüências espirituais que decorriam dela, pelo trabalho a realizar; nada havia de sobrenatural, nem se tratava de fenômenos físicos, tão em voga naqueles dias, mas sim da abertura de um período histórico-religioso, para maiores realizações de orientação espiritual para o nosso país; com a formação de um Conselho destinado a fornecer e consolidar uma mentalidade verdadeiramente cristã, em todas as suas formas e conseqüências benéficas para as almas humanas. 

Nota: Tudo foi planejado e executado nestes termos, para se poder medir, desde o princípio, a sinceridade e a disposição íntima dos elementos convocados. 

Quando parou de falar, era visível um certo desagrado entre os presentes, que se mantinham em expectativa e em silêncio. Foi anunciada, então, a segunda parte do programa: o Dr. Pacheco[45], veterano dirigente e lutador espírita, assumiria a presidência da reunião, devendo ler e interpretar um texto evangélico à sua escolha, enquanto o Comandante, acompanhado de um secretário e um médium de confiança (no caso d. Nair Ferreira) retirar-se-iam para receber do Plano Espiritual, o que fosse do seu agrado ou conveniência transmitir aos presentes. 

O secretário escalado foi o Dr. Lopes de Leão, também escolhido, e escreveu a mensagem dada por Bezerra, na qual este apelava para a boa vontade dos presentes e se referia, em imagens estimuladoras, aos grandiosos trabalhos a realizar, no presente e no futuro, para o bem da humanidade e que exigiam a formação de um Conselho altamente credenciado. 

Ao voltar ao salão, o Comandante reassumiu a presidência e mandou o secretário ler a mensagem recebida, finda a qual iniciou-se entre os presentes (não todos), uma troca de exclamações de estranheza, por limitar-se a reunião a tão pouco, como diziam, quando esperavam tanto e tão diferente do que estava acontecendo, não havendo nem mesmo algum plano de realizações a ser conhecido, examinado e discutido. 

Nesse momento, o médium desconhecido, que sem ser notado, estava assentado entre os presentes, levantou-se em transe e, em voz clara e forte, declarou: ‘O Comandante tem no bolso do paletó um plano de realizações para ser discutido e votado.’ Metendo a mão ao bolso interno, o Comandante verificou que realmente ali estava um ligeiro esboço que fizera antes, das primeiras atividades e realizações administrativas após a posse do Conselho e prontificou-se a expô-lo; mas as discussões continuaram, crescendo de vulto, havendo mesmo exclamações em voz alta, de evidente desagrado. Percebendo o perigo de infiltrações negativas, e para dominar o vozerio, o Comandante bateu na mesa, fortemente, e à sua vez, exclamou: ‘Apelo para o Espírito’, findo o que sentou-se em silêncio, concentrando-se. Então, o mesmo médium desconhecido levantou-se de seu lugar, sempre mediunizado, e firme, ereto, olhos fechados, passando rapidamente por entre as cadeiras, chegou até à mesa de direção e sobre ela abateu-se com violência, de bruços e, nessa posição, com voz forte e enérgica, dirigiu-se novamente aos presentes, dizendo, em resumo, três coisas principais: 1º) depois de tudo o quanto foi dito, ninguém pode ignorar as finalidades desta convocação e o oferecimento que se fez, de oportunidades felizes de servirem a Humanidade, testemunhando o Evangelho do Divino Mestre Jesus Cristo. 2º) Na situação atual do mundo, que tende a agravar-se, esta oportunidade é dádiva preciosa que não deve ser amesquinhada. 3º) Senão lhes bastam, para agir, a espada da fé e o escudo do Evangelho, deixem a carga já, para que permaneçam somente os possuidores de boa vontade, dispostos a colaborar nesse empreendimento de amor e redenção dos nossos semelhantes.” 

Fez-se silêncio, dentro do qual o Comandante perguntou se alguém desejava usar da palavra e, ninguém se manifestando, declarou terminada a reunião. Na sala da secretaria geral, onde muitos se congregaram em seguida, o confrade Pacheco o abraçou, lastimando não ter podido deixar de ser pedra de tropeço, ao que o Comandante respondeu que, muito ao contrário, sua colaboração fora útil porque iria ajudar a selecionar, com mais facilidade e segurança, os membros do futuro Conselho. 

Na próxima reunião, a 28 de setembro, compareceram dois terços dos primeiros convocados; foi lhes tomado o compromisso, ante Jesus, de se dedicarem, daí por diante, devotadamente, ao engrandecimento da Federação e do Espiritismo em nosso País. Foram empossados e tomaram conhecimento mais detalhado da organização da Casa e do preparo da gestão administrativa que se iniciava.” 


A presença de Armond na FEESP teve o mérito de criar um novo espaço para uma atuação doutrinária diferenciada, de grande impacto social. Mas a prática de uma assistência mais ampla, terapêutica e escolar, não permitia a interferência de nenhum fator inibidor da sua natureza expansionista. Armond era rigoroso na condução da instituição, mas não confundia esse rigor administrativo com a rigidez operacional; sua autoridade nunca significou autoritarismo e a descentralização era uma das suas metas na FEESP, pois entendia que, através dela, sempre surgiriam novas oportunidades de trabalho. Quanto ao seu tão falado estilo “prático” e “militar”, respondia e recomendava a todos que assumissem tarefas desse porte: “Quem administra desagrada”. Por outro lado, esta era uma concepção ainda mal vista na época, mesmo com o conhecimento das teses de Kardec sobre o assunto. O raciocínio mais comum era a comparação com as instituições tradicionais, incluindo uma sede central imponente e capaz de “impressionar” a sociedade. Armond pensava ao contrário: não queria quantidade nem aparência, mas qualidade real. E isso significava colocar em prática uma meta que beirava a utopia, mas que serviria de motivação e idealismo para as realizações futuras. Ele dizia que o ideal era que houvesse um centro espírita em cada esquina. 

Mas para colocar essa idéia em prática era necessário romper os limites da centralização. A ferramenta de ruptura foi encontrada dentro das Escolas de Aprendizes do Evangelho: para cada turma que se formava estimulava-se, como um trabalho de conclusão do curso, a criação de uma nova casa espírita. Nesta nova casa não deveria faltar a formação de uma turma de escola. Falando dessa idéia do Comandante, que era uma diretriz estabelecida pelos Espíritos em 1940, Jacques Conchon[46] explicaria, 35 anos depois, que as instituições espíritas sempre foram conduzidas com um certo “espírito de galinha”, “que a todo custo procura arrebanhar os pintinhos sob suas asas, sem permitir que os mesmos adquiram vida independente.” Conchon lembra também que a tendência ao assistencialismo social era também um fator inibidor da expansão do Espiritismo e definia assim o programa de Armond, sobre descentralização e multiplicação de centros através das escolas: 

“(...) Não somos favoráveis à preparação dos alunos para formarem obras assistenciais, pois, além de se tratar de competência do Centro, o trabalho estaria truncado. Vejamos: se um grupo de alunos forma um albergue, será sempre um albergue, conquanto possa crescer e aperfeiçoar-se. Por outro lado, se o mesmo grupo forma um Centro Espírita, desse foco de trabalho cristão sairá o albergue, o lar de crianças, o abrigo de velhos e, também, outros centros, dando origem, então a uma espécie de reação em cadeia.” 


Naquele contexto de explosão de novas idéias a estrutura da FEESP não comportaria por muito tempo a presença de elementos partidários dessa dinâmica expansionista. Era natural que mais tarde os seguidores de Edgard Armond quisessem tomar as rédeas administrativas da instituição para dar seqüência às suas idéias, mas isso não aconteceu. A partir do momento que o Comandante se afastou da direção da entidade em 1967, por motivos de saúde, a FEESP também foi mudando suas diretrizes e concepções, assumindo as características tradicionais da maioria das organizações do seu porte. Seis anos depois, na noite de 4 de dezembro de 1973, Armond receberia em sua residência um grupo de companheiros dispostos a revitalizar os ideais das Escolas de Aprendizes do Evangelho e dos trabalhos assistenciais padronizados, mas sobretudo os projetos de expansão. Motivados pela simbologia descrita no capítulo 12 da Gênese, onde relata-se a histórica proposta feita pela espiritualidade à Abraão, fundou-se então sob a inspiração de Armond a Aliança Espírita Evangélica. O trecho da Gênese era bem sugestivo para o momento e profético para o futuro: “Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei. E eu te farei pai de um grande povo, e te abençoarei: eu farei célebre o teu nome, e tu serás bendito. Eu abençoarei aos que te abençoarem, e amarei aos que te amaldiçoarem.” 

Apesar do nítido significado religioso, essa foi uma grande inspiração de natureza emblemática e espiritual. Não se trata, é lógico, de nenhuma pretensão personalista, mística, ou de formação de seita, como poderia parecer aos olhos preconceituosos de quem está de fora, ou como também pretendem e se comportam alguns militantes que ali atuam, mais afastados das bases doutrinárias. Armond e seu grupo viram nesse trecho bíblico não uma proposta messiânica, como normalmente seria interpretada em círculos menos esclarecidos, mas uma enorme oportunidade de empreendimento e de realização dos ideais de propagação em massa da Doutrina Espírita. Muitos acham que a causa da fundação da Aliança Espírita Evangélica foi exclusivamente uma dissidência política simplificada na divisão de dois grupos: os que eram favoráveis e os que eram contra Edgard Armond na FEESP. Outros ainda acham que a Aliança surgiu com a idéia fixa de rivalizar com a USE. Nem uma nem outra. Ele achava que tanto a FEESP como a USE tinham optado por caminhos que consideravam justos e corretos, mas isso não significava que outras alternativas de atuação espírita não fossem estimuladas. Ele não parou apenas na Aliança, patrocinando também a fundação do Setor III da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, provando que sua intenção não era rivalizar nem dividir e sim multiplicar. Sabia que as divergências, sobretudo operacionais, eram naturais e inevitáveis, quando se tratava de instituições humanas, e por isso sempre recomendou, a exemplo do que ocorreu com Paulo de Tarso no Cristianismo primitivo, a exploração de aspectos e condições ainda desconhecidos da Seara Espírita e Cristã. Num período de apenas 20 anos a Aliança Espírita Evangélica e o Setor III foram responsáveis por uma expansão física e doutrinária jamais registrada no Movimento Espírita desde os tempos de Kardec. Isso ocorreu de forma acentuada entre 1973 e 1993, com uma eufórica multiplicação de dezenas de centros espíritas, instituições assistenciais e principalmente do crescimento da propaganda doutrinária. Esses primeiros 20 anos de Aliança foram realmente tempos de inovação e expansão. É claro que a demanda social do aspecto religioso e consolador facilitou esse crescimento, mas se não fosse tal sistemática, mais acessível e pragmática, milhares de adeptos teriam buscado outras alternativas, incluindo as seitas pentecostais. Nesse período de meio século a dinâmica operacional da Escola também veio sofrendo mudanças necessárias à sua sobrevivência diante das intensas transformações da mudança de século e milênio. As grandes turmas que chegavam a ter centenas de alunos numa só classe, alinhadas em grandes auditórios nos tempos da FEESP, foram sendo substituídas pelos pequenos núcleos de formato circular, típico das terapias em grupo. Antes o aluno sentava e ouvia “palestras” de expositores hábeis na técnica de oratória; hoje, tanto os expositores como os dirigentes são treinados para serem “facilitadores” do potencial dos alunos; a doutrinação diretiva, centrada no expositor e no dirigente, mais adequada aos auditórios, vem sendo trocada pela postura não diretiva e centrada no grupo. Para tanto, não só os alunos, mas os agentes “facilitadores” tiveram que empreender uma nova e crucial etapa de reforma íntima. Os que não se adaptam ao novo dinamismo correm o risco de “falar para as paredes”, ante a indiferença, a dispersão e a evasão da turma. Como método iniciático e seletivo a evasão de alunos em grande número é vista como um fato normal; porém, no aspecto educativo, portanto, não de exclusão, mas inclusão, tal evasão representa um fracasso educacional que frustra os dirigentes, que se sentem imediatamente responsabilizados pelo problema. Atualmente existem duas tendências de concepção metodológica nessas escolas: uma que acompanha a transformação da escola e do mundo nos últimos 50 anos, entendendo que a solução é a simplificação do método; a outra é aquela que ainda não sentiu a necessidade de tais mudanças e insiste, inclusive, em aumentar o tempo de duração da escola, pois vê nisso uma garantia de qualidade de aprendizagem. 

Para o Comandante Armond e seus companheiros da primeira hora, tudo o que está escrito no capítulo 12 da Gênese não se referia pessoalmente, em momento algum, à ele, aos seus amigos, muito menos às instituições que surgiram estimuladas por essa inspiração. Porém, as palavras dos Espíritos para Abraão significavam o ponto-chave para que todos compreendessem as potencialidades e responsabilidades do Movimento Espírita naquele contexto. A idéia de uma Aliança estava bem distante de uma simples instituição humana com finalidades hierárquicas e burocráticas, e bem mais voltada para o verdadeiro sentido que ela encerra, que é o simbolismo de compromisso espiritual. Era essa a dimensão que Armond pretendia dar ao Movimento Espírita. Ao lermos suas obras, percebemos que tinha plena consciência da importância histórica do Espiritismo e da ampla missão do seu fundador e codificador. Para ele era evidente a analogia entre Abraão e o Espiritismo. Mais do que um escritor, foi um militante extremamente ativo, num setor diferente daqueles existentes, e que se comportava como alguém que se viu na obrigação de ressaltar um aspecto muito esquecido da obra do mestre lyonês: o Evangelho. Num de seus livros[47], ele chega a fazer uma citação curiosa sobre o advento do Espiritismo no Planeta e sua ligação com o Brasil. Afirma ele que a Codificação foi, originalmente, um projeto espiritual para ser efetivado no Brasil, com a reencarnação do Espírito que viria a ser Allan Kardec, em terras brasileiras, após a Independência do País, ainda no século XVIII, fato que seria levado a efeito com o levante da Inconfidência Mineira, mais ou menos em 1792. Como houve o fracasso histórico da rebelião, por razões conhecidas e, também, por influência de forças espirituais negativas sobre elementos moralmente fracos envolvidos na trama, o plano teve que ser transferido para a Europa, pois a França seria, naquele contexto, o local ideologicamente mais adequado para que Allan Kardec realizasse sua missão. Mesmo nascendo no Brasil, o pseudônimo Allan Kardec viria à tona, como veio para Rivail na França, pela via mediúnica. Outra opção na época seria os Estados Unidos. É uma informação a ser refletida, para compreendermos o porquê da expansão peculiar da Doutrina Espírita no Brasil e sua decadência na França, após o desencarne de Kardec e de seus continuadores da primeira hora. Como Bezerra de Menezes, seu mais próximo mentor espiritual, Armond é um discípulo do Espírito Ismael e sempre defendeu a idéia de que o Brasil foi escolhido para ser o centro da civilização do Terceiro Milênio e matriz da Sexta Raça planetária, evidentemente não no sentido de poder material, bélico ou político que se dá às civilizações atuais. Para ele, a reencarnação em terras brasileiras de uma grande coletividade de Espíritos voltados para essa finalidade é bem mais significativa do que nas demais nacionalidades do mundo. Patriota, profundo admirador do alferes Joaquim José da Silva Xavier e estudioso da Inconfidência, foi ele provavelmente que incentivou a Força Pública paulista a adotar a figura do Tiradentes como patrono daquela instituição. Dentre as Fraternidades do Espaço que cita com grande freqüência em suas obras está a “Fraternidade da Lei Áurea”, formada por “legiões de índios, de negros, de bandeirantes, de médicos, juristas, escritores, militares, todos compromissados a lutar por um Brasil mais feliz e evangelizado”. Entre os seus membros encontram-se personalidades como “Rui Barbosa, Duque de Caxias, Isabel de Bragança, Humberto de Campos, José do Patrocínio, Gonçalves Dias, Escragnole de Taunay, inclusive companheiros que trabalharam na seara espírita anteriormente, como Cairbar Schutel, Leopoldo Machado, Djalma de Faria, Militão Pacheco, etc. Observam-se também grupos de enfermeiras ostentando uniformes antigos e modernos, formando as equipes de Ana Néri, Scheila e Florence Nightingale, que desenvolvem valiosa cooperação em vários setores de atendimento. Cada uma dessas legiões possui seu distintivo próprio e uma insígnia especial de identificação e reconhecimento”. 


A BUSCA DA UNIFICAÇÃO E O PACTO ÁUREO

“Se entre os adeptos do Espiritismo há os que diferem de opinião sobre quaisquer pontos da teoria, todos concordam sobre os mesmos pontos fundamentais.” - Allan Kardec, Conclusão de O Livro dos Espíritos, item IX. 


A idéia de unificação do Movimento Espírita já era uma antiga preocupação de Allan Kardec, que sabia ser ela um dos pontos fundamentais para concretização social da doutrina. No Brasil, as primeiras tentativas nesse sentido não tiveram o resultado esperado devido ao intenso debate ideológico entre “místicos” e “científicos”, cujas concepções doutrinárias antagônicas impediam o diálogo unificador. Esse é um tema controvertido e árido, pois sua essência é o jogo político das negociações, de divergências e convergências, de avanços e recuos, de recusas e concessões, de extremismos e moderações, ofensas e perdões, enfim da difícil arte de conviver com as diferenças e de chegar o mais próximo possível do ponto de equilíbrio entre o ideal e o real. Enquanto permanece na esfera da razão, a política consegue driblar e superar os obstáculos, mas quando penetra no campo da emoção os impasses não se diluem facilmente e muitos chegam mesmo a se cristalizarem. 

Mas como unificar algo que é estruturalmente dividido? Como cultivar a unidade num terreno fértil e apropriado para a diversidade? 

Na época de Kardec este era um assunto para o futuro, mas no tempo de Edgard Armond tornou-se palavra de ordem institucional, prioridade que deveria assumir marcas decisivas. O assunto vinha sendo adiado desde o final do século XIX e agora tinha chegado no seu limite. Já em 1943, numa conferência[48] proferida na FEESP, Armond via esse problema, não com a ansiedade imatura dos sonhadores e sim na perspectiva histórica e realista com que o tema deveria ser encarado. As divergências tinham suas raízes não apenas no passado recente, mas também nas reminiscências dos tempos remotos nos quais formamos o nosso sangue ideológico. Portanto, era preciso agir com cautela e paciência. Observando o comportamento de Kardec e dos Espíritos co-autores da Codificação, o Comandante refletia com certa tranqüilidade sobre um tema que normalmente provocava incêndios de idéias e ânimos calorosos na maioria dos grupos: 


“É fora de dúvida que a Terceira Revelação se limitou a assentar as bases fundamentais da doutrina e quando se referiu a fenômenos objetivos, fê-lo somente no grau que comportava a inteligência da época, o que aliás, é comum suceder porque, como sabemos, a revelação divina tem sido sempre parcial e progressiva. 

(...) Nisso vemos a sabedoria que inspirou o Codificador, não se referindo a coisas que só serviriam para estabelecer confusão em mentes retardadas, discórdia em agrupamentos pouco coesos, separação entre adeptos ainda imperfeitos de uma doutrina de tão alta espiritualidade. 

Os Espíritos não quiseram, como se vê, dar campo a divergências, sabendo como sabem que todas as religiões, surgindo centralizadas e uniformes em seus nascedouros, logo depois se dividem, cindem-se em agrupamentos diversos formando cultos e seitas que, conquanto muitas vezes permaneçam fiéis à origem comum, apresentam no correr dos tempos, por efeito da intervenção do agente humano, aspectos diferentes, mais ou menos profundos, de compreensão e interpretação”. 


Ao fazer essa comparação inevitável com as religiões do passado e a atuação experiente dos Espíritos na construção de uma nova proposta nesse setor, Armond sintetizou admiravelmente o problema da unidade espírita. Explica ainda porque, no Brasil, a doutrina tem insistido no seu principal suporte moral, ainda que pecando nos exageros do fanatismo religioso. Faz também uma revelação sobre quem está por traz dessa lenta movimentação: 

“Apesar da Codificação a doutrina não é compreendida por todos da mesma forma e no mesmo sentido; nem mesmo é alimento comum para todos os paladares e em todos os climas. Por isso agrupamentos vão se formando aqui e ali, mais ou menos numerosos e coesos, tentando reunir-se em torno a estandartes comuns. Parece que as esperanças da Codificação já estão se realizando: não tendo havido nascedouro determinado; não tendo a doutrina surgida centralizada, caminha agora em sentido inverso, tentando unir-se ao invés de separar-se”. 

Outro detalhe notável é este: nesse panorama geral um ponto se destaca como o mais nítido, mais definido, de movimento mais acelerado e mais amplo – o Brasil – onde o movimento já atingiu um grau de cristalização apreciável tendo, além disso, encontrado um ponto comum de concordância: o Evangelho do Cristo, onde já formou um corpo bem plasmado cuja cabeça, nos planos espirituais, ligados ao nosso país é aquele que denominamos o apóstolo brasileiro, Bezerra de Menezes, o guia desta Casa.” 


Voltemos um pouco no tempo. No Brasil a busca de um ponto de convergência teve início no Rio de Janeiro nas históricas disputas entre “místicos” e “científicos”, respectivamente simpatizantes do aspecto religioso e da estrita abordagem filosófico-experimental da Doutrina. No centro das divergências estava o choque entre as idéias de Allan Kardec e as J.B. Roustaing. Essas preferências pelas partes ou pelo todo da obra de Allan Kardec era apenas o pretexto que escondia a vaidade do poder, o personalismo e a paixão por assuntos polêmicos. Inicialmente, o ponto de equilíbrio entre essas duas facções, essencialmente radicais nas suas definições e preferências, foi projetado na figura prática e pacificadora de Bezerra de Menezes. A fundação da Federação Espírita Brasileira foi também um dos lances históricos marcantes desses acontecimentos. Bezerra percorria todos os focos de dissidências, já que possuía amigos em todos os cantos, semeando a paz em forma de cooperação e tentando “juntar as peças da máquina que se propusera fazer funcionar”. Surge, então, a idéia da Escola de Médiuns, uma boa oportunidade para unir as facções, idéia, aliás, do Espírito de Kardec, recebidas por Frederico Júnior. Canuto Abreu[49] recorda que “Instalada solenemente a ‘Escola de Médiuns’ só lhe apareceram professores...” Canuto Abreu recorda também que o projeto original da Federação era simpático não só no Brasil, mas também na Argentina, Uruguai e Portugal, que passaram a ver na FEB um modelo de organização. 

O desencarne de Bezerra de Menezes mudaria esse panorama. Enquanto esteve a frente da FEB as dissidências não desapareceram, porém não encontravam tanto eco como nos primeiros tempos. Sua figura combativa através da imprensa parecia afastar essas sombras de divergência. O que Bezerra fazia não eram decretos, mas exemplos para os quais todos estavam atentos. Como nos conta ainda Canuto Abreu, é só lembrar da sua histórica adesão ao Espiritismo, anunciada na Federação, no auditório da rua Guarda Velha, em 16 de agosto de 1886, cujas conseqüências repercutem até hoje: deixamos de ser acéfalos porque ganhamos um verdadeiro líder; a imprensa noticiou o fato como um grande furo de reportagem, aumentaram as vendas de livros espíritas, os telégrafos foram acionados em todas as direções levando a boa nova aos lugares mais distantes, a inquietação instalou-se entre os círculos católicos e, finalmente, cresceu o número de adesões à Federação. 

Mas Bezerra partiu. E, sendo o Rio a capital federal, a FEB continuou posicionada numa suposta condição oficial de entidade federativa nacional, com a clara intenção de reger todas as instituições do País. A idéia dos Espíritos e de Bezerra era “congregar”, mas seus sucessores gostaram mais do verbo “dirigir”, talvez, segundo os críticos, mais compatível com seus objetivos pessoais. Mas nos outros Estados essa idéia não teria a mesma repercussão idealizada no Rio. Nem o trabalho semeador do Major Viana de Carvalho, fundador de várias federações estaduais, conseguiria diminuir a tendência de autonomia regional. Talvez por influência da antiga estrutura federalista da República Velha (uma antiga tendência de reação contra o centralismo da corte imperial) a formação da FEB, ao contrário de muitos que pretendiam a centralização, inspirou o espírito da independência. Esse espírito de autonomia republicana no interior paulista – reacendido pelo Movimento Constitucionalista de 1932 – é visível na existência, por exemplo, de entidades como a Federação Espírita da Alta Paulista, provavelmente de 1939. Na Capital paulista, na década seguinte, surgiriam mais quatro importantes entidades com as mesmas características políticas: a União Federativa Espírita Paulista, de 1933, a Liga Espírita do Estado de São Paulo, de 1944, a Federação Espírita de São Paulo, entre 1936 e 1939, e também a Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, a mais famosa e atuante casa espírita de caridade daqueles tempos, fundada em 1916 pelo português José Trindade. Todas elas alimentavam pretensões de liderança e manifestavam a necessidade de solucionar o problema evidente da dispersão e da confusão doutrinária. Os registros oficiais públicos acusavam a existência de mais de 700 centros espíritas, dos quais nem um terço tinha qualquer tipo de vínculo federativo. Foi então que, em 1947, Edgard Armond decidiu colocar em prática a tese de 1943. Fazendo-se portador da vontade de muitos confrades que ansiavam por essa iniciativa, propôs o primeiro plano de congregação de todas as entidades federativas numa única sigla, denominada União Social Espírita - USE. Nas primeiras reuniões ficou estabelecido, de comum acordo, que o plano seria executado através da convocação de todas as entidades para a realização de um congresso estadual. O pretexto principal seria o argumento de que era necessário a realização de um levantamento estatístico do Movimento Espírita. Mas o motivo principal era, na verdade, responder os questionamentos de uma pesquisa feita em 1945 sobre o perfil das instituições e também corrigir os erros denunciados pelas expectativas dos entrevistados. A pesquisa acusava o risco de grave comprometimento do Movimento Espírita através da presença de lideranças sem preparo doutrinário, de práticas estranhas aos princípios da Codificação, de sincretismo religioso e da infiltração de ideologias político-partidárias. O perfil era preocupante e o contexto muito delicado. A história[50] não se repetia, a propósito da experiência da fundação da FEB, no século XIX. Como sempre, os problemas não tinham sido atacados nas suas causas, daí os seus efeitos retardados. Semelhante ao que já acontecera 63 anos antes no Rio, todos os interesses que pudessem servir de elementos polêmicos e desagregadores teriam que ser cuidadosamente removidos dos objetivos gerais. Armond achava que o principal deles era o fator político-partidário, tradicional centro de orgulho e vaidades. Essa medida daria a ele muitos adversários gratuitos, frustrados em suas intenções de usar o Movimento Espírita para fins eleitorais particulares. Muitos deles se vingariam do Comandante transformando-o em bode expiatório da pureza doutrinária, incorporando em seus discursos os famosos ataques e acusações de esoterismo e orientalismo. Esses discursos fizeram escola e foram adotados até por quem desconhece as suas verdadeiras origens, sendo, ainda hoje muito utilizados como propaganda pessoal e rasteira de alguns deputados e vereadores “kardecistas” nas aberturas de eventos espíritas. 

Entre 30 de março e 4 de abril de 1946, um ano antes do congresso proposto por Armond, tinha sido realizado na cidade paulista de Marília, com enorme sucesso, o 1º Congresso Espírita da Alta Paulista. Seus organizadores eram ninguém menos que o médium Urbano de Assis Xavier (companheiro de Cairbar Schutel) e o jovem José Herculano Pires. Nesse evento já houvera uma tentativa, por parte de membros da FEESP, de tirar dividendos partidários do encontro. Diante da rejeição veemente do plenário e também da ação de Pedro de Camargo “Vinícius” e Armond, os pretendentes recuaram. Mas essa idéia parecia ser um tanto natural naquela época. O próprio Vinícius fora portador, de boa vontade, dos planos de seus companheiros. Luis Monteiro de Barros, mais tarde presidente da FEESP e da USE, chegou a propor, neste congresso, a formação de um partido político espírita-cristão. Mas o fato que mais chocou a comunidade espírita também aconteceu em 1947. Pedro Batista Pereira, um militante relativamente conhecido, tentou eleger-se deputado usando de um expediente pouco ortodoxo: forjou uma mensagem mediúnica de Bezerra de Menezes e uma lista de nomes de líderes espíritas que apoiavam sua “candidatura espírita”. Essa fraude foi denunciada nos órgãos de imprensa por Herculano Pires. 

Nas décadas de 1960 e 1970 as investidas políticas continuaram atuantes. Surgiram representantes da febre social-marxista e também os admiradores e coniventes com a ditadura militar instalada em 1964. Novamente Herculano Pires lançou-se como o nosso anticorpo contra esses vírus partidários oportunistas. Jorge Rizzini afirma que, no 3º Congresso Educacional Espírita Paulista, em 1970, ele derrubou a tese “Espiritismo e Socialização”, defendida pelo jovem marxista de Campinas, Adalberto Paranhos. Essa tese era apadrinhada pelo Dr. Ary Lex, filiado ao Partido Socialista Brasileiro e várias vezes candidato espírita. Nas suas memórias[51] Ary Lex afirma exatamente o contrário: “A bem da verdade, precisamos dizer que Herculano não conseguiu vencer a argumentação notável do jovem socialista”. Foi um embate do tipo “A César o que é de César...”, no qual Herculano usou como arma sua famosa tese do Reino. 

Finalmente, a 5 de junho de 1947, realizou-se o histórico 1º Congresso Estadual Espírita do Estado de São Paulo. Ao todo foram enviadas 34 teses sobre os mais diferentes temas, incluindo os “politizantes”. Num exaustivo trabalho de seleção entre 25 trabalhos apresentados, uma comissão composta por Herculano Pires, Pedro de Camargo “Vinícius”, Luiz Monteiro de Barros, Roberto Previdello e Manoel Pizarro, escolheu como tese vencedora a proposta de Edgard Armond. No mesmo dia 5 de junho fundava-se a União Social Espírita, que em 1952 passaria chamar-se União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo - USE. Tendo como primeiro presidente o seu idealizador – Edgard Armond –, a USE contava agora com a adesão de 551 instituições espíritas. Concluindo seus objetivos, que eram na verdade metas dos Espíritos que inspiraram todas essas iniciativas, Edgard Armond afasta-se da USE recomendando também aos seus companheiros da FEESP que não se candidatassem a cargos eletivos naquela entidade. Era uma forma de esvaziar o caráter competitivo e possíveis reações divisionistas que vissem nessas candidaturas uma tentativa de supremacia da FEESP sobre a USE. Armond não foi ouvido e tanto tinha razão que, em 1952, já no 3º Congresso Estadual Espírita, alguns membros da FEESP tentaram fundi-la com a USE. 

No seu estudo sobre a história da unificação Mauro Quintela lembra que todo esse conjunto de fatos históricos foi sendo sistematicamente ignorado pelos dirigentes da Federação Espírita Brasileira, para quem a imagem de “Casa-Mater” deveria ser preservada de todas essas divergências dos seus “filhotes”: 

“O movimento nacional, porém, continuava acéfalo. A FEB nada fazia pela unificação (...) Atendendo as sugestões de Michelena (Roberto Pedro), na época presidente da FEERGS, Edgard Armond, através da FEESP, enviou uma carta à Federação, datada de 11 de setembro de 1947, informando que o Estado de São Paulo pretendia realizar um congresso nacional, mas como diversas federativas estaduais defendiam que o patrocínio do certame cabia à FEB, o movimento paulista transferia a ela a solução do caso. Mais de dois meses se passaram sem resposta. No dia 4 de dezembro de 1947, a FEERGS, através de Pedro Michelena, dirigiu-se em carta à FEB, pedindo que ela respondesse favoravelmente ao convite dos confrades paulistas e encampasse a idéia do congresso. Finalmente a Federação Espírita Brasileira respondeu à FEESP no dia 28 de dezembro de 1947, informando que não patrocinaria o evento. Diz a carta em certo trecho: “...na hora presente assoberbam-nos dificuldades e copioso trabalho, empenhados que estamos na conclusão de obras vultosas, que nos consumirão cerca de três milhões e quinhentos mil cruzeiros, ampliando nosso Departamento Editorial (...) Ficaremos, assim, à margem do caminho, sem razões imperiosas que nos levem á precipitação do vosso(...) empreendimento, porque o julgamos, para nós, deveras inoportuno.” 


Com essa aparente indiferença, típica dos antigos regimes monárquicos, os dirigentes da FEB sempre se recusaram a reconhecer os eventos que não tivessem a sua participação como centro de destaque. Essa postura maternal controladora veio sendo ampliada no decorrer dos anos, com estímulo, inclusive, de fatos políticos como a transferência da capital federal do Rio para Brasília. A literatura mediúnica, repleta de revelações, também estimulou esse comportamento centralizador, como este texto do Espírito de Humberto de Campos[52]: 

“A realidade é que, considerada às vezes como excessivamente conservadora, pela inquietação do século, a respeitável e antiga instituição é, até hoje, a depositária e diretora de todas as atividades evangélicas da Pátria do Cruzeiro. Todos os grupos doutrinários, ainda os que se lhe conservam infensos, ou indiferentes, estão ligados a ela por laços indissolúveis no mundo espiritual. Todos os espiritistas do país se lhe reúnem pelas mais sacrossantas afinidades sentimentais na obra comum, e os seus ascendentes têm ligações no plano invisível com as mais obscuras tendas de caridade, onde as entidades humildes, de antigos africanos, procuram fazer o bem aos seus semelhantes.” 


Interpretações particulares dessa revelação ou opinião pessoal de Humberto de Campos sobre a FEB não só fez crescer o interesse político de grupos em torno da sua condução, mas também a oposição dos seus críticos diante da propagação de polêmicos e confusos conceitos doutrinários emitidos por seus dirigentes, demonstrando grave despreparo cultural. Por mais que os seus diretores tentassem negar essa tendência, a FEB prosseguia na trajetória centralizadora, persistindo no seu auto-conceito maternal. Prova disso foi a postura dos seus dirigentes no esforço de autenticar e depois historicizar o famoso acordo de unificação nacional denominado “Pacto Áureo”, feito em 5 de outubro de 1949. Essa articulação surgiu como um efeito do 2º Congresso Espírita Panamericano, que estava sendo realizado, no mesmo dia, no Rio de Janeiro. Ali havia tomado força uma tese de fundação de uma “Confederação Espírita Brasileira”, proposta pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, e que foi política e naturalmente vista como uma ameaça aos propósitos da FEB. O então presidente da FEB, Wantuil de Freitas, conseguiu reunir em seu gabinete alguns representantes de entidades que participavam do congresso para conversar sobre uma proposta de acordo ou um novo Conselho Federativo para a entidade. Eram 18 os pontos da proposta apresentada habilmente pelo presidente da FEB e que foram aceitos sem nenhuma reação aparente. O fato foi testemunhado por Leopoldo Machado, que estava, por acaso, na porta da Livraria da FEB e, segundo este, foi precedido por uma grande atuação psíquica de ativistas do mundo espiritual, favoráveis e contrários à idéia. A maioria dos relatos desse episódio tendem para uma abordagem mística e respeitosa do evento, inclusive a do Dr. Ary Lex[53], conhecido contestador de comunicações mediúnicas: 


“Numa noite de intenso calor, em 3 de outubro de 1949, Carlos Jordão da Silva desce, com sua esposa, à Praça Mahatma Gandhi, para tomar a fresca. E, fato incrível, sem nenhuma combinação prévia, vão chegando ao mesmo local os componentes das demais delegações. Estranho encontro, no qual a unificação nacional passa a ser o tema. Como era muito tarde, continuaram a reunião às 8 horas da manhã dia 4, no apartamento de Jordão. Manifesta-se o espírito de Guillon Ribeiro, que os incentiva à rápida ação. ‘Encontrem o mais rápido possível uma forma de entrelaçamento, pois existe uma falange de espíritos reacionários lutando acirradamente contra esta união’. Procuraram, então, o Dr. Lins de Vasconcelos Lopes, que era muito ligado à FEB. Saltemos detalhes. Na tarde de 5 outubro de 1949, o protocolo de unificação nacional foi assinado na sede da FEB, protocolo que passou a ser conhecido como ‘Pacto Áureo’. Por meio dele, criou-se, junto à FEB, o Conselho Federativo Nacional, cujo objetivo imediato era a confraternização da família espírita brasileira”. 


Assim, a FEB não abriu mão da sua liderança histórica, pois não houve abertamente nenhum tipo de contestação entre os presentes, evidentemente porque, cautelosos, os mesmos temiam perder essa rara oportunidade; porém, emocionalmente envolvidos e tocados em seus compromissos pré-encarnatórios e ideológicos com o Espiritismo, aceitaram todos os itens apresentados por Wantuil de Freitas. Na ata consta nomes de conhecidos membros da USE como Pedro de Camargo “Vinícius” e Carlos Jordão da Silva, mais dez membros de federações de Minas, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, todos intermediados por Lins de Vasconcelos, da Liga Espírita do Brasil, a pedido do presidente da FEB. Como se esperava, muitos intelectuais como Herculano Pires, Júlio de Abreu Filho e Deolindo Amorim, bem como outros militantes de peso, reagiram e se pronunciaram abertamente contra esse documento, negando sua validade institucional e histórica. Nem a participação de pessoas respeitáveis e representantes de entidades reconhecidas poderia dar autenticidade ao “pacto”. Para eles, à boa vontade de alguns somou-se a ingenuidade de outros para coroar, segundo Herculano, as intenções “vaticânicas” da FEB. Entre 1949 e 1950 Wantuil de Freitas ainda procurou realçar as conquistas do pacto convocando Leopoldo Machado a liderar a chamada Caravana da Fraternidade, cuja missão era percorrer os estados do Norte e Nordeste e divulgar a idéia do Conselho Federativo Nacional. Participaram dessa caravana o médium Ary Casadio, Lins de Vasconcellos, Carlos Jordão da Silva e Francisco Spinelli. Segundo Ary Lex, merece destaque nessa história toda a atuação de Carlos Jordão da Silva que, mesmo não concordando com algumas diretrizes propostas pela FEB, trabalhou durante anos nesse complicado processo de negociações, agindo sempre com a paciência do político sábio, a humildade do servidor de uma causa coletiva e maior que suas opiniões; e finalmente a resignação dos que sabem silenciar e recuar em momentos delicados para preservar as oportunidades de avançar nos momentos possíveis. 

Mas sempre que esse comportamento auto-suficiente da FEB ultrapassava os limites da tolerância, os seus “filhotes” reagiam lembrando que a “Casa-Mater” deveria ser o exemplo máximo de ética e boa conduta, moral e doutrinária, com relação a Kardec e Jesus. Herculano Pires justificou assim as suas atitudes perante alguns fatos constrangedores gerados na Federação: 

“As atitudes da atual direção da Casa de Ismael, a Federação Espírita Brasileira, célula-mater do Espiritismo no Brasil, herdeira das tradições de abnegação e de trabalho de Bezerra de Menezes, são de molde a causar espanto aos mais tolerantes confrades. Nada se poderia esperar de mais anti-espírita, de mais condenável do ponto de vista evangélico, do que a maneira porque vêm procedendo os responsáveis pela entidade que devia ser a orientadora suprema do movimento espírita brasileiro. E não pensem os leitores que somos contra a Federação. Muito pelo contrário, somos velhos admiradores da casa que simboliza o primeiro marco da doutrina em nossa pátria, e justamente por isso não podemos calar a nossa crítica a todos aqueles que procuram desviá-la do verdadeiro rumo”. 


É claro que não podemos esquecer que a FEB, através de seus dirigentes e assessores, sempre soube alimentar e explorar politicamente essa imagem histórica maternal e, além do mais, detinha os direitos autorais das mais importantes obras literárias de Chico Xavier e outros importantes autores, montando e dirigindo também o mais influente departamento editorial do Movimento Espírita. Isso lhe garantia um certo prestígio, muitas vezes abalado pelas confusões doutrinárias e atitudes pouco esclarecidas de alguns dos seus dirigentes. O tempo foi passando e a unificação, mais uma vez, teve que esperar novos ventos favoráveis. 

Em 20 de abril de 1963, em Uberaba, Chico Xavier psicografou uma mensagem de Bezerra de Menezes, não só histórica, mas profundamente realista e profética, intitulada “Unificação”. Era uma confirmação, 20 anos depois, da conferência de Edgard Armond: 


“O Serviço de unificação em nossas fileiras é urgente, mas não apressado. Uma afirmativa parece destruir a outra. Mas não é assim. É urgente porque define o objetivo a que devemos todos visar; mas não apressado, porquanto não nos compete violentar consciência alguma. Mantenhamos o propósito de irmanar, aproximar, confraternizar e compreender e, se possível, estabeleçamos em cada lugar, onde o nome do Espiritismo apareça por legenda de luz, um grupo de estudo, ainda que reduzido, da obra de Kardequiana, à luz do Cristo de Deus. 

Nenhuma hostilidade recíproca, nenhum desapreço a quem quer que seja. Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” 


Aqui Bezerra é realista porque sabe que a unificação espiritual deve anteceder a institucional. A primeira enfatiza as semelhanças enquanto a segunda somente tem acentuado as diferenças. A mensagem é sincera, porém está carregada da marca místico-religiosa típica da sua personalidade e que certamente provoca a rejeição daqueles que não comungam nessa vertente e até identificam no Médico dos Pobres uma influência roustanista. Mas ainda hoje, apesar do esforço incessante dos Espíritos e de algumas pessoas de boa vontade, ainda fortemente estimulados por esta mensagem, a unificação integral permanece no ar, como um projeto para o futuro. Eles tentam, com muito empenho, juntar as partes para fazer prevalecer o consenso pela idéia de inclusão, ressaltando as semelhanças e o respeito às diferenças. Essa desgastante luta entre o ideal e o real tem sido a marca característica das discussões em torno dessa idéia, mesmo porque as instituições ainda são meras representações, confusas e contraditórias, do mundo interior dos seus membros. Nelas estão sendo sublimados todos os sentimentos, raciocínios e atitudes, sem uma definição mais precisa e direcionada, que todos nós trazemos em nossas experiências. Quando todas essas idealizações tornarem-se realidade, provavelmente o Espiritismo não estará mais dependendo tanto delas para propagar os seus princípios. Estaremos, com certeza, no tão esperado Sexto Período, previsto por Kardec, acéfalos, institucionalmente falando, porém resolvidos e atuantes, ainda que anônimos, em todos os setores da Sociedade, sobretudo nos valores pessoais dos seus cidadãos. 


HERCULANO PIRES E AS CONTROVÉRSIAS  

“Homem nenhum é capaz de progredir quando treme diante das coisas contraditórias” - Epictetus .


Uma nova onda de pentecostalismo, iniciada nos Estados Unidos, aportou no Brasil no início da década de 1970 e logo surgiria uma reação natural contra as preferências religiosas do povo. Na década seguinte um grupo de pastores neófitos deu início então a uma campanha de difamação do Espiritismo, divulgando o boato de que Allan Kardec cometera suicídio. As informações partiam dos programas de TV e rádio e se propagavam rapidamente em milhares de igrejas “evangélicas”. Muitos espíritas ficaram indignados e impotentes diante, não das calúnias, mas dessa atitude desleal e degradante. Não havia muito que fazer, mas todos sentiram a falta de Herculano Pires. Se estivesse encarnado, teria rapidamente localizado o atestado de óbito de Kardec e muitos outros documentos publicados na época para fazer a defesa da memória do Codificador. 

Como já dissemos sobre a maioria dos militantes espíritas pós-Kardec, o jornalista Herculano Pires também marcou época, sem, no entanto, representar uma ruptura com as tendências anteriores. Herculano não inovaria no Movimento Espírita Brasileiro. Muito pelo contrário, tornou-se um símbolo contemporâneo do nosso conservadorismo. Isso não é demérito, pois conservadorismo também pode ser sinônimo de dinamismo. Sua atividade profissional no jornalismo deu à sua militância no Movimento um sentido de vigilância constante contra os ataques de deturpação da Doutrina nos meios de comunicação. Defendia com argumentos fortes e atacava com denúncias estratégicas, bastante carregadas de reminiscências ideológicas de outras existências, não poupando nem mesmo reconhecidas instituições e lideranças espíritas. No terreno prático, Herculano vai imitar o médico e jornalista baiano Luiz Olímpio Telles de Menezes e seguir os passos apostolares de Cairbar Schutel, de quem, aliás recebia uma influência espiritual mais direta em instruções de ação. No aspecto intelectual, foi um herdeiro de Léon Denis na imitação do mestre Kardec,  elegante no estilo e combativo na defesa dos princípios espíritas, segundo ele, constantemente agredidos por adversários e também por adeptos com deficiências de conhecimento doutrinário. Era um típico espírita “romântico”, do histórico século dessa ideologia, no bom sentido da palavra, apaixonado pelo aspecto filosófico e poético do Cristianismo revivido pelos Espíritos e profundamente comprometido com a forma estrutural da Doutrina. Ainda hoje é visto como o nosso homem da letra, o principal exegeta e guardião da Codificação. Trouxe gravado na alma uma forte influência da encarnação anterior, quando teria animado, na Europa do século XIX, a personalidade do escritor português Alexandre Herculano (1810-1877), contemporâneo, portanto, de Allan Kardec. O grande escritor português estivera exilado na França, onde conheceu o Espiritismo, mas não teve a coragem de abraçar publicamente a doutrina, por questões de tradição familiar e social da sua pátria. Havia se destacado não só como romancista histórico, mas historiador da Inquisição em Portugal, assunto que lhe deu a fama de anti-clerical. Desencarna em 1878 e, no mundo espiritual, desperta para o ideal do Consolador. Apenas 36 anos depois reencarna na pequena cidade paulista de Avaré, em 1914, trazendo na memória espiritual uma tarefa muito interessante. Pessoalmente, deveria exemplificar sua adesão pública ao Espiritismo e, como prova, amargar socialmente o alto preço dessa atitude corajosa; socialmente, como militante, teria que ampliar a presença da Doutrina nos mais diversos segmentos onde ela pudesse facilitar a transformação das pessoas e do meio. 

Realmente, nessa existência, o grande jornalista optou pelo Espiritismo e fugiu do brilho na galeria dos homens de fama, levando sempre uma vida discreta e de sacrifícios. O autor de um livro sobre sua vida e obra classifica-o, com certa dose de exagero, como um “Espírito Superior”. Provavelmente o próprio Herculano se sentiria ofendido com tal elogio, já que há apenas uma existência não tivera ainda a maturidade suficiente para compreender e aderir à doutrina dos verdadeiros Espíritos Superiores. Sua superioridade não era de natureza hierárquica, no sentido da escala espírita proposta por Kardec, como talvez quis mostrar o seu biógrafo e amigo Jorge Rizzini , e sim no grande esforço que realizou para assimilar e comunicar intelectualmente as informações que havia recebido na erraticidade e que agora teria que vivenciar na carne. Era, portanto, mais uma tarefa pessoal do que propriamente uma missão da amplitude daqueles que o precederam, incluindo seu principal mentor. A informação sobre sua existência passada na pele do famoso escritor português, provavelmente revelada pelo médium Chico Xavier, com quem Herculano possuía fortes laços de amizade, não foi dada abertamente e sim através de pistas deixadas pelo próprio Herculano Pires, mas confirmada por familiares, segundo o biógrafo.  Mesmo assim, a realização da sua tarefa foi surpreendente e tornou-se, como tantas outras, muito útil aos objetivos do Espírito Verdade. Partiu da busca constante da superação de limites pessoais e rapidamente penetrou num terreno mais amplo, no qual preferiu não avançar tanto quanto fizeram alguns poucos missionários que conhecemos. 

As marcas principais de Herculano foram a “pureza” e a “fidelidade” doutrinárias, tarefas oportunas num momento de confusões institucionais e fartas manifestações de sincretismo. Antes de conhecer o Espiritismo foi um típico católico insatisfeito com as tentativas de compatibilidade do dogma com a razão. Buscou respostas no espiritualismo esotérico, mas, aos 22 anos de idade, rendeu-se aos argumentos didáticos e objetivos de Allan Kardec ao ler O Livro dos Espíritos. Esse primeiro impacto teórico do Kardec professor e jornalista seria reforçado muitos anos depois, quando conheceu a edição francesa da Revue Spirite.   

Esse perfil conservador, admirável em certos aspectos, manifestou-se em Herculano e nos seus seguidores na forma de ortodoxia defensiva e do culto à pureza doutrinária do Espiritismo. Durante toda sua vida lutou para equilibrar essas tendências limitadoras com o espírito herético e progressista que o Espiritismo provoca nas pessoas. Assim como os apóstolos de Jesus tinham, cada um deles, suas diferentes características de personalidade e tendências ideológicas, os seguidores de Kardec também trilham na mesma linha de diversidade de comportamento para desempenhar tarefas com as quais mais se afinam mentalmente. Herculano vivia no íntimo a Belle Èpoque do Espiritismo na Europa e que guardava no psiquismo como uma encantadora nostalgia, saudade de uma época da qual alimentava talvez o remorso de não ter vivido com todo o seu ardor e prestígio de jornalista, escritor e poeta. Queria revivê-la com todas as suas potencialidades em nossa época, mas sempre esbarrava nos limites do tempo histórico e das necessidades pessoais, da mediocridade e da insipiência de um movimento que ainda estava na adolescência. Ainda assim, superou obstáculos impressionantes. Herculano praticou um Espiritismo vindo diretamente da experiência dos pioneiros do interior paulista, onde a prioridade era reagir ao totalitarismo religioso e ocupar o espaço ideológico e institucional que era proibido aos não católicos. Daí a sua constante preocupação com os eventos e a criação de instituições formalizadas, para garantir a nossa sobrevivência na sociedade cartorial brasileira, que funcionava desde a colonização. Na sua época a proibição e a perseguição ao Espiritismo ainda eram explícitas, de tendências fascistas e inquisitoriais. Hoje ela continua fascista, mas tornou-se mais silenciosa e conspiratória. O inimigo principal continuava sendo a Santa Igreja e suas variações protestantes. Era preciso complementar a obra de Anália Franco, Eurípedes, Bezerra e, no seu caso, especificamente, a de Luiz Olympio Telles de Menezes e Cairbar Schutel. Enquanto os outros se dedicaram a diferentes atuações doutrinárias, Herculano inclinou-se naturalmente para uma frente de luta na qual o Movimento estava ainda muito descoberto: a luta intelectual. A maioria dos nossos pensadores não tinha o devido preparo para enfrentar as terríveis batalhas do mundo acadêmico e da crescente indústria da comunicação. Temos, ainda hoje, pouca tradição nesse setor e por isso muitos de nós ficamos admirados com a habilidade intelectual de Herculano, olhando-o ingenuamente como um sábio “salvador da pátria” da escassa comunidade de pensadores kardecistas. É claro que essa conclusão nos vem quando pegamos uma das suas impecáveis traduções da Codificação, comentadas com dados muito enriquecedores, e logo perguntamos: como seria se Herculano não tivesse feito esse trabalho? O que teria acontecido se a moda de adulterar os textos originais da Codificação tivesse se espalhado, com a intenção de popularizar a Doutrina? Cairbar já tinha feito esse mesmo papel, em condições ainda mais precárias e Herculano deveria imitá-lo em um novo contexto, mais moderno e com outras formas de obstáculos: o da sociedade e comunicação de massas, do rádio, da grande mídia impressa, da televisão, etc. Seu estilo simples, de caipirão, sincero e de grande caráter, foi fundamental para efetivar essa imagem pública do Espiritismo na sociedade quatrocentona de São Paulo. Tanto é que, segundo o seu biógrafo, quando precisou voltar para o interior em busca de melhores recursos financeiros, os Espíritos logo trataram de trazê-lo de volta, pois a verdadeira frente de batalha estava na grande Capital; era ali que tudo acontecia e se propagava rapidamente para o interior e para outros Estados.

Herculano Pires era kardecista fiel, racionalista e briguento em questões conceituais, mas, por outro lado, para a decepção dos seus admiradores da escola anti-religiosa, muitas vezes parecia um doce e humilde devoto de Maria de Nazareth. Mesmo tendo estas quedas pela “mística” da tradição judaico-cristã, foi um crítico inarredável da propagação, no Movimento Espírita, das idéias de Roustaing, Ramatis e Pietro Ubaldi. Essas interpretações estranhas à tradição cristã do catolicismo ocidental soavam para ele como heresias desrespeitosas e mistificações perigosas, como falsas profecias. Nas obras desses três autores, Herculano e seus seguidores encontraram elementos que adjetivaram como “esquisitices”, “desequilíbrio”, “pseudo-sabedoria” e “extravagância”; todas relacionadas às tradições sobre assuntos e personagens sagrados e sacralizados do Velho e do Novo Testamento. Por mais que se tente dar a esses debates uma conotação científica e filosófica, é muito difícil não perceber o sentido passional e a vaidade intelectual nas disputas de idéias. São questões de opinião pessoal, discutível em muitos pontos, mas não, como pensam muitos conservadores, um decreto irrevogável ou uma bula institucional, produto de algum pretensioso concílio kardecista. Herculano gostava da verdade, como todos os espíritas, mas não era o dono exclusivo da mesma, como querem muitos de seus exaltados admiradores. Há, nesse caso, em suas reflexões uma oscilação filosófica que não podemos deixar de lado para aceitar cegamente suas opiniões, como se fossem inquestionáveis e absolutas. Herculano, como todo romântico, escrevia carregado de ideologia e isso é suficiente para colocá-lo no lugar comum da inteligência brilhante, porém retirando-o do pedestal da sabedoria que falsamente lhe atribuem. Ary Lex , crítico das tendências que sempre colocam líderes espíritas nas alturas intocáveis, depois de traçar os elogios habituais da sua militantância, definiu Herculano dessa forma:

“Como ser humano, tinha suas falhas. Confessava-nos ele que não gostava de ouvir as palestras dos outros oradores e participar de reuniões em que se perde tempo precioso, ouvindo coisas sem nexo. Por isso, raramente comparecia às reuniões das diretorias de que fez parte. Sistematicamente, não assistia às palestras de outros espíritas.”

RAMATIS

O caso de Ramatis tornou-se histórico e suas repercussões, pró e contra, criando uma significativa divisão de opiniões que perdura até hoje. É o caso mais conhecido de todos porque, sendo o mais acessível ao nível intelectual dos adeptos, foi o que mais influenciou o Movimento Espírita. De todas as 12 obras que esse Espírito publicou, através da mediunidade de Hercílio Maes (duas foram assinadas pelo Espírito Atanagildo), algumas causaram mais celeuma  porque colocavam em evidência idéias polêmicas: o problema da fonte e da veracidade das informações, a controvérsia sobre acontecimentos biográficos de Jesus, a incompatibilidade doutrinária com as obras de Kardec e principalmente as previsões apocalípticas sobre o futuro da Humanidade terrena.  J. Herculano Pires, em O Espírito e o Tempo , embora de maneira indireta, comparou os livros de Ramatis com a fase “nebulosa” das comunicações mediúnicas de Emmanuel Swedenborg:


“Poucos adeptos do Espiritismo, ainda hoje, apesar dos ensinos, das explicações e das advertências de Kardec a respeito, compreendem essa posição da doutrina. Por isso, muitos adeptos se deixam empolgar pelos restos da nebulosa que ainda procuram empanar o brilho da doutrina, através de comunicações mediúnicas de teor profético, muitas vezes tipicamente apocalíptico, que surgem a todo instante no movimento doutrinário. É natural o aparecimento constante e insistente dessas pretensas reformulações doutrinárias. Elas respondem à permanência, determinada pela lei de inércia, de mentes encarnadas e desencarnadas, no plano do pensamento mágico do passado. Essas mentes sintonizam no processo de comunicação mediúnica, repetindo inadequadamente, em nossa época, os processos ‘reveladores’ do horizonte profético. 

As verdades novas que essas comunicações mirabolantes pretendem transmitir, são aquelas mesmas afirmações dogmáticas que causaram o desprestígio do espiritualismo no passado. Nada têm de novo, portanto. Pelo contrário, carreiam apenas o ranço do antigo profetismo, carregado de magia e misticismo. De certa maneira, e às vezes, mesmo, de maneira direta, são resíduos da Nebulosa de Swedenborg, ainda capazes de fascinar os adeptos que não se contentam com a chamada ‘frieza científica’ do Espiritismo. Seria bom lembrarmos a esses adeptos que essa ‘frieza’ não é suficientemente fria para ser aprovada pelos cientistas, que não se cansam de condenar a ‘crendice’ e o ‘religiosismo’ da ciência espírita.”


Para Herculano o Espírito Ramatis e o médium Hercílio Maes pecaram no descuido do 8º item dos “meios de reconhecer a qualidade dos Espíritos, resumidos por Kardec no Livro dos Médiuns:

“Os Espíritos levianos são ainda reconhecidos pela facilidade com que predizem o futuro e se referem com precisão a fatos materiais que não podemos conhecer. Os Espíritos bons podem fazer-nos pressentir as coisas futuras, quando esse conhecimento for útil, mas jamais precisam a s datas. Todo anúncio de acontecimento para uma época certa é indício de mistificação”

 Em nota da edição publicada pela Lake, Herculano acentua a crítica e contextualiza o problema:

“As predições apocalípticas, com datas certas, de acontecimentos próximos, têm sido feitas por espíritos pseudo-sábios nestes últimos anos. A linguagem dessas previsões seria suficiente para mostrar a falsidade das comunicações. Muitas outras ainda serão feitas, pois há sempre quem as aceita. O estudo deste resumo prevenirá as pessoas prudentes contra esses embustes, hoje tão numerosos e que pelo seu ridículo afastam pessoas muita gente das luzes da doutrina.”

Mas, naqueles longos e angustiosos anos da Guerra Fria, ninguém imaginava que o mundo espiritual superior tinha nas mangas algumas cartas para lidar com o risco de uma catástrofe natural ou guerra nuclear. Todos esperavam, no mínimo, uma transformação geológica de grandes proporções, ou então a interferência incomum de seres extraterrestres. O livro foi lançado no auge dos conflitos entre as superpotências, que  já tinham armas capazes de destruir inúmeras vezes o nosso planeta. Ninguém poderia prever também que a URSS entraria em colapso, e muito menos, que dentro dos seus quadros materialistas havia se infiltrado, pela reencarnação, um Espírito progressista e de alto potencial político como Mikail Gorbachev. Suas inspiradas idéias da “perestroika” e “glasnost” colocaram aos olhos humanos as terríveis e fatídicas profecias do Apocalipse de João no plano relativo das probabilidades. Antes disso ninguém tinha total confiança num futuro belo e azul para a nossa Humanidade. O certo é que, antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, ninguém punha a cabeça no travesseiro para dormir o sono dos justos.  Em A Gênese constam comentários tranqüilizadores de Kardec a esse respeito, dizendo que as mudanças seriam sempre obedientes às leis da Natureza, para ele, lentas e graduais. Mas Kardec não alcançou o climax dos dois conflitos mundiais e os perigos apocalípticos da Guerra Fria. O mundo sofreu mudanças que estavam previstas mas que não poderiam ter sido divulgadas pelos Espíritos Superiores, já que muitos acontecimentos profetizados dependiam também do poderoso fator do livre-arbítrio humano. Aconteceram profundas mudanças nesse sentido das decisões humanas, incluindo o grande movimento de conscientização ecológica dos anos 1980, que acabaram comprometendo muitos projetos destruidores da corrida armamentista entre norte-americanos e soviéticos. Houve, provavelmente, uma mudança de planos dos Espíritos Superiores com relação às medidas enérgicas e traumáticas, que certamente seriam tomadas para conter os abusos morais e políticos, tendo em vista a mudança de comportamento das coletividades. Não foi apenas Ramatis que se mostrou assustador com o nosso destino. O próprio Espírito Emmanuel, em 1938 , ao se referir ao futuro, revelava uma certa intranqüilidade e incerteza: 

 “Espíritos abnegados e esclarecidos falam-nos de uma nova reunião da comunidade das potências angélicas do sistema solar, da qual é Jesus um dos membros divinos. Reunir-se-á, de novo, a sociedade celeste, pela terceira vez, na atmosfera terrestre, desde que o Cristo recebeu a sagrada missão de abraçar e redimir a nossa Humanidade, decidindo novamente sobre os destinos do nosso mundo.Que resultará desse conclave dos Anjos do Infinito? Deus o sabe. Nas grandes transições do século que passa, aguardemos o seu amor e a sua misericórdia.”


 Outra informação de Ramatis que causou forte reação emocional foi sobre os períodos pré-históricos, desconhecidos pela ciência. A arqueologia, a historiografia e a geografia acadêmicas reconhecem senão como mera hipótese a existência de continentes da Lemúria e da Atlântida. Como Emmanuel e Chico Xavier no caso dos capelinos, Ramatis “levantou o véu” e  Hercílio Maes publicou essa informação bombástica :


“Entre os profetas longínquos, alguns que previram os pódromos do que ocorreu na Lemúria, na Atlântida e nos primórdios da raça atual, distinguimos a generalidade dos que na Terra ficaram tradicionalmente conjugados à casta dos ‘profetas brancos’, que abrange todos os profetizadores do Velho e do Novo Testamento. Há que recordar os Flamínios, herdeiros iniciáticos dos videntes da ‘Colina Dourada’, mas, acima de tudo, o inigualável Antúlio de Maha-Ethel, o sublime instrutor atlante, consagrado filósofo e vidente das ‘Portas do Céu’! Antúlio foi o primeiro depositário, na Terra, da revelação do Cosmo, precedendo a Moisés em milhares de anos. Sob a inspiração das Cortes Celestiais, criadoras dos mundos, ele deixou magnífico tratado de ‘Cosmogênesis’, no qual descreve a criação da nebulosa da vossa Constelação Solar. Cabe-lhe a primazia de haver descrito a maravilhosa tessitura dos Arcanjos e dos Devas, com suas roupagens planetárias policrômicas, onde o iniciado distingue perfeitamente os campos resplandecentes dos reinos etereoastrais dos mundos físicos! Antes do trabalho esforçado de Moisés, no Monte Sinai, Antúlio já pregava na Atlântida a idéia unitária de Deus, mas, em lugar do Jeová feroz e vingativo, ensinava que o Onipotente era uma Fonte Eterna de Luz e Amor! Também é de sua autoria a primeira enunciação setenária na Terra, quando se refere à cromosofia das Sete Legiões dos Guardiães, cada uma se movendo numa aura correspondente a cada cor do arco-íris.Comprovando os seus dons maravilhosos, Antúlio previu, com milênios de antecipação, a submersão da Atlântida e a inversão rápida do eixo da Terra, ocorrida há mais de 27.000 anos do vosso calendário!” 


Aqui ocorre um choque com o tradicional conceito histórico “linear” das revelações propostas por Kardec nos “Caracteres da Revelação Espírita” de a “Gênese”. A abordagem de Kardec, talvez como simples intenção didática, transformou-se em discurso apologético, posteriormente adotado e amplamente defendido pela grande maioria dos espíritas. Tal discurso sempre coloca rigidamente o Espiritismo como “Terceira Revelação”, no sentido de “última”.  Para os que encaram rigidamente essa seqüência didática de Kardec, as informações sobre Antúlio tornam-se muito incômodas. Para esses, é mais fácil dizer que Ramatis está mistificando ou blasfemando, do que admitir ou mesmo refletir na possibilidade que antes de Moisés possa ter existido médiuns de alto potencial de revelação, em civilizações que os nossos precários registros históricos desconhecem. Quando Emmanuel revelou o assunto “Capela” e a própria Atlântida, as reações foram menos agressivas, talvez pelo seu estilo discreto e cauteloso, uma das causas do prestígio do médium Chico Xavier.

 Mas o livro de Ramatis que causou mais polêmica foi A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores (1955), cujo conteúdo se choca explicitamente com as informações de alguns Espíritos que se comunicaram na Sociedade Espírita de Paris. A opinião de Kardec sobre o assunto se mostrou sempre cautelosa, através de citações dos Espíritos e sempre colocada como hipóteses do tipo “Marte seria ainda inferior e Júpiter o mais superior em relação a todos. O Sol não seria um mundo habitado por seres corporais, mas um local de reunião de Espíritos superiores que, de lá, irradiam seus pensamentos para outros mundos menos elevados, transmitindo-os a estes, por intermédio do fluido universal.”  É também o caso desse relato do Espírito de Georges , em 1860, pela médium Sra. Costel, da Sociedade Espírita de Paris:

“Marte é um planeta inferior à Terra, da qual é grosseiro esboço; não é necessário habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos mais grosseiros demônios. Os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem, sem a nobreza da bondade.

(...) Neste planeta o solo é árido; pouca verdura; uma folhagem sombria, não renovada pela primavera; um dia igual e cinzento; o sol, apenas aparente, jamais prodigaliza suas festas; o tempo corre monótono, sem as alternativas e as esperanças das estações novas; nem é inverno, nem verão. O dia, mais curto, não se mede do mesmo modo; a noite domina mais longa. Sem indústria, sem invenções, os habitantes de Marte consomem a vida à procura de alimento (...)”


 O comentário dessa descrição contraria totalmente o que foi relatado por Ramatis mais de cem anos depois. No livro “Princípios da Natureza”  o médium norte-americano Andrew Jackson Davis cita Marte como mundo superior. Também o relato do Espírito Maria João de Deus, no livro “Cartas de uma Morta”, psicografado por Chico Xavier, afirma ser Marte um planeta superior à Terra. O Espírito Humberto de Campos , também com a psicografia de Chico Xavier, inicia assim uma crônica escrita em 2 de janeiro de 1937:

“Os grandes Espíritos, que sob a tutela amorosa de Jesus dirigem os destinos da Humanidade, reuniram-se há pouco tempo, nos planos da erraticidade, para discutirem o método de se estabelecer o Gênio da Paz na face da Terra. A essa assembléia de sábios das coisas espirituais e divinas, compareceram anciãos da sociedade de Marte, estudiosos de Saturno, cientistas e apóstolos de Júpiter e outros representantes da vida do nosso sistema solar.”


 Mesmo escrita numa linguagem figurada, essa crônica não teve a intenção de ser fictícia ou sem nenhuma intenção informativa. Também diverge da informação de Georges, que foi recebida por Camille Flammarion, médium da Sociedade Espírita e calculador do Bureau des Longitudes, do Observatório Imperial de Paris. Numa outra comunicação o Espírito Georges ou o médium, Sr. Costel, parecem cometer alguns “deslizes” na descrição do planeta Vênus. Ao publicá-la na Revista Espírita (Agosto de 1862) Allan Kardec fez a seguinte ressalva:

“Certamente esta comunicação sobre Vênus não tem os caracteres de autenticidade absoluta, razão porque a damos a título condicional. Contudo, o que foi dito sobre esse mundo lhe dá um certo grau de probabilidade, e, seja como for, não deixa de ser o quadro de um mundo que necessariamente deve existir para quem quer que não tenha a orgulhosa pretensão de que seja a Terra o apogeu da perfeição humana: é um elo na escala dos mundos e um grau acessível aos que não se sentem com forças para atingir diretamente Júpiter.”


Se os comentários de Ramatis sobre problema da alimentação carnívora ofenderam alguns adeptos do “bom bife”, Georges também deveria estar incluído na lista dos pseudo-sábios, ao falar dos hábitos em Vênus: 


“Seus habitantes só se nutrem de frutas e produtos de leite: desconhecem o bárbaro costume de se alimentarem de cadáveres de animais, ferocidade só existente nos planetas inferiores. Em conseqüência, as grosseiras necessidades do corpo são aniquiladas e o amor se reveste de todas as paixões e de todas as perfeições apenas sonhadas na Terra”.


O relato psicografado pelo médium Hercílio Maes mostra Marte como um planeta mais avançado do que a Terra, com alto nível moral e intelectual; seus habitantes possuiriam uma superioridade moral e tecnológica incompatível com a descrição de 1860. Será que o relato mediúnico foi de alguma forma influenciado pelos acontecimentos da corrida espacial entre a URSS e os EUA, iniciado nos anos 1950? Esses eventos políticos e tecnológicos certamente mudariam definitivamente os rumos no tratamento do assunto pluralidade de mundo.  Aliás, as pesquisas da NASA e dos ex-soviéticos sobre a vida em outros planetas ainda continuam muito obscuras e pouco esclarecedoras.  

A vida humana em Marte, inferior ou superior, continuou não passando de especulação e expectativa. Edgard Armond   nunca escondeu sua opinião de que Ramatis é um Espírito de hierarquia elevada e de atuação independente; confirmava sua liderança sobre a “Fraternidade de Cruz e do Triângulo” e citou algumas de suas revelações como autênticas e respeitáveis. Para muitas pessoas que conheceram Armond e toda a sua experiência na área mediúnica, cujas atividades eram verificadas e testadas em várias circunstâncias, não se trata apenas de uma simples opinião, mas do prestígio de uma pessoa nem um pouco ingênua e de grande credibilidade. Certa ocasião, no final da década de 1970, Armond divulgou internamente entre os membros da Aliança um opúsculo contendo revelações mediúnicas sobre a vida em Júpiter. O material não voltou a circular nem internamente, pois, segundo nos informou um antigo assessor dele,  o próprio Armond lembrou que havia autorizado a divulgação com ressalvas, somente a título de experiência mediúnica . É claro que não devemos usar Armond nem Herculano como réguas únicas para avaliar as obras de Ramatis. Eles servem como referências mais aos nossos gostos e sentimentos do que propriamente à nossa razão. Não podemos deixar que somente os outros tirem conclusões que nós também temos o dever de realizar. Essa é a grande possibilidade que o Espiritismo nos deu no terreno das idéias e das ações: a decisão final e conclusiva sobre qualquer assunto é sempre da nossa  responsabilidade individual. No caso do planeta Marte nada que se tenha conhecimento foi comentado por Edgard Armond que contrarie sua conhecida posição de receptividade e abertura, incluindo as ressalvas naturais da crítica racional. O que foi muito valorizado por ele nas obras de Ramatis não foi, por exemplo, a discussão controvertida e sim a ousadia de mostrar a incompatibilidade entre alguns hábitos alimentares (vícios) e comportamentais (defeitos morais) com as práticas mediúnicas e até mesmo a vivência do Evangelho. O livro Fisiologia da Alma (1959) é, realmente, uma “afronta” para quem acha normal e cristão cultuar o hábito do fumo, do álcool e da alimentação sistemática de carnes. Aquilo que Emmanuel e André Luiz talvez falariam com diplomacia, Ramatis rasgou o verbo, deixando evidente que a frugalidade e a transformação moral é uma das metas do espírito encarnado que pretende se adaptar ao mundo espiritual. Mas não se pode negar que, se essas informações de Ramatis provocaram comportamentos radicais e atitudes isoladas, por outro lado, também contribuíram, a longo prazo, para uma conscientização quanto ao cuidado que se deve ter com o corpo físico, sobretudo os espíritas, que já possuem vastos conhecimentos sobre as conseqüências dos abusos dos sentidos físicos. Muito do que se ensina hoje sobre saúde física e espiritual nos centros espíritas como temas “atuais”, assim como algumas admiráveis interpretações evangélicas e curiosas analogias doutrinárias, são repercussões silenciosas de muitas dessas obras de Ramatis. 

Enfim, não houve jeito de evitar que Ramatis e seus médiuns  caíssem nessa rede de intrigas e questionamentos doutrinários no movimento espírita. As opiniões são sempre carregadas de muita emotividade como estas citadas por Jorge Rizzini na biografia de Herculano, quando do lançamento do livro O Sublime Peregrino:

“Ramatis é um espírito pseudo-sábio, a serviço da confusão nos meios doutrinários. Este livro é o mais grave de sua produção, porque atenta contra o próprio Cristo, oferecendo a espíritas e não espíritas uma visão deformada da vida do Senhor e dos seus ensinos, acusando os espíritas kardecistas de intransigentes e sustentando o dogma da Santíssima Trindade. (...) Entre suas novidades figuram estas: Jesus não carregou a Cruz; nada disse aos seus companheiros de suplício; não foi o Cristo, mas o médium do Cristo (tese teosofista); durante a gravidez de Maria, procurou impregnar o seu novo corpo com o gosto dos alimentos de sua predileção em encarnação anterior (!); sua entrada em Jerusalém foi uma baderna que ele não pôde controlar, e assim por diante. Jesus não tinha consciência de sua missão e Maria Madalena era um Espírito elevado, que combinou com Jesus, no espaço, o encontro na Terra.”

 

A primeira frase dessa declaração é, no mínimo, intolerante e fora do princípio de amor e caridade, principalmente se lembrarmos das suas repercussões negativas. As demais frases são provas explícitas dos limites da sua reação emocional. Aqui Herculano cometeu um deslize na sua elegância e esqueceu por alguns instantes a sua admiração pela polidez de Allan Kardec ao avaliar esses casos. Ao nosso ver, Allan Kardec jamais faria esse tipo de julgamento. Não foi com essa intenção que ele elaborou a escala espírita. 

Todos que liam as obras de Ramatis com entusiasmo ficaram chocados e cheios de dúvidas quando Herculano Pires publicou suas críticas. Afinal só ele teve a coragem de tomar essa iniciativa e sugeriu que os membros do Clube dos Jornalistas Espíritas fizessem o mesmo. Mas só as críticas de Herculano sobreviveram na memória do Movimento. Por que será? Elas vêm sendo divulgadas na imprensa espírita e assimiladas em vários grupos apenas como peças de propaganda ortodoxa, sem nenhuma contextualização e discussão mais amplas. Hoje ainda se lê muito essas obras, porém, elas nunca mais serão as mesmas depois das acusações de Herculano, como esta :

“A Federação Espírita do Estado de São Paulo, considerada durante anos como instituição bem orientada, passou por períodos de aceitação e estudo das obras de Ramatis, eivadas de pretensões paranóicas e teorias absurdas sobre Jesus, sobre a mediunidade, sobre as práticas mágicas, carregadas de afirmações ridículas sobre o passado da Terra, a existência da Atlântida, as relações das vidas anteriores de Jesus e Maria Madalena e assim por diante”. 


Não foi somente contra Ramatis, Roustaing e Pietro Ubaldi que Herculano demonstrou sua indignação agressiva. Neste trecho  podemos identificar claramente sua intolerância  para com um conhecido e admirado ativista da comunicação espírita, bem como sua falange de discípulos de oratória e milhares ouvintes românticos: 

“No meio espírita os faladores fazem sucesso, como em toda parte, pois os espíritas são criaturas humanas contagiadas, como toda a espécie, pelo mal verborrágico. Tem sido difícil convencer o povo ingênuo de que os grandes faladores não passam de mistificadores. Falam em atitudes teatrais, de olhos fechados para convencer os basbaques de que estão sendo inspirados por elevadas entidades espirituais, quando na verdade repetem palavrórios decorados ou simplesmente destrambelham os mecanismos repetitivos de sua mente-oral. Este é um problema grave no meio interessado por uma doutrina lógica, profundamente conceitual, onde a insensatez palavresca funciona como tóxico mental, encobrindo e aviltando a Verdade. Precisamos de expositores doutrinários conscientes de sua responsabilidade e não apenas interessados em fascinar as massas. Não temos nem devemos ter tribunos eloqüentes em nossas assembléias, mas estudiosos da doutrina que procurem transmitir os seus princípios racionais aos adeptos pouco acostumados a raciocinar. Não há lugar para sofistas num movimento que busca unicamente a Verdade, que não está nos sofismas e sim na limpidez dos conceitos. Também os espíritas se comprometem no complô da Morte de Deus quando dão apoio e estímulo criminoso aos palradores inveterados.”


Continuamos lendo Ramatis e outros inúmeros autores com muitas reservas, não por convicção pessoal e sim talvez pelo medo de sofrer alguma acusação de infidelidade doutrinária. Isso não é nada sadio num movimento que auto-avalia como portador de uma fé racional. Talvez também a boa intenção de Herculano era apenas mostrar que ao ler Kardec, como ele lia, somos levados naturalmente a considerar todas as outras obras superficiais e dispensáveis. Porém, isso não quer dizer que possamos tratá-las com desprezo e ofensas. Os críticos mais emotivos ficaram preocupados por temer que os livros de Ramatis fossem abalar o sólido edifício da Codificação e que eles tinham, mais do que o dever, a missão de defender Allan Kardec contra essas “traições”. Vaidade e pretensão não faltaram nessas atitudes e avaliações.

 Diante desses todos esses acontecimentos e também com a proliferação de novos autores (Espíritos e médiuns) começaram a tomar corpo nas instituições espíritas as chamadas “comissões de análise de obras literárias”. A intenção era claramente estabelecer limites de comunicação e da informação no Movimento Espírita. Em uma palavra: controle, em seus múltiplos meios. O modelo que se propagou na velocidade de uma organização clerical veio provavelmente daquele que foi fundado na inicialmente na FEB ou no que foi coordenado na FEESP pelo Dr. Ary Lex, por ocasião das denúncias do Irmão Saulo (pseudônimo de Herculano) no jornal Diário de São Paulo. Tudo evidentemente justificado com citações de trechos das obras de Allan Kardec e artigos regimentais da Sociedade Espírita de Paris, que recomenda nesses casos uma opinião coletiva. Mas sabemos que existe a força intelectual dos agentes formadores de opinião, a exemplo do Dr. Ary Lex, que, mesmo rejeitando tal idéia, tornou-se também – como Herculano – entre os ortodoxos, referência quase eclesiástica nas questões de pureza doutrinária. Certa ocasião, segundo nos confidenciou um antigo freqüentador da FEESP, o Dr. Ary Lex causou uma enorme celeuma doutrinária quando passou a questionar com grande veemência as informações sobre medicina contidas nas obras de André Luiz. Já havia tomado a mesma atitude com o livro “Passes e Radiações”, de Edgard Armond, apontando ali diversos erros de anatomia. Segundo ele, Armond recebeu humildemente suas críticas e solicitou ao seu editor que fosse feita uma revisão da obra. No caso de André Luiz (Chico Xavier) o caso tomou um outro rumo, pois o Espírito parece não ter gostado somente das críticas, mas principalmente das dúvidas que foram tomando corpo entre os seguidores do Dr. Ary a respeito da veracidade das revelações contidas na famosa série psicografada por Chico Xavier e pelo médico Waldo Vieira. Numa curta e sincera comunicação mediúnica (não sabemos através de qual médium) o Espírito teria respondido aos críticos que, se todo o  esforço dele e dos médiuns, para trazer essas informações à publico, não tivesse nenhum valor, eles poderiam dispor de toda a obra para que a mesma fosse jogada no lixo. O caso parece ter sido pouco divulgado na época, mas ainda hoje desperta em alguns seguidores do Dr. Ary a emocionante e irresistível atitude de “questionar”  Espíritos que fazem sucesso editorial. Não que o questionamento seja condenável, muito pelo contrário, é a postura filosófico-positiva típica do kardecismo que deve ser assumida publicamente como postura individual e não sob as asas de grupos e corporações. Nos referimos principalmente às repercussões sociais negativas quando atitudes e pensamentos pessoais, muitas vezes exibicionistas, assumem a monstruosa forma institucional de rótulo e estigma. 

Mas é preciso lembrar que em nosso meio todo limite é sempre sugerido e deve ser essencialmente orientado pelos princípios da ética. A comunicação espírita, principalmente por ter sido uma das mais perseguidas, deve dar não só o exemplo democrático da liberdade de pensamento e expressão, mas garantir que a ética seja a principal baliza dessas instituições. É lógico que não se pode permitir, em nome dessa liberdade, os abusos, que, nesses casos, como manda a boa experiência social, é preciso depositar a confiança no bom-senso humano para que ele próprio faça a sua escolha e não adotar atitudes dogmáticas e autoritárias de querermos fazer escolhas e tomarmos decisões pelos outros. Isso não é e nunca deverá ser regra das instituições espíritas. Nossa ética fundamental é o livre-arbítrio, mesmo porque nela já está embutido o princípio da responsabilidade. Jamais uma comissão ou um veículo de comunicação espírita poderá assumir a versão esdrúxula e moderna do “Index” católico, onde predominavam nas sentenças acusatórias e condenatórias as opiniões e disputas pessoais de alguns membros mais influentes e que acabavam impondo seus preconceitos sobre o consenso. Na instituição do “Index Librorium Proibitórium” , a prática da censura e da perseguição aos autores e livros quase sempre partia daqueles membros mais intolerantes e medíocres, que não tinham coragem de se expressar publicamente, com medo de colocar a própria cabeça à prêmio, mas que se julgavam protetores majoritários da opinião e do livre-arbítrio do público receptor. O tema da pureza doutrinária no movimento espírita, enquanto manifestação discursiva intolerante, sempre escondeu sua verdadeira face, que é o desejo de mando e a disputa de poder nos centros espíritas e nas instituições federativas. Aqueles que no passado acusavam seus irmãos de heresia hoje usam e abusam do rótulo da impureza.

Na tentativa avaliar de forma mais ampla essas ocorrências históricas dissonantes no movimento espírita, não podemos deixar de observar que essas aproximações dos chamados grupos universalistas e afro-indígenas no movimento espírita foram um esforço nem sempre revestido de legalidade institucional, porém portadores de uma busca compreensível de legitimidade social.  

Os espíritas, pelo prestígio humanista dos seus adeptos, em múltiplos aspectos, conquistaram legitimidade ao longo de um século de atuação marcante dos seus militantes, em várias frentes. Os obstáculos à reunião livre e à difusão das idéias espíritas foram removidos às duras penas que todos nós conhecemos como as perseguições, calúnias, difamações e até prisões, principalmente dos médiuns. 

No Brasil os grupos afro-indígenas e mais recentemente a umbanda tiveram que se abrigar nessa capa social tecida historicamente pelo movimento espírita como forma de preservar sua identidade e suas práticas. Isso não ocorreu nos demais países da América Latina, onde o espiritismo  se apegou fortemente ao pensamento científico-filosófico para sobreviver aos ataques reacionários do clero católico. Nesses países o sincretismo foi evitado e optou-se pela permanência na fase primária fenomenológica (parapsicologia) e, no máximo, na tendência filosófica ainda muito conservadora e  restrita a pequenos grupos.  

A ação institucional dos espíritas diante da narrativa discriminatória e preconceituosa do Código Civil na Primeira República abriu caminho para o estabelecimento da liberdade de culto que se efetivaria somente após a real democratização da sociedade brasileira nas décadas seguintes . Nos lugares onde a discriminação e as perseguições foram mais ostensivas até hoje persiste o sincretismo nominal e prático, misturando espiritismo, candomblé, umbanda, catolicismo e inúmeras outras denominações. Hoje o chamado  segmento espiritualista ou universalista vem se tornando independente do movimento espírita, assim como aconteceu com a umbanda e o candomblé. 

Não podemos esquecer também que o chamado espiritismo laico (não confessional),  praticado institucionalmente pela Condeferação Espírita Panamericana-CEPA, considera a grande maioria das intuições espíritas brasileiras, incluindo as federativas, um desvio religioso e cristão do pensamento laico de Allan Kardec.  Para eles , isto é um fato social e também obstáculo à nossa tão sonhada unificação. Entretanto, não se tem notícias de que alguma instituição espírita, de qualquer tendência ou inclinação filosófica, tenha tido no Brasil ou em qualquer outro país privilégios ou o status-quo de Estado. 

Quanto a Roustaing e Pietro Ubaldi, suas obras continuam inacessíveis aos intelectos comuns, porém muito consumidas pelos que gostam de serem vistos como livre-pensadores. São duas inteligências que se sentiram atraídas pelo Espiritismo, mas não conseguiram distinguir em suas obras as visões pessoais de mundo da visão mais ampla e consensual que marca conjunto doutrinário elaborado por Allan Kardec. No caso de Roustaing, como já vimos, o mesmo serviu de objeto não somente de celeuma doutrinária, mas também como pano de fundo para os debates políticos da unificação do movimento espírita brasileiro. 

ROUSTAING

Jean-Baptiste Roustaing foi contemporâneo de Kardec. Nasceu em 1806 em Bourdeux, cursou Literatura e Ciências, tornando-se depois doutor em Direito. Faleceu em 1879, dez anos após o desencarne Kardec. O autor de Os Quatro Evangelhos, cinco anos antes de lançar sua famosa obra, escreveu uma longa carta para Kardec, na qual expunha sua euforia pelas revelações espíritas. Na carta ele também parece querer dar algumas pistas sobre suas preferências de enfoque doutrinário, bem como alguns sinais ocultos sobre o seu passado e o de Kardec, nos assuntos de fé. Segundo Mauro Quintela, durante a presidência de Francisco Thiesen na década de 1980, ao departamento editorial da FEB promoveu o lançamento de várias obras com a intenção harmonizar esse conflito Kardec-Roustaing: o livro Universo e Vida[76], do Espírito Áureo, onde o autor classifica Os Quatro Evangelhos como “monumental interpretação”, insinua que Roustaing foi a reencarnação do profeta Maomé e afirma também que Allan Kardec teria sido o Apóstolo Tomé. Outros dois lançamentos que marcaram essa estratégia foi “Espiritismo Básico”, de Pedro Franco Barbosa, cujo conteúdo didático dá ampla divulgação aos conteúdos “místicos”; e finalmente “Testemunhos de Chico Xavier”, de Suely Caldas Schubert, que revela a troca de cartas entre o médium mineiro e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas, mostrando Chico como provável simpatizante de Roustaing na polêmica do livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. 

Allan Kardec publicou a carta de Roustaing na Revista Espírita, em junho de 1861, seguida de alguns comentários sobre a rápida mudança com que ele passou de iniciado a mestre, bem como da coragem de admitir publicamente sua nova fé religiosa, visto que ocupava a delicada posição de Advogado Imperial na Corte de Bordeaux: 


“Meu caro senhor e muito honrado chefe Espírita. 

Recebi a suave influência e colhi o benefício destas palavras do Cristo a Tomé: “Felizes os que não viram e creram”. Profundas, verdadeiras e divinas palavras, que mostram o mais seguro caminho, o mais racional, que conduz à fé, segundo a máxima de São Paulo, que o Espiritismo cumpriu e realiza: Rationabile sit obsequium vestrum. 

Quando vos escrevi em março último, pela primeira vez, dizia: nada vi, mas li e compreendi; e creio”. Deus me recompensou bem por ter crido sem ter visto; depois vi e vi bem; vi em condições proveitosas, e a parte experimental veio animar, se assim posso me exprimir, a fé que a parte doutrinária me havia dado e, fortalecendo-a, imprimir-lhe a vida. 

(...) Agradeço com alegria e humildade a esses divinos mensageiros por terem vindo ensinar que o Cristo está em missão na Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo, essa terceira explosão da bondade divina, para cumprir aquela palavra final do Evangelho: “Umum ovile et unnus pastor”; por nos ter vindo dizer: “Não temais nada! O Cristo (por eles chamado Espírito de Verdade), a Verdade é o primeiro e o mais santo missionário das idéias espíritas.” Estas palavras me tinham tocado vivamente e eu me perguntava: “mas onde então está o Cristo em missão na Terra?” “A Verdade comanda, conforme a expressão do Espírito de Marius, bispo dos primeiros tempos da Igreja, essa falange de Espíritos enviados por Deus em missão à Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo. 

(...) Adeus, meu caro senhor. Após três meses de silêncio, eu vos fastigo com uma carta muito longa. Respondei quando puderdes e quiserdes. Eu me proporia a fazer uma viagem a Paris para ter o prazer de vos conhecer pessoalmente, de fraternalmente vos apertar a mão. Minha saúde a isto se opõe no momento. 

Podeis fazer desta carta o uso que achardes conveniente. Eu me honro de ser altamente e publicamente Espírita.” 


Mas o percurso iniciático e o aprofundamento dos estudos de Roustaing tomariam um rumo diferente do estilo das idéias de Kardec e dos Espíritos que participaram da Codificação. Isso aconteceria em 1866, quando do lançamento da sua pouco ortodoxa e não menos curiosa interpretação dos Evangelhos. O fato foi registrado na coluna de notícias bibliográficas da Revista Espírita, no mês de junho, trazendo uma histórica e clássica avaliação de Kardec sobre o seu conteúdo. A resenha é um modelo de bom senso para ser aplicado em todos os casos de controvérsias, o que, lamentavelmente nem sempre é lembrado pelos mais intransigentes defensores da pureza doutrinária. Nela compreende-se porque Kardec, ao contrário de Roustaing e outros, não pensou apenas no aspecto intelectual e individual do seu trabalho, mas com a repercussão que este teria numa sociedade já abalada em sua crença e que poderia rejeitar uma obra coletiva de alta significação histórica como “mais uma” interpretação exótica e especulativa dos textos sagrados. Sua opção pela essência das máximas morais foi a garantia de que a obra seria vista, no mínimo, como uma visão filosófica racional do Cristo. 

Outro detalhe importante dessa análise é quando Kardec chama a atenção para o fato de que a opinião pessoal de alguns Espíritos sobre esses assuntos controvertidos não deve ser aceita como uma concepção de verdade absoluta sobre aquilo que eles estão falando, bem como da responsabilidade que eles assumem ao fazer tais interpretações. Isso é válido não só para o caso dos Espíritos que assistiram Roustaing, mas também para todos que surgiriam em épocas posteriores, deixando claro que somente o tempo e o senso comum é que poderiam solucionar tais questões: 

“Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita. 

O autor desta nova obra julgou seguir outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por conseqüência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram. Conseqüentemente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião. Até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, em todo caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita. 

Quando tratarmos destas questões, fá-lo-emos decididamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria. É assim que temos feito, todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Dissemo-lo cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual. Nosso critério está na concordância universal. Corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatido pela generalidade dos Espíritas? 

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livros dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns. Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de fato um agênere. Aos olhos dos homens que não tivessem podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado em aparência, expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, para todas as vicissitudes da humanidade. Assim seria explicado o mistério de seu nascimento: Maria teria tido apenas as aparências da gravidez. Posto como premissa e pedra angular, este ponto é a base em que se apóia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus. 

Nisso nada há de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do envoltório perispiritual. Sem nos pronunciarmos pró ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errada, em alta de base todo o edifício desabaria. Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejudicar, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal. 

Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras e será consultada com fruto pelos Espíritas sérios. 

Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade.” 


Como se percebe claramente nas observações de Allan Kardec,  não se pode julgar o todo pelas partes. Kardec não classifica, não rotula, não julga, nem demonstra nenhuma aversão, intolerância, ciúme ou admiração de natureza passional pelo que Roustaing escreveu; apenas discorda em alguns pontos e mostra que o método científico positivo que ele, Kardec, adotou é sempre mais seguro e durável nas suas conclusões. Na ótica positiva Roustaing talvez não tenha tomado esse cuidado: sua obra é única e a fonte mediúnica também, tornando-a, no mínimo, vulnerável a críticas racionalistas. A médium receptora das revelações compiladas por Roustaing era Émilie Aimée Charlote Bréard Collignon, uma educadora belga nascida em 1820 e autora de obras pedagógicas. Kardec comentou com “aprovação” e “sem reservas” na “Revue Spirite” o seu livro “Conselhos às mães de Família”, definindo-a como portadora de uma “linguagem de um Espírito elevado”. Madame Collignon desencarnou em 1902, ao 82 anos de idade, e sabe-se que foi casada Charles Paul Collignon e mãe de Henri Paul Collignon, um destacado prefeito de departamento na França. 

No entanto, munido do seu poderoso fuzil doutrinário, Herculano disparou impiedosamente esse comentário[77] sobre o escritor francês e sua influência, através da FEB, no movimento espírita do Brasil: 

“A mais ridícula mistificação da doutrina, o Roustainguismo, continua a dominar a Federação Espírita Brasileira, que reedita, propaga, sustenta e defende a obra Os Quatro Evangelhos. Jean-Baptiste Roustaing, advogado em Bordeux, na França, publicou essa obra no tempo de Kardec. O mestre a examinou e criticou com paciência cristã. Depois dele, muitos espíritas lúcidos e cultos denunciaram as incongruências dessa obra, decalque e deformação da obra Kardeciana. O próprio advogado explicou no prefácio da obra, com a ingenuidade típica dos fascinados, as condições precárias de saúde em que se encontrava quando a recebeu, depois de evocações temárias. A mecânica da mistificação foi exposta ao público pela própria vítima. Roustaing é o anti-Kardec, mente confusa, misticismo beato e portanto vulgar, crendice popularesca, falta absoluta de critério científico, desprezo pelos dados históricos, mitologia arcaica, raciocínio confessadamente avariado, aceitação pacífica de teses clericais obscurantistas, posições anedóticas na explicação dos fatos evangélicos (a falsa gravidez de Maria, Jesus-menino fingindo que sugava o seio da mãe e devolvendo-lhe magicamente o leite aos vasos sanguíneos em forma de sangue, Espíritos superiores reencarnando em mundos inferiores como criptógamos carnudos, em forma de lesmas em carne humana e assim por diante). Um montão de ridicularias que se repetem nos cansativos volumes da obra num ritornelo desesperante. E homens de cultura regular (não pode ser superior) a vangloriar-se dessas tolices a ponto de considerarem a FEB como – pasmem as criaturas de mediano bom-senso – a Casa-Mater do Espiritismo. Ignoram certamente a existência histórica da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e todo o trabalho exaustivo de Kardec. Várias Federações Estaduais atrelaram-se ao carro funerário dessa mistificação.” 


O auge dessa polêmica no Brasil rendeu anos de debates e de animosidades, porém não podemos esquecer que ela aconteceu numa época em que a própria Revista Espírita não tinha tradução em português e que a maioria do público desconhecia essas observações sensatas e polidas do Codificador. Mesmo aqueles que as conheciam parecem tê-las ignorado somente para proteger suas opiniões carregadas de argumentos emotivos e declarações agressivas e de uma ironia desrespeitosa. 

Mas tudo indica que as coisas não mudaram muito no que diz respeito ao gosto pelas controvérsias, tanto para os prós quanto para os contras. A Federação Espírita Brasileira foi durante décadas o principal centro dessas idéias e nela, com o passar dos anos, foi se institucionalizando uma cultura roustenista, propagada nas casas que recebiam suas orientações e influências. Na administração de Wantuil de Freitas a palavra de ordem era demonstrar para a comunidade espírita uma perfeita eqüidade entre Kardec e Roustaing. Em 1951, os filhos de Wantuil foram encarregados, inclusive, de empreender uma viagem a Bordeux para pesquisar fatos desconhecidos da vida de Roustaing e de Madame Collignon. A polêmica do corpo fluídico e Jesus ainda estava em alta. Eis o trecho[78] que mais fascina e intriga os admiradores e também escandaliza os críticos ortodoxos: 

“Sim, vivendo o Cristo entre os homens vida espiritual, apenas revestido de um perispírito tangível com a aparência de corpo humano, a sua crucificação e bem assim todos os atos materiais praticados contra ele, não só por ocasião do sacrifício do Gólgota, como antes, nenhum efeito físico humano tiveram. Nem de outro modo podia ser, pois que não havia a matéria do homem terreno. E num Espírito que se apresentava visível e tangível poderiam tais efeitos produzir-se?” 


PIETRO UBALDI

Tudo isso também vale para os escritos de Pietro Ubaldi? Este foi menos feliz nas repercussões das suas idéias. Segundo seus críticos isso aconteceu porque, sentindo-se muito seguro da suas opiniões e também das opiniões dos Espíritos que o assistiram, julgou estar acima de qualquer suspeita ou questionamento, chegando a declarar que o Espiritismo estava superado como doutrina e que as suas obras deveriam passar a representar a atualização dos ensinamentos dos Espíritos. A proposta foi feita em forma de tese no VI Congresso Espírita Panamericano, em Buenos Aires, em 1963, sendo logo repudiada pela maioria dos participantes. Suas teorias cósmicas não eram tão “desastrosas” e ameaçadoras quanto a sua tese de revisão do Espiritismo. Para amenizar a ameaça ao establishment kardecista, alguns críticos encontraram uma solução prática para ajudar na digestão desse verdadeiro imbróglio doutrinário: ao engolir os livros procuram diferenciar a obra de Ubaldi em dois estilos: a mediúnica e a intelectual, no caso A Grande Síntese, pelo Espírito “Sua Voz”, e sua obra intelectual própria. A obra mediúnica recebeu elogios de Albert Einstein e também do Espírito Emmanuel, que a chamou de “O Evangelho da Ciência”. Assim, a obra mediúnica seria mais confiável porque veio de “Espíritos Superiores”; e a outra é suspeita simplesmente porque é humana. As idéias de Ubaldi também repercutiram como uma escola dentro do movimento espírita e tal efeito não foi ao acaso. Trata-se de um discurso filosófico respeitável, sintonizado com a revolução da física quântica, e que portanto rompe e de certa forma incomoda a aridez do discurso racional positivista predominante entre os intelectuais espíritas. Ele poderia também ser classificado antropologicamente como um protótipo do Homem psi e um precursor do Espiritismo do futuro, ou seja, o tal sexto período no qual a moral espírita estaria livre do sincretismo e do sectarismo filosófico-religioso e perfeitamente integrado na diversidade social. Suas idéias sobre a faculdade da intuição e mediunidade espiritual (e não orgânica) destoam profundamente dos conceitos primitivos do Espiritismo e que até hoje é motivo de intransigência por parte dos chamados pensadores kardecistas. Estes últimos, em sua grande maioria, não possuem nenhuma experiência prática no terreno mediúnico e exibem conhecimentos teóricos sem fundamentação experimental. Bem diferente de Kardec, por exemplo, que ao falar de coisas como o perispírito o fazia com o auxílio de verificações mediúnicas, incluindo médiuns videntes, esses pesquisadores de gabinete produzem verdadeiros tratados sobre coisas que nunca viram, nunca tocaram e que apenas imaginam, utilizando informações escritas por terceiros. Ubaldi era médium e também intelectual; escrevia não aquilo que pensava, mas também aquilo que vivenciava; por isso rompeu alguns conceitos espíritas, segundo ele, já desatualizados. Edgard Armond, que pagou um alto preço por citá-lo em seus livros, via nele uma inteligência acima da mediocridade reinante não só no meio espírita, mas também entre os esoteristas. É claro que suas obras nunca poderiam se enquadrar rigidamente no modelo proposto por Kardec, mesmo porque foi produzida num contexto histórico muito diferente, diríamos mais livre das limitações científicas comteanas do século XIX. A ciência de Ubaldi não é a mesma ciência de Kardec; seu modelo científico está estruturado em outros paradigmas que a ciência positiva não tem condições de assimilar porque possui outra metodologia e outra linguagem. A ciência positiva também foi contaminada pelos dogmas e tem se mostrado muito carregada de ideologia retrógrada, o que a torna, no mínimo, suspeita em muitos aspectos. Não sabemos qual é o modelo científico de Ubaldi, mas sabemos que ele seguiu caminhos que a pesquisa convencional de causas e efeitos não poderia seguir. Seu método intuitivo de descobrir as coisas e sintonizar idéias de outros planos talvez seja o mesmo que, um século antes, tinha as meninas Baudin, Japhet e Carlotti, ao sintonizar entidades elevadas como o Espírito Verdade. Aquilo que é natural em médiuns missionários, como essas meninas, Ubaldi desenvolveu por conta própria, com sacrifícios pessoais, assim como Chico Xavier e tantos outros. Especulações à parte, os espíritas não têm muito o que criticar em Pietro Ubaldi, a não ser fazer uma auto-crítica para reconhecer que muitos de nós não temos capacidade de compreender determinadas coisas e que nem tudo no universo do espiritualismo está ao nosso alcance; temos que entender também que Allan Kardec não é a única e derradeira inteligência nesse amplo contexto. Que isso não seja interpretado pelos conservadores como uma ofensa nem pelos ubaldistas como um incentivo para a fundação de uma seita da Nova Era. É apenas uma reflexão de que podemos continuar sendo o que somos aprendendo a conviver com aquilo que não entendemos ou que ainda consideramos contraditório. 

Pietro Ubaldi nasceu em 1886, em Foligno, uma pequena cidade italiana próxima de Assis, fortemente influenciada pela cultura franciscana. Herdou do pai uma fortuna considerável a qual, talvez motivado pelo exemplo do Poverello, renunciou totalmente por considerá-la fruto de um esforço que não foi seu. Escolheu o humilde ofício de professor de inglês, ingressando por concurso numa pequena escola pública em Módica, interior da Sicília. Sua carreira de médium e escritor começou em 1931 e já em 1939 teve uma de suas obras condenadas pelo Index católico. Sua produção de 24 obras foi concluída do Brasil, especificamente em São Vicente, cidade do litoral paulista que escolheu para viver seus últimos 20 anos de existência e na qual desencarnou em 1972. Essa opção de viver no Brasil fazia parte de uma antiga crença de que o nosso país era o ambiente cultural planetário mais favorável ao estabelecimento da nova civilização do terceiro milênio. Essa crença foi reforçada numa série de conferências realizadas em 1951 em várias cidades brasileiras. Sua histórica palestra na Federação Espírita do Estado de São Paulo falando sobre reencarnação e a facilidade da aceitação do Espiritismo no Brasil foi um dos principais pontos de partida para a difusão dos conceitos ubaldianos no Movimento Espírita. Edgard Armond foi um dos seus admiradores mais assumidos e corajosos e quem melhor, em nosso meio, compreendeu, comparou e adaptou esses conceitos aos princípios espíritas. Sua concepção de livre-arbítrio, leis universais, mediunidade de prova e natural, da espiral dialética involução-evolução (equação matéria-espírito) são anteriores e ao mesmo tempo contemporâneos das obras de Ubaldi, mostrando uma grande identificação entre os dois pensadores. 

Como expomos, Roustaing, Ubaldi e Ramatis também se tornaram objetos de aculturação paralela dentro do Movimento Espírita, como fontes doutrinárias alternativas. Muitos líderes e escritores de peso permaneceram por longo tempo em dúvida sobre a conveniência ou não de adotá-los como bibliografia. Nas cartas[79] que trocava com o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas, o médium Chico Xavier, não se sabe ao certo se foi apenas gentileza, demonstra uma simpatia pelo esforço que alguns membros daquela entidade faziam para harmonizar a obra de Kardec com a de Roustaing: 

“Aguardo, com justificado interesse, o teu trabalho sobre Kardec-Roustaing. Deve ter sido um esforço exaustivo, mas muito lindo, o de procurar notícias das relações de ambos, nas publicações do Espiritismo Jovem. Creio que esse trabalho, do qual te ocupas agora, é de profunda significação para o nosso movimento. Esperarei o Reformador de outubro próximo, ansiosamente. 

“Tendo em alta conta e profunda estima de Kardec, de Roustaing e dos grandes pioneiros que foram Léon Denis, Flammarion e Delanne, ficaria muito contente e agradecido se me desses a conhecer a estatística sobre a penetração dos livros que nos legaram, em nossa Pátria, casos tenhas essa estatística com facilidade. Considero essa penetração muito importante para o trabalho de nossa Consoladora Doutrina, no Brasil. 


Vejamos o que escreveu Bezerra de Menezes, quando encarnado, em artigo publicado na “Gazeta de Notícias”, de 22 de abril de 1897. O apóstolo cearense comentava a obra Elucidações Evangélicas[80], considerada uma síntese de Os Quatro Evangelhos, com a clara intenção de diminuir o impacto dos atritos ideológicos sobre a já então famosa controvérsia do corpo fluídico de Jesus: 

“O Espiritismo não é, como julgam os padres, ser a revelação messiânica, a última palavra sobre as verdades que Deus, em seu amor pela humanidade, faz baixar do céu à Terra. 

Enquanto o homem não chegar ao último grau da perfeição intelectual, o de penetrar todas as leis da criação, a revelação não chegará a seu termo, pois ela é progressivamente mais ampla, na medida do desenvolvimento da faculdade compreensiva do homem. O Espiritismo, pois, tendo dado mais do que as anteriores revelações, muito terá ainda que dar, porque muito terá ainda que progredir a humanidade terrestre. 

Allan Kardec, Espírito preposto por Jesus para reunir em um corpo de doutrina ensinos confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito de Verdade, constituído por uma legião de Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram – e estes só deram o que era compatível com a compreensão atual do homem terreal. 

Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os principais fundamentos da revelação espírita, compreendemos nas obras fundamentais de Allan Kardec, tendem constantemente se alargar em extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e como esta veio alargar os da revelação mosaica. 

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz, para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade. 

Eis que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da humanidade. Divergem no que é essencial, mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, nos parece sob mil fases relativas – relativas ao nosso grau de adiantamento moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para fim de ele se elevar às alturas. 

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porém adianta mais que este, pela razão que já foi exposta acima”. 


Juntamente com as naturais disputas de poder de grupos e aplicação de programas, esse é um dos grandes obstáculos para a unificação do Espiritismo. Todas as tentativas nesse sentido vem sendo frustradas por aquecidos debates entre os intelectuais, provocações e acusações entre os intolerantes e indiferença entre os que acham que tudo isso não passa de uma fase natural de equívocos sobre a Doutrina. 

Realmente o melhor método para se avaliar tudo isso ainda é esta reflexão do Espírito de Verdade: os frutos revelam a qualidade da árvore. 

Mas se Herculano Pires realmente salvou o Espiritismo das especulações de Roustaing, de Ramatis e de Pietro Ubaldi, como acreditam seus discípulos, neste aspecto da sua obra, o que teria acontecido se ele não tivesse entrado em cena? Estaríamos todos perdidos nas teias da decadência e da destruição da Doutrina, sob o domínio de falsos profetas da erraticidade? Suas denúncias seriam realmente insubstituíveis e incontestáveis, ou apenas uma reação normal, logo supervalorizadas e dogmatizadas por admiradores mais inseguros? Somente ele e, sobretudo ele, foi capaz de transformar esses falsos amigos da doutrina em verdadeiros inimigos? Se dissermos “sim” a essas perguntas nem é preciso mais ler Roustaing, Ramatis e Pietro Ubaldi. Herculano Pires e as “comissões de análise literária” já fizeram isso por todos nós e para as gerações futuras! Podemos, inclusive, deixar de ler Kardec! Será que era assim mesmo que Herculano pensava quando encarnado e ainda pensa no mundo espiritual? 


CANUTO ABREU

Ao criticar Ramatis e levantar dúvidas sobre sua credibilidade Herculano não só exerceu um direito e uma postura “científico-positiva”, mas também lançou no meio espírita, mesmo sem querer, a desconfiança e a incredulidade. Quem acreditaria hoje, por exemplo, numa mensagem do Espírito Herculano Pires sobre esses assuntos? Nas comemorações do bi-centenário de Allan Kardec, realizadas em Paris em outubro de 2004, ocorreu um fato muito curioso. No congresso internacional preparado para homenagear o nascimento Codificador registrou-se a presença de centenas de representantes de diversos países – a maioria brasileiros – e de médiuns de grande prestígio no movimento espírita brasileiro. Uma grande expectativa estava no ar. Que personalidades espirituais se manifestariam naquele evento histórico? Talvez os Espíritos que colaboraram na Codificação e na Sociedade Espírita de Paris? Talvez Chico Xavier, Emmanuel, André Luiz, Herculano Pires? Ou então Amélie Boudet ou mesmo o próprio Allan Kardec? Nenhum deles. Muitos participantes confessaram uma certa decepção e surpresa com a manifestação já aguardada do Espírito Léon Denis, mas poucos esperavam uma comunicação de Canuto Abreu, um dos maiores admiradores e divulgadores da obra de Kardec e que caiu no esquecimento e na desconsideração de muitos espíritas logo após o fato que iremos relatar. Em 1957, durante as comemorações do centenário da Codificação, o Dr. Canuto tinha reservado uma grande surpresa para a comunidade espírita. Durante anos se empenhou pessoalmente para traduzir a primeira versão de “O Livro dos Espíritos” e publicou, com recursos próprios, uma interessante versão bilíngüe da obra. O nosso caro confrade tinha todas as razões para crer que estava dando uma preciosa contribuição cultural para a memória do Espiritismo. Era considerado o mais erudito dos espíritas e, por isso, foi convidado para discursar na abertura da grande festa organizada pelos paulistas no Ginásio do Pacaembu. Quase dez mil pessoas ouviram, encantadas, a descrição romanceada feita pelo orador sobre o histórico dia 18 de abril de 1857. Na mesa das autoridades estavam Luiz Monteiro de Barros, Paulo Toledo Machado e Abrahão Sarraf, representando a USE; Carlos Jordão da Silva, pelo Conselho Federativo Nacional, os vereadores Freitas Nobre e Matilde de Carvalho; João Teixeira de Paula, do jornal Unificação; Luisa Peçanha Camargo Branco e Eurides de Castro, da comissão organizadora do evento; e Herculano Pires, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Na foto histórica Canuto e Herculano aparecem lado a lado numa aparente harmonia fraternal. Passados os festejos, Herculano, preocupado com uma possível confusão de diferenças e semelhanças entre as duas edições históricas do Livro dos Espíritos, não conseguiu segurar o seu ímpeto vigilante e publicou um artigo agressivo fazendo pesadas críticas ao trabalho do Dr. Canuto. Extremamente sentido e magoado, o Dr. Canuto Abreu mandou recolher os exemplares da preciosa edição documental. Afastou-se completamente do movimento espírita, apagando-se em triste reclusão e anonimato. Nunca reclamou publicamente da crítica, nem tampouco justificou sua atitude de afastamento. Os exemplares permaneceram guardados no porão de sua residência por mais de meio século, sendo depois resgatado pelo advogado Paulo Toledo Machado, do ICESP (Instituto de Cultura Espírita de São Paulo). 


O APÓSTOLO DE UBERABA 

“Por acréscimo de misericórdia do Alto, tenho tido muitas alegrias em minha vida mediúnica. Não posso, no entanto, esquecer que uma das maiores, se verificou no término da psicografia do livro "Paulo e Estevão", de Emmanuel, em julho de 1941, quando os benfeitores desencarnados me permitiram contemplar quadros do Mundo Espiritual que ficaram para mim inesquecíveis. Outra grande emoção que experimentei foi a ida, em espírito, em companhia de Emmanuel e André Luiz até a região suburbana de "Nosso Lar", em Agosto de 1943, acontecimento esse que se deu, não por merecimento de minha parte, mas para que, em minha ignorância, eu não entravasse o trabalho de André Luiz, por meu intermédio, de vez que eu estava sentindo muita perplexidade, no início da psicografia do primeiro livro dele, através de minhas pobres faculdades”. – Chico Xavier, Revista Informação, 1977. 


Nos últimos anos da sua existência Chico Xavier sempre pedia a Deus para desencarnar num dia em que o povo brasileiro estivesse muito feliz. Reconhecia com humildade sua condição de servidor dos Espíritos, especificamente de um projeto de comunicação espiritual de massa dirigido pelo Espírito Emmanuel, mas não desconhecia o alcance social e a responsabilidade do seu potencial mediúnico, muito menos os laços afetivos que grande parte da população tinha por ele e pela sua missão assistencial. Sua vontade de voltar para o mundo espiritual sem causar comoção e tristeza popular parece ter sido atendida pelas forças espirituais superiores que cultivava através da prece e da caridade. Seus olhos físicos se fecharam aos 90 anos[85] de idade, exatamente no dia em que a seleção brasileira conquistou mais um título de campeão mundial de futebol, em 30 de junho de 2002. Coincidência ou não, Chico sabia que a sua vida simples e de sacrifícios não era diferente da maioria dos brasileiros. Momentos de alegria proporcionados pela vitória num jogo de futebol representam um enorme alívio diante das provas do dia-a-dia e dá uma pequena noção do que seja a verdadeira felicidade. Com as pessoas que buscam o Espiritismo como fonte de consolo para suas dores existenciais acontece algo bem parecido. Receber notícias de um parente “morto”, o incentivo otimista de uma mensagem evangélica, saber como funciona o mundo espiritual ou, eventualmente, obter a cura de uma doença, são fragmentos de uma felicidade plena que estamos longe de conquistar, mas nos lembra que estamos inevitavelmente destinados a ela. Alegrias grandiosas foram raríssimas na existência de Chico Xavier. Seu sacerdócio mediúnico, que não poderia ter outro adjetivo melhor, foi marcado, como é normal nessa atividade, pela fartura de vicissitudes em forma de críticas, constantes perseguições e até agressões físicas. Pelo que consta em suas biografias e relatos de pessoas próximas, nunca reclamou da sua posição social, jamais negou ou negligenciou sua delicada condição de médium, muito menos exaltou suas faculdades psíquicas. Uma das poucas vezes que pediu socorro para si mesmo aos Espíritos, em incontáveis momentos de dor emocional e física, colocou-se na posição de um insignificante animal doente. Desesperado, como qualquer ser humano num momento de fraqueza, dirigiu-se em prece ao Dr. Bezerra de Menezes dizendo que, se não merecia uma cura humana, aceitava um simples socorro veterinário. O Espírito Bezerra de Menezes não teve outra alternativa senão reagir com enorme gargalhada, pois Chico havia chamado a si mesmo de “burro” e a ele, Bezerra, de “Veterinário de Deus”. Chico nunca escondeu seus defeitos e limitações, considerando-se apenas mais um aluno da escola planetária. Questionado sobre seus vícios, afirmou que, dentre muitas fraquezas, nunca conseguiu resistir à tentação de grudar, quando carregada de frutos, numa jaboticabeira que havia no seu quintal. Esse era o seu jeito de mostrar aos outros que sua mediunidade nunca foi privilégio e que sua pessoa, como todas a demais, estava sujeita a todos os ventos e trovoadas da experiência carnal. 

Os continuadores da primeira hora de Allan Kardec não realizaram nenhuma ruptura significativa, no que diz respeito aos conteúdos por ele revelados. O verbo “romper” aqui utilizado é filosófico, que não quer dizer negar, mas inovar, revolucionar o que já foi feito, sob uma nova ótica, até então oculta. Essa tarefa delicada de ruptura estaria reservada a um grupo de pessoas, encarnadas e desencarnadas, quase um século mais tarde, num contexto bem diferente daquele em que fora dado os primeiros passos do Espiritismo. Trata-se de um grupo de autores e militantes já citados, sobretudo os brasileiros, que foram dando complemento e atualização às revelações iniciadas em 1857. Já no final do século XIX e início do XX encontramos, ainda na Europa, vários exemplos de literatura mediúnica, em diversos estilos, descrevendo algumas características da vida espiritual. Neles ainda não identificamos a preocupação com a qualidade doutrinária e o diferencial dos conteúdos revelados que iriam marcar, por exemplo, a maioria das obras do médium Francisco Cândido Xavier. 

Chico teve um início de carreira complexa e perturbadora, como a maioria dos médiuns tarefeiros, ingredientes sócio-emocionais necessários para o desenvolvimento da disciplina sacerdotal mediúnica. Foi iniciado no Espiritismo prático e doutrinário por José Hermínio Perácio e sua esposa Carmem Pena Perácio, ambos médiuns de cura. Antes, porém, dessa iniciação doutrinária, Chico passou por um intenso processo iniciático da escola da vida, um longo e doloroso percurso de lições disciplinares para a aquisição da humildade, alicerce fundamental para a construção da muralha protetora contra os ataques da vaidade e da inveja humanas. Ao contrário do que normalmente se pensa, Chico não foi o único responsável pela difusão da cultura mediúnica e espírita em nosso país e naquela região mineira. Antes dele o terreno foi muito bem preparado por precursores de alto gabarito espiritual como a médium Maria Modesto Cravo. Depois de sofrer intensas perturbações físicas e psicológicas, “Dona Modesta”, como ficou conhecida, foi tratada e educada na Doutrina pelas mãos de Eurípedes Barsanulfo e, de Sacramento, foi encaminhada para atuar no Centro Espírita Uberabense. Dona Modesta possuía diversas habilidades psíquicas, mas concentrou-se no receituário médico, orientado pelos Espíritos Bezerra de Menezes e o médico francês Paul Janet. Falava com os Espíritos com naturalidade espantosa e por ela se manifestava constantemente o Espírito Ismael, a entidade angélica apontada em revelações como o Espírito-guia do Brasil. Esse trabalho médico-assistencial de cura e caridade da tradição primitiva essênio-cristã, revivido pelos terapeutas homeopatas, seria o suporte inicial de uma segunda etapa marcada pela difusão de conhecimentos doutrinários e revelações sobre o mundo dos Espíritos. Não é exagero apontar a missão de Chico Xavier como o marco de uma nova era na história do Espiritismo e do Cristianismo contemporâneo. O impacto social da sua mediunidade atingiu proporções somente registradas na biografia dos grandes discípulos do Cristo ao longo dos séculos. Minas Gerais sempre foi considerada uma das mais autênticas expressões da religiosidade cristã brasileira e também o seu principal foco de expansão, já que aquela cultura possui historicamente o dom da conquista migratória e que foi se estabelecer, como os antigos bandeirantes paulistas, nos mais diversos recantos do País e também do exterior. Assim como não foi coincidência o ressurgimento de Allan Kardec em Lyon, o renascimento de Eurípedes Barsanulfo, Maria Modesto Cravo, Chico Xavier, Zé Arigó e muitos outros missionários, em diversos setores sociais, nas antigas terras das Minas Gerais já estava escrito nos planos das inteligências espirituais que operavam a implantação e a difusão do Espiritismo no Brasil e no planeta. 

Quando falamos de Chico Xavier e da sua obra literária, estamos falando obviamente do aspecto apostolar , realizado através das suas intensas atividades mediúnico-assistenciais de atendimento às massas e do trabalho desenvolvido pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz, principais autores dos livros psicografados por Chico. O primeiro com as revelações históricas do cristianismo primitivo e este último, na sua famosa série de 14 volumes[86], revelando a vida espiritual, nas esferas mais próximas da Terra, de uma maneira mais ousada e objetiva que os próprios autores da Codificação. Enquanto na Codificação a descrição é genérica e conceitual, nos livros de André Luiz ela acontece de forma específica e ilustrativa, rica em imagens e detalhes, que buscam ser sempre compatíveis com os conceitos registrados por Allan Kardec. Com ele ficamos conhecendo não só um aspecto das comunidades do mundo espiritual e da sua sociologia, que são as “colônias” regenerativas e as comunidades “purgatoriais” do “umbral”, mas também um vasto conjunto de informações sobre a “biologia espiritual” e seus mecanismos nas relações com o plano físico. O livro Nosso Lar[87] é um marco na literatura espírita porque inicia uma série de revelações nesse sentido. Esse modelo de revelação permaneceu intacto por muito tempo e foi sendo seguido por diversos autores espirituais e médiuns do mesmo estilo. Até o presente, não houve inovação. A colônia Nosso Lar é apenas uma entre tantas outras do orbe terrestre e, nessa perspectiva, serviu como revelação-modelo, dando uma idéia parcial de como funcionam esses tipos de comunidades próximas aos mundos físicos. Sua estrutura logicamente deve seguir os mesmos princípios naturais e sociais das demais, variando somente nas particularidades culturais e históricas. Geralmente, no plano material, elas são ligadas aos centros urbanos onde reencarna a maioria dos seus habitantes. Nosso Lar, por exemplo, liga-se ao Rio de Janeiro e suas origens históricas estão na colonização portuguesa. A referência cultural e ideológica da sua população, estimada na época da revelação em mais de 1 milhão, é o cristianismo. Na explicação do habitante Lísias para a André Luiz, a cidade espiritual possui um governador e este dirige a colônia com o auxílio direto de 72 ministros, que comandam atividades especializadas: 

“A colônia, que é essencialmente de trabalho e realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual, por doze Ministros. Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina. Os quatros primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que a nossa cidade espiritual é de transição. Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração, os mais sublimes no da União Divina. Clarêncio, o nosso chefe amigo, é um dos Ministros do Auxílio.” 


No livro Nosso Lar André Luiz oferece um panorama geral da colônia, sob a ótica de um Espírito recém-desencarnado e parcialmente falido na sua última existência terrestre. A descrição de sua experiência é tão realista, mas também muito comedida, que o leitor menos atento pode pensar que se trata de uma realidade e padrão únicos de referência. Nas demais obras da série André Luiz se aprofunda mais na descrição das atividades de cada um dos Ministérios. Em Sexo e Destino ele revela a existência de uma comunidade menor, voltada para Espíritos falidos no campo da sexualidade e em E a Vida Continua descreve a cidade espiritual menor ligada a centros urbanos nas mesmas proporções. No livro Libertação ele fala de uma cidade do umbral, organizada e dirigida pelos próprios habitantes, segundo as leis sociais e naturais da condição moral em que se encontram. 


WALDO VIEIRA E DIVALDO FRANCO

Nesse aspecto de continuidade de revelações ampliadas, relembramos como exemplos os trabalhos dos médiuns Yvonne do Amaral Pereira, Divaldo Pereira Franco e Waldo Vieira. Este último iniciou sua carreira fazendo parceria com Chico Xavier, com quem psicografou importantes obras do Espírito André Luiz. Na década de 1980 passou a dedicar-se às pesquisas em torno da “projeciologia”, desligando-se, mais tarde, do Movimento Espírita. Muitos seguiram seus passos para formar uma nova frente de atividade com experiências mediúnicas, entendendo que aderir à projeciologia seria o mesmo que deixar de ser Espírita, como se esta fosse uma questão puramente ideológica. Sem dúvida, este um prato cheio para os médiuns que alimentam o desejo íntimo de abandonar seus compromissos cármicos e exercerem atividades onde não é necessário, segundo julgam, os rigores morais do Espiritismo. Prato cheio também para os adversários no mundo espiritual, que vêem nessas atitudes uma boa oportunidade para neutralizar a ação da mediunidade apostólica e esclarecedora. Independente desses aspectos, o trabalho de Waldo Vieira que mais repercutiu no Movimento foi exatamente Projeções da Consciência – Diário de Experiências fora do Corpo Físico (1980)[88]. O livro é muito interessante, mas nada tem de surpreendente se lembrarmos, por exemplo, da obra Devassando o Invisível[89] (1962), de Yvonne A. Pereira. Mas em dois dos seus relatos[90] talvez possamos compreender as razões que levaram esse médium a se desligar do Movimento Espírita. No primeiro ele descreve sua presença, em desdobramento, numa reunião de quinze entidades desencarnadas, de várias procedências e candidatas à breve reencarnação. Os Espíritos discutiam, em dois grupos distintos, os problemas da ortodoxia e do liberalismo em torno das idéias filosófico-religiosas entre os encarnados. Sobre essa experiência Waldo anotou: 

“Ante os temas em discussão, a minha sensação era de alguém cujos postulados íntimos estavam sendo postos em julgamento à frente, sem poder intervir, e assim ocorreria com qualquer criatura que ali detivesse princípios definidos sobre a vida espiritual.” 

Mais adiante opina com acentuada clareza sua impressão do acontecido: 

“Quanto ao meio-termo conciliador, vieram-me à lembrança os estudos dos princípios filosóficos e morais de Allan Kardec, devidamente acompanhados pela parte científica, embora começante da Parapsicologia, salientando que entre a ortodoxia e o universalismo, opto por este. O universalismo é centrista e moderado, ao passo que a ortodoxia, extremista e radical, torna-se segregacionista. Constitui rematada tolice para quem obteve o doutorado, menosprezar quem se forma regularmente pela mesma escola.” 


No segundo relato o médium descreve o seu interessante encontro com o Espírito Zé Arigó[91], numa colônia de socorro a desencarnados, e cuja experiência denominou “Advertência oportuna”: 


“Após algum tempo, apareceu repentinamente no ambiente um Espírito alegre, vibrátil e pleno de vitalidade, o que reconheci imediatamente como sendo José Pedro de Freitas, o famoso e inesquecível médium, Arigó. A minha comoção irrepreensível foi enorme. Depois de algum tempo de refazimento da intraduzível emotividade e acalmia dos pensamentos, ia lembrar ao Espírito Arigó, as notícias correntes a seu respeito na atualidade terrestre, como o telefonema do Eli, seu irmão consangüíneo, semanas atrás, o longa-metragem sobre sua vida que está sendo rodado nos Estados Unidos e dezenas de outros assuntos, quando atravessou os pensamentos e, na sua maneira característica, cortou-me, rápido: 

‘Não! Não falemos dessas coisas. Não me sinto bem falando de mim. A Vida na matéria é um pouco complicada. Quero falar sobre seus desdobramentos. Então você é desses pijamudos que andam por aí e que têm quiabo no perispírito? (...) Sabe, Waldo, me disseram por aqui que você saiu voando que nem doido com seu filho. E outras coisas. Vou lhe dar um recado. Leva os trabalhos a sério. O desdobramento e os efeitos físicos estão na raiz de tudo. Sabe que tive muitos desdobramentos na minha vida, mas não houve tempo de ligar muito. A minha vida foi muito atribulada. Não seja assim, leva o negócio a sério. É por aí que a gente pode aprender mais.’ 

Chegou outra entidade para se entender com ele que, deu para observar, atendia com paciência e compreensão, apresentando-se mais moço e magro, e de arigó mesmo não tinha nada, mostrava-se brilhante na inteligência e nos pensamentos ágeis e agudos. Não estava na condição de enfermo ali, mas sim como assistente dos trabalhos de socorro médico espiritual em função ativa. Nem lembrava o homem que desencarnara, instantaneamente, em acidente automobilístico numa estrada de rodagem. Depois de certo período, e a conversação retomada, procurando receber e gravar as observações feitas por Arigó, este pareceu-me desejar encerrar a entrevista, ao lastimar fraternalmente: 

- Bem que eu queria volitar com você numa beleza de lugar que eu conheço, mas, você sabe, não posso. Estou a serviço.” 


Mas, ao que tudo indica, Waldo Vieira entendeu, a seu modo, e bem diferente do que entenderia muitos espíritas, o recado de Arigó; e encerra o relato agradecendo aos seus “Amparadores”, classificando o contato com o famoso médium como “encontro inesquecível de tanta significação, com a advertência oportuna, motivo para muita ponderação para mim e análise dos fatos sobre os erros de omissão e precipitação no processo de aproveitamento da existência física e do intercâmbio das projeções.” 

Já a trajetória de Divaldo Pereira Franco assumiu um caráter mais idealista, comemorando recentemente seus 50 anos na difusão do Espiritismo. Depois de Chico Xavier ele é o médium mais celebrado entre o público espírita e, condição que no setor literário não se compara com a produção e repercussão da dupla mediúnica Zíbia Gasparetto e Lúcius. Também essa célebre co-autora de Laços Eternos e outros sucessos do romance mediúnico para não iniciados, juntamente com seu filho e artista plástico Luis Antonio Gasparetto, deixaram a militância no movimento espírita para dedicar-se a trabalhos independentes, longe das orientações (e também sanções) institucionais espíritas. Luis Antonio também criou uma verdadeira escola de pintura mediúnica, trazendo a público belíssimas obras atribuídas a Espíritos-pintores contemporâneos. 

Voltando para a trajetória de Divaldo, o médium baiano, ao longo de muitas décadas de “estrada”, veio atraindo milhares de ouvintes e leitores com seus shows de oratória e livros consoladores. Divaldo também veio formando, com seu estilo teatral dramático, uma verdadeira legião de discípulos palestrantes. Ele marcou época num período de escassez de recursos de comunicação e transporte, visitando inúmeros lugares sob as mais adversas circunstâncias, no Brasil e no exterior, inclusive em países onde a liberdade religiosa era muito restrita. Da sua obra literária, em grande parte ditada pelo Espírito de Joanna de Angelis, uma das poucas que traz um conteúdo diferenciado é o livro Nas Trilhas da Libertação, editado pela FEB, pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. A narrativa é estruturada no mesmo estilo da dupla Chico-André Luiz, seguindo as tramas de Ação e Reação, Os Mensageiros e principalmente Libertação, do qual pega um “gancho” de continuidade da história de Gregório, o famoso chefe das trevas que foi resgatado no umbral pelo Espírito de sua mãe. Mas o aspecto mais interessante desse livro é a discussão em torno do problema das polêmicas cirurgias mediúnicas, empreendidas por Espíritos como o Dr. Fritz, através de médiuns de prova; nada de inovador em relação às advertências doutrinárias de Kardec e os exemplos atualizados de André Luiz, mas muito útil na educação moral de militantes da mediunidade. A mesma análise pode ser aplicada aos livros de João Nunes Maia, pelo Espírito Miramez; são relatos curiosos, com alguns “erros” doutrinários, mas que não chegam a comprometer as obras como um todo. Para a crítica ortodoxa, nenhum desses autores são considerados essenciais, em relação à Kardec, nem mesmo Emmanuel e André Luiz. O critério aplicado nessa definição do que é ou não “essencial” é bem radical: se você tivesse que se isolar numa ilha e só pudesse levar cinco livros quais você levaria? 

André Luiz não revelou tudo o que existe e o que viu no mundo espiritual, mas somente uma parte que está bem longe de ser o todo. Muitas coisas que o médium Chico Xavier viu em desdobramento perispiritual e retro vidência, para dar mais fidelidade aos relatos dos livros que psicografou, não foram publicadas exatamente porque não era conveniente mostrá-las ao grande público. São informações ou situações que, segundo seus mentores, causariam, nos contextos em que foram publicadas, uma influência negativa ou ainda que seriam considerados absurdos, pela falta de elementos analógicos de comparação entre os dois planos de vida. Uma delas, por exemplo, foi a visita de Chico, em desdobramento perispiritual, a uma região suburbana de Nosso Lar, nos anos 1950, onde estavam localizados Espíritos degradados no campo sexual. Esses Espíritos receberam a “ordem” do Plano Espiritual Superior para reencarnarem nas décadas seguintes. Chico revelou para amigos íntimos que assistiu a uma “despedida” dessas hordas umbralinas com um espetáculo sinistro e baconiano, muito parecido com o nosso carnaval. A volta desses Espíritos coincidiu com a proliferação da pornografia, das drogas e da liberalidade sexual e dos costumes em nosso planeta, a partir da década de 1960[93]. Seus romances históricos, sobretudo “ Paulo e Estevão”, foram produzidos a partir de um processo de retrovidência, no qual o médium disse ter visto uma espécie de “filme” que mostrava cenas idênticas as que iriam compor a narrativa do trabalho literário. 


O ESPIRITISMO NA TV E NO CINEMA

 As duas primeiras décadas do século XXI foi muito auspiciosa para a divulgação do Espiritismo. Foi nesse longo, porém rápido período que a propaganda da doutrina atingiu uma penetração social, alcançada apenas quando a temática espírita tinha sido abordada nas novelas da TV nos anos 1970. Numa época em que as salas de cinema de rua e bairros ainda se recuperavam de uma grande crise causada pela invenção do vídeo doméstico e pela TV a cabo, foi exatamente o cimena que permitiu que o grande público conhecesse em maior escala os conteúdos doutrinários por meio de adaptações de biografias e obras da literatura mediúnica. A primeira experiência foi o filme “Bezerra de Menezes, diário de um Espírito”, de 2008, dirigido por Glauber Filho e Joel Pimentel, estrelado por Carlos Vereza, a partir do roteiro de Andréa Bardawill. Não foi surpresa que uma produção tão modesta alcançasse tanta repercussão, já que houve uma intensa campanha para que os espíritas prestigiassem essa iniciativa histórica e tão importante para efetivar essa cultura  no cimema. A segunda e a terceira experiências aconteceriam em dose dupla no ano de  2010, num intervalo de apenas quatro meses. Em abril fo lançada a cinebiografia de Chico Xavier, dirigida por Daniel Filho; e em setembro a versão cinematográfica de “Nosso Lar”, a obra mais vendida e conhecida   de André Luiz, dirigida por Wagner de Assis. Enquanto “Nosso Lar” visava atingir um público de massa ( e conseguiu em poucos meses de exibição), o filme Chico Xavier, também com grande sucesso de público, teve uma abordagem mais clássica e autoral. A produção de Wagner de Assis tinha como  obstáculo principal  a escassez de recursos tecnológicos para narrar uma história ambientada no mundo espiritual, semelhante aos roteiros das ficções científicas. “Nosso Lar” tinha que ser diferente e mais impressionante do que as novelas espíritas produzidas pela televisão, agora com imagem e linguagem de cinema. Em 2011 e 2012, na crista da onda,  foram lançados respectivamente mais dois filmes espíritas: “A mães de Chico Xavier” (Wagner de Assis) e “E a vida continua”, de Paulo Figueiredo”.    

Mas filme de Daniel Filho também tinha um grande obstáculo: fugir do óbvio, da ingenuidade religiosa e mística da imagem popular de Chico Xavier. Daniel Filho não é espírita e fez questão de deixar bem claro que não faria proselitismo e sim uma abordagem humanista e social da vida do grande médium mineiro.  O diretor admitiu ter recebido uma mensagem mediúnica do querido amigo Augusto César Vanucci pedindo que dirigisse o filme, entretanto, como ateu declarado, atendeu o pedido do velho amigo desencarnado, porém insistiu no tom realista da sua abordagem. Sorte dos espíritas e do público, já que o diretor acertou de mão cheia na ideia de usar a história da participação de Chico no programa Pinga Fogo, da antiga TV Tupi, como marco narrativo do filme.  Daniel contaria simultaniamente duas histórias muito significativas da nossa cultura contemporânea: a trajetória do mais famoso e popular médium do século e também a história da televisão brasileira, da qual teve participação marcante como diretor de novelas. As cenas fílmicas do roteiro foram genialmente sincronizadas com a cenas documentais dos arquivos da TV Tupi, relebrando os momentos de maior audiência registrados na programação de TV no Brasil.  O repórter Saulo Gomes, tentemunha ocular dessa história, relebrou em detalhes a produção  e repercussão do Pinga Fogo:


“Em 1971, convidei Chico Xavier para participar do programa Pinga-Fogo, um programa de entrevistas da TV Tupi de São Paulo, emissora onde eu trabalhava na época. Era um programa líder de audiência, cuja essência era “crivar” o entrevistado de perguntas elaboradas por competentes jornalistas. Chico ficou um pouco receoso, mas aceitou. A maior prova de confiança e amizade que o Chico me deu foi aceitar participar do programa. Vinte e três horas e trinta minutos do dia 27 de julho de 1971, o programa entra no ar! Na primeira fila estavam os convidados e as autoridades. Na rua sobravam pessoas que queriam entrar no auditório superlotado. Diante daquela situação, a TV Tupi mandou instalar televisores na parte externa do prédio. Nas imediações, as ruas precisaram ser interditadas. Temos a informação do Ibope que a audiência já é grande, mesmo antes do programa começar. Jornalistas competentes e convidados das mais variadas religiões estiveram presentes, sem contar a participação das pessoas do auditório e dos telespectadores. Chico respondeu a todas as perguntas, segundo ele, sob a inspiração muito direta de Emmanuel que lhe “assoprava” aos ouvidos as respostas, em uma bela interação entre dois mundos! O Pinga-Fogo com Chico Xavier foi um marco na história do espiritismo, que crescia com timidez e, depois desse primeiro programa, a doutrina espírita ganhou destaque e o justo respeito.

Não é exagero dizer que há esse divisor de águas – o antes e o depois do Pinga-Fogo, que, com o poder de penetração da televisão e do rádio (a rádio Tupi também transmitiu o programa), contagiou milhões de pessoas levando-lhes o autêntico representante do espiritismo, Chico Xavier.

Eu me senti realizado como profissional e, principalmente, como ser humano! Como resultado do sucesso do programa, uma edição especial foi realizada em dezembro do mesmo ano.

(http://www.institutochicoxavier.org.br/programa-pinga-fogo-da-tv-tupi-com-chico-xavier/)


WANDA, IVANI  E VANUCCI

A obra de Chico Xavier, que até o ano do seu desencarne ultrapassou a casa dos 30 milhões de exemplares vendidos, não poderia permanecer restrita aos livros. Tratava-se de uma temática literária cuja diversidade teria que ser, mais cedo ou mais tarde, transmutada para outras linguagens artísticas. Quem de nós, ainda hoje, não sonha em ver nas telas do cinema e da TV uma grande e sofisticada produção das obras de Emmanuel, André Luiz ou Lúcius? Ficamos imaginando que algum produtor de Hollywood um dia vai se interessar pelo assunto. Por que nenhum diretor do cinema de arte europeu não filmou ainda a história de Allan Kardec, mostrando a Paris dos primeiros tempos do Espiritismo? 

Enquanto sonhamos é bom lembrar que grandes autores de novelas, bem com seus sucessores, quando não trataram diretamente do assunto espiritismo, não perdiam a oportunidade de colocar temas com forte teor de espiritualidade em seus roteiros. Mesmo que, em termos mercadológicos e de audiência, esses temas se tornaram praticamente obrigatórios nas novelas e mini-séries brasileiras, não se pode negar que muitos desses autores e diretores, na condição natural de médiuns, foram não somente influenciados pelos precursores, mas também porque passaram por provas pessoais que os conduziram positivamente para o texto de impacto esclarecedor e de “conspiração” artística espiritual. 

No Brasil três nomes merecem ser lembrados como importantes pioneiros da arte e comunicação espírita de massa: os mineiros Wanda Marlene dos Santos e Augusto César Vannucci; e a vicentina e paulista Ivani Ribeiro (Cleide Alves Ferreira), que tiveram muita vontade, mas nem sempre com todas as condições de transformar sonho em realidade. Foi um esforço histórico, de lançamento de sementes em terreno resistente e árido e que só depois de muitos anos iriam germinar.

 No início da década de 1960 a atriz Wanda Marlene ocupou um precioso espaço cedido pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte, para produzir e levar ao ar algumas obras mediúnicas de Emmanuel. Era uma produção simples, praticamente um teatro televisionado. O ponta-pé inicial da série foi dado em 1961 com “Lívia”, adaptada do romance Há Dois Mil Anos, seguido de “O Grande Testemunho” (do livro 50 anos depois), Renúncia e concluída em 1964 com Ave Cristo. Para o ano seguinte previa-se a produção de Paulo e Estêvão. O “Anuário Espírita 1965” registrou como colaboradores do trabalho precursor de Wanda um numeroso elenco: Zélia Marinho, Geraldo de Oliveira, Vilma Henriques, Tales Pena, Nilda Almeida, Sérgio Luiz, Wantencyr Mattos, Carlos Farah, Toni Vieira, Anaíde Martins, Ari Fontenelli, Rogério Falabela, Jota Barroso e outros. 

Iniciado pelas mãos de Pascoal Carlos Magno, no Teatro do Estudante, Augusto César Vanucci, nascido em Uberaba, médium intuitivo, faria uma trajetória mais ampla, ocupando espaços de comunicação mais abrangentes como as grandes redes de televisão no Rio e em São Paulo. Discípulo de Chico Xavier, dividido pela prova do poder, entre o dever, a imagem profissional, e o ideal filosófico, Vannucci decidiu romper as amarras das aparências e, como Wanda Marlene, partiu para “tudo ou nada e seja o que Deus quiser”. Dono de um perfil cobiçado nos meios artísticos, no mercado promissor nas décadas de 1960 e 1970, em meio a perturbações psíquicas e dramas familiares, o grande diretor deixou sua marca no maior veículo de comunicação de massa do século XX: 

“A verdade confessa era que eu assumia, mais ou menos, postura espiritualista, mantendo, todavia, os pés presos no materialismo. Depois de trabalhar em 146 peças teatrais, 30 shows noturnos, dirigir para a TV Globo 4.100 programas, descobri, numa viagem astral, em conversação com amigos espirituais, que o verdadeiro trabalho estava por vir”. 

Essa luta entre o ser e o não ser, uma constante no trabalho de Vannucci, num delicado terreno onde predomina a vaidade e a ânsia pelo sucesso, foi assim comentada pelo jornalista e autor de TV, Eloy Santos[94]: 


“Teatro, cinema, televisão. Essas três expressões da arte e da cultura brasileiras tiveram, no correr das últimas quatro décadas, a presença e o talento cintilante de Augusto Cesar Vannucci. Como um mestre do ofício, ele deixou sua marca pessoal em tudo. Marca do gênio. (...) Quer queira ou não este país sem memória, Augusto Cesar Vannucci é, hoje, uma referência importante na história da TV mundial. Lendo essas linhas, como eu sei que ele está lendo, vai dizer: ´O Eloy fez bobagem. Minha contribuição maior à televisão foram os programas que falam de espiritualidade...´ É verdade. Quando se discutia a sua obra na TV, Vannucci destacava programas como ´3ª Visão´, ´Percepção´, `Fronteiras do Desconhecido´ e o especial ´Chico Bondade Xavier´. Para ele sempre valeu mais a pena dar o espaço para os `Espíritos do Senhor que, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos´. Aqui, um parêntese: também nos anos 1980 Vannucci produziu e dirigiu a peça ´Além da Vida´, com textos de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco. Ela está em cartaz até hoje. Augusto César Vannucci. Um pioneiro. Ele andou por um caminho áspero e marcado muitas vezes pela incompreensão, ao se dispor à tarefa de dar câmeras e microfones na TV ao Espiritismo. Mas não recuou jamais. Mesmo quando o preço de tal gesto representasse, como muitas vezes representou, a perda de posições de mando e prestígio.” 


Nos anos 70 a televisão iria explodir no Brasil como meio de comunicação de massa e as telenovelas seriam o principal recurso desse vínculo entre as emissoras e o público. Já em 1973, o Programa Pinga Fogo, da Rede Tupi, mostrara que a relação entre Espiritismo e a sociedade brasileira não era apenas modismo e sim um fenômeno de forte identificação cultural. Não tardaria então para que se cobrasse dos diretores e autores algo mais palpável nesse sentido. A maioria deles tinha relação direta ou indireta com os temas da espiritualidade, mas Ivani Ribeiro foi quem rompeu essa simpatia distante para entrar de cabeça e coração no tema, sem temer as conseqüências. Levou Allan Kardec para a teledramaturgia. E a base literária dessa transmutação de texto escrito para texto visual foi Chico Xavier, com a consultoria impecável de J. Herculano Pires. “Nosso Lar”, de André Luiz, tornou-se então a novela “A Viagem”, um grande campeão de audiência que foi ao ar em duas versões: uma na Tupi, em 1975, e outra na Rede Globo, em 2004. A partir dessa ousadia de Ivani e dos produtores, a fenomenologia espírita tornou-se praticamente obrigatória nos roteiros dramáticos da televisão brasileira. Os outros autores, também por influência do cinema, mesmo com reservas, começaram a mostrar suas impressões sobre as coisas do outro mundo. Até mesmo o teatro, que certamente havia sido o primeiro formador desse público, voltou a encenar e deu um grande impulso na profissionalização das peças espíritas. 


UM DEPOIMENTO IMPORTANTE

No ano de 20o9 acessamos o site “globo.com” em busca de dados sobre o remake da novela “A Viagem”, uma ótima ferramenta de pesquisa com informações curiosas sobre a maioria das produções da TV Globo. Mas na época encontramos um obstáculo: os links não permitiam copiar e colar textos e imagens. Queríamos muito divulgar o depoimento do diretor Wolf Maia sobre o assunto porque percebemos na sua fala uma admirável combinação entre conhecimento, profissionalismo e sensibilidade. Ali consta todas as razões, explicações e justificativas dessa produção. Reclamamos com os responsáveis alegando que a liberação dos links seria muito importante para o trabalho dos pesquisadores. Recebemos na época uma pronta resposta informando que a nossa sugestão estava sendo estudada pelos responsáveis pelo acervo. Para a nossa surpresa e satisfação, os links foram liberados. Não sabemos se o nosso pedido teve alguma influência na decisão, mas tal abertura permitiu que esse material fosse citado livremente nos trabalhos comuns e principalmente nos acadêmicos. 


“A viagem foi feita às pressas. Vira-lata ia entrar em cartaz e não entrou, acho que o Lombardi atrasou – característica do nosso Carlos Lombardi, sempre atrasado. Atrasou a Vira-lata, e a gente teve que botar a novela em vinte dias. Eu me lembro que eu achei A viagem. Paulo Ubiratan estava comigo nessa maratona, e ele era, na verdade, o meu chefe. Ele estava acima de mim, era o diretor artístico. Eu ainda não era diretor de núcleo, não existia ainda esse termo. Existia o diretor artístico, que era o Paulo, e foi durante anos. E eu falei para ele: ‘Vamos fazer uma Ivani Ribeiro. Primeiro, porque é a única certeza que temos que existe uma obra que já está pronta. Não vamos poder fazer uma obra que alguém vai escrever. Basta essa que não escreveram. Então, vamos pegar uma coisa que já está escrita.’ E aí fomos lendo Ivani Ribeiro pela ponte-aérea. Íamos conversar com a Ivani Ribeiro em São Paulo. Nós sentamos, eu, um espaço em branco e ele. No espaço em branco, uma pilha de coisas para ver. E nós achamos... Eu achei A viagem. Eu falei para ele, e ele gargalhou: ‘Mas olha que máximo, o brasileiro é extremamente ligado nisso.’ Eu já sabia disso, eu sei disso. Todos nós sabemos como é excitante você falar sobre o mundo sobrenatural, sobre coisas que você não conhece. Se conseguíssemos trabalhar, tratar Kardec, o espiritualismo, sem essa exposição comercial, sem ser doutrinador. Eu não queria fazer uma obra doutrinadora do kardecismo. Ia ficar chata. Então vamos juntar essas duas coisas, temos personagens interessantes, temos uma história que tem o temperamento brasileiro. E o evento dessa história só vai acontecer lá depois do capítulo 50 – porque a história começava de maneira muito simples. Eu podia começar a gravar na semana que vem. O céu, que eu tinha que achar como era, e o inferno, que eu ia quebrar minha cabeça para achar, só apareciam depois do capítulo 60. Então, eu tinha tempo para respirar. Podia botar uma novela em vinte dias no ar. Aí é que está o improviso da televisão. Aí é que está o que a televisão ensina para gente, e ninguém mais ensina. E quem não sabe fazer aqui, se ferra, porque não tem muito tempo para nada. Tem que ser tudo muito preciso, criativo e rápido. E assim nós fizemos A viagem. E foi exatamente assim. Eu tive a parceria de dois grandes atores. A Cristiane Torloni, que eu trouxe de Portugal, ela estava morando em Portugal. Tinha acontecido uma tragédia pessoal na vida dela, tinha perdido o filho e tinha saído do Brasil, muito triste. E eu a chamei para voltar, e ela voltou cheia de energia. Tinha o Fagundes, que é o eterno companheiro, principalmente para grandes desafios. Ele é bárbaro. E eu trouxe o Guilherme Fontes, para fazer o demônio, numa recodificação de uma pessoa que tinha cara de anjo. Ele fazia o cara do mal, mas personificado como se fosse o anjo do bem. Então isso também deu muito charme à obra. E a obra foi um dos maiores sucessos. A maior audiência da TV Globo no horário das sete. Eu fiz 72 pontos de audiência, às 19h. Foi um recorde.”


CHICO E KARDEC

Esses relatos são apenas um pequeno aspecto da obra de Chico Xavier, um militante espírita que não comporta nenhuma comparação com os que vieram antes e que poderão vir depois dele. No Movimento Espírita, ele é sui generis. Podemos afirmar, com toda certeza, que o seu trabalho literário é o mais importante e significativo desde a Codificação. É um acervo que abrange os mais variados aspectos da experiência humana, expressando as idéias e experiências de diversos Espíritos cujas ligações com a esfera carnal são mais recentes, mais próxima da condição humana. Dos Espíritos que se manifestaram na Codificação, somente Emmanuel, se fez presente na obra do médium mineiro. Mesmo assim, tanto na visão popular como na erudita, ele foi o mais expressivo discípulo de Allan Kardec no século XX, tanto que alguns dos seus admiradores mais entusiasmados afirmam que ele seria a próprio Professor Rivail, reencarnado. Essa convicção estaria fundamentada não somente em semelhanças vivenciais entre os dois, mas também em algumas confidências feitas por Chico a amigos íntimos. Segundo eles, Chico sabia de detalhes da vida pessoal de Allan Kardec nunca antes divulgados em documentos e publicações de fácil acesso. Uma delas é a amizade entre Kardec e a escritora George Sand (Aurore Dupin) e o processo judicial movido por um sobrinho do Codificador, reivindicando os direitos autorais das obras do tio e que, segundo Chico, teria retardado em no mínimo 50 anos a divulgação das obras fundamentais do Espiritismo. Chico teve esse mesmo problema com um sobrinho. Em público, o médium sempre negou essas especulações sobre esta sua suposta existência anterior, como nesse trecho de uma entrevista de 1972[95]: 

Pergunta - Existe alguma notícia, do plano espiritual, sobre a reencarnação de Kardec aqui no Brasil, ou em algum outro país? 

Chico - Até hoje, pessoalmente, eu nunca recebi qualquer notícia positiva a respeito da presença de Allan Kardec, reencarnado no Brasil ou alhures. Entretanto, eu devo dizer que em se tratando de vultos veneráveis do nosso movimento, tenho muito receio de receber qualquer notícia porque temo pela minha fragilidade, e estimaria não ser médium de notícias tão altas. Quando Allan Kardec surgir ou ressurgir, ele dará notícias de si mesmo pela sua grandeza, na presença que venha a mostrar. 


Tentando seguir sempre, no aspecto doutrinário, os passos de Allan Kardec, sua vida transformou-se num poema vivo da Doutrina Espírita. Seus 75 anos de mediunidade possui múltiplos significados no imaginário humano: para os espíritas ortodoxos os relatos dos seus livros funcionam como se fossem a ilustração mais atualizada e acessível do pentateuco kardequiano; para os parapsicólogos ele foi a síntese do “inexplicável”. Mas para o senso comum, sobretudo no conceito do que moralmente desolados o procuravam em busca de notícias dos mortos queridos, ele foi homem do povo que corporificou a caridade na sua expressão mais simples e consoladora. 

O assunto Chico Xavier tornou-se, tanto no Movimento Espírita, como na sociedade brasileira, um tema que suscita inúmeras opiniões, reflexo compreensível dos múltiplos aspectos e influências da sua obra literária e vivencial. Do ponto de vista sócio-cultural, ele é a principal referência mediúnica desde as revelações publicadas na Codificação. Este é o motivo pelo qual o escolhemos como destaque para encerrar a narrativa dessa fase histórica sobre a memória social do Espiritismo. 

Na análise de J. Herculano Pires, em texto publicado em 1973 na revista “Planeta” , Chico Xavier é o “Homem Futuro”, colocando médium brasileiro dentro dos modelos antropológicos evolutivos elaborados pelas escolas científicas. Para Herculano, naquele contexto no qual o avanço científico e tecnológico dava o tom de todos os discursos, o médium deveria ser encarado como um fenômeno “paranormal”, um protótipo autêntico do mais avançado exemplar humano do Terceiro Milênio. Seus traços psíquicos o enquadram perfeitamente no modelo de Homem Psi, fruto histórico das ciências dos séculos 18 e 19 e do advento da parapsicologia. Surpreendentemente, o Homem do Futuro não viria do espaço em trajes extravagantes nem possuía comportamento alienígena;  surgiria, como escreveu Carl Rogers, da mais absoluta origem natural humana, porém portador de alta tecnologia psíquica, extensão espontânea, não do cérebro, mas da mente sintonizada com as grandes transformações vindouras (como profetizou Marshal McLuhan em 1964): 

Eis síntese da reportagem feita por Herculano para a revista Planeta:

(...) Desde Giambattista Vico (1688-1744) com sua teoria das três idades ou fases históricas da humanidade, passando por Auguste Comte com sua lei dos três estados da evolução do homem, chegamos à Era Contemporânea, em que a antropologia cultural nos oferece novos esquemas no processo evolutivo do homem. 

Podemos estabelecer um esquema, segundo a antropologia cultural, que nos mostra, a partir do homem pré-histórico, uma seqüência de tipos característicos de várias etapas da evolução humana. Teríamos assim: o Homem Biológico ou Primata, o Homem Tribal ou Gregário, o Homem Anímico ou Pré-civilizado, o Homem Teológico das civilizações teocráticas, o Homem Racional da individualização ateniense, o Homem Metafísico da Era Pré-científica, o Homem Positivo da Era Científica e o Homem Psicológico da Era Tecnológica, dos nossos dias. Cada um desses tipos se define dentro do seu horizonte cultural, segundo a tese dos culturalistas alemães 

(...) O contato pessoal com Chico Xavier nos dá a medida do Homem-psi. Estamos em Uberaba, face a face com Chico Xavier. Nada encontramos de impressionante, de surpreendente. Temos pela frente um homem aparentemente comum, vestido com simplicidade, de corpo e estatura medianos, doente dos olhos, o que impede de realizar leituras e estudos que lhe atribuem os que não o conhecem. Chico fala com naturalidade e fluência. Antonio Zago comenta esse fato e o médium sorri, lembrando-nos seus tempos de menino, e adolescente, de jovem, quando gostava de aplicar nas conversas palavras estranhas que ouvia dos outros, achava bonitas mas não sabia o que significavam. ‘Foi então – diz ele – que Emmanuel começou a me chamar à atenção e corrigir-me.’ 

Para quem não conhece a vida real desse homem, a miséria que enfrentou desde criança, a doença da vista que o perseguiu sem cessar, isso poderia parecer desculpa, encenação. Mas a verdade brota espontânea do seu falar mineiro, de sua gesticulação natural. Perguntamos se a percepção dos Espíritos ao seu redor, o contato permanente com o mundo dos mortos não o perturba. ‘No princípio – responde ele – eu pensava que era visitado ocasionalmente pelos Espíritos e me sentia até incomodado. Com o tempo fui compreendendo que aquilo fazia parte de minha vida.’ 

Os repórteres sempre o enfrentaram com desconfiança. Cada reportagem sobre as suas atividades e cada entrevista com ele estão marcadas de suspeitas e ironias. Em Pedro Leopoldo, a cidadezinha em que nasceu e viveu longos anos, trabalhando em serviços pesados para sustentar-se e ajudar a família numerosa, foi vítima de agressões e chantagens. Certa vez o obrigaram a ajoelhar-se num banheiro para fotografá-lo em atitude ridícula. Não obstante, foi nessa época que produziu as obras psicográficas mais significativas. Os Espíritos o assistiam, suprindo a falta de assistência humana. Dois repórteres famosos o maltrataram e o subjugaram. Apresentaram-se como estrangeiros, dando nomes supostos. Quando iam se retirar, Emmanuel lhe disse que os presenteasse com livros psicografados. Chico autografou os livros e os repórteres partiram apressados. Ao chegarem ao Rio, tiveram a surpresa de verificar que Chico autografara os volumes com os seus nomes verdadeiros. Um deles hoje é espírita e seu admirador. 

O saudoso escritor Osório Borba escrevia um livro contra Chico Xavier. O autor de A Comédia Literária desejava provar que Chico não passava de pasticheiro. Encontrou-se comigo e Cid Franco em Belo Horizonte. Íamos a Pedro Leopoldo visitar o médium. Osório não nos revelou o que estava fazendo mas pediu para acompanhar-nos. Quando voltamos para Belo Horizonte e fomos a um bar, Osório se abriu: ‘Vou provar que o Chico é um pasticheiro, seja consciente ou inconsciente. Ele me impressionou bem, mas tenho de provar isso. Meu livro está quase pronto’. Discutimos a respeito e entre vários casos que vieram à baila citei-lhe Augusto dos Anjos. Osório, para meu assombro me disse: ‘Está aí um ponto curioso. Chico o pasticha bem, mas cometeu em Parnaso Além Túmulo um engano imperdoável: atribuiu a Antero do Quental o soneto Número Infinito, que pastichou para Augusto’. Protestei e mostrei-lhe que este soneto era uma réplica admirável do próprio Augusto dos Anjos ao soneto Último Número que ele tinha escrito em vida. Osório enfureceu-se, protestou, agitou o bar. Prometeu que chegando ao Rio verificaria isso e me escreveria. Nunca me escreveu a respeito e nunca, também, publicou o livro contra Chico. 

Lembro-me disso face a face com Chico e lhe pergunto: ‘Por que foi que esse maravilhoso soneto de Augusto dos Anjos, verdadeira ficha de identidade do poeta, não figurou na nona edição do Parnaso, comemorativa do 40º ano da publicação?’ Chico baixou os olhos e respondeu. ‘Não sei. Desde a quinta edição do Parnaso que eles tiram esse soneto’. E desviou o assunto. Eles são os editores da FEB, a cujo departamento editorial Chico cedeu gratuitamente uns oitenta livros. Nem sequer para a sua obra psicografada este homem que deu sua vida ao trabalho mediúnico pode exigir o respeito que ela merece. Soubemos depois de outras alterações nesse e em outros livros. Mas Chico Xavier não reclama porque sua missão é unir e não dividir. 

Perguntamos ao Chico se o fato de estar sempre mediunizado não o perturba. Chico lembra que na infância e na adolescência isso o perturbava. E acrescenta: ‘Vivemos sempre com o retrato que fizerem de nós e com a nossa própria realidade interior. Temos de nos ajustar a uma e a outra. Aceito o mundo e os homens como eles são, e continuo o mesmo. Só o tempo me deu esse equilíbrio. Isso não é fruto de santidade, como pensam alguns, nem de perfeição, como dizem outros – é fruto de experiência’. 

Este é um dos pontos que nos dão a prova da autenticidade de Chico Xavier: não se faz de santo, nem de perfeito, nem de mestre. Quando o Dr. Ranieri publicou um livro com o título de Chico Xavier, o Santo dos Nossos Dias, o médium se aborreceu como se o tivessem ofendido. Não quer que façam dele uma imagem irreal. Sabe que as faculdades paranormais são naturais e que todos as possuem em menor ou maior grau. Está convicto de que todos evoluímos para Deus através da experiência que desenvolve nossas potencialidades espirituais. Não se julga superior a ninguém, pois se considera um semovente do espiritismo, lembrando o dia que teve de inventariar os bens da fazenda em que trabalhava e descobriu essa palavra: ‘Foi então que descobri também o meu lugar’. 

[1] O Censo de 1994 mostrava que a população rural brasileira, em 1950, era de 63,8% e, em 1991, cairia para 25%, enquanto a população urbana atingiria um total de 75%. Em 1872, três anos após o desencarne de Allan Kardec, o Brasil tinha apenas 14.333.915 habitantes. Em 1991 a população brasileira chegou 146.825.475 habitantes. 

[2] Entrevista à TV-USP, veiculada no Canal Universitário em setembro de 2001. 

[3] Saudades do Brasil, Companhia das Letras, 1996. 

[4] Para alguns sociólogos os termos “massa” e “multidão”, embora semelhantes, possuem significados diferenciados, tanto no aspecto histórico como no ideológico. 

[5] Artigo: “A Abdicação do pensamento”, Correio da Unesco – “Religião e Poder”, fevereiro de 1995, Ano 23, nº2. 

[6] “À nossa moda”. Flávia Varella. 

[7] Vinícius, Educador de Almas. Wilson Garcia e Eduardo Carvalho Monteiro. Eldorado/ EME. 1995. 

[8] Idem. 

[9] 60 anos de Espiritismo em São Paulo. Edições FEESP 

[10] No livro A Mente Desconhecida, Cia. das Letras, John Horgan, ex-editor da “Scientific American”, demonstra que o assunto foi um fracasso para a Ciência no século XX e ainda será um enigma no século atual. Horgan pergunta: “Por que a Ciência não consegue replicar, medicar e explicar o cérebro humano?”. Ver a resenha de Reinaldo José Lopes, “Um muro na fronteira da mente”. Caderno Mais. Folha de São Paulo, 28/04/2002. 

[11] “Originalmente atraído pelo Positivismo, Bérgson afastou-se do dogma positivista de que a ciência podia explicar todas as coisas e preencher todas as necessidades humanas. Tal ênfase no intelecto, afirmou Bérgson, sacrifica os impulsos espirituais, a imaginação e a intuição e reduz a alma a um mero mecanismo. Os métodos científicos não podem revelar a realidade fundamental (...) A Civilização Européia deve reconhecer as limitações do racionalismo científico (...) A ciência não é a única porta para a verdade e a mente não é uma coleção de átomos que obedecem a princípios mecânicos. A mente é um fluxo de consciência com extraordinárias capacidades intuitivas.” – Marvin Perry, Civilização Ocidental – Uma História Concisa, Martins Fontes. 

[12] “Freud afirmou que as pessoas não eram fundamentalmente racionais; o comportamento humano é governado essencialmente por poderosas forças interiores que o consciente não percebe. Esses impulsos instintivos e essas faculdades não-racionais constituem a maior parte da mente. O grande feito de Freud foi explorar o mundo do inconsciente com as armas e a sensibilidade de um cientista. Considerou não apenas os atos exteriores de uma pessoa, mas também a realidade psíquica interior, que é a base do comportamento humano”. Idem. 

[13] O conflito entre os impulsos instintivos (fome, sexo, afeto,etc) e a as exigências da civilização (moral) foram desenvolvidos por Rogers como o jogo de congruência versus incongruência:, onde o “Eu ideal” ofusca o “Eu real”, impedindo a transformação das estruturas dinâmicas da mente. Ao contrário de Freud e dos filósofos pessimistas, Rogers identifica no ser humano uma permanente orientação interna positiva em busca da auto-realização. Ver Richard Evans, Carl Rogers; o homem e suas idéias. Martins Fontes; e também Terapia centrada no paciente. Moraes Editores. 

[14] No Mundo Maior, FEB Editora. Nesta obra a estrutura da mente é descrita como uma casa de três andares: Inconsciente (porão), consciente (térreo) e superconsciente (piso superior), representando respectivamente as experiências do passado, do presente e a idealização intuitiva do futuro. Ver também, de nossa autoria, A Inteligência Espiritual - A Revolução Pedagógica da Escola de Aprendizes do Evangelho. DPL Editora. 

[15] Verdades e Conceitos. Editora Aliança. São Paulo. 

[16] Isso é explicado detalhadamente na obra Manual Prático do Espírita, de Ney Prieto Peres. Ed. Pensamento. São Paulo. 

[17] O Colégio Allan Kardec, fundado por Eurípedes Barsanulfo em Sacramento, é um exemplo de pioneirismo, porém não de ruptura educacional e social. Tanto que não conseguiu expandir-se, pois efetiva fundamentado nas estruturas educativas tradicionais, muito pouco diferente das escolas católicas e protestantes. 

[18] Ver o item “O relógio existencial e a bússola da consciência” no capítulo 9 

[19] Parábolas e Ensinos de Jesus, Editora O Clarim, Matão. 

[20] Sabedoria das Parábolas, 5ª edição. Editora Alvorada, São Paulo. Influenciado por Teilhard Chardin, Rohden era a grande esperança intelectual de uma parte do clero católico para preparar os adeptos para o advento do Cristo Cósmico, uma tendência de transição do dogmatismo para o Espiritismo. Mas as incursões de Rohden pelo esoterismo criaram um clima de ameaça no clero conservador, sobretudo no Brasil, que proibiu suas obras entre os católicos. Sua tradução e comentários dos textos apócrifos de Tomé e Tiago ainda representam uma forte ameaça ao clericalismo hierárquico. O próprio filósofo, tentando preservar seus leitores católicos de uma mudança brusca em suas convicções, nunca falava abertamente em reencarnação e mediunidade. Rodhen chegou a fazer conferências na Federação Espírita do Estado de São Paulo, na época de Edgard Armond, período em que a FEESP mantinha um programação de contato fraterno com diversos segmentos filosófico-religiosos. Em livro um sobre os essênios ele cita como referência a obra mediúnica Harpas Eternas, do Espírito Hilarion de Monte Nebo; este livro, antes de ser publicado no seu país de origem, a pedido do autor espiritual, foi submetido a uma revisão por Edgard Armond. 

[21] Capítulo XII, Perfeição Moral. 

[22] Terapia Centrada no Paciente. Moraes Editores. Lisboa, 1974. 

[23] Livraria Martins Fontes Editora. 

[24] The Samaritans in the 70’s – CVV - Brasília. 

[25] CVV- Manual do Voluntário e CVV 25 anos: Uma Proposta de Vida”, Editora Aliança. 

[26] Tornar-se Pessoa. Carl R. Rogers. Martins Fontes. 

[27] Harpas Eternas, pelo Espírito Hilarion de Monte Nebo, psicografia de Josefa Rosália Luque Alvarez, Editora Pensamento. Hilarion é o líder da Fraternidade dos Essênios. 

[28] “Uma poderosa rede, embora sem liderança, está trabalhando no sentido de provocar uma mudança radical nos Estados Unidos. Seus membros romperam com alguns elementos-chave do pensamento ocidental. E até mesmo podem ter rompido com a continuidade da História”. Página 23. Editora Record. Ver o item o Espiritismo e o futuro da Humanidade, capítulo V. 

[29] “Reflexões sobre a Morte” e “Vivendo o processo de morrer”, in Um jeito de Ser. Ver o texto citado no posfácio deste livro. 

[30] Carl Rogers: o homem e suas idéias. Richard I. Evans. Livraria Martins Fontes Editora. 

[31] A FEESP é considerado o Setor I e a Aliança Espírita Evangélica, fundada em 1973, é considerado o Setor II. São diferentes agrupamentos de atuação no Movimento Espírita e na própria FDJ, que possuem em comum a Escola de Aprendizes do Evangelho e a participação de seus membros na Fraternidade dos Discípulos de Jesus. 

[32] Editora Pensamento. 

[33] Editora Aliança, 28ª ed. 1992. 

[34] Capítulo 4 – Evolução da Mediunidade. 

[35] Esses dois textos fazem parte atualmente da coletânea Métodos Espíritas de Cura, Psiquismo e Cromoterapia. Editora Aliança. 

[36] Iniciação Espírita – Edgard Armond e outros. Editora Aliança 

[37] Passes e Radiações, 3ªed. página 10. Editora Aliança. São Paulo, 1999. 

[38] Tanto o conceito de “colônias” como o de “fraternidades” são desdobramentos ampliados de “Mundos transitórios” do capítulo VI de O Livro dos Espíritos. Ver também Vivência do Espiritismo Religioso, capítulo 4, item 4.29. Editora Aliança, 5ª ed, 1995; Ver também Martha Gallego Thomaz, As Fraternidades do Espaço (edições FEESP, 2001) e História das Fraternidades (Fraternidade Assistencial Esperança, 2001). 

[39] Iniciação Espírita, aula 72. 

[40] O Livre-Arbítrio, poderoso fator de evolução, 1ª ed. Editora Aliança. São Paulo, 1979. 

[41] Vivência do Espiritismo Religioso, Capitulo 4, página 4.25. Ver também FDJ – Perguntas e Respostas, Editora Aliança, 2004. 

[42] Guia do Discípulo, Editora Aliança, 1982. 

[43] “O Trevo”, Aliança Espírita Evangélica, 1982. 

[44] Mensagem transmitida por Divaldo Pereira Franco e inserida no livro Edgard Armond, meu pai, de Ismael Armond. Editora Aliança. 

[45] Dr. Militão Pacheco, abnegado médico, citado pelo Espírito Hilário Silva na crônica “O Médico e o Fiscal”, do livro Almas em Desfile, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira. FEB Editora. É de sua autoria a conhecida reflexão estampada nas paredes de inúmeras casas espíritas: “Ama e trabalha. Trabalha e serve. Perante o bem quase sempre temos sido somente constantes na inconstância e fiéis à infidelidade, esquecidos de que tudo se transforma, com a exceção da necessidade de se transformar.” 

[46] Artigo “Nem só de consolação vive o Espírita”. Vivência do Espiritismo Religioso, capítulo 9. 5ª ed. 1995. Editora Aliança. São Paulo. 

[47] Mensagens e Instruções, capítulo 28, página 87. Editora Aliança. 2ª ed. 2001. 

[48] O Espiritismo e a próxima Renovação. Editora Aliança. 1ª ed. 2002. 

[49] Bezerra de Menezes, págs. 57 e 57. Edições FEESP. 

[50] Essa narrativa foi composta a partir de dados biográficos de Edgard Armond (jornal o Trevo, 1982); Anais do 1º Congresso Espírita do Estado de São Paulo, USE; 60 Anos de Espiritismo no Estado de São Paulo, de Ary Lex, FEESP; J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec, de Jorge Rizzini; Bezerra de Menezes, subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895, de Canuto Abreu, FEESP; A Caravana da Fraternidade, de Leopoldo Machado, Lar de Jesus, 1954. Ver também o estudo “Breve História da Unificação”, de Mauro Quintela, no qual o autor faz uma descrição crítica e detalhada das disputas políticas e polêmicas ideológicas envolvendo militantes e as entidades federativas. O estudo faz também uma revisão historiográfica do assunto comparando os trabalhos de Noraldino do Santos e Luciano dos Anjos. 

[51] 60 Anos de Espiritismo no Estado de São Paulo!. Edições FEESP. 

[52] Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, cap. 28, página 223. 

[53] 60 Anos de Espiritismo no Estado de São Paulo. Edições FEESP. 

[54] Filósofo estóico do século I. Foi, em Roma, escravo de Epafródito, liberto de Nero. Conta-se que o seu senhor, homem brutal, lhe torcia um dia a perna num aparelho de tortura: “Olha que a quebras”, disse ele tranqüilamente. Vendo que a sua predição foi realizada, o filósofo se contentou em observar: “Não te disse?”. Dicionário Prático Ilustrado. Tomo III – História e Geografia. Lelo e Irmãos Editores. Porto. 1966. 

[55] Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec, Paidéia, São Paulo, 2001. 

[56] ¨60 anos de Espiritismo, página 153. Edições FEESP. 

[57] Capítulo IV, páginas 118 e 119. Editora Pensamento. 

[58] Atlas Histórico do Mundo, página 292. Times Book e Folha de São Paulo, 1993. 

[59] À Caminho da Luz. 21ª ed. cap. XXIV, página 210. FEB Editora. 

[60] Mensagens do Astral, capítulo 5, 11ª Edição – Freitas Bastos –1996 

[61] Comentário sobre a questão 188 de O Livro dos Espíritos. 

[62] Revista Espírita, Ano III, outubro de 1860, nº10. Edicel 

[63] “Não decorrerá muito tempo para que essa verdade seja demonstrada de maneira viva. E o mundo saudará alegremente o alvorecer dessa era, enquanto o íntimo dos homens se abrirá, para estabelecer a comunicação espiritual, como a desfrutam os habitantes de Marte, Júpiter e Saturno.” Citado por J. Herculano Pires em O Espírito e o Tempo, capítulo IV, item 3, página 121. Editora Pensamento. 

[64] “A paz e a Verdade” em Crônicas de Além-túmulo. 8ªed. capítulo 24, página 143. FEB Editora. 

[65] Edições Correio Fraterno. São Bernardo do Campo. 

[66] “Nos tempos evangélicos, Eurípedes fora educado por Inácio, pupilo de João, que se tornara grande propagador da Boa Nova, na Antioquia. Adolescente ainda, Eurípedes substituíra o Benfeitor na pregação, na Palestina, onde manteve contatos com João, e onde foi martirizado. (Revelações inéditas de Emmanuel a Francisco Cândido Xavier). Em Ave Cristo! – romance de Emmanuel vamos encontrá-lo duzentos anos após o flagicídio de Jesus como Rufo – um cristão, escravo em Roma, radicado nas Gálias, onde se dedicara aos serviços do Evangelho”. Notas desta biógrafa nos capítulos 10 e 17 de Eurípedes, o Homem e a Missão. IDE. 1979. 

[67] “TIME-Visões do Espaço e da Ciência”, vol.3, nº14. Folha de São Paulo, 6 de abril de 2000. 

[68] Capítulo 1. 

[69] Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo XX – “Como combater o Espiritismo”. 

[70] Curso Dinâmico de Espiritismo, Capítulo XVI – “A Morte de Deus e o século XX”. 

[71] Ano I, nº4,outubro de 1956: “Diz nosso Orientador que a Mensagem é de elevado teor... E todo trabalho organizado com o respeito, com o carinho e com a dignidade, dentro dos quais essa Mensagem se apresenta, merece a nossa mais ampla consideração, de vez que todos nós, em todos os setores, somos estudiosos, que devemos permutar as nossas experiências e as nossas conclusões para a assimilação do progresso, com mais facilidade em favor de nós mesmos." 

[72] Relação de livros condenados pela Igreja. É feita pela Congregação do Index, tribunal fundado em Roma no século XVI, em execução de cânon do Concílio de Trento e que tem por missão examinar os livros que lhe são submetidos pela autoridade eclesiástica e proibir os que julga perigosos. (Lelo- Dicionário Prático Ilustrado. Lisboa). Essa função é hoje exercida pela “Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé”, o novo nome do Santo Ofício ou Inquisição. Foi essa instituição que perseguiu e cassou, recentemente, a atuação literária e política da “Teologia da Libertação”, do ex-frei brasileiro Leonardo Boff. Nota do autor. 

[73] Elucidações do Além, Aspectos Singulares das Sessões Mediúnicas, págs.33 e 34. Freitas Bastos. 1975. 

[74]Editado pelo Centro Espírita Allan Kardec. Campinas, São Paulo. 

[75] Palestra realizada no Centro Espírita Aprendizes do Evangelho, na rua Genebra, 172, em São Paulo. 

[76] Sobre Maomé: “(...)Ele, porém, voltaria depois à poeira dos caminhos terrenos, em sucessivas peregrinações de reajustamento (...) Na esteira da história, ainda nos comoveria profundamente os Espíritos, ao se mostrar, modesto e ativo, sempre amparado pelos seus indefectíveis Amigos Espirituais, a construir, laboriosa e infatigavelmente, com a ajuda de sua fiel Cadidja, a monumental reinterpretação de Os Quatro Evangelhos...; Capítulo X, página 152. E Sobre Kardec: “ (...) O grande Espírito do apóstolo Tomé já estava, a esse tempo, no mundo, onde reencarnou a 3 de outubro de 1804, com a excelsa missão de codificar o Espiritismo.” Capítulo IX, página 138. FEB Editora. 5ªed. Rio de Janeiro, 1998. 

[77] Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo XX. 

[78] Os Quatro Evangelhos, volume 2, página 454. FEB Editora. 

[79] Citado por Suely Caldas Schubert em Testemunhos de Chico Xavier. Feb Editora. Fonte: Museu Roustaing. Consulta no site na Internet, em 19/05/2003: www.casarecupbenbem.org.br 

[80] FEB Editora. 

[81] No artigo de Gélio Lacerda da Silva, publicado no Jornal Espírita da FEESP (outubro de 2001), o autor faz um balanço dessa suposta “mudança” de rota doutrinária de Divaldo Pereira Franco, desde os primeiros tempos até a publicação de obra Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda, pelo Espírito Joana de Angelis. Em “Os adeptos de Roustaing”, Luciano dos Anjos afirma que Divaldo jamais repudiou essas obras. 

[82] Jesus, ensinamentos essenciais. Edições Círculo do Livro. 

[83] Citado por Cleusa Beraldi Colombo - Idéias Sociais Espíritas, cap. III, pág. 100. 

[84] A Bíblia e o Espiritismo, Visão Espírita da Bíblia. Ed. Correio Fraterno. 

[85] O Verbete do Almanaque Abril 1996 resumia assim sua biografia: “ Líder espírita e médium mineiro (1910-). Francisco de Paula Cândido Xavier é o maior divulgador do espiritismo no Brasil. Aos 4 anos de idade, manifesta a mediunidade. De origem pobre, trabalha como vendedor, aprendiz em uma tecelagem e ajudante de cozinheiro. Aposenta-se como funcionário do Ministério da Agricultura. Psicografou, por meio de seu guia espiritual Emmanuel, mais de 300 livros, traduzidos para diversos idiomas e mesmo no sistema braile. Entre outros, escreve Missionários da Luz (1945), incorporado pelo espírito André Luiz. A renda da publicação de seus trabalhos, estimada em US$ 650 mil mensais, é destinada para obras assistenciais que mantém em vários lugares. Em Uberaba, onde vive, atende diariamente pessoas vindas de todas as partes do país. È mundialmente conhecido.” 

[86] FEB Editora. 

[87] Publicado pela FEB Editora, é o mais vendido da série André Luiz. 

[88] Lake – Livraria Allan Kardec Editora. São Paulo. 

[89] FEB Editora. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1976. 

[90] Projeções da Consciência. Lake.1981, páginas 37 (Debates Transmentais) e 101 (Advertência Oportuna). 

[91] “Nascido em uma fazenda na periferia de Congonhas, José Pedro de Freitas, o Zé Arigó, era o primogênito de uma família de dez irmãos. Desde pequeno viu-se assombrado por imagens macabras que o perseguiam por onde quer que fosse. Já na adolescência recebia a visita nada palpável de um homem que se dizia um médico alemão - Dr.Fritz - já falecido, que tinha a incumbência de praticar a cura de enfermos utilizando o corpo de Zé Arigó. Depois de muito resistir Arigó acabou por se submeter aos apelos do tal espírito. Já adulto Arigó foi preso por exercício ilegal da medicina. Mesmo na cadeia manteve a atividade: atendia internos, parentes, carcereiros e até um delegado da época levou sua mãe para ser operada da coluna. Artistas da televisão, cantores e outras celebridades enfrentavam filas quilométricas para receber o atendimento oferecido pelo médium. Políticos como JK e Jango também se aproximaram dele que era um dos personagens mais populares do país na segunda metade do século passado. Alguns jornalistas, ávidos por desmascarar o curandeiro, se infiltraram nas filas, se passando por doentes, buscando desmistificá-los. Sem obter sucesso, alguns acabaram se tornando seus amigos. Sua morte, em janeiro de 1971, foi prevista pelo próprio Zé Arigó. Ela aconteceu de forma abrupta após um acidente na Rodovia BR 040. Por causa das suas convicções Espíritas, que acredita na teoria da reencarnação, a Igreja Católica não permitiu que seu velório fosse realizado em qualquer das igrejas de Congonhas. Trinta e quatro anos depois da sua morte, a ciência ainda se recusa a admitir que o fenômeno Arigó estivesse além do curandeirismo ou charlatanismo. Contestam aquilo que as imagens fartamente gravadas pelas câmeras de TV não permitem esconder.” Texto extraído do site Globo.com, link do programa Linha Direta Justiça, exibido pela TV Globo em 15 de dezembro de 2005.Ver também “Arigó – Vida, mediunidade e martírio”, de J. Herculano Pires. EME. 

[92] Artigo de Fabiano Possebon em “O Reformador”, abril de 2001. 

[93] Essa experiência de Chico aconteceu como uma preparação do livro Sexo e Destino e foi revelada pelo Dr. Hernani Guimarães Andrade, em artigo da Revista Espírita, editada em Salvador, por Alamar Régis. 

[94] Citado no livro De Ave César a Ave Cristo. Maio Editora. Rio de Janeiro, 1994. 

[95] Revista Internacional de Espiritismo, março de 1972. 

[96] Editora Três. São Paulo junho de 1973. 

[97] Na época Herculano omitiu, talvez por questão de ética profissional, os nomes desses repórteres: David Nasser e Jean Manzon, ambos da revista “O Cruzeiro”. Nota do autor.



Essa imagem de Allan Kardec foi criada e produzida por Pasquale Giacobelli em outubro de 2009, a partir das conhecidas reproduções fotográficas. É talvez, até agora, a melhor reconstituição histórica da imagem do Codificador do Espiritismo na qual o artista realça todos os detalhes possíveis, principalmente os traços fisionômicos gauleses do Professor Rivail (clique e amplie). Com exeção da jaqueta de couro, que nos pareceu um equívoco da inovação digital, a imagem acompanha curiosamente as características fotográficas anteriores.

Não sabemos qual o interesse de Giacobelli pelo Espiritismo, nem o que motivou a sua escolha, mas certamente esse trabalho de sua autoria vai mudar definitivamente cultura iconográfica espírita. O resultado é surpreendente para todos que estão acostumados com as repetidas reproduções de imagens de Kardec que circulam há décadas nos meios de comunicação. O novo protótipo muda completamente essa realidade e nos dá uma boa noção do que poderemos obter futuramente como recurso ilustrativo na abordagem das temáticas históricas e doutrinárias. Esse tipo de trabalho pode ser, por exemplo, a base de um interessante museu digital itinerante.

Que o artista não se sinta ofendido, muito menos inibido com o uso de sua obra, que daqui para frente será cansativamente citada nas centenas de publicações espíritas espalhadas pelo mundo.

A imagem foi publicada no site da CGS-SOCIETY - Sociedade de Artistas Digitais – cuja página também tem espaço para comentários. As informações colocadas como legenda da imagem estão em inglês e contém alguns pequenos erros de datas e referências.



Livro VII - O FUTURO DO ESPIRITISMO 

"A lembrança não poderia resultar de um estado cerebral. O estado cerebral prolonga a lembrança; faz com que ela atue sobre o presente pela materialidade que lhe confere; mas a lembrança pura é uma manifestação espiritual. Com a memória estamos efetivamente no domínio do espírito" - Henri Bérgson. 


DISSERTAÇÕES

Quando observados pela ótica sociológica os fenômenos espíritas quase sempre flutuam entre o real e o imaginário da opinião pública, ou seja, gozam de entendimento e aceitação ou então da rejeição cuja origem é a simples ignorância das causas e efeitos que os regem. Existem ainda nesse contexto aqueles que entendem, porém não compreendem e por isso rejeitam tanto as causas como as conseqüências daquilo que observam. Mesmo com o advento dos métodos científicos de investigação, cuja credibilidade tornou-se quase que inquestionável, tais fenômenos permanecem ainda hoje nesse estado de flutuação e incertezas. Sobre eles ainda pesa a interferência do fator ideológico e ético, sobretudo no que diz respeito à condição moral dos observadores. Diz-se comumente que contra os fatos não há argumentos. Os fatos aí estão, mas, no plano ideológico, ainda resta o problema da aceitação dessa realidade. Nem tudo que é provável é necessariamente aceito como verdade, pois a decisão de reconhecimento depende muito da disposição emocional a ser empregada na mudança de valores de quem observa. É paradoxal, mas a aceitação plena de um fato científico está sujeita ao universo de crenças e paradigmas utilizados na sua avaliação. 

Entendemos que opinião pública é uma reação de comportamento coletivo em relação a um conjunto de informações sobre um determinado assunto, podendo variar entre os conceitos e os preconceitos. Diante de um fato as posturas individuais dos observadores que se destacam pela crítica, ainda que possam ser equivocadas e parciais, assumem a condição de agentes formadores de opinião, e que naturalmente irão influenciar outras opiniões cujos valores referenciais são mais vulneráveis. Antes do liberalismo científico racionalista os agentes formadores de opinião eram praticamente obrigados a aderir às forças políticas totalitárias religiosas, reforçando os preconceitos ou então silenciando seus conceitos, considerados subversivos e inconvenientes aos sistemas sociais de repressão. Ainda assim não podemos esquecer que até mesmo o liberalismo, inicialmente uma filosofia aberta e ligada às forças libertárias de contestação, tornou-se com o passar do tempo um braço ideológico das classes sociais abastadas e parte integrante da superestrutura do Estado burguês. Esse Estado liberal manteve os mesmos instrumentos de dominação e repressão do feudo-clericalismo medieval. Na França pós-revolução, estabilizadas as instituições burguesas, a Igreja e o Estado novamente se uniram como forças totalitárias de controle social. No período imperial brasileiro, o nome de Tiradentes era proibido e associado ao risco de ameaça e ruptura do modelo escravagista da nossa aristocracia rural. A Inglaterra industrializada e os Estados Unidos independentes tornaram-se mais conservadores e reacionários do que nos velhos tempos do absolutismo da dinastia Tudor. Não foi por outro motivo que Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e a Revista Espírita, suportes indispensáveis para garantir o instituto da moral espírita e a sua necessária comunicação social. Observando o que acontecia na América e na Europa, Kardec compreendeu de imediato que o Espiritismo estava sendo exposto nas principais vitrines de opinião pública da sua época. Só que essa exposição deveria ser corretamente orientada para evitar os ataques de inimigos perigosos, que atuavam sob a proteção social dos tradicionais estabelecimentos de conhecimento e poder. Tinha como preocupação constante a prestação de esclarecimentos, a correção de distorções na interpretação e julgamento de fatos e pessoas envolvidas, a maioria médiuns indefesos, alvos fáceis dos reacionários. 

Na Inglaterra, o pioneiro espiritualista Willian Howitt soube definir com muita precisão quais eram essas forças contrárias ao Espiritismo. Apontado por Conan Doyle como uma testemunha fidedigna e de qualificação irrepreensível, ele publica em 1866 essa triste constatação de que nem sempre os fatos e a verdade podem mudar positivamente o comportamento humano: 

“Se alguma coisa pudesse aniquilar o Espiritismo, sua atual estima pelo público inglês, seu tratamento pela imprensa e pelas cortes de justiça, a tentativa de sua supressão por todas as forças da inteligência pública, o ódio que lhe votam todos os heróis do púlpito de todas as igrejas e credos, a sua simples aceitação ainda mesmo por esse público que a imprensa considera maluco e pervertido, as suas próprias divisões internas – numa palavra, a sua preeminente impopularidade o teriam liquidado. Mas é assim? Ao contrário: jamais ele se arraigou tão firmemente na massa de mentes adiantadas; nunca seu número cresceu tão rapidamente; jamais suas verdades foram mais eloqüente e mais claramente defendidas; jamais as investigações a seu respeito foram mais abundantes e ansiosas. Durante todo o tempo em que a imprensa e os boatos estiveram lançando o insulto e o desprezo sobre ele, jamais as reuniões de Harley Street foram tão concorridas e superlotadas por senhoras e cavalheiros das classes médias e altas, que ouviam com admiração as eloqüentes e sempre variadas mensagens de Emma Hardinge. Ao mesmo tempo os Davenport, milhares de vezes denunciados como impostores, outras tantas demonstraram que os fenômenos que produziam continuavam inexplicáveis por qualquer teoria, exceto a espírita. 

(...) Não quero dizer a essas grandes corporações (sábios, cientistas, ilustrados, dirigentes do senado e das cortes de justiça, parlamentares, magnatas da imprensa popular, aristocracia, sistema de Educação, de Igreja e de Estado) que governam o mundo que abram os olhos e vejam que os seus esforços são infrutíferos e confessem sua derrota, porque provavelmente elas jamais abrirão os olhos e confessarão a sua vergonha. Mas digo aos próprios Espíritas: por mais escuros que os dias vos pareçam, jamais foram tão cheios de promessas. Ligadas como estão todas as forças dos instrutores e dirigentes públicos, jamais, entretanto, as perspectivas foram mais claras de nossa vitória final. Sobre ele há todas as características de conquista de influência em nossos dias. Ele tem à sua frente todo o legitimismo da história. Todas as grandes reformas sociais, morais, intelectuais ou religiosas triunfaram através da luta.” 


E que luta! O Espiritismo teria pela frente uma grande batalha na qual o próprio Mr. Hovitt ainda se posicionava no lado oposto, como intransigente adversário. O mesmo combatente que se mostra indignado com as perseguições contra o Espiritismo na sua Inglaterra já não demonstra a mesma segurança e maturidade espiritual quando expõe, com idêntica carga emocional, suas dúvidas, ou antes convicções dogmáticas, sobre a reencarnação. É uma opinião chocante para quem imagina que a realidade espírita repercute sempre de forma semelhante nas diferentes mentalidades dos seus adeptos. Hovitt cita, como argumento contrário, as experiências de Emma Harding Britten, informando que muitos Espíritos afirmavam desconhecer a idéia de reencarnação e muito menos provas sobre ela: 


“A coisa abala as raízes de toda a fé nas revelações do Espiritismo. Se formos levados a duvidar das comunicações espíritas sob o mais sério aspecto, sob as mais sérias afirmações, onde está o Espiritismo? 

(...) Se a reencarnação for uma verdade, lamentável e repelente como é, deve ter havido milhões de Espíritos que, ao entrarem no outro mundo, em vão terão procurado os seus parentes, os filhos, os amigos... Já teria chegado a nós esse sussurro de milhares, de dezenas de milhares de Espíritos comunicantes? Nunca. Podemos, portanto, só nesse campo, considerar falso o dogma da reencarnação como o inferno do qual ele brotou”. 

Já o redator do The Spiritual Magazine, Thomas Brevior, olha o tema sem nenhuma paixão e insinua que o tempo será responsável pela clarificação dessas idéias: 

“Quando a reencarnação assumir um aspecto mais científico, quando puder oferecer um demonstrável conjunto de fatos que admitam verificação como os do Moderno Espiritismo, merecerá ampla e cuidadosa discussão. Por enquanto, que os arquitetos da especulação se divirtam como quiserem, construindo castelos no ar. A vida é muito curta e há muito que fazer neste mundo atarefado, para que deixemos os vagares e as inclinações a fim de nos ocuparmos em demolir essas estruturas aéreas ou apontar os frágeis alicerces em que se assentam. É muito melhor trabalhar naqueles pontos em que concordamos, do que nos engalfinharmos sobre aqueles em que parece que divergimos tão desesperadamente.” 


Fica bastante claro nesses dois depoimentos, registrados em 1926 por Conan Doyle, que a revelação espírita passa por um processo gradual de compreensão nas mentalidades, da perspectiva de entendimento intelectual para a aceitação dos seus conceitos filosóficos. De uma fase rústica, marcada pela mediunidade de efeitos físicos grosseiros, muito próximos da realidade material, os fenômenos e suas conseqüentes revelações morais foram se apurando, juntamente com as técnicas e formas mais sofisticadas de sensibilidade mediúnica. Isso também inclui a condição moral e o comportamento dos médiuns. O próprio tema da reencarnação, como vimos, visto nas sociedades protestantes aristocráticas como uma crença estranha e exótica, com o tempo passou a ser encarado como manifestação de uma lei natural, no contexto da evolução dos seres e das formas, e seguramente confirmadas pelas habilidades psíquicas de médiuns igualmente mais evoluídos. 

No seu resumo histórico sobre a mediunidade[1] Edgard Armond, na mesma linha dos historiadores espiritualistas, defende a tese de que a faculdade psíquica foi sempre o principal instrumento de intervenção dos Espíritos no contexto evolutivo da Humanidade. Tais Espíritos, na condição de seres “diretores”, estabelecem os rumos a serem tomados pelas coletividades, respeitando sempre os limites naturais dos grupos afetados pelas revelações de ordem filosófica ou científica. Ele observa ainda que, nessa longa trajetória histórica, a faculdade mediúnica em si mesma pouco se modificou, mantendo os mesmos aspectos, pouco variando sua fenomenologia e formas de manifestação. Por ser naturalmente uma força de transformação ligada à inteligência, seu controle depende muito do senso ético e do livre-arbítrio dos seus portadores. Diante de força tão espontânea e quase tão incontrolável, muito semelhante aos impulsos energéticos da libido sexual, não havia, por parte das forças sociais “corporativas”, outra alternativa senão a repressão ideológica para conter as manifestações que representavam risco para as instituições político-religiosas. Essa repressão veio se ampliando na mesma proporção do progresso da inteligência e das habilidades mediúnicas humanas: 


“Ao terror do fanatismo religioso sucedeu o da vingança popular desenfreada e, no cadinho daquela dura provação, os destinos do mundo entraram de novo a ser confundidos. E foi então que os Espíritos Diretores tiveram de intervir novamente para orientar o movimento e impedir que as paixões desencadeadas ultrapassassem os limites permitidos, prejudicando o progresso geral ou retardando-o demasiadamente. Entraram a agir de forma enérgica e positiva, lançando em campo os elementos já de antemão preparados e dispostos nos setores mais convenientes. Isso sucedeu no século XIX, bem como nos nossos dias e em diferentes lugares ao mesmo tempo mas, notadamente, na América do Norte, onde os fenômenos objetivos e por si mesmos impressionantes se revelaram, chamando a atenção do mundo. É verdade que, ao tumulto causado pela explosão das massas, o Positivismo viera trazer uma certa derivação, metodizando o pensamento e orientando o raciocínio no sentido da justiça e da moral, mas, o que os Guias queriam era focalizar o aspecto nitidamente espiritual da vida, sobrelevante do material ou especulativo, para os quais, no momento, todas as forças vivas do homem se inclinavam. E isso eles o conseguiram eficientemente, porque o interesse despertado por essas manifestações do chamado sobrenatural foi considerável; todas as classes intelectuais se movimentaram e a sábios de indiscutível autoridade foi dada a incumbência de examinar o assunto à luz da ciência contemporânea. E então, para facilitar esse exame, os Espíritos Diretores determinaram o aparecimento de médiuns de ampla capacidade, com o que visaram também concorrer para que tais trabalhos resultassem concludentes e categóricos. Esses médiuns que eram, realmente excepcionais, submeteram-se a toda espécie de controle e os relatórios firmados por comissões científicas da América, Inglaterra, França, Itália e Alemanha, foram acordes em reconhecer que a vida realmente continuava além do túmulo e que era inegável o intercâmbio entre vivos e mortos. Essa foi a missão de Kardec – o Codificador – e dos notáveis Espíritos de Crookes, Ochorowicz, Du Prel, Lombroso, Myers, Steed, Flammarion, Léon Denis, Aksakof, Notzing, seguidos de Lodge, Richet, Doyle, Geley, Bozzano e Delanne, para citar somente os mais conhecidos. E assim, com o auxílio desses sábios, foi posto freio ao materialismo dominante, dada nova orientação ao pensamento religioso e a verdade é que, até hoje, o impulso dado naquela época vem crescendo de vulto e velocidade, produzindo um triplo resultado: a derrota do materialismo estéril, a destruição do fanatismo religioso medieval e a implantação dos fundamentos da verdadeira espiritualidade. O mundo, desde então, evoluiu mais depressa, numa fermentação interior e silenciosa, cujos efeitos sentiremos em tempos muito próximos, com o advento do Terceiro Milênio. Os cientistas e os médiuns foram, inegavelmente, os artífices materiais dessa grande vitória”. 


Realmente o século XIX foi o palco de uma das mais intrigantes guerras ideológicas que a humanidade já havia presenciado. Como já vimos, em plena Era Industrial a Ciência foi estruturando-se em rígidos sistemas racionalistas e passou a questionar todo o tipo de conhecimento que não se adequava aos paradigmas da sociedade capitalista. O principal deles era a religião cristã, então sob o controle das igrejas católica e protestante, cujos dogmas medievais impediam a expansão da moralidade burguesa e principalmente dos seus interesses econômicos. Era uma espécie de vingança histórica contra os abusos e perseguições aos livre-pensadores que durante séculos vinham sendo esmagados pelo terrorismo inquisitorial. Darwin, Spencer, Marx e Nietzsche foram, entre tantos outros, os principais demolidores da fé dogmática e da propagação das teorias materialistas. Essa guerra de idéias foi polarizada em diversos campos, mas em alguns deles as batalhas certamente foram mais ardentes e encarniçadas: a biologia versus a física; o cérebro versus a mente; o determinismo versus o livre-arbítrio e, finalmente, o materialismo contra o espiritualismo. O conflito prosseguiu e o chamado pensamento científico veio levando todas vantagens sobre o adversário religioso, pois tudo parecia convergir para o encontro dos seus interesses e adentrou o século XX com uma força avassaladora. Para se ter uma pálida idéia dessa combinação entre a ciência e o capital, os conflitos militares, que raramente ultrapassavam os limites das ambições fronteiriças das nações, romperam de forma espetacular essa barreira geográfica. Essa união conseguiu transformar as guerras locais e regionais em guerras mundiais. Não foi por outro motivo que elas se ampliaram: o capital tornou-se um interesse mundial e a guerra acompanhou a mesma tendência de globalização. Ante o festival de posturas radicais de céticos e crentes, surge nessa transição entre dois séculos uma inteligência fora dos padrões comuns na época e que causaria um certo desconforto entre os dois extremos do conflito. Em meio ao longo percurso dessa confusão entre o ser e o não ser, o filósofo francês Henri Bérgson (1859-1940) observa calmamente essas discussões estéreis e dispara uma pergunta fatal: “Se a mente é a matéria, para que serve a consciência?”. 

Bérgson não aderiu ao Espiritismo, embora tenha presenciado algumas históricas reuniões mediúnicas em companhia de celebridades científicas da Europa. Seu enfoque filosófico-psicológico passou a ser rotulado pelos críticos materialistas como misticismo. Mas a sua pergunta era também uma resposta às posturas dogmáticas dos religiosos, em sua maioria coniventes com a escravização de consciências, e também aos cientistas, que agora assumiam de forma arrogante a posição de novos sacerdotes e donos da verdade. A questão que permanecia no ar era a seguinte: Afinal, o que é a mente? É uma realidade ou uma ilusão? Ilusão de ótica ou ilusão mágica provocada pela inteligência humana? 

É que na perspectiva teórica materialista a mente é alguma coisa muito concreta, espacial, lógica, objetiva, física, absoluta. Já na perspectiva espiritualista ela é vista como alguma coisa mais abstrata, temporal, psicológica, subjetiva, metafísica e, portanto, relativa. Apesar do confronto de opiniões, as duas facções filosóficas estavam buscando respostas dentro dos seus modelos de pensamento. Mas Bérgson, livre das limitações do método positivo e dos dogmas religiosos, mesmo porque não estava muito preocupado em provar nada, a não ser para si mesmo, entendia que a questão essencial dessa discussão sobre a vida e a existência estava na compreensão de outras coisas que antecediam essas teorias como, por exemplo, a necessidade de uma filosofia do tempo. Sem essa filosofia seria impossível entender esses fenômenos existenciais. Dizia ele: “Tempo é duração, portanto transformação”. 

Para ele o essencial não era definir a existência e ou não existência, mas compreender que as coisas mudam e por que mudam. Somente os seres que observam o tempo passar podem compreender a si mesmos. Somente aqueles que estabelecem a interligação existencial entre passado, presente e futuro podem estabelecer a relação entre causa e efeito. Mesmo os seres inferiores da Criação se guiam pelos ciclos do tempo natural, pelo clima, pelas estações, pelos ventos, chuvas, secas e tantos outros fenômenos da rotina natural. Já os seres humanos se guiam pelo tempo histórico, cuja referência são os acontecimentos e as experiências adquiridas, os fatos marcantes da existência. Negar o tempo é o que se chama de alienação e certamente da consciência. Bérgson insiste nessa lógica causal: “Tempo é acúmulo. O futuro é a transformação do passado”. 

A consciência passa ser então o grande fator diferencial em todas as discussões existencialistas. Se alguns querem apenas conhecer e explicar os mecanismos da vida e outros, por outro lado, querem fazer desse conhecimento um ato religioso e de adoração, o problema da consciência deverá sempre estar presente, pois funciona como termômetro dos observadores sobre todas as coisas. Ao fazer essas reflexões o pensador francês concluiu que todos nós somos criaturas em constante processo de mutação, que somos suscetíveis a mudanças enriquecedoras e que somos livres para pensar e agir na construção dos nossos destinos: “Para um ser consciente, existir é mudar, mudar é amadurecer, amadurecer é continuar criando a si mesmo eternamente”. 

Desafiando o dogma da superioridade humana sobre os demais reinos da natureza, Bérgson nos leva a admitir que a consciência é um estado de percepção e atuação que antecede aos órgãos físicos que lhe facilitam a manifestação no meio em que vivem. Para cada estado existencial configura-se um grau de consciência proporcional à necessidade daquele respectivo ser: “Teoricamente, então, tudo o que está vivo pode estar consciente; não é necessário ter cérebro para estar consciente, assim como não é preciso ter estômago para digerir. Uma ameba faz digestão”. 

Nessa comparação aparentemente irônica, Bérgson descobriu a espiral da evolução anímica, uma verdade muito antiga ensinada nas mais conhecidas escolas filosóficas do Oriente. Outros filósofos contemporâneos e espiritualistas também raciocinavam nessa mesma linha. Para eles todos seres são vivos e o que os diferencia é exatamente o grau de consciência que carregam em seu psiquismo potencialmente evolutivo: no Reino Mineral a consciência dorme, no Reino Vegetal ela sonha, no Reino Animal ela desperta e no Reino Hominal ela rompe o limite da irracionalidade e ganha novas dimensões que nunca cessam até a plenitude na eternidade à frente. Somente os seres humanos superam gradualmente os instintos e o determinismo biológico e passam a fazer as escolhas que caracterizam o livre-arbítrio. Viver é fazer escolhas, tomar decisões, adotar posturas, enfim manter o controle da máquina corporal e do sistema operacional mental. É assim que passamos a ter um grau mais complexo de consciência, que sabemos que existimos, que nos comportamos com exclusividade individual e que fazemos parte de um plano vivencial. E esse plano possui, aos nossos olhos ainda muitos limitados, dois aspectos: o da Vida e o das Existências. Pela própria lógica do tempo que observamos, seja absoluto ou relativo, concluímos que a nossa Vida é única, mas as nossas existências são diversas. Mesmo assim, continua funcionando em dois aspectos: o individual, que é intrapessoal; e o coletivo, que são as nossas relações interpessoais, pela lei de sociedade. A combinação desses dois sentidos vivenciais resulta na formação da nossa personalidade, processo de uma longa jornada de construção no tempo e no espaço. Abrangendo a vida pessoal e coletiva, a consciência desperta e se desenvolve na medida que amadurecemos pela idade biológica ou pelas incontáveis experiências que realizamos nas suas inúmeras existências. 

Consciência, portanto, é saber quem somos, que temos uma memória e participamos de um grupo social, num determinado tempo da História. Cada um de nós tem um passado e também fazemos parte da História de todos e de tudo que acontece ao nosso redor. Quem não possui essa consciência torna-se alienado, isto é, inconsciente, desligado da realidade que o cerca, fora do contexto histórico em que vive. Ao persistir nessa alienação o ser quase sempre permanece dominado e dependente dos outros; não usa o livre-arbítrio porque não faz escolhas conscientes; anula assim a sua individualidade e permite que outras consciências façam as escolhas que ela deveria fazer. 

Mas o despertar da consciência em graus mais complexos só ocorre quando começamos a conversar conosco mesmos, fazendo perguntas e tentando digerir respostas. Esse despertar é sempre caracterizado pela constante insatisfação do ser, consigo mesmo e com as coisas que acontecem ao seu redor. Para evitar um desequilíbrio sempre tomamos algumas providências defensivas, para suportarmos as constantes crises que nos assaltam a alma. Dependendo da circunstância, a humildade, a aceitação, a resignação, são defesas muito úteis; noutras situações optamos pela agressividade em suas diversas manifestações. E assim vamos tocando o barco, sempre rio acima. Mesmo quando paramos em algum porto, que é o tempo presente, ou quando ficamos à deriva, muitas vezes arrastados pelas correntezas do tempo passado, não perdemos a noção de que estamos nos dirigindo rio acima, que é o tempo futuro. Para cada ser esse percurso tem um significado muito pessoal e uma dinâmica diferenciada. Cada um tem o seu tempo e o seu ritmo, mas todos têm o mesmo destino. 

Essa é a chave da consciência mais ampla e da busca de auto-realização em que todos nós persistimos; é a equação existencial que tenta solucionar a ligação entre essas três referências de tempo que ocupam as nossas mentes: o que fui, o que sou e o que vou ser. Tal solução só será encontrada quando estivermos preparados para conhecer a verdade integral das coisas e não em partes como o fazemos atualmente. São dúvidas que carregaremos futuro acima e sabe lá quando estaremos maduros e satisfeitos com essas respostas. Mas a importância não está nas respostas em si, pois se as obtivéssemos agora provavelmente não as compreenderíamos integralmente, com o devido valor que elas exigem; o que importa nesse momento são as experiências e reflexões delas decorrentes, com todas as dificuldades e implicações que elas representam em nossas vidas. Isso é o que podemos chamar de estado de coisas, de consciência. 


O MEIO E A MENSAGEM

“Mais tarde a eletricidade fará a sua revolução mediúnica e, como tudo será mudado na maneira de reproduzir o pensamento do Espírito, não mais encontrareis essas lacunas, por vezes lamentáveis, sobretudo quando as comunicações são lidas diante de estranhos.” - Gutenberg (Espírito), Paris, 1864. 


Os últimos milênios da experiência humana foram marcados por sucessivas revoluções tecnológicas que afetaram, em todas as épocas, todo o complexo psíquico e social da Humanidade. Para cada invenção, desde a agricultura primitiva até o advento dos ali mentos transgênicos, da escrita manual até aos sofisticados recursos gráficos da micro-informática, surgiram novos ambientes de atuação e criatividade, como novas dimensões adequadas às necessidades dessas transformações da inteligência. A tecnologia veio sendo desenvolvida para funcionar como uma extensão do nosso próprio corpo[2]: as ferramentas seriam o prolongamento dos punhos, das unhas, dentes e dos braços. Assim como a roda foi a extensão dos nossos pés, as máquinas modernas também prolongaram os processos mecânicos das nossas articulações, até chegarmos ao ápice da automação, com a instantaneidade dos sinais eletrônicos. A automação digital e a informática, juntamente com a biogenética, formam o mais novo quadro das grandes mudanças psico-sociais porque elas representam a extensão daquilo que é mais delicado no corpo humano: o cérebro e o sistema nervoso. 

Esta é uma síntese das teses do filósofo canadense Marshall McLuhan[3], um dos mais brilhantes intérpretes do mundo da pós-modernidade e criador de conhecidos conceitos que definem a trajetória do Homem Biológico até o Homem Psicológico, através de um rápido processo de “destribalização” e formação de uma “Aldeia Global”. MacLuhan previu na década 1960 tudo o que poderá acontecer nos próximos duzentos anos. Ele percebeu, já nesta época, o início das mudanças de comportamento geradas pelas novas tecnologias eletrônicas. Foi um profeta da Era da Informação que observou, em nosso tempo, marcado pela inversão de valores, que o Meio transformou-se na Mensagem. Seus livros são recheados de citações bíblicas, das quais tira as mais curiosas conclusões sobre as descobertas que antecipam o futuro da Humanidade. 

Mas, como todo bom teórico fascinado pelo materialismo da Era Cibernética, McLuhan ainda confundia a mente com o cérebro e este com o sistema nervoso, como se fosse um conjunto único e exclusivamente orgânico. Ele declara que a extensão tecnológica do corpo cessou-se com o advento da eletrônica, mas não conseguiu explicar porque nenhum objeto tecnológico conseguiu funcionar como um prolongamento da consciência. Isso ele colocou em seu livro como um sonho da ficção científica, uma utopia. A tecnologia chegou até o sistema nervoso, mas não atingiu ainda o ponto crítico e intermediário entre o plano físico e o metafísico. E, nessa perspectiva, ela não poderia nunca atingir tal ponto, porque essa tecnologia não pode ser um prolongamento do corpo físico; ela só pode ser extensão da mente ou, no mínimo, de um outro corpo intermediário entre a matéria e o Espírito. 

McLuhan e muitos outros filósofos do seu tempo são adeptos desse fascínio que o Homem tem pelo aspecto exterior da tecnologia, que não se desvincula do próprio corpo, e que gera a falsa idéia de que o meio é a mensagem. É uma frustração e ao mesmo tempo uma fuga da idéia da imortalidade. Essa busca exterior de soluções técnicas através de engenhocas “mecatrônicas” inibe a livre manifestação da consciência e o ser humano acaba sempre olhando para o próprio umbigo, pensando que ele é o próprio corpo. Mesmo com uma imensa quantidade de conhecimentos desenvolvidos pela Psicologia, essa tendência materialista e autofágica do Homem Positivo ainda persiste. Quanto mais nos concentramos nas soluções exteriores e fisiológicas dos nossos problemas, mais dificultamos a percepção das sutilezas da própria matéria, que os nossos olhos ainda não conseguem enxergar. No mundo acadêmico da ciência, ainda extremamente dominado pelo ceticismo, poucos se encorajam em seguir os passos dos antigos pesquisadores do corpo e da alma ou revelar publicamente suas convicções sobre a Imortalidade. 

Mas, enquanto a eletrônica leva o Homem rumo à simulação material da consciência, numa realidade virtual do ciberespaço, a própria consciência aguarda a sua volta desse desvio, para que ele descubra, não um universo artificial, mas a realidade consciencial que existe além do corpo físico. Essa nova tecnologia não vai gerar um novo ambiente, porque este já existe. É uma realidade ainda imperceptível para a maioria das pessoas porque elas não aceitam e não permitem que os limites do próprio corpo sejam superados pelos mistérios da mente. É uma visão mais radical da Caverna de Platão. Muitos já lidam com essa realidade e penetram nesse ambiente extrafísico, que não é virtual, não é mágico, nem místico; é real. Ele vem mudando radicalmente o ponto de vista humano sobre a realidade que o cerca, pois esta é uma experiência tão antiga quanto o próprio Homem. Agora ela deixará de ser vista somente na perspectiva mágica, mística ou religiosa, para se adequar aos avanços da Ciência. Um exemplo disso é a Comunicação. Como ferramenta, ela é um fenômeno tão natural que nunca dependeu de recursos artificiais para processar as informações. Hoje nós achamos que a telefonia ainda é o único meio viável de comunicação entre ambientes geograficamente distantes, esquecendo que séculos atrás o tambor, o pombo-correio e outros artifícios também faziam este mesmo papel. Mais ainda: enquanto nos sofisticados laboratórios levam-se anos para entender como alguns seres civilizados, rotulados como “paranormais”, conseguem decifrar e enviar mensagens através do pensamento, outros, os “pajés” e feiticeiros tribais, sem nenhuma sofisticação, conseguem obter os mesmos resultados. Que misteriosa tecnologia se oculta por trás do corpo dessas pessoas? Será que eles possuem um corpo diferente? Será que os cérebros dessas pessoas são diferentes? Que causas geram esses efeitos? 

São perguntas que hoje ainda intrigam a Ciência, mas já que deveriam ter sido desvendadas se os cientistas atuais reconhecessem as experiências dos seus antecessores com a mesma honestidade de quando se trata de assuntos de interesse profissional; as dúvidas não persistiriam se estes não insistissem em manter velhos paradigmas para observar novos fenômenos. 

A mediunidade pode ser um fenômeno novo aos olhos da Ciência, porém é muito antigo aos olhos humanos e tem sido a prova de que o Meio não é a Mensagem. McLuhan, como um teórico-profeta, deveria saber disso, mas não conseguiu deixar de olhar o próprio umbigo para perceber que a sua inteligência era uma manifestação de u’a mente ofuscada pelo materialismo e pela explosão tecnológica que apenas começava em sua época. Em breve essa tecnologia vai diminuir cada vez mais a distância entre essas duas realidades, que na verdade é apenas uma só, e que ainda julgamos como sinônimos de imaginação, sonhos, magia e misticismo. Diríamos que o percurso das investigações vem sendo invertido, na medida que ficamos mais inteligentes: os Espíritos, que sempre atuaram com intervenções inteligentes, agora serão expectadores das descobertas dos seus pares carnais. Eles deram o impulso inicial e agora o complemento deve ser feito por nós. Novas máquinas, de sensibilidade mais apurada, vão se tornar extensões da consciência; mais do que isso: um prolongamento da percepção extra-sensorial humana. São novos aparelhos que vão substituir o desgaste físico e mental dos médiuns para sintonizar dimensões e realidades mais compatíveis com o despertar de novos conhecimentos. Nessa época futura, não muito distante, a tecnologia continuará sendo um prolongamento do corpo, não da sua expressão física e material, mas da sua manifestação mais sutil, etérea e espiritual: o perispírito. Alguns aparelhos já conseguem registrar essa realidade, inclusive gravadores sonoros, câmeras de fotografia e vídeo, ainda que em algumas circunstâncias favoráveis. São fenômenos naturais que o próprio corpo humano já conseguia realizar, através da produção de ectoplasma e das diversas formas de comunicação mediúnica, nas quais funcionamos como “meio” para veicular “mensagens”. 

Como revelou o Espírito Gutenberg[4], neste novo milênio a tecnologia será cada vez mais sensível, como a própria consciência, que agora inicia a construção de novos paradigmas para entender não só o que somos e como vivemos, mas principalmente compreender quem somos e por que vivemos. 


O TRIUNFO DE TOMÉ 

“Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, então, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele respondeu: Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei.” João. XX-24,25. 


Até o advento do Espiritismo a Imortalidade era uma equação existencial insolúvel no campo da religião e, como objeto especulativo, era uma exclusividade da Filosofia. Ainda assim, falar nesse assunto era, quase sempre, tratar de uma utopia, a mera possibilidade do vir a ser, bem distante daquilo que atribuímos à realidade. Apesar de ser um tema muito presente no cotidiano da maioria das culturas históricas, como mostram os inúmeros relatos de aparições e comunicações entre vivos e mortos, foi somente no século XIX que a questão da sobrevivência após a morte deixou de ser mera hipótese. Com o Espiritismo ela passou a ser vista como realidade plausível, pois tratava-se, ao contrário da visão estreita e materialista, inclusive dos religiosos, de um fenômeno observável, de abordagem cientificamente positiva. Da evidência do fenômeno para outras conseqüências especulativas foi apenas um passo. Seguiu-se então as interessantes investigações da Hipnose, a Psicanálise e as teorias da Personalidade, as curiosas experimentações da Parapsicologia, até chegarmos nas recentes pesquisas em torno dos relatos de pacientes terminais e das Terapias de Vidas Passadas. Diríamos, historicamente falando, que todo esse processo é a consagração parcial da Imortalidade, mas não a mesma que foi vivenciada por Sócrates, no seu gesto tranqüilo e simbólico, ao ingerir cicuta, nem a que foi exemplificada por Jesus, ao manter a serenidade e perdoar os que zombavam da sua condição de crucificado. 

O Espiritismo e sua fenomenologia foi, sim, um novo desafio para as equações existenciais que haviam testado os primeiros apóstolos e que agora teria de ser novamente experimentada pelos novos cristãos. A doutrina é também um desafio para a consagração da certeza sobre a dúvida, a maior das interrogações humanas, da qual o Apóstolo Tomé tornou-se símbolo universal. Como no tempo de Jesus, as maravilhas dos fenômenos não eram os fins a que se propunham os Espíritos superiores; eram apenas os meios para se chegar ao “xis” da equação existencial. Ora, isso é tão óbvio se lembrarmos que o simples fato de saber que existe vida em outra dimensão não basta para solucionarmos o enigma interior que nos atormenta a existência. No mundo espiritual não existem Espíritos ateus, que continuam materialistas, que não compreendem Deus e as leis do universo e que consideram tudo um produto do acaso? Portanto, a revelação do mundo espiritual, pelo espetáculo dos fenômenos, foi apenas o pano de fundo para percebermos uma realidade que não está no Além, mas em nós mesmos. A equação existencial do Espírito em crise, encarnado ou desencarnado, é o “Reino de Deus”, o estado de espírito que Tomé não conseguiu atingir naqueles primeiros contatos com o Cristo. A fé, como virtude e valor da moral teológica, está presente em todas as religiões, porque todas elas pregam a dualidade entre a Matéria e o Espírito, entre o físico e metafísico. Essa dualidade conflitante, na qual o indivíduo deve superar e solucionar por si próprio, é para as religiões dogmáticas o verdadeiro sentido da vida, o principal objeto de conquista e realização do ser encarnado. Mas para o Espiritismo, como havia ensinado Jesus, esse conflito é sempre uma prova, uma escolha que é composta de inúmeras outras escolhas durante as existências, tornando a fé um processo de conquista íntima gradual. O livre-arbítrio torna-se, então, mais do que uma simples faculdade racional; ele é uma Lei Natural, que impulsiona todos a fazerem escolhas e tomar as decisões que formam a bagagem individual. Mas chega um momento crucial da existência em que o livre-arbítrio atinge um limite, uma espécie de prova suprema da nossa autonomia, na qual somos derradeiramente testados a definir se avançamos para um outro estágio evolutivo ou se estacionamos, até que possamos retomar as rédeas do nosso destino. O limite é a fé, que sempre se apresenta em dois aspectos: a confiança incondicional numa força superior, nossa eterna bússola existencial, e a confiança em si mesmo, que é o fio condutor do destino. Essas duas coisas deveriam, para o nosso conforto psicológico, sempre estar em harmonia. Mas não é bem assim que a vida funciona: a incongruência entre a fé em Deus e a fé em si próprio é o dilema natural da Humanidade, uma espécie de “Complexo de Adão”, o protótipo do Homem Biológico do passado, e que só vai ser equacionado quando todos os liames com a animalidade estiverem liberados, sem nenhum vestígio dos instintos. 

Mas não é só a fé em Deus que gera dúvida e ceticismo; a fé em si próprio também é uma busca, que fazemos paralelamente com a fé em Deus. O “Complexo de Adão”, durante o curso humano, só é superado, em inúmeras reencarnações, quando essas duas crenças incompletas e aparentemente antagônicas, se encontram e formam uma só experiência, a fé Integral, típica do Homem Psicológico do futuro. Essa realização não é uma experiência de exclusividade individual: ela ocorre em sociedade, onde seres semelhantes compartilham suas buscas pessoais tentando solucioná-las olhando, inconscientemente, para o mundo interior uns dos outros. É por isso que a maioria das coisas que aprendemos no terreno vivencial da existência só ocorre pelo exemplo e não pelo intelecto. O “Reino de Deus”, que é o símbolo do nosso enigma existencial, do resultado da nossa busca, só pode ser decifrado e penetrado através do contato com o outro, o semelhante, que também faz o mesmo percurso, e nunca por nós isoladamente. Esse foi o sentido dessas chaves que recebemos para desvendar esses segredos: “Sede Perfeitos, como vosso Pai Celestial!”, “Ama ao próximo como a si mesmo”, etc. Esse foi o triunfo de Tomé, exemplificado em nosso tempo na personalidade e na missão de Allan Kardec. Do “ver para crer” das mesas-girantes o Apóstolo de Lyon fez escolhas essenciais, passou por provas tentadoras, superou obstáculos exteriores que tentaram desviá-lo para outros caminhos, até chegar no “xis” da sua equação, que foi o seu e o nosso reencontro definitivo com o Cristo: não bastavam os fenômenos para renovar os antigos milagres; era necessário renovar-se para perceber o verdadeiro alcance dos mesmos. 


A FÉ RACIOCINADA 

Sempre que buscamos exemplos humanos acessíveis para satisfazer as nossas necessidades ideológicas, procuramos também alguma personalidade que nos servirá como referência aos nossos projetos de realização e conduta. É assim que buscamos modelos tanto no passado quanto no presente, dependendo muito das nossas aspirações. Allan Kardec também vem fazendo, há séculos, essa busca na sua trajetória espiritual. Assim como tantos outros que se destacaram na busca da Verdade, ele fez dela, não só um objeto de satisfação pessoal, mas principalmente de confraternização com a sociedade em que vivia. Para os Espíritas, Kardec é o modelo ideal de investigador de coisas que estão além dos nossos limites atuais; é ainda o símbolo da busca do desconhecido e da fé raciocinada. Mas essa busca merece sempre uma reflexão mais demorada, para que não soframos as decepções muito comuns aos que sempre exageram na dose de entusiasmo pelas coisas novas. Muitos de nós temos grande dificuldade para entender o que é uma “fé raciocinada”; repetimos essa expressão precisa, porém, muitas vezes, não compreendemos o que ela significa no seu sentido mais amplo. Fé raciocinada não é apenas uma frase de efeito inventada por Kardec nem deve ser um estilo pessoal que adotamos por admiração e que exibimos para afirmar nossas posturas intelectuais. Ela vai muito além de uma simples afirmação: é o resultado de um longo, diríamos milenar, processo de experiências, composto de fracassos e vitórias, pelo qual veio passando, em muitas encarnações, um Espírito inquieto e dinâmico que um dia teve a coragem e a honestidade de dizer simplesmente que não tinha fé perante o seu mestre e do grupo que se propusera a auxiliá-lo no estabelecimento do Reino de Deus no coração dos homens. A f’é racionada ainda é incompleta porque a Razão humana também é incompleta; ela é somente um tipo de fé mais apropriada para o nosso atual estágio mental. Da fé raciocinada teremos que partir e desvendar outras experiências que ainda não temos condições de vivenciar[5]. 

Vinte séculos depois da célebre experiência de Tomé, ao perguntar ao Espírito que lhe revelou sua missão de “quem” se tratava, se animara alguma personalidade conhecida na Terra, Allan Kardec obteve da entidade uma resposta direta e proporcional ao seu estado de dúvida: “Disse-te que era para ti a Verdade e isso requer discrição de tua parte; não saberás além disso.” Nesta resposta ficaram bem evidentes tanto a postura dos verdadeiros Espíritos Superiores quanto a conduta ideal que devem ter aqueles que procuram a Verdade, em qualquer que seja o campo de conhecimento. Há limites e estes devem ser respeitados. Não importam os detalhes e as aparências, que são perfeitamente dispensáveis nessa investigação; o importante é a essência daquilo que se busca. Mas na pergunta também fica bem claro um traço marcante da personalidade daquele que foi escolhido para ser o instrumento dessa nova tentativa de realizar o Reino de Deus no coração dos homens. 

Muitas mensagens mediúnicas apontam para o fato de que Allan Kardec foi numa existência anterior um dos apóstolos do Cristo. Mas qual deles? Quem daquele grupo de doze pessoas escolhidas pelo Mestre mais se aproxima da personalidade do Codificador? Afastemos logo de início a hipótese de ter sido Paulo de Tarso, pois, além da diferença de estilo, já que Paulo era mais fervoroso e radical na sua fé, o Apóstolo dos gentios não estava entre os doze escolhidos e, na própria Codificação, se apresenta, em vários momentos, através de contatos mediúnicos diretos com Allan Kardec. Mas se nos atermos à tradição e ao folclore dos tempos apostólicos, logo identificaremos no Apóstolo de Lyon a figura clássica de São Tomé ou Tomé de Tolemaida, o mais cético dos discípulos. Quando falamos em traço de personalidade não podemos esquecer que Tomé era cético, porém não era indiferente; não era ingênuo e totalmente confiante como Pedro ou como os jovens João e André; todavia, era muito curioso e desconfiado, compensando tal defeito com a boa vontade e a disposição em levar as coisas até a últimas conseqüências. Sabia dos seus limites no terreno da fé, mas não se fechava na dúvida pela dúvida. Não é assim que nos contam os relatos dos Evangelhos? E não foi assim que agiu Allan Kardec, logo de início, quanto aos fenômenos das mesas-girantes? Imaginemos Kardec totalmente inclinado a aceitar tudo o que lhe foi apresentado como verdade naquelas primeiras reuniões na casa de Madame Plainemaison. Será que teríamos na Codificação a qualidade e o equilíbrio que encontramos nos textos escritos e nas comunicações por ele selecionadas? 

Uma outra identificação de estilo entre esses dois Espíritos poderia ser encontrada no conteúdo de um texto apócrifo encontrado em 1945, no alto Egito, denominado O Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé. Semelhante a O Evangelho segundo o Espiritismo, o de Tomé não é biográfico e se detém aos 114 aforismos de Jesus, ou seja, a essência da Boa Nova. Como os outros textos apócrifos, este não traz nenhuma idéia de poder pessoal ou institucional que poderia reforçar a clericalização do cristianismo, daí o desprezo através do rótulo “Apócrifo”. No texto de O Quinto Evangelho algumas cenas clássicas narradas pelos quatros evangelistas não incluem esta na qual o cético Tomé demonstra um nível de relacionamento bem diferente com Jesus, muito parecido com o primeiro contato que o Professor Rivail fez com o Espírito de Verdade. É o que mostra esta tradução feita por Humberto Rohden[6]: 

“ 13. Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem pareço eu. 

Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo. 

Disse Mateus: Tu és semelhante a um homem sábio e compreensivo. 

Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante. 

Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste. 


13- A. Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. 

E quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, estes lhe perguntaram: Que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar.” 


Rohden avança o sinal da sua formação jesuítica e diz que Tomé recebeu a revelação e calou-se duas vezes ao ser questionado sobre o conteúdo da conversa com Jesus, simplesmente porque tratava-se de uma informação que não poderia ser traduzida e racionalizada pelo intelecto. Realmente, a insatisfação de Tomé não poderia ser saciada somente pelas palavras ou algumas idéias e sim por uma experiência transcendental, semelhante a de Saulo de Tarso na Estrada de Damasco. Naquele instante Tomé compreendeu o real significado da Imortalidade, que era a sua principal interrogação íntima e existencial. No caminho de Damasco, finalmente, Saulo compreendeu a diferença entre o Jesus judeu, de Nazaré, e o Jesus Crístico, cósmico e universal. A verdade que Tomé buscava em Jesus era específica e diferente da dos demais discípulos. Aliás, tudo indica que cada um deles demonstrava um nível pessoal e diferenciado dessa busca. Na famosa cena do Tabor Jesus também se afastou à parte do grupo com três discípulos (Pedro, Thiago e João, seu irmão), aos quais revelou coisas, importantes para suas buscas, a respeito da ligação histórica entre Moisés, Elias e João Batista. 

É lógico que encontramos na busca de Allan Kardec um Tomé mais experiente, mais evoluído e espiritualizado, porém ainda muito crítico e analítico[7]. A Transformação de Saulo de Tarso em Paulo foi muito semelhante a de Rivail em Allan Kardec, porém esta última foi mais lenta, passo a passo, assim como a de Tomé ao sair da Palestina para se aprofundar mais nas verdades espirituais na Pérsia e na Índia. Na sua conhecida postura de “ver para crer”, Tomé teve todas as provas à sua disposição. Na verdade, a postura de Tomé era mais no sentido de “ver” e, “somente crer” depois de “entender”; não era totalmente cético. Os outros apóstolos tinham uma fé admirável, pura e ingênua, típica daqueles tempos rudes e obscuros. Tomé soube equilibrar sua pouca fé com o desejo de romper os seus limites e também do conhecimento aceito naquela época remota. Depois de ter se encontrado na rua com o Sr. Carlotti, Allan Kardec bem poderia ter voltado para casa e se debruçar nos seus estudos, esquecendo todos aqueles relatos intrigantes que o velho amigo lhe fizera. Mas não era só uma questão de ceticismo; o que estava em jogo não eram também as palavras do Sr. Fortier ou a opinião de algumas pessoas do seu círculo de amizade; o que estava em jogo era a Verdade e, muito mais do que isso: a sua consciência. Talvez foi por isso que o Espírito Verdade tenha sido menos rigoroso nas suas advertências com Kardec do que Jesus foi com Tomé. Os dois apóstolos poderiam até ser, talvez, o mesmo Espírito, porém, como vimos, os tempos e as circunstâncias eram bem diferentes. 

Uma outra experiência do Codificador, na sua busca da Verdade, foi o encontro que teve com a Sra. De Cardone, em 6 de maio de 1857. O relato sobre “A Tiara Espiritual”, contido em Obras Póstumas, é um documento que mostra o perfil psicológico de Allan Kardec, bem como da evolução espiritual e da sua missão. A tiara é um ornamento de cabeça utilizado pelos antigos soberanos medos e persas, adotado e adaptado pelos papas católicos, com uma mitra de três coroas. Ao mesmo tempo que simbolizava o poder papal, a mitra também era usada como carapuça de papel sobre a cabeça dos condenados da Inquisição. O depoimento e a análise de Kardec sobre si mesmo e as informações sobre sua personalidade é um admirável exemplo de atitude racional e de bom-senso diante do nosso destino e das coisas, aparentemente, sobrenaturais. 


“Nas sessões do Sr. Roustan tive a ocasião de ver a Sra. De Cardone. Contaram-me, creio que foi o Sr. Carlotti, que ela possuía notável talento para ler a mão. Eu nunca acreditara que as linhas da mão tivessem alguma significação, mas sempre achei que, para certas pessoas dotadas de uma espécie de dupla vista, poderia ser um meio de estabelecer uma relação que permitisse, como acontece com os sonâmbulos, dizer, às vezes, coisas verdadeiras. Os sinais da mão são apenas pretexto, um meio de fixar a atenção, de desenvolver a lucidez, como são as cartas, a borra de café, os espelhos mágicos, para indivíduos que gozem dessa faculdade. A experiência me confirmou, por mais de uma vez, a veracidade desta opinião. Fosse o que fosse, aquela senhora convidou-me a visitá-la e aceitei o convite. Eis um resumo do que ela me disse: 


‘Nasceste com grande abundância de recursos e de meio intelectuais... extraordinária força de julgamento. Vosso gosto firmou-se; governado pela cabeça, moderais a inspiração pelo julgamento; sujeitais o instinto, a paixão, a intuição ao método, à teoria. Sempre apreciastes as ciências morais...amor da verdade absoluta...amor da arte definida. 

‘Vosso estilo tem número, medida, cadência; mas, às vezes, permutais um pouco de vossa precisão pela poesia. 

‘Como filósofo idealista, subordinastes-vos às opiniões de outros; como filósofo crente, sentis agora a necessidade de ter as vossas próprias opiniões. 

‘Benevolência judiciosa; necessidade imperiosa de aliviar, socorrer, consolar; necessidade de independência. 

‘Pouco a pouco vos corrigis da impetuosidade dos assomos de vosso gênio. 

‘Estáveis singularmente apto para a missão que vos foi confiada, porque sois mais talhado a tornar-vos o centro de imensos desenvolvimentos do que é capaz de fazer trabalhos isolados… vossos olhos têm a expressão do pensador. 

‘Vejo aqui o sinal da tiara espiritual...muito pronunciado...olhai (Olhei e nada vi de particular). 

– Que entendeis por tiara espiritual? – perguntei-lhe. Quereis dizer que vou ser Papa? Se isto tem que acontecer, não será certamente nesta existência. 

Resposta – Notai que eu disse tiara espiritual, o que quer dizer autoridade moral e religiosa, e não soberania efetiva…’ 


Estou referindo pura e simplesmente as palavras daquela senhora, transcritas por ela própria. Não me cabe julgar se são ou não absolutamente exatas. Reconheço que algumas foram verdadeiras, porque estão de acordo com meu caráter e as disposições do meu Espírito. Mas há uma passagem evidentemente falsa: aquela em que ela diz, a propósito do estilo, que às vezes tenho tendência de trocar um pouco da minha precisão pela poesia. Não tenho o menor instinto poético. O que procuro, acima de tudo, o que me agrada, o que estimo nos outros é a clareza, a nitidez, a precisão e, longe de sacrificar esta à poesia, poderiam antes censurar-me por sacrificar o sentimento poético à aridez da forma positiva. Sempre preferi o que fala à inteligência àquilo que fala à imaginação. 

Quanto à tiara espiritual, O Livro dos Espíritos acabava de aparecer: a doutrina estava se iniciando e não se podiam pressupor ainda os seus resultados ulteriores. Dei pouca importância a essa revelação e limitei-me a dela tomar nota a título de informação. 

Aquela senhora deixou Paris no ano seguinte e só a tornei a ver oito anos mais tarde, em 1866. As coisas tinham progredido muito neste entretempo. Disse-me ela: ‘Lembrais de minha predição sobre a tiara espiritual? Ei-la realizada.’ 

– Como realizada? Não estou, que eu saiba no trono de São Pedro.’ 

– ‘Não, mas não foi isto que eu vos prognostiquei. Não sois de fato o chefe da doutrina reconhecida pelos espíritas do mundo inteiro? Não são os vossos escritos que constituem a lei? Vossos adeptos não se contam por milhões? Há alguém cujo nome tenha mais autoridade que o vosso em matéria de Espiritismo? Não vos foram dados espontaneamente os títulos de sumo-sacerdote, de pontífice, e mesmo de Papa? Foram, principalmente, os vossos adversários e por ironia, eu sei, mas nem por isso deixa de ser o indício do gênero de influência que eles reconhecem em vós: pressentem o vosso papel e esses títulos permanecerão. Em suma, conquistastes, sem procurá-la, uma posição moral que ninguém poderá roubar-vos, porque quaisquer que sejam os trabalhos que se façam depois de vós, ou competindo convosco, sereis sempre considerado o fundador da Doutrina. Desde esse momento possuís, de fato, a tiara espiritual, isto é, a supremacia moral. Vêdes, portanto, que acertei. Credes agora um pouco mais nas linhas da mão?’ 

Menos que nunca, e estou convencido de que, se alguma coisa vistes, não foi na mão, mas em vosso próprio Espírito, e vou prová-lo.” 


Kardec conclui o texto explicando, pela ótica científica espírita, a naturalidade de todos os detalhes do fenômeno e das habilidades mediúnicas da Sra. De Cardone. E sobre a tiara espiritual, conclui: 

“Quanto à tiara espiritual, é evidente, algo especial, excepcional e de certo modo individual. Estou convencido de que não achastes esta palavra no vocabulário de nenhum tratado de Quiromancia. Como, pois, vos veio ela ao pensamento? Por Intuição, por inspiração, por essa espécie de presciência inerente à dupla vista que certas pessoas possuem sem suspeitar. Vossa atenção estava concentrada nas linhas da mão, aplicastes o pensamento a um sinal em que outra pessoa teria visto coisa diferente, ou a que teríeis atribuído uma outra significação em outro indivíduo.” 


A BUSCA DA VERDADE 

Na vida humana encontramos, geralmente, três tipos de pessoas: as comuns, que representam a grande maioria; as brilhantes, uma minoria, cuja atuação supera a da grande maioria, e finalmente as excepcionais, espécie de gênios raros em nosso mundo, porém muito comuns em outras esferas de vida que ainda desconhecemos. O trabalho de posicionar determinados personagens nesta simples escala de três pontos é muito arriscado, pois entre eles há muitas variantes. Sabemos que o personagem aqui tratado não foi uma pessoa comum. Era de uma humildade impressionante e, por isso mesmo, já teríamos motivos para destacá-lo de muitos outros que trabalharam na mesma linha de conhecimento. Pelo caráter da sua missão, pois tudo indica que era um missionário de alta responsabilidade, podemos avaliar o quanto se esforçou para não deixar que a sua personalidade ofuscasse uma obra, cuja marca principal levaria o nome de “A Verdade”. Isso foi feito de maneira admirável. Em momento algum, Allan Kardec se auto nomeia missionário; e ele aceita sua tarefa com muita simplicidade e até com reservas. Aceita, embora muitas vezes nem concorde com o seu aspecto missionário, mas não deixa de cumprir seus propósitos íntimos de terminar o que começou. 

Não vamos colocá-lo na escala dos homens comuns, mas também não vamos atribuir ao mestre lyonês qualidades que talvez não o deixariam satisfeito. Mas podemos situá-lo numa condição que avalia muito bem a sua rápida passagem pela Terra: foi um autêntico discípulo de Jesus durante sua iniciação e posteriormente, um verdadeiro apóstolo na execução de suas tarefas. Isto está exposto de maneira muita explícita em sua obra literária e nos seus atos como pessoa e cidadão. No mais, sempre que avaliarmos Allan Kardec e sua obra pensaremos sempre nas transformações benéficas que os seus conhecimentos vêm gerando para a Humanidade. Isto basta para compreendermos que as pessoas que não são comuns sempre fazem, sem vacilar, aquilo que acreditam ser a sua obrigação. Já as pessoas excepcionais vão além das suas obrigações. E nós, as pessoas comuns, no máximo, ficamos apenas admirando, quando deveríamos imitá-las. Que o tempo julgue, como já tem sido feito, o tamanho e a importância da obra de Allan Kardec. Mas não podemos deixar de considerar, mesmo por questão de ponto de vista, que a história das religiões e dos dogmas mudou totalmente seus rumos, após o advento de O Livro dos Espíritos e seus complementos. A data de 18 de abril de 1857, embora seja ainda desconhecida pelo orgulho e vaidade humanos, foi tão significativa quanto aquela em que Moisés codificou a consagrada tábua de normas éticas da Humanidade e também aquela na qual Jesus pronuncia ao mundo o discurso que sintetiza todas as leis que regem o universo: O Sermão da Montanha. Assim como Moisés e Jesus romperam as amarras do exclusivismo judaico, para tornar o conhecimento espiritual um patrimônio universal, os Espíritos Superiores, através de Allan Kardec e de seus colaboradores, também fizeram o mesmo: revelaram coisas que jamais haviam sido faladas abertamente e deram ao mundo a chance de repensar o seu destino num momento bastante crítico e perigoso. Essa plêiade de inteligências abalou as estruturas do relacionamento entre o homem e Deus, demolindo de forma enérgica os falsos alicerces das verdades espirituais e, dos escombros, passou a reerguer um novo edifício da crença: o da fé raciocinada. Para tanto, foi anunciado, primeiramente, um grande enigma, o da Verdade. Depois, foi escolhido alguém capaz de decifrar esse enigma; e por último, a própria Verdade se torna evidente, e até mesmo palpável. O que estava sendo anunciado era aquilo que poderia ser o fim da idéia da morte, o golpe derradeiro no monopólio do comércio da fé e o estabelecimento definitivo de uma solução para todos os problemas humanos: “Fora da caridade não há salvação”, ou seja, ninguém pode ser feliz sozinho.

Kardec buscava a Verdade através respostas claras para as suas dúvidas, sem a necessidade de dar-lhe algum nome ou personalidade humana ou institucional. Sabia que a Verdade não tem nome, não é de ninguém, especificamente, mas é de todos que a buscam por direito e merecimento. Mas sempre que teve alguma dúvida sobre ela, foi beber direto na fonte, um manancial sempre inesgotável, a água que saciaria seus anseios mais íntimos; a mesma que havia esclarecido Tomé e inspirou Kardec na realização da sua missão de Codificador de uma nova Revelação: 


“Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. (João, 8:31,32) 

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.” (João, 14:6) 

“Se me amais, guardareis meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque ele permanecerá convosco e estará em vós. Disse-vos estas coisas, enquanto estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito ” (João, 14: 15, 16, 17, 25, 26) 


Analisando o Espiritismo em relação às demais crenças e filosofias, diversos autores reconhecem que essas promessas do Novo Testamento foram integralmente cumpridas pela Codificação Espírita a partir de 1857, estabelecendo-se novos paradigmas para uma compreensão cada vez mais ampla do Homem, do Universo e da Divindade : o acesso irrestrito às verdades essenciais ao nosso estágio evolutivo; a ampliação de conhecimentos espirituais com revelações inéditas e compatíveis com o nosso estágio intelectual e moral; a popularização e generalização do intercâmbio entre os mundos através da mediunidade; a evidência de que o progresso individual só se realiza pelo equilíbrio entre a inteligência e o sentimento; a confirmação do Cristo, ao mesmo tempo, como modelo de perfeição absoluta e modelo acessível de perfeição relativa para todos os seres humanos em constante evolução; a revelação de que Deus e seus atributos só podem ser conhecidos através da vivência e não da contemplação e isolamento ou ainda da especulação intelectual; e, finalmente, a prova científica, pelo método experimental, de que as afirmações do Espiritismo são conhecimentos reais, libertando o Homem da escravidão religiosa e da improdutiva especulação filosófica. 

Essas características que fazem do Espiritismo e da Codificação de Allan Kardec o mais avançado meio de iniciação espiritual disponível ao Homem contemporâneo. Nele encontramos não só respostas para as nossas dúvidas e consolo para nossas dores, mas também as soluções para o grande enigma existencial que todos nós carregamos no âmago do Espírito, que é a busca do verdadeiro sentido de nossas vidas. 


O RECONSTRUTOR DA FÉ 

Allan Kardec desencarnou em 31 de março de 1869, atingido por um aneurisma cerebral. A passagem deu-se na rua de Sant’Anna, nº 25, na galeria do mesmo nome. Henri Sausse, tentando diminuir o impacto do desaparecimento brusco daquele homem que dedicara os últimos anos da sua vida a provar que a morte não existe, escreveu na sua biografia: 

“Estaria em erro quem acreditasse que, em razão de seus trabalhos, Allan Kardec devia ser, sempre, uma personagem fria e austera. Não era, contudo, assim. Esse grave filósofo, após discutir os pontos mais árduos da psicologia e da metafísica transcendental, mostrava-se expansivo, esforçando-se por distrair os convidados que ele, com freqüência, recebia na Vila Ségur; mantendo-se sempre digno e sóbrio em suas expressões, sabia adubá-las com o nosso velho sal gaulês, em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. Gostava de rir, com esse belo riso franco, largo e comunicativo, e tinha talento todo seu para fazer com que os outros partilhassem de seu bom humor.” 


Na descrição que dele fez Canuto Abreu[8], talvez baseando-se no depoimento de Miss Blackwell, encontramos um Allan Kardec um pouco diferente, já na sua fase madura. O médico e historiador brasileiro amplia os detalhes descritivos com a facilidade vocabular com que os fisiologistas dissecam verbalmente o corpo humano e os romancistas falam da personalidade que o anima. Aqui encontramos também as marcas que confirmam as características intelectuais do Codificador, combinando perfeitamente com seus traços físicos e morais: 


“De cultura acima do normal nos homens ilustres de sua idade e do seu tempo, impôs-se ao geral respeito desde moço. Temperamento infenso à fantasia, sem instinto poético nem romanesco, todo inclinado ao método, à ordem, à disciplina mental, praticava, na palavra escrita ou falada, a precisão, a nitidez, a simplicidade, dentro dum vernáculo perfeito, escoimado de redundâncias. De estatura meã, apenas 165 centímetros, e constituição delicada, embora saudável e resistente, o professor Rivail tinha o rosto sempre pálido, chupado, de zigomas salientes e pele sardenta, castigado de rugas e verrugas. Fronte vertical comprida e larga, arredondada ao alto, erguida sobre arcadas orbitárias proeminentes, com sobrancelhas abundantes e castanhas. Cabelos lisos e grisalhos, ralos por toda parte, falhos atrás (onde alguns fios mal encobriam a larga coroa calva da madureza) repartidos, na frente, da esquerda para a direita, sem topetes, confundidos nos temporais, com as barbas grisalhas e aparadas que lhe desciam até o lóbulo das orelhas e cobriam a nuca, o colarinho duro, de pontas coladas ao queixo. Olhos pequenos e afundados, com olheiras e pápulas. Nariz grande, ligeiramente acavaletado perto dos olhos, com largas narinas entre rictos arqueados e austeros. Bigodes rarefeitos, aparados à borda do lábio, quase todo branco. Pêra triangular sob o beiço, disfarçando uma pinta cabeluda. Semblante severo quando estudava ou magnetizava, mas cheio de vivacidade amena e sedutora quando ensinava ou palestrava. O que nele mais impressionava era o olhar estranho e misterioso, cativante pela brandura das pupilas pardas, autoritário pela penetração a fundo na alma do interlocutor. Pousava sobre o ouvinte como suave farol e não se desviava abstrato para o vago senão quando meditava, a sós. E o que mais personalidade lhe dava era a voz, clara e firme, de tonalidade agradável e oracional, que podia mesclar agradavelmente desde o murmúrio acariciante até as explosões de eloqüência parlamentar. Sua gesticulação era sóbria, educada. Quando distraído, a ler ou a pensar, confiava os ‘favoris’. Quando ouvia uma pessoa, enfiava o polegar direito no espaço entre dois botões no colete, a fim de não aparentar impaciência e, ao contrário, convencer de sua tolerância e atenção. Conversando com discípulos ou amigos íntimos, apunha algumas vezes a destra no ombro do ouvinte, num gesto de familiaridade. Mantinha rigorosa etiqueta social diante das damas.” 


O fiel discípulo Léon Denis[9] também nos deixou dele uma imagem rara, dos momentos em que travava relações sociais informais, bem como da suas atitudes humanas comuns, nas quais se desfaz, por alguns instantes, a figura séria e estática das gravuras que conhecemos nos dias atuais. A primeira descrição foi de uma conferência realizada por Kardec em Tours e a segunda de uma visita particular na Spirite-Ville: 


“Para recebê-lo e ouvi-lo tínhamos alugado uma sala na rua Paul-Louis Courrier e solicitado à Prefeitura alvará para uma concentração, pois no tempo do Segundo Império qualquer reunião de mais de vinte pessoas era rigorosamente proibida por lei. No momento fixado para a reunião, o nosso pedido foi formalmente indeferido. Fui então encarregado de ficar na porta do local, avisando os convidados de que a reunião tinha sido transferida para a Spirite-Ville, na casa do Sr. Rebondin, rua do Sentier, onde a assembléia iria realizar-se no jardim. 

Éramos mais ou menos trezentos ouvintes, de pé, apinhados sob as árvores, pisando nos canteiros do nosso hospedeiro. Sob a luz das estrelas, elevava-se a voz grave e suave de Allan Kardec, e sua fisionomia meditativa, iluminada por pequena lâmpada colocada sobre uma mesinha, no centro do jardim, assumia aspecto fantástico (...) 

No dia seguinte, voltei à Spirite-Ville para visitar o Mestre. Encontrei-o de pé sobre pequeno banco, junto a uma grande cerejeira, a colher frutos que atirava à Sra. Allan Kardec. Era uma cena bucólica, contrastando alegremente com suas graves preocupações.” 



CARTA PARA AMELIE

Lyon, 20 de setembro de 1861.

Minha querida Amélie:


Escrevo-lhe de novo sob a impressão da emoção da jornada de ontem; são esses eventos que deixam marcas inesquecíveis na vida. Como lhe dizia, era o dia do banquete: havia mais de 160 pessoas, das quais muitas vieram me cumprimentar e abraçar; outras conseguiram falar comigo, e creio que estavam tão felizes como se houvessem falado com um rei; um pouco mais e teria alguém que tivesse ousado beijar a barra do meu casaco, tão grande era o seu entusiasmo.

Ponho-me a pensar se os discursos foram expressivos. O meu produziu uma sensação profunda, assim como o de Erasto, que todos aplaudiram e apreciaram com justiça!

(Fui forçado a interromper a minha carta e somente pude retomá-la hoje, sábado.)

Voltando ao banquete, era algo admirável e, ao mesmo tempo, comovedor: o delegado de Polícia, que ali fora convidado, chorou de emoção e apertou minhas mãos com efusão. Após os meus discursos, falei abundantemente durante quase três quartos de hora, sem preparativos, sem uma intenção premeditada e sem sentir-me – no mais mínimo – intimidado perante essa numerosa assembleia, formada também por uma assistência que veio especialmente de Mâcon e de outros lugares.


Ontem, sexta-feira, visitei Grupos em diferentes pontos da cidade, distantes uns dos outros em mais de uma légua; lá aconteceu a mesma acolhida, o mesmo entusiasmo. Falei desde as 10 e meia da manhã até as 9 horas da noite, excetuando a interrupção dos trajetos; voltei extenuado.

Esta manhã fui tomar um banho, o que me fez muito bem. Esta noite vou a outra reunião, porém, mais aristocrática, onde ainda terei muitas coisas a dizer.

Já não são mais por centenas que se contam os espíritas em Lyon, senão por milhares. Em toda parte há médiuns, e entre os que tenho visto existem muito bons. Em um dos Grupos encontrei um guarda municipal que é muito bom médium e muito bom espírita. Depois tinha um ferreiro, de grande constituição física, igualmente muito bom médium: homem sério, inteligente e que, entre os seus, inspira a numerosos adeptos; ele é o chefe de um Grupo em Vaise, e como eu não pude ir lá, ele veio cá – com vários confrades seus – a uma das reuniões na cidade. Em resumo, encontro aqui um progresso que estava longe de esperar e, o que há de particular, é que por todas partes se dedicam ao Espiritismo do ponto de vista sério. Todas as vezes que abordei o tema das experiências físicas, notei que isto interessava pouco; mas todos prestavam atenção quando eram tratadas as consequências morais e filosóficas. Minha viagem terá indiscutivelmente uma imensa repercussão e fará um grande bem, inclusive perante as autoridades. Só o partido negro pode estar horrivelmente contrariado!

Estive ocupado de tal modo que não tive tempo para visitar os meus conhecidos. Tinha a intenção de partir amanhã, domingo, mas como desejo ver ao Sr. e à Sra. Rigolet, irei à sua casa de campo, o que transfere minha partida para a segunda-feira. Chegarei a Paris na terça-feira ao meio-dia.


Teu muito amado,

HLDR.

(Transcrição feita pelo Conselho Internacional Espírita a partir da carta datada de 20 de setembro de 1861, enviada a Paris pelo Codificador, de Lyon, cidade onde o mestre encontrava-se em viagem doutrinária (2ª viagem espírita). 


A DESPEDIDA DE MONTMARTRE

Nos seus funerais, por alguns instantes, tinha-se a impressão de que o Movimento Espírita também estava dando seus últimos suspiros sobre a Terra. Essa era a sensação que a maioria dos seus seguidores tinha naquele momento, que não era de dor nem de desespero, mas de dúvida quanto ao futuro da Doutrina. Era um julgamento humano ainda muito influenciado pelas impressões da matéria, cuja ótica estreita ofuscava as lembranças e os mais delicados ensinamentos gravados no Espírito. Por alguns instantes, aquelas pessoas pensavam apenas na morte irreversível do corpo, esquecendo que estava provado que era somente o vaso físico que deixava de funcionar. Os expectadores daquela despedida simples, certamente impressionados com ambiente tétrico de Montmartre[10], permaneciam como que anestesiados pela atmosfera lúgubre e tristonha da velha necrópole parisiense, mantendo bem distante de si as idéias adquiridas nas leituras e no contato pessoal que tiveram com o Codificador. Esqueciam que tudo o que lembrasse a morte e o mistério já havia sido banido, definitivamente, dos compêndios literários da Teologia e da Ciência; restaram apenas a teimosia e o orgulho de alguns cientistas e teólogos menos comprometidos com a Razão e com a Verdade. 

Mas, antes que o sentimento de perda se transformasse em pensamentos derrotistas, ouviu-se, naqueles momentos, os discursos de quatro pessoas que ali compareceram para homenagear o mestre que partia para o mundo Invisível que tanto ajudara desvendar. Entre eles estava o astrônomo Camille Flamarion, que a beira do túmulo pronunciou a mais comovente oração daquele dia inesquecível para os presentes e para todos os que desfrutariam, posteriormente, os benefícios morais do Espiritismo. Na sua fala histórica, o “Poeta dos Céus” resumiu toda a trajetória do mestre e amigo, lembrando que sua missão esteve direcionada, universalmente, ao Espírito humano, libertando-o da escravidão da consciência religiosa. 

Daquilo que antes fora feito pelos Filósofos Iluministas, no terreno das liberdades civis, Allan Kardec acabava de oferecer ao mundo a religiosidade e a moral, que faltaram na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. A concepção clara de liberdade de consciência e a noção plena de exercício do livre-arbítrio só ganhariam real autenticidade quando seus principais inimigos ideológicos fossem definitivamente calados. Não era o absolutismo, o nacionalismo, o socialismo, muito menos o materialismo, os principais inimigos da paz e da harmonia; não eram os laboratórios e as novas teorias científicas que ameaçavam a fé e a esperança, praticamente mortas nos corações humanos naqueles terríveis dias de incerteza. O verdadeiro perigo vinha dos dogmas religiosos e das instituições que os alimentavam, pela repressão e pelo fanatismo, como fonte permanente de idéias extremistas. Naquele momento histórico, coroado pelo dogma da infalibilidade papal, a Igreja Católica, como bem observaria Bezerra de Menezes, “nunca fora tão formidável inimiga do Cristianismo e tão prestimosa aliada do materialismo”. De fato, Allan Kardec acabara de revelar para o mundo alguns conceitos que fizeram desmoronar os alicerces da fé cega, que aprisionavam a Religião aos interesses de unidade e controle institucional; esses interesses impediam-na de exercer sua sagrada função de libertar e consolar o ser humano no campo das provas materiais. 

Ao avaliarmos a dimensão dos conceitos estabelecidos por Allan Kardec e pelos Espíritos que o assistiam, podemos concluir, sem nenhum exagero histórico, que a sua missão de revelar o Consolador e cumprir a promessa da simbólica volta do Cristo, foi o acontecimento mais importante desde a própria encarnação do Governador Planetário. De que outra forma Jesus poderia voltar senão pela própria força moral dos seus ensinamentos, agora renovados e iluminados pela Razão e pela Ciência? Como poderia o Cristo bater em nossas portas, sem que duvidássemos da sua presença humilde e sem que o acusássemos de falsa profecia, senão pela evidência dos inegáveis fenômenos iniciados em Hydesville? Como poderíamos nos desvencilhar do fanatismo e do salvacionismo individualista dos templos protestantes e do espetáculo estético e sedutor das catedrais, para aceitar essa volta do Cristo, senão pelos seus “Espíritos - Anjos”, através dos sagrados canais mediúnicos, impulsionando-nos com palavras do tipo: “Ide e pregai o novo dogma da reencarnação” ou então: “Ide, ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa bela árvore que se chama beneficência” 

Para cada um dos dogmas que confundiam as nossas mentes e oprimiam nossos corações, Allan Kardec restabeleceu uma verdade racional e inviolável, dando-nos, de volta, o sagrado direito de escolha pelo livre-arbítrio. Enquanto o mundo se iludia com as falsas promessas do reino político de César, Kardec mostrava as maravilhas do outro Reino, da consciência e das moradas celestes, cujas portas de entrada nunca foram os templos ou nenhuma outra instituição que transformasse a fé em especulação filosófica ou objeto de negócios escusos. 

Para o dogma do “Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor ”, Kardec mostrou que todos nós somos filhos de Deus, que Jesus não é um privilégio do Criador, mas um nosso irmão maior, que também foi criado simples e ignorante, que atingiu a perfeição, através do próprio esforço e das múltiplas existências. Quando Jesus dizia “Sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai”, deixava claro que não é possível ser perfeito vivendo uma só vez. 

Kardec explica-nos, também, que “o qual foi concebido pelo Espírito Santo” não significa que a concepção biológica e sexual, criada por Deus, seja indigna de qualquer uma das suas filhas; que “nasceu de Maria Virgem” significa que a pureza de Maria estava no coração e na sua elevação moral. 

Esclarece, ainda, que o inferno de “morto e sepultado, desceu ao Hades”, não é um lugar determinado, mas um estado de espírito da geografia emocional e da consciência, que reúne as almas por afinidade de sentimentos e ações, premiando ou punindo suas vítimas, segundo suas “obras”, boas ou más, para si e para o próximo. 

Com sua interpretação límpida e racional do “Ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu”, Kardec desfaz a idéia absurda e anti-natural da ressurreição do corpo físico, revelando para o mundo moderno e industrial a realidade do perispírito, um mistério que permanecera guardado à sete chaves nos longos séculos que sucederam as civilizações antigas; esse “corpo espiritual”, que guarda os mais intrigantes segredos genéticos, ainda ignorados pela Biologia contemporânea, é o mesmo que o próprio apóstolo Paulo fala, abertamente, em suas epístolas; o perispírito, velho conhecido dos iniciados egípcios, chineses e hindus, traz um outro significado muito mais importante da Ressurreição, o da renovação espiritual e purificação pelo sofrimento através de provas e expiações. Para os Espíritos que instruíram Allan Kardec, a Ressurreição significa a purificação pela Reencarnação e pelas experiências que ela nos oferece na vida física, para saldar os nossos débitos pretéritos e realizar as obras redentoras no presente e no futuro. O exemplo de Jesus, ao ressurgir, “vivo em Espírito”, com sua “túnica nupcial”, veio acompanhado de uma mensagem, ocultada pelo fenômeno exterior, ou pelo nosso ponto de vista limitado, de que não basta apenas saber viver; é preciso também saber morrer, pois não podemos voltar para a nossa verdadeira pátria (o Mundo invisível dos Espíritos) com as mãos vazias. 

O Codificador ensina também que “está assentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos” é a autoridade espiritual de Jesus, Espírito sábio e experiente, de alta hierarquia, que, como muitos outros da sua categoria, dirigem e orientam os planetas e se sacrificam pelas humanidades deste e dos orbes, em suas marchas evolutivas. Assim, a justiça de Deus se realiza na estreita relação que existe entre o mundo material e o mundo espiritual, onde encarnados e desencarnados se relacionam e se sucedem em múltiplas existências, nas quais aprendem a amar uns aos outros, pela fraternidade ou pela dor, sendo, permanentemente, avaliados pelas Leis Divinas, segundo seus hábitos e compromissos. 

Também ensina que o “Espírito Santo” ou Santo Espírito é a coletividade de Espíritos Superiores que governam, por vontade de Deus, as humanidades espalhadas pelos incontáveis mundos do Universo Infinito. 

E, finalmente, “na santa igreja universal” entenda-se toda a comunidade da família cristã, sem nenhuma exclusão ou exclusividade; “na comunhão dos santos”, compreenda-se o trabalho constante de transformação moral, do exercício possível de mudar dos defeitos para as virtudes; “na remissão dos pecados” devemos compreender que os pecados não são perdoados pela vontade e pelo capricho dos homens, nem das instituições e leis que eles criaram, mas pela reabilitação através das próprias Leis Divinas que foram desrespeitadas. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”, dizia Jesus ao se referir à lei de Causa e Efeito, à lei da Reencarnação, à Lei da Evolução, enfim, à Justiça Divina, como um todo, que rege o Universo e os seres. Não basta o arrependimento do pecado; é preciso cumprir a lei na sua amplitude e aceitar, com humildade e coragem, o choque natural de retorno das nossas más ações do passado; isso acontece independente da nossa crença ou da nossa opinião; é uma Lei da Natureza. 

Com Allan Kardec a idéia do perdão ensinado por Jesus em diversas ocasiões, deixou de ser sofisma, poema e utopia, quando nos foi revelado que nada pode estar fora do Plano Divino, que somente o Amor, a síntese de todas as leis que regulam esse Plano, é o caminho da salvação. Perdoar “setenta vezes sete vezes” significa perdoar sempre; “oferecer a outra face” é uma crítica que Jesus fez à nossa incapacidade de esquecer as ofensas. 

Allan Kardec mudou o nosso ponto de vista sobre o roteiro existencial humano, antes encarado como algo negativo e fatalista, provando e confirmando, com todas as evidências científicas, que o “creio na Vida Eterna” vai muito além da crença; é uma realidade indiscutível. Mais ainda, provou que viver eternamente é sempre a solução de uma equação de tempo, no plano relativo, independente da vida absoluta e tirânica imposta pelo corpo físico. Essa relatividade do tempo pessoal, além do tempo corporal, demoliu, definitivamente, todos os dogmas que alimentavam idéias absolutas recheadas de mistérios, enigmas, símbolos, rituais e, principalmente, de falso poder daqueles que afirmavam ser os únicos e legítimos donos da Verdade. 

Para Humberto de Campos, Espírito cujas crônicas têm sido uma poderosa ferramenta de analogias para a decodificação das imagens e eventos do Além, que ainda não compreendemos[11], a missão de Allan Kardec assemelha-se a do bombeiro discreto que se concentra no principal foco de incêndio, acreditando que tudo não passa de uma pequena chama que ameaça apenas um pequeno arbusto mas, na verdade, o bombeiro não percebe que sua dedicação e persistência estão salvando toda a floresta ao seu redor. Segundo o cronista, se não fosse o missionário de Lyon “as especulações filosóficas e científicas de Comte, Virchow, Buchner e Moleschot, aliadas ao sibaritismo dos religiosos, teriam eliminado, fatalmente, a fé da Humanidade no seu glorioso porvir espiritual”. É este mesmo Espírito[12], que nos mostrou a grandeza da alma de Allan Kardec, quando, no início da sua missão, “carrega Napoleão Bonaparte nos braços”, quem nos relata, no mesmo estilo folclórico, a volta do missionário de Lyon ao Plano Espiritual, em 31 de março de 1869: 


“Conta-se que após a sua desencarnação (...), uma multidão de Espíritos veio saudar o mestre no limiar do sepulcro. Eram antigos homens do povo, seres infelizes que ele havia consolado e redimido com as suas ações prestigiosas, e, quando se entregavam às mais santas expansões afetivas, uma lâmpada maravilhosa caiu do céu sobre a grande assembléia dos humildes, iluminando-a com uma luz que, por sua vez, era formada de expressões do seu O Evangelho segundo o Espiritismo, ao mesmo tempo em que uma voz poderosa e suave dizia do Infinito: 


‘Kardec, regozija-te com a tua obra! A luz que acendeste com os teus sacrifícios na estrada escura das descrenças humanas vem felicitar-te nos pórticos misteriosos da Imortalidade... O mel suave da esperança e da fé que derramaste nos corações sofredores da Terra, reconduzindo-os para a confiança na minha misericórdia, hoje se entorna em tua própria alma, fortificando-te para a claridade maravilhosa do futuro. No Céu estão guardados todos os prantos que choraste e todos os sacrifícios que empreendeste... Alegra-te no Senhor, pois teus labores não ficaram perdidos. Tua palavra será uma bênção para os infelizes e desafortunados do mundo, e ao influxo de tuas obras a Terra conhecerá o Evangelho no seu novo dia!...’ 


Acrescenta-se, então, que grandes legiões de Espíritos eleitos entoaram na Imensidade um hino de hosanas ao homem que organizara as primícias do Consolador para o planeta terreno, e, escoltado pelas multidões de seres agradecidos e felizes, foi o mestre, em demanda das esferas luminosas, receber a nova palavra de Jesus.” 


Cumpriu-se, assim, a promessa do Paráclito. A revelação positiva do Espírito e do seu veículo de manifestação exterior foi a confirmação científica da Imortalidade. Estava chegando ao fim a orfandade cristã, ainda ofuscada pelo paganismo, que durara quase 20 séculos. Estava acabando a Era da Dúvida e da Incerteza para aqueles que, ainda, a duras penas da consciência, resistiam ao materialismo. 


RESURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO 


Falar sobre Espiritismo para espíritas e não espíritas é como falar sobre Semiótica e Psicanálise, nos seus primeiros tempos, para os iniciados e não iniciados: corremos sempre o risco de sermos mal compreendidos. Não se trata somente de uma doutrina cujos conceitos convencionais são padrões conhecidos intelectual e socialmente. Daí a importância da terminologia espírita criada por Allan Kardec e que constam principalmente em duas de suas obras: “O Livro dos Médiuns” e “O que é Espiritismo”. O primeiro é o livro-síntese da parte experimental da doutrina, cuja autenticidade científica foi reconhecida por grande parte da comunidade científica da época e posteriormente por nomes consagrados como Charles Richet (1858-1935) [13]. O segundo é um livro de iniciação, separado da codificação. É impossível saber ao certo saber se podemos atingir o objetivo de falar sobre Espiritismo para espíritas e não espíritas. Como essa denominação vai além da lingüística e cai na condição subjetiva e relativa de que se reveste essa capacidade de entendimento do iniciado ou não iniciado, busca-se, quase sempre, o meio termo. Fala-se ao mesmo tempo para os dois tipos de expectadores ou ouvintes na certeza de que estaríamos dialogando sempre com o imprevisível e o contraditório que é o ser humano: podemos ser profundamente incompreendidos e superficialmente compreendidos; e vice-versa. 

Para esclarecer melhor este raciocínio, sobre os enigmas e as tramas da linguagem, da qual nos referimos no item anterior, exemplificaremos com a narrativa de um fato relatado no Evangelho de São João, capítulo III, versículos de 1 a 12. Tal relato, essencialmente metalingüístico, é muito oportuno no seu significado emblemático sobre a relatividade do saber e do compreender, e pode ser analisado em sua estrutura narrativa, antes de qualquer análise filosófica ou religiosa. Se lhe aplicarmos, por exemplo, alguns conceitos analíticos propostos por Vladmir Propp em “Morfologia do Conto”, poderemos compreender melhor o grau de importância do uso de uma linguagem e do vocabulário específico num trabalho literário dessa natureza. Para realizar essa analogia vamos seguir os passos de Edward Lopes, em “Discurso do Texto e Significação” sobre literatura e metalinguagem, e assim explicado por Anna Maria Balogh[14]: 

“Num primeiro momento, a análise lingüística contempla os membros da frase (a lingüística frasal) e, num segundo momento, dedica-se à transposição do limite da frase para desvendar as características do discurso – a lingüística transfrasal. Este segundo momento é de grande relevância para a análise da literatura, cujas características específicas desvendam-se precisamente neste nível.” 


Vamos ao trecho evangélico, no qual destacamos as frases da nossa analogia: 

“Ora, havia um homem, entre os Fariseus, chamado Nicodemos, senador dos Judeus, que foi à noite encontrar Jesus e lhe disse: - Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor; porque ninguém poderia fazer os milagres que fazeis, se Deus não estivesse com ele. 

Jesus lhe respondeu: - Em verdade, em verdade vos digo: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. 

Nicodemos lhe disse: - Como pode nascer um homem que já está velho? Pode ele entrar no ventre de sua mãe, para nascer uma segunda vez? 

Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade vos digo: Se um homem não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não vos espanteis do que eu vos disse, que é preciso que nasçais de novo. O Espírito sopra onde quer, e ouvis sua voz, mas não sabeis de onde ele vem e para onde ele vai. Ocorre o mesmo com todo o homem que é nascido do Espírito. 

Nicodemos lhes respondeu: - Como isso pode se dar? 

Jesus lhe disse: - Que! Sois mestre em Israel e ignorais essas coisas? Em verdade, em verdade vos digo que não dizemos senão o que sabemos, e que não testemunhamos senão o que vimos; entretanto, vós não sabeis nosso testemunho. Mas se não me credes quando vos falo das coisas da Terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu? (João, cap.III,v. 1 a 12).” 


O que podemos identificar primeiramente aqui é um “Programa Narrativo” em cuja seqüência Nicodemos é o ator/atuante que procura Jesus para uma “conversa reservada”, na qual precisa desvendar “o mistério” do Reino de Deus. Para tanto, é submetido a uma “prova de competência”, pois o segredo não pode ser revelado através de palavras, mas da capacidade de decodificação dos significados ocultos dessas palavras, e que escapam ao critério comum da percepção intelectual. A revelação nesses casos só acontece quando a percepção intelectual é superada por outra percepção, cujo acesso inicial é realizada por uma outra forma de inteligência, fora dos padrões intelectuais conhecidos. Esta seria uma experiência da inteligência emocional, segundo os conceitos mais recentes de Howard Gardner. Essa passagem do grau de inteligência intelectiva para o grau de inteligência emocional sofre impasses quando Nicodemos faz perguntas cheias de signos inadequados e incompatíveis com os signos de metalinguagem utilizada por Jesus, daí à sua reação de indignação: “Que! sois mestre em Israel e ignorais essas coisas ?” 

Ao entrar em contato anteriormente com as pregações de Jesus, Nicodemos sofrêra um dano existencial , uma dúvida crucial em forma de carência, cujas causas e consequências não são citadas mas estão inferidas no Programa Narrativo; e não se sabe se ele conseguiu superar as provas a que foi submetido. O que ficou claro é que o significado do “Reino de Deus” (do hebraico “malkuth”, ou “estado de coisas”) era tão essencialmente oculto e subjetivo que Jesus e Nicodemos pareciam estar falando linguagens totalmente diferentes. Estudando mais detalhadamente esse e outros diálogos de Jesus com interlocutores que o abordavam com questões existenciais, podemos concluir que ele nunca pôde teorizar esse conhecimento ou decifrar essa linguagem de forma explícita; o máximo que conseguiu, em termos de linguagem, foi através das parábolas, que por sua vez, parecem ser, o signo do signo, o enigma do enigma. Com exceção da parábola do Semeador, que é “a parábola das parábolas”[15], todas elas ocultam diferentes graus de compreensão e somente os exemplos vivenciais do próprio Jesus é que rompiam os limites cognitivos dos receptores, para atingir finalmente o alvo, localizado no campo comportamental, da mudança de atitudes. 

Se na narrativa de São João a expressão “nascer de novo” veio sendo e ensinada pela tradição ortodoxa das igrejas e compreendida como um dogma enigmático, que é a “Ressurreição”, no Espiritismo ela adquiriu um sentido de heresia, o dogma da “Reencarnação”. Repare que ambos são dogmas, mas este último, como já explicamos, é proposto no Espiritismo no sentido racional grego, que significa, respectivamente, como o termo “heresia”, “idéia” e “autonomia de pensamento”. 

O que estamos querendo ressaltar aqui, novamente, é que “Ressurreição” e “Reencarnação” são lexemas iguais com significações diferentes e, portanto, para falar sobre esse novo enfoque é necessário clarificar essas idéias com um vocabulário novo e específico sobre as mesmas[16]. A Reencarnação também era um lexema cultural milenar e que agora veio sendo reafirmado e repercutido socialmente com novas significações. Isso aconteceria também com velhos conceitos como “karma”, “profecia”, “aparições”, “milagres”, “predições”, “almas”, etc. 

Um outro aspecto interessante da doutrina espírita, e que reflete nas suas expressões de linguagem, é o seu caráter revelador da realidade metafísica, mas que, se for desconsiderada em tal característica, confunde-se perfeitamente com o gênero da ficção, sobretudo a de natureza científica. Quem lê um fragmento de uma narrativa extraída de uma das centenas de obras “psicografadas” pelo médium brasileiro Francisco Cândido Xavier pode ao mesmo tempo encará-la como a revelação de uma realidade próxima e acessível pelas vias naturais da morte, ou então pela lógica ficcional de um H.G. Wells ou, nesse caso, especificamente um Aldous Huxley, em “Admirável Mundo Novo”. (1932). O relato a que nos referimos é do livro “Missionários da Luz” [17] , da série “André Luiz” [18] , pseudônimo do Espírito de um médico desencarnado no Rio de Janeiro na década de 1920: 

“ Constituía-se o movimentado centro de serviço de vários prédios e numerosas instalações. Árvores acolhedoras enfileiravam-se através de extensos jardins, imprimindo encantador aspecto à paisagem. Reconheci logo o instituto que se caracterizava por grande movimento (...) Muitos desses irmãos, que passavam junto de nós, empunhavam reduzidos rolos de substância semelhante ao pergaminho terrestre, relativamente aos quais não possuía eu, até então, a mais leve notícia. Alexandre, porém, como sempre, veio em socorro de minha estranheza, explicando, bondosamente: 

- As entidades sob os nossos olhos são trabalhadores de nossa esfera, interessados em reencarnações próximas (...) Os rolos brancos que conduzem são pequenos mapas de formas orgânicas, elaborados por orientadores de nosso plano, especializados em conhecimentos biológicos da existência terrena. Conforme o grau de adiantamento do futuro reencarnante e de acordo como o serviço que lhe é designado no corpo carnal, é necessário estabelecer planos adequados aos fins essenciais. 

- E a lei da hereditariedade fisiológica? – perguntei. 

- Funciona com inalienável domínio sobre todos os seres em evolução, mas sofre, naturalmente a influência de todos aqueles que alcançam qualidades superiores ao ambiente geral. 

(...) Aproximando-nos dos pavilhões de desenho, onde numerosos cooperadores traçavam planos para reencarnações incomuns, foi o meu novo companheiro procurado por uma entidade simpática que lhe pedia informações. Manassés apresentou-ma, otimista. Tratava-se de um colega que, depois de quinze anos de trabalho nas atividades de auxílio, regressaria à esfera carnal para a liquidação de determinadas contas. O recém-chegado parecia hesitante. Via-se-lhe o receio, a indecisão. 

- Temo contrair novos débitos ao invés de pagar os velhos compromissos. É tão penoso vencer na experiência carnal, em vista do esquecimento que sobrevém à encarnação... 

- Mas seria mais difícil triunfar guardando a lembrança – redarguiu Manassés, incontinenti 

- (...) Pode me informar se o meu modelo está pronto? 

- Creio que poderá procurá-lo amanhã – tornou Manassés, bem disposto -; já fui observar o gráfico inicial e dou-lhe parabéns por haver aceitado a sugestão amorosa dos amigos bem orientados, sobre o defeito na perna. Certamente, lutará você com grandes dificuldades no princípio da nova luta, mas a resolução lhe fará grande bem. 

- Sim – disse o outro – algo confortado -, preciso defender-me contra certas tentações de minha natureza inferior e a perna doente me auxiliará, ministrando-me boas preocupações. Ser-me-á um antídoto à vaidade, um sentinela contra a devastação do amor-próprio excessivo. 

- Muito bem! – respondeu Manassés, francamente otimista. 

- E pode me informar-me ainda a média de tempo conferida à minha forma física futura? 

- Setenta anos, no mínimo – redarguiu meu novo companheiro, contente. 

O outro fixou uma expressão de reconhecimento, enquanto Manassés continuava: 

- Pondere a graça recebida, Silvério, e, depois de tomar-lhe a posse no plano físico, não volte aqui antes dos setenta. Trate de aproveitar a oportunidade. Todos os seus amigos esperam que você volte, mais tarde, à nossa colônia, na gloriosa condição de um “completista.”. 

A narrativa já é, por si mesma, estranha e descolada da nossa realidade e suas referências sócio-culturais. Cada uma dessas expressões conceituais traz escondida uma carga de informações doutrinárias cuja compreensão de significados foge ao leitor não iniciado. Somente a última delas, a palavra “completista” foi explicada pelo narrador como um conceito ou status dado aos Espíritos que retornam da experiência carnal sem desperdício de energias e prejuízo do vaso físico através de “extravagâncias”, suicídios indiretos, que lhe causam graves desequilíbrios psíquicos na transição e adaptação ao novo ambiente, diríamos, “espiritual”. 

Esse relato de Francisco Cândido Xavier [19] foi feito em 1945, sendo uma seqüência de dois livros publicados em 1942 (Nosso Lar ) e 1944 ( Os Mensageiros), mas a narrativa se passa num tempo bem anterior à publicação, em 1939, pouco antes do início da II Guerra Mundial. O interessante é que, além do problema da linguagem, estes livros adiantam informações que somente seriam compreendidas cientificamente, no aspecto técnico e ético, após 50 anos, na década de 1990, quando começaram a surgir as primeiras experiências genéticas, sobretudo o Projeto Genoma. Tal projeto, cuja intenção de decifrar os genes com finalidades planificadoras e resultariam nas discussões éticas da clonagem humana, já era do conhecimento de Espíritos em esferas extrafísicas como esta descrita por André Luiz. Muitas outras informações científicas “futuristas” seriam anunciadas nestes e em outros livros do mesmo gênero. 


CATÓLICOS, PROTESTANTES E ESPÍRITAS 

O observando o comportamento e a mentalidade dos cristãos, essas seriam, como diria Allan Kardec, “as três classes, ou antes, os três graus dos seus adeptos”, pois são as concepções sobre ressurreição e reencarnação que permitem conhecer as diferenças de mentalidade entre eles. O Cristianismo é uma filosofia moral que abrange os três momentos existenciais do ser humano, bem como as transformações deles decorrentes. Historicamente, como idéia e movimento social, ela veio sendo construída por fases ou ciclos de revelações manifestadas nas culturas ou tradições que remontam a pré-história. Assim como não se trata de mera coincidência a ligação entre Judaísmo, Cristianismo e Espiritismo, também não é simples especulação mística a ligação filosófica de Moisés com os patriarcas hebreus (especificamente Enoque e Abraão) e destes com os antigos ensinamentos caldeus, herdados da cultura indo-européia. Segundo St. Yves d`Alveidre [20] “Abraão” significa a passagem da tradição hindu ou oriental ao Ocidente (Ab-ran, o pai Ram, Braman), referindo-se a Rama, o lendário condutor das tribos arianas e portador da mensagem pacifista e agregadora, simbolizada pelo “Cordeiro de Deus”. Esses ensinamentos ocultos ou esotéricos contidos na “Qabbalah” (transmissão) aparecem fartamente nas figuras de meta-linguagem (simbólica) de todos esses instrutores espirituais hebreus, principalmente entre os médiuns-profetas mais afinizados com a tradição messiânica, sendo João Batista o último deles. O próprio Jesus, ao confirmar sua missão e revelar sua identidade espiritual, por diversas vezes se utilizou desse artifício simbólico para evidenciar a importância histórica do evento que viera desencadear e presidir. Nessa sucessão de eventos históricos a reencarnação e a ressurreição são os temas de maior gravidade educativa e que sempre mereceram atenção especial dos instrutores, pois eram considerados os pontos-chave da estratégia didática para a transformação das mentalidades. Esse processo educativo de assimilação da concepção vivência-existência, cujo cenário decisivo se manifestou nos lances filosóficos conflitivos da tarefa pública de Jesus, entre os hebreus e as demais culturas dominantes na sua época, continuaria através das igrejas cristãs da antiguidade, da modernidade protestante e finalmente na pós-modernidade espírita. Seria, numa seqüência histórica dialética (tradição versus ruptura) a construção judaico-cristã; a desconstrução racionalista protestante e a reconstrução científico-positiva empreendida pelo fundador do Espiritismo. Essa mudança de mentalidade histórica está associada à estrutura das experiências de amadurecimento espiritual, através das conexões biológica e psicológica (maturidades), cérebro e a mente (inteligência), existência e vivência (ressurgência ou transformação consciencial). Jesus demonstrou essa maturação da mentalidade no relato da Parábola do Semeador, cuja metáfora central é o livre-arbítrio, ou seja, a capacidade de apreensão e compreensão das coisas e a gravidade das decisões e escolhas. 

Na infância da semente acontece o plantio num terreno novo, de grandes possibilidades de germinação, porém sujeito a toda sorte de problemas e obstáculos contrários ao seu desenvolvimento. Mostra-se frágil e promissora. 

Na adolescência a semente tornou-se uma planta que já sofreu as provas da exteriorização e busca firmar-se no ambiente hostil e perigoso. Mostra-se insegura ou agressiva, porém cheia de esperança no futuro. 

Na fase adulta a semente já é uma árvore formada e consciente. Mostra-se adaptada ao ambiente e considera-se realizada dentro do seu plano existencial. Na perspectiva existencial a árvore é ponto ideal e a finalidade última da semente. A morte representa o fim. 

Porém, na perspectiva consciencial, a árvore é o ponto ideal, mas não significa o ponto final. Além desse ponto abrem-se outras possibilidades de novos pontos ideais. A morte física e existencial pode ser seguida de uma segunda morte, uma crise ressurreicional na qual o ser desperta para novas e ilimitadas experiências mentais. Isso vai depender da sua maturidade e da sua vontade de transformação interior. Para ocorrer a ressurreição antes deve ocorrer um processo de amadurecimento e renovação através da reencarnação. A reencarnação é a porta de entrada das existências. A ressurreição é a porta de entrada da Vida. É por esse motivo que a transformação essencial do ser humano sempre ocorre na infância, que representa o reinício, um recomeço de outras existências que passaram e das quais se acumularam experiências mentais. A reencarnação seria a Porta Larga na qual ingressamos com muitas promessas de renovação e, todavia, nos acomodamos com as facilidades e ilusões do mundo carnal. Já a Ressurreição é a Porta Estreita diante da qual quase sempre recuamos, pois representam as provas e vicissitudes. As duas portas se apresentam constantemente em nosso caminho na forma de situações contraditórias e nas quais temos que fazer escolhas e usar corretamente o livre-arbítrio. 

Na perspectiva histórica existencial o Catolicismo é a fase adulta do Cristianismo. O Protestantismo é a fase adolescente e o Espiritismo a sua infância, pois renasceu recentemente. No entanto, se analisarmos pela perspectiva histórica consciencial, essas posições se invertem e se nos revela a verdadeira face da transformação e da evolução espiritual do ser. 

No catolicismo a filosofia fossilizou-se na perspectiva existencial e bloqueia, pela tradição dogmática, qualquer possibilidade e interesse pela transformação. A morte vale mais que a Vida, pois é vista como um martírio que nos livra da culpa dos pecados. 

No protestantismo a filosofia cristã persiste na ótica existencial e agoniza, não só pela tradição dogmática, mas também pelo medo terrificante do fracasso e da crença na eternidade do inferno. A morte é vista como uma punição que antecede o julgamento do Juízo Final. A transformação é superficial e enganosa, alimentada pela crença de que o arrependimento é suficiente para nos livrarmos dos pecados e da culpa. Nas duas situações anteriores, a mente humana faz o ser mentir para si mesmo, como fuga e defesa, negando a relação de causa e efeito entre o erro e o sofrimento. A religiosidade foi pervertida e tornou-se religião. 

No Espiritismo a filosofia cristã reacende a religiosidade, porém rejeita a religião; aceita a ótica consciencial, reconhece a utilidade existencial, mas não se escraviza a ela e liberta-se dos dogmas. Ao fazer a necessária relação de causa e efeito entre o erro e o sofrimento, o ser passa a dar mais valor à necessidade de transformação interior. Isso não significa que ele consiga realizá-la de imediato, pois é apenas um entendimento racional e intelectual. A mudança efetiva só ocorre quando se processa uma compreensão integral da sua condição (razão, sentimento e ação). Ao aceitar a realidade consciencial, ou seja, que além do corpo e da morte existem outras experiências, se estabelece uma harmonia entre a visão existencial e a consciencial, que antes era conflituosa, dialética. Diminuem então as fugas, os medos irracionais e o caminho para as escolhas ficam mais abertos às decisões sensatas. As portas largas vão sendo trocadas pelas portas estreitas, de experiências mais valiosas e qualitativas. Mesmo estando na infância existencial o Espiritismo goza da maturidade consciencial, pois, através da compreensão da reencarnação (que não é uma crença, mas uma lei natural) penetra na essência espiritual do ser, que é a sua verdadeira ressurreição. 


O ESPIRITISMO E OS CULTO AFRO-INDÍGENAS

A doutrina espírita continua sendo um influente neutralizador de dogmas e superstições

As diferenças de ideias e práticas entre Espiritismo e religiões afro-indígenas são históricas e não apenas conceituais. Mesmo que haja um diálogo de conhecimentos e convívio social, as diferenças persistem nas atividades particulares de cada uma das agremiações, não como intransigência conflituosa e sim como reflexo da diversidade cultural e de objetivos dos seus adeptos.

Há uma disputa ou competição entre essas duas correntes?

Existe, sim, não por parte dos espíritas, mas geralmente de alguns segmentos que não são espíritas, porém se utilizam de práticas espíritas como conhecimento e também como legitimação e aceitação social.  Há atualmente grupos não espíritas que se valem dos conhecimentos espíritas para melhorar suas práticas mediúnicas e doutrinárias, porém não se sentem ameaçados ou diminuídos, nem demonstram qualquer sentimento de antipatia e hostilidade competitiva para com o movimento e a identidade espíritas. O que percebemos também é que existe uma tentativa forçada de equalização de conceitos e práticas, bem como ressentimentos da parte dos praticantes de cultos afro-indígenas, atribuídos à não aceitação por parte dos espíritas de suas práticas e manifestações no ambiente espírita.

Ainda persiste, em diversos segmentos afro-indígenas, um certo sentimento de animosidade e rancor para com a Doutrina Espírita. Isso não vem somente das concepções doutrinárias em si, mas das pessoas, encarnadas e desencarnadas, que compõem tais agremiações.  A fundação da umbanda, bem como uso do candomblé como oposição ideológica ao Espiritismo não foi uma simples contraposição teórica ou doutrinária. Surgiu de conflitos sobre as diferenças de práticas, segundo relatam os próprios  historiadores desses segmentos, mas também estimulada como confronto por algumas inteligências do Além ainda marcadas pelas recentes mágoas da escravidão imposta pelos europeus sobre os africanos e indígenas;  funda-se talvez  também  na antiquíssima ideologia das raças, uma rivalidade entre a raça negra, dominante nas primeiras eras da Humanidade, pela força da paixão e pela imposição do medo, contra a raça branca, que se impôs pelo espírito de autonomia e racionalidade diante dos seus adversários naturais. Essas linhas e tendências também seguem o perfil e as características das faixas vibratórias ou círculos espirituais onde habitam e atuam essas entidades. Aí, sim, identificamos diferenças de superioridade ou inferioridade segundo os princípios da hierarquia ou categoria dos espíritos definida por Allan Kardec. Sem esse conhecimento é praticamente impossível tocar no assunto das nossas diferenças e semelhanças.

Quanto aos conflitos e rivalidade, devemos lembrar que nem a mistura de raças e costumes, nem as iniciativas pacificadoras de confraternização conseguiram diluir os efeitos desse choque primitivo, muito por causa da sucessão de atos vingativos e reações violentas entre esses espíritos mais antigos e seus descendentes, pelas tramas espirituais que se construíram entre eles.

Historicamente a grande e longa Era que hoje governa o mundo, depois da revolução agrícola, ainda é o da indústria, da ciência experimental e aplicativa, do território mercadológico, que pertence à etnia branca e as demais etnias que se adaptaram ao seu modo de vida capitalista.  Etnias que se degeneraram ou marginalizaram-se nesse contexto, incluindo alguns povos semitas da região da Mesopotâmia e da Índia, não conseguiram se firmar diante da civilização tecnológica. O compromisso dos ingleses em extinguir a escravidão pelo liberalismo não foi suficiente para evitar novos confrontos e abusos de poder. 

Em muitos núcleos, brancos e negros confraternizaram e trocaram experiências, sobretudo de conhecimentos espirituais; noutros predominou a troca de farpas e arrogâncias. Poucos sabem que até mesmo a figura simbólica e diabólica de Satanás, ora como entidade negra brotada das florestas e desertos, ora como entidade branca caída dos céus, foi um milenar jogo de provocações entre essas duas tendências etnológicas. Ambas tentando, pelo maniqueísmo, mostrar quem era do Bem ou do Mal, etnicamente puras ou impuras.  Tanto a etnia negra como a etnia branca eram puras nas suas origens, assim como amarelos e vermelhos. O que desfez essa pureza cultural foram os embates bélicos e os sucessivos erros de escolha de caminhos e destinos feitos pelos líderes dessas coletividades, dominados pelo personalismo ou pela vingança.

Quando o Espiritismo surgiu na Europa no século XIX, como força intelectual científica, a expor, revelar e explicar os fenômenos tidos como sobrenaturais, em busca de uma síntese comum, imediatamente surgiu a reação das forças opositoras, juntamente com as igrejas, tanto dos ocultistas brancos das tradições místicas exclusivistas da Europa, como também dos negros, por meio dos seus descentes nas colônias da América. Para eles o Espiritismo surge como neutralizador de dogmas e meias verdades, diminuindo significativamente o poder social dos magos e sacerdotes.

No Brasil o confronto não foi diferente e partiu do ressentimento dos núcleos espirituais primitivos com esse espírito passional e vingativo, alegando discriminação e preconceitos contra seus filhos. Assim nasceu a umbanda, miscigenada e mesclada; e assim ainda se afirma o candomblé em sua originalidade africana; ambas ainda muito envolvidas pelo sincretismo com as práticas ritualísticas católicas. Isso em nada as desabona, pois muitos candidatos a espíritas ainda se sentem fascinados pelas seduções místicas dos cultos dogmáticos tentando dar ao espiritismo algumas marcas das suas antigas crenças, inclusive pela via mediúnica.

E ainda é assim, para nós espíritas, espiritismo, umbanda e candomblé são coisas bem distintas entre si, embora isso ainda cause intranquilidade e confusão entre seus usuários e praticantes que não conhecem nem reconhecem autenticamente suas respectivas doutrinas e culturas. O embate entre a passionalidade e racionalidade não significa superioridade ou inferioridade entre elas, mas somente a imposição das marcas mais profundas de personalidade de cada uma. Nossas escolhas devem respeitar a existência, a diferença e a convivência desses princípios.


CONCEITOS E PRECONCEITOS

Esse problema nunca teve como causa os espíritos e sim os médiuns. Isso é sintomático. Quase sempre.

Espíritos que não respeitam a cultura dos locais onde se manifestam geralmente viram alvos de desconfiança.

As entidades étnicas realmente sábias e humildes não fazem questão de se manifestarem verbalmente ou impor suas crenças em ambientes onde não há rituais e práticas dogmáticas. As entidades africanas, indígenas, hindus, chinesas, etc, que são autênticas e superiores, sempre atuam de forma discreta e competente em todos os ambientes. São falanges muito disciplinadas, verdadeiras fraternidades, de comportamento humanitário exemplar, como confirmam videntes confiáveis em narrativas muito curiosas sobre essas atividades. Jamais quebram os protocolos morais e habituais do cenário onde atuam. Isso é questão de honra para eles.

Quando acontece alguma manifestação fora desses padrões conhecidos, realmente é necessário questionar e até impedir, caso haja insistência. Isso não é preconceito nem discriminação. Discriminação é tratar os iguais de forma diferente.

Espiritismo, Umbamba , Catolicismo e Candomblé são coisas diferentes. É conceito, procedimento e prática doutrinária construída historicamente nas lides espíritas e que não podem ser desprezadas à titulo de discursos pseudo-progressistas. Padres, monges, gurus e outros tipos sacerdotais receberiam o mesmo tratamento de impedimento , caso insistissem em aplicar suas práticas e ideias em ambientes espíritas.

Mesmo que aja acusação de preconceito e reação de rebeldia, como forma de assustar os presentes e confundir os trabalhos, deve-se proceder de forma doutrinária: lembrar que as casas espíritas não possuem rituais, dogmas, fórmulas, etc, e que o respeito é primordial para a convivência e o equilíbrio nas relações entre encarnados e desencarnados.

A recíproca é verdadeira. As entidades não étnicas que queiram atuar em ambientes ritualísticos devem ser discretas, autênticas e respeitosas, pois seria muito estranho se resolvessem mostrar aquilo que não são.

Lembrando: espíritos rebeldes são mais fáceis de lidar e conviver do que com médiuns sem conhecimento e indisciplinados.

Esse problema nunca teve como causa os espíritos e sim os médiuns. Isso é sintomático. Quase sempre.

Espíritos que não respeitam a cultura dos locais onde se manifestam geralmente viram alvos de desconfiança.

As entidades étnicas realmente sábias e humildes não fazem questão de se manifestarem verbalmente ou impor suas crenças em ambientes onde não há rituais e práticas dogmáticas. As entidades africanas, indígenas, hindus, chinesas, etc, que são autênticas e superiores, sempre atuam de forma discreta e competente em todos os ambientes. São falanges muito disciplinadas, verdadeiras fraternidades, de comportamento humanitário exemplar, como confirmam videntes confiáveis em narrativas muito curiosas sobre essas atividades. Jamais quebram os protocolos morais e habituais do cenário onde atuam. Isso é questão de honra para eles.

Quando acontece alguma manifestação fora desses padrões conhecidos, realmente é necessário questionar e até impedir, caso haja insistência. Isso não é preconceito nem discriminação. Discriminação é tratar os iguais de forma diferente.

Espiritismo, Umbamba , Catolicismo e Candomblé são coisas diferentes. É conceito, procedimento e prática doutrinária construída historicamente nas lides espíritas e que não podem ser desprezadas à titulo de discursos pseudo-progressistas. Padres, monges, gurus e outros tipos sacerdotais receberiam o mesmo tratamento de impedimento , caso insistissem em aplicar suas práticas e ideias em ambientes espíritas.

Mesmo que aja acusação de preconceito e reação de rebeldia, como forma de assustar os presentes e confundir os trabalhos, deve-se proceder de forma doutrinária: lembrar que as casas espíritas não possuem rituais, dogmas, fórmulas, etc, e que o respeito é primordial para a convivência e o equilíbrio nas relações entre encarnados e desencarnados.

A recíproca é verdadeira. As entidades não étnicas que queiram atuar em ambientes ritualísticos devem ser discretas, autênticas e respeitosas, pois seria muito estranho se resolvessem mostrar aquilo que não são.

Lembrando: espíritos rebeldes são mais fáceis de lidar e conviver do que com médiuns sem conhecimento e indisciplinados.


O ESPIRITISMO E A NOVA HUMANIDADE 


O advento do Espiritismo foi anunciado com todas as características dos grandes eventos proféticos, não somente no aspecto religioso, mas sobretudo no sentido mais amplo, ou histórico. É talvez muito mais nesse sentido que Allan Kardec e os Espíritos Superiores tenham utilizado com tanta ênfase a expressão “ Os tempos são chegados”. 

Observando pela ótica da grande duração temporal, a Humanidade já passou por três grandes ordens ou tendências: à primeira ordem poderíamos chamar de Construção e Ilusão da Antiguidade, marcada pela transição entre a pré-história e a civilização, na qual a mente humana adquire o sentido vertical, um olhar para o tempo futuro e passa a idealizar pelos mecanismos utópicos as suas perspectivas e expectativas. A segunda ordem poderíamos denominar como a descontrução e desilusão da Modernidade , período do surgimento, desenvolvimento e crises sucessivas do capitalismo (mercantil, industrial e financeiro). E finalmente a terceira ordem, que é a reconstrução e reflexão da pós-modernidade, período que agora começa a ser delineado pelos fenômenos da globalização do capital, da explosão das tecnologias digitais de informação e da revolução biogenética. São realmente tempos cada vez mais incertos, com total ausência da estabilidade,solidez e durabilidade das coisas. 

Uma das últimas reflexões de Allan Kardec sobre o futuro da civilização ficou registrado num ensaio sobre a evolução política da Humanidade. Trata-se do texto “As aristocracias”, publicado em “Obras Póstumas”, onde simplicidade e síntese dos conceitos expostos chega a causar espanto quanto a sua qualidade analítica.Kardec mostra que o poder social teve uma sucessão histórica marcada pelo domínio de aristocracias, ou seja, dos grupos considerados “os melhores” em sua época e no seu meio geopolítico. 

Em tempos primitivos surge então a aristocracia Patriarcal, dos chefes de família, dos anciãos, dos velhos, detentores do patrimônio e do saber dos antepassados. Como conseqüência dos conflitos sociais aparece posteriormente, já em forma de um Estado, na Antiguidade, a aristocracia da Força Bruta, dos homens fortes, vigorosos e inteligentes, dos chefes militares, dos senhores da guerra. Desses privilégios de hereditariedade organizou-se depois, na Idade Média e princípios de Idade Moderna, a aristocracia do Nascimento, dos estamentos superiores (clero e nobreza) em detrimento aos inferiores (o resto), a massa de camponeses e marginais urbanos. Já na Era Contemporânea, do capitalismo industrial e financeiro, emerge a aristocracia do Dinheiro, da burguesia, do liberalismo econômico, cujo esteio moral era fundamentado inicialmente no trinômio “igualdade, liberdade e fraternidade” veio sendo corrompido em função dos privilégios legais. Essa aristocracia, embora temida como potência social monetária, vem perdendo o prestígio moral herdado dos iluministas, tendo reforçada a sua imagem como elite opressora. As lutas entre o liberalismo e o socialismo - o capital versus trabalho - que atingiram pontos extremos no século XX, produziram as tenebrosas forças de aniquilamento. Eis o motivo da perda de prestígio dessa classe monetária, cujos abusos da inteligência racionalista iria colocar em risco o futuro da civilização . 

Mas em pleno contexto de desequilíbrio social, ainda no século XX, começam a surgir nos quatro cantos do planeta aquilo que Allan Kardec denominou de aristocracia Intelecto-moral, grupos minoritários que cresceriam lentamente, de geração em geração, até constituírem-se numa força de transformação silenciosa: “Os bons...que não alardeiam suas boas qualidades, não procuram ficar em evidência e, por isso, seu número parece ser diminuto”. Unindo inteligência e moralidade, desponta essa nova elite, que alguns socialistas utópicos haviam profetizado como o “Armanase” (império da inteligência). 

O século XIX foi marcado pela explosão de movimentos de busca de felicidade, como reflexo dos desequilíbrios causados pela revolução industrial. No século XX essas ideologias e utopias tomaram formas esdrúxulas, em forma de sistemas políticos totalitários, guerras monstruosas, aniquilamento humano e ambiental. O próprio planeta foi colocado em risco diante da ameaça de uma hecatombe nuclear. Morte, servidão industrial, massificação, miséria, individualismo, narcisismo foram as principais marcas desse século tão promissor e ao mesmo tempo tão sombrio. Durante esses cem anos a Humanidade esteve mergulhada na incerteza, num perigoso jogo de ambição e no medo, na extravagância e na fome, nas multidões e na solidão, nas fantasias e na depressão; ora iludida pela fama de quinze minutos, ora derrotada pela desilusão das coisas efêmeras. Nunca registrou-se tamanha situação de caos na experiência humana, uma crise sem precedentes; nunca consumiu-se tantas drogas e alucinógenos para facilitar a fuga da realidade. A expansão da criminalidade e o aumento da população carcerária atingiram níveis assustadores. E foi em plena crise, que surgiram os germes de uma nova forma de vida. Da própria ciência decadente aparecem novos paradigmas de observação da realidade; das próprias instituições, impotentes e desmoralizadas, brotam novas perspectivas para civilização. Uma nova geração começa a nascer no planeta, demonstrando um comportamento diferente dos seus antepassados. É a emergência da pessoa, antes sufocada pelo coletivismo da cultura de massas. Marilyn Férguson[21] definiu esse curioso fenômeno como uma “conspiração aquariana”. Esse novo ser humano se recusa ser tratado como uma peça de consumo ou mero dado estatístico. São eles novos focos de uma transformação silenciosa, sem alardes, e que se intercomunicam pela afinidade de sentimentos. “Conspiram” porque “respiram” juntos o mesmo ar, os mesmos anseios. São portadores de uma revolução invertida, de dentro para fora; e por isso permanecem em silêncio, num compasso de espera, aguardando o momento certo para agirem. Não poderiam comprometer a nova ordem das coisas. Muitos deles já entraram em cena e desempenharam complicados papéis de mudança; papéis de destaque ou anônimos, como suportes ou pontas de lança, mas todos comprometidos com as transformações. São pessoas diferentes e que continuam a nascer todos os dias. Segundo Carl Rogers[22], eles terão uma infância atormentada, sofrerão as adversidades de um ambiente estranho e hostil, mas conseguirão sobreviver. Irão crescer, instruir-se para exercer as mais diversas profissões, geralmente ligadas ao processo de mudanças: na educação, nas artes, nos laboratórios, no ativismo social. Ocuparão novos espaços e saberão explorar o novo tempo. É claro que também estão nascendo seres iguais ou piores aos do século XX, mas já são em menor número e brevemente serão impedidos de agir negativamente, pois serão vistos claramente como seres medíocres ou aberrações de passado inaceitável. 

O momento atual é muito delicado e exige paciência e confiança no futuro; é uma longa fase de transição que deve ser vivida com coragem e vivenciada com aceitação e até sacrifício, como necessidade natural do processo de transformação. 

Neste início de novo século e de novo milênio as instituições que trabalham pela qualidade de vida no planeta e pelo desenvolvimento da Humanidade já demonstram um vivo interesse em dar novos rumos no conhecimento e na melhoria da inteligência humana. A Unesco, por exemplo, que é um órgão da Organização das Nações Unidas, voltado para as questões educacionais, elaborou um vasto estudo sobre as necessidades a serem preenchidas neste setor. Tais estudos devem preparar a Humanidade para os novos paradigmas sociais do novo milênio. Esse relatório, preparado por célebres educadores de diversos países e coordenado por Jacques Delors, elegeu como ponto fundamental os Quatro Pilares da educação para o futuro: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Nesses quatro verbos dinâmicos estão sintetizadas as experiências essenciais da vivência humana, incluindo as inteligências múltiplas. Neles visualizamos não só os conteúdos teóricos racionais e exteriores, mas também a valorização das experiências emocionais, fortemente responsáveis pela plenitude existencial da espécie humana. Numa ordem evolutiva de transformação da pessoa – de dentro para fora e de fora para dentro - eles contemplam, portanto, não só as habilidades cognitivas, mas também as competências, que influenciam o ser humano a tomar as mais importantes decisões. Mostram ainda, pela interação, as múltiplas faces do Ser: Ser corpóreo: de dimensão e complexidade biológica. Ser inteligente: de dimensão mental e complexidade psicológica. Ser emotivo: de sensibilidade e expressividade sentimental. Ser social: de relações e afinidades interpessoais. Ser livre: de ir e vir, de agir e decidir. Ser estético: que se alimenta de imagens e auto-imagens. Ser volitivo: que se move pela vontade. Ser histórico e planetário: do seu tempo e do seu ambiente. Ser cósmico: de condição e consciência meta planetária. Ser espiritual: de origem e condição metafísica. Ser moral: de natureza ética, de dinâmica evolutiva e positiva. 

Nessa mesma linha de novas descobertas sobre a natureza humana e de propostas renovadoras o educador Bernardo Toro desenvolveu os Sete Códigos da Modernidade, que são os saberes necessários para compreender e conviver na nova sociedade contemporânea. Velocidade tecnológica, diversidade social, incerteza e instabilidade de paradigmas, incongruência entre o efêmero e as permanências, multiculturalismo e fragmentação da realidade são as novas condições de vida e perspectivas que a humanidade tem pela frente. Nos sete saberes estão inseridas as ferramentas para interpretação e experimentação desse novo mundo, dessa nova ordem: dominar as diferentes formas de leitura e escrita; resolver equações lógicas e psicológicas; analisar, descrever e interpretar dados, fatos e situações; compreender e atuar no contexto social; receber aberta e criticamente os meios e mensagens da comunicação; localizar, acessar e otimizar a informação acumulada; planejar, trabalhar e decidir em grupo. 

Outra tendência afinada com tais propostas são as idéias do filósofo Edgard Morin[23], cuja análise histórica da passagem do milênio identificou as principais forças negativas do aniquilamento e do irracionalismo predominantes no século XX. Morin reivindica a necessidade de uma profunda reforma de mentalidade do homem contemporâneo, escravo do racionalismo e fugitivo da racionalidade. Segundo ele, as novas gerações que foram surgindo a partir da última Grande Guerra não aceitam mais as regras dos sistema de perversão racionalista de aniquilamento e se agrupam nas chamadas Contra-correntes de regeneração, que passaram a lutar abertamente pelo estabelecimento de uma nova ordem mundial, mais harmônica e humanista: a contra-corrente Ecológica (da preservação ambiental); a contra-corrente Qualitativa (luta pela qualidade de vida e integridade humana); a contra corrente de Resistência ao Consumismo (pratica a temperança e a frugalidade); a contra-corrente de Resistência ao Capitalismo (que é contra a tirania do dinheiro e do lucro); a contra-corrente de Resistência à Frieza Utilitarista (exemplifica a poesia, a espiritualidade e o amor); a contra-corrente Pacifista (acredita no amor e no perdão e que é contra a disseminação da violência). 

Todas essas contra-correntes, perfeitamente identificadas com a filosofia e a moral espírita, representam a nova mentalidade que deverá predominar no terceiro milênio. Reunindo Espíritos de mentalidade reformada, avessos à injustiça e às desigualdades, e sobretudo livres dos preconceitos sociais, as contra-correntes há muito já buscam um novo rumo para a Humanidade, na construção de uma nova Civilização Planetária. Defendem em seus movimentos a idéia do pluralismo e da diversidade cultural, do desenvolvimento de uma consciência ecológica e antropológica, da maturação de um civismo global e da espiritualização da condição humana. Elas foram surgindo em pequenos grupos idealistas na medida em que ocorriam os abusos empreendidos pelas forças destruidoras e tirânicas, que colocavam em risco milhares de anos de evolução. Inicialmente foram vistas com desconfiança pela sociedade exatamente porque ousavam destoar dos conceitos comuns. Eram desacreditados porque se apoiavam em pessoas sem nenhuma influência formal, jovens idealistas, adultos já conhecidos como velhos rebeldes, grupos de utopistas que nunca haviam mostrado resultados práticos de suas idéias. Mas eles tinham o suporte exemplificador de figuras heróicas como o Mahatma Gandhi ou o pastor Martin Luther King. A partir desses exemplos vivos de luta e resistência, inúmeros artistas, ativistas, cientistas, comunicadores e educadores se tornaram porta-vozes da transformação. Era a revolução da contra-cultura. E com o tempo essas contra-correntes foram crescendo, tomando forma e força, ocupando espaço político e social. Na década de 1960 eram apenas pequenos grupos isolados; na década de 1980 foi tomando formato de influentes organizações não-governamentais. E, de protesto em protesto, elas foram se impondo como alternativas aos sistemas opressores do capital industrial, gerador de guerras, de morte e destruição. Podemos identificar na reunião de todas elas a realização de uma nova forma de poder, um novo paradigma de convivência social, que é o estabelecimento pacífico e harmonioso da aristocracia Intelecto-moral. As contra-correntes representam a síntese da regeneração humana e social, na qual o nosso planeta poderá superar a condição de mundo inferior - de provas e expiações – adquirindo finalmente um perfil superior em moralidade e harmonia com as leis universais. Essa nova marca, construída lenta e pacientemente ao longo de dois milênios, foi produto do esforço heróico de sucessivas gerações de gênios que aqui encarnaram com a missão de revolucionar todas os setores sociais e suas respectivas áreas de conhecimentos. Todos trouxeram gravados em seus Espíritos o signo da renovação e da esperança. Muitos deles em tarefas de caráter sacrificial, oferecendo suas próprias vidas em prol da Verdade e seguindo o exemplo daquele que, desde os remotos tempos pré-históricos, vem sendo venerado como o Redentor da Humanidade. 

Atualmente uma parte da Humanidade continua insistindo, aqui e ali, nessa desarmonia; continua sofrendo também os choques de retorno dessas ações negativas. São ações que aos olhos sedentos de renovação e felicidade parecem cada vez mais gritantes e desesperadas, talvez os últimos suspiros de época de agonia e de grande sofrimento. Pode ser também, como disse Rogers, as dores do parto de uma nova era, de um novo mundo, um novo ser. São as persistentes dores do individualismo, da ganância, do perverso hábito pessoal e social de fugir da realidade; dores da mentira, da ilusão e da alucinação. 

Essa situação de impasse entre a animalidade instintiva do passado e a humanidade intuitiva do futuro já está com os dias contados. 

Esses são os grandes desafios do Espiritismo para futuro, no plano existencial dos seus adeptos e também na repercussão que essas mudanças pessoais terão na sociedade em que irão viver. Estarão os espíritas à altura dos compromissos de regeneração? 


A EDUCAÇÃO SOCIAL ESPÍRITA 

“Quem ler esses trabalhos por nós citados e alguns outros relativos à Educação Espírita apreciará o linguajar técnico e erudito, que oferta conhecimentos teóricos, mas continuará sem saber o que caracteriza uma escola espírita” 

Ary Lex - “Minha Vivência – 50 anos de Espiritismo no Estado de São Paulo” 


Toda filosofia tem sempre três aspectos a serem considerados: aquilo que pensamos sobre o assunto, aquilo que sentimos e aquilo que colocamos em prática, através de atitudes. O que pensamos é teoria e não muda a realidade em que vivemos. Já o que praticamos, motivado pelos sentimentos e emoções, causa mudanças em nós e no entorno da nossa experiência. A mente pensa, age e sente simultaneamente num processo dinâmico de vivências. Podemos fazer essas três coisas separadamente e isso significa que estamos fazendo experiências parciais e isoladas. Isso é muito comum nas mentes imaturas e deliberadamente alienadas, em constante processo de fuga da consciência. Pensar, sem revelar os sentimentos, agir sem pensar, sentir ocultando pensa-mentos e ações são operações mentais que geralmente utilizamos para enganar a mente ou a nós mesmos. Com a filosofia espírita não é diferente. Podemos pensá-la, restringindo-a aos domínios do intelecto e ocultando os nossos sentimentos; ou podemos colocá-la no plano atitudinal, agindo simultaneamente com os conhecimentos doutrinários e os nossos sentimentos, coloridos pelos valores morais. 

Aprender e ensinar o Espiritismo também passa por essa reflexão sobre a natureza da nossa mente e a mentalidade dela decorrente, surgindo assim as seguintes perguntas: o que seria uma educação espírita? Seria o domínio das habilidades mediúnicas? Seria o ensino da filosofia e a educação das suas conseqüências morais? Seria a capacidade de observar o mundo segundo a ótica espírita, isto é, comparar a realidade utilizando como referência os postulados fundamentais do Espiritismo como, por exemplo, a existência do espírito, a imortalidade pela constatação da sobrevivência após a morte, a lei de ação e reação, a lei da reencarnação, a pluralidade de mundos e o intercâmbio através da mediunidade? 

Se for tudo isso e mais alguma coisa que esquecemos de apontar, então no que o Espiritismo é diferente das filosofias espiritualistas que também postulam essas verdades? 

Onde está o diferencial que pode ser transposto para um projeto de ensino e educação espíritas e, principalmente, para uma efetiva prática educacional com o poder de transformação das pessoas e da sociedade? 

Achamos que o diferencial não está no fenômeno espírita, bem como na sua observação e controle psíquico; muito menos na apropriação intelectual do conhecimento filosófico. Achamos que este se encontra num outro tipo de apropriação do conhecimento, que são as implicações morais deles resultantes. Mais ainda: achamos que, exatamente como Rivail percebeu ao longo das primeiras reuniões de mesas-girantes, que é a vivência dessas implicações morais, não nos debates e discussões da ética espírita, mas na exemplificação pessoal desses valores. 

Não foi coincidência nem à toa que o Espiritismo tenha dado seus primeiros passos em núcleos domésticos, em ambiente familiar, base educativa e vivencial dos seres e das sociedades civilizadas. É na família e no ambiente familiar que as coisas realmente importantes na vida do espírito acontecem. Tanto a educação como a reeducação geralmente só ocorre com êxito, salvo exceções, na qual a ausência familiar é fator de prova ou expiação, em núcleos familiares ou afins. Essa é a grande e verdadeira sala de aula onde começa o ensino e a educação pelo Espiritismo e de onde jamais deverá ser banido como prática educativa, ou radicalmente substituído pelas formas alternativas de aprendizagem. Não podemos jamais perder de vista essa primeira lição dada pelos Espíritos Superiores, como fez Jesus ao nascer numa manjedoura. 

Mas isso não quer dizer que somos contra as formas alternativas de aprender e ensinar o Espiritismo. Só não podemos nos iludir com os modismos superficiais e trocar os fins pelos meios. 

Outras dúvidas: porque em nosso movimento fala-se tanto numa “pedagogia espírita”, mesmo que seja um rótulo de aparência, na falta de uma definição melhor do tema? Será que é um idealismo definido ou sonho de aceitação e de domínio social, quando, por exemplo, observamos o alto poder de influência política e econômica das escolas confessionais católicas, protestantes, etc.? 

Pode ser apenas uma impressão da nossa parte, mas existe entre nós, sobretudo nos espíritas de pendor intelectual, uma certa dificuldade de compreender os mecanismos da transformação moral do ser humano. Em núcleos mais cristianizados essa transformação é simplificada pela expressão “reforma íntima”, ou seja, matar o homem velho e deixar nascer o homem novo, usando a metáfora do Apóstolo Paulo. Aliás, esta é também a dificuldade que temos de compreender a transformação moral de Rivail para Kardec, na qual o codificador nos deu um claro exemplo de disposição para o amadurecimento espiritual, ocorrido quando ele já contava mais de meio século de idade física. 

Os espíritas que têm dificuldades com a transformação moral, em cujo grupo também nos incluímos, tendem a valorizar mais o passado e o perfil intelectual do codificador do que a sua experiência de maturação consciencial, realizada num momento em que seu espírito estava vivamente preocupado com o tempo futuro. Foram 14 anos nos quais Rivail se transformou em Kardec, não pela simples mudança de nome ou adoção formal de um pseudônimo. Temos a nítida convicção que, ao adotar o pseudônimo Allan Kardec, o codificador não só atendeu ao simbolismo sugerido pelo seu espírito protetor, nem tampouco estava solucionando um simples problema de identidade jurídica, mas estava também equacionando um importante dilema de identidade existencial. Naquele momento estava iniciando a agonia da morte do homem velho, do mundo objetivo e positivo, do pedagogo que lutava pelo ganha pão, para deixar nascer ou ressurgir o homem novo, o educador da espiritualidade. Esse despertar de Kardec, cuja iniciação foi rápida e proveitosa, pois o seu potencial de maturação era imenso, como o próprio espírito o alertou, lembrando suas experiências anteriores, mostra bem as graves diferenças de concepções educativas que permeiam os atuais ambientes de aprendizagem espírita. 

A pedagogia de Rivail, embora humanista, refletia a sua visão de mundo ainda estreita e limitada pelos cinco sentidos, portanto altamente cerebral e voltada para os problemas de sua época. Rivail talvez não fosse um materialista, mas não acreditava em espíritos, nem em reencarnação, muito menos na possibilidade de comunicação entre vivos e mortos. Isso está bem exposto em “Obras Póstumas”. Só mudou de idéia quando constatou, testou e comprovou o que viu e ouviu. Não só mudou de idéia, processo que foi até rápido, mas também de postura, processo que podemos perceber nos textos da Revista Espírita e nas obras posteriores ao “Livro dos Espíritos”. Não podemos esquecer que este livro, segundo o próprio Kardec, teve participação intuitiva e também direta dos espíritos, corrigindo inclusive algumas falhas conceituais. Já o auto-educador Allan Kardec, nesse percurso de 14 anos, rompeu com essa limitação cerebral e penetrou no universo ilimitado da mente. Os sábios gregos da Antiguidade chamavam essa experiência de “andragogia”, prática educativa que se realizava em campo dialeticamente oposto da pedagogia. A escola de Pitágoras, em comparação com a maioria das escolas filosóficas gregas, possuía esse diferencial andragógico. Não se trata de educar “adultos”, no sentido literal da palavra, mas despertar consciências. A pedagogia também não deve encarada no sentido literal de educar “crianças” e sim potencializar mentes imaturas e infantis. Existem crianças que possuem mentalidade adulta e adultos que são infantis. Enquanto a pedagogia funciona no plano intelecto-racional e horizontal da existência carnal, a andragogia funciona no plano consciencial integral e vertical. Essa diferença marca o fim ambivalência cérebro-mente, na qual a coluna vertebral do Homem vem sendo verticalizada na medida que este toma consciência de si mesmo. 

Assim, devemos dizer que o termo “pedagogia espírita”, quando colocado como proposta educativa filosófico-intelectual das escolas racionalistas, pode ser um contra-senso, um equívoco conceitual e histórico que tenta, em vão, associar de forma linear a figura transformada, amadurecida e, portanto, revolucionária de Allan Kardec, com personalidades da educação humanista, ainda que respeitáveis reformadores em suas épocas, mas que pouco têm a ver com a essência filosófica do Espiritismo. Comenius, Rousseau e Pestalozzi realmente inovaram na educação pedagógica, mas ainda não estavam preparados – nem havia ambiente histórico para isso - para ousar e romper as amarras da intelectualidade e mostrar que adultos e crianças são espíritos e que tais condições biológicas são sempre relativas quando defrontadas com o fator reencarnação. Nas diferentes épocas de Comenius, de Rousseau e Pestalozzi não havia como demonstrar positivamente essa realidade, sob o grave risco de acusação de bruxaria e pena de morte, inclusive na Suíça, porque o paradigma espírita não havia sido aberta-mente proposto e rompido com os anteriores. Tudo isso era assunto de alto risco social, restrito aos círculos esotéricos. Quem se atreveu a desafiar tais dogmas pagou com a vida essa ousadia. O que encontramos nesses educadores são idéias superficialmente parecidas com as idéias espíritas, de linguagem emocional, mas não espíritas em si. Kardec talvez tenha percebido essa diferença e logo entendeu que tais mudanças só ocorreriam de fato quando as coisas novas recebessem um tratamento novo, começando pelas palavras e complementando pelas práticas. Isso era algo para o futuro, num tempo bem à frente do seu. 

No caso do Espiritismo, como novo paradigma, toda educação voltada para a intelectualidade tende a perpetuar os valores do homem velho e impedir a manifestação pura do homem novo. Isso acontece também com qualquer idéia educativa inovadora, quando formulada e aplicada em sistemas escolares convencionais. A educação espírita sofre esse bloqueio quando se defronta, nos centros espíritas ou escolas, com sistemas racionalistas. A racionalidade, quando utilizada como meio, funciona perfeitamente e cumpre o seu papel intelecto-existencial. Quando utilizada de forma invertida, como finalidade, torna-se uma perversão, um vício dos sentidos. Isso aconteceu com a educação cristã ao adotar dogmas de fé e se submeter ao sistema sacerdotal romano. Tanto é que um dos dogmas filosóficos restaurados com mais ênfase pelo Espírito Verdade foi exatamente o da imortalidade real, sustentado cientificamente pela mediunidade e pela lei da reencarnação, que são ao mesmo tempo prova e essência da transitoriedade carnal e existencial, e também da transformação consciencial ou ressurreicional. Os católicos e protestantes, espiritualmente imaturos, foram os responsáveis por esse desvio da religiosidade, cultivando a religião dogmática e materialista. A educação espírita, ora em construção, não deve contaminar-se pelas formas confessionais, portas largas do conforto institucional, nem pelas seduções intelecto-acadêmicas, pois corre o risco de repetir os mesmos erros desses irmãos transviados. 

É por isso que afirmamos não existir de fato ou pode ser um contra-senso, a “pedagogia espírita”. E nem pode haver, porque no momento em que ela é envolvida pelos esquemas institucionais (cerebrais, racionais, legais e utilitários), acontece o aborto da verdadeira idéia de educação que ali foi idealizada. Surge então uma falsificação, uma adaptação educacional. Uma educação espírita andragógica, de exploração vivencial, de complexidade integral (pensamento, ação e sentimento) pode vir a ser uma grande revolução porque certamente ela partiria de educadores realmente transformados, mas principalmente das próprias crianças, por serem espontâneas, sem máscaras. Ou então de adultos em constante atitude de insatisfação consigo mesmos, em busca permanente de soluções das equações íntimas, relevantes para o espírito e não para o intelecto. Nela a experiência intelectual não vai ser desprezada, nem banida; simplesmente vai ser colocada no seu devido lugar, deixando de brilhar como fim, segundo o novo paradigma mente-corpo, para atuar como meio. 

Também é difícil e curioso entender porque Allan Kardec, sendo antigo educador de profissão, ao tomar contato e desenvolver filosoficamente o Espiritismo, não tenha cogitado e fundado uma Escola espírita. Ao contrário, sua concepção de educação espírita demorou para ser formulada e soa de maneira muito vaga, visto que era um “herdeiro” de Pestalozzi, de Comenius e de Rousseau. Sua formulação filosófica tinha conteúdo suficiente para implantar um sistema educacional convencional, do tipo que ele de Amélie Boudet conheciam muito bem. O que aconteceu então? Falta de recursos, falta de tempo, falta de definição de um currículo essencialmente espírita? Tudo muito estranho, não e mesmo? Ou ele entendia ser uma escola intelectual e pedagógica, com toques sentimentais, como a que estudou em Yverdon, o que é pouco provável pela sua maturidade filosófica abertamente exposta nas obras e na sua vivência na Sociedade de Estudos espíritas e registrada na Revue. Ou então compreendeu que tal idéia só seria possível depois de uma ampla propagação e assimilação social do Espiritismo, como expôs nas teses “As Aristocracias” e dos “Seis Períodos do Espiritismo”. 

Já no século XIX, os sucessores de Kardec na Revista Espírita, Pierre e Marina Leymarie, juntamente com Jean Macé e Emmanuel Vauchês fundaram a Liga do Ensino, uma tentativa experimental de unir Espiritismo e Socialismo Utópico num currículo escolar, mas, ao que tudo indica, não obtiveram sucesso, pois o projeto acabou sendo transferido da sua casa para o Falanstério de Guise, dirigido por J.B. Godin. Se lembrarmos do Colégio Allan Kardec, fundado em 1907 por Eurípedes Barsanulfo, em Sacramento, podermos ter uma idéia de como a educação espírita de fato iria demorar para ser implantada como prática educacional efetiva. Eurípedes se esforçou para implementar um currículo espírita, mas o que aconteceu na prática foi uma adaptação daquilo que ele concebia como Espiritismo, acrescida da sua experiência educacional católica, herdada da Sociedade São Vicente de Paulo. O próprio espírito Vicente de Paulo alertou Eurípedes sobre o perigo da “nostalgia” católica e o exortou a se “afastar” definitivamente daquela instituição. É claro que a sua história, a condição espiritual e sua mediunidade excepcional deram um tom revolucionário ao colégio, mas assim que desencarnou tal característica não pôde ser sustentada. As tentativas se sucederam ao longo de quase meio século, todas com o mesmo problema: qual é o currículo dessas escolas e qual sua verdadeira ideologia? Ora, uma escola e uma educação espírita não podem depender da presença eterna dos seus fundadores nem da indefinição do seu perfil curricular. Se os próprios educadores não conhecem os rumos de suas vidas e das suas idéias educacionais como querem apontar caminhos para os outros? Os Educadores passam e o Espiritismo continua sendo o mesmo, filosoficamente bem estruturado, aguardando que os espíritas descubram nesse campo um rumo novo e que consigam andar com suas próprias pernas. 

Podemos afirmar, sem receio de errar ou polemizar, que o Allan Kardec, espírita do terceiro grau, auto-educador, comunicador e facilitador educacional, está mais para Carl Rogers, Edgard Morin, Bernardo Toro e Paulo Freire do que para Comenius, Rousseau e Pestalozzi. Primeiro porque Allan Kardec sempre esteve voltado para o futuro. Entenda-se futuro como o aprofundamento de conhecimentos sobre a mente, em oposição ao determinismo materialista cerebral. Tais mudanças ocorreriam a partir das proposições filosóficas de Henri Bérgson, prontamente acusado de misticismo; dos vastos estudos de Freud, também taxados de crença judaica; e que culminariam, no meio espírita, com as revelações sobre a “casa mental”, de André Luiz, na obra “No Mundo Maior”, também desprezada pelos corifeus da ciência, incluindo alguns espíritas, como superstição e engodo mediúnico. As recentes teses sobre as inteligências múltiplas e sobre a habilidade emocional também contribuíram muito para essa mudança de paradigmas na educação e que se identificam com o Espiritismo. 

Comenius, Rousseau e Pestalozzi hoje são reconhecidos como precursores da educação integral. Muito disso se deve aos educadores e psicólogos do século XX, que demoliram antigos dogmas científicos e aboliram velhos tabus da educação confessional. Eles demonstraram que a fé e a intelectualidade são apenas aspectos da mente humana e não a sua totalidade; que a mente se compõe também de experiência atitudinais (escolhas) e emocionais (sentimentos). Com Rogers e sua teoria da personalidade, por exemplo, na qual a pessoa é vista e tratada como um ser autônomo, livre da dependência de terceiros, de auto-direcionamento positivo (no sentido de otimismo), a idéia de uma educação espírita encontra eco, sentido de semelhança filosófica. Nela o espírito rejeita o determinismo biológico e parte para as experiências do livre-arbítrio. Não aceita modelos comportamentais prontos e definidos, com experiências e valores estranhos aos seus ideais de crescimento pessoal. 

Não estamos raciocinando historicamente de forma linear, pois teríamos que colocar Jesus como um educador do passado. Este, ao contrário, conhecia muito bem a mente e o dilema do espírito humano. Chamava isso de “O Reino de Deus” (malkuth), ou “estado de coisas”. Estamos falando, sim, de ruptura, de revolução, de novos paradigmas, fora desse conceito tradicional de temporalidade etapista dos historiadores antigos. De forma genérica, todos esses educadores, independente do tempo em que viveram, têm a ver uns com os outros e todos têm muito a ver com Kardec e Jesus. Mas, em termos específicos, quando falamos em projetos educacionais,práticas educativas, diretrizes curriculares e didáticas, avaliação do desempenho de ensino-aprendizagem, definição de habilidades e competências, temos que ser mais claros e transparentes quando fizermos relação com o Espiritismo. 

Apesar de estarmos envolvidos ideal e profissionalmente do universo educacional, somos da opinião de que os atuais modelos de Educação e o Ensino estão em franco processo de crise e falência. O que existe são aparências meramente institucionais, baseadas em tecnologia material e legislação complicada e ineficiente. Educadores de alto conceito já profetizaram o fim da sala de aula e de tudo o que está aí em termos de ensino-aprendizagem. Marilyn Ferguson, em 1979, já havia apontado todas essas transformações paradigmáticas da educação. Parece que ninguém levou a sério as suas reflexões e todas as experiências que ela apontou como sinais de uma grande mudança, pois a força de cooptação é muito superior à idéia de inovação. Para mudar é preciso repensar e recomeçar do ponto inicial. Um projeto de educação espírita deve dar os primeiros passos numa estrutura familiar, modesta, pequena, responsável, sem alardes e entusiasmos do tipo “fogo de palha”. Cremos que dessa forma deverá surgir, de onde a gente nem imagina, uma nova casinha de Hydesville, alguma novidade, uma luz que não seja miragem. A conspiração (respiração conjunta) deve começar nos lares espíritas. Nesse sentido, lamentamos decepcionar alguns companheiros ainda afeitos ao sectarismo doutrinário e ao conforto institucional das associações escolares, mas a educação espírita que concebemos, e que precisa ser construída após muita reflexão e pesquisa, está cada vez mais distante dos estabelecimentos escolares e das abordagens racionalistas e cerebrais; e muito mais próxima da educação simples, intransitiva e integral do Cristo, contida na Parábola do Semeador. 


O ESPIRITISMO E A PÓS-MODERNIDADE 

Os livros sobre história da educação mostram quase sempre em suas páginas a síntese sobre a vida e obra dos seus grandes pensadores. O desfile de personalidades é interminável, em sua maioria filósofos que opinaram sobre a natureza humana e o seu processo de formação. Poucos foram educadores de ofício, ou seja, nunca tiveram contato direto com alunos e nem mesmo educaram filhos. Mesmo assim, refletiram coisas interessantes e deixaram registros que hoje são considerados clássicos. Isso mostra que qualquer pessoa com senso crítico aguçado e em sã consciência possui capacidade produzir idéias refletindo sobre esse assunto, mesmo porque, como seres humanos, todos nós passamos pela experiência educacional. Olhando as nossas próprias experiências somos capazes de descrever e julgar aquilo que somos e quais as causas que fizeram de nós isso que julgamos ser. É dessa capacidade pessoal que também generalizamos os nossos conceitos para julgarmos as coisas e os outros. 

Assim, em qualquer grupo ou setor da sociedade, encontramos pessoas com essa capacidade de reflexão. No Movimento Espírita, por exemplo, a idéia de educação é uma constante óbvia, já que a pessoa, como entidade evolutiva, em permanente trans-formação, é sempre o centro das reflexões. Somos todos espíritos e fazemos parte de um grande projeto educacional do universo e alvos curriculares de um Plano Divino. Qualquer espírita tem consciência disso e se for questionado responde, prontamente, quais são os detalhes dessa empreitada evolutiva. No Espiritismo a educação é sinônimo de evolução. Como toda doutrina filosófica, obviamente, sua estrutura e linguagem doutrinaria é naturalmente apresentada como se fosse um sistema educacional: prepara intelectualmente e depois modifica comportamentos. 

Então, a pergunta é a seguinte: se temos vocação natural para evoluir, se tomamos consciência, cedo ou tarde, de que fazemos parte de um sistema educacional natural, planetário e cósmico, por que devemos nos submeter aos sistemas educacionais humanos, artificiais, restritos, sectários, constrangedores, isolacionistas, dogmáticos, hipócritas, medíocres, inibidores do talento, reprodutores de preconceitos, quase sempre mascarados pelos princípios filosóficos sofismáticos e protegidos por títulos e convenções sociais de competência relativa e até mesmo duvidosa? As leis do universo já não realizam naturalmente esse papel educativo nas instituições sociais: na família, trabalho, agremiações, etc. A reencarnação e a lei de causa e efeito já não conduz o espírito aos processos regeneradores nos quais ele deve experimentar sua reeducação. Então, qual seria o papel de uma escola espírita, de uma escola católica, protestante, budista, senão chover no molhado, pisotear em terreno já plantado, revolver sementes já acomodadas no solo? As escolas de ensino tecnológico, por exemplo, têm sua razão de ser: aprender e desenvolver habilidades práticas, de manipulação, de planejamento, de cálculos, etc. Como então seria uma escola de ensino moral sem que não houvesse esses graves defeitos do proselitismo e do sectarismo ideológico? Que escola espírita resistiria à intenção de doutrinar sobre reencarnação e mediunidade? Que escola religiosa não incluiria os seus dogmas como pontos essenciais do currículo? Aliás, qual escola filosófica não espera que seus alunos, mesmo adeptos de outras concepções, não repensem suas opções ideológicas e se convertam em novos discípulos? Que escola filosófica, quando sistematizada, resistiria aos impulsos institucionais deformadores da sua pureza ideológica? 

Ao não ser que façamos uma grande revolução educacional, que adotemos uma concepção totalmente nova de educação e sintonizemos o novo paradigma do mundo que aí está, em franca transformação, sinceramente não acreditamos que seja possível uma educação espírita de pureza e qualidade, nem achamos que seja necessária a criação de um sistema educacional espírita de estilo convencional, em estabelecimentos específicos. Tudo isso nos parece vazio e sem propósito definido, sem nenhum embasamento razoável. Todas as experiências feitas nesse sentido redundaram em fracasso ou estacionamento, pelas conhecidas vias das adaptações e da contaminação ideológica. A última escola dita espírita que vimos funcionar e sustentar esse status não resistiu às pressões dos próprios gestores espíritas e passou a usar a denominação “espiritualista”, para não discriminar a clientela de não espíritas. 

Então, mais uma vez, nos vem em mente a pergunta que não que calar: o que é a educação espírita e quem é o educador espírita? 

Pois bem. O educador espírita está em toda parte. Basta ser espírita. Isso quer dizer que essa educação não depende de professores, nem de escolas, pois ela é essencialmente intransitiva, não pode ser transmitida através de palavras, livros, metodologia intelectual. Educação só é possível através de exemplos de conduta, do espelho vivencial. Portanto, aqueles que assimilam o Espiritismo e incorporam seus ensinamentos na vida prática, pelo esforço persistente, incluindo os fracassos, automaticamente se tornam educadores, pois já estão sendo avidamente observados e imitados pelos filhos, vizinhos, amigos, inimigos, companheiros de trabalho, enfim, em todos os lugares por onde passamos. Isso só não acontece no centro espírita. Lá nós não conseguimos ser educadores porque agimos de forma artificial, não autêntica, preocupada com a imagem, com a pureza doutrinária. 

Se a educação serve para a Vida esta não pode então ser exclusividade ou monopólio de educadores profissionais. Isso não impede que o profissional que seja espírita, (e não espírita profissional), possa se tornar um diferencial importante na divulgação do Espiritismo. Além do exemplo atitudinal, ele pode utilizar suas habilidades para promover direta ou indiretamente a cultura espírita na sala ou ambiente de aula. A cultura espírita, esta sim, existe, está definida, possui profundidade conceitual. Só precisa ser explorada em seus múltiplos aspectos. Ao contrário da nossa ética, muitos outros aspectos importantes da cultura espírita ainda não foram totalmente desvendados. A arte espírita, por exemplo, ainda não se definiu totalmente como conceito, escola e tendência. Já a educação, como sempre, precipitada e representada por educadores arrogantes, já mostrou sua cara e se posicionou como mestra cultural do Espiritismo. Acontece que, via de regra, as escolas e os educadores, e outros sábios acadêmicos, se posicionam como os donos da verdade e se consideram veículos únicos e exclusivos da cultura. E no meio espírita isso não poderia repercutir de maneira diferente. 

Toda ideologia desperta o impulso da propaganda e a ilusão da perpetuação de conceitos, na verdade dogmas, no sentido clássico. O maior dogma das ideologias educacionais é a utopia. Trata-se do próprio espírito da educação. Para os verdadeiros educadores a palavra utopia significa projeto, possibilidade real de transformação, sonho possível, porque não depende de reações pessimistas, de sentimentos ilusórios nem desejos imediatistas. Na educação espírita a utopia é mais ampla, pois conta com a certeza da continuidade da vida e as ações restauradoras das múltiplas existências. A utopia espírita de um mundo melhor passa primeiro pela utopia de uma pessoa melhor. 

Como em todas as profissões compostas por formadores de opinião, os educadores tendem a exagerar na sua importância funcional na sociedade, fazendo com que haja uma supervalorização ideológica da atividade docente e conseqüentemente da escola. Isso também é produto das atividades intelectuais acadêmicas, principalmente daqueles que nunca vivenciaram um ambiente ou sala de aula, opinando, elaborando doutrinas, criando sistemas, tudo produto da imaginação teórica e quase sempre deslocada da realidade social. São educadores de gabinete, de congressos, seminários, escritores de muitos livros contendo reflexões até interessantes como idéias, mas facilmente esvaziadas no cotidiano escolar e social. São grandes pensadores porque são grandes leitores e excelentes intérpretes de filosofias educativas, mas que não possuem uma experiência efetiva sobre os assuntos sobre os quais escrevem. Isso não diminui total-mente o valor do trabalho que eles fazem, mas é preciso entender que o verdadeiro universo da educação, o mundo real, é o mundo da militância e não da filosofia. A filosofia sempre foi um meio para se atingir a práxis e na educação ela se tornou um fim, literalmente a última palavra. Educação não é apenas um conjunto de idéias e palavras; é aplicação, alteração objetiva e direta do comportamento e modo de vida e das nossas ações; é antes de tudo uma mudança dos sentimentos que temos sobre as coisas e não dos nossos pensamentos. As idéias, como reflexões, até podem ser diretrizes importantes, como um ponto inicial da mudança, mas a essência do movimento transformador pertence à esfera da atitude, produto da escolha, do livre arbítrio. Certa vez lemos a biografia de um famoso “educador” espírita, cuja maior parte da vida foi passada bem longe das escolas. Quando teve a oportunidade de colocar em prática as suas idéias esse grande educador abandonou o ofício de sala de aula alegando que os alunos não estavam interessados em aprender. Logo se vê que esse não era mesmo do ramo. Ensinar para quem está interessado é absolutamente desnecessário, pois a necessidade educativa está exatamente no despertar do interesse potencial. Esse comportamento contraditório de fuga do mundo prático é um reflexo desse desvio ou do abismo que se abriu entre a filosofia e a educação, alimentado pelas ilusões teóricas ou pelas decepções vocacionais. É por esse motivo que os órgãos oficiais de educação são repletos de burocratas fugitivos das salas de aulas. Não raro eles se transformam em tiranos do sistema educacional, elaboradores de absurdos e desastrosos planos políticos de ensino, legislações esdrúxulas, quase sempre privilegiando o aparato funcional, causando sérios prejuízos para ensino e para os alunos. 

O Espiritismo é um fenômeno histórico da modernidade e que hoje sofre o impacto da pós-modernidade. Kardec e os espíritos já sabiam que isso iria acontecer e talvez por isso mesmo não se preocuparam em introduzir no movimento espírita os sistemas típicos da modernidade e que logo se desestruturariam frente às rápidas mudanças provocadas pela desconstrução pós-moderna. Rivail, antes de se tornar Kardec, era um educador tipicamente moderno, mestre-escola ilustrado, pestalozziano. Esse mundo cartesiano, aparentemente sólido e duradouro, expressão do universo mecânico newtoniano, desapareceu em fragmentos de desilusão. Aliás, esse era o sentido do Paracleto. O Espiritismo surgiu como uma nova arma de enfrentamento do desencanto e da desilusão. Como todo conceito moderno, o movimento espírita teria que enfrentar a pós-modernidade e rever sua visão de mundo. Tudo está sendo reinventado para suportar as mudanças sociais e tecnológicas. Incrivelmente o maior foco de resistência a essas mudanças está no setor educacional, onde se aloja um grande número de pseudo-progressistas ou conservadores camuflados. É uma espécie de Novo Clero, infiltrado nos órgãos públicos e em todas as instituições onde existe a luta pelo poder, incluindo as religiosas. Isso já acontece há décadas nos centros espíritas e principalmente nos grandes órgãos federativos. A luta pelo controle ideológico, através dos veículos de comunicação, editoras e sistemas doutrinários de ensino, é intensa, muitas vezes desleal. É um vale tudo silencioso de perseguições, censura, conspirações, ciúmes e vaidades, típicas do velho mundo clerical. Nesse universo da educação intelectual fala-se muito de mudanças e nada de se realiza. O mundo já vive a realidade do hiper-texto, mas as escolas e seus educadores não conseguem se libertar da tecnologia textual plana do livro, inventada há mais de cinco séculos por Gutemberg e Aldus Manúzio. Essa cultura ultrapassada, que os próprios admiradores já não conseguem praticar, não atrai mais os alunos. Eles já descobriram que as salas de aula acabaram e que as escolas são apenas espaços de convívio social, ponto de encontro para conversas e diversões. Eles sabem que as escolas elegeram como centro de interesse, não os alunos, mas as necessidades operacionais, a burocracia, os direitos corporativos e tiram proveito dessa situação: “Não nos incomodem e não serão incomodados”. 

Algumas tentativas de implantação de escolas espíritas convencionais foram louváveis, mas sabemos que quase todas fracassaram nos seus propósitos porque não havia definição curricular qualitativa, ou seja, propósito real. Algumas até possuíam propostas teóricas densas, mas vazias de conteúdo práticos. Eram parâmetros bem elaborados, mas sem diretrizes para as aplicações essenciais da educação. Seguindo a antiga pretensão da educação católica, a idéia de alguns espíritas era, inclusive, fazer parte dos sistemas públicos de educação. 

Como já dissemos, a essência da educação está na mudança de comportamento e não na mudança de idéias. Todos nós mudamos de idéias diariamente, mas raramente conseguimos mudar o nosso comportamento porque não sabemos definir, trabalhar e mudar os nossos sentimentos. As idéias espíritas estão claramente difundidas na sociedade. Direta ou indiretamente milhões de pessoas tomam contato com os conceitos espíritas, inclusive através dos meios de comunicação de massa como as novelas e filmes. Isso não significa que assimilaram a moral espírita. Muitos católicos, protestantes, ateus, judeus, conhecem e sabem da lei de causa e efeito e da reencarnação, mas aguardam uma oportunidade existencial para trabalhar seus sentimentos sobre esses conceitos revolucionários. Sabem intelectualmente, mas não se sentem maduros espiritualmente para assumir essa responsabilidade de um conhecimento mais profundo e comprometedor. Milhares de pessoas que freqüentam regularmente os centros espíritas estão na mesma condição, incluindo pessoas realmente muito ativas no movimento espírita. Intelectualmente muito ativos, porém no compasso de espera do coração. Como na parábola do Servo da Última Hora, aguardam a hora certa, o momento propício para o aliciamento definitivo. Essas pessoas estão cansadas de assistir palestras, peças de teatro, ler livros, participar de congressos, distribuir sopa para os pobres, organizar bazares de pechincha. Querem ir muito além disso. Já provaram que são capazes de fazer caridade para os outros e agora precisam fazer algo mais convincente para si próprios. Querem romper as amarras da indecisão, da superficialidade e do medo de si mesmos. Estes buscam uma verdadeira educação espírita, uma mudança na qual poderão ter a sensação justa da auto-realização e da realização dos ideais de um mundo melhor. Já perceberam que a educação espírita não existe somente para preparar as pessoas para a morte, para habitar as colônias da erraticidade ou então os mundos felizes da abóbada celeste. Antes disso, temos que aprender a ser felizes num mundo infeliz; sermos fortes num mundo de fraquezas; termos fé num mundo de incredulidade. É o campo natural de provas e não de fantasias. 

A mudança de ponto de vista tem um efeito limitado pelas nossas condições emocionais. Ela só será definitiva quando forem rompidas as barreiras dos sentimentos. Nenhuma educação pode desprezar esse fator básico, do contrário não é educação; é apenas instrução. Na década de 1950 a Federação Espírita de São Paulo, já então espaço educativo revolucionário, convidava personalidades de várias escolas religiosas e filosóficas para falar sobre suas idéias e doutrinas. Um deles foi o filósofo e ex-jesuíta Huberto Rodhen, em cujas obras encontramos pérolas do ecletismo educacional e também severas críticas a respeito dos equívocos entre educação e instrução. Numa delas (Novos rumos para a Educação), ele admite que, mesmo tendo dificuldades emocionais em aceitar a lei da reencarnação e a comunicação com os mortos, o Espiritismo é uma grande contribuição para a restauração do verdadeiro cristianismo e, portanto, da educação cristã. Segundo Rohden, o único obstáculo que poderia impedir o Espiritismo de realizar a sua missão histórica seria a ameaça do sectarismo, que certamente atingiria os adeptos de mentalidade estreita e menos vigilante. No Espiritismo existem muitos instrutores, mas poucos educadores. Essa é a tarefa primordial da educação espírita: transformar instrutores em educadores. Somente assim poderemos entender que educação é assunto de foro íntimo, é uma condição intransitiva (ninguém educa ninguém), uma troca de exemplos e finalmente uma mudança de sentimentos. Mesmo as crianças (adultos reencarnados) possuem o conhecido dispositivo mental defensivo de escolha, que os faz aceitar ou rejeitar propostas educativas Esse dispositivo do livre arbítrio só pode ser manipulado pelo próprio portador, na esfera emocional dos sentimentos e não do raciocínio. Quando Jesus dizia: “Vá e não peques mais”, estava provavelmente se referindo aos nossos sentimentos, nossas reminiscências mais profundas e que nos prendem ao passado. Toda a obra educacional de Jesus concentrou-se na essência emocional humana. Sua obra sobreviveu pela força do exemplo e não através das igrejas e sistemas educacionais ditos cristão. Seus discípulos mais próximos e alguns mais distantes foram escolhidos, selecionados e educados segundo suas características “pecaminosas”, ou seja seus preconceitos sociais, limites pessoais e sentimentos negativos sobre as pessoas e as coisas. Mudanças de idéias não são tão observadas e imitadas em profundidade quanto às mudanças de atitudes. Não pecar significa não alimentar sentimentos ruins, coisas que fazemos com idéias e intenções supérfluas, emoções banais, atitudes infantis, comportamentos repetitivos e viciados. Finalmente, temos que entender que o principal eixo temático da educação humana e espírita é a ressurreição (transformação essencial) e a Vida (a síntese e o sentido das múltiplas existências); e que a comprovação fenomenal da existência do espírito e da reencarnação são apenas os meios (componentes curriculares) para uma compreensão maior dessas Verdades. 


EM BUSCA DO KARDEC EDUCADOR 

Hipolyte-Léon-Denizard Rivail certamente era alguém muito envolvido com a educação. Mas será que Allan Kardec Kardec era também um educador? 

Para responder essa questão começamos fazendo uma segunda pergunta: Hipolyte-Léon-Denizard Rivail educador e Allan Kardec ativista espírita eram a mesma pessoa? 

Continuamos com a firme opinião de que as pessoas físicas eram as mesmas, porém intelectual e espiritualmente tais pessoas se tornaram no decorrer dos anos duas personalidades muito distintas. 

Todos nós sabemos que, ao se envolver nas atividades de pesquisas e divulgação do Espiritismo, H.L.D. Rivail escolheu o pseudônimo Allan Kardec exatamente para que o público não confundisse as duas pessoas: Rivail, anteriormente dedicado aos assuntos educacionais, dos quais afastou-se por motivos financeiros; e Allan Kardec, o ativista de uma nova ciência. Na época do seu ingresso no movimento espírita Rivail não era mais empresário da educação e trabalhava prestando serviços de revisor, contabilidade e eventualmente como professor particular. Antes de escolher o pseudônimo Kardec, Rivail não tinha a menor noção do que era o espiritismo fenomênico, muito menos das suas implicações filosóficas. Por que então ele teria algo a dizer sobre educação espírita? Durante os 14 anos que permaneceu como líder do movimento , redator da Revista Espírita e presidente da Sociedade Espírita de Paris, não houve da parte dele, nem de sua esposa Amélie, que também havia sido educadora, nenhuma referência específica ao assunto educação e ensino espíritas, a não ser algumas citações indiretas e esporádicas de temas paralelos e não propriamente educacionais. 

Então, como encontrar o Allan Kardec educador? 

Decorridos mais de cem anos da publicação das obras básicas do Espiritismo, Herculano Pires fez a transposição da filosofia espírita para uma estrutura teórica que ele imaginou ser espírita e idealizou como tal, substituindo e adaptando os pressupostos dos educadores humanistas históricos pelos conceitos espíritas. Mesmo assim, apesar da brilhante construção de hipóteses e reflexões, a idéia não repercutiu como prática social, exatamente porque sua proposta não possuía uma dimensão realizadora. Fundar uma escola na cabeça é fácil e faz parte da utopia pessoal de todos os educadores. Fazemos isso em todo o início de ano letivo. Depois geralmente nos perdemos nas veredas e surpresas do cotidiano escolar. Uma experiência educacional espírita cotidiana seria o grande desafio do nosso filósofo paulista e seus inúmeros discípulos pensadores e ausentes das salas de aula. Estes, como o mestre, flutuam nas altas esferas dos textos, debates, congressos, cursos, apostilas, projetos, mas não conseguem vencer essa barreira gravitacional da mente e fincar os pés no chão, abrir sulcos na terra e colocar as sementes no vazio das carências humanas que aguardam ansiosamente pelas lições do Espiritismo no dia-a-dia. Isso é feito nos centros espíritas mais simples, de maneira informal e eficiente, mas não funciona no espaço escolar, em aulas formatadas e formalizadas. 

Como resolver esse impasse? 

Também continuamos com a firme opinião que estamos pensando de forma incorreta e batendo em porta errada. Primeiramente é preciso definir o que estamos procurando e depois decidir onde vamos procurar. 

Recentemente um amigo nosso reescreveu um antigo ensaio sobre os celtas e sua relação com o Espiritismo. Como educador, entre muitos outros aspectos, percebemos que tal relação pode ser encontrada no druidismo, uma escola iniciática que revelava aos alunos as mesmas coisas que os Espíritos nos revelaram através das obras de Allan Kardec. A primeira pergunta que fizemos ao ler o ensaio foi sobre a questão educativa dessa escola dos celtas. Como um celta comum se tornava druida? Que tipo de transformação acontecia nessa experiência educativa? Como essas transformações eram provocadas nos alunos? 

Essa experiência educativa dos celtas pode ser conhecida e explicada? Podemos aprender algo útil com elas? 

Se continuarmos a cometer o mesmo equívoco histórico ao tentar associar Rivail e Allan Kardec como personalidades únicas ao assunto educação e ensino, continuaremos procurando em vão. Se persistirmos nesses elos de ligação histórica da abordagem cronológica seqüencial e simplista - Comenius, Pestalozzi, Rousseau, Rivail, Allan Kardec e Espiritismo - continuaremos sem rumo e sem currículo. E agora tem uma ramificação temática também historicamente pouco esclarecida: a experiência de Eurípedes Barsanulfo em Sacramento, no Colégio Allan Kardec. Eurípedes foi mais ousado do que Kardec e construiu um currículo inovador e que, perdeu-se no tempo após o seu desencarne. Os relatos e estudos sobre sua experiência atestam a inovação , mas não oferecem uma síntese clara sobre o que era realmente essa prática educativa do colégio, como identificamos nitidamente nas experiências de outros educadores históricos. Ele era espírita, vivia o Espiritismo 24 horas por dia e certamente respirava uma educação que ele pretendia ser espírita. Mas onde está a síntese em si? Levou junto com ele para o mundo dos espíritos, nas altas esferas onde habita, segundo relatos de Chico Xavier. Ficaram os exemplos educativos nos alunos, mas não o “sistema espírita”. Ainda bem, porque tal "sistema" nunca existiu e se existisse já estaria seriamente adulterado pelo formalismo. Sacramento foi, ao nosso ver, a pura vivência do amor e da educação cristã que ele adquiriu na Sociedade São Vicente de Paulo, altamente expansiva e diferenciada naquele contexto pela sua mediunidade maravilhosa, espontânea e natural. Suas aulas certamente eram ilustradas pela sua visão espírita de mundo, mas isso qualquer educador espírita faz naturalmente sem necessariamente sistematizar tal experiência num currículo formal. Só não fazemos como Eurípedes fez porque somos mais limitados e tímidos. Como já dissemos, em "Espíritos nas Escolas", os alunos descobrem que somos espíritas pelas nossas ações e não pelos nossos discursos e propostas didáticas. 

E as teses acadêmicas da pedagogia espírita? Não possuem valor? Não indicam rumos? 

Pensamos que elas ainda não atingiram o nível satisfatório para resolver todas essas questões. São tentativas válidas como teoria e reflexão, mas seguem os passos de Herculano Pires e não compreendem os fenômenos cotidianos da educação. Não sabemos como essas teses sobre educação espírita foram analisadas ou validadas academicamente. Mas isso não tem nenhuma importância porque esse não é o principal problema, já que a academia (ora, a academia) tem lá também os seus limites e vícios. O valor delas não está nas notas obtidas ou na aprovação institucional. O grande valor estaria no impacto social das mesmas. A maioria das teses são elaboradas sem que as bancas tenham o mínimo de condição de questioná-las integralmente, pois as dissertações são feitas rigorosamente dentro dos cânones lingüísticos e metodológicos exigidos. Isso é suficiente para desviar a atenção de outras problematizações que elas ocultam. Durante a nossa dissertação de mestrado falamos da história do Espiritismo e do ofício do historiador espírita para uma banca de doutores em Comunicação e Sociologia, porém leigos na doutrina e nas temáticas específicas da historiografia. Nossa orientadora nos protegeu com tanta fidelidade e cuidado, superando naquele instante inclusive o nosso Espírito protetor. Não houve nenhuma contestação significativa porque o assunto não era a história em si, mas os problemas sociais e lingüísticos da escrita historiográfica voltada para a temática espírita. Muito respeitosos e atentos ao cerne do tema, os avaliadores simplesmente conduziram os debates e questionamentos dentro daquilo que foi proposto na dissertação. Em nenhum momento aventou-se a crença espírita ou a credibilidade dos fenômenos. Aliás, teve sim, a professora Yolanda Lullier, da Escola de Comunicação e Artes da USP, talvez percebendo o nosso nervosismo e preocupação, nos lembrou que já havia tido provas irrecusáveis da imortalidade do pai desencarnado e que era descendente de colonos franceses do Say. Tal revelação foi pública e espontânea e causou surpresa até mesmo em nossa orientadora, que desconhecia os fatos. 

Mas, voltando ao assunto, onde está o erro e onde está a solução? 

O erro da abordagem feita pelos pedagogos espíritas é que ela já fez a transposição teórica do Espiritismo para e filosofia da educação, mas ainda não encontrou os elementos para a implantação cotidiana dessas reflexões. Isso por que, por um equívoco histórico, ainda comete o erro filosófico de ignorar a transformação intelecto-moral de Rivail em quase quinze anos como militante espírita. Rivail se tornou Kardec através de um processo moral-educativo. Esse é o fio da meada. Como isso aconteceu? Como essa experiência pode ser transposta para uma prática educativa cotidiana? Nesse período é que as teses devem se concentrar. Edgard Armond matou essa charada há mais de meio século e aplicou socialmente a idéia. Fez ao seu modo iniciático, tal como os druidas. Não estamos falando da ideologia e da visão espírita de mundo que ele tinha. Isso é outra história e nesse aspecto Eurípedes Barsanulfo não era diferente dele. Mas ambos eram pessoas práticas e realizadoras. Ambos insistiam na idéia da transformação moral como método e meta escolar. Se não entendemos como ocorre essa mudança moral – que não é somente uma experiência teórica - consequentemente não conseguimos demonstrar objetivamente o que pretendemos como prática escolar espírita. Estamos falando da escola como proposta e prática educativa. Na mesma FEESP e em alguns outros lugares surgiram outras experiência educacionais, mas que não tiveram repercussão social, fora dos muros e paredes da instituição. 

Isso no leva a uma outra questão: será que os espíritas realmente estão interessados em educação ou numa educação especificamente espírita? 


A DÚVIDA PERSISTE 

Em todas essas críticas e questionamentos que fazemos sobre a chamada pedagogia espírita, sempre lembramos que Eurípides Barsanulfo colocou em prática um projeto altamente inovador, tão revolucionário que não pôde ser sustentado após o seu desencarne. Fracassou como instituição, mas rendeu os frutos humanos que todos nós conhecemos. 

Mas a nossa antiga pergunta persiste: Por que esse fator revolucionário não se sustenta? 

Nossa grande preocupação com o rótulo “pedagogia espírita” é que o Espiritismo do qual Herculano Pires tornou-se fiel defensor não é o mesmo Espiritismo dogmático e lamentavelmente sectário que se pratica atualmente no movimento espírita brasileiro. Claro que sabemos que o ser humano Rivail era produto pedagógico de Pestalozzi e Rousseau e que Kardec foi muito além disso na sua educação pessoal e andragógica. Achamos inclusive que o conceito espírita que se pratica hoje seria extremamente prejudicial à pureza universalista desses pensadores, daquilo que se praticou em Yverdon ou mesmo inicialmente em Sacramento. Colocar um rótulo espírita numa escola é muito fácil. Difícil é manter-se fiel aos seus princípios. 

Continuamos pensando também que a experiência pestalozziana ainda é uma excelente proposta e que qualquer pessoa progressista – incluindo alguns espíritas – poderia confiar a educação dos seus filhos à tal projeto. Com a marca espírita seria mais uma escola confessional, restrita, com espírito de seita, discriminatória, etc. É triste dizer, mas é a realidade. Um dia, quem sabe, quando estivermos devidamente educados no próprio espírito universalista da Doutrina poderemos sustentar o conceito “espírita” em nossos projetos educacionais. Antes disso – embora sejamos sempre favoráveis às tentativas – achamos que é utopia (no sentido de projeto em construção) e que dificilmente será dissociada do sectarismo religioso que hoje fanatiza o movimento espírita. A própria a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita poderia mudar o nome para algo mais abrangente como Humanista e vão perceber que as pessoas deixarão de torcer o nariz, como fazem hoje quando ouvem a definição de “pedagogia espírita”, não somente por causa do preconceito contra o Espiritismo, mas por causa dos limites dos sistemas educacionais. Releiam o relato de Ary Lex no seu livro de memórias (50 anos de Espiritismo em São Paulo) e vão entender um pouco essa nossa desconfiança em relação a tudo isso. Vejam bem: é apenas desconfiança. Não é raiva, nem teimosia. Herculano Pires teve pouquíssimas limitações ao tratar de Espiritismo. A educação foi uma delas e o motivo dessa limitação talvez tenha sido o fato de nunca ter sido educador de fato. A maioria dos intelectuais tem essa dificuldade de harmonizar a teoria com a prática. A recíproca também é verdadeira para educadores leigos e empíricos. 

Ao nosso ver essa questão da educação espírita continua indefinida e inconsistente, tanto quanto outras questões filosóficas como a arte, a política e o partido espíritas. Esse assunto também nos lembra da relação entre esperanto e espiritismo. De onde surgiu essa relação histórica e filosófica? E sempre que esse assunto vem à tona, nos questionamos também: Que tipo de idioma seria ideal para a educação dos nossos filhos num mundo globalizado? O futuro dirá. 


AS ESCOLAS  DE VINGANÇA E DE PERDÃO

Edgard Armond dizia, há mais de 60 anos, que o umbral estava cheio de espíritas e essa informação causou na época um tremendo mal estar em muitos adeptos que achavam que só o fato de se declararem espíritas era suficiente para que tivessem uma morte tranquila e fácil acesso às colônias luminosas do plano espiritual. No umbral, segundo André Luiz, existiam eficientes Escolas de Vingança (base dos processos obsessivos) e no movimento espírita havia aquela morosidade doutrinária. Armond estava querendo dizer que a moral espírita não estava fazendo efeito prático nos espíritas e que era necessário criar um método educativo mais eficiente de transformação moral e não somente as leituras e as práticas mediúnicas tradicionais oferecidas nas casas. Ele idealizava também um centro espírita em cada esquina, antecipando a crise moral que sociedade vive atualmente. Foi por isso que ele criou a Escola de Aprendizes do Evangelho (Escolas de Amor e Perdão), uma iniciativa eficiente para acolher esse público flutuante, ensinar a maioria, educar a média e selecionar os mais aptos para tarefas especializadas. Era uma forma de ajudar também os espíritas a controlar melhor suas más inclinações e evitar envolvimentos perigosos, numa sociedade sempre cheias de tentações. Naquela época, nos anos 1950, a FEESP já atendia massas e a gravidade do desvio de público era muito preocupante. Muitos ainda acham que isso foi um exagero de Armond, mas a realidade é que o sistema cumpria rigorosamente objetivos superiores de ensino, educação e capacitação de trabalhadores. Muitos espíritas ainda sucumbem às tentações do mundo porque não possuem conhecimento suficiente, principalmente auto-conhecimento, ferramentas seguras para enfrentar a corrupção e as ciladas do mundo, sobretudo os médiuns.

Muitos pessoas tem ido aos centros espíritas para tomar passes e ouvir palestras. Estão sem rumo e certamente querem consolo e explicações para não sucumbirem em suas tarefas cotidianas. A maioria dos centros não possui programas de ação para receber e esclarecer esse público. Oferecem apenas passes, palestras, água fluidificada e as campanhas de serviço social. É uma atividade benéfica, porém insignificante tendo em vista o grandioso potencial de esclarecimento das casas. Esgotados esses serviços corriqueiros de consolo, a maioria dos freqüentadores se dispersam e pouquíssimos se integram ao trabalho. Boa parte dos dirigentes são inseguros, centralizadores, acomodados aos esquemas tradicionais, preocupados com a estabilidade das casas. Muitos deles temem o ingresso de novas lideranças e, quando isso acontece, não raro, logo dão um jeito de expurgar os que se mostram mais habilidosos na organização e na dinâmica dos serviços. É um lamentável desperdício de tempo e de possibilidades de expandir as casas espíritas através de células novas e bem estruturadas, para dar continuidade à necessária multiplicação. O principal obstáculo desse processo de desenvolvimento, como sempre, é o assistencialismo, que se impõe como prioridade (pois é mais cômodo e não tem implicações morais tão graves), desviando as casas espíritas da sua vocação natural educativa e doutrinária. De um centro bem estruturado doutrinariamente pode sair muitos outros centros semelhantes; todavia, de um centro assistencialista e desviado, quase nada se desprende e se expande. 

A maioria dos freqüentadores dos centros não são “espíritas” na verdadeira concepção da palavra, mas apenas consumidores de livros e serviços das casas espíritas. André Luiz fez esse alerta em Os Mensageiros e em muitas outras obras, mas as pessoas continuam achando que tudo é exagero e brincadeira. Desde àquela época pouca coisa mudou. As escolas sistematizadas de esclarecimento e capacitação ainda ocupam pouco espaço. A maioria, com raríssimas exceções, propõe uma complicada sistematização das obras de Kardec, cujas aulas são verdadeiros convites ao abandono. Não existe a ligação necessária entre teoria e prática doutrinária. Algumas levam anos na rotina teórica cultivando um pretencioso domínio intelectual de conteúdos, quando já poderiam impulsionar os alunos para as práticas supervisionadas, sempre incrementadas por reciclagens e atualizações. Aprender a Conhecer, aprender a Fazer, aprender a Conviver e finalmente aprender a Ser, preconiza a ONU na sua bússola curricular e progrmas educativos da Unesco para o século XXI. 

Tudo a ver com o Espiritismo e com o nosso movimento, não? 


A CULTURA ESPÍRITA

O universo da cultura espírita é muito amplo e cheio de possibilidades. Nele cultiva-se tudo que existe e relaciona-se ao ser humano, que é a expressão mutável máxima do Cosmos e das suas leis imutáveis.

É uma filosofia autêntica e essencialmente universal, no sentido mais puro e preciso da palavra. É o Uno e o Verso e disso forma sua cosmogonia e consequentes concepções como individualidade espiritual, a imortalidade do ser, a diversidade dos planos e das existências, a pluralidade de mundos e o intercâmbio natural ou mediação entre seres e planos.

O Espiritismo está presente como fenômeno e como visão de mundo em todos os aspectos da vida humana.  Observa e interpreta a Vida biológica indicando as leis que regulam a natureza exterior dos seres e das formas, bem como a Vida psicológica, indicando igualmente as leis morais que norteiam o comportamento e a conduta das inteligências.

Na educação, vê o ser humano como ser imortal e inteligência dinâmica, dono de si mesmo, responsável pelos seus atos, portador do livre arbítrio e construtor do seu próprio destino.

A palavra espiritismo e sua cultura não é ideologicamente restrita nem dogmática quando se trata de religião. Pelo contrário, mostra a religião como uma lei natural do comportamento humano de adoração e que, como ele, se transforma constantemente assimilando mudanças morais e interiores. O Espiritismo está historicamente presente em todas as religiões e filosofias espiritualistas.

Como ciência o espiritismo também não cultiva paradigmas exclusivos e segue  o modelo e a estrutura epistemológica do pensamento e da pesquisa científica, colocando e posicionando a doutrina e suas práticas com base nos fatos e métodos de comprovação da realidade.

O Espiritismo também não é restrito como arte e cultiva a expressão e a estética como reflexo natural na sua visão de mundo.

Diverge naturalmente das demais visões de mundo, não como ponto de sectarismo e sim como diálogo em busca de entendimento e compreensão do outro. É, portanto, uma doutrina de convergências.

Essa é a síntese das ideias, das concepções, dos valores e da ética social espírita.


INCORÊNCIAS DO MOVIMENTO

O movimento espírita é social e não apenas doutrinário. O que cabe no movimento social muitas vezes não cabe no universo doutrinário. E vice-versa. Mas nem por isso vamos deixar de ser espíritas e de cultivar suas boas ideias e práticas. Nossas purezas e impurezas precisam se harmonizar dentro de nós mesmos e também aprender a conviver nos ambientes onde atuamos. No mais, tudo é uma simples questão de respeito e tolerância.

Listamos a seguir dez tópicos que consideramos essenciais para analisar e discutir possíveis incoerências entre a Doutrina Espírita e o Movimento Espírita.

1. Ver Espiritismo como verdade única e absoluta.

2. Ver equivocamente Allan Kardec como personalidade sagrada e criadora de dogmas doutrinários.

3. Desconsiderar ou impedir o diálogo do Espiritismo com outras fontes de conhecimento.

4. Confundir pureza doutrinária - que é a simplicidade e aplicação dos conceitos espíritas- com sectarismo doutrinário, que é complicar, limitar e obstruir as múltiplas possibilidades da doutrina.

5. Desconsiderar a atualização permanente do Espiritismo diante das mudanças sociais e descobertas científicas.

6. Ignorar o caráter sociocultural amplo do centro espírita reduzindo-o apenas a mero templo de adoração.

7.  Negar como fato a ineficiência da educação espírita, pelos métodos superficiais de ensino, na formação de ativistas e lideranças, considerando seu alto potencial de conhecimento e transformação pessoal.

8. Desconhecer qual é a nossa visão de mundo a partir dos postulados espíritas.

9. Ver o movimento espírita somente como um assunto doutrinário e não social.

10. Negligenciar a nossa história e memória, garantias da continuidade e autenticidade do Espiritismo.


A DEGENERAÇÃO DO ESPIRITISMO


Comparando a história do Espiritismo com a do Cristianismo Primitivo, podemos tirar algumas conclusões importantes para a o futuro da nossa doutrina e o do seu movimento social. 

O Cristianismo, cuja pureza doutrinária do Evangelho e simplicidade de organização funcional dos primeiros núcleos cristãos foi conquistando lenta e seguramente a sociedade de sua época, sofreu com o tempo um desgaste ideológico. Corrompeu-se por força dos interesses políticos, financeiros e institucionais. Os novos adeptos e seus líderes, não conseguindo penetrar na essência do Evangelho, que é regeneração, ou seja, o mergulho doloroso no mundo interior e a reversão das atitudes exteriores, adaptaram o mesmo às suas conveniências psico-sociais, atacando suas idéias mais contundentes à moral animalizada, alimentando os mecanismos de defesa da mente, fazendo concessões às fraquezas dos adeptos e desviando-os para o comodismo dos disfarces rituais exteriores. Repressão de forças espirituais espontâneas e idéias consideradas ameaçadoras ao clero, como a mediunidade e a reencarnação; a falsificação de tradições e a adoção do sincretismo do costumes bárbaros, foram as principais estratégias dessa clericalização do cristianismo. 

O resultado de tudo isso é bem conhecido: dois milênios de intolerâncias, violências, atraso espiritual, perpetuação das injustiças sociais, agravamento de compromissos com a lei de ação e reação e forte comprometimento da regeneração do nosso planeta. 

Com o Espiritismo não está sendo muito diferente. 

Apesar das advertências dos Espíritos e do próprio Allan Kardec quanto aos períodos históricos e tendências do movimento, os espíritas insistem em cometer os mesmos erros do passado. Os mesmos erros porque provavelmente somos as mesmas almas que rejeitaram e desviaram o Cristianismo da sua vocação e agora posamos de puristas ortodoxos, inimigos ocultos do Espírito da Verdade. 

Negligentes com a oração e a vigilância, cedemos constantemente aos tentáculos do poder e da vaidade. Desprezamos a toda hora a idéia do “amai-vos e instruí-vos”, entendendo-a egoisticamente, ora como fortalecimento intelectual competitivo, ora como o afrouxamento dos valores doutrinários. Não conseguindo nos adaptar ao Espiritismo, compreendendo e vivenciando suas verdades, vamos aos poucos adaptando a doutrina aos nosso limites, corrompendo os textos da codificação, ignorando a experiência histórica de Allan Kardec e dos seus colaboradores, trazendo para os centros espíritas práticas dogmáticas das nossas preferências religiosas, hábitos políticos das agremiações que freqüentamos e mais comumente a interferência negativas dos nossos caprichos e vaidades pessoais. 

Como os primeiros cristãos, também lutamos pelo crescimento de nossas instituições, deixando-nos seduzir pelo mundo exterior e imitando os grupos já pervertidos, construindo palácios arquitetônicos, cuja finalidade sempre foi causar impressão aos olhos e a falsa idéia de prestígio político; e dentro deles praticamos as mesmas façanhas da deslealdade, das rivalidades, das perseguições aos desafetos, da auto-afirmação e liderança autoritária, de crítica e boicote às idéias que não concordamos. 

E, finalmente, cultivamos uma equívoca concepção de unificação, esperando ingenuamente que a nossas idéias e grupos sejam majoritários num Grande Órgão Dirigente do Espiritismo Mundial, do nosso imaginário, e muitas outras tolices e fantasias que nem vale a pena enumerar aqui. 

E assim caminhamos, unidos em nossas displicências e divididos nas responsabilidades. Preferimos esquecer figuras exemplares que atuaram na Sociedade Espírita de Paris quando ignoramos nossa história sabiamente registrada na Revista Espírita. Deixamos de lado líderes agregadores – ainda que divergências normais e toleráveis existissem entre eles – para ouvir e nos deixar dominar por um disfarçado clero institucional, comando por vozes medíocres e ciumentas, figueiras estéreis, sofistas encantadores e improdutivos, enfim, velhas almas e velhas tendências, vinho azedo e frutas podres em nossos mais caros celeiros doutrinários. 

Mas como evitar esse processo de corrupção e, em alguns casos notórios, de contaminação e má conduta? Como reverter a situação para reconduzir essas experiências para os rumos verdadeiramente espíritas? O que fazer com as más instituições, com os maus dirigentes, os maus médiuns, maus comunicadores, enfim os maus espíritas? Devemos identificá-los e expulsá-los dos nossos quadros? Devemos denunciá-los e discriminá-los como fazia a Inquisição com os acusados de heresia? 

O que fazer com os livros que consideramos impuros ou inconvenientes ao movimento?: devemos queimá-los em praça pública, censurá-los em nossas bibliotecas ou então deixar que a própria comunidade espírita pratique o livre arbítrio e aprenda a fazer escolhas corretas e adequadas às suas necessidades? 

O Espiritismo foi certamente uma doutrina elaborada por Espíritos Superiores e isto nos deixa tranqüilos quanto ao seu futuro doutrinário. Mas o seu movimento vem sendo feito por seres humanos, espíritos ainda imaturos e inexperientes. Isso realmente tem nos deixado muito preocupados, pois sabemos que, hoje, os inimigos do Espiritismo estão entre os próprios espíritas. 


CONSOLADOR EM TODOS OS ASPECTOS 

Herdeiro histórico legítimo das filosofias humanistas antigas e também das tradições religiosas monoteístas, o Espiritismo tem a consolação como marca principal da sua essência doutrinária. Consola através de respostas todas as carências humanas contidas nos pensamentos, nas ações e nos sentimentos. 

A grande maioria das pessoas que buscam o Espiritismo está em situação de crise moral, experimentando angústias e anseios que só podem ser amainados através do esclarecimento sobre os limites da natureza humana mortal e as possibilidades do espírito imortal. Quem está satisfeito com o mundo e consigo mesmo, geralmente não se interessa , nem precisa de consolo. Quem não tem dúvidas nem preocupações, também não carece e nem se interessa por filosofia. Com exceção daqueles que estão em crise ou se preocupam com as dúvidas e sofrimentos dos outros, todos os demais seguem a rotina de suas vidas, sem dar atenção para esses problemas do ser, da dor e do destino. 

Para uns poucos, as informações científicas do Espiritismo são satisfatórias. Para outros tantos, só tem sentido as especulações intelectuais e respostas filosóficas. Mas, para a grande maioria, que tende a crescer cada vez mais, só tem cabimento em suas experiências pessoais as verdades que lhes amenizem o sofrimento, que acalmem seus impulsos, que diminuam suas revoltas, que ampliem um pouco seus horizontes e, finalmente, que lhes dêem a esperança de sonhar com um mundo melhor e mais justo. 

Que importa se essa busca tenha ênfase sentimental ou emotiva? Que importa se o consolo tem sentido religioso, místico e até desperte expectativas supersticiosas? Que diferença faz se a procura ocorre no terreno da experimentação científica ou na especulação filosófica ? 

O importante é que a Doutrina Espírita contempla todas essas dimensões da natureza humana, cuja existência física tem sido marcada pela dureza inexorável das provas e das expiações. Consola e esclarece porque sempre ressalta a imortalidade como fato, o livre arbítrio como ferramenta evolutiva, a lei de ação e reação como justiça Divina , a reencarnação como lei natural; e principalmente o constante sentido da transformação e do progresso do Espírito. 


ATUALIZAR O ESPIRITISMO OU ATUALIZAR-SE 

Toda doutrina profunda, voltada para a complexidade do Ser e do Universo, possui por si mesma as marcas da atemporalidade existencial e da duplicidade filosófica, de significados e significações. Tais marcas são reflexos da superioridade dos seus fundadores e da própria condição evolutiva do Espírito, que caminha entre a inexperiência e a maturidade, nos seus diferentes graus de percepção e compreensão das coisas que estão fora e dentro de si: o visível e o invisível; o explícito e o implícito; o exterior e o interior; o exotérico e o esotérico. 

A Doutrina Espírita possui essas duas marcas: é simples e ao mesmo tempo complexa, dependendo da capacidade de percepção e compreensão de quem adota seus princípios e valores. Simplicidade e complexidade são intrínsecas entre si, o verso e o uno, o micro e o macro. Ambas são a riqueza e a diversidade das coisas, quando compreendidas em suas essências. No terreno da incompreensão, do preconceito, das limitações, o Espiritismo e os espíritas imaturos, sofrem com os efeitos da simplificação e também da complicação. Quando mais intelectualizados, complicados por natureza, nos enveredamos em dificuldades que nada têm a ver com a beleza e a pluralidade das verdades espirituais. Quando menos intelectualizados, na mesma rota de deslocamento, temendo a escuridão da caverna, fugimos da simplicidade e adotamos o outro extremo, que é a vulgarização. Cultivamos, ambos, um Espiritismo de aparência, superficial. E não poderia ser de outra forma, porque essa é uma limitação humana, agravada pelo obscurantismo das coisas e interesses materiais. A não ser que, por força do livre arbítrio e da boa vontade, resolvamos mudar e enfrentar as conseqüências dessa transformação. Mas essa é uma decisão intransitiva e faz parte da nossa auto-educação, terreno pessoal e inviolável, cuja essência, além de nós, somente Deus possui acesso.


QUEM SE IMPORTA COM O ESPIRITISMO?

Para os espíritas (e isso não é consenso), o Espiritismo teve pontos importantes com fenômeno histórico: a reafirmação da imortalidade em bases científicas; a difusão do conceito de reencarnação; intercomunicação entre planos ou dimensões por meio de inteligências encarnadas e desencarnadas; e sobretudo o resgate do cristianismo em bases morais humanistas, desvinculado das igrejas.

Socialmente falando, a Doutrina Espírita é importante somente para os espíritas e seus simpatizantes, que não são muitos quando comparados aos segmentos culturais existentes no mundo. Não podemos confundir informação com propaganda. Informação deve ser pautada pela verdade e a propaganda nem sempre é fiel à verdade. Quando se fala da importância do Espiritismo nós devemos sempre considerar dois aspectos: os espíritas falando, incluindo o Espíritos; e a opinião pública não espírita. Nós espíritas sabemos dessa importância porque somos comprometidos com esses valores; já a opinião pública, que não é espírita, não tem o mesmo ponto de vista. Isso significa que, verdadeiramente, fora do nosso círculo doutrinário e do seu movimento social, o Espiritismo pouco significa e influi como visão de mundo, cultura moral e pratica social: como ciência o Espiritismo não existe formalmente; geograficamente falando, o Espiritismo ainda é numericamente insignificante e também pouco influente entre os grupos das grandes religiões e filosofias morais atuantes no mundo. Essa é a realidade.

Qual é a causa dessa insignificância de uma doutrina que já ultrapassou um século e meio de existência? 

Uma delas é a indiferença, autêntica ou fingida. A doutrina espírita foi e continua sendo sistematicamente ignorada pela intelectualidade reinante no cenário acadêmico. Com exceção de alguns pequenos núcleos de pesquisa e tímidas dissertações, feitas geralmente por adeptos e simpatizantes, não se fala em Espiritismo como conhecimento científico, pensamento filosófico ou epistemológico. O Espiritismo só é permitido nesses ambientes de formalidade como tema religioso do imaginário social. 

Outra constatação importante: o Espiritismo foi banido da história, sendo ignorado pela produção historiográfica. Primeiro porque ele não teve nenhuma participação conhecida nos grandes eventos históricos europeus e mundiais. Segundo porque é visto como uma ameaça aos dogmas religiosos tradicionais e aos paradigmas científicos dominantes; o fenômeno e a moral espíritas são temas incômodos nos círculos tradicionais do saber porque essa doutrina desafia o materialismo aristotélico das correntes científicas e também o dogmatismo das correntes religiosas. Não podemos esquecer que cientistas e sacerdotes são produtos de uma mesma linha histórica e ideológica, de uma mesma elite intelectual, os inventores da academia. São inimigos aparentes e possuem mais afinidades do que antipatias. 

Portanto, falar em Espiritismo, de forma direta, continua sendo proibido nas universidades (novo reduto dos templos antigos) e nos veículos de comunicação, que ainda são as principais fontes de produção do conhecimento. Nos meios de comunicação até que se fala com mais liberdade e abertura sobre a doutrina, porém sempre sob a tutela das autoridades acadêmicas. Falar publicamente sobre Espiritismo continua sendo um tabu. Para que isso aconteça é preciso criar mecanismos de disfarce e optar por abordagens que possam adaptar as temáticas espíritas às áreas científicas já conhecidas e seus modelos epistemológicos. Não podemos falar diretamente de mediunidade ou de comunicação com “mortos”, pois essas informações não são compatíveis com a linguagem científica convencional, muito menos de reencarnação. Para a ciência esses temas são da cultura religiosa e também não foram contemplados pelos filósofos clássicos traduzidos na Idade Média e utilizados pela tradição sacerdotal. O mesmo aconteceu com as mulheres pensadoras e cientistas. Não se conhece mulheres filósofas e cientistas, a não ser pelo nomes e histórias obscuras (Aspásia e Hipácia de Alexandria; ou raridades como Marie Curie por exemplo), porque as traduções sobre seus trabalhos foram e continuam sendo rejeitadas pelas corporações religiosas, predominantemente masculinas.

Então, a solução é sempre a mesma: adaptar os temas espíritas para a sociologia, especificamente para antropologia; ou então para a medicina como pratica alternativa. 

Infelizmente, Allan Kardec continua sendo um ilustre desconhecido do grande público contemporâneo. No Brasil ainda existe um certo conhecimento por causa da história social do movimento espírita e das novelas exibidas na TV abordando temas espíritas, bem como as cinebiografias de Bezerra de Menezes e Chico Xavier. O jogador de futebol Allan Kardec, que não é espirita, parece ser mais famoso do que o codificador do Espiritismo. No exterior, incluindo a França, não existe esse conhecimento nem reconhecimento do Espiritismo, não como fenômeno social significativo. Durante muitos anos acreditávamos que os livros e os oradores espíritas que iam para o exterior estavam fazendo grande sucesso e divulgando a doutrina em terras estrangeiras. Na verdade tudo ficava restrito a pouquíssimas pessoas interessadas no assunto, geralmente brasileiros que viviam fora do país. Nesse aspecto, ainda predomina a opinião de J. Herculano Pires: Allan Kardec realmente ainda é desconhecido em sua obra e não "desatualizado" como se pensa. 

O século XXI talvez seja o período em que o Espiritismo atinja a sua maturidade, liberto das fases anteriores (fenomênico, filosófico e religioso) para atingir uma plenitude ética integral. Isso significa que muitos pontos ainda incompreendidos da doutrina serão desvendados nessa nova sociedade das aristocracias intelectuais, a chamada "superclasse" de David Hotkopf, que influi mais pelas ideias do que pelo dinheiro e armas. Desatualização de conceitos não acontecem por causas cronológicas, só porque o tempo passou. Ela acontece por causas epistemológicas e novas abordagens científicas. Nem a filosofia nem a ciência explorou suficientemente os princípios espiritas para apontar uma desatualização. A imortalidade, reencarnação e a moral espíritas continua sendo vistas como crenças pela maioria dos adeptos do Espiritismo e também pelos não espíritas. Poucos se dão conta desses aspectos epistemológicos. Apenas aceitam, acreditam e pronto. Muitos outros aspectos que podem ser relacionados à doutrina espírita aguardam uma solução de continuidade: a arte, a política, a tecnologia, a sustentabilidade, a educação, enfim, coisas que Allan Kardec pensou, porém não teve tempo para realizar. Portanto, a obra de Kardec não encontrará problemas de desatualização ou de contextualização, mesmo por que ele deixou claro que o Espiritismo sempre teria como bússola as tendências do conhecimento. 

O conhecimento espírita avançou muito pouco como filosofia e ciência. Só crescemos, numericamente como busca e expressão religiosa, em função dos mesmos e persistentes conflitos humanos: as questões da dor, da morte e do destino. Não avançamos porque nossa epistemologia ainda não foi desvendada em sua amplitude, nem mesmo pelos espíritas. Muitos de nós continuamos comprometidos com as cosmogonias teocráticas, absolutas, impedindo uma transformação de mentalidade. Somente agora - 150 anos depois do lançamento do O Livro dos Espíritos - é que estamos dando os primeiros passos nesse sentido multidimensional da doutrina. 

Ainda estamos muitos tímidos, pisando em ovos nas universidades e laboratórios, presos aos paradigmas positivos de ciências e ao modelo filosófico greco-romano, o mesmo que foi ideologicamente selecionado, preservado e imposto pela Igreja. Não sabemos ainda sobre dimensões da física quântica, da visão complexa de mundo, da incerteza e instabilidade aparente que governa o Universo. Parece que a cultura religiosa e mística que herdamos do catolicismo ainda causa temor e desconfiança nas pesquisa espíritas. Nossa psicologia ainda fica restrita aos processos da consciência moral e não explora as potencialidades mentais, como tecnologia cognitiva e educacional. 

Nossos livros ilustrativos das obras de Kardec, de produção psicográfica, estão ficando velhos, quase centenários e brevemente terão problemas para explicar epistemologicamente suas abordagens literárias. Ainda ficamos assustados e irritados com os questionamentos e desconfianças do mundo cético, tão natural entre os primeiros adeptos espíritas como León Denis, Camille Flamarion, Gabriel Dellane e o próprio Kardec. Ainda somos fascinados por narrativas fantásticas ou de auto-ajuda sobre os fenômenos espíritas, quando ainda não conhecemos nem as bases históricas e filosóficas dessas considerações.


[1] Mediunidade, seus aspectos, desenvolvimento e utilização. Editora Aliança, 1999. 

[2] Em 12 de março de 1958, o Espírito André Luiz assim se expressou ao falar da inteligência artesanal: “Por ela, o habitante do império verde encontra meios de efetuar com mais segurança velhos atos instintivos, utilizando o varapau para alongar o braço na colheita dos frutos dificilmente acessíveis, fabricando anzóis e arpões que lhe substituam os dedos na profundez das águas, burilando o sílex que lhe veicule a energia dos punhos e plasmando a roda que lhe poupe, de alguma sorte, o sacrifício dos pés”. “Evolução em Dois Mundos”. Psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira, 6ª ed. Capítulo XIII, página 101. FEB Editora. 

[3] Os meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media). Tradução de Décio Pignatari. Editora Cultrix. São Paulo, 1964 

[4] A comunicação esclarecia as dificuldades na transmissão de pensamento e que gerou uma confusão de conceitos entre o que o Espírito pensou e o “ruído” que foi produzido pelo médium, prejudicando a pureza da mensagem. Era uma dissertação que Gutenberg fez sobre a descoberta da imprensa. Revista Espírita, abril de 1864. 

[5] Ver capítulo I de O Livro dos Espíritos, especificamente as questões as questões 10, 11, 12 e 13 

[6] O Cristo Cósmico no Evangelho de Tomé in O Cristo Cósmico e os Essênios, páginas 86 e 87. Martin Claret. São Paulo, 2002. O Quinto Evangelho, a Mensagem do Cristo segundo Tomé, Martin Claret, São Paulo, 2001. 

[7] “Tomás de Tolemaida ou Tomé Dídimo – Era o terceiro apóstolo em idade depois de Pedro. Espírito crítico e analítico, descambava sempre para a dúvida e a negação. Não possuía, inicialmente, fé, o dom que permite perceber e aceitar determinadas coisas da vida espiritual antes que os olhos as vejam e quando ficam além dos sentidos físicos. (...) Depois evoluiu e na Pérsia, onde fazia a propagação evangélica, doze anos depois, recebeu do Plano Espiritual demonstrações diretas de fatos espirituais que o colocaram, afinal, no caminho consciente da certeza e da fé. Evangelizou também na Índia, indo até Cachemir, à margens do rio Indo, onde na cidade de Srinagar existia o Santuário-Escola de Gaspar, um dos chamados Reis Magos.” – O Redentor – Edgard Armond. Editora Aliança. São Paulo. 

[8] In Grandes Vultos do Espiritismo, Edições FEESP. 

[9] Léon Denis, vida e obra. Gaston Luce. Citado no Jornal Mundo Espírita, março de 1999. 

[10] Posteriormente os restos mortais de Allan Kardec foram transferidos para o cemitério de Pére-Lachaise, famoso por ter sido o local onde tombaram mortos 15 mil revoltosos da Comuna de 1870. Ali também foram sepultados inúmeras personalidades de várias épocas como Victor Hugo, Oscar Wilde, a cantora Edith Piaf e até mesmo o astro norte-americano do rock, Jim Morrison. 

[11] Ver o texto “O Guia Ismael”, no capítulo 7. 

[12] Crônicas de Além-Túmulo, Francisco Cândido Xavier, FEB. 

[13] Professor da Faculdade de Medicina de Paris, famoso por seus trabalhos sobre choque anafilático, que lhe valeram o Prêmio Nobel de fisiologia em 1913. 

[14] “Conjunções – Disjunções – Transmutações da Literatura ao Cinema e à TV”, páginas 27 e 46. Anna-Blume/ Eca-Usp. São Paulo, 1996. 

[15] Cairbar Schutel. “Parábolas e Ensinos de Jesus”. Editora o Clarim. Matão, SP, 1979. 

[16] Ver especificamente a questão 1010 de O Livro do Espíritos, respondida por São Luis. Ver também os capítulos IV e V, da mesma obra. 

[17] Capítulo 12 – “Preparação de Experiências”. 

[18] FEB Editora. Rio de janeiro. 

[19] A matéria “Chico Xavier: o Homem Futuro”, de J. Herculano Pires, publicado na Revista Planeta, em 1973, explica com mais detalhes esse fenômeno literário. A reportagem está citada integralmente no final do capítulo 9 – Novos Apóstolos. 

[20] Citado por F.W. Lorens, “A Cabala”. Editora Pensamento. 

[21] “A Conspiração Aquariana – transformações pessoais e sociais nos anos 80”. Editora Record. 

[22] “Um novo mundo – uma nova pessoa”, in “Em busca de Vida”, Summus Editorial. 

[23] “Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro” – UNESCO/Cortez Editora, São Paulo , 2000. 

[24] Existem crianças que possuem mentalidade adulta e adultos que são infantis. Enquanto a pedagogia funciona no plano intelecto-racional e horizontal da existência carnal, a andragogia funciona no plano consciencial integral e vertical. Essa diferença marca o fim ambivalência cérebro-mente, na qual a coluna vertebral do Homem vem sendo verticalizada na medida que este toma consciência de si mesmo.








PROJETO ORIGINAL DO LIVRO EM 2.000 TESE DE MESTRADO EM COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA EM 2002 Recebendo o parecer  final de três doutores da USP e Un...